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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Sighisoara, Romênia, 29, 30 e 31 de agosto de 2026.

Desde baixo, vista de uma das entradas da cidade murada
e da Torre do Relógio

Chegamos ao Hotel Mercure Sighisoara às cinco da tarde de um ensolarado sábado. O prédio do hotel é curioso, com um visual interno bastante intenso, com uma óbvia inspiração germânica e tirolesa, mais contemporânea, com seus telhados inclinados e muita madeira. Meio que um chalé alpino. Eu gostei muito; Ana achou as madeiras e os carpetes um pouco excessivos. 
Vista do hall do Mercure

O hotel fica às portas da cidade antiga, e foi para lá que rumamos depois de deixar as malas no quarto. Aliás, nos deram um generoso upgrade para a melhor suíte do hotel.

A cidade antiga fica no alto do morro. Entramos nela pela porta da Torre do Relógio, uma das muitas torres que existem na cidade antiga. Vou contar algo do que li aqui sobre Sighisoara: a cidade é do século XII, quando colonos germânicos (os saxões da Transilvânia) foram trazidos pelos reis da Hungria para povoar e defender a região. Claro que já existia gente por aqui antes, mas não haviam fundado a cidade como a conhecemos hoje. Além das comunidades pré-históricas (termo engraçado, né?), das quais há vestígios, existem fortes evidências de que o vale do rio Târnava Mare, rio sobre o qual passei ontem de manhã, era rota de comércio do povo Dácio.

No início do primeiro milênio d.C., os romanos conquistaram a região. Os romanos se retiraram cedo, e a Transilvânia foi ocupada por diferentes grupos, como godos, hunos e eslavos. No século X, foi entrando no Reino da Hungria, que posteriormente trouxe os saxões! Ufa, que história. Interessante, não é? Eu acho!

Meio que quase sempre é assim: tal povo fundou tal cidade, mas sobre outra cidade, sobre séculos ou milênios de histórias construídas por muitos outros povos.

Que momento!
Entre os séculos XIV e XVI, ela tornou-se um importante centro comercial e artesanal. Cercada por muralhas, como costumavam ser as cidades medievais, sempre sujeitas a ataques inimigos, as torres cumpriam um papel importante na defesa. E cada uma delas — chegaram a ser 14 (das quais nove ainda existem) — era cuidada pelos diferentes grupos profissionais da cidade. Assim, existiam a torre dos alfaiates, a dos ferreiros, a dos sapateiros, a dos curtidores, a dos açougueiros… A equação é interessante: esses grupos ganhavam uma grana com o intenso comércio, tinham interesse em proteger a cidade e dividiam essa tarefa de manter o povoado a salvo. 
Mas, e a Torre do Relógio, a principal? Essa era do poder público e funcionava como entrada principal da cidadela. O relógio é lindo, cheio de figuras simbólicas, e tem aquelas figuras que se movimenta a cada hora cheia.

No centro da cidade antiga, uma pequena praça rodeada de bares e restaurantes. Nesse sábado e domingo que passamos em Sighisoara, acertamos bem no meio de um festival regional de música e danças romenas. Eles instalaram um superpalco e a música e a dança estavam rolando solto. Chegamos bem na hora da festa. Legal por um lado, por outro perdi o silêncio que buscava por aqui. Mas sim, foi bom ver a movimentação e algo das apresentações. Isso para mim, Ana, a jovem da excursão, adorou, dançou, bateu palma e cantarolou em romeno.

Caminhamos pelo centro sem nos deter em nada, tomamos um chope em frente a essa balbúrdia, na Casa du Cerb, no estilo “se o inimigo é mais forte, melhor se aliar a ele”, e depois fomos comer em um restaurante que gostamos muito, o Casa Krauss.

Torre do Relógio, vista de dentro
Domingo acordamos tranquilos, tomamos o café da manhã do hotel e saímos para o rolê dominical. Antes de subir para a cidade antiga, passamos por algumas ruas da cidade e achamos bonita e agradável. Sempre gostamos de sair dos muros turísticos. Nesse propósito, cruzamos o rio e fomos ver a Igreja Ortodoxa de Sighisoara. Linda, só vimos por fora; estava rolando uma missa. Algumas pessoas estavam sentadas também do lado de fora.

