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segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Madrid, 3 a 6 de setembro de 2026.

Plaza Mayor, Madrid.

Em Madrid! Estive aqui algumas vezes e sempre adorei essa cidade. Como anda cara e muito cheia, tenho evitado. Mas, desta vez, resolvemos acrescentar 3 dias no fim da viagem e, claro, não nos arrependemos.

Jamon no Alhambra.

Viajamos o dia todo; comprei uma passagem ruim, desde Bucareste, passando por Frankfurt. Levei algumas coisas em consideração, esqueci de outras. Mas valeu pelo aeroporto de Frankfurt, com uma boa cerveja alemã e alguns regalitos.

Do aeroporto até o Novotel Madrid Las Ventas foram apenas 20 minutos, em um Bolt que custou 18 euros. Uber e Cabify também funcionam, e o melhor é comparar os preços a cada corrida. O hotel é bom, mas fica longe do que normalmente se quer ver em Madrid. Optamos por um hotel melhor e mais barato, mesmo que um pouco afastado.

Chegamos tarde, mas ainda assim saímos. Eram dez da noite quando estávamos chegando ao Barrio de las Letras. Madrid é sempre muito viva e, a essa hora, as ruas e mesas estavam cheias, com as pessoas chegando, e não saindo. Caminhamos pelo bairro e não pudemos deixar de notar a sujeira e um certo ar de decadência. Paramos em um restaurante, Alhambra — o nome me atraiu —, e pedimos tinto de verano com queso curado de oveja, jamón serrano e ensaladilla rusa con gambas (uma maionese muito própria com camarões).

Impressionantes Muralhas de Ávila

Saímos do restaurante e fomos caminhando até a Puerta de Alcalá, seguindo pela avenida de mesmo nome. Nesse trecho, belíssima, fazendo-nos deixar para trás a primeira impressão ruim que tivemos ao descer na Plaza de Santa Ana. Em dado momento, pegamos um Uber até o hotel.

Na sexta-feira, tínhamos um plano: ir até Ávila. Eu queria visitar a cidade onde se passa parte de um conhecido livro de Emmanuel, psicografado por Chico Xavier, que se chama "Renúncia". Foi legal ver a Basília de San Vicente, onde se passam algumas das cenas emblemáticas do livro. Mas, na real, achamos muito mais do que o cenário do livro. Achamos uma cidade linda, com uma muralha impressionante, um centro histórico vivo e agradável.

Para nossa sorte, era dia das “Jornadas Medievais”, uma festa que ocorre anualmente e que busca, através de apresentações, desfiles e comidas típicas, lembrar as três culturas religiosas que marcaram presença na cidade e no país: cristãos, judeus e muçulmanos. Adoramos! Muita agitação, nos sentimos em uma espécie de carnaval ou em uma grande festa à fantasia. E cada comida... Deus meu!

Personagens da Jornadas Medievais

Voltamos como havíamos ido: de trem. Cerca de 90 minutos de viagem, muito agradável. Compramos a passagem na hora, sem estresse, por 12 euros por cabeça. Eram 4 da tarde quando chegamos à Estação Príncipe Pío, em Madrid. Às seis, tínhamos ingressos para o Museu Reina Sofia (todos os dias, das seis às oito da noite, a entrada é gratuita). Resolvemos percorrer os três quilômetros caminhando. Passamos pela Plaza de España, seguimos pela Gran Vía até a Puerta del Sol, passamos pela Plaza Mayor e de lá fomos para Atocha, onde está o museu.

Entramos sem fila e fomos direto ver a obra-prima que está no Reina Sofia: "Guernica", de Pablo Picasso. Eu já havia visto há muito tempo, e Ana e eu já passamos pela cidade de Guernica, no País Basco, onde vimos um mural com a reprodução do quadro. É sempre forte ver essa pintura ao vivo, e ler um pouco das motivações do artista para pintá-la. A nota triste, que empobrece a experiência, é a quantidade de gente falando alto e tirando fotos sem parar. Parece que não percebem onde estão, que a obra merece silêncio e reflexão.

