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domingo, 22 de outubro de 2023

Tarapoto, 19 a 22 de outubro de 2023

Eu com a linha de tempos dos SPGs no continente

E termina mais uma viagem.

Esse post resume os últimos quatro dias. 

Chcolatre artesanal

Começamos pela saída à campo, na quinta-feira, dia 19, que foi interessante, sim, mas não muito… Saímos ao sul de Tarapoto, em direção a Pucacaco, um pequeno povoado onde fomos visitar três experiências: uma chocolateria bem conhecida por aqui, a MAKAO, depois a Três Rosas, um empreendimento que planta e processa coco e terminamos conhecendo o belo trabalho da “Asociación El Bosque del Futuro Ojos de Água”, que se preocupa en preservar áreas florestais da região. Como nem a chocolateria nem o empreendimento do coco eram orgânicos, ficou um pouco menos interessante a visita, já que esse é o foco da nossa presença aqui. Pero bueno, na próxima devo estar mais atento à programação do dia de saída à campo, e não delegar tudo à organização local, essa é a lição que fica. De todos os modos, viajar um pouco pela Amazônia Peruana foi bem legal! 

Na Associação el Bosque...

Na mesma quinta-feira, de tarde, realizamos um evento público, com palestras e debates sobre agroecologia, na Universidade de Tarapoto. Havia pouca gente, mas as conversas foram interessantes! Terminamos a noite de quinta-feira em um bar com rock de qualidade ao vivo. Acho que foi o melhor programa do dia… 🤦🏽‍♂️ 

Sexta-feira, seminário de novo, com foco na continuidade do Foro Latino-americano de SPGs e na construção da Carta de Tarapoto. Foi tudo bem, com exceção de um momento de tensão, onde agricultores do Peru, Bolívia e Equador manifestaram desconforto por se sentirem excluídos de determinada comissão que foi formada. Ocorre que essa comissão foi escolhida a partir da manifestação de quem teria interesse em estar. Eles não se apontaram, quando ela estava pronta manifestaram seu desagrado. Como moderador, após ouvir essa reclamação, decidi por “voltar no tempo”. Desfiz a comissão formada e perguntei de novo: quem quer participar? Nova comissão foi constituída, com a presença dos países que fizeram essa reivindicação e a paz voltou… a galera gosta de uma tensão… e gosta de ocupar espaços que depois não ocupa… tudo só pra dar trabalho para o moderador…😊💁🏽‍♂️ sim, porque não consegui explicitar bem aqui, mas foi tenso! 

Fotinhas de despedida!
Sexta à noite, tivemos um belo jantar festivo no hotel Rio Curumbaza, depois uma esticada no “Mirador do Amor” e terminamos dançando em uma discoteca até as três da manhã. Divertidíssimo!

Sábado passei o dia descansando, despedindo-me de todas y todos e dando breves caminhadas pela cidade. 

Hoje, domingo, fiquei fazendo hora pela manhã no agradável Café Plaza Tarapoto e saí às 13h do hotel para pegar o avião para Lima, onde estou agora, para daqui regressar para casa. Bela e produtiva semana, ontem já postei aqui a “Carta de Tarapoto”, que resume o que foi conversado no Seminário. Até a próxima, que nem sei onde é, mas sei que de lá, de onde for, conto mais!



sábado, 21 de outubro de 2023

Carta de Tarapoto - 20 de outubro de 2023

 


Carta del Seminario Latinoamericano de SPG 2023

 Desde la belleza y calidez de la Amazonía peruana, en Tarapoto, Perú, nos reunimos del 16 al 20 de octubre del 2023, 64 personas (55% mujeres) de 12 países (11 de América Latina e Italia), comprometidas con la agroecología y los Sistemas Participativos de Garantía (SPG).[1]

A casi 20 años del primer encuentro en Torres, RS, Brasil en el 2004, reconocemos, por un lado, importantes avances en los SPG y, por otro, desafíos persistentes y otros nuevos.

