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terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Nuremberg, 12 de fevereiro de 2013.

Visual da frente do nosso hotel, centro de Nuremberg, à noite.

Chegamos aqui no hotel às nove da noite, depois de doze horas de voo do Rio de Janeiro para Frankfurt, e uma conexão em trem por mais três agradáveis horas. Frio, neve, trem, boas companhias, cervejinha no vagão restaurante, nada mal para começar. Estamos aqui para visitar a Biofach, a maior feira de produtos orgânicos do mundo, realizada todos os anos, sempre no mês de fevereiro aqui em Nuremberg. As vezes que vim aqui sempre me foram bem úteis para ter uma perspectiva sobre os rumos da produção e do comércio de produtos orgânicos pelo mundo.
Joce, Fabio e er, esperando o trem para Nuremberg.
Nuremberg é uma boa cidade, cerca de meio milhão de habitantes, agradável, desta que é uma das regiões mais ricas do mundo, a Baviera, sul da Alemanha. Cidade de mais de mil anos de existência, seu centro histórico guarda ainda muito da idade média, em suas ruas, casas, praças, igrejas e muralha, ainda bem conservada. Conhecida por ter sido uma dos berços do nacionalismo alemão, a sede oficial dos seus comícios e por ter sediado o famoso julgamento de alguns dos principais lideres do nazismo, no período pôs segunda guerra. Aqui tem um Museu sobre o nazismo e o holocausto, excelente para quem quer se informar destes fatos tão marcantes da história da humanidade. Já estive neste Museu e não tenho vontade de voltar. Uma vez é suficiente.
Que bom que não estou aqui para estudar este capitulo triste da historia e sim para uma Feira de Produtos Orgânicos  Dentro das minhas crenças, vejo como muito positivo para a cidade sediar a Biofach. Serve para ajudar a desfazer seus miasmas,
A caminho do hotel encontramos alguns amigos da Costa Rica e Argentina. Esta feira é assim, um ponto de encontro dos que trabalhamos com Agricultura Orgânica ao redor do mundo.
Mesmo sendo um pouco tarde, frio e nevando, saímos para jantar. Ana, Fábio, André e eu. Bom viajar em grupo ainda mais no meu caso que quase sempre viajo sozinho. Fomos caminhando e aproveitando o clima do inverno europeu, até chegar ao Barfuber, um bar-restaurante conhecido por aqui, bem no centro histórico, e que vende cerveja fabricada por eles. Em honra ao local, comemos salsicha com mostarda e chucrute. Agora estou aqui, escrevendo, aquecido e vendo a neve, ouvindo Sade, comendo um chocolate bitter, e me preparando para dormir.
Amanhã conto da feira.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 07 de fevereiro de 2013.

