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terça-feira, 25 de março de 2014

Santa Cruz de la Sierra, 23 a 26 de março de 2014.

Visual interno do El Ajibe
Escrevo este post vislumbrando um belo entardecer do meu quarto de hotel em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Vai ser o único relato que escreverei nesta minha meteórica passagem por aqui. Cheguei anteontem, domingo, e amanhã, quarta-feira, já embarco de volta para casa. Pena, aqui perto está o Forte de Samaipata, um sítio arqueológico muito interessante que já descrevi aqui, e não tão perto umas famosas Missões Jesuíticas que não conheço, mas desta vez deixei passar.
Nosso Seminario nas dependências de Heifer - Bolívia
Vim para continuar uma consultoria que comecei ano passado sobre a implementação de Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) para produtos ecológicos aqui no departamiento de Santa Cruz. A Bolívia é um dos países que implementou um Marco Legal para a Agricultura Orgânica, com a Lei 3525 e sua regulamentação, que incluiu os SPGs como um mecanismo válido de dar credibilidade a estes produtos. Assim, este é um assunto muito presente no mundo da Agricultura Orgânica na Bolívia. Para mim é sempre curioso ver um tema que trabalhei desde o início, que fiz parte do grupo inicial que gerou a ideia e o conceito, ser agora tão debatido e inclusive incorporado em legislações.
Ver um texto que escrevi ter parágrafos ou conceitos incorporados em Leis é bastante gratificante, mas acima de tudo, repito, curioso. Dá uma dimensão de como as ideias surgem, se materializam, se socializam e invadem a vida das pessoas. Dá uma sensação estranha ao perceber como as coisas são definidas e decididas e ainda fico com a leve percepção de que não é tão complicado influenciar nos rumos das coisas, do mundo. Se não sabemos como, parece impossível, mas, como sabe o vaqueiro experiente, vendo por onde os burros passam aprendemos o caminho.
Trabalhei a maior parte do pouco tempo que tive, mas ainda consegui fazer algumas coisas. Dentre elas revi alguns amigos, o que é sempre agradável. Encontrei Tania Tapia. A conheci em Espanha, onde passamos juntos quase três meses fazendo os créditos do nosso mestrado. Reencontrá-la agora, 18 anos depois, e ver nossas fotos desta época foi muito legal. Definitivamente, la vida es sueño.
Detalhe da decoração do El Ajibe
Não passeei, mas comi algumas comidas saborosas, simples e interessantes. O restaurante do Hotel Las Palmas era bastante correto, comi ali um belo Surubim ao alho com batata frita (adoro um fish and chips!), acompanhado de uma cerveja artesanal, a Corsa, que gostei muito. Me informei e é feita por um alemão que vive aqui. Não sei porque, mas não me surpreendi com esta informação. Mas aqui em Santa Cruz gosto mesmo é do restaurante El Ajibe (www.elaljibecomidatipica.com), onde já havia estado outras vezes.  
A casa é antiga, cerca de 130 anos, não tão bem conservada, e a decoração tem esta estética que me encanta, mesclando muitas coisas que podem ser chamadas de cult como telefones pretos, relógios de parede e máquinas de escrever antigas e outras que são normalmente chamadas de kitchie, como gaiolas com pássaros de plástico ou símbolos de clube de futebol. Me perco observando cada detalhe e tentando entender a lógica de quem colocou cada coisa em cada lugar.
Mas a decoração é só a moldura, a comida é o melhor do quadro. Comi ali duas vezes. Em uma pedi majadito de charque (arroz com carne , ovo e banana frita), que é o prato principal da casa, e na outra picante de pollo, galinha com um molho de pimenta, acompanhada de arroz e maionese de chuño, uma batata desidratada por um processo bem engenhoso, alimento indígena muito comum no altiplano andino. Para beber sempre mocochinchi, o refresco típico daqui, feito à base de pêssego seco, canela e cravo da índia. Ano passado levei este pêssego seco pra casa e o mocochinchi fez sucesso, este ano levo de novo. Comprei também para levar chocolate orgânico, com cacau silvestre da Amazônia Boliviana. E claro, quinua e amaranthus, dois conhecidos cereais andinos.
Vou nesta jantar, o sol já se foi, o post também, fiquei com Passagem das Horas e Renaisance, agora rolando Can you understand. Termino com o inicio do poema: Trago dentro do meu coração,/ Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei/ Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias/ Ou de tombadilhos, sonhando,/ E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
E tudo isto, que é tanto, é pouco para o que quero!

sábado, 19 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 18 de janeiro de 2013.