Inspiradas e inspirados en el intercambio durante el Seminario, afirmamos que los SPG:

-  Promueven procesos que aportan al fortalecimiento de la Agroecología y a la identificación de aquellas y aquellos que producen alimentos saludables de forma soberana, implementando sus principios.

-      Han crecido en número, experiencias, actores y alcances en la región, lo que reafirma que, desde nuestras diferentes realidades, estamos tejiendo un camino de unión agroecológica a través de los SPG.

 -  Los SPG son el resultado de una construcción social, por ello, sin la organización local, no es posible masificar la Agroecología.

 -      Los SPG fortalecen y reconocen los diversos procesos sociales de base; contribuyen en el cuidado de la biodiversidad, de las semillas nativas y criollas, de los conocimientos tradicionales y de las funciones ecosistémicas regeneradas a través del manejo agroecológico, así como la resiliencia al cambio climático.

 -      Resaltamos la contribución de las mujeres como promotoras e impulsoras de los procesos de los SPG en sus regiones, tejiendo redes comunitarias en el marco de la Agroecología.

 -      Los SPG incorporan el ejercicio de los derechos humanos, rechazando todo tipo de violencia contra la mujer y a grupos vulnerables. Reconocemos la importancia de desarrollar herramientas para abordar la complejidad de las situaciones de violencia en los territorios.

 En el Seminario reafirmamos que:

 -      Si bien el reconocimiento de los SPG en los marcos normativos nacionales otorga legalidad a los procesos que se implementan, muchas regulaciones imponen requisitos que complejizan los procesos, alejándolos de las cualidades básicas de los SPG como la simplicidad, dinamismo, la capacidad de adaptación a las realidades locales e inclusión. En muchos casos, todo ello resulta en la reducción de la legitimidad de los SPG, construida sobre la base de la participación e involucramiento, transparencia, confianza, autodeterminación y el diálogo de saberes, principios fundamentales de los SPG.

 -      Resulta altamente contradictorio y paradójico que el avance en el reconocimiento normativo de los SPG, en la mayoría de los casos se enfocan solo en el control y fiscalización de estos, en lugar de su promoción y fomento. Por lo que se necesita más apoyo para la efectiva consolidación de los SPG y políticas de fomento, más que mecanismos de control.

 -      La alianza entre agricultoras y agricultores agroecológicas/os con consumidoras y consumidores, así como la articulación con las instituciones públicas y privadas, son esenciales para democratizar la alimentación saludable. Sin embargo, los avances aún son limitados y se requieren mayores esfuerzos en ese sentido.

 -      Las naciones y pueblos originarios proveen mucha sabiduría en los sistemas alimentarios; sin embargo, estos no son valorados y están entre los grupos más vulnerables. Por ello, llamamos a una acción urgente desde los SPG para reconocer sus aportes y respetar sus derechos.

 -      Nuestro compromiso para seguir trabajando de acuerdo con la Carta de Principios de los SPG y las diferentes cartas de los foros que se han gestado colectivamente en los encuentros latinoamericanos.

Finalmente, a pesar de los desafíos, los SPG se mantienen, recrean y amplifican. Desde diferentes circunstancias y con diversidad de actores, seguimos creando con los SPG lazos colectivos de colaboración que nos permiten resistir y sobreponernos a contextos antagónicos, además de continuar el camino con fortaleza, contribuyendo en la construcción de un mundo más solidario y justo, para alcanzar el Buen Vivir / Vivir Bien de los pueblos.

 Tarapoto, Perú, 20 de octubre 2023. 

 



[1] En algunos países se reconocen como SGP – Sistema de Garantía Participativa y SCP – Sistema de Certificación Participativa.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Tarapoto, 16, 17 e 18 de outubro de 2023

 

Seminário Rolando

Foram três dias movimentados basicamente, de trabalho. Segunda-feira fiquei no hotel quase o dia todo, esperando as pessoas que foram chegando, ao longo do dia. Um grupo oriundo de 13 diferentes países! Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Costa Rica, México, Itália e Alemanha. Como comentei, a atividade da semana é um Seminário Latinoamericano de Sistemas Participativos de Garantía (SPG).