Deixa eu contar que sempre tive certa simpatia, até atração, pelo povo cigano. Quando decidi vir à Romênia, pensei nisso, em, de alguma forma, “encontrá-los”. Vi poucos, que consigo identificar, sujeito a erro, pelas características físicas. Quando vi, os vi em condições sociais mais complicadas. Agora, ao meu lado, enquanto escrevo esse parágrafo, em frente à igreja, uma mulher está falando sozinha. Parece cigana ou, mais corretamente dito, do povo Roma. Algumas estatísticas apontam que eles são uma minoria importante dos romenos, mas sofrem com o preconceito e a invisibilidade decorrente desse preconceito. Muitas vezes não se declaram como tal, o que deixa os números subestimados. Vieram da Índia, parando e seguindo diversas vezes e em diferentes momentos, há mais de mil anos (a data e a razão não é precisa), e se estabeleceram em regiões do que hoje conhecemos como Hungria e Romênia, espalhando-se depois por outros países europeus. Acho que posso dizer que a maior parte está na parte baixa da pirâmide social, ainda que, obviamente, existam pessoas Roma que são bem-sucedidas economicamente. Essas, muitas vezes, são das que não se declaram ou não se apresentam como tal.

Igreja Ortodoxa Romena de Sibiu
Depois da Igreja, cruzamos o rio de volta e subimos uma escada para entrar na cidade antiga por outro portão. Chegamos outra vez no festival e as apresentações de músicas e danças continuavam. Paramos no mesmo lugar, outra vez uma bebidinha, e ficamos vendo o movimento intenso. Belo forma de cruzar da manhã para a tarde de um domingo. Descemos por outra torre e demos uma boa caminhada até o hotel. Hora de descansar um pouco e fugir um pouco do sol quente.

Seis da tarde, outra vez para a cidade antiga. É o que tem para ser feito por aqui, Sighisoara é uma cidade pequena, cerca de trinta mil habitantes e, apesar de toda simpática, o melhor a ser visto está na cidade murada.

Passamos a tarde em noite de domingo entre ver um pouco das apresentações, breves caminhadas pelas ruas laterais da cidade antiga e um agradável jantar na “Casa Joseph Haydn”. Outra vez comi goulash.

Na manhã de hoje, ainda tivemos tempo para caminhar, ver um pouco do comércio local aberto. E, claro, subimos à cidade murada; queríamos muito vê-la sem o intenso movimento que o festival folclórico gerou. Linda. Linda cheia, linda mais vazia. Nós nos vamos com aquela sensação de que Sighisoara é um excelente lugar para um Slow Tourism. Andar devagar, comer devagar, ler sobre e sentir o local. E escrever uma crônica como esta.

Partiu Sibiu!

Tortre dos Alfaiates

Escada dos estudantes, com 300 degraus, para
proteger os estudantes da chuva e da neve.
No alto, a Escola da Colina e a Igreja da Colina

Ruas de Sighisoara

Torres dos Peleiros

Casa de Vlad III, o empalador. Ele nasceu viveu
em Sighisoara até ser dado aos Otomanos



Vista, desde baixo, da cidade alta

Festival de dança e música,


sábado, 29 de agosto de 2026

Brasov, 27, 28 29 de agosto de 2026.

Poiana Brasov, uma estação de esqui, vista do nosso quarto,

A viagem de Bucareste para Brașov correu bem, mas não foi exatamente tranquila. À uma da tarde, saímos do hotel em Bucareste e fomos pegar nosso carro, alugado através do aplicativo LATAM Pass, na Sixt. Eles têm uma agência no Radisson, no centro da cidade, e posso devolver no aeroporto, sem taxas extras. Perfeito!

Castelo de Peles
Estrada boa de dirigir, mas bastante movimentada. Paramos para um café, seguimos e, daqui a pouco, vi a indicação de que estávamos chegando em Sinaia. Cidade simpática, cheia de gente. Vi o movimento e lembrei que ali está o Castelo de Peleș, considerado por muitos o mais bonito da Transilvânia. Já estávamos saindo da cidade, mas demos meia-volta e resolvemos visitá-lo. Foi fácil chegar até ele, estacionamos ao lado, pagando 6 euros.

