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sábado, 2 de março de 2024

Burgos, Coimbra, Óbidos e Lisboa, 27 de fevereiro a 02 de março, do ano bissexto de 2024.

 

A Ireja de São Tiago, em Burgos, que se fez um templo de livros

Vou começar essa crônica com algo que me marcou muito, dentre várias coisas que me marcaram nesses belos últimos cinco dias de viagem: a igreja de São Tiago, em Óbidos, que virou livraria. Demais o visual de uma Igreja que presta culto aos livros! Me impactou, fiquei emocionado. Lembrei do Templo de Confúcio, em Pequim, que tem no seu altar principal um livro! Acho mesmo que lá onde tudo começa, existe uma biblioteca, cuidada por alguém que de tudo sabe. Pensava nisso enquanto caminhava vendo os livros expostos nas prateleiras do templo. Lugar de estar horas, não minutos!

Catedral de Burgos

Agora, dou um passo atrás no tempo e conto que saímos de Burgos, capital da província de Castilla-León, de tantas histórias, na terça-feira, dia 27, na hora do almoço, depois de passear um pouco no frio e comer um churros com chocolate quente, tão típico em boa parte da Espanha.

Chegamos em Coimbra depois de 6 horas de viagem, foi a maior distância que percorremos em um dia durante todo o rolê.

Ana e eu gostamos de colocar o navegador no modo “evitar pedágios”, para fugir das grandes autoestradas, rápidas, mas sem graça. Quando entramos em Portugal, passamos dentro de várias pequenas cidades, algumas na Serra da Estrela, local onde se faz o famoso queijo, que alguns reputam como o melhor do mundo. Lindinhas demais essas cidades. Mas a surpresa mesmo foi quando vimos uma placa indicando a Freguesia de Linhares da Beira. Estava escrito que era uma aldeia histórica de Portugal. 8 km. Nos olhamos e entramos, por uma bonita estrada de curvas muito sinuosas. 

Freguesia de Linhares da Beira

Encontramos um povo medieval lindíssimo, com suas casas de pedras, roupas penduradas nas sacadas, para secar, e senhorinhas andando pelas ruas. Li um pouco e descobri que é um povoado com cerca de 200 habitantes. Valeu muito essa visita não planejada!

Chegamos em Coimbra ao anoitecer, demos uma volta pela cidade e fomos tentar a sorte para comer no “Zé Manel dos Ossos”. Uma pequena tasca, com não mais que 18 lugares. Esperamos mais de uma hora, na rua, frio, mas valeu… Comida sensacional! Lugar simples, mais para desconfortável, atendimento simpático pelos proprietários e o prazer de comer algo bem característico da região. Ana foi de bacalhau, eu de javali com batatas!

Quarta-feira foi dia de visitar Santa Isabel, a Rainha Santa de Portugal, padroeira de Coimbra. Fomos no Convento de Santa Clara, a nova. Foi construído para substituir o Convento de Santa Clara, a velha, que, por sua vez, foi construído a mando da própria Rainha Isabel de Aragão. 

Essa é a Fonte das Lágrimas, que
Camões imortalizou em seus versos, 
as lágrimas seriam de Inês de Castro

Visitamos e fomos guiados por uma funcionária que nos deu muitos detalhes interessantes sobre a vida da Rainha. Vou falar só de um: o corpo da rainha é incorrupto. Significa que não se decompôs após a morte, sem que para isso tenha sido usado algum método de conservação. A visitação do corpo da Rainha foi suspensa apenas em 2016. E ela morreu em 1336… interessante, não é?

Eu acho, acho muito interessante. Nem tudo que existe é fácil de explicar…

No chamado movimento espírita, ela é considerada uma amiga de Chico Xavier, e estaria presente no famoso livro “Nosso Lar”, com o nome de Veneranda. Gostei de visitar, outra vez, nesta viagem, Isabel de Aragão, a Rainha Santa de Portugal!

Quinta de manhã, saímos de Coimbra para Lisboa. Passamos por Óbidos, passeamos pela Vila, muito bonitinha, e o ponto alto já narrei acima.