Vulcão Poás, ao fundo, à direita, nuvens e no
 horizonte o mar caribe.
        Ir ao Parque Nacional Vulcão Poás, foi minha principal atividade do dia de hoje, minha despedida desta breve semana aqui na Costa Rica. O vulcão Poás é, dentre os quatro que existem neste país (os outros são Irazu, Arenal e Turrialba), o que tem a maior cratera. Tem 1700 metros de diâmetro. Nela se formou um lago, cor turquesa, que tem uma das águas mais ácidas do mundo, podendo seu ph chegar a quase zero em algumas ocasiões.
Para ver este vulcão é importante que o céu esteja limpo, porque pela sua altitude, 2500 metros, é comum que as nuvens impeçam que vejamos o lago. Mas como a vida costuma me tratar bem, o dia hoje amanheceu lindo e durante o tempo que passei lá não tinha nenhuma nuvem impedindo a vista. O vulcão está ainda ativo, e do lago sai uma fumaça com forte cheiro de enxofre. Do local que observamos o vulcão se poder ver o mar do Caribe no horizonte. Visual de primeira.
Lago Boto
Ao lado do Poás tem outro lago, chamado Boto, que é o nome da etnia indígena original desta área. Os Botos. Lindo também, rodeado de verde. Deste lago podemos fazer uma caminhada de 1800 metros em direção à entrada do Parque. No meio da floresta, neste caso um bosque tropical nublado (significa que está sempre cheio de nuvens), onde pude ver esquilos, alguns pássaros, muitas árvores e algumas folhagens enormes. Olhem a foto que postei abaixo da folha de uma samambaia.
Raízes aéreas
A sensação que tive andando por esta trilha é que a vida aqui fica enlouquecida com a quantidade de nutrientes originários do vulcão, o sol intenso e a chuva constante. E brota por todos os lados. Raízes aéreas aos montes, que são mais comuns em manguezais, onde são usadas pelas plantas para se fixarem melhor no solo encharcado. Aqui não saquei porque tantas destas raízes, acho que deve ser principalmente pela umidade do ambiente.
O passeio me lembrou do Planeta Simbiótico, um livro genial. Escrito por Lynn Margullis, ela basicamente defende a tese de que a vida se instalou no planeta pela cooperação e não pela competição. Pela simbiose, um cooperando com o outro. Não é o mais forte que sobrevive, mas sim aquele que mais se afina com a lógica da interdependência. No meu passeio de hoje quase pude ver este sentido de colaboração e interdependência presente quase sempre na natureza. Seria legal viver em uma sociedade simbiótica.
Luz no fim da floresta...
E de tarde ainda tive tempo para umas comprinhas pelo centro de Alanjuela, principalmente cafés, já que estou na Costa Rica. Legal o centro da cidade, bem simpático, passeei pela praça e vi a Igreja. Agora já estou no aeroporto, daqui a pouco meu voo decola. Faço um pit stop no Rio de Janeiro, em pleno carnaval e em quatro dias já embarco para a Nuremberg, Alemanha. Não disse que a vida me trata bem?
Da Alemanha conto mais.

eu e o vulcão Poás
eu e o esquilo nos conhecendo
Praça e Igreja, Alanjuela
folha de uma samambaia. enorme.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 06 de fevereiro de 2013.


Refeitório da finca fila la marucha. Quer mais?
Começamos bem o dia, com uma visita a uma montanha perto do sítio que estamos e um agradável banho de rio, em um lugar bastante isolado, apenas nosso pequeno grupo estava por lá. Voltamos às dez da manhã, nos reunimos para as conclusões da reunião, fotos de despedida, ultimas observações. E logo depois do almoço já estávamos prontos para voltar para Alajuela.
Não tinha comentado ainda, mas a comida aqui é muito boa, nossa anfitriã comanda a cozinha com requinte. Nestes três dias comemos gallo pinto, prato local que para um brasileiro é um mexido de arroz e feijão, massa italiana, atum fresco e hoje, como grand finale, comida indiana. Um frango ao curry sensacional.
euzinho, visual da praia em Quepos, foto 
da minha amiga Faviana.
Bem alimentados, enfrentamos quase seis horas de viagem, justificadas por uma parada de duas horas em Quepos, um balneário conhecido, no pacífico sul do país. Apenas passeamos um pouco e ficamos conversando em um pequeno parque com uma linda vista para o mar. As praias por aqui são realmente lindas. Depois fomos a uma sorveteria e cafeteria. Fui obrigado a explorar todo o potencial do lugar e tomar um sorvete de gianduia seguido de um expresso curto.
Ainda sobre Quepos, me explicaram que a principal atração daqui é o Parque Nacional Manuel Antônio, que guarda algumas das praias mais bonitas do país. Mas este eu vou ver numa próxima oportunidade, hoje não deu. Costa Rica é um país pequeno, são cerca de 50 mil km², e 25% do país é constituído por parques e reservas nacionais. É uma viagem e tanto conhecê-lo, alugando um carro e recorrendo ele de ponta a ponta. Mar dos dois lados, belezas naturais, povo amigável e relativamente seguro. Super recomendo.
E a viagem ainda foi acompanhada por um lindo pôr-do-sol no pacífico. Boa parte da estrada é costeando o maior oceano do planeta. Para um brasileiro ver pôr-do-sol no mar não é tão comum, e ver a bola de fogo que vi hoje se apagando ao contato da água é um visual impagável. Pena que não tenho foto, não quis pedir ao motorista para parar apenas para eu tirar fotos. Mas já me arrependi, deveria ter pedido.
Chegamos a Alajuela por volta das sete da noite, no mesmo hotel que fiquei no dia em que cheguei, Los Volcanes, e ainda tivemos tempo para jantar em um restaurante Peruano. Pedi um camarão com um molho picante, acompanhado de uma cerveja Cusquenha, também Peruana, para dar por encerrado o trabalho por aqui. Amanhã, dia de voltar para casa.
Praia em Quepos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 05 de fevereiro de 2013.


