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sábado, 2 de março de 2024

Burgos, Coimbra, Óbidos e Lisboa, 27 de fevereiro a 02 de março, do ano bissexto de 2024.

 

A Ireja de São Tiago, em Burgos, que se fez um templo de livros

Vou começar essa crônica com algo que me marcou muito, dentre várias coisas que me marcaram nesses belos últimos cinco dias de viagem: a igreja de São Tiago, em Óbidos, que virou livraria. Demais o visual de uma Igreja que presta culto aos livros! Me impactou, fiquei emocionado. Lembrei do Templo de Confúcio, em Pequim, que tem no seu altar principal um livro! Acho mesmo que lá onde tudo começa, existe uma biblioteca, cuidada por alguém que de tudo sabe. Pensava nisso enquanto caminhava vendo os livros expostos nas prateleiras do templo. Lugar de estar horas, não minutos!

Catedral de Burgos

Agora, dou um passo atrás no tempo e conto que saímos de Burgos, capital da província de Castilla-León, de tantas histórias, na terça-feira, dia 27, na hora do almoço, depois de passear um pouco no frio e comer um churros com chocolate quente, tão típico em boa parte da Espanha.

Chegamos em Coimbra depois de 6 horas de viagem, foi a maior distância que percorremos em um dia durante todo o rolê.

Ana e eu gostamos de colocar o navegador no modo “evitar pedágios”, para fugir das grandes autoestradas, rápidas, mas sem graça. Quando entramos em Portugal, passamos dentro de várias pequenas cidades, algumas na Serra da Estrela, local onde se faz o famoso queijo, que alguns reputam como o melhor do mundo. Lindinhas demais essas cidades. Mas a surpresa mesmo foi quando vimos uma placa indicando a Freguesia de Linhares da Beira. Estava escrito que era uma aldeia histórica de Portugal. 8 km. Nos olhamos e entramos, por uma bonita estrada de curvas muito sinuosas. 

Freguesia de Linhares da Beira

Encontramos um povo medieval lindíssimo, com suas casas de pedras, roupas penduradas nas sacadas, para secar, e senhorinhas andando pelas ruas. Li um pouco e descobri que é um povoado com cerca de 200 habitantes. Valeu muito essa visita não planejada!

Chegamos em Coimbra ao anoitecer, demos uma volta pela cidade e fomos tentar a sorte para comer no “Zé Manel dos Ossos”. Uma pequena tasca, com não mais que 18 lugares. Esperamos mais de uma hora, na rua, frio, mas valeu… Comida sensacional! Lugar simples, mais para desconfortável, atendimento simpático pelos proprietários e o prazer de comer algo bem característico da região. Ana foi de bacalhau, eu de javali com batatas!

Quarta-feira foi dia de visitar Santa Isabel, a Rainha Santa de Portugal, padroeira de Coimbra. Fomos no Convento de Santa Clara, a nova. Foi construído para substituir o Convento de Santa Clara, a velha, que, por sua vez, foi construído a mando da própria Rainha Isabel de Aragão. 

Essa é a Fonte das Lágrimas, que
Camões imortalizou em seus versos, 
as lágrimas seriam de Inês de Castro

Visitamos e fomos guiados por uma funcionária que nos deu muitos detalhes interessantes sobre a vida da Rainha. Vou falar só de um: o corpo da rainha é incorrupto. Significa que não se decompôs após a morte, sem que para isso tenha sido usado algum método de conservação. A visitação do corpo da Rainha foi suspensa apenas em 2016. E ela morreu em 1336… interessante, não é?

Eu acho, acho muito interessante. Nem tudo que existe é fácil de explicar…

No chamado movimento espírita, ela é considerada uma amiga de Chico Xavier, e estaria presente no famoso livro “Nosso Lar”, com o nome de Veneranda. Gostei de visitar, outra vez, nesta viagem, Isabel de Aragão, a Rainha Santa de Portugal!

Quinta de manhã, saímos de Coimbra para Lisboa. Passamos por Óbidos, passeamos pela Vila, muito bonitinha, e o ponto alto já narrei acima.

