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segunda-feira, 2 de agosto de 2021

São Tomé e Lisboa, 31 de julho e 01 e 02 de agosto de 2021

 

Atividade durante nosso curso da semana!

E, em uma espécie de presente por bom comportamento, ainda pude desfrutar de um dia em Lisboa.

Feira de produtos locais e biológicos
O fim de semana em São Tomé misturou trabalho e passeio. No sábado, de manhã, fui visitar uma loja de produtos biológicos e/ou locais, a Qua Tela, e a feira, que foi organizada em frente à loja, com produtores certificados pelo Sistema Participativo de Garantia em São Tomé. Um resultado do projeto no qual me envolvi aqui, o OM4D (Organics Market for Develepment), capitaneado pela IFOAM, com apoio da cooperação Holandesa.

E, durante o dia, fizemos muitas coisinhas mais: visitamos a loja de chocolate Diogo Vaz, famosa por aqui, fomos almoçar no excelente São João do Angolares, o mesmo que escrevi aqui sábado passado sobre ele. Tão bom que tive que regressar! Fiquei feliz que o chef, figura conhecida por aqui, fez referência ao livro que eu havia dado a ele e disse que está a ler!

As crianças, "pegando na branca".
Na volta, uma parada na praia “sete ondas”. Sou obrigado a contar uma curiosidade: nesta praia, a Bárbara saiu para caminhar na areia e a Flávia colocou biquíni e foi ao mar. Em pouco tempo, nos juntamos outra vez e ficamos conversando, na areia, com um pai, local, e suas duas pequenas filhas. Em dado momento, eu disse que estava na hora de irmos. O pai respondeu para mim: “sim, nós também”. E, ato contínuo, dirigiu-se às duas meninas: “tá, pega na branca e vamos embora!”.  As crianças queriam muito tocar no cabelo e pele da Flávia, que estava de biquíni! Alisaram ela, sentaram no colo, demos tchau e nos fomos. Adorei a cena! “Tá, pega na branca e vamos embora!”. Sensacional!

Para fechar a semana de curso, o Carlos Tavares, agroecólogo, amigo e anfitrião da semana, nos convidou para jantar em sua casa no sábado à noite. Excelente, falamos da vida, da agricultura biológica… tudo regado a ótima comida local, bebidas, música e danças! Uma festa!

Lagoa Azul
Sobre o domingo, vou apenas comentar que estive, pela terceira vez, na praia denominada lagoa azul. Linda, belo banho de mar para terminar a semana! 

E hoje, Lisboa… almocei um bacalhau espetacular com um vinho da região do Douro, no excelente restaurante Martinho da Arcada. Mas o melhor que me aconteceu foi o seguinte: desci na estação do Metrô no bairro Chiado e quando saí estava em frente ao “Café A Brasileira”. Local frequentado por Fernando Pessoa, no início do século XX. Mas o legal, o legal mesmo, é que lembrei que um dos meus contos que está no livro “Perspectivas” (Editora Hope), intitulado “O dia que não terminou” se passa em Lisboa, e tem um diálogo entre os três personagens do conto, Álvaro, Lídia e o próprio Pessoa que se passa nesse café. Fui obrigado a entrar… a mesa em que visualizei a conversa estava ocupada, sentei em uma próxima. Abri o conto e li… momento emocionante para mim… 

Frenado Pessoa, café "A Brasileira"

E foi isso, assim termino minha primeira viagem em tempos de Covid. Nada está igual, tudo está diferente. Infelizmente, não diferente o bastante para mudar o estilo de vida que nos levou à situação de crise climática e sanitária que estamos. Fazer o quê? Assim caminhamos nós, a humanidade.

Nenhuma viagem marcada, bem possível que o Caminhando e Contando dê uma parada de mais uns meses!



Água Pedras, pastel de nata e café...

vinho

bacalhau!


sexta-feira, 30 de julho de 2021

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 28, 29 e 30 de julho de 2021

 

Ministro da Agricultura de STP, recebendo o Vozes 2!

Três dias intensos na atividades do curso: quarta-feira, quinta e hoje, sexta. Ontem fomos à campo, em dois lugares. Um deles foi uma propriedade chamada “Terra Batata”, de propriedade de uma Igreja Nova Apostólica -  holandesa. Uma área onde esta Igreja aporta recursos, buscando que sua prática e resultados inspirem outras unidades produtivas a seguirem seu exemplo de agricultura biológica. Uma comunidade rural que fica a uma altitude considerável para a realidade da ilha, cerca de mil metros. 

Café. na Terra Batata.

Em tempos antigos, pertencentes a Roça Monte Café, uma das mais importantes fazendas de São Tomé na época colonial, especializada, como diz o nome, em café. E fomos visitar também a área da família do Sr Antônio. Olha que pujante a natureza e que bonitinho o espaço de comercialização da família. Ele é também produtor de hortaliças. Sobre a foto com cenouras e cebolas: fazer o quê? Se existe demanda tem quem plante, mesmo sendo cultivos pouco conectados com o ecossistema local. Mas… para isso também existe o conhecimento Agroecológico, fazer que esse cultivo exógeno seja o mais elegante possível. E, no que vi do manejo do Sr. Antônio, ele captou muito bem esse encaixe entre a agricultura inserida na exuberância do trópico úmido com espécies de hortaliças de origens distantes dessa realidade. 

