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terça-feira, 31 de março de 2026

Xi’an, China, 29 a 31 de março de 2026.

 

Aspecto do Exército de Terracota

Saímos cedo de Pequim. Chegamos com uma hora de antecedência na estação, e tudo correu muito bem. Viajar de trem rápido na China era um desejo nosso para essa viagem, e não nos decepcionamos. Durante a viagem, fiquei lendo e percebendo que estávamos saindo da capital política do país, Pequim, para a cidade que de certa forma significa a sua raiz civilizacional, não por nada conhecida como Cidade Imperial de Xi’an. Você se interessa por história? Então na tua viagem pela China tem que passar por aqui.

Chegamos ao meio-dia. Da estação ao hotel, meia hora de Didi. Maneiro vir para o “interior”: uma cidade pequena — Xi’an tem “apenas” 14 milhões de habitantes! Putz!

Cena urbana em Xi'an
Viajar pela China é a maior viagem.

Nesse breve caminhar por esse país, estamos na segunda de sete cidades que conheceremos, somando ao que já trazia das leituras, é muito perceptível a urbanização: cidades vibrantes, cheias de prédios altos, como vimos também ao longo do trajeto de trem de Pequim a Xi’an. O próprio trem, sobre trilhos que funcionam como um “arranha-céu horizontal”, nos levou a percorrer cerca de 1.100 km em quatro horas, com algumas paradas no caminho, mostrando o vigor da indústria e da infraestrutura deste país.

Mas sei que ainda existem cerca de 500 milhões de pessoas vivendo em áreas rurais — algo como um terço da população. Em poucas décadas, a China saiu de um país majoritariamente agrícola para uma potência urbana, praticamente eliminando a pobreza extrema (anúncio feito pelo governo em 2021). Ainda há algo entre 200 e 250 milhões de pessoas com renda baixa, mas os avanços são inegáveis.

Tudo isso começou com as reformas de Deng Xiaoping, lá atrás — lembro bem desse momento —, quando a economia foi “liberalizada”, permitindo pequenos negócios privados. Concomitantemente, houve a liberação da mão de obra do campo, a criação de empregos nas fábricas, o incentivo à migração para as cidades e um investimento pesado em infraestrutura. Uma potência mundial, que preferiu investir em infraestrutura, não em guerra. O mesmo ferro que faz um canhão faz um trem. 

Primavera: flores para todo lado

O resultado é palpável, quase dá para tocá-lo no trem rápido que corta o país, nas obras, nas multidões e nessa sensação constante de um lugar em movimento. Sei que é atrevimento falar isso com apenas uma semana aqui, mas é a sensação que tenho: o país parece confiante, as pessoas felizes.

Sou da geração que cresceu com a imagem da China campesina e das ruas lotadas de bicicletas. Nas duas cidades pelas quais passamos — Pequim e Xi’an —, o que vi foram muitos e muitos carros, quase todos novos, algumas motos e poucas bicicletas. Imagino que, na China profunda, rural, a dinâmica seja outra. Mas, como comentei, hoje o país é majoritariamente urbano. Veremos se consigo ainda ver algo da China rural para ampliar minhas perspectivas e aguçar minhas percepções.

Chegamos, como disse, no início da tarde e saímos assim que deixamos nossas coisas no hotel. Fomos direto para a região da Torre do Sino, caminhando em busca de um restaurante que a Helena tinha visto como o melhor para comer dumplings: o De Fa Chang. Servem uma enorme variedade de dumplings, bonitos e saborosos. Pedimos também berinjela e vagem salteadas em um delicioso molho picante. Adoramos! 

Vagem e beringela salteados!

Estávamos ao lado do famoso bairro muçulmano, mas optamos por regressar ao hotel para sair novamente à noite. E assim fizemos. No fim da tarde, fomos ao Datang Everbright City, uma enorme avenida repleta de luzes, esculturas e instalações que remetem à dinastia Tang. A maior viagem! Bem a cara do que vejo por aqui: passado e futuro de mãos dadas. Chovia um pouquinho, mas ainda assim curtimos muito.

Voltamos ao lindo hotel depois das dez da noite, bem cansados. A China cansa… a média tem sido de 12 a 13 km por dia! E acho que a quantidade de gente, luzes, sons e cores amplia essa sensação de cansaço.