Atravessando a pinguela...
         Dia morno hoje, sem passeios místicos e com um trabalho que poderia ter sido feito na minha casa, já que foi todo em meu computador. Até pensei em adiantar meu retorno, mas as companhias hoje colocam tantos empecilhos para trocas de passagens que fiquei só na vontade. Mas tudo bem, dias mornos também teu seu charme.
Não tendo compromisso pela manhã, não coloquei o relógio pra despertar. Acordei às seis e quinze... Os mais jovens não se assustem, velho dorme pouco. Trabalhei no computador até uma hora razoável para meu desayuno. Café da manhã de hotel, estilo buffet, com tempo, é uma maravilha né? Fiquei comendo por mais de uma hora, acompanhado do meu computador, entre notícias da politica local, do Botafogo e respostas a emails.
Com tempo livre, me dei ao luxo de caminhar uns 15 min, de mão dada com o sol, até a praça, atrás de um expresso. Ainda que a Bolívia produza bom café, aqui não se tem muito o hábito de prepará-lo bem. E, como no Brasil, o mercado interno não fica com a melhor parte. Mas na Cafeteria 24, em uma das esquinas opostas à Praça 24 de Setembro, tomei um bom expresso curto.
Sopa tapada e mocochinchi
Depois de um pit stop no hotel fomos almoçar de novo no el aljibe, já eleito o meu preferido daqui. Comemos um pastel de gallina. É um prato de forno, com um recheio a base de galinha caipira desfiada, batata e banana em pedaços, ovo cozido, uvas passa, cebola, temperos e algo de açúcar, que lhe aguça o doce já presente pela banana e pela passa. Este é o recheio de uma fina massa de trigo, tudo levado ao forno em um recipiente adequado. No visual quase parece uma lasanha. Como é bem molhado, acompanha bem com arroz. Muito gostoso, diferente, bem crioullo. Ou bem camba, na linguagem local. Comemos também a sopa tapada, prato parecido, mas com charque no lugar da galinha, menos doce, mais seco e envolto em massa de arroz e não de trigo. Gostoso, mas o pastel de galinha ganhou. E tomamos o que se tornou minha bebida da semana, o Mocochinchi.
Pastel de gallina
Saímos do almoço, tomamos um café e fomos direto a um supermercado comprar o pêssego seco que é a base deste refresco. Vou prepará-lo em casa. Nem sempre funciona isto, de se em ligar com uma comida local e tentar reproduzi-la em casa. Comida também tem contexto, entorno. Mas vou tentar, às vezes funciona. Daniel, meu filho de nove anos, agora virou um viciado em guacamole, um prato típico mexicano. Vamos ver o que meu povo acha do Mocochinchi. Comprei quinoa também, já que estou na Bolívia.
Como o sol seguiu de mão comigo, cheguei ao hotel, trabalhei um pouco no relatório da semana e fui para a piscina, tomar um banho, ler e relaxar, depois uma sauna para terminar a semana estafante. Estafante? É, acho que sim.
De noite fomos jantar em um restaurante Peruano, na Av. Monseñor Rivero, um boulevard com vários cafés e restaurantes, bem perto do hotel. E para nossa surpresa tinha carnaval! Blocos, jovens e crianças com suas fantasias e coreografias, as calçadas cheias de familiares assistindo. Um som animado, com uma forte influência da musica andina. Para quem nunca passou carnaval em outro país, é bom saber que ele não é vinculado necessariamente ao samba. É uma festa popular, meio pagã, meio cristã, o adeus à carne, visando a quaresma, e tem diferentes matizes nos diversos países. Não sei até que horas rolou a festa, porque minha carruagem está com defeito e deu para virar abóbora às dez da noite, achei melhor vir para o quarto.
Agora arrumar a mala e amanhã cedo pegar o rumo de volta. Valeu a semana, com mais reflexões que trabalho. Ganhei bastante, espero ter deixado algo também. Início de fevereiro tem Costa Rica, tudo dando certo, conto algo de lá.
Esta árvore, no Forte de Samaipata, me lembrou Saramago:
a solidão não é uma arvore no meio da planície 

onde só ela esteja, é a distância entre a 
seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz..

                                                                                                                       

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 17 de Janeiro de 2013.