Já era quase hora de fechar para visitas, resolvemos não entrar. O castelo é realmente imponente, daqueles lugares que impressionam antes mesmo de chegarmos até ele. Li que foi construído no fim do século XIX, como residência de verão da família real romena. Sua arquitetura tem inspiração germânica, com torres, madeira e uma profusão quase teatral de detalhes. Assim como parte do trecho da estrada, ele é cercado pelas montanhas dos Cárpatos e pela floresta. Não é exatamente um castelo medieval; tem mais cara de uma materialização romântica da ideia que o século XIX fazia de um castelo. Nós o vimos apenas por fora, mas foi suficiente para entender por que Peleș se tornou um dos símbolos mais conhecidos da Romênia.

Valeu ter ido vê-lo, a estrada se mostrou com um super trágico até Brașov, voltar seria muito incômodo.

Chegamos ao hotel sob chuva, no fim da tarde. Que hotel… Swissôtel. Minha tática de escrever antes pedindo upgrade funcionou, a rede Accor realmente valoriza os clientes fiéis e nos colocaram em uma suíte lindíssima. Sem planos ou necessidade de sair, fomos aproveitar o spa e jantamos no restaurante do próprio hotel.

Castelo de Bran
No dia seguinte, cedo, partimos em direção a Bran, a cidade onde fica o famoso Castelo de Bran, ou Castelo de Drácula. Sim, visitei o Castelo de Drácula. Eu nunca viajei muito nessa história, sequer li o livro do Bram Stoker, mas, estando na Transilvânia, achamos que deveríamos ir. Foi legal ter ido.

O Castelo de Bran é provavelmente o mais famoso da Romênia, muito por causa dessa associação que se fez com o Conde Drácula. A construção, no entanto, é bem mais antiga que a história de Bram Stoker e sua ligação com Vlad, o Empalador, é mais lenda do que fato. A própria história do Drácula tem muito pouco a ver com Vlad. O castelo fica sobre uma pequena elevação, cercado pelas montanhas, e a primeira impressão é mesmo bonita. Por dentro, achei mais interessante a própria história do lugar do que a exposição sobre Drácula, que ocupa bastante espaço. Mesmo com todo o turismo em volta, vale a visita, principalmente pela localização e pelo aspecto medieval da construção.

Eu e ele
Agora deixa eu falar um pouco de Vlad III, o personagem que teria, meio que numa forçação de barra, inspirado o personagem Drácula.

Vlad III, que ficou conhecido como Vlad, o Empalador, nasceu em Sighișoara, para onde iremos amanhã. Passou parte da infância no Império Otomano, depois de ser entregue pelo pai como garantia de sua lealdade aos turcos. De volta à Valáquia, parte da atual Romênia, envolveu-se em disputas pelo poder, guerras e conquistas. O apelido “Empalador” vem da prática que usava contra seus inimigos: atravessava o corpo da vítima com uma estaca, que depois era fincada no chão, deixando o condenado exposto. Era uma forma particularmente cruel de execução, mas também de intimidar quem ousasse desafiá-lo.

Bram Stoker conheceu essas histórias, misturou-as com muita ficção e criou seu personagem. A ligação entre Vlad III e o Drácula de Stoker, portanto, é bem mais tênue do que a indústria do turismo romeno gosta de fazer parecer. Estava lotado, 30 euros por cabeça, camisetinhas e imagens sendo vendidas por todo lado. Em todas as cidades por que passamos, Drácula leva uma parte do PIB da Romênia nas costas…

De Bran fomos para Brașov e nos surpreendemos positivamente. Que cidade linda e agradável, com uma arquitetura muito característica da cultura saxônica e um astral ótimo. Adoramos.

Caminhamos para lá e para cá pelo centro histórico, entrando em tudo o que era de graça. Não pagamos para entrar na famosa igreja luterana que fica bem na praça principal, a Igreja Negra.

Praça na cidade velha de Brasov
É um país muito cristão. Eu poderia dizer católico, mas o termo católico acabou se confundindo, no uso comum, com católico apostólico romano. A imensa maioria dos romenos cristãos está ligada à Igreja Ortodoxa Romena. Com tanta igreja pelo caminho, e muitas cobrando ingresso, me cansei de pagar…

Almoçamos ali mesmo, pela praça. Comi um goulash romeno, que vem como uma sopa, caracteristicamente com carne, batata e cenoura, em um delicioso caldo.

