Pesquisar este blog

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Bucareste, 26 e 27 de agosto de 2026.

Parlamento de Bucareste. O tamanho realmente impressiona

Chegamos no aeroporto de Bucareste e pegamos um Uber sem maiores dificuldades. Fim do dia, ainda sol, às seis da tarde já tínhamos feito o check-in no Mercure Centro e começamos a caminhar pela cidade. Eu me senti como se tivesse saído de um metrô lotado para uma limusine onde uma leve música clássica tocava. Sim, essa foi a imagem que me veio para essa mudança de Istambul para Bucareste.

Aspecto do Centro Histórico - Old Town
O hotel fica perto do centro histórico e esta foi a direção que tomamos. Ruas tranquilas, locais tomando algo no fim de tarde, silêncio no ar. A sensação que me invadiu foi de enlevo. Realmente, ambientes urbanos assim, menos intensos, são o meu número. Passamos pelo Ateneu Grego, pela Praça da Revolução e seguimos caminhando pela Av. Vitória. Em uns 20 minutos já entramos no Centro Histórico e, para corroborar minha metáfora, uma jovem tocava violino na calçada, aguardando uns trocados. Essa cena, tão comum em cidades europeias, sempre me agrada.

Ficamos andando para lá e para cá no centro histórico, agora já um pouquinho mais ruidoso, porque são muitos bares e restaurantes com aquelas pessoas perguntando se você quer entrar, oferecendo o cardápio ou propondo um drinque.

Escolhemos um onde ninguém nos ofereceu nada. Uma simpática cervejaria, a Beer O’Clock, onde apenas um jovem atende, tirando os chopps e cobrando, mas somos nós que vamos até o balcão pedir, pegar e pagar a cerveja. Como tem que ser, simples e objetivo.

Uma cena curiosa foi a de um senhor que se aproximou e puxou assunto querendo vender livros. Ouviu nosso inglês e nos perguntou de onde éramos. Respondemos e imediatamente ele falou “Paulo Coelho”. Ainda citou, com sotaque próprio, Machado de Assis e Bernardo Guimarães (nomeando A Escrava Isaura). Gostei de 2/3 das referências literárias do livreiro romeno.

Momento para lá de agradável
Depois do chopp fomos comer um sanduíche em um restaurante grego que fica bem próximo à choperia, antes de regressarmos caminhando pelas silenciosas ruas de Bucareste até o hotel.

Hoje pela manhã saímos na nossa missão de conhecer algo da cidade, nesse curtíssimo tempo que passamos aqui. Marcamos alguns pontos no mapa e mais ou menos seguimos o caminho proposto. Visitamos a Igreja de São José, vimos outra vez o Ateneu, lindo prédio, passamos em frente ao Museu Nacional de Arte e entramos em uma igreja ortodoxa romena, muito bonitinha, pequena, a Zlatari, dedicada a Maria. Vale a visita. Outra vez entramos na “Old Town”, parte do roteiro, também querendo entrar em uma livraria que havíamos visto ontem. Compramos um livrinho romeno para a Clara…

Outro lugar que gostamos muito de ver, na própria cidade velha, foi o Mosteiro Stavropoleos, uma Igreja Ortodoxa Romena dedicada aos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel. Foi construída em 1724. Pequena, delicada e cheia de detalhes, é daquelas surpresas que aparecem quando caminhamos sem pressa pela cidade. No fundo da igreja tem um pátio. Percebemos uma mesa posta e nos aproximamos. Uma freira muito simpática nos recebeu e ofereceu coliva, um doce feito à base de trigo, mel, castanhas e especiarias. Ela nos explicou que esse doce é tradicionalmente ligado à memória dos mortos e à ideia de ressurreição. Comparou o dia 27 de agosto com nosso 01/11. Acho que ela fez uma confusão de datas aí, mas ela insistiu e quem sou eu para discutir com uma freira devidamente trajada! Mas ela foi muito simpática, agradável e acolhedora, e a coliva estava deliciosa. Acabou sendo nosso café da manhã!

Do mosteiro, com nosso tempo já terminando, caminhamos até o Parlamento.