Mais momentos so Seminário
Vou dizer que, para mim, é particularmente interessante estar aqui, pois fui uma das primeiras pessoas a falar neste assunto, ainda em 1992. Passados trinta anos, ver como esse tema mobiliza as pessoas, tem sido incorporado a dezenas de legislações sobre agricultura orgânica em todo o mundo e, mais importante, permitiu o acesso de centenas de milhares de famílias agricultoras ao crescente mercado de produtos orgânicos é muito gratificante.

E assim seguiu a terça e a quarta-feira: palestras, mesas de diálogo, trabalhos em grupos, debates e conclusões. Como exemplo, vou contar para vocês uma das discussões fortes que tivemos: os SPGs devem incorporar, nos seus manuais de procedimentos, uma atenção especial à violência doméstica. De que forma? Preparando as pessoas que fazem as visitas para atestar a qualidade orgânica das unidades produtivas para que tenham sensibilidade de perceber indícios de violência doméstica. Caso cheguem a ter um depoimento, por parte da mulher visitada, que sim, existe, devem ajudá-la a tomar as providências legais e o SPG, imediatamente, suspende o certificado do homem que cometeu a violência, tomando os cuidados necessários para que a mulher não seja prejudicada em seus processos de comercialização. Interessante não é? É um exemplo prático de como o respeito aos diretos humanos devem se fazer presentes na hora de conferir um certificado de qualidade orgânica a determinado produto ou processo. Um suco de uva ou um alface, que sai de uma cooperativa que se utiliza de trabalho escravo ou de uma família onde existe violência doméstica não deveria merecer o rótulo de orgânico. Pela simples razão de que as pessoas que consomem produtos orgânicos esperam certo compromisso ético, e não apenas em relação ao ambiente, por parte de quem produz. Interessante, não? Você, que consome produtos orgânicos, gostaria de saber que todos os envolvidos no processo de produção estão sendo cuidados…, não? 
Segue...

Temas como os princípios que orientam os SPGs, as razões que justificam sua adoção nas diferentes dinâmicas territoriais e a relação com Estado, foram também abordados.

Digno de nota nestes dias segue sendo a comida. Deliciosa!

Ontem, quarta-feira, pela noite, saímos para conhecer alguns pontos da cidade. Começamos por comer no “Suchiche”, considerado o melhor restaurante da cidade. De fato, comida deliciosa, em um ambiente para lá de agradável. Se você vier a Tarapoto, não deixe de visitar. Pode pedir uma chaufa regional com maduro. Uma fusão de comida amazônica com chinesa - imperdível!

Chocolateria artesanal GUAM
Depois da janta, fomos visitar a GUAM - Gusto Artesanal, da minha amiga Sandra Guevara. Trabalho muito legal, feito por ela, irmã, filhas e sobrinhas. Destaque para o que já comentei no último post, a embalagem feita com folha de bijao. Da GUAM formos para o “Coco Center”, uma loja que vende tudo relativo ao coco. A água de coco deliciosa, vários produtos interessantes como sucos com água de coco, mas o bom gosto… nem falo nada, mas seus artesanatos feitos a partir de coco, replicando animais, alguns em tamanho reais, pênis e vulvas não são a coisa mais bonita que já vi… vou colocar algumas fotos abaixo para que você dê sua opinião…

Terminamos a noite com uma passada na bela praça central, tiramos algumas fotos e viemos dormir. Amanhã tem saída à campo!


De noite, na praça!

E aí? Lindo, né?

Nme digo nada...

Putz...



segunda-feira, 16 de outubro de 2023

Tarapoto, Peru, 14 e 15 de outubro de 2023.

Entardecer na praça central de Tarapoto

Cheguei em Tarapoto, capital do Departamento de San Martín, na Amazônia Peruana, ontem, sábado, 14 de outubro. Estou aqui na qualidade de organizador/facilitador de um Seminário Latino-americano de SPG. Atividade que ocorre no âmbito de um projeto proposto pela ANPE - Asociación Nacional de Produtores Ecológicos do Peru.