Saindo do Reina Sofía, vi, de longe, a Estação Atocha. Eu estava em Madrid no dia 11 de março de 2004, quando aconteceu o atentado. Superpesado estar lá naquele dia. Minhas reuniões de trabalho foram, obviamente, suspensas, e eu vivi o choque da cidade, o vazio, a busca por responsáveis e, depois, a grande marcha na Gran Vía pelos mortos. Que momento... 

'Guernica Africano', sensacional! - Reina Sofia.

Agora, tantos anos depois, voltar a ver Atocha, ainda que de longe, trouxe tudo de volta. A lembrança daquele dia, minha caminhada pelos bairros vazios e assustados, envolta em silêncio, com a cidade tentando entender o que havia acontecido. Lembrei também de Jueves, do grupo espanhol La Oreja de Van Gogh, uma música linda, inspirada nos atentados de 11 de março. Vou confessar que chorei muitas vezes ouvindo essa música, que me remete a esses dias. Há lugares que carregam uma memória que não se apaga. Atocha é um deles.

Em meio a essas memórias, caminhamos mais um pouco por ali, ainda com a impressão de uma certa decadência na cidade. Madrid é conhecida como uma das cidades monumentais da Europa. Seus prédios sólidos, imponentes, de arquitetura lindíssima, por ruas e avenidas quase sem fim, impressionam. A Gran Vía, a Puerta del Sol e a Plaza Mayor simbolizavam um pouco essa imagem da cidade. Parece-me que não mais.

Ruas de Salamanca.

Paramos em um agradável bar ao lado do Paseo del Prado e nos sentamos na esplanada, na calçada, como é típico nessa época do ano. Inclusive é dez por cento mais caro, mas o calor e o movimento nos convidam a ocupar essas mesas.

Ontem, sábado, mais bateção de perna. Fomos direto ao Barrio de Salamanca. Lindíssimo! Ali vi a Madrid que, nos dias anteriores, tive dificuldade de encontrar. Salamanca é um bairro elegante, de grandes avenidas, prédios bem cuidados, lojas sofisticadas e uma arquitetura que revela a riqueza de outra Madrid. Mas não é só isso. Há uma certa tranquilidade nas ruas, gente caminhando, cafés e restaurantes ocupando as calçadas. É uma Madrid mais organizada, mais rica e, talvez por isso mesmo, mais próxima daquela imagem monumental que eu tinha da cidade. Da próxima vez que vier a Madrid, vou me hospedar em Salamanca.

Ana e Maria

Fomos ao Mercado de la Paz, um desses mercados de bairro cheio de coisas boas para comer. Tivemos o prazer de encontrar Maria, filha de grandes amigos, que está morando em Madrid. Seguimos caminhando e passamos em frente à antiga casa do filósofo Ortega y Gasset (“yo soy yo y mis circunstancias”), na rua de mesmo nome, e paramos para beber algo na esquina das calles Velázquez y Goya. Só por causa do peso artístico de uma esquina dessas!

Voltamos para um pit stop no hotel e logo saímos em direção ao Museu do Prado, visita mais do que obrigatória em Madrid. De novo, fomos no horário da gratuidade, no fim da tarde. Adoramos. Ele é mais imponente que o Reina Sofia, e seu acervo é mais significativo. Lindo, enorme! Vimos muitas obras de Goya e nos detivemos um bom tempo diante de “As Meninas”, de Velázquez, deleitando-nos com esse superclássico da pintura mundial.

Mas sabe do que gostamos muito no Museu do Prado? Fotografias são proibidas. Fiquei impressionado como isso muda completamente a visita. Fica mais silenciosa, mais agradável; senti-me como em algum lugar do passado, com pessoas caminhando para lá e para cá, sem celulares na mão e não se ocupando tanto com poses e ângulos.

La Sagrada Família y San Juan Batista
niño - print do app do Museu.

Dois quadros chamaram particularmente nossa atenção: “A Sagrada Família com o Menino São João Batista”, de Goya, e “Susana acusada de adultério”, de Antoine Coypel. Não tenho fotos para mostrar — oba! —, mas tenho uma dica para lá de boa: tem um app oficial do Museo del Prado onde podemos passear à vontade pelo museu.