Mosteiro Stavropoleos
Essa construção é, segundo li, o maior símbolo do período comunista da Romênia, que durou de 1947 a 1989. De 1965 até o fim do regime, o país foi governado por Nicolae Ceaușescu. Foi ele quem mandou construir este enorme edifício, a partir de 1984. A construção foi controversa. Para abrir espaço para esse suntuoso palácio, bairros inteiros foram demolidos e milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas. A obra consumiu enormes quantidades de recursos, parece que 700 arquitetos trabalharam nela, justamente quando a população enfrentava escassez e dificuldades econômicas. Quando o comunismo caiu, em 1989, o prédio ainda não estava terminado. O que deveria ser um monumento ao poder de Ceaușescu e do regime acabou se transformando na sede do Parlamento de uma Romênia democrática. História interessante e construção impressionante. Mas só vimos por fora. Não havia tempo de entrar e ainda queríamos ver a Igreja de São Nicolau.

Ela é um bom exemplo do que percebo em todas as igrejas ortodoxas que visitei: elas muitas vezes impressionam mais por fora do que pelo tamanho que têm por dentro. O espaço interno é relativamente pequeno, há poucos bancos para sentar e a decoração é feita com pinturas, ícones e a iconóstase. Chama a atenção a ausência de esculturas, tão comuns nas igrejas católicas romanas. Esta igreja foi construída entre 1905 e 1909 com apoio do czar russo Nicolau II.

A iconóstase é aquela parede ou divisória coberta de ícones que você vê dentro das igrejas ortodoxas, separando o espaço onde ficam os fiéis do altar, que fica atrás dela.

Igreja Ortodoxa Romena de São Nicolau
Ela normalmente tem várias fileiras de ícones, geralmente de Cristo, da Virgem Maria, dos santos e de cenas bíblicas. Possui portas no centro, pelas quais o sacerdote passa durante a liturgia.

Aprendi aqui que uma das características que mais diferenciam visualmente uma igreja ortodoxa de uma igreja católica romana é que, em vez de um altar aberto e visível, como no catolicismo, a tradição ortodoxa cria essa separação entre o espaço dos fiéis e o altar por meio da iconóstase. As iconóstases são normalmente um ponto alto da decoração das Igrejas Ortodoxas.

Nosso tempo nessa simpática capital se esgotou. Fomos de Uber ao hotel, para pegar o carro que alugamos e seguir viagem.

E esse foi nosso passeio por Bucareste. Gostamos da cidade, acho que não acharíamos ruim explorar mais das suas ruas e, principalmente, dos bares e restaurantes que nos chamaram a atenção. Fica para outra. Agora vamos rumo à Transilvânia. De lá, conto mais!

A simpática freira repartindo comida.
Livraria Carturesti, old town

Modinha: vale tudo para atrair um cliente

Zlatari - igreja ortodoxa

Rua Victoria


Um dos tantos prédios bonitos na Av. Victoria



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Istambul, 24, 25 e 26 de agosto de 2026.

Mesquita de Taksim, na praça de mesmo nome.

Hoje é quarta, dia 26, e estamos por entrar no avião, indo para Bucareste. Deixa eu contar um pouco destes três dias em Istambul.

Interior da Mesquita Azul
Segunda-feira acordamos um pouco mais cedo e saímos do hotel às oito e meia. A ideia era ir direto para a Mesquita Azul, de Uber, uns 10 euros, para visitá-la antes da muvuca provocada pelos ônibus de turismo. Bingo! Às nove estávamos entrando e, de fato, não pegamos fila. Lá dentro estava muito tranquilo, ainda que não vazio.

A Mesquita é imponente por fora e linda por dentro, com vitrais e azulejos que impõem beleza sem transitar pela opulência. Essa é minha definição de luxo! Ou uma delas…

Ficamos de boa por ali, Ana com seu lenço cobrindo o rosto, eu de calça, nós dois descalços, como reza a liturgia das visitas a uma mesquita. Ficamos apreciando o lugar, até sentamos no chão, e ouvindo um ou outro guia que nos dava alguma informação sobre o que estávamos vendo. Gostamos muito de conhecer a Mesquita Azul.

Sobre a Ana colocar lenço: de boa, não vi ela reclamar nem um momento. Mas… ver as mulheres de hijab já mexe com ela um pouco, não pela estética em si, mas pela obrigação. Agora, a burca… burca minha mulher não tem emocional para ficar vendo, não…

Conheci Ana na faculdade, nos anos 80. O TCC dela foi sobre a invisibilidade do trabalho doméstico e a dupla jornada de trabalho à qual as mulheres são submetidas. A vida dela vem sendo, em boa parte, buscar igualdade entre os gêneros, com diferentes formas de luta. Então… ver mulheres, de todas as idades, de roupas pretas e compridas, com apenas o olho de fora… ao lado de maridos com bermudinhas e camisas de malha… definitivamente ela não aguenta, não!