Chegamos em Lisboa, devolvemos o carro e fomos passear pela Augusta! Não nos cansamos de visitar a Lisboa histórica, seu casario, os detalhes dos azulejos, os nomes pitorescos das ruas e das casas comerciais. E comer. Come-se muito bem por aqui. Vou falar que quinta-feira, de noite fomos a “Tasca do Teimoso”. Tanto no Instagram quanto em um cartaz na porta está dito: a pior Tasca de Portugal. Mentira… mas tem que se garantir muito para ter uma chamada desta, concordam? 

Ouvindo versos na Casa de Pessoa.

Outra vez, um restaurante pequeno, menos de vinte lugares, mas desta vez bonito e agradável. Duas pessoas trabalhando: o filho cozinha e a mãe, de setenta anos, atende. Que comida! Elegemos que foi a melhor de toda a viagem. Sabe aquele couvert básico? Pão, azeitonas e manteiga? Pois então… pão quentinho, azeitonas deliciosas e duas manteigas: uma com vinho do porto e maçã e outra com alho e coentro. E assim seguiu com as sopas, com os bolinhos de alheiros e com o bacalhau à Brás! Tomamos um vinho do D’ouro e nem conseguimos provar a sobremesa…

Sexta-feira, mais passeios, entre metrô e caminhada, mas vou apenas destacar que comemos no bom restaurante “Planto” e fomos visitar a Casa de Fernando Pessoa, lugar que sempre vou quando passo por Lisboa.

E assim termina nossa viagem. Foram 19 dias, dezoito noites. Dormimos em Lisboa, Estremoz, Sevilha, Salamanca, Bilbao, San Sebastian, Hondarríbia, Burgos, Coimbra e Lisboa. Foram cerca de 2700km. Há anos digo que queria fazer essa viagem. Fiz. Como diz Osvaldo Montenegro, “castelos nascem nos sonhos, para no real achar seu lugar”.

Aqui, do aeroporto de Lisboa, sábado, dia 02 de março, do ano bissexto de 2024, só me resta, só nos resta, agradecer!

Adoro...

A Santa nos fronstispícios das casas

A Rainha Santa no convento de Santa Clara a nova

Entrada do coinvento de Santa Clara a nova

a loinda Coimbra, visa do rio Mondego

E tivemos a sorte d ever os estudantes jogando suas capas
para cima. Ao término do curso, os estudantes rasgam as roupas
da formatura, e o único que levam para toda a vida é a capa.

A icônica Universidade de Coimbra

Nosso Hotel em Burgos

Freguesia Linhares da Beira

Freguesia Linhares da Beira

Freguesia Linhares da Beira

Ana, no Zé Mané dos Ossos

Vomitado, delícia de sobremesa no
Zé Mané dos Ossos


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Lisboa e Estremoz, 13 a 16 de fevereiro de 2024.

 

O Eu Profundo e ops outros Eus

Depois da jornada em Bissau, uns dias de férias. Ana e eu nos encontramos em Lisboa e vamos dar um giro entre Portugal e Espanha. Como gosto de fazer, vou caminhando e contando algo por aqui.

Entardecer na Rua Augusta

Chegamos na terça, dia 13, e alugamos um carro para sair de Lisboa no dia 15. Assim, foram dois dias passeando pela capital lusitana. Vou ser sintético em relação ao que fizemos: passeamos pela Avenida Liberdade, Bairro Alto, Santo Antônio, Rossio, Alfama e Graça. Isso tudo na quarta-feira, dia 14, acho que caminhamos uns 12 km. Ou mais, com o detalhe que se sobe e desce muitos morros. Tudo muito legal, mas vou destacar alguns momentos. Primeiro, uma menção honrosa ao Hotel Santa Justa. Mais que bom, super recomendo. Depois, o almoço no “A Merendinha do Arco Bandeira”. Um bacalhau à minhota, delicioso! Com vinho da casa, claro! Vou ainda mencionar a passada na Casa de Saramago, adorei ler um pouco sobre ele e saber mais da sua vida. Como escritor, considero Saramago umas das minhas principais influências. Estivemos, também, no café “A Brasileira”. Esse lugar era muito frequentado por Fernando Pessoa, e eu tenho um conto, publicado, que se passa, em parte, neste lugar. Sentar-me ali, pedir um café e ler o meu conto foi um momento-looping maravilhoso. Por último, vou falar que os pastéis de nata são deliciosos!