Essa viagem é cheia de pontos altos. Ontem, segunda de manhã, foi um deles: fomos visitar os famosos Guerreiros de Terracota. Realmente impressionante. Totalmente justificada a opinião de quem diz que esse sítio arqueológico poderia ser considerado a oitava maravilha do mundo.

Compramos ingressos no site oficial e fomos de Didi — cerca de 50 minutos. Gostamos de pegar um trecho de estrada.

Vale contar que, em 1974, durante uma grande seca na região, alguns agricultores resolveram cavar um poço. Um deles encontrou uma cabeça aqui, uma mão ali, todas de argila. Achou que não era nada demais, mas, ao encontrar mais fragmentos, decidiu chamar as autoridades. Começaram as escavações e… bingo! Era um exército com mais de 8 mil soldados, além de centenas de cavalos e carruagens, todos em tamanho real. Ainda em 1974 o local foi aberto para visitação e, desde então, tornou-se extremamente popular. Ontem, em plena segunda-feira, havia uma verdadeira multidão — a imensa maioria de visitantes chineses.

Essas esculturas foram feitas há mais de 2.200 anos para acompanhar o imperador Qin Shi Huang na vida após a morte. Tudo faz parte do seu complexo funerário. O mausoléu propriamente dito — onde está o imperador — ainda não foi escavado. O trabalho é feito com extremo cuidado, devido ao risco de danificar essas preciosidades.

Aspecto do bairro muçulmano
Voltamos de Didi e fomos direto ao bairro muçulmano, passeio considerado obrigatório aqui — e acho que é mesmo. Olha que viagem: li que ele surgiu com comerciantes da Rota da Seda, aliás, a famosa rota da seda começou em Xi’an. A população majoritária neste bairro é de muçulmanos chineses, e é curioso ver a cultura islâmica integrada ao cotidiano chinês. São inúmeras barraquinhas e lojas com comida de rua, com espetinhos de cordeiro, “hambúrguer chinês”, noodles e doces, muitos deles com gergelim e nozes. Detalhe: diferente de outros lugares na China, a carne de porco marca pouca presença neste bairro. Também vimos muitas lojas de roupas, uma enorme que vende prata, lembranças, cafés, e sei lá mais o quê. De novo: muita gente, muitas cores, cheiros e ruídos. Aqui tudo é muito intenso. Achamos muito legal a caminhada de duas horas que demos por esse lugar. Pena que não fomos conhecer a Mesquita que, ouvi dizer, é linda.

Já era quase cinco da tarde quando seguimos até a muralha da cidade, outro ponto de interesse sempre citado. Pagamos o ingresso e subimos. Andar pela muralha deve ser agradável — e é recomendado ver o pôr do sol dali. Eu achei médio, porque, nesta época não sei se por ser primavera ou por outro motivo, a muralha está tomada por uma decoração intensa, com animais mitológicos, enfeites, lanternas etc., que chamam atenção pelo excesso de cores. Acho que eu preferiria a muralha mais limpa, apenas com seus belos postos de observação, na arquitetura característica da época imperial deste lado do mundo. 

Muralhas de Xi'an - posto de oibservação

Da muralha fomos para o happy hour no hotel e não saímos mais. O ambiente do Sofitel Legend é muito agradável, e eu não resisto a um 0800…

Hoje de manhã fomos visitar um templo budista (Da Ci’en Temple), que abriga a Grande Pagoda do Ganso Selvagem. Não fomos nesta última, uma enorme estrutura de sete andares, construída no século VII, com várias estátuas de Buda, mas adoramos visitar o templo, seus jardins e suas salas de oração. Lindíssimo.

Agora são 4 da tarde de terça-feira, dia 31 de março. Estamos no trem, indo de Xi’an para Chengdu, a mais de 300 km/h. Saindo meio que do centro do país para o sudoeste. Vou ter que voltar, dois dias não deu nem para o cheiro. Mas nosso roteiro agora é ver os pandas. De lá, conto mais!