Chegamos em Lisboa, devolvemos o carro e fomos passear pela Augusta! Não nos cansamos de visitar a Lisboa histórica, seu casario, os detalhes dos azulejos, os nomes pitorescos das ruas e das casas comerciais. E comer. Come-se muito bem por aqui. Vou falar que quinta-feira, de noite fomos a “Tasca do Teimoso”. Tanto no Instagram quanto em um cartaz na porta está dito: a pior Tasca de Portugal. Mentira… mas tem que se garantir muito para ter uma chamada desta, concordam? 

Ouvindo versos na Casa de Pessoa.

Outra vez, um restaurante pequeno, menos de vinte lugares, mas desta vez bonito e agradável. Duas pessoas trabalhando: o filho cozinha e a mãe, de setenta anos, atende. Que comida! Elegemos que foi a melhor de toda a viagem. Sabe aquele couvert básico? Pão, azeitonas e manteiga? Pois então… pão quentinho, azeitonas deliciosas e duas manteigas: uma com vinho do porto e maçã e outra com alho e coentro. E assim seguiu com as sopas, com os bolinhos de alheiros e com o bacalhau à Brás! Tomamos um vinho do D’ouro e nem conseguimos provar a sobremesa…

Sexta-feira, mais passeios, entre metrô e caminhada, mas vou apenas destacar que comemos no bom restaurante “Planto” e fomos visitar a Casa de Fernando Pessoa, lugar que sempre vou quando passo por Lisboa.

E assim termina nossa viagem. Foram 19 dias, dezoito noites. Dormimos em Lisboa, Estremoz, Sevilha, Salamanca, Bilbao, San Sebastian, Hondarríbia, Burgos, Coimbra e Lisboa. Foram cerca de 2700km. Há anos digo que queria fazer essa viagem. Fiz. Como diz Osvaldo Montenegro, “castelos nascem nos sonhos, para no real achar seu lugar”.

Aqui, do aeroporto de Lisboa, sábado, dia 02 de março, do ano bissexto de 2024, só me resta, só nos resta, agradecer!

Adoro...

A Santa nos fronstispícios das casas

A Rainha Santa no convento de Santa Clara a nova

Entrada do coinvento de Santa Clara a nova

a loinda Coimbra, visa do rio Mondego

E tivemos a sorte d ever os estudantes jogando suas capas
para cima. Ao término do curso, os estudantes rasgam as roupas
da formatura, e o único que levam para toda a vida é a capa.

A icônica Universidade de Coimbra

Nosso Hotel em Burgos

Freguesia Linhares da Beira

Freguesia Linhares da Beira

Freguesia Linhares da Beira

Ana, no Zé Mané dos Ossos

Vomitado, delícia de sobremesa no
Zé Mané dos Ossos


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

Lisboa e Estremoz, 13 a 16 de fevereiro de 2024.

 

O Eu Profundo e ops outros Eus

Depois da jornada em Bissau, uns dias de férias. Ana e eu nos encontramos em Lisboa e vamos dar um giro entre Portugal e Espanha. Como gosto de fazer, vou caminhando e contando algo por aqui.

Entardecer na Rua Augusta

Chegamos na terça, dia 13, e alugamos um carro para sair de Lisboa no dia 15. Assim, foram dois dias passeando pela capital lusitana. Vou ser sintético em relação ao que fizemos: passeamos pela Avenida Liberdade, Bairro Alto, Santo Antônio, Rossio, Alfama e Graça. Isso tudo na quarta-feira, dia 14, acho que caminhamos uns 12 km. Ou mais, com o detalhe que se sobe e desce muitos morros. Tudo muito legal, mas vou destacar alguns momentos. Primeiro, uma menção honrosa ao Hotel Santa Justa. Mais que bom, super recomendo. Depois, o almoço no “A Merendinha do Arco Bandeira”. Um bacalhau à minhota, delicioso! Com vinho da casa, claro! Vou ainda mencionar a passada na Casa de Saramago, adorei ler um pouco sobre ele e saber mais da sua vida. Como escritor, considero Saramago umas das minhas principais influências. Estivemos, também, no café “A Brasileira”. Esse lugar era muito frequentado por Fernando Pessoa, e eu tenho um conto, publicado, que se passa, em parte, neste lugar. Sentar-me ali, pedir um café e ler o meu conto foi um momento-looping maravilhoso. Por último, vou falar que os pastéis de nata são deliciosos!