Rainha Santa, ao lado do Castelo


Ontem, quinta, pegamos o carro e viemos para Estremoz, região do Alentejo. Porque Estremoz? Porque vim aqui em 2015, com Ana e André, um grande amigo, e conheci a Pousada do Castelo, mas não nos hospedamos. Desde então, quero voltar para me hospedar. Acontece que o Castelo, hoje feito pousada, foi construído no século XIII, por determinação de D. Diniz, Rei de Portugal, para sua esposa amada, Isabel de Aragão, também conhecida, como a Rainha Santa. Isabel de Aragão é bastante conhecida no meio espírita, em função de várias histórias contadas, sobre ela, por Chico Xavier. Uma dessas histórias é a aparição de Isabel a Chico, em seu quarto, no dia 10 de julho de 1927, dois dias depois dele receber sua primeira mensagem psicografada. Ela apareceu e pediu a ele para ajudá-la na sua tarefa de dar pão aos pobres. Depois de um curto diálogo ele aquiesceu e, durante toda sua vida, cumpriu a promessa feita. Essa doação de pães tem relação com a própria vida dela como rainha. Digo isso porque um dos milagres que lhe é atribuído é o seguinte: ela tinha o hábito de distribuir pães para os pobres que se aglomeravam ao redor do Castelo. 

Capela da Rainha Santa, representação 
do milagre das rosas.

Eram muitos, lembremos que nessa época ou se era da corte, ou se trabalhava para corte, ou se pagava impostos à corte. Se nenhum dos três, era um miserável. Bem, talvez hoje não seja tão diferente… Mas voltemos à Rainha Isabel de Aragão. 

Esse hábito de distribuir pães, que ela levava na barra do seu vestido, fazendo-o de cesta, acabou por aumentar a aglomeração de pobres ao redor do castelo, o que levou o Rei a pedir a sua esposa para que não mais fizesse isso. Ela não obedeceu… fico pensando que quem deve obediência à sua consciência não aceita qualquer ordem… enfim, apesar da proibição, certo dia o Rei vê sua esposa se dirigindo ao lugar onde costumava doar os pães, saia dobrada, e pergunta se ela o estava desobedecendo. Ela diz que não… ele pergunta: “o que levas aí?”. Ela responde: “rosas!” Ele faz mais uma pergunta: “rosas em janeiro?” (vamos lembrar que janeiro é alto inverno). Ela abaixa a barra da saia e rosas caem ao chão. 

Interior do Castelo
As serviçais ficam todas impressionadas, pois sabiam que ali havia pão… acho linda essa história! É conhecida como “o milagre das rosas”. Óbvio que existem historiadores que questionam esse acontecido, mas os devotos sabem que é verdade. Aqui, no Castelo feito pousada, existe uma pequena capela, que foi feita em um lugar onde antes era um quarto para ela orar. Nesta capela, existem alguns quadros com os milagres da Rainha, e esse que narrei está ali. 

Sacaram porque vim à Estremoz? Visitar a Rainha…

Tem outro lado, que me trouxe aqui, mais mundano… rsrsrs… se hospedar em um castelo é muita onda! Impressionante pensar que foi construído há mais de 700 anos… e os quartos, entre o antigo e o novo, tudo impecável. O café da manhã? Digno da nobreza!

Que mais fizemos em Estremoz, além de curtir o castelo? Jantamos no restaurante “Venda Azul”. Eu comi um prato com diferentes cortes de porco negro, com miga de aspargos. Miga é um prato feito à base de pão alentejano, sensacional. E o porco negro… algo à parte! Ana comeu uma sopa, à base do mesmo pão e coentro. Ela adorou!

Açorda à Alentejana com ovo. 
A sopa local que Ana adorou!