Segundo as minhas anotações pessoais, essa é a 20° vez que venho a este país. Sempre à trabalho, ainda que tenha dado alguns bons passeios!

Comida local e popular na veia!

Desci do avião no meio da tarde e fui recepcionado pelo calor amazônico de 36 graus no termômetro, algo mais que isso percebido pelo corpo.

À noite, demos uma volta pela praça central da cidade, bem cuidada e cheia de gente de todas as idades e fomos comer no Partido Alto, um bairro próximo, em uma praça onde se encontram vários lugares que servem comidas regionais. Algo entre quiosques e comida de rua. Eu comi Cecina com tacacho. Cecina é como um bife de carne de porco, cozida e defumada. Muito saborosa, mas é melhor não ver como é feita e armazenada… rsrsrs… Tacacho é uma massa feita com banana verde cozida e macerada. Quando já está bem amassada, se acrescenta banha de porco líquida, sem pena… depois um pouco de toucinho, tudo isso é amassado com a mão e moldado, como se fosse uma bola, por uma senhora que fica a noite toda fazendo isso, ali, ao nosso lado, a céu aberto. Gostei bem tanto de ver a elaboração quanto de degustar essa especiaria… Especiaria? Sim, acho que sim… Por que não? 

Preparações feitas em folha de bijao

Ainda ontem à noite, saímos caminhando e passamos por alguns bares, por um muito interessante hotel com estética amazônica, horizontal, chalés em madeira e uma bela piscina ao meio, chamado “Madera Labrada”, e pela Chocolateria Orquídea, talvez a mais famosa das chocolaterias artesanais que tem por aqui. Tarapoto é conhecido por seu cacau e seu chocolate.

Hoje pela manhã fomos a dois mercados locais. Fiquei impressionado com o movimento, o fato de ser domingo não conta, as ruas e os mercados lotados, muita gente. As mototáxis, com seus bancos, quase uma charrete motorizada, conferem um visual diferente ao ambiente urbano. São muitas, ao mesmo tempo que são poucos carros. Em outros lugares esse meio de locomoção é conhecido como tuc-tuc ou jinriquixá. 

Um dos mercados que visitamos

Nos mercados vimos muitas coisas interessantes, frutas e raízes amazônicas, muita banana, farinhas locais, como por exemplo uma de milho com amendoim, com alguns usos como, por exemplo, “inchicapi de gallina”. Mas vou contar de uma coisa que me encantou: a folha de bijao. Bijao é uma planta que cresce na Amazônia, e suas folhas são usadas para envolver alimentos durante ou após sua preparação. Tamales, humitas e Juane são alguns exemplos. Tamales e Humitas tem a ver com a nossa pamonha, Juane é um prato delicioso, feito a partir de arroz, especiarias e galinha.

Chocolates Gusto
Amazonico!
Uma das nossas anfitriãs aqui em Tarapoto é a Sandra Guevara. Ela faz chocolates artesanais, da marca “Gusto Amazónico”, delicioso, mas com um detalhe que eu reputo como sensacional: São todos embalados com essa folha, de bijao, depois que elas passam por um sofisticado processo que envolve choques térmicos e secagem. Devidamente secas, servem também como embalagem. Cacau daqui, chocolate feito aqui, por mulheres, embalados em uma folha daqui. É ou não é sensacional? 
Amanhã, segunda, começam a chegar todos e todas, 60 pessoas de 13 países, para nosso Seminário, que começa terça e vai até sexta-feira. A semana promete ser movimentada.


Folha de Bijao


Bananas no mercados

Visual dos mercados

Eu, nas Cataratas de Ahuashiyacu.

