Pesquisar este blog

sábado, 4 de abril de 2026

Chongqing, 02 a 04 de abril de 2026.

 

Chongqing, iluminada

Já estamos na quarta cidade desta nossa viagem pela China. Em Pequim, senti que estava visitando a China, em Xi’an percorrendo sua história. Em Chengdu, andamos de mãos dadas com ela. Desço do carro que nos levou da estação ao Hotel, o bom Mercure Chongqing Jiefangbei Hongya Cave, e sinto, nitidamente, que, agora, estamos sendo engolidos pela China. Que cidade é essa?

Envolvido em certa dose de agitação, turbinados pelo fervor das ruas, só deixamos nossas coisas no hotel e saímos para caminhar. Na saída do elevador cumprimentamos, outra vez, já os tínhamos visto em Chengdu, os simpáticos robozinhos responsáveis por levar comida aos quartos. 

Chongqing é conhecido pelas suas ruas íngremes e escadarias espalhadas pela cidade. Estávamos preparados. O hotel, muito bem localizado, leva no próprio nome “Hongya Cave”. É um lugar considerado de visita obrigatória. Um conjunto de edifícios em estilo tradicional, construído em vários níveis na encosta, que abriga restaurantes e barracas de comida, lojas de lembrancinhas, roupas tradicionais, sorvetes, sucos, iogurtes, e sei lá mais o que. Saímos do hotel, descemos uma escada, chegamos no Hongya Cave, descemos, entre escadas e escadas rolantes, nove andares, saímos na rua lá embaixo. Essa cidade é toda em desníveis, e é isso que a faz famosa.

Li um pouco para entender, e descobri que Chongqing é toda “em camadas” por causa da geografia original do lugar – o que tem um quê de óbvio. A cidade fica no encontro dos rios Yangtzé e Jialing, numa região cheia de morros, encostas íngremes e vales profundos, na borda da Bacia de Sichuan. Ou seja, quase não tem terreno plano. Em vez de nivelar tudo, como muitas cidades fazem, Chongqing cresceu se adaptando a esse relevo — construindo por cima, ligando alturas diferentes e aproveitando cada espaço. Por isso ela parece uma cidade em vários andares: ruas que sobem e descem, prédios com entradas em níveis diferentes e uma sensação constante de verticalidade. Isso, somado aos altos prédios, às luzes e luzes e à tecnologia, confere a cidade o título de “futurista".

Minhas companhias em Hongya Cave

Nós gostamos médio de Hongya Cave. Maneiro de ver, mas é muita gente, confuso, muita gente, produtos de qualidade duvidosa, muita gente. O corretor diz que eu repeti “muita gente”. Fazer o quê? É muita gente... Depois de passar umas horas ali, descer e subir, nos dirigimos à região de Jiefangbei, que funciona como o “centrão” de Chongqing. É aquele ponto para onde todo mundo vai: ruas cheias, estilo calçadão, muita gente circulando, lojas, shoppings enormes e prédios modernos com luzes e telões por todos os lados. Não tem cara de centro histórico, é bem mais contemporâneo — lembra uma espécie de Times Square chinesa, ou até uma mistura de Paulista com shopping de luxo, só que em escala gigante. As marcas mundialmente famosas fazem todas ponto nesse local. É onde sentimos a cidade pulsando de verdade, passamos por ali algumas vezes e vimos movimento o tempo todo e uma energia bem intensa. Quando passamos por ali depois das dez da noite, em frente a uma imagem enorme do Garfield, cidade viva e iluminada, muitas crianças brincando na rua, Ana soltou um espontâneo “uai, as crianças nesse país não dormem não?”. Nesse país não sei, mas nessa cidade parece que não...

Devy World

Seguimos caminhando por Jiefangbei, depois de uma parada para descanso em um café (precisava de uma cafeína) em um dos tantos Starbucks que vimos, e fomos entrando em ruas cada vez mais iluminadas e cheias de movimento. Tínhamos chegado ao Deyi World. É uma caminhada curta, mas nos leva a um ambiente mais concentrado, como fechado pelos prédios altos, cheio de bares, letreiros piscantes e passarelas em vários níveis. Vimos um grupo de k-pop chinês fazendo sua performance e sendo profissionalmente filmados. Todo o ambiente é uma onda. Helena nos levou a um bar descolado, o Flavour Lounge, e pagou um drink caro para papis e mamis. Viu que ter filhos tem suas vantagens?

Sentiu a intensidade desta cidade? O que contei até agora é parte do que vimos em uma tarde-noite.