Keep Walking
O dia começou cedo, um belo café da manhã na mesa que fica na varanda em frente ao bosque. É que aqui nesta propriedade, tudo é bosque. Depois do café, fomos dar uma volta, com Milo nos explicando como funciona seu sistema de floresta análoga. Como havia dito, se trata de imitar, mimetizar a natureza, mas na medida do possível com espécies de interesse. Como em uma região tropical chuvosa o ecossistema natural é uma floresta, ao buscar imitá-lo esta propriedade se tornou uma floresta. E desta floresta a família vai tirando comida, lenha, remédios, sombra, paisagem, renda.
grupo visitando a finca
Fomos passeando e ele nos mostrando sua finca. Canela, cúrcuma, gengibre, pimenta do reino, noz moscada, baunilha, cardamomo e várias outras espécies muitas das quais ele seca e/ou extrai óleos essenciais. Me chamou atenção conhecer o pachuli, a planta indiana, que originou o famoso perfume dos anos setenta, depois saiu da moda, mas ainda tem seu uso, em perfume mesmo ou incenso, velas aromáticas, coisas do gênero. Como ainda tem bom mercado, aqui também se extrai seu óleo essencial.
Caminhando e admirando a exuberância da floresta por aqui não pude deixar de lembrar de Woody Allen em Sonho de Cassandra: “é engraçado como a vida tem sua própria vida”. Sim, é engraçado isto. E aqui, no trópico úmido, com solos de alta fertilidade, no meio da floresta, sentimos por todos os lados a força da vida. Não existe uma pedra sem musgo, uma árvore sem bromélia, um pedaço de maneira sem colônia de fungo.
a sala de reunião, rodeada de bosque
E depois desta caminhada, passamos a tarde discutindo a aplicação dos SPGs neste esquema que eles chamam de floresta análoga. Argumentamos – Mathew John, o indiano, Jannet Villanueva, a peruana, e eu –, que as normas a serem seguidas para que produtos deste esquema sejam certificados devem ser simplificadas, mais preocupadas com a forma do que com o conteúdo. E que deve ser sentido um desejo real dos agricultores em implementar um SPG. Nestas e em outras discussões de trabalho, e algumas outras palestras sempre ao redor dos objetivos do seminário, passamos nossa tarde.
No inicio da noite, uma agradável janta, e depois uma fogueira na casa de Milo, nosso anfitrião, que descobri ser um ex-surfista californiano. De madeira, no meio do mato, toda astral, com um pequeno templo budista em seu interior. Ficamos por ali, entre boa conversa, tranquila, sobre os diferentes mundos onde cada um de nos vivemos, do Canadá à Índia, passando por Peru, Brasil México, Costa Rica.
Confesso que lugares como esta propriedade mexem comigo. Saí da universidade e fomos morar em uma propriedade rural, Ana e eu, onde ficamos 11 anos e tivemos três filhos. Saímos para uma pequena cidade, tivemos mais um filho, vivemos bem ali, mas a vontade de morar num sítio voltou a se fazer presente. Enfim, veremos.
A noite passada eu dormi muito bem. Sons da natureza, temperatura agradável, espíritos da floresta velando por nosso sono e sonhos. Espero que se repita, boas noites de sono tem sido artigo raro para mim, e durmo só mais esta noite aqui. 
área manejada com o conceito de floresta análoga

Costa Rica, 04 de fevereiro de 2013.