Banana sendo cozida

Juane com maduro frito



sábado, 24 de março de 2018

Peru, 18 a 24 de março de 2018

Foto obrigatória do Pacífico, à partir do Larcomar
Passei esta semana no Peru. Cheguei no domingo dia 18, dormi em Lima e na segunda, 19, fui para Piura, um Estado que fica ao norte, em direção ao Equador. Sua capital, de mesmo nome, é a quinta cidade em população do país, chegando a quinhentos mil habitantes. É a terceira vez que fui a Piura. Lá passei toda semana, regressando hoje a Lima, de onde saio amanhã cedo de regresso a casa. 
Aspecto do IV Foro
O que me trouxe ao país foi o IV Foro Latino-americano de Sistemas Participativos de Garantia. Aqui no blog contei sobre meus dias em La Paz, Bolivia, em novembro de 2011 e em Quito, em dezembro de 2015, respectivamente no II e III Foro. Também já tive a oportunidade de explicar que os SPGs são um método de conferir reconhecimento da qualidade da produção agropecuária sem uso de agrotóxicos ou organismos modificados geneticamente, usualmente denominadas de Ecológica ou Orgânica. 
Passei toda a semana trabalhando, com a responsabilidade de facilitação da reunião, o que me impediu de escrever diariamente como costumo fazer. Ou talvez esta seja só uma desculpa para a preguiça de escrever o blog. O fato é que pela primeira vez em sete anos não relatei o que andei fazendo em uma viagem internacional. Estará o blog em risco? Veremos nas próximas viagens. 
Praça / Igreja de Catacaos
Também é verdade que a semana em Piura transcorreu de maneira muito uniforme. Trabalho intenso, saindo do hotel apenas para dois passeios rápidos. No fim da tarde de terça feira alguns saímos para Catacaos, cidade vizinha a Piura e conhecido ponto de vendas de artesanato. Destaque para os trabalhos em ouro e prata e para as cerâmicas de Chulucanas. Estas cerâmicas são muito reconhecidas no país e no exterior. A maioria é produzida em uma pequena cidade chamada La Encantada, que tive a oportunidade de visitar há uns dez anos. São feitas com uma técnica especial, um desenho característico e uso de tintas naturais, segundo entendi principalmente a partir de folhas de manga, torradas para conferir a cor negra característica destas cerâmicas. Quem já passou pelo aeroporto de Lima seguramente teve a atenção despertada por estas peças, vendidas ali a peso de ouro. 
Artesões em Catacaos
A outra saída foi ainda mais rápida, ontem, sexta-feira, após o término do evento, apenas para passear no início da noite pela praça principal da cidade, ver sua Catedral e caminhar à toa para descansar. Piura não é uma cidade particularmente bonita. 
Voltando a Catacaos, eu a havia visitado em 2007. Desta vez a vi menos pujante na venda de artesanatos. Me explicaram que a cidade ainda está se recuperando de uma trágica inundação que a abateu em março do ano passado, atribuída ao fenômeno La Niña. Já disse várias vezes aqui no blog que não há lugar que eu viaje e não me depare com problemas que são, obviamente, fruto das mudanças climáticas que derivam do aquecimento global, ainda que alguns insistam em espalhar suas convenientes dúvidas. Convenientes para quem deseja seguir com o mesmo desenho de sociedade que nos trouxe a esta situação, baseado na produção e consumo sem limites.
Atum selado com majado de mandioca
Votando a falar de flores, Piura se notabiliza por sua culinária, especialmente peixes. Infelizmente a comida do hotel que fiquei, El Angolo, não correspondeu à fama da cidade, mas minhas três incursões por restaurantes foram compensadoras, com deliciosos tiraditos tricolor (ceviche servido com três diferentes molhos), côngrio rosa grelhado e atum selado com um majado de mandioca. Majado é uma refogado com temperos e mandioca ou banana verde, que são cozidos juntos e formam uma massa quase homogênea, muito típicos de Piura. Delicia!
Falo de comida porque o Peru tem no turismo gastronômico uma fonte de renda importante. E não à toa, sua culinária realmente é especialíssima. 
Galera bailando na Praça Kennedy
E hoje tive tempo apenas de passear um pouco por Lima. Caminhei por Miraflores, seu bairro mais charmoso e vi a terceira idade dançando na Praça Kennedy. /no Onpez comi um delicioso raviole recheado de ricota e espinafre com molho de camarão apimentado, ao ponto! Depois tomei chicha morada (refresco à base de milho roxo), café e Pisco Sour, um drink a base de pisco, limão, açúcar, clara de ovo e angustura. Pisco é um destilado obtido a partir da uva. Tomei este pisco sour no bar “Popular”, em um centro comercial chamado Larcomar, que fica junto ao Pacífico. Isto ao entardecer, com uma paisagem de fisionomia agradável e relaxante.
Larcomar, ao anoitecer
E esta foi minha semana. Irei fazer outro post com a Carta de Piura, elaborada pelos participantes do Foro e que resume os principais pontos de discussão destes dias. Na verdade foi uma excelente semana de trabalho, e as emoções ficaram todas concentradas por aí. De todos modos não é pouco. Nem sempre é possível conciliar trabalho e passeio. Desta vez não foi, na próxima será.