Depois fomos em direção ao Grande Bazar. Caminhando por ruas cheias de gente, muitos turistas, muitas lojas e comércio. Passo tranquilo e olhos atentos, em 15 minutos já estávamos dentro da lindíssima construção que abriga centenas e centenas de lojas. 
É...

O que tem lá dentro? Putz… tudo! Lembrancinhas e lembraçonas em geral. Tapetes, lenços, roupas, joias, doces, temperos, cafés, relógios. Lenços caros, de seda ou cashmere, por 300 ou 400 reais; lenços por 15 reais, 100% poliéster, mas igualmente bonitos. Fico só nesse exemplo, mas quase todos os outros produtos seguem essa lógica. Um lindo prato colorido, pintado à mão? Caro! O “mesmo” prato, possivelmente da Shopee, muito barato!
Saímos do Grande Bazar caminhando, em direção ao Bazar de Especiarias, descendo por uma rua com um intenso comércio popular, onde camisas Armani ou Lacoste são vendidas a 30 reais. O Bazar de Especiarias é outro lugar muito legal. Outra vez nos deparamos com uma linda arquitetura, abóbadas belíssimas e muitos, mas muitos cheiros, temperos e cores, brotando de espécies e produtos que tanto movimentaram o mundo.

Grand Baazar
Já era uma da tarde, sol a pino, e regressamos, de Uber, ao hotel. Esse era o plano, porque resolvemos mudar de hotel. Checkout, check-in, e em uma hora o trâmite estava todo feito. Fomos para o Sofitel Taksim e não nos arrependemos da mudança. Nos deram um upgrade para uma suíte linda, grande, cheia de mordomias. Perto do outro hotel, mas em frente à Praça Taksim e à Avenida İstiklal, uma e outra das mais importantes da cidade.

Descansamos um pouco no hotel, falo ainda da segunda-feira, e nos dirigimos à Igreja de São Salvador de Fora. Esse “fora” fica por conta da localização mesmo: ela foi construída fora dos muros da cidade. Pagamos 20 euros cada um para entrar, e eu não gosto de pagar para entrar em igreja, mas essa hoje é mais um museu; abri uma exceção. Não vou contar a história dela aqui, que é superinteressante, mas posso dizer que vale a visita, ainda que não seja algo assim, mais que demais!

Agora, o lugar é maneiro, bem alto, perto de uns resquícios de muralhas. Pensar no poder dessas muralhas que protegeram Constantinopla por séculos, e que levou décadas para que os Otomanos conseguissem vencê-la, e que ainda estamos tocando nelas no século XXI é bem legal. Quando voltar ao Brasil, vou ver a série sobre a conquista de Constantinopla de novo.

Balat
Depois da visita às muralhas e à igreja, descemos o morro. Em uns dez minutos já chegamos no bairro de Balat. Muito legal, muito mesmo. Recomendo não deixar de ver, se vier por Istambul. Pode passar horas ali, entre comprinhas; foi o melhor lugar que achamos para comprar coisinhas e comidinhas, tomar café, comer sobremesa ou mesmo uma refeição mais completa. Fizemos parte disso durante as mais de três horas que ficamos entre Balat e Fener.

Aliás, legal perceber que não são apenas bairros bonitos de casas coloridas; são bairros onde caminhamos sobre algumas etapas da história. Em Fener, na herança grega e ortodoxa (o colégio grego é um edifício impressionante). Afinal, foram os gregos que fundaram a cidade. Em Balat, se nota a memória da comunidade de judeus oriundos, fugidos, de Espanha e Portugal. Sinagogas, igrejas, prédios, casas e ruas preservam, no cotidiano de hoje, as marcas dessas culturas nesses dois bairros.

Enfim, adoramos passear por Balat e Fener.

Dentro da Mesquita de Taksim
Ontem, quarta-feira, nosso rolê foi de manhã pela Av. İstiklal. De tarde, depois de um banho de piscina no rooftop do hotel, enquanto Ana fazia uma reunião de trabalho, regressamos à mesma avenida, mas agora indo até o fim dela e chegando outra vez na Torre Gálata. Fim de tarde legal, movimento intenso de turistas. De noite fomos ver a Mesquita e visitar os arredores da Praça Taksim. Ficamos impressionados com a quantidade de gente, de todas as idades, andando, comendo, conversando e se divertindo. Nos lembrou uma vibe das cidades que conhecemos da China, sempre muita gente, muitas cores, muita intensidade.