Paisagem do restaurante Brisas del Nara, em Londres,
Costa  Rica. Nara é o morro mais alto das redondezas.
Cheguei ontem à Costa Rica. Estou aqui para uma reunião que busca analisar a possibilidade de usar os Sistemas Participativos de Garantia para avalizar produtos oriundos dos sistemas florestais análogos. Parece complicado, mas não é. SPGs é uma metodologia que busca garantir, de forma participativa, que um produto ou serviço é o que ele diz que é. Sistemas florestais análogos é o cultivo de plantas, principalmente perenes, tendo a natureza do local como sua referencia, como seu padrão. O adjetivo análogo se refere à natureza. Organizam-se os cultivos florestais buscando imitar a natureza. Coisa de índio. Os povos locais quase sempre operavam, ou ainda operam, assim.
Esta noite passada eu dormi em um hotel em Alajuela, que é a cidade onde fica o aeroporto, a capital da província de mesmo nome, contígua a San Jose, capital do país. Alajuela é uma cidade importante, com mais de 250 mil habitantes, e é perto do vulcão Poás, um dos pontos turísticos do país. Quem sabe no meu último dia aqui consigo ir vê-lo.
Hoje deixamos o hotel de manhã cedo em um pequeno grupo rumo a Londres, na província de Punta Arenas, no pacifico sul do país. Saímos de mais de 2000 mil metros para quase o nível do mar, exatamente descendo a cordilheira vulcânica que perpassa todo o centro do país. Paisagem linda. Viemos de Van, nove pessoas. Diversificadas. Uma mexicana, uma canadense, uma peruana, um indiano, um brasileiro (este que vos fala) e quatro costarriquenhos.
E chegamos à finca Fila La Marucha, em uma região de floresta tropical, onde chove mais de 6400 mm por ano. Apenas como referência para quem não está acostumado com números de precipitação anual, em São Paulo chove uns 1300 mm por ano.
Eu na sala de trabalho, pela noite.
E aqui estou, oito da noite, depois de uma tarde de conversas e debates sobre o tema que falei acima. O lugar é muito agradável, as construções, alojamento, cozinha e sala de reuniões são literalmente no meio da floresta, floresta esta que Milo, o norte-americano que é nosso anfitrião, e sua família, construíram a partir da área de pastagens na qual eles se estabeleceram há acerca de trinta anos. E as construções novas foram todas feitas com madeira que eles próprios plantaram. Meio do mato, um rio correndo aqui do lado, chuva intermitente, noite escura, barulhos de cigarras, rãs e outros que não identifico, um monte de vagalumes embelezando a noite e eu aqui na net. Show!
Como curiosidade, vou contar algo. Esta é a primeira propriedade certificada orgânica do país. Foi certificada em 1991, porque uma importante empresa local, a Café Britt, queria a baunilha que eles produzem aqui. A baunilha é o segundo cultivo mais caro do mundo. Qual o primeiro? Açafrão. Interessante, né? Gostei de aprender isto. Amanhã cedo vamos fazer uma visita guiada pela propriedade, aí conto mais sobre ela. Agora são quase nove, vou dormir, está ficando tarde. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 18 de janeiro de 2013.