Cebola, cenoura...

Durante o curso, as conversas, palestras e trabalhos em grupo giraram ao redor do objetivo, já comentando no post anterior, de São Tomé e Príncipe vir a ser um país com 100% de sua área agrícola reconhecida como orgânica (biológica, no termo mais usado por aqui). Eu vibro muito com a ideia de um país do continente africano, financeiramente pobre, vir a ser o primeiro a banir o uso de agrotóxicos, adubos químicos de alta solubilidade e organismos modificados geneticamente. Será um luxo, não é?

Pela tarde de hoje, sexta-feira, como atividade final do curso, foi organizada uma mesa redonda entre os alunos e alunas, representantes do poder público e do campo da produção e transformação. Eu, em mais de três décadas de trabalho na área, nunca havia participado de uma reunião nacional, com a presença do Ministro da Agricultura, com o objetivo de converter a agricultura do país, integralmente, à agricultura orgânica. Só para deixar registrado, nos dados de 2019, os últimos que temos, São Tomé e Príncipe aparece com 25% da sua área com cultivos orgânicos, o que o põe como terceiro lugar na lista dos países com maior percentual de área certificada como orgânica.

Mesa redonda - STP 100% Bio

No fim da mesa redonda, uma sessão de autógrafos dos meus Vozes da Agricultura Ecológica... se eu gosto? Gosto, muito, de ver essas vozes ecoando por aí...

E, confesso aqui o que confessei de público, na minha fala durante a mesa redonda, cheguei a ficar emocionado. Esse pequeno país é de fato cativante, pela sua instigante história, por seu povo bacana, sua natureza intensa, sua culinária tão saborosa quanto peculiar. Amanhã tem trabalho ainda de manhã, depois pegar meu teste de Covid, que fiz hoje e começar o trecho de volta, no domingo. Mas deve ter tempo ainda de bons papos e boas comidas!

Barbara, amiga de Ifoam, comprando na banca - em frente
à propriedade


terça-feira, 27 de julho de 2021

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 26 e 27 de julho de 2021.

 

No campo, durante o curso.

Dando prosseguimento à minha semana aqui em São Tomé, ontem e hoje foi dia de curso. Estou aqui na qualidade de formador, junto com duas amigas que trabalham em Ifoam, a Flávia e a Bárbara. São 12 formandos/as, em um curso de Formação de Lideranças em Agroecologia e Agricultura Biológica. Mas… nessa vida, “formar” e “ser formado” é uma dança cotidiana, estamos nela, levando e sendo levados. Assim temos trabalhado, da forma mais horizontal possível! São Tomé e Príncipe está em um processo interessante de buscar ser o país com a maior área, em termos percentuais, com produção orgânica no mundo.

Roça Monte Café, onde fica a Cecafab
    Em 2018, quando estive aqui pela primeira vez, lancei essa ideia/desafio. Em 2019, na minha segunda vinda, retornamos o assunto inclusive em uma reunião com o Ministro. Pegou, estou surpreso como estão a falar nisso… ideia já comprada, inclusive, por algumas lideranças políticas. Com receio das falhas e armadilhas da memória, fui obrigado ontem a perguntar para Flávia quem foi que começou a falar nessa ideia da agricultura de São Tomé e Príncipe ser 100% orgânica e ela me respondeu: “você!”. Sim, acho mesmo que foi e não me surpreende, nas minhas estratégias de trabalho sempre lancei mão desse método de estimular o caminhar a partir dessas metas ousadas, às vezes até estimulando o que considero uma saudável competição. Deixa eu ressaltar que, em determinado feito social, em uma conquista coletiva, importa pouco quem teve a ideia. O alcance do objetivo só se fez possível pela dedicação de tantas e tantos, que se envolvem nos inúmeros momentos necessários para isso.

Enfim, veremos até onde a ideia se materializa.

No curso, ontem, falei o que considero ser o eixo fundamental para o desenvolvimento da agricultura orgânica aqui, nessa ilha, onde o ecossistema que predomina é o trópico úmido com solos vulcânicos: a agricultura de biomassa. E que o insumo com o qual mais eles devem se preocupar para viabilizar esse desiderato é a informação de qualidade. 

Pimenta. Banana e mamão, além
outras companhias

Hoje, pela tarde, fomos visitar duas Cooperativas muito interessantes. Uma que trabalha com Pimenta do Reino e outra com café. A Coopiba e a Cecafeb. Junto com o Cacau e, mais recentemente, a baunilha, os quatro cultivos mais importantes do país.

Chamou mais minha atenção conhecer a cooperativa que trabalha com pimenta. É uma planta trepadeira, de nome científico Piper nigrum. Vimos o processamento dos seus frutos que, junto com o ponto de colheita, irá determinar a cor do produto final: verde, preta, branca ou vermelha, cada uma delas com suas particularidades, apesar de serem provenientes da mesma planta. Uma das diferenças, além da cor, é o teor de piperina, ou seja, quão forte ela ficará. Fiquei pensando como essa espécie provocou intensos movimentos no mundo, obrigando homens a transladarem-se a mares desconhecidos e pouco amigáveis, buscando satisfazerem suas necessidades de lucro ou sobrevivência, atendendo a paladares exigentes ou curiosos. Já foi moeda e é um tipo de commodities do mundo antigo. O maior produtor mundial é a Índia, mas o Brasil, principalmente na região norte, produz também grandes quantidades.