No meio da tarde, regressamos ao hotel.

Queríamos aproveitar o fim de tarde, ir ao spa do hotel, relaxar um pouco e comer algo no quarto mesmo. Foi o que fizemos. Eu ainda consegui dar uma caminhada de uns 30 minutos ao redor do hotel, em Poiana, uma pequena vila que vive do esqui no inverno, mas que vi bastante movimentada por famílias passeando e/ou fazendo alguma trilha.

Igreja fortificada de Viscri
Hoje, por volta das onze da manhã, saímos do nosso hotel em Brașov, depois de um imperial café da manhã, com certa pena. O hotel é ótimo e o lugar, para lá de agradável. Mas… as viagens são assim. Temos que seguir de um lugar ao outro, ir em frente, seguir minimamente o roteiro, e os lugares vão se sucedendo. Ficam as memórias. Parece até com a vida. A vida é mesmo uma viagem.

Vimos muitas cidadezinhas simpáticas no caminho para Sighișoara e paramos na vila de Viscri, que nos foi recomendada pelo ChatGPT. Achamos que ele superestimou a parada… mas valeu. Depois de visitar a igreja fortificada, caminhando sob um sol forte no início da tarde, sentamos para beber água. Ambiente rural, sol forte, uma aguinha gelada, vendo o povo passar e pensando o quão longe estamos, como é interessante conhecer uma vila saxônica na Transilvânia, tentando lembrar de onde surgiu a ideia de vir para cá e, por último, lembrando do verso de Pessoa, em Passagem das Horas: “Penso em que é que me ficará desta vida aos bocados, deste auge”. 

Caminhamos mais um pouco e paramos no Café Viscri. Pedimos um frappé gelado. Nesse momento, eu já estava concentrado nos próximos passos da viagem. Já nem me lembrava mais da fugacidade ou da finitude da vida… rsrsrs.

Chegamos em Sighișoara às 18h. Mas, sobre ela, conto depois.

Meu antídoto... bem bom...

Centro de Brasov, casa do século XVI

Ruas de Brasov

Empalamento

Depois de uma chuva torrencial na estrada, 
saindo do Castelo de Peles, esse presente


Interior da Igreja fortificada de Viscri

Vila de Viscri

Cetatea Rupea (forte de Rupea) - vimos na
estrada e paramos para ver.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Bucareste, 26 e 27 de agosto de 2026.

Parlamento de Bucareste. O tamanho realmente impressiona

Chegamos no aeroporto de Bucareste e pegamos um Uber sem maiores dificuldades. Fim do dia, ainda sol, às seis da tarde já tínhamos feito o check-in no Mercure Centro e começamos a caminhar pela cidade. Eu me senti como se tivesse saído de um metrô lotado para uma limusine onde uma leve música clássica tocava. Sim, essa foi a imagem que me veio para essa mudança de Istambul para Bucareste.

Aspecto do Centro Histórico - Old Town
O hotel fica perto do centro histórico e esta foi a direção que tomamos. Ruas tranquilas, locais tomando algo no fim de tarde, silêncio no ar. A sensação que me invadiu foi de enlevo. Realmente, ambientes urbanos assim, menos intensos, são o meu número. Passamos pelo Ateneu Grego, pela Praça da Revolução e seguimos caminhando pela Av. Vitória. Em uns 20 minutos já entramos no Centro Histórico e, para corroborar minha metáfora, uma jovem tocava violino na calçada, aguardando uns trocados. Essa cena, tão comum em cidades europeias, sempre me agrada.

Ficamos andando para lá e para cá no centro histórico, agora já um pouquinho mais ruidoso, porque são muitos bares e restaurantes com aquelas pessoas perguntando se você quer entrar, oferecendo o cardápio ou propondo um drinque.

Escolhemos um onde ninguém nos ofereceu nada. Uma simpática cervejaria, a Beer O’Clock, onde apenas um jovem atende, tirando os chopps e cobrando, mas somos nós que vamos até o balcão pedir, pegar e pagar a cerveja. Como tem que ser, simples e objetivo.