Rainha Santa, ao lado do Castelo


Ontem, quinta, pegamos o carro e viemos para Estremoz, região do Alentejo. Porque Estremoz? Porque vim aqui em 2015, com Ana e André, um grande amigo, e conheci a Pousada do Castelo, mas não nos hospedamos. Desde então, quero voltar para me hospedar. Acontece que o Castelo, hoje feito pousada, foi construído no século XIII, por determinação de D. Diniz, Rei de Portugal, para sua esposa amada, Isabel de Aragão, também conhecida, como a Rainha Santa. Isabel de Aragão é bastante conhecida no meio espírita, em função de várias histórias contadas, sobre ela, por Chico Xavier. Uma dessas histórias é a aparição de Isabel a Chico, em seu quarto, no dia 10 de julho de 1927, dois dias depois dele receber sua primeira mensagem psicografada. Ela apareceu e pediu a ele para ajudá-la na sua tarefa de dar pão aos pobres. Depois de um curto diálogo ele aquiesceu e, durante toda sua vida, cumpriu a promessa feita. Essa doação de pães tem relação com a própria vida dela como rainha. Digo isso porque um dos milagres que lhe é atribuído é o seguinte: ela tinha o hábito de distribuir pães para os pobres que se aglomeravam ao redor do Castelo. 

Capela da Rainha Santa, representação 
do milagre das rosas.

Eram muitos, lembremos que nessa época ou se era da corte, ou se trabalhava para corte, ou se pagava impostos à corte. Se nenhum dos três, era um miserável. Bem, talvez hoje não seja tão diferente… Mas voltemos à Rainha Isabel de Aragão. 

Esse hábito de distribuir pães, que ela levava na barra do seu vestido, fazendo-o de cesta, acabou por aumentar a aglomeração de pobres ao redor do castelo, o que levou o Rei a pedir a sua esposa para que não mais fizesse isso. Ela não obedeceu… fico pensando que quem deve obediência à sua consciência não aceita qualquer ordem… enfim, apesar da proibição, certo dia o Rei vê sua esposa se dirigindo ao lugar onde costumava doar os pães, saia dobrada, e pergunta se ela o estava desobedecendo. Ela diz que não… ele pergunta: “o que levas aí?”. Ela responde: “rosas!” Ele faz mais uma pergunta: “rosas em janeiro?” (vamos lembrar que janeiro é alto inverno). Ela abaixa a barra da saia e rosas caem ao chão. 

Interior do Castelo
As serviçais ficam todas impressionadas, pois sabiam que ali havia pão… acho linda essa história! É conhecida como “o milagre das rosas”. Óbvio que existem historiadores que questionam esse acontecido, mas os devotos sabem que é verdade. Aqui, no Castelo feito pousada, existe uma pequena capela, que foi feita em um lugar onde antes era um quarto para ela orar. Nesta capela, existem alguns quadros com os milagres da Rainha, e esse que narrei está ali. 

Sacaram porque vim à Estremoz? Visitar a Rainha…

Tem outro lado, que me trouxe aqui, mais mundano… rsrsrs… se hospedar em um castelo é muita onda! Impressionante pensar que foi construído há mais de 700 anos… e os quartos, entre o antigo e o novo, tudo impecável. O café da manhã? Digno da nobreza!

Que mais fizemos em Estremoz, além de curtir o castelo? Jantamos no restaurante “Venda Azul”. Eu comi um prato com diferentes cortes de porco negro, com miga de aspargos. Miga é um prato feito à base de pão alentejano, sensacional. E o porco negro… algo à parte! Ana comeu uma sopa, à base do mesmo pão e coentro. Ela adorou!

Açorda à Alentejana com ovo. 
A sopa local que Ana adorou!