Atravessando a pinguela...
         Dia morno hoje, sem passeios místicos e com um trabalho que poderia ter sido feito na minha casa, já que foi todo em meu computador. Até pensei em adiantar meu retorno, mas as companhias hoje colocam tantos empecilhos para trocas de passagens que fiquei só na vontade. Mas tudo bem, dias mornos também teu seu charme.
Não tendo compromisso pela manhã, não coloquei o relógio pra despertar. Acordei às seis e quinze... Os mais jovens não se assustem, velho dorme pouco. Trabalhei no computador até uma hora razoável para meu desayuno. Café da manhã de hotel, estilo buffet, com tempo, é uma maravilha né? Fiquei comendo por mais de uma hora, acompanhado do meu computador, entre notícias da politica local, do Botafogo e respostas a emails.
Com tempo livre, me dei ao luxo de caminhar uns 15 min, de mão dada com o sol, até a praça, atrás de um expresso. Ainda que a Bolívia produza bom café, aqui não se tem muito o hábito de prepará-lo bem. E, como no Brasil, o mercado interno não fica com a melhor parte. Mas na Cafeteria 24, em uma das esquinas opostas à Praça 24 de Setembro, tomei um bom expresso curto.
Sopa tapada e mocochinchi
Depois de um pit stop no hotel fomos almoçar de novo no el aljibe, já eleito o meu preferido daqui. Comemos um pastel de gallina. É um prato de forno, com um recheio a base de galinha caipira desfiada, batata e banana em pedaços, ovo cozido, uvas passa, cebola, temperos e algo de açúcar, que lhe aguça o doce já presente pela banana e pela passa. Este é o recheio de uma fina massa de trigo, tudo levado ao forno em um recipiente adequado. No visual quase parece uma lasanha. Como é bem molhado, acompanha bem com arroz. Muito gostoso, diferente, bem crioullo. Ou bem camba, na linguagem local. Comemos também a sopa tapada, prato parecido, mas com charque no lugar da galinha, menos doce, mais seco e envolto em massa de arroz e não de trigo. Gostoso, mas o pastel de galinha ganhou. E tomamos o que se tornou minha bebida da semana, o Mocochinchi.
Pastel de gallina
Saímos do almoço, tomamos um café e fomos direto a um supermercado comprar o pêssego seco que é a base deste refresco. Vou prepará-lo em casa. Nem sempre funciona isto, de se em ligar com uma comida local e tentar reproduzi-la em casa. Comida também tem contexto, entorno. Mas vou tentar, às vezes funciona. Daniel, meu filho de nove anos, agora virou um viciado em guacamole, um prato típico mexicano. Vamos ver o que meu povo acha do Mocochinchi. Comprei quinoa também, já que estou na Bolívia.
Como o sol seguiu de mão comigo, cheguei ao hotel, trabalhei um pouco no relatório da semana e fui para a piscina, tomar um banho, ler e relaxar, depois uma sauna para terminar a semana estafante. Estafante? É, acho que sim.
De noite fomos jantar em um restaurante Peruano, na Av. Monseñor Rivero, um boulevard com vários cafés e restaurantes, bem perto do hotel. E para nossa surpresa tinha carnaval! Blocos, jovens e crianças com suas fantasias e coreografias, as calçadas cheias de familiares assistindo. Um som animado, com uma forte influência da musica andina. Para quem nunca passou carnaval em outro país, é bom saber que ele não é vinculado necessariamente ao samba. É uma festa popular, meio pagã, meio cristã, o adeus à carne, visando a quaresma, e tem diferentes matizes nos diversos países. Não sei até que horas rolou a festa, porque minha carruagem está com defeito e deu para virar abóbora às dez da noite, achei melhor vir para o quarto.
Agora arrumar a mala e amanhã cedo pegar o rumo de volta. Valeu a semana, com mais reflexões que trabalho. Ganhei bastante, espero ter deixado algo também. Início de fevereiro tem Costa Rica, tudo dando certo, conto algo de lá.
Esta árvore, no Forte de Samaipata, me lembrou Saramago:
a solidão não é uma arvore no meio da planície 

onde só ela esteja, é a distância entre a 
seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz..

                                                                                                                       

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 17 de Janeiro de 2013.