 Da Ci’en Temple - Guanyin, a bodisatva 

da compaixão – na China,é 

representada com traços femininos


China à noite - Datang Everbright City

China à nooite - Datang Everbright City
Lula Grelhada - comidinha de rua na China
Exército de Terracota

Exército de Terracota

Imagem do Buda (Sidarta Gautama)

Da Ci’en Temple









domingo, 29 de março de 2026

Pequim, China, de 25 a 29 de março de 2026.

Muralha da China

Chegamos em Pequim na quarta-feira, dia 25. Saímos de Porto Alegre, voamos de Latam até Londres. Por sorte, rolou aquele upgrade para executiva! Esperamos seis horas no aeroporto com um acesso bem limitado a uma sala VIP e embarcamos na China Southern para Pequim. Avião bom, um A380 novinho, lotado, muitos jovens e dez horas de voo no meio do avião. Sobrevivemos bem!

Cena urbana no Parque Jingshan

No aeroporto de Pequim, super organizado e com um trâmite de imigração muito simples, pegamos um Didi, o Uber daqui, até o hotel, o Grand Mercure Beijing Central. O hotel é ótimo, aquele enorme lobby que eu gosto, tudo muito correto. Que legal estar aqui pelo Oriente, estar aqui na China!

Na China, os aplicativos ocidentais não funcionam. Antes de vir, tivemos que nos prevenir e baixar os aplicativos que nos ajudarão a viver por aqui. Por exemplo, o Alipay. Com ele, podemos fazer pagamentos com os cartões de crédito que cadastrarmos, porque usá-los diretamente, como sempre fazemos, nem sempre rola. Nesse aplicativo, podemos ainda chamar carro, pagar metrô, comprar trens e reservar hotéis. E mais. Também é necessário contratar internet e uma VPN, para aí sim podermos acessar os apps com os quais estamos acostumados. Tem ainda mais, estou só dando exemplos de como devemos nos preparar para viajar para cá.

Mas… o que fizemos nesses três dias em Pequim?

No primeiro dia, quinta-feira, começamos com o café da manhã do hotel. Minha fidelidade à rede Accor é recompensada, em toda a Ásia, com café da manhã gratuito, além de um belo upgrade de quarto.

Depois do café, saímos caminhando, na expectativa de ir até a Praça da Paz Celestial. Ledo engano… não tem como se registrar para entrar na hora, a segurança é levada a sério. Tem que se cadastrar no dia anterior. Seguimos caminhando e, perdidos em um simpático hutong, encontramos o “Pudu Temple”. 

Magnólias em flor no Pudu Temple

Curtimos, muita gente local passeando, um grupo praticando alguma arte marcial, magnólias em flor e fotos, muitas fotos. Você sabe o que são os hutongs? Os hutongs são os tradicionais bairros antigos de Pequim, formados por becos, ruelas e casas térreas organizadas em torno de pátios internos. São um dos estilos urbanos mais antigos e característicos da cidade.

Caminhando por eles, sentimos que estávamos chegando à China.

Seguimos caminhando e nos deparamos com o Parque Jingshan, em frente à saída norte da Cidade Proibida. Tem uma colina artificial, feita com a terra retirada dos fossos da Cidade Proibida. No topo, uma linda vista de toda a cidade. Para aproveitar o visual, o imperador mandou construir um lindo pavilhão, chamado “Pavilhão da Primavera Eterna”. Grande, desde lá de baixo se vê imponente, com aquela arquitetura clássica que nos avisa que estamos na China.

Saímos do parque com a intenção de ir comer uns dumplings. Escolhemos o restaurante, colocamos no Didi, entramos no carro e partiu! Chegamos ao hotel… rsrsrs… erramos ao colocar o endereço, temos que melhorar nosso mandarim!

Lago Houhai

Comemos algo, Helena e eu, em um restaurante ao lado do hotel, muito simples, digamos um autêntico pé sujo chinês, bem barato e ruim. Somando e dividindo, resultado razoável. No fim da tarde, fomos até Shichahai, a região dos lagos em Pequim. Eu conhecia, estive aqui em 2011, e tinha uma boa lembrança. São três lagos contíguos, perfeitos tanto para um rolê ao redor deles quanto pelos hutongs da região. Fomos ao local mais animado, o Houhai. Muita gente, luzes, cores, cheiros, comidas e fotos, muitas fotos.