Dia seguinte começou com o café da manhã no hotel. Vou aproveitar para contar para vocês que a oferta de comida é algo absurdo. Em parte, porque esses bons hotéis buscam oferecer um desjejum ocidental, além do comum para eles. E o que é comum para eles? Não sei descrever tudo. Mas é tipo comida almoço, com dumplings, noodles, arroz frito, sopas, carnes variadas, muitos ovos – por exemplo um ovo escuro, cozido em chá. E mais coisas, como disse, não sei descrever tudo. Em parte, também, porque a nossa impressão é que chinês come muito. Muito. A cena era de mesas cheias de comida, muito barulho, a galera se alimentando como se fosse a última vez e também deixando muita coisa para trás. A sensação, me atrevo a dizer, é de um acesso recente a fartura, como se ainda não soubessem lidar bem com ela.

Que onda, né?

Depois disso fomos, de metrô, visitar o metrô. Não um metrô qualquer, mas aquele famoso, que passa dentro de um prédio, vindo de um viaduto super alto. Nunca ouviu falar? Fica na estação Liziba. Ali, os trilhos simplesmente atravessam um edifício residencial no meio, outra vez conferindo esse visual futurista à cidade. Detalhe: não é improviso. O prédio foi projetado com o metrô integrado, com isolamento acústico e estrutural para reduzir ruído e vibração. Isso tem tudo a ver com Chongqing e seu relevo cheio de desníveis e pouco espaço plano — então, em vez de desviar, eles incorporaram a linha ao próprio prédio. Virou uma solução de engenharia prática… e um dos cartões-postais mais curiosos da cidade. Muita gente visitando e, claro, lojas e ambulantes aproveitando a multidão. Vou colocar algumas fotos abaixo para vocês visualizarem melhor a cena.

De tarde, fomos a dois lugares que curtimos muito. Primeiro, o Luohan Temple. De cara, o contraste surpreende muito: no meio do centrão de Chongqing, cercado por prédios e movimento, entramos em um templo silencioso, cheio de incenso e calma. Esse templo se caracteriza por possuir centenas de estátuas dos arhats (discípulos iluminados de Buda), todas diferentes, que dão vontade de ficar olhando uma por uma. É um espaço que fico em dúvida em afirmar se é simples ou sofisticado. Acho que a sofisticação normalmente mora na simplicidade, né? Então, está respondido! E é, sim, muito autêntico, o que nos fez sentir, mesmo estando lotado, uma agradável sensação de pausa no meio do caos da cidade.

Aspecto do Templo

Depois do templo, seguimos caminhando e encontramos a região que identifiquei como Eling. Vimos um comércio local, pessoas locais, um belo mercado. Ficamos um tempinho admirando as bancas com folhas, carnes, raízes e, principalmente, uma banca com cogumelos medicinais. Nessa região vimos também restaurantes de Hot Pot, a comida muito típica que provamos em Chengdu e não nos animamos a comer outra vez.

Em meio a Eling, nos deparamos com Testbed, uma antiga área industrial transformada em espaço criativo, com cafés, lojinhas e galerias. A arquitetura é preservada, tem cara de antiga, mas com toque moderno. Bem legal. Por ali vimos uma Pizzaria Napolitana que não fomos, mas ficou rodando nossos sonhos de consumo boa parte da viagem. Não resistimos a provar macarrones em uma pâtisserie francesa bem bonita. E vimos outras lojas e cafés com esse tom ocidental, misturado ao que é mais local.

Esse canto da cidade foi muito legal de ver, nos fez sentir uma atmosfera bastante autêntica de Chongqing.

Depois de uma breve pausa para recuperar energias, no hotel, saímos, no início da noite, de metrô, para o lado oposto do rio, em relação ao que estávamos. 

O objetivo era ver a cidade iluminada de um ponto privilegiado. E valeu muito a pena. Visual incrível. Voltamos caminhando pela ponte, tudo muito bonito. Aí começou a saga de onde comer. Nos apetecia algo mais ocidental, procuramos, andamos, não deu nada certo, fomos enganados até pelo ChatGPT e adivinhem onde acabamos comendo as onze da noite? Em um MacDonald... sim, isso mesmo. Por favor, me lembrem de apagar essa parte, fica meio feio publicar isso...

Voltamos para o hotel, ainda em meio a luzes e gentes, felizes pelo dia superintenso e com um gosto amargo na boca pelo jantar.

No dia seguinte, para terminar nossa estada em Chongqing, fomos ver a Kuixinglou Square. Essa praça mostra bem como Chongqing é uma cidade meio “fora da lógica”. Você acha que está no nível da rua, caminhando normalmente, mas na verdade está no topo de um prédio, com vários andares lá embaixo. É aquele tipo de lugar que dá um nó na cabeça no começo, porque o “chão” nem sempre é o chão de verdade. Estávamos em uma praça, entramos em um prédio, descemos 24 andares, chegamos em outra rua. Essa é uma característica marcante da cidade. Não que na tua cidade não possa ter um prédio onde você entra pela porta, desce dois andares, sai pela garagem e chega na rua. A lógica é a mesma, mas em Chongqing isso rola em potências altíssimas.