Almoço no campo
Encontrei uma cidade para escrever meu livro. Samaipata. E um lugar para fazer minha viagem do autodescobrimento. O Forte de Samaipata.
Para uma descoberta tão importante, até que não viajei muito. Foram 130 km, para oeste de Santa Cruz. Em direção aos Andes, mas sem chegar nele. Subimos mais de 1000 metros, chegando a 2000msnm, em uma bela paisagem subtropical, com uma densa vegetação quase sobre pedra, indicando como a região é chuvosa. Durante parte da viagem costeamos um Parque Nacional bastante comentando por aqui, o Amboró.
Estrada de Santa Cruz à Samaipata
No meio da subida às vezes deparávamos com vales e cadeias de montanhas que se perdiam na distância. E é nesta paisagem, em uma das montanhas mais altas, que está o Forte Samaipata. Forte é como eles chamam este sítio arqueológico, patrimônio cultural da humanidade. Situado a uns dois mil metros de altura, o visual é lindo e o parque muito bem cuidado. O mais impressionante é uma pedra talhada, de uns 220 x 60m. Deixa eu tentar me explicar. São ruínas de uma cidade anterior aos espanhóis, provavelmente Inca, ou conquistada pelos Incas em algum momento. No meio desta cidade esta pedra enorme, uma espécie de centro cerimonial, onde eles foram desenhando seus símbolos, altares, lugares de rituais. Sempre talhando a pedra, e não construindo, trazendo pedras ou outros materiais, colocando coisa sobre coisa, como normalmente se fazia e ainda se faz. Diferente, tipo mais harmônico com o existente.
Local de cerimonia do Forte, esta é
 uma pedra monolítica, toda talhada
A mesma pedra, com estas espécies
 de altares. Talhados.
Hoje cedo recebi a notícia do falecimento de um amigo, e aproveitei o lugar para fazer minhas orações a ele. Difícil encontrar sítio mais adequado. Normalmente estes lugares tem uma energia boa, e este não é diferente, muito pelo contrário. Agradável, peaceful. Não é por nada que Samaipata significa “descanso nas alturas”. Lugar propício para descansar a alma, uma boa pedida para o momento. Meu e da humanidade. 
Nesta mesma região estão os últimos lugares onde Che Guevara passou, tendo sido assassinado na quebrada del Churo. Existem passeios que refazem seus últimos momentos. E não muito longe tem umas Missões Jesuíticas, dizem que bastante conservadas. Mas não visitei nem um nem outro, vai ficar para a próxima.
A cidade é o que a Hebe chamaria de gracinha. Como almoçamos na casa de uma agricultora que visitamos no caminho, aproveitamos para tomar um café e comer uma sobremesa em um restaurante em frente à praça da cidade. Às duas da tarde o silencio era notável. Deu vontade de ficar uns dias por ali, usando o tempo entre passeios pela região e leituras na praça.
Vou dormir, amanhã é meu último dia nestas paragens. Quanto ao livro e ao autodescobrimento, fica para outra hora. Falta sabedoria para um e coragem para o outro.
Visual do Forte de Samaipata
Ruazinhas de Samaipata
Cozinha em uma casa de agricultores da região

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 16 de janeiro de 2013.

Seminário sobre SPGs, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

Passei todo o dia hoje no seminário que organizamos aqui, nas instalações de uma ONG chamada CEPAC (Centro de Promoción de Agropecuária Campesina). Correu tudo bem e foi uma boa chance para me atualizar sobre o desenvolvimento da Agricultura Orgânica por esta parte do continente. Estiverem presentes mais de 40 pessoas, uma boa parte dela agricultores da região, algumas ONGs e associações.
Em países tão indígenas/campesinos como Bolívia, este esquema de agricultura orgânica, exageradamente normatizado, regulado e certificado não é muito sedutor. Mas por outro lado as condições socioculturais, quero dizer pobreza econômica e riqueza cultural, estimula a busca da agricultura orgânica em seu sentido mais genuíno e menos formal. E assim ela vai achando seu espaço e crescendo a seu modo.
Calçada simpática do centro da cidade
de Santa Cruz de la Sierra
Passado meu longo e pouco cansativo trabalho, arrumei tempo no fim do dia para dar uma volta pelo centro da cidade, ainda bastante quente. Só andei pelas ruas movimentadas, vi um comércio vigoroso, fazendo jus à maior cidade e maior PIB do país. E o povo comprando. Produtos, bens, coisas para todo lado! Novidades, vocês sabem, já não se acha mais, quase tudo made in China!
Com um dia com mais trabalho do que passeio, resolvi ir jantar em um restaurante típico, estilo turístico, mas cheio de gente local.  Como que para colorir o meu dia, já que o trabalho foi agradável, mas em preto e branco. Se chama La Casa del Camba  e é uma boa opção para sacar a gastronomia cruzeña. Cardápio variado, espaçoso, cheio. Comemos um menu local, no estilo vários pratos em pequenas quantidades. Estava bom, e de novo pedi Mocochinchi, o tal refresco típico daqui. Tinha musica ao vivo, tipo boleros e canções românticas brasileiras. Fiquei com pena dos cantores, parece que estavam meio deprimidos. Fui embora antes que tivesse que presenciar uma cena mais forte, tipo alguém cortando o pulso Ou que eu resolvesse cortar os meus... 
La Casa del Camba
Enfim, um dia sem grandes emoções. Mas quem precisa delas todos os dias? Às vezes é bom assim, mais tranquilito, né? 
O bom é que amanhã vamos ao campo, conhecer experiências de café, apicultura, controle biológico e ainda, de passagem, conhecer a cidade de Samaipata, que fica a 120 km de Santa Cruz e seu famoso forte, que consiste na maior pedra talhada do mundo, declarada pela UNESCO patrimônio cultural da humanidade. Depois de quase três dias de hotel, reuniões e seminários nada como um dia de visitas, pegar uma estrada, de leve, conhecer experiências locais e fazer um pouco de turismo. Boa combinação, amanhã conto como foi.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 15 de janeiro de 2013

Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra

         Hoje o trabalho foi leve, uma reunião pela manhã e outra pela tarde, preparando o seminário sobre sistemas participativos de garantia que realizaremos amanhã, por sinal a principal atividade desta semana.
Com um pouco de tempo, resolvi aproveitar a hora do almoço, e demos nosso único passeio do dia. E aproveitamos para almoçar em um mui simpático restaurante, chamado el aljibe. Assim mesmo, com letra minúscula. Creio que para manter o ar de simplicidade quase sofisticada que tem o restaurante. Comida típica, local, muito bem preparada. A casa tem 130 anos, mantém seu ar rupestre e uma decoração a caráter, lembrando bem uma casa de pueblo. Mas, como deve ser um restaurante, ainda que um ambiente agradável componha bem o cenário, o mais importante é a qualidade da comida. E gostei muito do que comemos.
Keperi al horno
Eu pedi um Keperí al horno, pedaço de leitão assado, acompanhado de arroz com queijo e um pouco de mandioca. Janneth, uma amiga Peruana que me contratou para esta consultoria aqui, pediu Majado de charque. Arroz com charque, ovo e banana frita. Ótimo os dois. Mas o leitão estava sensacional, à moda antiga, gostinho de casa da vovó. Quem quiser dar uma olhada no site do restaurante, é o http://www.elaljibecomidatipica.com. E o que tomei, para acompanhar? Vinho? Cerveja? Coca-cola? Nada disto, tomei Mocochinchi um refresco feito à base de pêssego seco, com canela, cravo da índia e açúcar, típico do ocidente boliviano. Delicioso, super-refrescante.
Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra, vista interna
E ainda passamos pelo Museu de Arte Sacra, que fica dentro da Catedral. Não gosto muito de arte sacra, que considero carregada e normalmente triste. Mas gostei de conhecer o Barroco mestiço, uma escola de arte que vi neste museu, expressada na forma de pinturas e peças em madeira ou prata trabalhadas com uma mescla do barroco trazido pelos Jesuítas e apreendido pelos nativos, que deram o seu toque. Bonito. Algumas peças em prata simplesmente impressionantes.
Acho que na verdade, todo nosso continente é meio assim, né? Mesclado, misturado, cruzado, amalgamado, fundido, mestiçado. Que bom, gosto muito disto. Se não fosse assim, um refresco a base de pêssego, cravo da índia, canela e açúcar não seria típico da Bolívia, né? Sim, acho que este refresco é um tipo de barroco mestiço também.
E no fim de tarde, aproveitando calor sem tréguas, ainda pude curtir a piscina do meu hotel caribenho encrustado no cerrado boliviano. Piscina, sauna seca e a vapor, sorvetinho para repor as energias. Como dá trabalho isto da agricultura orgânica. Por falar em trabalho, hora de dormir, amanhã tenho que moderar o seminário e justificar meus honorários!
Piscina do hotel Cortez, Santa Cruz de la Sierra