Pimentas, secando, com suas diferentes cores!

Falando em paladar exigente, no almoço de hoje uma particularidade da culinária local: feijoada de peixe. Feijão mulato, peixe e especificarias. Delicioso… E eu sempre aprendi que peixe e feijão não combinam… mentira pura… não é incomum que nossa cultura alimentar nos engane, impedindo-nos de aventuras por determinados gostos ou combinações, dizendo, por exemplo que abacate só com leite, manga nunca com leite, fazendo-nos escolher entre coentro ou salsinha e coisas dessa natureza.

Bem, o dia foi cheio, teria mais para contar, mas nunca dou conta de contar tudo… fico por aqui, hora de preparar o trabalho de amanhã!

 

domingo, 25 de julho de 2021

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 25 de julho de 2021

Uma das tantas praias de São Tomé

São Tomé e Príncipe é um pequeno país, conformado por duas ilhas. A ilha de São Tomé e a ilha de Príncipe. As duas juntas perfazem uma área de mil quilômetros quadrados. Só pra dar um exemplo, o município de Vacaria, no RS, possui três vezes essa área. Sim, é uma país com uma extensão territorial muito pequena. O que não o deixa menos interessante, talvez seja exatamente o contrário, esse tamanho lhe dá um toque todo especial.

Casa típica, colonial, na cidade
Essas ilhas eram desabitadas e na chamada época dos “descobrimentos” foi colonizada por Portugal, ainda no século XV, que a utilizou como local de “aclimatação” dos negros escravizados em outras partes, principalmente Angola. No início, para colonizar a ilha, foram enviados degredados portugueses, que colaboravam nessa “domesticação” dos negros que chegavam. Isso dos 1500 até os 1800. Posteriormente, com o sucesso obtido com algumas culturas no Brasil, como cana de açúcar, café e cacau, começaram esses cultivos também por aqui. O modelito, aquele já nosso conhecido: portugueses, com trânsito na corte, ganhavam ou compravam, a troco de quase nada, terra, escravos e privilégios, com a obrigação de gerar riquezas e pagar tributos. Chegavam aqui, organizavam suas “roças” (fazendas), deixavam tudo na mão de um capataz local, e voltavam para a metrópole. Via de regra, vinham aqui uma vez por ano, ou menos, de preferência na gravana, estação onde as chuvas dão trégua e o calor ameniza. Os que possuíam menos terras viviam seus momentos de glória, ainda que caricata, nessa distante, calorenta e embicharada ilha tropical. As roças mais “fortes”, com cana, café e, principalmente, cacau, davam aos seus proprietários recursos que lhes permitiam uma vida burguesa na terra pátria ou Paris, centro de interesse das cortes europeias.

Praia suja... de onde o lixo?
Meu ou teu... trazido pelo mar...
Hoje, domingo, caminhei cedo pela cidade. O visual geral é pobre. As ruas não são limpas nem particularmente sujas, ainda que em alguns pontos vemos um acúmulo de lixo indesejado. Muitas casas decadentes, com suas paredes descascadas clamando por pintura e madeiras lutando contra os indesejados cupins. Coisas da vida: trópico unido, a vida aqui vive com muita pressa, instala-se e se desenvolve com muito vigor. Em Belém ou Manaus não é nada diferente! Na rua, vê-se alguns pedintes, algumas pessoas dormindo sob as marquises. Outra vez, nada diferente do que vemos no Brasil. Mas sim, vou reforçar para que não reste dúvidas: o visual geral é bem mais pobre do que normalmente vemos em nosso país.

No final da manhã, fui ao escritório da Adappa, ONG local, onde será a maior parte das atividades de formação nesta semana. Já havia estado nesse local na última vez que estive por aqui, mas era necessário ver o espaço reformado e preparar algumas das atividades da semana. Bom lembrar que estou aqui a trabalho… pela tarde fiquei no quarto, entre descansar um pouco e preparar algo das palestras e dinâmicas da semana. Pela noite, chegaram a Flávia e a Bárbara, provenientes da Alemanha. Trabalharemos em equipe esses dias e nos reunimos brevemente durante o jantar para alguns ajustes necessários.

Restaurante Pirata - muito bom
atum com pure de batata dobe
e alguns legumes
Mas tive sim tempo para almoçar bem, no restaurante Pirata. Um filé de atum com purê de batata doce, precedido de um tipo de rissoles, feito com massa de farinha de milho e fruta pão, com recheio de peixe. Acompanha um molho à base de coco e ervas locais. O local muito agradável, em uma varanda de madeira praticamente sobre o mar.


sábado, 24 de julho de 2021

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 23 e 24 de julho de 2021


Visual da praia desde o Restaurante de São João de Angolares

Quase dois anos depois, volto a fazer uma viagem internacional. Nesse momento que, desejamos, seja do desfilar da retaguarda da COVID 19.

E a ousadia de viajar nesse momento, com variantes de nomes gregos rondando por aí, se justificou para mim por duas razões. A primeira por ser a trabalho, a segunda por ser em São Tomé e Príncipe. Pela terceira vez estou nesse simpático país do Continente Africano, que de continente tem pouco, já que está fincado no meio do Atlântico e rodeado de água por todos os lados.