E É isso que vou contar dessa cidade. Teria mais, mas fico por aqui. Agora, já no trem em direção a Furong, uma pequena cidade que, dizem, é de uma beleza única. Veremos!

Aspecto de Hongya Cave

Aspecto de Hongya Cave

Grupo de K-pop chines perfermonando
nas ruas

Visual da noite em Chongqing

Cogumelos medicinais

Mercado de bairro em Chongqing - Erlin

Lojinha d ebairro - patos, galinhas, 
pombos, ovos...

Arharts - cada um diferente do outro!




Jiefangbei


quinta-feira, 2 de abril de 2026

Chengdu, 31 de março a 02 de abril de 2026.

Eu e ele, olhos nos olhos!

A viagem de trem de Xi’an para Chengdu foi muito interessante. Levou quatro horas no trem de alta velocidade. No caminho, que foi do centro do país em direção ao sudoeste, vimos um mosaico de paisagens. A primeira parte da viagem foi por áreas de altas montanhas, que percorremos em boa parte por dentro, em intermináveis túneis. Abaixo delas, vales bem encaixados, com agricultura intensiva e diversos cultivos, com irrigação feita por sulcos e alguns terraços baixos.

Em reunião!

Na impressionante estação de trem de Chengdu, caminhamos seguindo as placas para pegar um Didi. É mais fácil ir de carro com as malas, além de ser barato considerando que somos três pessoas. O carro nos deixou na porta do hotel, o Mercure Chengdu Wuhou Temple, exatamente às 20h30.

Só deixamos as coisas no quarto e fomos para a Jinli Ancient Street. É uma rua histórica “temática”, considerada um ponto de interesse, totalmente recriada no estilo de antigas dinastias e voltada para o turismo. Não achamos legal, artificial demais e pouco atrativa. Mas sim, muitas luzes, comidas e lembrancinhas. Lojas, luzes e gente, muita gente. É o que tenho visto neste país. A Jinli Ancient Street fica ao lado do famoso templo Wuhou Shrine, que acabamos não visitando.

Ontem, quarta-feira, acordamos cedo para ir ao centro de pesquisa, conservação e reprodução de pandas gigantes. Fomos de Didi, cerca de 40 minutos, por aproximadamente R$ 30,00. Ver os pandas de perto foi muito legal — mas muito mesmo. São realmente simpáticos, e vê-los ali, tranquilos, comendo bambu e “posando” para os visitantes foi uma experiência incrível. A caminhada entre árvores também é muito prazerosa. Para não fugir da toada, muitas lojinhas com comidas e lembrancinhas de panda! Tudo que você imaginar, com tema de panda. Claro que compramos algumas coisinhas… e claro que eu comprei um panda de pelúcia para a Clara… O panda é o Mickey Mouse da China!

Ao redor da Chunxi Road

Vou reforçar para não deixar dúvidas: essa visita aos pandas é imperdível. E o bom é que Chengdu ainda tem muito mais para ver. No final deste post, deixo mais fotos dos pandas,

Voltamos e fomos direto para o que eu diria ser o centro da cidade: a Chunxi Road. Ruas enormes, sem carros, cheias de lojas, comida e shoppings, muitos shoppings. Usamos como referência o IFS, o mais conhecido deles. O IFS reúne algumas das melhores marcas do mundo, em lojas absolutamente suntuosas.

Eram duas da tarde quando resolvemos ir caminhando, cerca de 3 km, até a Praça do Povo. Uma caminhada com muitíssima informação: lojas e gente — o que mais tem nas cidades chinesas, por todo lado. Passamos pela Praça Tianfu, enorme, no distrito financeiro, com museus ao redor e uma grande estátua de Mao em frente ao Museu de Ciência e Tecnologia.

Comemos alguma comida de rua e finalmente chegamos ao Parque do Povo. Lotado. Fomos recebidos por um grupo da terceira idade dançando. A maioria mulheres, alguns poucos homens. Sabiam a coreografia e a executavam com relativa precisão… não foi a cena mais bonita que vi, a mostra da terceira idade chinesa que tive acesso não prima pela beleza e pelo ritmo… 

A Praça do Povo é do Povo!