Almoço no campo
Encontrei uma cidade para escrever meu livro. Samaipata. E um lugar para fazer minha viagem do autodescobrimento. O Forte de Samaipata.
Para uma descoberta tão importante, até que não viajei muito. Foram 130 km, para oeste de Santa Cruz. Em direção aos Andes, mas sem chegar nele. Subimos mais de 1000 metros, chegando a 2000msnm, em uma bela paisagem subtropical, com uma densa vegetação quase sobre pedra, indicando como a região é chuvosa. Durante parte da viagem costeamos um Parque Nacional bastante comentando por aqui, o Amboró.
Estrada de Santa Cruz à Samaipata
No meio da subida às vezes deparávamos com vales e cadeias de montanhas que se perdiam na distância. E é nesta paisagem, em uma das montanhas mais altas, que está o Forte Samaipata. Forte é como eles chamam este sítio arqueológico, patrimônio cultural da humanidade. Situado a uns dois mil metros de altura, o visual é lindo e o parque muito bem cuidado. O mais impressionante é uma pedra talhada, de uns 220 x 60m. Deixa eu tentar me explicar. São ruínas de uma cidade anterior aos espanhóis, provavelmente Inca, ou conquistada pelos Incas em algum momento. No meio desta cidade esta pedra enorme, uma espécie de centro cerimonial, onde eles foram desenhando seus símbolos, altares, lugares de rituais. Sempre talhando a pedra, e não construindo, trazendo pedras ou outros materiais, colocando coisa sobre coisa, como normalmente se fazia e ainda se faz. Diferente, tipo mais harmônico com o existente.
Local de cerimonia do Forte, esta é
 uma pedra monolítica, toda talhada
A mesma pedra, com estas espécies
 de altares. Talhados.
Hoje cedo recebi a notícia do falecimento de um amigo, e aproveitei o lugar para fazer minhas orações a ele. Difícil encontrar sítio mais adequado. Normalmente estes lugares tem uma energia boa, e este não é diferente, muito pelo contrário. Agradável, peaceful. Não é por nada que Samaipata significa “descanso nas alturas”. Lugar propício para descansar a alma, uma boa pedida para o momento. Meu e da humanidade. 
Nesta mesma região estão os últimos lugares onde Che Guevara passou, tendo sido assassinado na quebrada del Churo. Existem passeios que refazem seus últimos momentos. E não muito longe tem umas Missões Jesuíticas, dizem que bastante conservadas. Mas não visitei nem um nem outro, vai ficar para a próxima.
A cidade é o que a Hebe chamaria de gracinha. Como almoçamos na casa de uma agricultora que visitamos no caminho, aproveitamos para tomar um café e comer uma sobremesa em um restaurante em frente à praça da cidade. Às duas da tarde o silencio era notável. Deu vontade de ficar uns dias por ali, usando o tempo entre passeios pela região e leituras na praça.
Vou dormir, amanhã é meu último dia nestas paragens. Quanto ao livro e ao autodescobrimento, fica para outra hora. Falta sabedoria para um e coragem para o outro.
Visual do Forte de Samaipata
Ruazinhas de Samaipata
Cozinha em uma casa de agricultores da região

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 16 de janeiro de 2013.