Hoje de manhã não saí do hotel, preferi aproveitar a suíte. Ana ainda foi para umas últimas comprinhas.

E terminou nossa estada em Istambul. Gostamos muito. Da próxima, queremos ver algo do país e não apenas da capital. Amanhã, partimos para a Romênia, conhecer um pouco mais do Império Otomano, ver o Castelo de Drácula e dar um rolê pela Transilvânia. De lá, conto mais!
Pátio da Mesquita Azul

Ayran - um tipo de yogurte salgado. Delícia!

As lojas de doces...

Gatos em /istambul... um caso à parte!

Gatos

Bósforo

Ana no seu ecossistema: mercado
de especiarias!

Eu vi um gatinho aqui... são totalmente
parte da sociedade! 


domingo, 23 de agosto de 2026

Istambul, 22 e 23 de agosto de 2026.

 

Bósforo, visto do meu quarto em Istambul

Em Bizâncio. Em Constantinopla. Em Istambul. Três nomes, muita história. Eu cheguei há dois dias, para ver se os gregos, depois Romanos, Otomanos e os que hoje se denominam turcos fizeram um bom trabalho. Parece que sim, gostei bem do que vi nesses dois dias.

Mesquita Grand Admiral Kilic Ali Pasha

Viemos a passeio, Ana e eu. Passagem por Madrid, para aproveitar um pouco das mordomias que tenho na Latam. Saímos de casa na quinta-feira, dia 20 de agosto, às nove da manhã, chegamos ao Artisan Hotel, em Istambul, às 00h30 do dia 22. É mole? Pois sabe que é, eu acho, viajar a puro passeio torna até o cansaço em algo prazeroso.

Parece que estamos aqui há dias. São dez da noite do domingo, dia 23, e já vimos muita coisa.

Ontem, dia 22, começamos com um belo café da manhã no hotel. Destaque para o Menemen que comi, um famoso prato de ovos mexidos cremosos, cozidos com tomates, pimentões e temperos. Delícia. Depois, saímos caminhando. Fomos até Karaköy, um bairro famoso, portuário, que hoje é também ocupado por lojinhas simpáticas, restaurantes e cafés coloridos. Visitamos duas mesquitas. Uma, vimos pelo caminho, simples, não turística, e uma outra maior, a Mesquita Grand Admiral Kilic Ali Pasha - considerada uma das mesquitas otomanas mais interessantes de Istambul. Visitar mesquitas é uma onda, gosto de perceber as diferentes percepções dos locais de oração, culto, encontro com o Divino Ficamos pouco neste charmoso bairro, pretendo voltar, porque resolvemos seguir caminhando até a Torre de Gálata, que fica no alto do morro, no bairro do mesmo nome. 

Torre de Gálata, ao fundo

Essa torre é um dos tantos causos históricos que existem nesta cidade. Ocorre que ela é uma espécie de imposição europeia, decorrente de quando os Cruzados passaram por aqui em uma das suas idas (Quarta Cruzada) para guerrear pela cidade sagrada de Jerusalém. “Na passada”, invadiram e saquearam Constantinopla. É claro que “passaram por aqui” é uma simplificação de uma decisão tomada com muito cuidado e objetivos claros.

Posteriormente a esse momento, muitos genoveses, povo que sempre navegou mundo afora, se instalaram na cidade e acabaram se beneficiando de acordos feitos entre o império bizantino e os europeus, liderados por interesses de alguns estados e pela própria Igreja de Roma. Esses genoveses acabaram constituindo um bairro, no bairro construíram a Torre. Do alto dela podiam observar os barcos que cruzavam o Estreito de Bósforo e cobrar os impostos fruto dos direitos adquiridos por acordos políticos e comerciais, feitos como consequência das cruzadas e da retomada de Constantinopla pelos bizantinos. Acho eu que tanto o saque de Constantinopla quanto a Torre de Gálata podem ser lidos como o incômodo da Europa em ver uma das cidades mais prósperas do mundo crescer sob sua barba e não terem nenhum dividendo com isso. 

Ana, na linda escada, com o livro
que comprou para a Clara...