Uma das razões para irmos ao Parque era tomar um chá. Nos indicaram uma casa famosa, a Heming, com mais de 100 anos. Imaginamos uma cerimônia do chá, lenta, relaxada, intimista… acho que nos confundimos, afinal estamos na China e lugares vazios não são o forte deste país… A Heming é enorme, com mesas dentro e fora, e estava lotadíssima. O que percebemos é que as pessoas pedem chá e levam suas próprias comidinhas, ficando ali sentadas por horas. Tomamos nosso chá e resolvemos voltar para a região de compras, lojas e movimento, nas ruas de pedestres que mencionei com muitas lojas e shoppings. E ali ficamos até anoitecer — queríamos ver as luzes da cidade acesas. E, realmente, as luzes aqui são um show à parte. Não vou descrever, acho melhor colocar algumas fotos!

Deixa-me voltar três horas no tempo e falar de algumas esculturas que vi no Parque do Povo. São dezenas, espalhadas pelo Parque. Ao lado delas, havia descrições que o tradutor me permitiu entender. Vou colocar duas aqui:

Nome da escultura: Difícil de se despedir

"Difícil de se despedir"
"Em 1937, no interior de Sichuan, um jovem chamado Er Wa, que dependia da avó para tudo, veste o uniforme militar e precisa se despedir dela para seguir com o exército rumo à guerra contra o Japão.

A avó, ao pensar que talvez nunca mais veria o neto, fica profundamente triste. Com o corpo frágil, ela se arrasta com dificuldade até a porta, segurando o batente com uma mão e acenando com a outra.

Er Wa se vira para se despedir, olhando para aquela que o criou com tanto carinho. Seus olhos estão cheios de lágrimas — é uma despedida extremamente dolorosa.

Ele entende que cresceu e que deve partir com as tropas para lutar contra os invasores japoneses, para honrar sua avó e as pessoas de sua aldeia."

Nome da escultura: Despedida

"Despedida"

"Uma mulher trabalhadora e bondosa, que havia se tornado mãe há pouco tempo, carrega nas costas seu bebê de poucos meses e vem se despedir do marido antes de ele partir para o campo de batalha.

Ela segura firmemente as mãos do marido, relutante em deixá-lo ir. Seu rosto está cheio de tristeza, olhando para o homem de quem logo terá de se separar — uma dor difícil de expressar em palavras.

Embora não seja instruída, ela entende claramente uma verdade: os japoneses invadiram seu país e destruíram seu lar. Os homens devem sair para lutar contra o inimigo, defender a nação — isso é o que se espera deles naquele momento."

A China, de certa forma, sempre foi um dos países mais importantes do mundo, grande e vigoroso. Mas isso não impediu que fosse dominada, total ou parcialmente, por outros povos e potências, como mongóis, manchus e algumas potências europeias. Mas, pelo pouco que sei, o período da dominação japonesa foi um dos mais agressivos. 

Mais do Parque do Povo!

É recente. Isso explica boa parte do nacionalismo chinês, por um lado, e da relação deles com os japoneses, por outro. Não são tratados exatamente como amiguinhos, e essas esculturas falam um pouco disso — do período da Segunda Guerra Sino-Japonesa, de 1937 a 1945. 

Aí no Brasil, de boa, quando você conhecer alguém do leste asiático, pergunte antes, nunca chame um chinês de japonês. Pode dar m… Já viu o filme Império do Sol? Não? Meio antigo, mas se você estiver vindo para a China, te sugiro ver.

Bem, voltando a Chengdu, ficamos até por volta das oito da noite na Chunxi Road, o setor com muitas lojas que mencionei. Uma das nossas intenções era esperar o anoitecer e ver um painel de um centro comercial, famoso por apresentar leds iluminados com figuras e propagandas, em 3D, sendo a do panda a que mais chama atenção. 

Pandas, muitos pandas!

A comida do dia foi na rua mesmo. Eu comi, por duas vezes, um sanduíche com carne de porco e um pão folheado, acompanhado de suco de coco com melancia.  De lá, fomos de Didi para o hotel e não saímos mais… Caminhamos quase 15 km durante o dia, estávamos cansados!

No dia seguinte, Ana e eu fomos dar uma volta ao redor do hotel, ver o bairro. Curtimos muito, a China fora do turismo ChatGPT é muito interessante, não deixe de incluir isso no teu roteiro por esses lados. Lojas acordando, parque com pessoas fazendo ginástica, mercado do bairro ativo e operante. Até compramos uma roupinha para a Clara!

Agora, estamos aqui no trem, de novo. Mais um trem-bala, desta vez saindo de Chengdu e indo para Chongqing, considerada a cidade mais intensa e futurista do país. Veremos!


Loja no centro de Chengdu !
Outro aspecto da imagem do Panda. Olha a 
galera que se reúne para ver!