Hoje, sexta-feira, depois do belo café da manhã e de ir visitar a capela da Rainha, fomos para Vila Viçosa. Escolhi ir lá porque é a terra da poetisa Florbela Espanca (“minha alma de sonhar-te anda perdida…”). Passeando pela muito simpática Vila Viçosa, encontramos um restaurante de nome Florbela Espanca! Claro que comemos lá! Ana, sopa de coentro, ela é meio a louca do coentro, e se achou aqui no Alentejo. Eu comi Alheiros de Mirandela. Demais demais demais. O corretor de texto reclama que escrevi três vezes a mesma palavra. Deve ser porque ele nunca comeu Alheiros de Mirandela. Demais, demais, demais. Se você está cansado de ler até aqui, lamento, mas vou contar a história deste prato, considerado, simplesmente, uma das sete maravilhas gastronômicas de Portugal.

É tipo uma linguiça, feita à base de carnes de aves, gado e porco, com massa de pão para dar consistência. Eu comi com arroz, ovo e batata frita.

Perguntamos ao dono do estabelecimento e ele explicou: “antigamente, os asiáticos viviam em Portugal, e eles não podiam comer carne de porco, então inventaram esse chouriço que misturava porco com aves para disfarçar que não estavam a comer porco”.

Asiáticos… bom demais, né? Bem, geograficamente ele está certo…

No restauranta Florbela Espanca,
pedimos o cardápio. Ele trouxe...

Além da informação do nosso anfitrião, fui ler sobre a origem do prato. A hipótese mais aceita é a de que ele foi inventado no final do século XV, por judeus (asiáticos…), que se instalaram no interior de Portugal depois de terem sido expulsos da Espanha pelos reis católicos. Para não serem perseguidos pela Inquisição, tiveram que fingir que consumiam normalmente carne de porco (animal proibido na religião judaica) e, por isso, criaram um tipo de chouriço apenas com outras carnes (vitela, coelho, peru, pato etc.) e massa de pão, para dar consistência. A receita teria, então, conquistado o paladar dos cristãos que, depois, incorporaram a carne de porco à versão original. Boa história, nem me importo se é verdadeira ou não, sei que “Alheiros de Mirandela” é bom demais!

Ainda vou falar de mais um momento gastronômico: ontem e hoje, fomos a um bar frequentado pelos locais, Restaurante Alentejano, e pedimos vinho da casa! Fomos em uma banca na praça, compramos queijo e pão e fizemos a nossa ceia. A dona do bar nos viu trazendo comida e perguntou: querem um prato? E eu achando que ela iria achar ruim trazermos comida para seu bar/restaurante…

Bom, fico por aqui. Com uma frase que ouvi em algum lugar: Amo muito tudo isso!

Hoje foi aniversário de papai. Ele iria adorar esse Castelo.

Escadas na Casa de Saramago

Janela de onde a Rainha via
 sua amada Espanha

Estremoz é famosa pelos seus bonecos
feitos em cerâmicas, por artistas
locais.

Na Casa de Florbela Espanca

Restaurante Flrobela Espanca

Ruas de Vila Viçosa!


segunda-feira, 2 de agosto de 2021

São Tomé e Lisboa, 31 de julho e 01 e 02 de agosto de 2021

 

Atividade durante nosso curso da semana!

E, em uma espécie de presente por bom comportamento, ainda pude desfrutar de um dia em Lisboa.

Feira de produtos locais e biológicos
O fim de semana em São Tomé misturou trabalho e passeio. No sábado, de manhã, fui visitar uma loja de produtos biológicos e/ou locais, a Qua Tela, e a feira, que foi organizada em frente à loja, com produtores certificados pelo Sistema Participativo de Garantia em São Tomé. Um resultado do projeto no qual me envolvi aqui, o OM4D (Organics Market for Develepment), capitaneado pela IFOAM, com apoio da cooperação Holandesa.

E, durante o dia, fizemos muitas coisinhas mais: visitamos a loja de chocolate Diogo Vaz, famosa por aqui, fomos almoçar no excelente São João do Angolares, o mesmo que escrevi aqui sábado passado sobre ele. Tão bom que tive que regressar! Fiquei feliz que o chef, figura conhecida por aqui, fez referência ao livro que eu havia dado a ele e disse que está a ler!