Seguimos caminhando do bairro Gálata para o bairro Pera, até a Avenida Istiklal. Nesse trajeto, passamos por três lugares que quero mencionar. Vou começar com duas livrarias que curtimos muito. A Minoa Pera, com suas cores vibrantes e escadas com livros “sustentando” os degraus, e a Phebus Books e Café, com livros lindos, que adoramos ver e onde nos animamos a tomar um chá. O terceiro lugar que quero mencionar é o Pera Palace Hotel. Entramos pela patisserie e fomos em direção ao restaurante e a recepção. Muito legal. Lindo. Tem uma série que se passa nesse hotel, que recomendo ver: Meia-noite no Hotel Pera Palace. Essa série é que nos fez ter vontade de conhecer esse hotel. Pretendo voltar lá para um café ou chá. Com um dos lindos doces que vi!

Do Hotel Pera Palace seguimos até a Av. Istiklal e pegamos a direção da Praça Taksim. É um calçadão, com lojas ocidentais, cafés, lojas de artesanato, perfumarias, lanchonetes e restaurantes. E muitas, mas muitas lojas de doces. Sabe aqueles famosos doces turcos? Todos eles andam pela cidade, esbarram contigo e te constrangem a comprá-los. Constrangidos, quase obrigados, provamos alguns…

E ainda eram três da tarde. Resolvemos voltar ao hotel para uma descansada das quase 40 horas de viagem!

Mas o dia acabou aí? Acabou nada…

Galera pescando na Ponte Gálata

Às seis da tarde, sol ainda alto, fomos de novo caminhando na direção de Karaköy. Mas aí já tivemos a manha de entrar no Galataport, um shopping center ao ar livre, construído numa onda comum por vários lados, de revitalizar a área portuária. Caminhada agradável, que nos levou à Ponte de Gálata. Essa ponte cruza o Corno de Ouro, um estuário ligado ao Bósforo e une as duas partes europeias da cidade. Ao cruzar a ponte, saímos de Karaköy para a chamada península histórica, onde a cidade foi fundada por Bizâncio. Paramos na ponte, vimos tudo que a cercava, viajamos na história e ainda ficamos admirando os inúmeros pescadores locais que deixam a cena ainda mais viva e cotidiana.

Chegando do outro lado, fomos caminhando tendo como objetivo a Igreja Santa Sofia. Possivelmente o local mais emblemático da cidade. Não entramos, está em obra, por fora e por dentro, o ingresso é caro e a fila estava enorme. Nos contentamos em ver por fora. Passeamos ao redor, vimos a Mesquita Azul iluminada, andamos pela praça (hipódromo) e buscamos um restaurante turco para terminar a noite.

Hoje, 23, domingo, foi outro dia intenso. Começamos visitando o Palácio de Dolmabahçe, bem próximo ao nosso hotel. 32 euros a entrada. Foi construído a mando do sultão Abdulmecid I, em meados do século XIX. Um palácio com forte influência europeia, que teve como função mostrar aos líderes do Velho Continente não só o poder e a riqueza do Império Otomano, mas também se colocar ombro a ombro na cena da modernidade europeia. Incrível seu tamanho e sua opulência. Realmente impressionante. Dizem que foram gastos o equivalente a 14 toneladas de ouro para ornamentar o teto do palácio. Só como ilustração da riqueza, o lustre (ilustração, lustre… sacaram?) principal do palácio pesa 4,5 toneladas, têm 750 lâmpadas e, supostamente, foi um presente da Rainha Vitória. 

Lustre do Palácio

Saímos do Palácio e pegamos um ferry em direção à Ásia! Sim, isso mesmo: saímos da Europa e fomos para a Ásia. Que onda, né?

Atravessar o Estreito de Bósforo, indo da Europa para a Ásia, é uma experiência que me gerou bastante expectativa. Li em algum lugar que Constantinopla, mais especificamente o Bósforo, era considerado uma espécie de dobradiça do mundo. Principalmente se levarmos em conta que o “mundo” que narra essa história desconhecia a América. E hoje cruzamos essa dobradiça.

Viagem rápida, uns 40 minutos, em direção a Kadıköy, que é a antiga Calcedônia, exatamente a cidade fundada pelos gregos um pouco antes daquela que eles também fundaram do outro lado do estreito, apenas algumas décadas depois: Bizâncio. Constantinopla, hoje Istambul, nasceu de Bizâncio e, ao longo dos séculos, acabou incorporando também a antiga Calcedônia.

Gostamos muito de passear pelas ruas de Kadiköy. Acho até que gostaríamos de ter ficado mais por ali, mas são tantas coisas para conhecer que acabamos nos dirigindo, de Uber, a Kuzguncuk, outro bairro também do lado asiático, famoso por suas casinhas coloridas, ruas de madeira tradicionais e clima de vila pacata. Curtimos bem, passeamos, almoçamos por lá e ainda comemos uma bela sobremesa acompanhado de um chá.