Mercadinho do bairro, ao redor do Hotel.

Praça Tianfu!

Muito comum ver estátuas de Mao Tse Tung.
Essa, em frente a uma universidade, essa 
foto foi tirada da Tianfu Square.


Mais pandas!

Almoço! Detalhe interessante: todos os pandas gigantes do 
mundo são da china.

São demais, não são?

terça-feira, 31 de março de 2026

Xi’an, China, 29 a 31 de março de 2026.

 

Aspecto do Exército de Terracota

Saímos cedo de Pequim. Chegamos com uma hora de antecedência na estação, e tudo correu muito bem. Viajar de trem rápido na China era um desejo nosso para essa viagem, e não nos decepcionamos. Durante a viagem, fiquei lendo e percebendo que estávamos saindo da capital política do país, Pequim, para a cidade que de certa forma significa a sua raiz civilizacional, não por nada conhecida como Cidade Imperial de Xi’an. Você se interessa por história? Então na tua viagem pela China tem que passar por aqui.

Chegamos ao meio-dia. Da estação ao hotel, meia hora de Didi. Maneiro vir para o “interior”: uma cidade pequena — Xi’an tem “apenas” 14 milhões de habitantes! Putz!

Cena urbana em Xi'an
Viajar pela China é a maior viagem.

Nesse breve caminhar por esse país, estamos na segunda de sete cidades que conheceremos, somando ao que já trazia das leituras, é muito perceptível a urbanização: cidades vibrantes, cheias de prédios altos, como vimos também ao longo do trajeto de trem de Pequim a Xi’an. O próprio trem, sobre trilhos que funcionam como um “arranha-céu horizontal”, nos levou a percorrer cerca de 1.100 km em quatro horas, com algumas paradas no caminho, mostrando o vigor da indústria e da infraestrutura deste país.

Mas sei que ainda existem cerca de 500 milhões de pessoas vivendo em áreas rurais — algo como um terço da população. Em poucas décadas, a China saiu de um país majoritariamente agrícola para uma potência urbana, praticamente eliminando a pobreza extrema (anúncio feito pelo governo em 2021). Ainda há algo entre 200 e 250 milhões de pessoas com renda baixa, mas os avanços são inegáveis.

Tudo isso começou com as reformas de Deng Xiaoping, lá atrás — lembro bem desse momento —, quando a economia foi “liberalizada”, permitindo pequenos negócios privados. Concomitantemente, houve a liberação da mão de obra do campo, a criação de empregos nas fábricas, o incentivo à migração para as cidades e um investimento pesado em infraestrutura. Uma potência mundial, que preferiu investir em infraestrutura, não em guerra. O mesmo ferro que faz um canhão faz um trem. 

Primavera: flores para todo lado

O resultado é palpável, quase dá para tocá-lo no trem rápido que corta o país, nas obras, nas multidões e nessa sensação constante de um lugar em movimento. Sei que é atrevimento falar isso com apenas uma semana aqui, mas é a sensação que tenho: o país parece confiante, as pessoas felizes.

Sou da geração que cresceu com a imagem da China campesina e das ruas lotadas de bicicletas. Nas duas cidades pelas quais passamos — Pequim e Xi’an —, o que vi foram muitos e muitos carros, quase todos novos, algumas motos e poucas bicicletas. Imagino que, na China profunda, rural, a dinâmica seja outra. Mas, como comentei, hoje o país é majoritariamente urbano. Veremos se consigo ainda ver algo da China rural para ampliar minhas perspectivas e aguçar minhas percepções.

Chegamos, como disse, no início da tarde e saímos assim que deixamos nossas coisas no hotel. Fomos direto para a região da Torre do Sino, caminhando em busca de um restaurante que a Helena tinha visto como o melhor para comer dumplings: o De Fa Chang. Servem uma enorme variedade de dumplings, bonitos e saborosos. Pedimos também berinjela e vagem salteadas em um delicioso molho picante. Adoramos! 

Vagem e beringela salteados!

Estávamos ao lado do famoso bairro muçulmano, mas optamos por regressar ao hotel para sair novamente à noite. E assim fizemos. No fim da tarde, fomos ao Datang Everbright City, uma enorme avenida repleta de luzes, esculturas e instalações que remetem à dinastia Tang. A maior viagem! Bem a cara do que vejo por aqui: passado e futuro de mãos dadas. Chovia um pouquinho, mas ainda assim curtimos muito.

Voltamos ao lindo hotel depois das dez da noite, bem cansados. A China cansa… a média tem sido de 12 a 13 km por dia! E acho que a quantidade de gente, luzes, sons e cores amplia essa sensação de cansaço.