As crianças, "pegando na branca".
Na volta, uma parada na praia “sete ondas”. Sou obrigado a contar uma curiosidade: nesta praia, a Bárbara saiu para caminhar na areia e a Flávia colocou biquíni e foi ao mar. Em pouco tempo, nos juntamos outra vez e ficamos conversando, na areia, com um pai, local, e suas duas pequenas filhas. Em dado momento, eu disse que estava na hora de irmos. O pai respondeu para mim: “sim, nós também”. E, ato contínuo, dirigiu-se às duas meninas: “tá, pega na branca e vamos embora!”.  As crianças queriam muito tocar no cabelo e pele da Flávia, que estava de biquíni! Alisaram ela, sentaram no colo, demos tchau e nos fomos. Adorei a cena! “Tá, pega na branca e vamos embora!”. Sensacional!

Para fechar a semana de curso, o Carlos Tavares, agroecólogo, amigo e anfitrião da semana, nos convidou para jantar em sua casa no sábado à noite. Excelente, falamos da vida, da agricultura biológica… tudo regado a ótima comida local, bebidas, música e danças! Uma festa!

Lagoa Azul
Sobre o domingo, vou apenas comentar que estive, pela terceira vez, na praia denominada lagoa azul. Linda, belo banho de mar para terminar a semana! 

E hoje, Lisboa… almocei um bacalhau espetacular com um vinho da região do Douro, no excelente restaurante Martinho da Arcada. Mas o melhor que me aconteceu foi o seguinte: desci na estação do Metrô no bairro Chiado e quando saí estava em frente ao “Café A Brasileira”. Local frequentado por Fernando Pessoa, no início do século XX. Mas o legal, o legal mesmo, é que lembrei que um dos meus contos que está no livro “Perspectivas” (Editora Hope), intitulado “O dia que não terminou” se passa em Lisboa, e tem um diálogo entre os três personagens do conto, Álvaro, Lídia e o próprio Pessoa que se passa nesse café. Fui obrigado a entrar… a mesa em que visualizei a conversa estava ocupada, sentei em uma próxima. Abri o conto e li… momento emocionante para mim… 

Frenado Pessoa, café "A Brasileira"

E foi isso, assim termino minha primeira viagem em tempos de Covid. Nada está igual, tudo está diferente. Infelizmente, não diferente o bastante para mudar o estilo de vida que nos levou à situação de crise climática e sanitária que estamos. Fazer o quê? Assim caminhamos nós, a humanidade.

Nenhuma viagem marcada, bem possível que o Caminhando e Contando dê uma parada de mais uns meses!



Água Pedras, pastel de nata e café...

vinho

bacalhau!