Curtimos bem nossa noite, comemos por ali mesmo, nas inúmeras barraquinhas que se apresentam. Ainda bem que tem imagens dos pratos e das comidas: apontamos o dedo, pagamos e seja o que Deus quiser!

No dia seguinte, sexta-feira, 27, dia do aniversário da Helena, fomos comemorar em grande estilo na Muralha da China. Eu havia estado nela, na parte de Badaling. Agora, fomos a Mutianyu. Um pouco mais longe, dizem que um pouco mais vazia, é considerada melhor estruturada, com dois teleféricos e um tobogã para descer. Compramos o ingresso para ir de Pequim até lá pela GetYourGuide, cem reais por pessoa. No ônibus de ida, nos vendem os ingressos para a parte leste ou oeste das muralhas, ou as duas. Escolhemos ir à parte oeste, onde é possível subir até a Torre 14 de teleférico, estilo bondinho, para oito pessoas, e ir caminhando pelas muralhas até a Torre 20. A subida tem seu grau de dificuldade, nada muito pesado, mas Ana achou melhor não avançar muito. Helena e eu fomos até o fim. Fim não é bem o termo, a Muralha da China tem alguns milhares de quilômetros de extensão… para chegar à Torre 20, há uma escada com mais de 500 degraus, irregulares, uns mais altos que outros, o que nos obrigou a fazer uns dois ou três pit stops até chegar lá no alto. Mas acho que só conseguimos mesmo porque Helena colocou a música da Mulan para ouvirmos. Pronto, aí sim! 

Valeu muito ter ido por esse trecho, o visual é bonito, a caminhada icônica, o movimento interessante de ver. Mas valeu principalmente por ter tido a chance de estar duas vezes nessa maravilha do mundo moderno, que mostra a absurda capacidade do ser humano de criar obras que têm cara de impossíveis. Essa é uma delas.

E claro, o que mais se vê é a galera tirando fotos, muitas fotos! 

Rolê à noite, perto do hotel, vários
centros comerciais

Regressamos e, às 4 da tarde, já estávamos de volta a Pequim. Pegamos o metrô, limpo e organizado, e fomos até o “Mercado das Sedas”, o paraíso das falsificações… mudou muito, a cara não está tão popular, é um bonito shopping. Sabe aquela propaganda? Os cabelos mudaram, mas a voz continua a mesma… vendedores ávidos por vender se apegam a um mínimo sinal de interesse teu. E o truque é mostrar interesse e depois dizer que não quer. Compramos lenço por 30 yuans, mas o primeiro preço foi 150. Helena entrou em uma loja de bolsas. Disse que a falsificação de uma Loewe estava boa, pensou em comprar. Mas o que ela queria mesmo era ser convidada para ir para a “salinha”, onde, depois que entramos, o vendedor fechou a porta com chave. Como se fosse um submundo, um tráfico de algo. Pareceu mais uma encenação. Ri, porque Ana ficou nervosa com a porta fechada e pediu para sair. Eu fiquei vendo Helena negociar… saiu dos 2.500 iniciais para 300. Mesmo assim ela não quis. Queria mesmo era a diversão da negociação e da salinha trancada!

Saímos de lá com algumas lembrancinhas, como bálsamo de tigre, potinhos e uma roupinha com estampas de panda para a Clara.

Regressamos. Helena e eu resolvemos passear no início da noite na rua do hotel, com vários shoppings, lojas, pessoas e luzes. Do pouco que vi até agora, as noites são imperdíveis, é quando noto mais diferença entre outras grandes cidades e Pequim.

Praça da Paz Celestial

Ontem, sábado, último dia na capital política do país, fomos fazer os obrigatórios passeios da Praça da Paz Celestial e da Cidade Proibida. Optamos por comprar também na GYG, por uns 140 reais, um passeio com entradas e guia. Foram cinco horas caminhando entre um e outro, ouvindo uma língua que até agora eu quero saber qual é. Me falaram que era inglês. Sei que meu inglês não é bom, mas quero ver se Shakespeare entenderia o que nosso guia falava…

Não vou descrever aqui o que vi no passeio, é muito fácil achar boas explicações sobre esses lugares. Vou apenas dizer que não é à toa que, em 2025, 37 milhões de pessoas visitaram um e/ou outro. Esses números, que parecem exagerados, foram mencionados pelo guia. São lugares realmente incríveis. A maioria desses visitantes são chineses, orgulhosos e desejosos de ver o que fizeram os de ontem (Cidade Proibida) e os de hoje (Praça da Paz Celestial). Bonito ver como as pessoas querem tirar fotos, muitas fotos, com a bandeira nacional ou tendo o enorme retrato de Mao Tsé-Tung ao fundo.