Essa viagem é cheia de pontos altos. Ontem, segunda de manhã, foi um deles: fomos visitar os famosos Guerreiros de Terracota. Realmente impressionante. Totalmente justificada a opinião de quem diz que esse sítio arqueológico poderia ser considerado a oitava maravilha do mundo.

Compramos ingressos no site oficial e fomos de Didi — cerca de 50 minutos. Gostamos de pegar um trecho de estrada.

Vale contar que, em 1974, durante uma grande seca na região, alguns agricultores resolveram cavar um poço. Um deles encontrou uma cabeça aqui, uma mão ali, todas de argila. Achou que não era nada demais, mas, ao encontrar mais fragmentos, decidiu chamar as autoridades. Começaram as escavações e… bingo! Era um exército com mais de 8 mil soldados, além de centenas de cavalos e carruagens, todos em tamanho real. Ainda em 1974 o local foi aberto para visitação e, desde então, tornou-se extremamente popular. Ontem, em plena segunda-feira, havia uma verdadeira multidão — a imensa maioria de visitantes chineses.

Essas esculturas foram feitas há mais de 2.200 anos para acompanhar o imperador Qin Shi Huang na vida após a morte. Tudo faz parte do seu complexo funerário. O mausoléu propriamente dito — onde está o imperador — ainda não foi escavado. O trabalho é feito com extremo cuidado, devido ao risco de danificar essas preciosidades.

Aspecto do bairro muçulmano
Voltamos de Didi e fomos direto ao bairro muçulmano, passeio considerado obrigatório aqui — e acho que é mesmo. Olha que viagem: li que ele surgiu com comerciantes da Rota da Seda, aliás, a famosa rota da seda começou em Xi’an. A população majoritária neste bairro é de muçulmanos chineses, e é curioso ver a cultura islâmica integrada ao cotidiano chinês. São inúmeras barraquinhas e lojas com comida de rua, com espetinhos de cordeiro, “hambúrguer chinês”, noodles e doces, muitos deles com gergelim e nozes. Detalhe: diferente de outros lugares na China, a carne de porco marca pouca presença neste bairro. Também vimos muitas lojas de roupas, uma enorme que vende prata, lembranças, cafés, e sei lá mais o quê. De novo: muita gente, muitas cores, cheiros e ruídos. Aqui tudo é muito intenso. Achamos muito legal a caminhada de duas horas que demos por esse lugar. Pena que não fomos conhecer a Mesquita que, ouvi dizer, é linda.

Já era quase cinco da tarde quando seguimos até a muralha da cidade, outro ponto de interesse sempre citado. Pagamos o ingresso e subimos. Andar pela muralha deve ser agradável — e é recomendado ver o pôr do sol dali. Eu achei médio, porque, nesta época não sei se por ser primavera ou por outro motivo, a muralha está tomada por uma decoração intensa, com animais mitológicos, enfeites, lanternas etc., que chamam atenção pelo excesso de cores. Acho que eu preferiria a muralha mais limpa, apenas com seus belos postos de observação, na arquitetura característica da época imperial deste lado do mundo. 

Muralhas de Xi'an - posto de oibservação

Da muralha fomos para o happy hour no hotel e não saímos mais. O ambiente do Sofitel Legend é muito agradável, e eu não resisto a um 0800…

Hoje de manhã fomos visitar um templo budista (Da Ci’en Temple), que abriga a Grande Pagoda do Ganso Selvagem. Não fomos nesta última, uma enorme estrutura de sete andares, construída no século VII, com várias estátuas de Buda, mas adoramos visitar o templo, seus jardins e suas salas de oração. Lindíssimo.

Agora são 4 da tarde de terça-feira, dia 31 de março. Estamos no trem, indo de Xi’an para Chengdu, a mais de 300 km/h. Saindo meio que do centro do país para o sudoeste. Vou ter que voltar, dois dias não deu nem para o cheiro. Mas nosso roteiro agora é ver os pandas. De lá, conto mais!


 Da Ci’en Temple - Guanyin, a bodisatva 

da compaixão – na China,é 

representada com traços femininos


China à noite - Datang Everbright City

China à nooite - Datang Everbright City
Lula Grelhada - comidinha de rua na China
Exército de Terracota

Exército de Terracota

Imagem do Buda (Sidarta Gautama)

Da Ci’en Temple









domingo, 29 de março de 2026

Pequim, China, de 25 a 29 de março de 2026.

Muralha da China

Chegamos em Pequim na quarta-feira, dia 25. Saímos de Porto Alegre, voamos de Latam até Londres. Por sorte, rolou aquele upgrade para executiva! Esperamos seis horas no aeroporto com um acesso bem limitado a uma sala VIP e embarcamos na China Southern para Pequim. Avião bom, um A380 novinho, lotado, muitos jovens e dez horas de voo no meio do avião. Sobrevivemos bem!