Hoje, sexta-feira, depois do belo café da manhã e de ir visitar a capela da Rainha, fomos para Vila Viçosa. Escolhi ir lá porque é a terra da poetisa Florbela Espanca (“minha alma de sonhar-te anda perdida…”). Passeando pela muito simpática Vila Viçosa, encontramos um restaurante de nome Florbela Espanca! Claro que comemos lá! Ana, sopa de coentro, ela é meio a louca do coentro, e se achou aqui no Alentejo. Eu comi Alheiros de Mirandela. Demais demais demais. O corretor de texto reclama que escrevi três vezes a mesma palavra. Deve ser porque ele nunca comeu Alheiros de Mirandela. Demais, demais, demais. Se você está cansado de ler até aqui, lamento, mas vou contar a história deste prato, considerado, simplesmente, uma das sete maravilhas gastronômicas de Portugal.

É tipo uma linguiça, feita à base de carnes de aves, gado e porco, com massa de pão para dar consistência. Eu comi com arroz, ovo e batata frita.

Perguntamos ao dono do estabelecimento e ele explicou: “antigamente, os asiáticos viviam em Portugal, e eles não podiam comer carne de porco, então inventaram esse chouriço que misturava porco com aves para disfarçar que não estavam a comer porco”.

Asiáticos… bom demais, né? Bem, geograficamente ele está certo…

No restauranta Florbela Espanca,
pedimos o cardápio. Ele trouxe...

Além da informação do nosso anfitrião, fui ler sobre a origem do prato. A hipótese mais aceita é a de que ele foi inventado no final do século XV, por judeus (asiáticos…), que se instalaram no interior de Portugal depois de terem sido expulsos da Espanha pelos reis católicos. Para não serem perseguidos pela Inquisição, tiveram que fingir que consumiam normalmente carne de porco (animal proibido na religião judaica) e, por isso, criaram um tipo de chouriço apenas com outras carnes (vitela, coelho, peru, pato etc.) e massa de pão, para dar consistência. A receita teria, então, conquistado o paladar dos cristãos que, depois, incorporaram a carne de porco à versão original. Boa história, nem me importo se é verdadeira ou não, sei que “Alheiros de Mirandela” é bom demais!

Ainda vou falar de mais um momento gastronômico: ontem e hoje, fomos a um bar frequentado pelos locais, Restaurante Alentejano, e pedimos vinho da casa! Fomos em uma banca na praça, compramos queijo e pão e fizemos a nossa ceia. A dona do bar nos viu trazendo comida e perguntou: querem um prato? E eu achando que ela iria achar ruim trazermos comida para seu bar/restaurante…

Bom, fico por aqui. Com uma frase que ouvi em algum lugar: Amo muito tudo isso!

Hoje foi aniversário de papai. Ele iria adorar esse Castelo.

Escadas na Casa de Saramago

Janela de onde a Rainha via
 sua amada Espanha

Estremoz é famosa pelos seus bonecos
feitos em cerâmicas, por artistas
locais.

Na Casa de Florbela Espanca

Restaurante Flrobela Espanca

Ruas de Vila Viçosa!


terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Portugal e Alemanha, 09 e 10 de fevereiro de 2015.

         
Feira em Valência de Alcântara, Espanha
       Já estamos em Nuremberg. Saímos ontem no final da manhã de Marvão. Na hora de pegar a estrada para Lisboa, vimos uma placa que apontava para a Espanha, e não resistimos. Em 15 minutos estávamos em Valencia de
  Alcântara, uma cidadezinha da Província de Extremadura. 

     
Queso y Jamón serrano... pensa...
E demos sorte porque a feira dos produtores locais acontece justamente às segundas pela manhã. Passeamos, tomamos café, compramos queijo e jamon serrano e seguimos viagem.  

       Um detalhe interessante, já quase velho, mas que não me cansa de surpreender: na hora de passar entre os dois países, o pórtico da alfândega virou peça de museu. Me lembro quando, no ginásio (sim, sou deste tempo), meu professor de geografia, o Albino, nos falava da Benelux, a comunidade formada no pós guerra por Bélgica, Holanda e Luxemburgo, na qual as fronteiras haviam sido eliminadas. Com muito planejamento esta experiência fluiu para a a CEE – Comunidade Econômica Européia e daí para a UE - União Européia, que hoje é composta por 28 países. 
Ex-fronteira entre Espanha e Portugal
        Sou fã da UE. Sei que quem está no cotidiano desta nova geografia política sente suas conseqüências negativas, que sempre existem em uma mudança deste porte. Muitos dos meus amigos europeus reclamam que o centro das tomadas de decisões vêm sendo continuamente drenada dos governos nacionais para Bruxelas, centro de poder da UE. E claro que os países mais fortes, como Alemanha, Inglaterra e França, ficam com uma fatia maior do poder, desagradando outros países com menos força econômica. 