domingo, 22 de outubro de 2017

Peru e Equador, Agricultura Ecológica e Macacos, outubro de 2017

Etnia Nomatsiguenga, com suas Kushmas com variações
de cor laranja. Foto em Pangoa, Peru.
Aqui em uma cafeteria em Quito, na concorrida e boêmia Praça Foch, pensando nas minhas últimas duas semanas de trabalho entre o Peru e o Equador. Foram oito diferentes cidades. Médias, pequenas, capitais. Além das milhas voadas foram dois mil km rodados entre ecossistemas de Serra Andina e Amazônia, tanto em um quanto em outro país. Todas as minhas atividades giraram em torno da produção e consumo de produtos ecológicos. Em muitos momentos em contato com a população Campesina ou Indígena. Indescritível. Repasso o filme na minha cabeça e me emociono. Mais uma oportunidade de ouro que meu trabalho me deu. Sou grato por isto.
Com as meninas que constroem a
Agroecologia no Peru. Foto em Huancayo.
Desde que saí da Universidade, em julho de 1987, só trabalhei com este assunto. Cerca de trinta anos. O crescimento neste período foi significativo. Vejo isto no meu cotidiano, nos comentários da imprensa, nas redes sociais, nas feiras que frequento, nos convites que recebo para falar do tema, que surgem de diferentes lugares, pessoas e setores. Os dados também demonstram este crescimento. O mercado era inexistente. O primeiro número que lembro surgiu em 1994 e falava de um mercado mundial de quatro bilhões de dólares. Hoje está na casa dos noventa bilhões.
Peru agroecológico e biodiverso!
Uma viagem como esta que acabo de fazer reforça o que digo há anos: não existe um rincão do continente latino-americano onde não esteja sendo desenvolvido um trabalho com Agricultura Ecológica. Pessoas valorosas se esforçando por nadar contra a corrente. Qual a corrente? A imposta pela manipulação das grandes empresas. Um exemplo: neste ano a Bayer comprou a Monsanto por 66 bilhões de dólares. Este gigantesco poder financeiro manipula tudo para aumentar suas vendas. Gera o que chamam de informação científica, dita tendências e convida o incauto a ser moderno, consumindo seus produtos.
Mas, como eu dizia, hoje são milhares de pessoas e organizações se esforçando para desenhar outra forma de produzir e consumir, em bases eco-sociais. Nos últimos quinze dias tive mais uma prova disto.
Povo que constrói a Agroecologia em
Cuenca, Equador
Quando comecei a trabalhar com este assunto guardava uma convicção: à medida que um agricultor começasse a trabalhar pelo viés da agricultura ecológica em um determinado local, o vizinho veria, e outro, e mais outro e em pouco tempo, numa espécie de crescimento em progressão  geométrica, todos estariam fazendo como ele. Afinal, porque não? Se produzo bem e mais barato sem o uso de veneno, porque usá-lo? Da mesma forma pensava sobre quem consome. À medida que estas informações fossem sendo repassadas, mais e mais consumidores procurariam os alimentos produzidos sob esta lógica. Afinal, quem quer comer veneno?
Mas não é assim... A produção e consumo de produtos ecológicos cresce em todo lado, mas os mesmos números que atestam este crescimento demonstram nossa marginalidade. Oficialmente a Agricultura Ecológica é praticada em mais ou menos 1% da área cultivada no mundo. Não vou explicar aqui que este número é subdimensionado, mas de todos modos, multiplicá-lo por dois ou três não nos retiraria da marginalidade.
IV Jornadas Agroecológicas em Quito
Não sei responder porque este crescimento não é exponencial. O poder das empresas que mencionei é parte mas não toda a resposta. Os países comunistas, que viveram anos relativamente à margem deste poder, sempre se valeram do uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos em altas doses na sua forma de fazer agricultura.
Minha esperança é a teoria do centésimo macaco. Já ouviram?
Segundo eu sei, mas não tenho certeza, é uma espécie de lenda urbana, que reza o seguinte: Uns cientistas estudando o comportamento de macacos em uma ilha sempre jogavam batatas doces para estes macacos, dos seus barcos, sobre a areia. Desta forma poderiam observá-los mais claramente. Um dia, a uma fêmea (sempre as mulheres...), chamada Imo, lhe ocorreu lavar as batatas antes de comer. Outros a seguiram, possivelmente porque a batata ficava mais apetitosa. Mas nem todos macacos da ilha a copiaram. 