Meninas modelando em Kuzguncuk

Cansados, voltamos de Uber. Eu queria chegar antes do sol se pôr, para aproveitar o visual da nossa suite, bebendo algo simpático e escrevendo esse post. Funcionou super bem, noite para lá de agradável.

Ainda temos dois dias inteiros nesta asiática capital europeia! A impressão até agora é muito boa, apesar da distância entre os pontos que queremos ver, gastando certo tempo em deslocamento, e o fato de acharmos bonitos os pontos de interesse, alguns muito bonitos, mas a cidade mesmo, a arquitetura das casas e prédios, suas ruas e avenidas não colocam Istambul entre os lugares mais bonitos que já visitei.

Amanhã vejo mais, amanhã conto mais!


Mesquita Azul, ao entardecer

Chazinho na livraria.
Ruaszinhas de Kadikoy
Nosso jantar de sábado.
Lojinhas no centro histórico.
Cena cotidiana em Kuzguncuk


Cena lindíssima ao entardecer





domingo, 12 de abril de 2026

Xangai, 11 e 12 de abril de 2026.

Buda de Jade recostado

Partiu casa! Estou aqui no aeroporto de Xangai, escrevendo esse último post da nossa trip de 20 dias pela China. Nem sei como adjetivar essa viagem; preciso ainda de um pouco de perspectiva para encontrar as palavras precisas. Mas foi interessante demais. E o objetivo foi atingido. Eu queria muito ver de perto esse país que minha geração viu, de forma meteórica, sair da fome e do escárnio internacional e se transformar no mais importante do mundo.

Mercados de bairro - a vida pulsa!

Ontem e hoje foram os dias de despedida. Deu para ver mais um pouco de Xangai, mas nossa energia talvez estivesse um pouco mais baixa.

Sábado de manhã, nos dividimos. Helena quis ir a uma loja de bolsas de marcas de luxo, de segunda mão — “second hand” fica melhor… O que ela me contou, sobre o tamanho do lugar e da forma como se faz a compra, toda por aplicativo e com possibilidades de ofertas e negociações, pareceu muito interessante. Bolsas são todo um tipo de ecossistema próprio, do qual eu não sei absolutamente nada. Até gostaria de ter ido com ela, mas Ana e eu optamos por ir conhecer o “Templo do Buda de Jade”.

A apenas duas estações de metrô do nosso hotel, chegar lá foi barbada. A caminhada até o templo, uns 500 metros, já justificou a ida. Pudemos ver a Xangai mais cotidiana, com vários mercadinhos de bairro e o povo fazendo as comprinhas de sábado de manhã. Eu poderia dizer “como em qualquer lugar do mundo”? Não sei se poderia. No mercado de peixe, a quantidade de peixes vivos em aquários, à espera do comprador — enguias e tartarugas também vivas — não vejo em qualquer lugar do mundo. Tampouco a quantidade de tofu em múltiplas preparações ou as barracas de carne expondo galinhas, patos e pombos inteiros.

Templo do Buda de Jade

Levamos quase uma hora para percorrer a curta distância que nos levou ao templo. E, de cara, já adoramos! É um templo “vivo”. Apesar de muito visitado por turistas, a entrada é gratuita e ali os locais vão fazer suas orações, sendo possível ver monges orando em seus espaços específicos.

O templo é lindo. Na verdade, nunca visitei um templo budista — algo que adoro fazer — que não fosse lindo. Este tem muitas e impactantes imagens. Mas as duas salas com os enormes Budas esculpidos em jade branco são incríveis. Incríveis.

As imagens foram trazidas da Birmânia no século XIX e esculpidas em pedra translúcida de jade, o que simboliza pureza e sabedoria. A “estátua do Buda sentado” mostra-o em profunda serenidade e representa Siddhartha Gautama no instante da iluminação, com uma mão tocando a terra enquanto a outra repousa em meditação, e deve ser associada à prática espiritual contínua. Gostei muito de ver essa sala, com uma obra de arte que é, ao mesmo tempo, um centro vivo de devoção, com o silêncio, o incenso e os rituais de saudação permitindo que os adeptos vejam na estátua, e no que ela representa, um caminho para sua própria iluminação. Ouvi de um guia que falava em espanhol que a obra foi esculpida em uma pedra única, pesa 2 toneladas e mede 1,90 metro de altura. Ele completou: “obra celestial, sem defeito. Para trabalhar com o jade branco, não podes falhar. Tem que ter técnica e paciência. Por isso, em espanhol, se tem o ditado: trabalho de chinês.”