     Mas vou ser sempre simpático a decisão de eliminar fronteiras. Deve ser inocência minha, ou influencia de John Lennon e seu “imagine there no countries...”, mas acho que a Europa com esta ousadia mais uma vez mostra um caminho possível para outros continentes. E tenta se mantém em paz, longe das guerras que sempre se fizeram presente na sua história. Espero que os problemas que a Europa vem enfrentando encontrem saída dentro da manutenção desta lúcida iniciativa. 

         Chegamos a Lisboa ao entardecer. Foi tempo de deixar as coisas no hotel e ir comer um bacalhau, já estávamos preocupados de sair de Portugal sem cumprir esta obrigação. Estava ótimo.

ana, animada com o Finnegans Wake...
        Hoje foi acordar, tomar café em uma padaria portuguesa e vir para a Alemanha, de avião até Frankfurt e de trem para Nuremberg. Viajar de trem é sempre uma experiência agradável, ainda mais com uma boa cerveja alemã no vagão-restaurante.

     Aqui ao lado do hotel que estamos, o Ibis altstadt, no centro histórico da cidade, tem um PUB Irlandês que se chama Finnegans Wake, nome quase mítico para um lugar assim, fazendo alusão ao famoso romance de James Joyce. Fomos obrigados a ir lá... Realmente a Europa é demais!


       Agora é dormir, amanhã tem feira, dia de trabalho. Trabalho? É dever ser...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Portugal, 08 de fevereiro de 2015.

Vista a partir de Marvão - por isto Saramago disse:
"É verdade, de Marvão vê-se a Terra toda...".
      A Mui Nobre e Sempre Leal Vila de Marvão, ou apenas Marvão tem só 500 habitantes na sua sede. Está localizada no alto de uma serra, a uma altitude de 900 msnm, a apenas cinco km da Espanha. É toda ela fortificada, ou seja, estes 500 habitantes vivem todos intramuros. Para mim, soa como viver em um museu.
Eu escrevendo, tomando café, com um visual deste,,,
     Passamos um final de tarde muito agradável, muito frio, caminhando pela Vila, vislumbrando todo o Vale, que inclui a Espanha. Vendo seus pontos de interesse e pensando que as paredes das casas, as calçadas e ruas por onde passávamos, ainda que modificadas ao longo dos séculos, contam milhares de anos de história. Tentando ler sobre esta história, deparo com algo que é comum. Aqui se conta a história a partir da unificação de Portugal, que se deu no século XII. No Brasil acontece o mesmo. Se nos perguntam sobre a história começamos com Pedro Álvares Cabral.  Podemos até dizer que antes haviam os “índios”, mas contar suas histórias, não saberíamos.

      Voltando à Marvão, esta vila foi tomada por  D. Afonso Henriques dos Mouros no século XII, o que significa que estes edificaram boa parte da cidade. Mas relato de um cronista mouro do século X fala da presença dos Romanos aqui, o que significa que a Vila possui ao menos 2.000 anos de história. Mas deve ser mais. Por sua localização estratégica, é óbvio que ela foi utilizada desde sempre, mesmo antes dos romanos, como refúgio ou ponto militar, e através dos tempos se conformou como a vemos hoje. Uma viagem.    

Ruas de Marvão
       Agora estou escrevendo da Pousada de Santa Maria de Marvão. Um charme. Um silêncio, uma paisagem. Transmite uma sensação de paz. Vejo lugares assim e penso: bom lugar para escrever um livro. Mas este tal deste livro nunca vem...

    Quem quiser saber um pouco mais sobre este lugar, pode dar uma olhada nesta página: www.cm-marvao.pt 

      Mas nosso dia não começou aqui na Vila. Saímos de Évora cedo e depois de duas horas de viagem tivemos o prazer de sermos recebidos pela Cláudia, mãe da Sahara, jovem amiga portuguesa que vive no Brasil, e pelo seu esposo Miguel. Eles têm uma bela quinta aqui em Marvão, onde produzem azeite biológico a partir de azeitonas colhidas de árvores centenárias. No verão fazem uma horta embaixo das oliveiras, manejo apropriado tecnicamente, mas sobretudo muito charmoso.