Estou aqui convidado pela Ifoam - Organics International, para colaborar em um curso de cinco dias de duração, sobre Agricultura Biológica. Cheguei ontem à noite e fui jantar no Papa Figo um dos bons restaurantes de São Tomé. Peixe grelhado e banana frita… pensa… para acompanhar uma Rosema, a cerveja local.

Pé de Baunilha, ainda jovem.

 O curso começa segunda, mas hoje, sábado, 24 de julho, foi dia de visitar uma roça. Fui com meu amigo Carlos Tavares, meu anfitrião aqui da ilha, visitar sua lavoura de baunilha. Bacana, né? É sim.

A Baunilha, nome científico Vanilla planifólia, é uma planta que vem do que hoje é México e de outros países centro americanos. É tipo uma orquídea trepadeira. Os frutos são vagens de 10/15 cm de comprimento e exalam aquele odor e sabor característico, que vem de uma substância que se chama... Vanilina! Mesmo tendo a indústria aprendido a fazer vanilina sintética, a natural segue muito procurada, fazendo com que a baunilha seja um dos três produtos agrícolas mais caros do mundo.  

Depois de ver sua lavoura de baunilha, cultivada sob uma pujante floresta tropical, fomos ver outros lugares interessantes, na parte sul da Ilha. Um deles a Roça São João de Angolares. O termo “roça”, nesse contexto, significa as antigas propriedades portuguesas, com lavouras extensivas e mão de obra africana, no caso de São Tomé, principalmente oriunda de Angola. Essas propriedades têm suas casas grandes, senzalas e estruturas de apoio. No caso específico da Roça São João de Angolares, ela foi transformada em uma pousada e restaurante, de propriedade do ativista cultural, artista e cozinhador, segundo sua própria definição, João Carlos Silva. Bom, que lugar, que comida, que bom papo com o proprietário... claro que aproveitei e deixei com ele um “Vozes da Agricultura Ecológica”... achei que tinha tudo a ver e presenteei com muito prazer. 

Sobre o menu, foram vários pratos degustação antes do principal, seguido de duas sobremesas, tudo muito bom, com uma mescla (fusion?) do local e do global que só os grandes chefs sabem fazer. Já havia estado nesse restaurante e gostado tanto que pretendia mesmo voltar. Que bom que foi logo no primeiro almoço desse meu regresso a essa ilha, que sigo achando para lá de interessante.

Teria mais para contar... mas vou deixar algumas fotos com legendas contando de outros lugares em que fui hoje.

Para terminar, vou dizer que não posso negar que viajar nessa época está diferente. Minha sensação é que a diferença não está na máscara de uso continuo (médio…) ou de outros pontos no tal protocolo de segurança, cumprido de forma tosca, em todos voos e aeroporto em que passei. Acho que a diferença é mais fruto do medo, da ansiedade, dos meses de menos gente na vida de boa parte de nós, daqueles que vez ou outra andam de avião. Inegável que buscar alegria do futuro está um pouco mais difícil, ou no mínimo arriscado. Penso que a geração pós segunda guerra não tinha vivido um momento de tanto receio do que vem… é interessante o peso que o porvir joga nas nossas vidas. O presente complicado é aliviado na perspectiva do futuro ameno. Se a perspectiva desse último nos falta, a ansiedade aumenta. A tal ponto que, talvez por necessidade, estamos sempre projetando um futuro melhor. Seja acreditando em Deus ou na vacina…

Bom, deixa para lá, durante essa semana vou contando mais enquanto caminho por São Tomé!

Um dos pratos degustação - atum, saladinha de
abobrinha, sementes de abóboras torradas...
um pedacinho de abacate com geleia de 
maracujá, azeite e limão.

Banana recheada com frango e bacon, feijão
também com frango e bacon, um 
bolinho a base de amendoim

Prato principal: marlim, grão de bico, batata
doce assada, farinha de mandioca

Uma das sobremesas: banana bêbada,
com cacau, geleia, e mais... que eu não lembro!

uma das construções de uma "Roça", nesse caso abandonada...


sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Praia, Cabo Verde, 07 a 11 de outubro de 2019

Fazendo biofertilizante, no campo.
             Outra vez ando por Cabo Verde, esse arquipélago relativamente remoto, situado em pleno Atlântico, ao nordeste de Recife e mais ou menos próxima de Dacar, capital do Senegal. Estou aqui pela segunda vez, para uma atividade muito semelhante à que fiz há exatos quatro anos: curso de agricultura biológica, contratado pelo Ministério da Agricultura. Cheguei domingo, dia 06 e saio daqui sábado, 12 de outubro. Outra vez cometo o mesmo erro, vir trabalhar e não conhecer ao menos uma outra ilha, para poder ter uma ideia melhor do país. Estou na capital, Praia, cidade que fica na Ilha de Santiago. São onze ilhas no total, nove delas habitadas.
       
Fim do dia em Praia
Praia tem 130 mil habitantes, rodeada pelo atlântico. O visual é bonito, o mar é sempre agradável de ver, mas não é deslumbrante, incrível ou algum adjetivo do gênero. Parece que em algumas ilhas sim, merece todos esses superlativos. A cidade é relativamente organizada. O centro histórico possui um casario bem conservado, arquitetura colonial portuguesa e fachadas pintadas de diferentes cores. Em algum lugar já ouvi que as casas em aldeias de pescadores são pintadas na mesma cor da embarcação do proprietário. Não sei se é o caso aqui.
                   