Cidade Proibida

No fim da tarde, preparando a saída de hoje cedo, voltamos a tempo de estar no happy hour que o hotel nos oferece todo fim de tarde. Vocês sabem, eu adoro um de grátis, com qualidade, vista boa e em país estrangeiro. 

Estar na China é uma onda. Tentar ver algo e, quem sabe, buscar entender um pouco desse enigmático país, sua cultura, sua história, seus feitos e seu “socialismo de mercado”, segundo alguns, ou “capitalismo de Estado”, segundo outros, é fascinante. Ainda temos duas semanas por aqui. Agora estou no trem, domingo de manhã, indo para a cidade Imperial de Xi’an, a 350 km por hora. Vou contando… e postando fotos, muitas fotos!






Ana pediu as meninas vestidas com trajes antrigos para
tirar uma foto com elas - na Cidade Proibida.

ao redor do Lago Houhai

Pavilão da Primavera Eterna, Parque Jingshan




terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Guimarães, Barcelos e Porto, 11 a 14 de fevereiro de 2026.

 

Centro Histórico de Guimarães

A chegada em Guimarães não foi das mais animadoras! Fim de tarde, chovendo… O hotel, bem localizado, não nos causou boa impressão à primeira vista. Chama-se Hotel Toural. Fizemos o check-in e saímos para caminhar no centro histórico. Frio e chuva fina; pegamos o lado errado, não achamos muito interessante. Já no final da caminhada começamos a ver os locais que são considerados pontos de interesse e nos animamos um pouco. Paramos em um bar (Coconut), tomamos um vinho e comemos bolinhos de bacalhau e bolinhos de alheira. Nos animamos mais um pouco, mas, às sete e meia, já estávamos no quarto. Hahaha, animação curta, né? Normal, raramente saímos à noite.

Castelo de Guimarães

No outro dia, já em paz com o hotel — na verdade, bem correto —, fomos passear pelo roteiro básico do centro histórico, no que podemos chamar de miolo medieval de Guimarães. Aquele turismo chatgpt, saca? Passamos pelo Largo da Oliveira, pelo Padrão do Salado, vimos por fora a Igreja de Nossa Senhora da Oliveira e caminhamos pela simpática Rua de Santa Maria em direção ao Castelo, passando pelo Paço dos Duques de Bragança.

Pagamos para entrar no Castelo, cinco euros por cabeça, demos uma volta pelas muralhas e viajamos na paisagem. O Castelo foi fundado em meados do séc. X, curiosamente por uma mulher, a Condessa Mumadona Dias. Ele está associado à formação do que hoje conhecemos como Portugal, sendo uma das razões de Guimarães ser conhecida como o berço do país. Mas o que gostei mesmo foi de participar da Batalha de S. Mamede, travada em 24 de junho de 1128, perto do Castelo. Essa batalha, liderada por Dom Afonso Henriques, permitiu o levantamento do cerco de Guimarães. E eu estava lá! Como eu participei? Através de uns óculos de realidade virtual, fui para o campo de batalha! Paguei seis euros, barato para viver meus oito minutos como um cavaleiro medieval.

Caminhos na Penha

Depois, esgotado pelo meu esforço, pegamos o carro e fomos até o Santuário da Penha. Fica no alto do morro que leva o nome da mesma santa. O que mais gostamos ali foi caminhar entre as muitas e enormes pedras que caracterizam o lugar, já que a paisagem não estava tão descortinada para vislumbrarmos o horizonte. Outra vez, fez-se presente a marca dessa viagem: passeio bacana, mas com certa dose de frustração pela frequência da chuva, do frio e do vento!

Descemos da Penha e procuramos um lugar para comer. 