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 14 de janeiro de 2013

Catedral de Santa Cruz de la Sierra
Aqui estou na minha primeira viagem de 2013, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. A minha geração ouviu muito, lá pelos anos 70, Diana Pequeno decantar esta cidade: "Enquanto este velho trem, atravessa o pantanal, rumo à Santa Cruz de la Sierra...". Na real é a quarta vez que venho por aqui, mas sempre me sinto enganado. Não sei se por esta música, ou por estar na Bolívia, ou talvez pelo nome, "de la Sierra", mas sei que ela engana. Não se trata de uma simpática e charmosa cidadezinha dos Andes Bolivianos, mas sim de uma cidade grande, a maior do país com seus quase dois milhões de habitantes e economia vigorosa, baseada principalmente no gás natural, madeira e pecuária. E nem é tão serra assim, esta a apenas 400 msnm.
Cheguei hoje de tarde e vim aqui para fazer um trabalho parecido com o que fiz em Honduras, na minha última viagem. Identificar o potencial e as estratégias para desenvolver um mercado local de produtos orgânicos. Passo esta semana entre seminários, entrevistas, visitas de campo. Sempre relacionado com a Agricultura Orgânica, ou seja, estou em casa. Este não chega nem a ser meu tema favorito, é na real o meu único tema. Ao menos em termos profissionais. 
Ao redor da praça, suas calçadas em arco
Como disse, não é a primeira vez que venho a Santa Cruz, mas mesmo assim fui dar uma caminhada pelo centro da cidade, ver sua Plaza de Armas e sua Catedral. Acompanhado do Sol, ao meu lado todo o tempo. Santa Cruz é muito quente. Hoje chegou a 36°. Acho que por isto que eu pingava de suor e sentia saudades do meu quarto de hotel e seus 18°. Mas valeu, ao menos vi a praça, o que sempre gosto. É que chego nestas praças e absolutamente não sei onde estou, por tantas e tantas outras a que este desenho de lugar me transporta. A praça arborizada, seus caminhos diagonais unindo suas esquinas, a estátua de um conquistador no centro, do outro lado calçadas quase sempre protegidas do sol com suas coberturas em arcos. Em frente à Igreja vendedoras de velas, na praça vendedores de comidinhas e fotógrafos, lambe-lambes modernos, com câmara digital e impressora, mas com o mesmo modus operandi e senso estético. Tudo isto envolvido pela presença do comércio, da Igreja e prédios do Estado. E de gente. Bastante gente.
Jantei no próprio hotel, o Cortez, nada especial, mas um lugar agradável, já que o hotel tem uma piscina, cercada de vegetação e mesas, um agradável calor pela noite, dando a ele um visual e um ar tropical, quase caribenho! Acho melhor dormir, porque parece que já comecei a delirar, estou em Santa Cruz de la Sierra, não em Santo Domingos ou Aruba.