Quintal da música
Do pouco que vi, nas duas vezes que aqui estive, o destaque maior da cidade é a boa onda dos habitantes, a tranquilidade do ambiente, a culinária e a música. Sim, a música cabo-verdiana ganhou mundo com justiça. É linda, meio calmante, cantada normalmente em crioulo, o idioma local. Tem um toque de bossa nova, um gingado afro, uma tonalidade aveludada e uma melancolia que muitas vezes faz lembrar o fado. Procura na net Cesária Evora ou Teófilo Chantre e você vai entender o que estou falando. Outra nota boa em Praia, além da música, é a culinária. Come-se bem. Peixes e frutos do mar, preparados com forte influência portuguesa e toque dos povos africanos que vieram para cá à força, aclimatando-se para sua não menos forçada aventura em terra brasileiras. Sim, quando os portugueses chegaram nessas ilhas elas eram inabitadas. Aqui o termo colonização cabe, o arquipélago foi colonizado pelo povo luso e seus escravos africanos.
Cachupa, à base de milho, feijão e carnes é o prato mais típico, que todos insistem para que eu coma e que encontrei até nos cafés da manhã dos hotéis. Mas...
Bacalhau à Lagareira
Eu prefiro camarão ou bacalhau... Além de ser um prato muito quente para as condições do ambiente. Quando eu for à Noruega prometo pedir uma Cachupa. Brincadeira, comi duas vezes no almoço servido durante o próprio curso.
        O restaurante onde ouvi a música de melhor qualidade foi o Quintal da Música. A comida estava só razoável, mas compensada pelo ambiente, bonito, sereno e de bom gosto, com seus lustres feitos de panos com motivos locais, chão de pedras portuguesas e paredes pintadas em cores fortes, cobertas de fotografias em preto e branco, quase todas com rostos de músicos que tocaram no local. É verdade que o calor, já que o ambiente não tem ar refrigerado, tira algo da sofisticação simples do restaurante. Com a casa cheia, suei mais do que gostaria durante o jantar. Ainda assim, seria uma lástima vir a praia e não comer ao menos uma vez no 5ª da Música.                        
De prosa em sala de aula
Sobre o trabalho, a semana foi toda com um curso de agricultura biológica, nome usado, por influência portuguesa, para a agricultura orgânica por essas plagas. Atividade intensa, cinco dias inteiros, com pouco mais de vinte participantes, todos profissionais do Ministério da Agricultura de Cabo Verde. 
Foi tudo bem, a avaliação final foi muito positiva, o que sempre é bom de ouvir. De fato a demanda por essa forma de ver e fazer agricultura é generalizada, o que tem feito com que meu volume de viagens só aumente, e parte de quem produz, de quem consome ou de quem estuda e ensina agricultura.
Milho devorado, batata-doce incólume
Nas atividades à campo, tive oportunidade de visualizar a infestação de gafanhotos que vem assolando as partes mais baixas da ilha, que sofre com uma intensa seca há três anos. Esse inseto está por toda parte, no corredor ou na piscina do hotel, nas ruas e nos campos. Ver o que eles fazem nas lavouras é impactante. Mas também interessante, ao lado de um pé de milho completamente atacado, ver uma batata-doce ou um mamoeiro passando incólume pela sua voracidade. Como se o inseto estive dizendo o que se deve ou não plantar na ilha...
Hoje, sexta-feira, fim de tarde, fui tomar uma água Pedras no Boca Bar, estilo rústico, todo com motivos beira mar, madeiras e palhas, em frente ao oceano, na praia Gamboa. Agradabilíssimo.
E assim foi minha semana. Amanhã meu voo sai só de noite, devo passar o dia na Prainha, uma praia que fica a 500 metros do meu hotel, o Pérola. Soube que por cinco euros posso alugar mesa, barraca e uma espreguiçadeira. Pensa se quero... como tenho feito nas últimas vezes, esse será o único post da semana, o Caminhando e Contando parece estar chegando ao fim... sua energia está se dissipando!
Noite, centro histórico de Praia

sábado, 20 de julho de 2019

Colônia, 17 a 21 de julho de 2019.