Saindo do museu, no fim do dia, cruzamos o lindo Parque del Retiro em direção ao Barrio de Retiro, buscando onde passar nossa última noite em Madrid. Passamos por vários bares, todos cheios, e paramos em um que nos pareceu simpático, com uma plaquinha Michelin que nos chamou a atenção, o Salino. Tomamos um tinto de verano, comemos patatas bravas e croquetas de jamón. Bem bom. Ainda caminhamos em direção ao hotel, paramos em outro bar e, finalmente, pegamos um Uber.

E essa foi Madrid, e esse foi o nosso giro pela Europa, terminando com chave de ouro aqui, em uma bela sala VIP da Iberia, comendo nossas últimas delícias madrilenhas.

Na próxima, que não sei qual é, conto mais.

Prédios de Madrid

Parque do Retiro

Entardecer em Madrid

Basílica de San Vicente

Eu e Santa Tereza D'Ávila

Junto com a perfirmance.
Igreja de San Jeronimo.




quarta-feira, 2 de setembro de 2026

Transfăgărășan, Romênia, 02 de setembro de 2026.

Desde o lago Barêa, o visual que se vê da estrada

Eu não iria fazer esse post. Já escrevi um pouco sobre Bucareste, hoje estamos aqui só para dormir e amanhã voar até Madrid, último trecho da nossa viagem. Mas quero contar, deixar registrado e com muitas fotos, a viagem que fizemos hoje. Saímos da Transilvânia em direção à Valáquia, onde está Bucareste.

As Montanhas Fagaras.

Nosso último dia neste belo país. Romênia tem cerca de 238 mil km² e 19 milhões de habitantes e, do ponto de vista histórico e cultural, pode ser compreendida em três grandes regiões: Transilvânia, Valáquia e Moldávia. Quem leu meu post de ontem viu que estive em Alba Iulia, cidade ligada à consolidação da unificação do país, com a Transilvânia passando a fazer parte da Romênia. Desde a entrada na União Europeia, em 2007, sua economia se diversificou e cresceu muito. Segundo li por aqui, os destaques são a indústria, a agricultura, os serviços, a tecnologia e a energia. Se transformou em uma das principais economias do Leste Europeu. Sua posição é estratégica no continente, tanto por seu tamanho e população quanto por sua localização entre a Europa Central, os Bálcãs e o Mar Negro. Quando fui alugar o carro, o cara perguntou se eu iria para o Mar Negro, pois haveria algumas restrições. Respondi que desta vez não... Se você pegar um mapa e der uma olhada, vai visualizar facilmente essa posição geograficamente tão importante.

A Trabsfagarasan. Incrível, as fotos não
mostram o que vimos.

Estar de carro me permitiu ver algo da agricultura. Vimos muito girassol, milho, alfafa, lúpulo. Vimos também vacas e ovelhas. Sei que produz muitas frutas e mel. Aliás, vimos muitos e diferentes tipos de mel. Li que produz muita canola e trigo também. Além de um setor de serviços, que marca forte presença no PIB, e indústria muito forte. Turismo é importante, mas não chega perto de outros países europeus como França, Itália ou Espanha.

Voltando à viagem de hoje: desde que planejei o roteiro, busquei incluir a Transfăgărășan, uma estrada considerada uma das mais bonitas do continente. Ela cruza os Cárpatos, uma importante formação geológica que se estende por vários países europeus, entre eles a Romênia. Nesse trecho em especial, a estrada passa pelas Montanhas Făgăraș, de onde deriva seu nome.

A Transamazônica cruza a Amazônia. A Transfăgărășan cruza os Făgăraș. Sacou?

A estrada é realmente espetacular. Passa primeiro por um trecho de mata relativamente fechada, com muitas coníferas e um visual bem bonito. Depois começa a subir, e é “uau” o tempo todo. Curvas fechadas, com a estrada fazendo o zigue-zague necessário para chegar ao topo.

Print do Waze
Quem projetou essa estrada deve ter tido muito trabalho. Ou então soltaram um animal da região e foram simplesmente seguindo seus passos, que normalmente traçam o caminho menos penoso para subir ou descer uma montanha íngreme. E não é ironia: funciona mesmo…

No ponto mais alto da estrada, mais “uau” ainda: o Lago Bâlea e seu entorno são lindíssimos. Um lago incrustado na montanha, formado pela água do degelo, abraçado por montanhas íngremes, com as rochas cinzentas aflorando entre o pouco verde que se faz presente na forma de pasto, ao menos nesta época do ano. Uma pintura: paisagem de pedra, água e pastagens, cercada por encostas que parecem subir em todas as direções.