sábado, 26 de novembro de 2011

La Paz, 25 de novembro de 2011

Grupo do Encontro do Foro latinoamericano de SPGs
          Ontem e hoje foram dias intensos de trabalho. Entre discussões em grupos e suas conclusões e algumas visitas. Uma destas visitas foi a uma cooperativa de produtores de cacau ecológico, chamada El Ceibo (http://www.elceibo.org/ceibo/es/index.php). Vale a pena olhar o site deles. Produzem de forma ecológica, são organizados em cooperativa, fazem um chocolate de excelente qualidade e vendem no mercado interno cerca de 60% do que produzem. Sem dúvida um dos melhores exemplos que temos no continente, tiro meu chapéu para eles.
                No fim da tarde de hoje terminamos o evento. Com um ato político, no qual apareceu o Vice -Ministro da Coca e do Desenvolvimento Integral. Sei que o nome soa meio estranho, mas é isto mesmo, aqui existe um Ministério da Coca. O atual presidente, Evo Morales, é um cocaleiro, o que significa um agricultor que tradicionalmente colhe coca e vive disto. Uma das suas atitudes no governo é liderar uma campanha internacional pela descriminalização da coca. Da coca, não da cocaína, só para deixar claro. O Ministério da Coca, criado por ele, se insere neste contexto.
Término do evento, Ministro da
Coca falando.
E depois das ultima palavras, proferidas pelo Ministro, fotos, abraços e as despedidas de praxe. Eu feliz, o Encontro foi muito bom, e como eu trabalhei nele desde sua gestação, me senti aliviado e com a sensação de serviço feito. Done.
Acabou e ainda era dia, um grupo foi para Sagárnaga, uma das ruas que forma o que aqui eles chamam de Mercado de las Brujas, que eu contei aqui que visitei domingo passado. Não compro nada, é tudo meio repetitivo para quem como eu sempre anda pelo continente, mas gosto de passear, ver, e hoje ainda serviu como um belo relaxante. De novo voltei caminhado para o hotel, e já no final da minha semana aqui persiste a impressão de uma cidade tumultuada, transito impossível, muita gente. Não achei muito agradável não. Como já disse aqui, a melhor parte é o Illimani, que vela por La Paz e ainda a embeleza. Fica a vontade de conhecer mais o país, visitar o Lago Titicaca o lago navegável comercialmente mais alto do mundo e o Salar de Uyuni, a maior planície salgada do mundo. Desta vez não deu.
De noite, me arrastaram para ver um show. Eu estava cansado, afim de arrumar mala e dormir. Mas fui com a intenção de ficar meia hora para cumprir tabela, fiquei quase três. É que o show do cara é muito bom. Pela música, mas principalmente pela sua interação com o publico de diversos países, já que é um lugar bem conhecido por aqui. O lugar chama Marka Tambo, e fica na Calle Jaén, por sinal a mais bonita que vi na cidade, estreita, colonial, bem conservada. O cantor, um figuraça, se chama Pepe Murillo (www.pepemurillo.com).
Agora estou aqui, uma da manhã, arrumando mala para sair às seis do hotel. Como domingo à noite tenho que ir para Assunção, e minha passagem é por Lima, resolvi que vou dormir lá amanhã. Melhor que dormir no avião e passar todo o dia em Sampa, que era o plano inicial. Dois amigos de trabalho, suecos, estão indo para Lima, e ainda vamos arrumar tempo para nos reunirmos por lá. E claro, comer um ceviche. Vou deitar, tenho menos de cinco horas para já estar no táxi a caminho do aeroporto.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

La Paz, 23 de novembro de 2011

Eu, Illimani ao fundo

Me encontro agora no quarto do meu quarto hotel desta semana! É bom, deixa a semana movimentada. É que o hotel que estávamos, em Achocalla, era realmente frio e desconfortável. Como amanhã viríamos todos para La Paz, antecipamos para virmos hoje. Um pouco confuso, um grupo agora de 50 pessoas, mas beleza, estamos todos bem abrigados agora.
O dia foi de trabalho. Pela manhã apresentações de alguns países, mas principalmente da Bolívia. Ou do Estado Plurinacional da Bolívia, como eles gostam de dizer, já que a nova constituição, aprovada há alguns anos, reconhece mais de 30 nacionalidades diferentes no País. Nas apresentações e conversas de corredores podem ser percebidas as mesmas contradições de outras partes, com um estado eleito para representar os interesses das camadas mais populares se vendo em dificuldade em cumprir suas promessas. Acho eu que estas dificuldades podem vir da ignorância, da má fé ou de uma releitura da realidade depois de chegar ao poder. Mais possivelmente uma mescla dos três.
Produtoras de hortaliças
De tarde saímos para fazer umas visitas, mas confesso que não foram nada especiais. Fomos ver algumas das iniciativas que tentam justificar o adjetivo de ecológico para o município de Achocalla. Pequenas estufas de hortaliças, uma fábrica de queijo, uma escola alternativa. Interessantes, mas acho que demora um pouco ainda para a cidade fazer jus ao apelido...
Durante todo o tempo, nestas visitas, éramos observados pelos montes nevados. Hoje fazia sol pela tarde e o Illimani e o Murorata estavam radiantes. O Illimani é o principal monte nevado aqui da região de La Paz. Segundo a cultura local estes montes são ‘apus’, nome Quechua para Deuses. 
Murorata, que em Quechua significa a descabeçada
Eles são os responsáveis por manter a integridade do Território e dos seus habitantes, não apenas os seres humanos, mas de todas as suas formas vivas. Os habitantes de um povoado ou cidade costumavam fazer suas oferendas a estes montes. Esta tradição ainda se mantém em boa medida, segundo me informaram. Achei interessante que eu também fiquei com vontade de fazer minha reverência à eles. De verdade. Como não sei fazer um ritual para um ‘apu’ e tampouco costumo fazer o sinal da cruz, que acho até que seria válido nesta situação, me limitei a admirá-los.
Amanhã continua a lida, uma breve visita pela manhã a uma fábrica de chocolates orgânicos, depois a uma feira de produtos locais e então mais trabalho em sala. Entre um e outro, trocar outra vez de hotel. Dia cheio, e estou cansado. Fui.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