O magnata na Adega dos Caquinhos!
Achamos: “Adega dos Caquinhos”. Recomendo, fácil! 

Entrada de pão, presunto, queijo e azeitona (natural, não em conserva) e um prato de bacalhau com molho de tomate e batata. Bebemos uma garrafa de vinho local. Não era lá essas coisas, mas estava muito bom… É que nem tudo nessa vida se resume a corpo, retrogosto, notas de chocolate ou taninos maduros! 

Isso é o que vou contar de Guimarães. Achamos a cidade interessante, mas a sensação, possivelmente devido ao clima, foi de dois dias lúgubres, escuros, não tão agradáveis.

Na sexta-feira, dia 13, saímos do hotel em direção a Braga, para devolver o carro e pegar um trem para o Porto. Mas… mudamos a rota. Descobrimos, só no momento da devolução, que poderíamos entregar o carro no Porto. Decidimos então ir conhecer Barcelos. Sim, essa mesma, famosa pelo Galo de Barcelos! Cidade pequena e agradável. Curioso: estava chovendo também, mas não ficamos com a sensação de que Guimarães nos deu; achamos o astral mais claro e fresco.

Barcelos tem galo para todo lado: nas praças, ruas e lojas! Reza a lenda que um peregrino foi injustamente acusado de um crime. Como prova de sua inocência, afirmou que, na hora do seu enforcamento, o galo assado cantaria. E não é que cantou? Pois eu acho que, se o galo assado cantou e salvou o peregrino da morte injusta, mais do que justo que a cidade renda todas as homenagens a esse digníssimo galináceo! Você não acha?

Digno de nota foi o lugar em que almoçamos em Barcelos. Chama-se Escondidinho. Olhamos a cara e era do jeitinho que gostamos: cardápio escrito na parede, pratos do dia, frequentado por locais, nada de menu em inglês ou francês. Golaço! Tomamos sopa e eu pedi alheira, que veio em formato “prato feito”, com batata frita, arroz e ovo. Ana comeu um pouquinho do meu prato; bebemos vinho. Preço? 9,90 euros. A conta foi feita na própria toalha de mesa, de papel, como deve ser. Ah, os pedidos não foram feitos em tablet ou por rádio, mas sim no melhor estilo, gritando: “duas sopas, uma alheira, dois tintos”. Sou um velho, com uma alma antiga; adoro esses ambientes e momentos com cara de antigamente! 

A conta no  "Escondidinho"!

De Barcelos, seguimos para o Porto. Devolvemos o carro e, no fim da tarde, já estávamos hospedados no mesmo Mercure Porto Aliados dos primeiros dias. Bem bom!

Nesse fim de tarde de sexta-feira, fomos outra vez ao Mercado do Bolhão. Voltamos devagar para o hotel, passando pela Rua de Fernandes Tomás, onde vimos várias lojas antigas, com vinhos, presuntos, queijos, doces e outras iguarias portuguesas. Para quem é do Rio de Janeiro, do estilo da “O Lidador”. Em uma delas, “A Favorita do Bolhão”, pedi ao rapaz para me vender um vinho do Porto de 10/12 euros. Foi muito bom ouvi-lo explicando a razão de me indicar o que me indicou. A adega chama-se Vieira de Sousa, e a sugestão dele foi um Tawny. Depois conto a vocês se é bom! Na loja havia algumas garrafas cujo preço passava bem dos mil euros.

No jantar, optamos por voltar ao restaurante ao lado do hotel, “A Lagareira”, para comer outra vez a francesinha deles. Original, feita da mesma forma há mais de 70 anos. Já disse aqui e repito: uma delícia!

AGarrafeira

Sábado fomos agraciados com um tempo mais firme! Fazia frio, mas tinha sol, e passear no sol é sempre mais agradável. Andamos muito, mais de 15 km no total. Saímos do hotel, passamos pela Estação São Bento e subimos até o Largo da Batalha para ver uma pequena feira. De lá, seguimos pela Rua Santa Catarina, a mais famosa do centro do Porto. Passeio lindo; a cidade é toda agradável, com destaque para os detalhes da arquitetura portuguesa.