Falando em pastos, vimos, de longe, um rebanho considerável do que nos pareceram ser ovelhas. E estavam em um lugar muito íngreme. Se fossem cabras, eu não estranharia; mas ovelhas, sim, me surpreenderam.

Caminhamos um pouco ao redor do lago, aproveitando o momento. Buscamos um ponto de vista privilegiado, de onde pudéssemos enxergar a estrada. Depois, para desfrutar um pouco mais do lugar, sentamo-nos em uma mesa com uma vista linda para o lago e tomamos um café. 

Lago Balêa

Vi algumas fotos do lago e seu entorno no inverno… quanta neve. Claro, são mais de 2000 msnm e uma latitude ao redor dos 45º norte.

Mas tínhamos que seguir viagem. E ainda não sabíamos que o mais incrível, aquilo que mais nos deixaria extasiados, estava por vir.

Saímos do lago e seguimos pela estrada, passando por um túnel de 850 metros que marca a saída da Transilvânia e a entrada na Valáquia. A partir daí, começamos a descer, com o mesmo visual, as mesmas curvas fechadas e a mesma inclinação quase assustadora.

Logo depois, já um pouco mais abaixo, mas ainda em boa altitude, encontramos novamente uma floresta densa de coníferas.

Foto tirada do carro. com zoom 2x. Ele estava
sentado, no lado oposto da estrada. 
Foi quando começamos a ver muitas placas avisando que é proibido alimentar os ursos. E crescia a expectativa de ver algum… E não é que vimos? Não um, mas vários!

Eles ficam na beira da estrada, possivelmente já sabendo que existe a possibilidade de ganhar alguma coisa para comer. O que não é exatamente bonitinho… Mas vê-los é incrível!

Você já reparou como costumamos gostar de ver animais selvagens? Ainda mais quando estão em seu habitat natural. Hoje não foi diferente. Primeiro vimos um urso grande, deitado, de boa. Depois, uma mãe com um filhote. Mais adiante, outra mãe com outro filhote. E, finalmente, um urso enorme, sozinho.

Paramos muito perto, claro, para tirar umas fotos. Apenas em uma das vezes descemos do carro — sem nos afastar, sempre atentos. Quando a mãe veio na minha direção, pulei de volta no carro... acho que ela só queria pedir comida, mas não quis experimentar esse abraço. Mas foi tudo realmente muito excitante. Não encontro palavra melhor. Ver tantos ursos-pardos, soltos, na beira da estrada, foi uma experiência incrível. Daquelas que entram para o rol das inesquecíveis.

Esses paramos o carro e
ficamos observando
Bom, depois foi acelerar um pouco e chegar ao hotel. Viemos para um Íbis Styles ao lado do aeroporto. Bom quarto, hotel razoável, localização ruim, mas ao lado do aeroporto, apenas um quilômetro de distância, o que é muito conveniente.

Adorei o país de Nadia Comăneci, a inesquecível ginasta, e de Hagi, craque da Copa de 1994 e conhecido como o Maradona dos Cárpatos. E dos Ursos Paredos!

Vacilei, fui economizar e comprei uma passagem para Madrid que passa por Frankfurt. Vou beber uma cerveja lá para diminuir o prejuízo.

Diz aí, valeu fazer essa crônica?

Enfim, partiu Madrid! De lá, conto algo!



Placas: não de comida aos ursos. A foto é de
uma pizza!

Lindão demais!

O mesmo da foto anterior.

Esse é o mesmo da foto no texto, aqui sem o
zoom.

A selfizinha básica no alto do Lago Bâlea

Lago Bâlea



Sibiu, 31 de agosto e 01 de setembro de 2026.

Praça Grande de Sighisoara

A viagem de carro de Sighișoara para Sibiu foi mais um dia de mergulho na Transilvânia.

Essa ideia de optar por conhecer uma região de um país é muito legal. Mais na linha do “turismo lento” e não do estilo “turismo fúria indomável”, que vai de check em check nos lugares recomendados pelo ChatGPT.