Catedral de Colônia - o ponto turístico mais visitado da Alemanha.
Dentro dela estariam as ossadas dos três Reis Magos. 
Hoje é sábado e estou em Colônia, Alemanha, desde quarta-feira. Vim direto de São Tomé, passando por Lisboa. Sair de um país pequeno, do continente africano, financeiramente pobre, e vir para um dos locais mais ricos do planeta é uma oportunidade única para entender algo do nosso inexplicável mundo.
Querem saber o que entendi? Isso, que ele é inexplicável.
Vista do Neumakt
O que me traz à Colônia é um convite diferente dos que estou acostumado a receber, quase insólito. A Fundação C&A, essa mesma, das lojas de roupas, organizou um processo com algumas pessoas que ela identificou que poderiam colaborar para prever algo sobre o futuro da indústria da moda. Pessoas de todos os continentes, grupo pequeno, pouco mais do que vinte. Dos que me leem, aliás cada vez em número menor, meus filhos já me explicaram que blog é um meio arcaico de se comunicar, não sei quem já refletiu sobre a loucura do mundo da moda. Porque compro uma roupa chique em uma loja cara em Milão e encontro, quase discretamente, uma etiqueta Made in Indía? Como uma roupa chega da China na minha pequena cidade e é vendida em uma loja de “tudo por vinte reais”? Quais os custos de uma transação como essa? Qual o impacto sobre o meio ambiente, quanto ganhou um trabalhador dessa cadeia de produção? 
Galera discutindo sobre a industria da moda!
Essas são as duas perguntas fundamentais dessa reunião que participei. Como a indústria da moda poderá responder a esses dois problemas: pobreza e sustentabilidade. Ao menos garantir que seus processos tenham impacto positivo sobre essas duas questões. Impacto é uma dessas palavrinhas da moda. Ouvi aqui que os investidores, de qualquer setor, não se preocupam mais apenas com análises de riscos e retornos. Também querem medir impactos positivos das ações derivadas do seu investimento. Imagino que, se não todos, ao menos alguns deles. Na reunião ouvi algumas das ideias que esses tais especialistas, eu incluído (sic), levantaram. Economia circular é outra palavra da moda. Deveriam as grandes marcas, C&A é uma delas, ter um vigoroso setor de roupas usadas nas suas lojas? Deveriam estimular seus clientes a levar para trocar as roupas que não querem mais? Ou deveriam ter obrigação sobre seu lixo? Nesse último caso, seria sua responsabilidade dar um destino às roupas vendidas por elas e que não mais interessam a quem comprou.
Na Suécia, isso já acontece com o lixo. Olha que show: uma lata de coca-cola que está no chão de uma cidade sueca é responsabilidade da coca-cola. Legal né? Adivinha o que a empresa faz? Máquinas de coleta espalhadas pela cidade, você leva a lata na máquina e tira uma graninha por cada uma que entregar.
Ruas de Colônia
Ah, esqueci, não podemos fazer isso porque seria tirar a liberdade das empresas... uma lata no chão é culpa minha ou sua que a jogamos ali. Resolvido. Responsabiliza-se o cidadão e onera-se o estado, responsável por dar destino a essa lata. As empresas nadam em águas serenas.
Voltando às roupas, à indústria da moda, talvez mais preciso dizer à perversa indústria da moda, como ela poderia ser mais contemporânea? Menos século XIX, mais século XXI? 
Esta é a tal pergunta de um milhão de dólares, que esse processo que estou participando quer responder!
Em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe, de onde acabo de vir, nas praças e em cada esquina, vemos vendedores ambulantes de roupas. Que roupas? Roupas doadas pela Europa. Europeus que sentem-se sensibilizados com a pobreza africana. Bonito isso, e falo sem ironia. Mas doam do que tem ou do que sobra? Doam roupas ou lixo? Estive na África algumas vezes, Moçambique, Uganda, São Tomé e outros. É visível que a oferta que vejo nas ruas, de roupas usadas, é superior às suas necessidades. Certa vez comprei um short da adidas com um desses vendedores. Dois euros. Cobrou caro porque eu era estrangeiro. Antes que alguém pense, não considero errado vender o que ganharam. É uma maneira de fazer um sistema de distribuição funcionar e de circular certa grana. Nesse caso, e não é o único, o pecado está mais na capital, menos na periferia. Voltando ao que comentei, sendo a oferta superior às necessidade, sobra muita coisa. E o que sobra, o que é? Lixo. Lixo europeu, devida e solidariamente exportado para África. E não é só com roupa nem só com países africanos que ocorre isso. Lembro quando o Brasil liberou a importação de pneus usados... pneus... hahaha e pqp... não sei se ainda está em vigor, mas que rolou, rolou. 
Schildergasse
Bom, a prosa é longa. A reunião foi interessante e, ao sair dela, caminhei pela famosa rua Schildergasse, o point das compras em Colônia. Todos de sacola na mão. As grandes marcas, Zara, HM, Nike, e tantas outras, em liquidações de verão. Pensei na sustentabilidade da indústria da moda... Passei na C&A e vi camisetas de algodão a € 1,40. Pensei nos produtores de algodão, nos trabalhadores das fábricas. Em quanto eles ganham... Fiquei calculando em quanto tempo essas roupas estariam disponíveis nas ruas de São Tomé... Não, não é uma equação fácil de responder...
Não posso achar ruim que as empresas preocupem-se com isso. Pelo contrário. Se a preocupação é sincera e se está disposta a cortar na própria carne, acho muito bom. Não sei, prefiro crer que sim, ser intelectual pessimista todo o tempo deve cansar, por sorte não sou nem um nem outro. 
Deprimido com tantos pensamentos, com tantas perguntas sem respostas, fui procurar uma cervejaria, para tomar a famosa Kölsch, a cerveja de Colônia! Acompanhada de salsichas e batatas!
A cidade é muito simpática e nesses dias pude caminhar por ela, pelas estreitas ruas da cidade antiga, ver sua famosa catedral, tomar cafés e sorvetes, comprar comidinhas orgânicas para levar.
E esse será meu único post de Colônia. Amanhã já regresso à casa, nesses dias aqui, além da reunião e de andar pela cidade (curti muito a Haupmarkt), aproveitei para descansar no excelente hotel que fiquei, o Pullman Cologne, e escrever dois capítulos do Vozes da Agricultura Ecológica 2, que tenho desejo de lançar ainda este ano. Veremos!
Na próxima viagem internacional, que não sei qual será, conto mais. Fui!