Cena urbana no Parque Jingshan

No aeroporto de Pequim, super organizado e com um trâmite de imigração muito simples, pegamos um Didi, o Uber daqui, até o hotel, o Grand Mercure Beijing Central. O hotel é ótimo, aquele enorme lobby que eu gosto, tudo muito correto. Que legal estar aqui pelo Oriente, estar aqui na China!

Na China, os aplicativos ocidentais não funcionam. Antes de vir, tivemos que nos prevenir e baixar os aplicativos que nos ajudarão a viver por aqui. Por exemplo, o Alipay. Com ele, podemos fazer pagamentos com os cartões de crédito que cadastrarmos, porque usá-los diretamente, como sempre fazemos, nem sempre rola. Nesse aplicativo, podemos ainda chamar carro, pagar metrô, comprar trens e reservar hotéis. E mais. Também é necessário contratar internet e uma VPN, para aí sim podermos acessar os apps com os quais estamos acostumados. Tem ainda mais, estou só dando exemplos de como devemos nos preparar para viajar para cá.

Mas… o que fizemos nesses três dias em Pequim?

No primeiro dia, quinta-feira, começamos com o café da manhã do hotel. Minha fidelidade à rede Accor é recompensada, em toda a Ásia, com café da manhã gratuito, além de um belo upgrade de quarto.

Depois do café, saímos caminhando, na expectativa de ir até a Praça da Paz Celestial. Ledo engano… não tem como se registrar para entrar na hora, a segurança é levada a sério. Tem que se cadastrar no dia anterior. Seguimos caminhando e, perdidos em um simpático hutong, encontramos o “Pudu Temple”. 

Magnólias em flor no Pudu Temple

Curtimos, muita gente local passeando, um grupo praticando alguma arte marcial, magnólias em flor e fotos, muitas fotos. Você sabe o que são os hutongs? Os hutongs são os tradicionais bairros antigos de Pequim, formados por becos, ruelas e casas térreas organizadas em torno de pátios internos. São um dos estilos urbanos mais antigos e característicos da cidade.

Caminhando por eles, sentimos que estávamos chegando à China.

Seguimos caminhando e nos deparamos com o Parque Jingshan, em frente à saída norte da Cidade Proibida. Tem uma colina artificial, feita com a terra retirada dos fossos da Cidade Proibida. No topo, uma linda vista de toda a cidade. Para aproveitar o visual, o imperador mandou construir um lindo pavilhão, chamado “Pavilhão da Primavera Eterna”. Grande, desde lá de baixo se vê imponente, com aquela arquitetura clássica que nos avisa que estamos na China.

Saímos do parque com a intenção de ir comer uns dumplings. Escolhemos o restaurante, colocamos no Didi, entramos no carro e partiu! Chegamos ao hotel… rsrsrs… erramos ao colocar o endereço, temos que melhorar nosso mandarim!

Lago Houhai

Comemos algo, Helena e eu, em um restaurante ao lado do hotel, muito simples, digamos um autêntico pé sujo chinês, bem barato e ruim. Somando e dividindo, resultado razoável. No fim da tarde, fomos até Shichahai, a região dos lagos em Pequim. Eu conhecia, estive aqui em 2011, e tinha uma boa lembrança. São três lagos contíguos, perfeitos tanto para um rolê ao redor deles quanto pelos hutongs da região. Fomos ao local mais animado, o Houhai. Muita gente, luzes, cores, cheiros, comidas e fotos, muitas fotos.

Curtimos bem nossa noite, comemos por ali mesmo, nas inúmeras barraquinhas que se apresentam. Ainda bem que tem imagens dos pratos e das comidas: apontamos o dedo, pagamos e seja o que Deus quiser!

No dia seguinte, sexta-feira, 27, dia do aniversário da Helena, fomos comemorar em grande estilo na Muralha da China. Eu havia estado nela, na parte de Badaling. Agora, fomos a Mutianyu. Um pouco mais longe, dizem que um pouco mais vazia, é considerada melhor estruturada, com dois teleféricos e um tobogã para descer. Compramos o ingresso para ir de Pequim até lá pela GetYourGuide, cem reais por pessoa. No ônibus de ida, nos vendem os ingressos para a parte leste ou oeste das muralhas, ou as duas. Escolhemos ir à parte oeste, onde é possível subir até a Torre 14 de teleférico, estilo bondinho, para oito pessoas, e ir caminhando pelas muralhas até a Torre 20. A subida tem seu grau de dificuldade, nada muito pesado, mas Ana achou melhor não avançar muito. Helena e eu fomos até o fim. Fim não é bem o termo, a Muralha da China tem alguns milhares de quilômetros de extensão… para chegar à Torre 20, há uma escada com mais de 500 degraus, irregulares, uns mais altos que outros, o que nos obrigou a fazer uns dois ou três pit stops até chegar lá no alto. Mas acho que só conseguimos mesmo porque Helena colocou a música da Mulan para ouvirmos. Pronto, aí sim! 