Catedral de São Miguel - a maior e 
mais antiga do país

Tenho implicância com termos tão usados no mundo das viagens, como “fazer”, referindo-se a um país ou cidade, e “lugares de interesse”. Conferem um caráter produtivista a uma viagem de passeio, que deveria ser emoldurada pelo enlevo gerado pela observação e pelo aprendizado do novo. Chatice minha.

Dito isso, desviamos um pouco do caminho mais óbvio entre Sighisoara e Sibiu para “fazer” Alba Iulia. Hahaha.

Essa é considerada uma das cidades que devem ser visitadas na Transilvânia. Um dos pontos que desperta interesse é o fato de que, em 1918, foi nela que se proclamou a união da Transilvânia com o Reino da Romênia, momento no qual, de certa forma, surge o que hoje chamamos de Romênia.

Estacionamos ao lado da antiga cidadela, a Alba Carolina, uma impressionante fortificação que concentra boa parte do patrimônio histórico da cidade.

O mais interessante foi visitar as duas igrejas: a Catedral da Reunificação — ortodoxa, construída ‘há pouco’ entre 1921 e 1922, no local ligado à memória da unificação da Romênia, e a Catedral de São Miguel — católica romana, uma das construções medievais mais importantes da Transilvânia, iniciada no século XI e reconstruída e ampliada ao longo dos séculos.

Al inda Catedral Ortodoxa Romena de Sibiu

Muito legal vê-las praticamente lado a lado, dentro da mesma cidadela, representando tradições religiosas que podem ser consideradas mais ou menos próximas e momentos históricos muito diferentes: a ortodoxia romena de um lado, e o catolicismo ligado à história medieval da Transilvânia de outro.

Depois de umas horinhas em Alba Iulia, rumamos para Sibiu. A estrada seguiu parecida, passando por pequenas cidades, com suas casas típicas, e por campos cultivados com girassol, alfafa, milho e pastagens. Vimos algumas estruturas grandes, que indicam o cultivo de lúpulo.

Chegamos a Sibiu, fizemos check-in no Mercure Arsenal e fomos caminhando até a cidade antiga, cerca de 1,5 km. Caminho agradável, com destaque para uma igreja ortodoxa que estava no trajeto, lindíssima por fora. Por dentro, não conferimos.

E a praça seca de Sibiu é linda! Gostamos muito, passamos por ela várias vezes durante esses dois dias, tendo parado em três dos restaurantes que a rodeiam, para beber e/ou comer alguma coisa.

As casas com 'olhos'
Gostamos também da praça pequena, separada mas contígua à praça grande, onde também visitamos dois dos vários restaurantes que a circundam, para comer e beber algo.

Caminhar pela cidade, e não digo apenas pela parte antiga, é o programa por excelência em Sibiu. Que cidade bonita! Clima agradável, em qualquer sentido que você queira dar à palavra “clima”. Ao menos nesses dias, a temperatura estava amena.

Destaque para as casas com “olhos”, as janelinhas dos sótãos feitas em um formato que, de fato, dá a sensação de que as casas estão nos olhando.

Outro destaque foi a visita ao Museu Astra. Que lugar! Fica relativamente perto do centro. É um parque enorme, todo arborizado, onde estão instalações que nos remetem à Romênia rural, às suas diferentes etnias e aos seus modos de vida.

As instalações vieram de diferentes partes do país e foram remontadas no museu. Ou seja, vemos uma casa, uma pequena propriedade camponesa, um moinho movido a vento ou a água, e tudo tem nome e sobrenome: de onde e quando veio, a quem pertencia.

Um luxo o lugar, ainda mais pensando que Ana e eu somos agrônomos e valorizamos todo esse modo de vida camponês. Ter andado por pequenas cidades romenas e depois ver esse museu nos trouxe um deleite a mais.

Uma vila do interiro do país, reproduzida no Museu Astra

Eu havia lido que é necessário um dia inteiro para visitá-lo. Me pareceu exagero… mas não é. Ficamos por três horas, com a sensação de que deixamos de ver muita coisa.

Deixa-me comentar sobre a comida: muitos restaurantes romenos, outros austro-húngaros, muitos italianos. Vimos apenas um japonês. Ana tomou muitas sopas, característica da região; eu fui por pratos mais camponeses, por várias razões. Muita carne de porco, ovos, embutidos, muita polenta também, o que eu não esperava. Ontem, meu prato foi polenta, dois pedaços, nem mole nem frita, com carne de porco, linguiça e uma saladinha com chucrute e tomates. Gostosinho. Algo que eu poderia comer nas zonas rurais latino-americanas também, talvez com exceção do chucrute.