sábado, 19 de maio de 2018

Lisboa, 17 e 18 de maio de 2018

O Tejo visto do Cais do Sodré
Cheguei ontem a Lisboa, amanhã cedo saio rumo a São Tomé e Príncipe. Está parada aqui foi apenas para respirar um pouco, passear, comer bacalhau e ter uma pequena reunião que ocorreu hoje pela tarde, com o representante da FAO em Portugal e sua assistente, para conversar sobre um possível apoio para o desenvolvimento dos SPGs, Sistemas Participativos de Garantia, nos países lusófonos. Veremos. Junto comigo estava a Flavia, uma amiga que trabalha na IFOAM - Federação Internacional dos Movimenta de Agricultura Orgânica. IFOAM é quem está me convidando para ir a São Tomé e Príncipe. De resto foi passear e comer. Bolinho de bacalhau, bacalhau ao forno, bacalhau ao Brás! E vários pastéis de nata, um dos doces mais famosos da rica culinária portuguesa. Dureza...
Visual do Museu Fundação
Calouste Gulbenkian
Por uma feliz coincidência, hoje foi o dia do Museu em Lisboa, o que significa que todos estavam de portas abertas, for free. Eu, que adoro museu e não resisto a um 0800, juntei um e outro e aproveitei para visitar alguns. Às dez da manhã já estava na porta do mais bem avaliado de Lisboa, a Fundação Calouste Gulbenkian. Uma impressionante coleção particular, com obras as mais variadas, não apenas pictóricas. Interessante pensar no indivíduo que passa a vida inteira colecionando obras de arte. Como seria o olhar dele sobre o mundo, que mirada estética ele colocava sobre o que via, como identificava o que lhe interessava e quais fatores incidiam na tomada de decisão de uma compra. Posso imaginar que algumas delas caríssimas. Peças de diversas culturas, tapetes orientais enormes de 3, 4, 5 séculos de existência, vasos chineses também antiquíssimos, quadros de Degas, Millet, Tuner, Monet. Esculturas de Rodin
Willian Tuner, no Calouste Gulbenkian
Enfim, um Museu lindíssimo. É uma viagem pensar que todas as obras eram de um só colecionador. Completa o cenário uma bela cafeteria, lounge para apresentações, um parque muito bem cuidado, exposições temporárias convidadas. De fato um lugar para passar horas. Mas eu não tinha tantas horas, e antes do meio dia já estava indo para minha parada obrigatória em Lisboa, a casa de Fernando Pessoa.
Casa de Fernando Pessoa
Além de ser meu poeta preferido, sempre que leio algo dele, ou sobre ele, descubro uma novidade. Hoje, por exemplo, soube que seu famoso baú ainda guarda cerca de três mil documentos a serem decifrados. Este baú foi encontrado na sua casa, quando da sua morte, repleto de papéis. Os escritos vem se tornando públicos pouco a pouco ao longo de décadas. Ele escreveu freneticamente durante sua vida. No seu quarto, nesta casa que visitei, está, além da sua cama, a escrivaninha famosa onde surgiu o seu heterônimo mais importante: Alberto Caeiro. Vou reproduzir aqui o que ele escreveu a um amigo, Adolfo Monteiro, em 13 de Janeiro de 1935, numa carta bastante conhecida entre admiradores e estudiosos de sua obra:
A cômoda do nascimento de Alberto Caeiro
... Ano e meio, ou dois anos depois, lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro — de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada, e apresentar-lho, já me não lembro como, em qualquer espécie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira — foi em 8 de Março de 1914 — acerquei-me de uma cómoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, O Guardador de Rebanhos. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre...
Réplica do baú de Pessoa.
O original está com um privado
Entender Pessoa não é fácil. Eu desisti há muito tempo. Só leio e aproveito as sensações que advém da leitura.
Para completar meu passeio por museus fui à casa de Amália Rodrigues, a fadista portuguesa que levou o nome do seu país ao mundo. Não acho que no Brasil tenhamos uma ou um artista que significa para o país o que Amália significa para Portugal.
Sua casa é linda, na maior parte mantida tal e qual era quando ela vivia ali e percorrer seus cômodos é conhecer mais de sua vida e caminhar sobre lembranças. Minha mãe gostava muito de Amália, assim como toda uma geração de brasileiros que a viu gravar e se apresentar em nosso país por décadas, dos anos 1940 até os anos 1970. 
Lisboa visto desde a Alfama!
E entre tudo isto ainda pude caminhar muito. Ontem, quinta-feira, ao entardecer, pelo Rossio, passando pelo Arco da Augusta, Tejo a partir do Terreiro do Paço e caminhando pela sua margem até o Cais do Sodré. Fui também ao Chiado, parando no café A Brasileira para ler um pouco no mesmo local que Fernando Pessoa frequentava.
Hoje caminhei pela linda e nostálgica Alfama. Aliás, terminei o dia neste bairro, comendo bacalhau e ouvindo Fado em um pequeno restaurante, em uma construção de mais de 400 anos. Segundo o Pedro, dono desta casa de Fado que fui, o Fado nasceu nas caravelas, na época das grandes navegações, quando, ao escurecer, para espantar o medo da noite e o temor do desconhecido, os marinheiros começavam a declamar os versos de Camões, o universal poeta de língua portuguesa. 
Arco da Augusta
Da declamação saudosa à música, da música ao Fado, que, portanto, é filho da saudade. Pedro, fã de Camões, tem também sua verve de poeta e a poesia navega fácil entre suas palavras... ele ainda completa: era o Fado, saudade musicada, que trazia os marinheiros de volta...
Adoro o lirismo poético da alma lusitana.
Valeu minha parada em Lisboa. Amanhã viajo para São Tomé e Príncipe. Conto de lá!




Pedro e seu restaurante A Viela do Fado

Rua Augusta, coração de Lisboa

Achei esta rua... Minha Santa de devoção...

Chiado

Monet