terça-feira, 16 de julho de 2019

São Tomé e Príncipe, 14, 15 e 16 de julho de 2019


Reunião com Sr Francisco Ramos, Ministro da Agricultura de
São Tomé e Princípe
E meus últimos dias em São Tomé passaram-se entre passeio no domingo e trabalho na segunda e terça-feira. O resumo da estadia de uma semana neste país é que foram dias agradáveis e, sobretudo, interessantes.
Vista da praia dos governadores
Domingo foi dia de domingar: estiquei a manhã no lindo hotel onde estive três noites, o Roça Santo Antônio. No final da manhã peguei o carro e fui do oeste em direção ao leste da ilha, passando pelo norte, na única estrada disponível. Cheguei até Neves, uma cidade importante, parece que a parte mais piscosa da ilha. Não prossegui até Santa Catarina, onde acabaria a estrada, que não nos permite circundar toda a ilha. A falta de algumas infraestruturas básicas é uma característica deste país, é claro que antes de estrada resolver problemas de saneamento, educação ou saúde é prioritário.
Alguns quilômetros antes de chegar a Neves, a estrada bordeia o mar, sendo particularmente bonita. No caminho passei pela praia de Micolo, onde mulheres assavam peixes e frutos do mar em pequenas grelhas, famílias almoçavam e homens bebiam Rosema, a cerveja local. 
Praia Lagoa Azul.
Segui até a Praia dos Governadores, onde parei apenas para tirar umas fotos. Segui viagem e mais adiante vi a por todos indicada Praia da Lagoa Azul. Uma pequena baía, de fato lindíssima. Saí da estrada e em poucos metros cheguei até a praia, quase vazia, vi apenas um casal de turistas e uma dezena de locais que foram preparados para o almoço e, a julgar pela quantidade de cerveja, para a festa. Afinal, era domingo.
Conversa com agricultoras/es em Santa Luzia
Segunda-feira fomos para a comunidade de Santa Luzia e passamos o dia visitando parcelas, pequenas áreas onde agricultores e agricultoras cultivam hortas, com tomate, pimentão, cenoura, vagem. Vi pouco conhecimento das culturas por parte das famílias, cultivos deslocados em relação ao potencial do local, manejos que praticamente desprezam o que a natureza oferece e propõe. Conversamos muito e tentei dar algumas sugestões. Ali no campo, sentindo o calor no lombo, vendo e dialogando com a vegetação local, podemos facilmente perceber que cultivar cenoura ou tomate nessas condições é como criar um cão esquimó no trópico. Até dá, mas não é apropriado e o trabalho fica exagerado... enfim, este colonialismo vegetal, onde todos queremos tomate ou alface em nossas saladas, leva a essas situações pouco recomendadas na agricultura. Uma das causas de degradação ambiental na agricultura é essa pressão por alimentos pouco adaptados.
Ontem, no final da tarde, tive em uma breve reunião com o Ministro da Agricultura, com os integrantes do Projeto OM4D - sigla em inglês para mercados orgânicos para o desenvolvimento. Este Projeto é capitaneado por IFOAM - Organics International, e são eles que me contratam para estar aqui estes dias. 
E terminamos o dia em um jantar na casa do Carlos Renato, Presidente da Adapa, ONG que faz o papel de anfitriã enquanto estou por aqui, junto com outros companheiros com quem trabalhei esses dias. Tudo muito bom. Comi um excelente Calulu de Peixe.
Hoje fomos à comunidade de terra batata, visitar uma área que é da Igreja Apostólica e que se pretende seja demonstrativa em agricultura biológica. Vi Pimenta do reino, café e horta. Área interessante e com alto potencial de cumprir o que dela se pretende.
Micolo

Café sombreado
E agora estou no Café Central, do mesmo Hotel Central onde dormi os últimos dois dias, escrevendo e esperando minha carona para o aeroporto. Passei exatamente uma semana neste pequeno e, uso outra vez a mesma palavra, interessante país. Daqui vou para Lisboa e de lá para Colônia, Alemanha, onde tenho uma reunião na sexta-feira.
De lá conto!

sábado, 13 de julho de 2019

São Tomé e Príncipe, 11, 12 e 13 de julho de 2019

Tomando vinho de palma com amigos São Tomenses. 