Seminário sobre SPGs, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

Passei todo o dia hoje no seminário que organizamos aqui, nas instalações de uma ONG chamada CEPAC (Centro de Promoción de Agropecuária Campesina). Correu tudo bem e foi uma boa chance para me atualizar sobre o desenvolvimento da Agricultura Orgânica por esta parte do continente. Estiverem presentes mais de 40 pessoas, uma boa parte dela agricultores da região, algumas ONGs e associações.
Em países tão indígenas/campesinos como Bolívia, este esquema de agricultura orgânica, exageradamente normatizado, regulado e certificado não é muito sedutor. Mas por outro lado as condições socioculturais, quero dizer pobreza econômica e riqueza cultural, estimula a busca da agricultura orgânica em seu sentido mais genuíno e menos formal. E assim ela vai achando seu espaço e crescendo a seu modo.
Calçada simpática do centro da cidade
de Santa Cruz de la Sierra
Passado meu longo e pouco cansativo trabalho, arrumei tempo no fim do dia para dar uma volta pelo centro da cidade, ainda bastante quente. Só andei pelas ruas movimentadas, vi um comércio vigoroso, fazendo jus à maior cidade e maior PIB do país. E o povo comprando. Produtos, bens, coisas para todo lado! Novidades, vocês sabem, já não se acha mais, quase tudo made in China!
Com um dia com mais trabalho do que passeio, resolvi ir jantar em um restaurante típico, estilo turístico, mas cheio de gente local.  Como que para colorir o meu dia, já que o trabalho foi agradável, mas em preto e branco. Se chama La Casa del Camba  e é uma boa opção para sacar a gastronomia cruzeña. Cardápio variado, espaçoso, cheio. Comemos um menu local, no estilo vários pratos em pequenas quantidades. Estava bom, e de novo pedi Mocochinchi, o tal refresco típico daqui. Tinha musica ao vivo, tipo boleros e canções românticas brasileiras. Fiquei com pena dos cantores, parece que estavam meio deprimidos. Fui embora antes que tivesse que presenciar uma cena mais forte, tipo alguém cortando o pulso Ou que eu resolvesse cortar os meus... 
La Casa del Camba
Enfim, um dia sem grandes emoções. Mas quem precisa delas todos os dias? Às vezes é bom assim, mais tranquilito, né? 
O bom é que amanhã vamos ao campo, conhecer experiências de café, apicultura, controle biológico e ainda, de passagem, conhecer a cidade de Samaipata, que fica a 120 km de Santa Cruz e seu famoso forte, que consiste na maior pedra talhada do mundo, declarada pela UNESCO patrimônio cultural da humanidade. Depois de quase três dias de hotel, reuniões e seminários nada como um dia de visitas, pegar uma estrada, de leve, conhecer experiências locais e fazer um pouco de turismo. Boa combinação, amanhã conto como foi.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 15 de janeiro de 2013

Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra

         Hoje o trabalho foi leve, uma reunião pela manhã e outra pela tarde, preparando o seminário sobre sistemas participativos de garantia que realizaremos amanhã, por sinal a principal atividade desta semana.
Com um pouco de tempo, resolvi aproveitar a hora do almoço, e demos nosso único passeio do dia. E aproveitamos para almoçar em um mui simpático restaurante, chamado el aljibe. Assim mesmo, com letra minúscula. Creio que para manter o ar de simplicidade quase sofisticada que tem o restaurante. Comida típica, local, muito bem preparada. A casa tem 130 anos, mantém seu ar rupestre e uma decoração a caráter, lembrando bem uma casa de pueblo. Mas, como deve ser um restaurante, ainda que um ambiente agradável componha bem o cenário, o mais importante é a qualidade da comida. E gostei muito do que comemos.
Keperi al horno
Eu pedi um Keperí al horno, pedaço de leitão assado, acompanhado de arroz com queijo e um pouco de mandioca. Janneth, uma amiga Peruana que me contratou para esta consultoria aqui, pediu Majado de charque. Arroz com charque, ovo e banana frita. Ótimo os dois. Mas o leitão estava sensacional, à moda antiga, gostinho de casa da vovó. Quem quiser dar uma olhada no site do restaurante, é o http://www.elaljibecomidatipica.com. E o que tomei, para acompanhar? Vinho? Cerveja? Coca-cola? Nada disto, tomei Mocochinchi um refresco feito à base de pêssego seco, com canela, cravo da índia e açúcar, típico do ocidente boliviano. Delicioso, super-refrescante.
Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra, vista interna
E ainda passamos pelo Museu de Arte Sacra, que fica dentro da Catedral. Não gosto muito de arte sacra, que considero carregada e normalmente triste. Mas gostei de conhecer o Barroco mestiço, uma escola de arte que vi neste museu, expressada na forma de pinturas e peças em madeira ou prata trabalhadas com uma mescla do barroco trazido pelos Jesuítas e apreendido pelos nativos, que deram o seu toque. Bonito. Algumas peças em prata simplesmente impressionantes.
Acho que na verdade, todo nosso continente é meio assim, né? Mesclado, misturado, cruzado, amalgamado, fundido, mestiçado. Que bom, gosto muito disto. Se não fosse assim, um refresco a base de pêssego, cravo da índia, canela e açúcar não seria típico da Bolívia, né? Sim, acho que este refresco é um tipo de barroco mestiço também.
E no fim de tarde, aproveitando calor sem tréguas, ainda pude curtir a piscina do meu hotel caribenho encrustado no cerrado boliviano. Piscina, sauna seca e a vapor, sorvetinho para repor as energias. Como dá trabalho isto da agricultura orgânica. Por falar em trabalho, hora de dormir, amanhã tenho que moderar o seminário e justificar meus honorários!
Piscina do hotel Cortez, Santa Cruz de la Sierra