La Paz, 22 de novembro de 2011

Cerimonia à Pachamama

Como previsto, dormir não foi uma tarefa fácil. Muito frio no quarto. E a grossura do colchão me fazia sentir o estrado. Deve ser bom para a coluna. Fui dormindo, acordando de tempo em tempo. Às seis, já dia, me levantei. Tomei um banho. A água só morninha, mas o ambiente tão frio que aqueles poucos filetes de água que caiam serviam como uma espécie de abrigo. Às seis e meia saí do quarto. Encontrei um agricultor, que está conosco e lhe perguntei como dormiu. Bem, ele disse, silencio, não faz tanto frio. Viu? Tudo é uma questão de perspectiva...
Enfim, sobrevivi, mas para esta noite acabei optando por me refugiar em La Paz. Foram 40 minutos para chegar ao hotel que estou, mas quarto e banho quente não têm preço nem distância!
Ainda mais porque para completar a noite difícil, choveu muito durante o dia e o frio aumentou. Com o templo nublado, o mais legal do lugar do evento que é o visual dos picos nevados se foi. Cada um tem o que merece...
Começamos o evento hoje com um culto à Pachamama. Um agricultor local nos ajudou, armou a fogueira, as oferendas, ateou fogo e cada representante das delegações dos diferentes países ateou um pouco de álcool ao fogo, desejando que tenhamos um bom seminário e voltemos todos bem aos nossos lares. Para quem não é desta cultura, pode parecer meio estranho. Mas se eles fossem católicos fariam uma missa, se fossem luteranos um culto, se fossem espíritas uma prece aos benfeitores espirituais... Cada um na sua onda!
Depois desta cerimonia de abertura, passamos o dia ouvindo a experiência de diferentes países sobre Sistemas Participativos de Garantia. Nesta primeira parte do evento estão cerca de 80 pessoas, oriundas de cerca de quinze países, a maioria latino-americana. Ouvir experiências sobre SPG significa ouvir sobre trabalhos com produção ecológica, circuitos curtos de comercialização, agrobiodiversidade, respeito às culturas locais. Com um desfilar tão vasto de experiências interessantes, em lugares diferentes e volumes consideráveis, é inevitável que nos invada uma onda de esperança... que seja eterna enquanto dure!
Amanhã pela manhã seguimos com o relato de experiências, na parte da tarde tem saída a campo, o que é sempre muito válido, pela oportunidade de ver um pouco da realidade local. Vou dormir, aproveitar meu quarto de hotel.

La Paz, 21 de novembro de 2011

Plaza Murillo
Estou aqui em La Paz para um evento sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Um pouco diferente esta viagem, porque neste caso não estou como convidado, mas sim como um dos organizadores do evento. Isto porque coordeno uma articulação que chamamos Foro Latino-americano de SPGs. E aqui, na Bolívia, está uma das organizações membros deste Foro, a Associação de Organizações de Produtores Ecológicos de Bolívia (AOPEB). Passei os últimos meses preparando este evento, junto com o pessoal daqui. Viva a internet!
Acordei muito melhor hoje do mal de altura. Como me disseram, 24 horas são suficientes para se adaptar. Claro, estou andando devagar, não exagerando na comida, já que a digestão se põe mais lenta. Mas no geral, estou bem.
De manhã trabalhei no meu quarto, mas ainda pude encontrar um tempo para passear um pouco pela cidade. Peguei um táxi, que aqui são baratos, e fui a Plaza Murillo, a principal de La Paz. Como principal sempre devemos entender estas praças estilo medieval, secas, cercada pela Igreja, pelo poder político (neste caso a Assembleia Legislativa) e pelo comércio. Os três poderes. Eu poderia acrescentar um quarto poder, que são os pombos. Atraídos pela comida farta, vendida por ambulantes para crianças e adultos, tomaram a praça para eles. Não sei se é falta de sensibilidade minha, mas os tais pombinhos, às centenas, deixam o espaço menos agradável.