E essas foram nossas 48 horas em Sibiu, a cidade com olhos. Gostamos muito. Amanhã retornamos a Bucareste, apenas para dormir, mas com expectativa de boas surpresas no caminho, e seguir para Madrid. Vou contando.

Mais um aspecto da Praça Grande de Sibiu

Que lugar agradável para beber algo.

Tochiturã: linguiça, carne de porco, polenta, 
ovo e cebola

Reprodução do modo de vida do meu povo
no Museu Astra

Interior da Igreja Ortodoxa de Madeira
de Bezded - Museu Astra

Igreja Ortodoxa de Madeira
de Bezded - Museu Astra

Paiol para armazernar grãos.

 Máquina a vapor portátil 

Interior de uma casa romena no interior
 - século XIX

Casa de uma prorpeidade rural na romenia - século XIX


segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Sighisoara, Romênia, 29, 30 e 31 de agosto de 2026.

Desde baixo, vista de uma das entradas da cidade murada
e da Torre do Relógio

Chegamos ao Hotel Mercure Sighisoara às cinco da tarde de um ensolarado sábado. O prédio do hotel é curioso, com um visual interno bastante intenso, com uma óbvia inspiração germânica e tirolesa, mais contemporânea, com seus telhados inclinados e muita madeira. Meio que um chalé alpino. Eu gostei muito; Ana achou as madeiras e os carpetes um pouco excessivos. 
Vista do hall do Mercure

O hotel fica às portas da cidade antiga, e foi para lá que rumamos depois de deixar as malas no quarto. Aliás, nos deram um generoso upgrade para a melhor suíte do hotel.

A cidade antiga fica no alto do morro. Entramos nela pela porta da Torre do Relógio, uma das muitas torres que existem na cidade antiga. Vou contar algo do que li aqui sobre Sighisoara: a cidade é do século XII, quando colonos germânicos (os saxões da Transilvânia) foram trazidos pelos reis da Hungria para povoar e defender a região. Claro que já existia gente por aqui antes, mas não haviam fundado a cidade como a conhecemos hoje. Além das comunidades pré-históricas (termo engraçado, né?), das quais há vestígios, existem fortes evidências de que o vale do rio Târnava Mare, rio sobre o qual passei ontem de manhã, era rota de comércio do povo Dácio.

No início do primeiro milênio d.C., os romanos conquistaram a região. Os romanos se retiraram cedo, e a Transilvânia foi ocupada por diferentes grupos, como godos, hunos e eslavos. No século X, foi entrando no Reino da Hungria, que posteriormente trouxe os saxões! Ufa, que história. Interessante, não é? Eu acho!

Meio que quase sempre é assim: tal povo fundou tal cidade, mas sobre outra cidade, sobre séculos ou milênios de histórias construídas por muitos outros povos.

Que momento!
Entre os séculos XIV e XVI, ela tornou-se um importante centro comercial e artesanal. Cercada por muralhas, como costumavam ser as cidades medievais, sempre sujeitas a ataques inimigos, as torres cumpriam um papel importante na defesa. E cada uma delas — chegaram a ser 14 (das quais nove ainda existem) — era cuidada pelos diferentes grupos profissionais da cidade. Assim, existiam a torre dos alfaiates, a dos ferreiros, a dos sapateiros, a dos curtidores, a dos açougueiros… A equação é interessante: esses grupos ganhavam uma grana com o intenso comércio, tinham interesse em proteger a cidade e dividiam essa tarefa de manter o povoado a salvo. 
Mas, e a Torre do Relógio, a principal? Essa era do poder público e funcionava como entrada principal da cidadela. O relógio é lindo, cheio de figuras simbólicas, e tem aquelas figuras que se movimenta a cada hora cheia.