Guanyin - a bodhisattva da compaixão
Essa sala, um pouco mais escondida do que as outras, não permite fotos. Sabe que até gosto disso? Deve ser uma blasfêmia o que vou dizer, mas ver os celulares guardados, poupando-nos do frenesi das fotos, me dá mais sensação de paz do que a própria imagem do Buda.

No mesmo salão, há outra imagem linda, daquele “Buda” sorridente e gordo (robusto é mais educado?). Na verdade, chama-se Budai e é inspirado em um monge chinês que viveu por volta do século X e que, com sua barriga exposta e expressão de alegria, tornou-se símbolo de felicidade, abundância e generosidade. Segundo li, sua presença no Templo do Buda de Jade lembra que a espiritualidade também pode ser leve e cotidiana — não apenas disciplina e transcendência, mas também contentamento, partilha e um certo desapego bem-humorado diante da vida. Gosto bem disso!

E ainda tem a outra estátua, tão linda quanto: a “estátua do Buda recostado”. Essa pode ser fotografada; deixo uma foto com vocês (a primeira deste post).

E pensar que locais como esse já foram considerados nocivos, vistos como superstições antirrevolucionárias durante a Revolução Cultural de Mao Tsé-Tung. Pior: muitos foram fechados, saqueados ou destruídos.

Esse período, que marcou a última década do poder maoísta, segue controverso — há quem o defenda. Mas o fato é que muito do que vemos hoje nesses templos tão impressionantes são reconstruções relativamente recentes, erguidas após as destruições ocorridas sobretudo nos anos 1960 e 1970.

Bom, realmente a visita ao templo já teria justificado o dia. Mas ainda tinha mais. Saímos dali e seguimos passeando pelo bairro, tendo como destino a “East Nanjing”, o mesmo calçadão que vimos ontem à noite e ao qual queríamos voltar. Não deu certo encontrar a Helena por lá, que voltou da sua excursão pelas bolsas e foi comer dumplings em outro restaurante estrelado Michelin. Ana e eu nos perdemos um pouco na caminhada, mas por caminhos sempre agradáveis chegamos na East Nanjing. 

Xangai também tem disso...

Com muita gente no tal calçadão, lojas e lojas lotadas, chovendo fino — não nos pareceu uma boa seguir ali. Mudamos o trajeto e fomos à “West Nanjing”. Nos encontramos nas duas confeitarias, que já mencionei na crônica anterior: uma com inspiração londrina, outra francesa, uma ao lado da outra. Comprei uma torta de três chocolates em Londres; Ana, dois quitutes em Paris; e nos sentamos ali mesmo, em uma mesa nesse pedacinho da França em Xangai, com um café quente. Parece chique, né? Sim, pode até ser chique, mas os doces estavam mais bonitos que gostosos, o café frio e ralo, e ainda chovia nas nossas costas. Viu? Tudo depende da narrativa pela qual você opta. Tudo depende da história que você escolhe contar para si mesmo. Querem que eu descreva algo mais nobre ou algo mais mundano? Posso fazer os dois, sem mentir. Acabo de me lembrar de um verso de Pessoa: “fiquei perplexo com essa dupla existência da verdade”.

Com o tempo chuvoso, voltamos ao hotel. Pit stop para sair de novo. Claro que Ana e eu fomos desfrutar do agradável happy hour que meu status na rede Accor nos proporciona. 27º andar, visual bacana, música suave, bebidinhas e comidinhas ao nosso dispor. Helena nos acompanhou, mas ela queria mesmo era ir a um bar inaugurado há pouco na cidade, mas que já existe em Hong Kong há um tempo e hoje é considerado o melhor do mundo, segundo a lista do The World’s 50 Best Bars. Helena entende do rolê e nos avisou que, chegando lá às sete e meia, a fila poderia ser grande. Fomos assim mesmo. Entramos na fila, por aplicativo, e vimos que estávamos em 31º. Uma hora depois, estávamos em 14º. Desistimos! Fomos dar um rolê em um shopping perto do hotel e depois fomos a um bar/restaurante bem interessante por ali mesmo. Era o último momento com Helena; hoje, às cinco, ela saiu para o aeroporto.