Ana, André a Cláudia, conversando entre os Olivares
     Toda a quinta é muito bonita. Formações rochosas compõem a paisagem. Cláudia nos mostrou tudo demonstrando sua paixão pelo que faz ali. Vimos alguns túmulos, provavelmente romanos, feitos de pedra, como que perdidos pela quinta. Olhando para cima, vemos a Vila de Marvão, toda caiada de branco, velando por todas as quintas da Região. Se estivéssemos em culturas de montanha, seguramente que esta na qual a Vila foi erguida teria o nome de um Deus e seria responsável por cuidar da sua zona de influência.

        Eles nos ofereceram um belo almoço, que começou com vinhos e queijos locais e pães feitos em casa. Aí já tínhamos mais do que suficiente, mas o prato principal estava irresistível. Se chama rancho e é feito a base de grão de bico (um dos tantos legados dos árabes para portugueses e espanhóis), com legumes e carne de porco, muito típica aqui na região. 

Vinicola Encostas de Estremoz
      Pela noite, de novo, vinho e queijo no bar do hotel. Eles, elegantemente, nos deixaram abrir o vinho que havíamos comprado na estrada, à caminho de Marvão, em uma vinícola chamada Encostas de Estremoz, onde fomos recebido pela Dona Bárbara, muito simpática e que se mostrou profunda conhecedora do vinho e da região.

    Mais um belo dia pelo interior de Portugal. Amanha viajamos, lentamente, a caminho de Lisboa. Terça pegamos o rumo de Nuremberg. 

Euzinho, encima de uma ds torre do Castelo de Marvão

Uma casa, em Marvão

Amanhecer em Marvão, foto da dona Ana

Uvas na vinícola Encostas de Estremoz

Morangos entres as Oliveiras, um luxo só!

As janelas de Marvão são um caso à parte...

Ângulo de Marvão, foto da Ana.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Portugal, 07 de fevereiro de 2015.

Aspecto do Palácio, do Castelo de Évora Monte
        O dia de hoje foi tão bom quanto um dia de viagem pode ser. Saímos cedo e fomos rodar pelo Alentejo, a região onde estamos, ao sul do país. Desde Évora até Elvas, visitando também Évora Monte e Estremoz. Passamos sempre por estradas secundárias, com a paisagem ondulada alternando entre olivares e sobreiros, a árvore que produz a cortiça. De repente surgia uma pequena cidade branca, quase todas com séculos de histórias para contar, algumas muradas e com um castelo sobressaindo em sua parte mais alta. Um belo dia de sol dava cor a todo este visual. Visitar lugares que não conhecemos é sempre legal, quando a viagem envolve ser transportado a outros tempos, vira um privilégio.
 
Casinhas, dentro do Castelo
em Évora Monte
     Em Évora Monte subimos até o Castelo. Muito interessante, eu li que nesta área existem indícios de ocupação deste a pré-história. O Castelo parece que foi construído inicialmente pelos romanos, passou a ser ocupado pelos mouros e por volta do século XII tomado pelo que hoje é Portugal. Acho que vale a pena explicar que o Castelo não é apenas o palácio. Castelo é toda a área murada, que envolve o palácio, onde o Rei vive, e várias outras pequenas construções que servem de morada para todos aqueles que são necessários para atender a corte e tocar a vida do palácio. São inúmeras casinhas, de diferentes tamanhos. Pois então, nos Castelos que temos visitado aqui, estas casinhas seguem servindo de moradia. São pequenas, baixas, imagino que a maioria desconfortáveis, mas é muito interessante ver que são ainda habitadas, deixando estes locais históricos como que “vivos”.
Feira de Estremoz, aos sábados pela manhã.
  Em Estremóz começamos por ir à feira que acontece lá aos sábados pela manhã. Mistura alimentos e antiguidades. Uma boa variedade de produtos, mas o que chamou atenção foram os queijos locais. Provamos alguns, mas a vontade é comprar quilos e colocar na bagagem. Sei que vou sentir saudades deles na hora de colocar uma mesa quando chegar em casa.
       Mas ganhei mesmo meu dia foi quando chegamos ao Castelo de Estremóz. O Palácio foi reformado por D. Diniz para sua esposa, Isabel de Aragão, também conhecida como a Rainha Santa. Isabel de Aragão é uma daquelas santas que foi canonizada pelo povo antes que a Igreja o fizesse. Era muito generosa e muitos milagres lhe são atribuídos. No mais famoso, diz-se que ela estava distribuindo pães, envoltos pelo seu vestido, aos pobres, atividade que desagradava ao Rei, seu esposo. Quando ele a encontra lhe pergunta o que ela tinha no vestido, em tom de leve reprimenda. Ela responde que eram rosas, ao que ele fala: Rosas em Janeiro? Ela diz que sim e solta a barra de seu vestido. Rosas caem no chão. 
Eu com Dona Isabel de Aragão, em Estremoz.