No centro da cidade antiga, uma pequena praça rodeada de bares e restaurantes. Nesse sábado e domingo que passamos em Sighisoara, acertamos bem no meio de um festival regional de música e danças romenas. Eles instalaram um superpalco e a música e a dança estavam rolando solto. Chegamos bem na hora da festa. Legal por um lado, por outro perdi o silêncio que buscava por aqui. Mas sim, foi bom ver a movimentação e algo das apresentações. Isso para mim, Ana, a jovem da excursão, adorou, dançou, bateu palma e cantarolou em romeno.

Caminhamos pelo centro sem nos deter em nada, tomamos um chope em frente a essa balbúrdia, na Casa du Cerb, no estilo “se o inimigo é mais forte, melhor se aliar a ele”, e depois fomos comer em um restaurante que gostamos muito, o Casa Krauss.

Torre do Relógio, vista de dentro
Domingo acordamos tranquilos, tomamos o café da manhã do hotel e saímos para o rolê dominical. Antes de subir para a cidade antiga, passamos por algumas ruas da cidade e achamos bonita e agradável. Sempre gostamos de sair dos muros turísticos. Nesse propósito, cruzamos o rio e fomos ver a Igreja Ortodoxa de Sighisoara. Linda, só vimos por fora; estava rolando uma missa. Algumas pessoas estavam sentadas também do lado de fora.

Deixa eu contar que sempre tive certa simpatia, até atração, pelo povo cigano. Quando decidi vir à Romênia, pensei nisso, em, de alguma forma, “encontrá-los”. Vi poucos, que consigo identificar, sujeito a erro, pelas características físicas. Quando vi, os vi em condições sociais mais complicadas. Agora, ao meu lado, enquanto escrevo esse parágrafo, em frente à igreja, uma mulher está falando sozinha. Parece cigana ou, mais corretamente dito, do povo Roma. Algumas estatísticas apontam que eles são uma minoria importante dos romenos, mas sofrem com o preconceito e a invisibilidade decorrente desse preconceito. Muitas vezes não se declaram como tal, o que deixa os números subestimados. Vieram da Índia, parando e seguindo diversas vezes e em diferentes momentos, há mais de mil anos (a data e a razão não é precisa), e se estabeleceram em regiões do que hoje conhecemos como Hungria e Romênia, espalhando-se depois por outros países europeus. Acho que posso dizer que a maior parte está na parte baixa da pirâmide social, ainda que, obviamente, existam pessoas Roma que são bem-sucedidas economicamente. Essas, muitas vezes, são das que não se declaram ou não se apresentam como tal.

Igreja Ortodoxa Romena de Sibiu
Depois da Igreja, cruzamos o rio de volta e subimos uma escada para entrar na cidade antiga por outro portão. Chegamos outra vez no festival e as apresentações de músicas e danças continuavam. Paramos no mesmo lugar, outra vez uma bebidinha, e ficamos vendo o movimento intenso. Belo forma de cruzar da manhã para a tarde de um domingo. Descemos por outra torre e demos uma boa caminhada até o hotel. Hora de descansar um pouco e fugir um pouco do sol quente.

Seis da tarde, outra vez para a cidade antiga. É o que tem para ser feito por aqui, Sighisoara é uma cidade pequena, cerca de trinta mil habitantes e, apesar de toda simpática, o melhor a ser visto está na cidade murada.

Passamos a tarde em noite de domingo entre ver um pouco das apresentações, breves caminhadas pelas ruas laterais da cidade antiga e um agradável jantar na “Casa Joseph Haydn”. Outra vez comi goulash.

Na manhã de hoje, ainda tivemos tempo para caminhar, ver um pouco do comércio local aberto. E, claro, subimos à cidade murada; queríamos muito vê-la sem o intenso movimento que o festival folclórico gerou. Linda. Linda cheia, linda mais vazia. Nós nos vamos com aquela sensação de que Sighisoara é um excelente lugar para um Slow Tourism. Andar devagar, comer devagar, ler sobre e sentir o local. E escrever uma crônica como esta.

Partiu Sibiu!

Tortre dos Alfaiates

Escada dos estudantes, com 300 degraus, para
proteger os estudantes da chuva e da neve.
No alto, a Escola da Colina e a Igreja da Colina

Ruas de Sighisoara

Torres dos Peleiros

Casa de Vlad III, o empalador. Ele nasceu viveu
em Sighisoara até ser dado aos Otomanos



Vista, desde baixo, da cidade alta

Festival de dança e música,