Evento em Pangoa sobre
Agricultura Ecológica e
Certificação Participativa
Quando o centésimo macaco a imitou, os cientistas notaram que, em uma ilha próxima, sem que houvesse qualquer contato entre uma e outra ilha, alguns macacos começaram a lavar as batatas. Ou seja, mesmo sem que o exemplo se fizesse visível, as mudanças se multiplicaram quando um determinado número de macacos começou a agir do jeito novo.
Nas sociedades humanas existiria um comportamento parecido?
Tem um biólogo inglês, Rupert Sheldrake, que propõe a hipótese dos campos mórficos. Eu nunca li seu livro e nem vou tentar explicar sua teoria aqui, mas é possível facilmente achar estas informações. O fato é que Sheldrake se propõe a explicar uma mudança social a partir de atitudes em direção à mudança de um determinado conjunto de indivíduos. 
Reunião em Quito, entre acadêmicos e lideranças
de Movimentos de pescadores artesanais
indígenas e campesinos

Vou ter que ler este livro para entender melhor, mas no meu caso se trata de uma hipótese alentadora. Me anima e conheço muitas Imo, muitos também, que, com seus gestos, já começaram a desencadear a mudança na direção de um circuito mais bacana de produção e consumo de alimentos. Mais generoso e menos envenenado.
Concluo, confessando algo: Sempre que provoco ou estimulo alguém a produzir e comer sem veneno, o que tem mutas vantagens e pouca ou nenhuma contraindicação, fico me perguntando: será esta pessoa o centésimo macaco?