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 14 de janeiro de 2013

Catedral de Santa Cruz de la Sierra
Aqui estou na minha primeira viagem de 2013, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. A minha geração ouviu muito, lá pelos anos 70, Diana Pequeno decantar esta cidade: "Enquanto este velho trem, atravessa o pantanal, rumo à Santa Cruz de la Sierra...". Na real é a quarta vez que venho por aqui, mas sempre me sinto enganado. Não sei se por esta música, ou por estar na Bolívia, ou talvez pelo nome, "de la Sierra", mas sei que ela engana. Não se trata de uma simpática e charmosa cidadezinha dos Andes Bolivianos, mas sim de uma cidade grande, a maior do país com seus quase dois milhões de habitantes e economia vigorosa, baseada principalmente no gás natural, madeira e pecuária. E nem é tão serra assim, esta a apenas 400 msnm.
Cheguei hoje de tarde e vim aqui para fazer um trabalho parecido com o que fiz em Honduras, na minha última viagem. Identificar o potencial e as estratégias para desenvolver um mercado local de produtos orgânicos. Passo esta semana entre seminários, entrevistas, visitas de campo. Sempre relacionado com a Agricultura Orgânica, ou seja, estou em casa. Este não chega nem a ser meu tema favorito, é na real o meu único tema. Ao menos em termos profissionais. 
Ao redor da praça, suas calçadas em arco
Como disse, não é a primeira vez que venho a Santa Cruz, mas mesmo assim fui dar uma caminhada pelo centro da cidade, ver sua Plaza de Armas e sua Catedral. Acompanhado do Sol, ao meu lado todo o tempo. Santa Cruz é muito quente. Hoje chegou a 36°. Acho que por isto que eu pingava de suor e sentia saudades do meu quarto de hotel e seus 18°. Mas valeu, ao menos vi a praça, o que sempre gosto. É que chego nestas praças e absolutamente não sei onde estou, por tantas e tantas outras a que este desenho de lugar me transporta. A praça arborizada, seus caminhos diagonais unindo suas esquinas, a estátua de um conquistador no centro, do outro lado calçadas quase sempre protegidas do sol com suas coberturas em arcos. Em frente à Igreja vendedoras de velas, na praça vendedores de comidinhas e fotógrafos, lambe-lambes modernos, com câmara digital e impressora, mas com o mesmo modus operandi e senso estético. Tudo isto envolvido pela presença do comércio, da Igreja e prédios do Estado. E de gente. Bastante gente.
Jantei no próprio hotel, o Cortez, nada especial, mas um lugar agradável, já que o hotel tem uma piscina, cercada de vegetação e mesas, um agradável calor pela noite, dando a ele um visual e um ar tropical, quase caribenho! Acho melhor dormir, porque parece que já comecei a delirar, estou em Santa Cruz de la Sierra, não em Santo Domingos ou Aruba.