Chamou nossa atenção o Grande Hotel do Porto e uma placa que dizia ter D. Pedro II se hospedado ali em dezembro de 1889. Logo depois da Proclamação da República, possivelmente veio fugido, já destituído da função de imperador. Fomos cruzando ruas até chegar à Rua da Conceição, que me chamou a atenção por ter uma famosa rua do mesmo nome no centro de Niterói. Nela, achamos a loja mais legal de vinho de todas as que entramos: AGarrafeira. Muita onda! Grafa-se assim mesmo, tudo junto. No Rio de Janeiro tem uma, A Garrafeira, mas a coincidência está só no nome. Trocamos uma ideia com o proprietário, Manuel Vicente, que tem a loja há quarenta anos. Que estoque… Outra vez pedi um vinho, desta vez um tinto, de dez euros. Ele percorreu o olhar, pensou e me ofereceu um tinto da região do Douro, da Quinta do Estanho, por 8,50 euros. Só lamentei não ter lugar na mala para uma caixa.

Casa Portuguesa do Pastel de Bacalhau -
nela, achamos Pessoa e um altar com a 
primeira edição de "Mensagem"!
Esse trajeto tinha como objetivo outra feira, chamada Mercado Porto Belo. Fica perto da Igreja do Carmo, que vimos também só por fora, com sua famosa lateral toda azulejada. Do outro lado da rua, a Universidade do Porto. Caminhamos até a Torre dos Clérigos, onde Ana matou a vontade de comer um bolinho de bacalhau com vinho do Porto. 

Descemos outra vez em direção ao hotel, pois eu queria ir a um restaurante que apareceu para mim no Instagram como muito característico. Chama-se “O Buraco”. Gostamos da cara dele, entramos e comemos um bacalhau à moda da casa, uma posta alta, frita, acompanhada de batatas chips, cebola e muito azeite. Curtimos!

A vontade de aproveitar o sol era grande; por isso seguimos caminhando até a Ribeira, sem dúvida o local mais icônico da cidade. Fomos pela Rua das Flores, passamos pela beira-rio, tomamos uma cerveja em uma mesa virada para o rio, em um sábado à tarde com muita gente passeando. Foi bom ficar vendo o movimento, mas quase não dava para curtir o Douro, encoberto pela multidão que andava para lá e para cá.

O sol se foi, esfriou. Regressamos pela Av. Mouzinho, devagarinho, outra vez admirando a cidade e sua belíssima arquitetura. Pronto, viagem encerrada. Ou quase… Ainda tivemos tempo de jantar um belo sorvete na sorveteria em frente ao hotel e uma taça de vinho tinto. Combina? Eu até acho que sim…

Era isso sobre essa breve e molhada estada em Portugal. Amanhã regressamos: saímos de madrugada do hotel, viajamos o dia todo e chegamos de madrugada em casa. Que assim seja!

Ribeira - no fundo, o Douro!

Início da Rua das Flores.


Achei cadeira e sol no Mercado Porto Belo

Entrada na Adega dos Caquinhos

Adega dos Caquinhos, Guimarães


quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Chaves e viagem a Guimarães, 09 a 11 de fevereiro de 2026.

Ponte Trajano
Chaves é uma importante cidade de Trás-os-Montes. Essa região, que já foi uma província, ao nordeste de Portugal, é uma das mais características do país. Tem até língua própria, o mirandês (falado em Miranda do Douro), tem raça autóctone de gado, clima rigoroso, alternando calor e frio, e uma culinária bastante característica, que alguns afirmam ser a melhor de Portugal. Meu desejo de conhecê-la veio de um texto de Miguel Torga, natural destas terras, que escreveu assim:

Foto tirada entre Braga e Chaves

“…E são outra vez serras, até perder de vista. 
Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio avexa, crescem as cepas como os manjericos às janelas. Em setembro, os homens deixam as eiras da Terra Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo…”

Esse belíssimo texto sempre me emocionou e, como eu disse — e não exagero —, é ele que me trouxe para cá!