Feira em La Paz
Depois de comer em um restaurante local, com quatro amigos que estão aqui para o evento, um Boliviano, um Sueco, uma da Malásia e um da Tanzânia, ainda fomos visitar uma feira de rua, bem legal. Variedade de tubérculos  chás, condimentos  folhosas. No meio da tarde nos buscaram no hotel para irmos ao local do evento, onde estou agora. Uma cidadezinha pequena, 40 minutos de La Paz, chamada Achocalla, com uma altitude semelhante à de La Paz. Um hotel bem modesto. Peninha, eu estava como um rei no outro hotel. Não me queixo da falta de frigobar, TV ou internet, mas sim me faz falta um aquecedor no quarto e um banho quente. 
Monte nevado Potosi
O chuveiro elétrico é absolutamente impotente diante de uma água que desce dos paramos nevados a mais de 5000 metros de altitude. Mas isto do banho eu só confiro amanhã, hoje passo, já tomei o do dia.             Para compensar, o local é muito tranquilo, meio rural, com o mesmo visual interessante de montanhas secas, sendo algumas delas com picos nevados. Muitos chegam hoje, outros chegam ainda nesta madrugada. Mais uma vez o prazer de rever amigos e conhecidos de diferentes lugares do continente. Amanhã, a primeira palestra é minha, além de ter que fazer toda a moderação do evento. Melhor dormir. Ou tentar, sinto que neste frio, com este colchonete sobre o estrado, dormir vai ser uma tarefa difícil.

La Paz, 20 de novembro de 2011

Loja de artesanato, Mercado de las Brujas
Cheguei nesta madrugada em La Paz, duas da manhã eu já estava no hotel. Bem localizado, centro da cidade.
O aeroporto fica na cidade de El Alto. Altitude de pouco mais de 4000 metros. Daí fomos para La Paz, que fica a uma altitude média de 3700m. Média porque a cidade é tão cheia de ladeiras, que a altitude pode variar muito de um local a outro. É um cidade não muito grande, pouco mais de um milhão de habitantes, tumultuada e desorganizada como a maioria das capitais latino-americanas. Muitos dos seus bairros periféricos estão incrustados nas  montanhas, bastante íngremes, e rodeados por montanhas ainda mais altas, pedregosas, sem vegetação. O toque de beleza fica pelos montes nevados que se destacam quando as nuvens permitem.
E aí, com esta altura toda, adivinha? Estou com o mal das alturas, ou sorocho, como eles chamam por aqui. Passei mal o dia todo. Os sintomas são dor de cabeça e mal-estar. A medicação indicada, chá de folha de coca. Tomei vários e não adiantou muito. O que me ajudou foi uma bala de coca, que comprei no Museu da Coca, um dos poucos lugares que visitei, em três horas de caminhada, as únicas que passei fora do meu quarto de hotel. O Museu fica no chamado Mercado de las Brujas que é um conjunto de ruas estreitas e inclinadas, onde pequenas lojas e ambulantes vendem artesanatos e algumas das oferendas usadas em seus rituais para a Pachamama ou Madre Tierra. Acho que posso dizer que a Pachamama é como a principal divindade da cultura Ayamara, que é a predominante por aqui. Dentre estas oferendas a que mais chama a atenção são os fetos de llama, que junto com as Alpacas e Vicunhas formam a tríade de Camelídeos característicos dos Andes. Eles são vendidos fossilizados, e eu não fiquei com vontade de comprar um não... quem sabe uso uma foto em minha oferenda...
Vista da janela do hotel, morros de La Paz
Voltando ao Museu, ali aprendi a importância da Coca para estes povos que habitam a Cordilheira dos Andes. Viver na altura não é moleza não. Por mais que os nascidos aqui possam se adaptar, a altitude, o relevo e o frio tornam mais difíceis as tarefas cotidianas e, porque não dizer, a própria vida. A coca é como um elemento muito importante para ajudar nesta adaptação. Normalmente o hotel ou o local que estiver te esperando te vai oferecer chá de coca ou folhas para serem mascadas. É possível comprar as folhas secas facilmente de ambulantes nas ruas. E elas devem ser colocadas na boca e levemente mascadas, formando um macerado que deve ficar entre a gengiva e a bochecha, facilitando a absorção da cocaína, um dos muitos alcaloides da coca. Calma gente... esta absorção é em doses absolutamente pequenas. Mas já serve como estimulante por um lado e anestésico por outro. E é isto que é usado por aqui há milênios, como eu disse para deixarem mais digeríveis as atividades diárias ou como apoio nos seus rituais. O fato de um ocidental ter isolado a cocaína, ela ter começado a ser usada em vinhos, refrigerantes ou remédios, depois ter virado droga e ser proibida é uma pequena parte da história da coca e tem apenas 150 anos.
Bom, amanhã conto mais da cidade. Hoje foi dia mais de hotel. E agora, vou me recolher. São ainda nove horas, mas me sinto acabado. E a semana será longa, o trabalho intenso.