Cheguei em São Tomé, capital de São Tomé e Príncipe, na terça-feira e, como comentei no post anterior, trabalhei quarta e quinta-feira, ministrando um curso. As primeiras duas noites dormi em um hotel simples, mas suficiente, no centro da cidade. Para facilitar a vida. Quinta à tarde aluguei um carro e fui para o Hotel Santo Antônio, em um local mais isolado e que fica a 20 quilômetros da cidade. Da outra vez que tive em São Tomé havia visitado esse local e prometido que se houvesse uma próxima ficaria aqui. Promessa feita, promessa cumprida...
Hotel Santo Antônio
Não lembro de ter estado no paraíso, mas deve ser parecido, em termos de simplicidade sofisticada e conforto.
Ontem, sexta-feira, dia 12 de julho, foi feriado nacional. Decidi então pegar o carro que aluguei e ir na direção de Porto Alegre, cidade mais ao Sul da ilha. O destino final seria a praia Jale, dita por todos como idílica, que o Google me mostrava estar a 60 km.
Trecho da estrada
Fui dirigindo pela estrada, asfáltica, a principal do país. Mão dupla e estreita, sem acostamento. Dos dois lados, plantações de cacau e pimenta do reino. Sempre acompanhadas de banana e fruta pão, mas também vi muita manga, abacate e mais um sem número de árvores. Difícil separar o que é plantado do que cresce espontaneamente, ou o que é cacau sombreado das florestas.
Quase sempre o mar está em um nível bem abaixo da estrada, que é construída à borda das montanhas, subindo e descendo todo o tempo. Algumas vezes descemos mais e o mar surge ao lado, o que permite facilmente descer do carro e tomar um banho, caso se tenha vontade. As praias quase sempre desertas, absolutamente desertas.
Festa da Independência em Caué.
Depois de trinta minutos dirigindo cheguei a Caué, importante município da ilha. Mas não pude seguir viagem... a comemoração principal do aniversário da independência do país era nessa cidade, naquele exato momento, com a presença da Comitiva Presidencial. O que me restou foi estacionar o carro e ver a movimentação. Não cheguei a tempo dos discursos, o que não achei ruim, mas pude ver muita gente nas ruas, roupas domingueiras e clima de festa. Música e barraquinhas de comida. Legal ter visto. Na volta vi um animado baile no meio da rua.
Quando as autoridades se foram, segui viagem. Sempre em direção ao sul.
Dendenzeiros - Palma africana
Alguns quilômetros depois avistei uma grande lavoura de palma africana. Desta planta se extrai nosso famoso azeite de dendê. Na porteira de entrada pude ver o selo europeu de produtos orgânicos. Entrei... não resisti... mas, sendo feriado, encontrei apenas um trabalhador, que não soube me contar muito. Mas vi a fábrica para extração do óleo. Certamente será exportado para Europa, espero que os ganhos desta iniciativa cheguem minimamente aos trabalhadores. Infelizmente as normas da agricultura orgânica não são suficientes para nos dar esta certeza.
Pedra do Cão Grande
Desta Fazenda pude ver a pedra do cão grande, tido como um local de interesse aqui na ilha. Desci para fotografar e, esse momento, troquei umas palavras com três brasileiros, dois deles Pastores Batistas, um dos quais havia vivido aqui por sete anos, como missionário. Convidaram-me para segui-los, de carro, para irmos juntos à praia piscina. Aceitei, mudei minha programação e fomos.
No caminho, passamos por Porto Alegre. Eu havia imaginado uma cidadezinha, mas na verdade é uma paupérrima aldeia de pescadores. A estrada até a praia é daquelas nas quais levamos três ou quatro minutos para percorrer um quilômetro. Achei bom ter encontrado essas companhias, pude me sentir mais seguro passando pela vila ou na praia onde só haviam alguns locais.
De fato a praia é lindíssima. Ficamos menos de uma hora e regressei. O aplicativo anunciou que eu demoraria duas horas para percorrer os sessenta quilômetros até o hotel... 
Praia piscina
Hoje, de manhã, o Carlos, meu anfitrião aqui, levou-me para visitar sua lavoura de pimenta do reino. Ficamos três horas pelo interior. Para começar, ele me levou para beber, junto com uns amigos da comunidade onde nasceu, vizinha ao hotel, o oinho de palma, uma bebida obtida a partir da fermentação da seiva de várias espécies de palmeiras e coqueiros. Tomei a que havia sido feita de manhã cedo, estava mais para um suco fermentado, com os dias torna-se uma bebida alcoólica.
Cacau
Não vou me estender, apenas dizer que foi uma experiência única andar pelas roças e conversar com o povo local. Eu não vi um branco durante a manhã toda. Sei que é óbvio, mas como não sei quem pode ler este post, devo lembrar isso, assim é na África negra. Deixo dito aqui, para eu recordar daqui há alguns anos, seu eu voltar a reler esse post, o elogio que ouvi: “Laércio é como nós, nem parece branco!”
Vi muita pimenta, cacau, fruta pão, banana, goiaba, mamão. E pela segunda vez na vida vi baunilha, um dos produtos agrícolas mais caros do mundo. 
Euzinho no restaurante
E ainda teria muito que descrever relativo ao meu almoço de hoje... mas vou abreviar. Fui no restaurante da Roça São João dos Angolares, do conhecido chef João Carlos Silva. Tem uma página no Facebook, caso alguém se interesse. Comi o menu degustação. Foram sete entradas, mais duas entradas para limpar o paladar. Depois, o prato principal – feijoada, que aqui em São Tomé é feita com peixe. Foi servida com arroz e batata doce assada. Duas sobremesas e café passado. Sabe este papo de experiência gastronômica? Pois foi o que vivi hoje. Não existe chance de esquecer este almoço. Comidas deliciosas, turbinadas pelo local, muito agradável e com uma decoração que não deixa você esquecer onde está. Para completar, a vista é  simplesmente deslumbrante.
O post ficou longo e deixei algumas boas coisas que vi sem contar... países como esse geram muito assunto... amanhã volto para a cidade, segunda e terça tem trabalho.

Outro ângulo da praia piscina