Nosso programa original era ficar mais dias entre Bragança (nas chamadas “terras frias”, mais altas) e Chaves (considerada o “coração de Trás-os-Montes”). O clima não deixou: a chuva anda provocando estragos e assustando moradores, e achamos melhor respeitar os avisos meteorológicos e sermos cuidadosos. 
Ruas de Chaves


Mas o pouco que vimos já valeu! Pelas estradas que percorremos, vimos mesmo muitos afloramentos rochosos, no linguajar agronômico. Como disse Torga, é muita pedra; “não se vê de que maneira esse solo produz pão e vinho”… Na verdade, não vimos trigo — não é época —, mas vimos muitas vinhas e olivais.

Chaves é uma cidade muito bonitinha, agradável e acolhedora. Sentimo-nos muito bem tratados por onde andamos. O que fizemos? Vimos os principais pontos de interesse, como igrejas, a Praça Camões e o castelo. A Rua Direita é muito agradável. Acho que o mais legal que vi foi a Ponte de Trajano, construída sobre o rio Tâmega entre o final do século I e o início do II d.C., no reinado do imperador romano Trajano. Tem 150 metros de comprimento e, atualmente, possui 16 arcos visíveis. O legal é que, com toda essa história, ela é totalmente integrada ao cotidiano da cidade, com pessoas passando sobre ela como simples meio de circulação. É como comer todo dia no prato que está na tua família há muitas gerações. É a história cruzando o cotidiano, fazendo-nos refletir sobre quem estava aqui quando nós não estávamos, o que faziam e como viviam. É o passado permeando o presente e não apenas decorando a parede. Sempre gosto de ver cenas como essa!

Ibis Styles Chaves
A presença romana na região não se nota apenas na ponte. No muito correto hotel em que nos hospedamos, o Ibis Styles Chaves, no restaurante onde é servido o café da manhã, pode-se ver, sob o chão, através de pisos de vidro, restos das termas de Aquae Flaviae, uma importante cidade termal do Império Romano. Sim, Chaves tem águas termais que também atravessam os tempos e, hoje de manhã, quarta-feira, fomos conhecê-las. Muito legal. Fazia frio e chovia, mas ainda assim adoramos as piscinas exteriores com suas águas aquecidas, os banhos sensoriais, a sauna e o banho turco. A entrada é paga; existem dezenas de pacotes e preços, mas o valor se justifica. Espetáculo!

Outro programaço que fizemos foi ir até a aldeia de Romeu, perto de Mirandela, ontem à tarde. Essa região pertence às chamadas terras quentes, mais baixas. Viajamos por pouco mais de uma hora, de Chaves até Romeu, como uma maneira de ver algo mais da região. Mas… o objetivo mesmo era ir almoçar no restaurante Maria Rita, considerado uma das sete maravilhas gastronômicas de Portugal. Valeu a viagem? Valeu, sim! Comemos bacalhau à Romeu; de entrada, umas alheiras (os famosos embutidos de Mirandela) e bebemos um vinho produzido ali mesmo na vila. E ainda provamos azeitonas e um azeite de oliva biológico, também produzido em Romeu, que mais de uma vez ganhou o prêmio de melhor do mundo. Comida muito boa, mas, na verdade, curtimos ainda mais o cenário do restaurante e da vila. Casas de pedra, ambiente bucólico/rural, uma certa atmosfera medieval, cercada por vinhas e olivais. 
Interior do Maria Rita

De Chaves viemos para Guimarães, onde acabamos de chegar. Chuva intensa na estrada toda, que nos impediu de conhecer o que programamos. Passamos em frente ao Palácio Vidago, na cidade de mesmo nome, construção do século XIX, que hoje abriga um hotel de luxo, com spa e campo de golfe. Lindo de ver, mas não pudemos nem descer do carro.

Depois, paramos para almoçar na simpática Vila Pouca de Aguiar, no restaurante MA.LE, recomendado pelo Google. Pedimos os pratos do dia e vinho da casa. Completamos com doce da casa (famosa sobremesa portuguesa) e café. Muito bom. O preço total de 21 euros também agradou muito. Sabe o que achamos também? Restaurante cheio, mas com povo da cidade, sem turistas. Sim, isso mesmo: somos turistas, mas não gostamos de turistas!

Amanhã conto sobre Guimarães, conhecida por ser o berço de Portugal!

Aldeia de Romeu

Castelo de Chaves


Termas de Chaves

Termas de Chaves

Bacalhau à Romeu

Aldeia de Romeu

Rua Direita, Chaves