Cerejeiras em flor e minha modelo favorita

Domingão, nublado, Ana e eu, agora em modo sem a filha, resolvemos ir a um parque que nos foi apresentado por um reels que caiu na nossa mão: o Gucun Park.

Levamos mais de meia hora de metrô até a entrada dois do parque. Pagamos 20 yuans cada um para entrar. Estava vazio. É que o visual que nos foi prometido pelo reels já não estava tão presente: um sem-número de cerejeiras em flor. Além disso, o tempo estava úmido; às vezes caía uma chuva fina. Mas foi legal: com pouca gente, o clima era de puro relax, entre algumas árvores ainda floridas e muitos canteiros coloridos. Li que o parque, um dos maiores de Xangai, com cerca de 400 hectares, é um importante espaço de lazer para os moradores da cidade, especialmente durante a primavera, quando as flores atraem famílias, grupos de amigos e fotógrafos. Bem cuidado, amplo — mesmo com poucas árvores floridas, estava agradável o passeio. Ficou ruim quando resolvemos voltar de Didi. Coloquei como referência o tal Starbucks Reserve, local que gostamos muito e queríamos rever, além de estar a uns 15 minutos caminhando do hotel. Depois de meia hora no Didi, percebemos que ele nos levou a outro Starbucks, longe demais. P da vida, chamamos outro Didi; levamos mais uma hora para chegar aonde queríamos. Reforço aqui, agora por experiência própria, o que já haviam me alertado: colocar nomes em inglês nos aplicativos de transporte da China pode mesmo dar esses erros; tem que ficar atento.

Flores e flores

Chegamos ao Starbucks, mas o fato dele estar lotadíssimo, e de estarmos com o tempo um pouco apertado, nos fez pegar o rumo do hotel — mas de boa, passeando. Assim foi: uma lojinha aqui, uma rua que ainda não tínhamos visto ali, uma passada no Plaza 66, mais um dos tantos shoppings que reúnem marcas de luxo no país como um todo e em Xangai em particular. Impressionante.

É verdade que a China achou seu caminho para tirar sua enorme população da fome e da pobreza. Os números mostram. A sensação que tivemos nessa viagem por sete cidades confirma. Mas o culto ao consumo assusta. Lembro de um dia, lá pelos anos 1990, em uma oportunidade que tive de tomar uma cerveja com José Lutzenberger, apenas nós dois, com ele falando que o capitalismo e o socialismo real eram semelhantes na relação de exploração da natureza. Isso ele comentava pensando principalmente nos regimes da URSS ou da China. O modelo chinês atual, que sabemos não se encaixa em algo já tentado ou previsto nos livros, provoca também um visível, quase assustador, impacto no meio ambiente. Ele é hoje o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta. Parece que sua preocupação ambiental é real — isso eles afirmam de forma categórica —, mas passa longe da diminuição do consumo e sim por severas medidas na reciclagem/tratamento do lixo e na energia não baseada no petróleo.

Ruas próximas a west nanjing road

Emitir menos carbono e cuidar do lixo gerado é super oportuno e necessário, mas não posso achar que será suficiente. Intuo, sem me preocupar com o tamanho da bobagem que posso estar falando, que não é um modelo multiplicável por muitos anos ou algumas décadas mais.

Um dos meus objetivos em fazer essa viagem era entender algo mais deste país. Saio sabendo pouco mais do que quando vim. Complexo demais... E tem um aspecto que gera uma prosa boa, mas não aqui: E as liberdades individuais, a quantas andam? Um turista não consegue perceber. E eleições que não tem? Mas tê-las a cada 4 ou 5 anos significa mesmo democracia? Vixi, conversa para lá de complicada.

Passamos o fim de tarde entre nos arrumarmos para ir embora e fazermos o tempo passar em uma caminhada de despedida. Às oito, viemos para o aeroporto.

Um breve sufoco com a passagem: a Air China não reconhecia que havia um bilhete vinculado à minha reserva, mas conseguimos resolver, com Ana incansável na conversa com os chineses e eu no WhatsApp, com o atendimento especial Black Signature da LATAM.

Agora começa nossa saga de volta: 13 horas até Milão, cinco horas de aeroporto, mais 12 horas até Guarulhos, 2 horas de aeroporto, mais 2 horas de voo até Porto Alegre e mais 2 de carro até Torres. Quer viajar? Tem disso também!

Deu de China. Na próxima viagem, conto mais!

Parque Gucun

Happy hour do hotel, do jeitinho
que gosto...

Enguias no mercado. Três tamanhos.