Valeu muito ter ido por esse trecho, o visual é bonito, a caminhada icônica, o movimento interessante de ver. Mas valeu principalmente por ter tido a chance de estar duas vezes nessa maravilha do mundo moderno, que mostra a absurda capacidade do ser humano de criar obras que têm cara de impossíveis. Essa é uma delas.

E claro, o que mais se vê é a galera tirando fotos, muitas fotos! 

Rolê à noite, perto do hotel, vários
centros comerciais

Regressamos e, às 4 da tarde, já estávamos de volta a Pequim. Pegamos o metrô, limpo e organizado, e fomos até o “Mercado das Sedas”, o paraíso das falsificações… mudou muito, a cara não está tão popular, é um bonito shopping. Sabe aquela propaganda? Os cabelos mudaram, mas a voz continua a mesma… vendedores ávidos por vender se apegam a um mínimo sinal de interesse teu. E o truque é mostrar interesse e depois dizer que não quer. Compramos lenço por 30 yuans, mas o primeiro preço foi 150. Helena entrou em uma loja de bolsas. Disse que a falsificação de uma Loewe estava boa, pensou em comprar. Mas o que ela queria mesmo era ser convidada para ir para a “salinha”, onde, depois que entramos, o vendedor fechou a porta com chave. Como se fosse um submundo, um tráfico de algo. Pareceu mais uma encenação. Ri, porque Ana ficou nervosa com a porta fechada e pediu para sair. Eu fiquei vendo Helena negociar… saiu dos 2.500 iniciais para 300. Mesmo assim ela não quis. Queria mesmo era a diversão da negociação e da salinha trancada!

Saímos de lá com algumas lembrancinhas, como bálsamo de tigre, potinhos e uma roupinha com estampas de panda para a Clara.

Regressamos. Helena e eu resolvemos passear no início da noite na rua do hotel, com vários shoppings, lojas, pessoas e luzes. Do pouco que vi até agora, as noites são imperdíveis, é quando noto mais diferença entre outras grandes cidades e Pequim.

Praça da Paz Celestial

Ontem, sábado, último dia na capital política do país, fomos fazer os obrigatórios passeios da Praça da Paz Celestial e da Cidade Proibida. Optamos por comprar também na GYG, por uns 140 reais, um passeio com entradas e guia. Foram cinco horas caminhando entre um e outro, ouvindo uma língua que até agora eu quero saber qual é. Me falaram que era inglês. Sei que meu inglês não é bom, mas quero ver se Shakespeare entenderia o que nosso guia falava…

Não vou descrever aqui o que vi no passeio, é muito fácil achar boas explicações sobre esses lugares. Vou apenas dizer que não é à toa que, em 2025, 37 milhões de pessoas visitaram um e/ou outro. Esses números, que parecem exagerados, foram mencionados pelo guia. São lugares realmente incríveis. A maioria desses visitantes são chineses, orgulhosos e desejosos de ver o que fizeram os de ontem (Cidade Proibida) e os de hoje (Praça da Paz Celestial). Bonito ver como as pessoas querem tirar fotos, muitas fotos, com a bandeira nacional ou tendo o enorme retrato de Mao Tsé-Tung ao fundo.

Cidade Proibida

No fim da tarde, preparando a saída de hoje cedo, voltamos a tempo de estar no happy hour que o hotel nos oferece todo fim de tarde. Vocês sabem, eu adoro um de grátis, com qualidade, vista boa e em país estrangeiro. 

Estar na China é uma onda. Tentar ver algo e, quem sabe, buscar entender um pouco desse enigmático país, sua cultura, sua história, seus feitos e seu “socialismo de mercado”, segundo alguns, ou “capitalismo de Estado”, segundo outros, é fascinante. Ainda temos duas semanas por aqui. Agora estou no trem, domingo de manhã, indo para a cidade Imperial de Xi’an, a 350 km por hora. Vou contando… e postando fotos, muitas fotos!






Ana pediu as meninas vestidas com trajes antrigos para
tirar uma foto com elas - na Cidade Proibida.

ao redor do Lago Houhai

Pavilão da Primavera Eterna, Parque Jingshan