     Dizem que a partir daí ele passa a ter mais respeito por sua esposa. Existem outros milagres atribuídos a ela. Mas talvez o maior deles tenha sido selar a paz entre D. Diniz e seu filho, D. Alfonso IV, que estavam na iminência de uma guerra. D. Alfonso IV é pai de D. Pedro I, que quando enviuvou se juntou com Inês de Castro. Após dez anos vivendo juntos, D. Alfonso manda decapitar Inês, sua nora bastarda, por não concordar com a provável oficialização deste matrimonio. D Pedro quase enlouquece sabendo que sua amada foi decapitada pelo seu pai. 
      Como uma forma de honrar o nome dela, D. Pedro I afirma que casou-se com Inês meses antes dela morrer, o que é confirmado por um Padre. Por isto que em Os Lusíadas, dela escreveu Camões: “Aquela que depois de morta se fez Rainha”. O dito popular derivado desta história e destes versos é: “Agora é tarde, Inês é morta
      Para quem se interessar, existe um ótimo livro intitulado Mensagens de Inês de Castro, escrito pelo Caio Ramacciotti e com mensagens de Inês de Castro psicografadas por Chico Xavier. Vale a leitura, eu já li duas vezes. Falando em Chico Xavier, existe uma linda história de quando Isabel de Aragão apareceu numa noite para ele pedindo ajuda na sua tarefa de repartir pão com os necessitados. Mas esta eu não vou contar aqui. Fica a dica!
Ana, pelas ruelas de Elvas
       Viram porque disse que ganhei meu dia ao visitar Estremóz? Até o quarto onde a Rainha Santa faleceu e 300 anos depois foi transformado em Capela nós visitamos.
      E seguimos para Elvas. Tombada pela Unesco, em 2012, como Patrimônio Histórico Mundial, é uma cidade de fato impressionante. De novo visitamos seu castelo, e andamos pelas suas ruazinhas estreitas, entre suas casas brancas. Um luxo. Almoçamos em Elvas, compramos algumas coisinhas locais e visitamos algumas partes dos seus muros e dois dos vários Fortes que lá existem. Faltou tempo para ver mais. Já era fim de tarde e resolvemos voltar para Évora, onde rolou um vinho com queijo no quarto mesmo e fomos dormir. Só para constar: vinho com queijo aqui é uma opção modesta. No quarto, comprados em feira, é mais barato que um cachorro quente com coca-cola...
     E este foi o dia, ou o que deu para contar dele. Amanhã vamos para Marvão, mais ao centro do país. 
Pousada luxuosa, no palácio que D. Diniz mandou construir /
reformar para sua esposa, Isabel de Aragão
Eu e a Dona Eunice, a senhora que abriu a porta da Capela e
nos contou tudo sobre a Rainha Santa
Na Capela erguida no local onde foi seu quarto, alguns
milagres atribuídos e ela estão retratados. Este é o das rosas.
Neste quadro, a Rainha Santa entre seu esposo e seu filho,
selando a paz. Os soldados, quando viram que era ela,
levantaram as lanças.
Visual de Elvas, a partir do forte de Santa Luzia.


Outra das ruas de Elvas, dentro do Castelo.
Estrremoz, vista  do Castelo