sábado, 14 de outubro de 2017

Huancayo e Lima, 13 e 14 de outubro de 2017

Foto tirada de dentro do ônibus. Viagem entre montanhas. 
Ontem foi o segundo e último dia do Encontro Nacional de Produtores Ecológicos. Sobre isto vou apenas mencionar que a Associação Nacional de Produtores Ecológicos do Peru achou por bem dar uma medalha a algumas pessoas que eles julgam vem contribuindo com o desenvolvimento da Agricultura Ecológica no país. Ganhei uma e curti. Segundo minhas anotações é a 18 vez que venho ao Peru, e todas elas a trabalho. Bom saber que as pessoas com quem trabalhei valorizam o feito!
Encontro terminado resolvi antecipar minha vinda para Lima e viajei a noite toda. São trezentos quilômetros, sete a oito horas de viagem. Subidas, descidas e curvas diminuem muito a velocidade média. Deveria chegar às seis da manhã e cheguei às doze. Não pude visitar as Feiras Ecológicas do sábado de manhã. Porque? Não sei se acidente ou um deslizamento de barreira. Coisa dos Deuses. As mais altas montanhas aqui são tratadas como Divindades. "Apu" é a denominação utilizada, tenho a impressão que vem do Quéchua, uma das duas principais etnias dos Andes, junto com os Aymaras. Elas cuidam do território que está sob sua guarda, sob seu olhar. Então, um destes Apu definiu por causar este inconveniente para quem estava na estrada esta noite. Deve ter tido suas razões. Estou falando assim porque eu era o único irritado dentro do ônibus, os outros só davam de ombros... deve ser porque não sou de montanha...
Estes dias quase não falei de comida. Vou postar fotos aqui do que comi durante esta semana. Para quem não se lembra, o tema alimentação no Peru é um caso à parte. Se fala muito de comida, se come muito, o peruano tem profundo orgulho da sua culinária. Dos países que eu conheço considero que México e Itália são algo parecido, mas considero que aqui o tema abarca outras dimensões. Vou dar um exemplo. A pessoa mais conhecida e popular do país é um cozinheiro. Gaston Acúrio. Seu restaurante Gaston y Astrid está sempre na lista dos melhores do mundo. Até onde eu sei, tem um aqui em Lima e outro em Madrid. 
que cena... sábado à tarde, rapaziada da terceira idade
dançando
salsa na praça central de Miraflores!
Os partidos políticos vivem tentando seduzi-lo para que ele concorra à presidência do país. Seria como uma eleição certa. Gaston se recusa e faz sua militância social através da APEGA, Associação Peruana de Gastronomia.  A gastronomia Peruana é reconhecida como uma das melhores do mundo, atrai ao país turistas e é a principal fonte de autoestima do povo peruano. Enfim, não vou me alongar mais sobre este importante aspecto da cultura deste país, aqui mesmo no blog já escrevi sobre isto. Como disse, vou colocar algumas fotos, até porque não é possível passar aqui e não mencionar este assunto!
De resto, passei a tarde caminhando pela agradável Lima.
Visual do Larcomar, Miraflôres.
Eu gosto muito daqui e lamentei ter tido só meio dia desta vez. Aproveitei para almoçar no Punto Azul, um dos meus preferidos e tomar um café no Larcomar, o centro comercial que fica quase incrustado na falésia que beira o Pacífico. Dois programas que sempre que posso, repito. 
Passeei sozinho toda a tarde até o início da noite. Caminhava com certo ar de certa nostalgia até tomar dois cafés, um americano e um expresso duplo. Pronto, fiquei com a poesia e despachei a nostalgia. Não posso me dar ao luxo de baixar o astral, amanhã começa nova jornada.

Emendar viagens sempre me conduz a este tipo de emoção. Termino uma lida e tenho a sensação que devo voltar para casa. Mas preciso manter a guarda alta, amanhã vou para Ibarra, serra equatoriana, me aguarda uma semana intensa de trabalho no Equador!


Pescado al Jerez, do restaurante Punto Azul.
Bom demais, molho branco com camarão,
lula, polvo e mexilão. 

Bebida muito comum no país, a Chicha Morada é da 
região andina do Peru, pré-hispânica, 
feita a base de milho roxo. 

Ceviche, peixes ou outros frutos do mar "cozidos" no limão,
com pimentas e outros pimenta. Sevido sempre com
milho, batata doce ou abóbora cozida, 

Chicharones, neste caso de peixe. No Brasil seriam
iscas de peixe à milanesa. 

Lomo Saltado. Muito comum aqui. Carne cozida com
tomate, cebola, servida com batatas fritas e arroz.
Por vezes a batata vem misturada na carne,
junto com a cebola e o tomate.

Sempre antes das refeições, eles colocam "cancha" sobre a
mesa. Milho torrado e salgado. Pimenta também
é muito comum aqui.