Uma cena curiosa foi a de um senhor que se aproximou e puxou assunto querendo vender livros. Ouviu nosso inglês e nos perguntou de onde éramos. Respondemos e imediatamente ele falou “Paulo Coelho”. Ainda citou, com sotaque próprio, Machado de Assis e Bernardo Guimarães (nomeando A Escrava Isaura). Gostei de 2/3 das referências literárias do livreiro romeno.

Momento para lá de agradável
Depois do chopp fomos comer um sanduíche em um restaurante grego que fica bem próximo à choperia, antes de regressarmos caminhando pelas silenciosas ruas de Bucareste até o hotel.

Hoje pela manhã saímos na nossa missão de conhecer algo da cidade, nesse curtíssimo tempo que passamos aqui. Marcamos alguns pontos no mapa e mais ou menos seguimos o caminho proposto. Visitamos a Igreja de São José, vimos outra vez o Ateneu, lindo prédio, passamos em frente ao Museu Nacional de Arte e entramos em uma igreja ortodoxa romena, muito bonitinha, pequena, a Zlatari, dedicada a Maria. Vale a visita. Outra vez entramos na “Old Town”, parte do roteiro, também querendo entrar em uma livraria que havíamos visto ontem. Compramos um livrinho romeno para a Clara…

Outro lugar que gostamos muito de ver, na própria cidade velha, foi o Mosteiro Stavropoleos, uma Igreja Ortodoxa Romena dedicada aos Santos Arcanjos Miguel e Gabriel. Foi construída em 1724. Pequena, delicada e cheia de detalhes, é daquelas surpresas que aparecem quando caminhamos sem pressa pela cidade. No fundo da igreja tem um pátio. Percebemos uma mesa posta e nos aproximamos. Uma freira muito simpática nos recebeu e ofereceu coliva, um doce feito à base de trigo, mel, castanhas e especiarias. Ela nos explicou que esse doce é tradicionalmente ligado à memória dos mortos e à ideia de ressurreição. Comparou o dia 27 de agosto com nosso 01/11. Acho que ela fez uma confusão de datas aí, mas ela insistiu e quem sou eu para discutir com uma freira devidamente trajada! Mas ela foi muito simpática, agradável e acolhedora, e a coliva estava deliciosa. Acabou sendo nosso café da manhã!

Do mosteiro, com nosso tempo já terminando, caminhamos até o Parlamento.

Mosteiro Stavropoleos
Essa construção é, segundo li, o maior símbolo do período comunista da Romênia, que durou de 1947 a 1989. De 1965 até o fim do regime, o país foi governado por Nicolae Ceaușescu. Foi ele quem mandou construir este enorme edifício, a partir de 1984. A construção foi controversa. Para abrir espaço para esse suntuoso palácio, bairros inteiros foram demolidos e milhares de pessoas tiveram de deixar suas casas. A obra consumiu enormes quantidades de recursos, parece que 700 arquitetos trabalharam nela, justamente quando a população enfrentava escassez e dificuldades econômicas. Quando o comunismo caiu, em 1989, o prédio ainda não estava terminado. O que deveria ser um monumento ao poder de Ceaușescu e do regime acabou se transformando na sede do Parlamento de uma Romênia democrática. História interessante e construção impressionante. Mas só vimos por fora. Não havia tempo de entrar e ainda queríamos ver a Igreja de São Nicolau.

Ela é um bom exemplo do que percebo em todas as igrejas ortodoxas que visitei: elas muitas vezes impressionam mais por fora do que pelo tamanho que têm por dentro. O espaço interno é relativamente pequeno, há poucos bancos para sentar e a decoração é feita com pinturas, ícones e a iconóstase. Chama a atenção a ausência de esculturas, tão comuns nas igrejas católicas romanas. Esta igreja foi construída entre 1905 e 1909 com apoio do czar russo Nicolau II.

A iconóstase é aquela parede ou divisória coberta de ícones que você vê dentro das igrejas ortodoxas, separando o espaço onde ficam os fiéis do altar, que fica atrás dela.

Igreja Ortodoxa Romena de São Nicolau
Ela normalmente tem várias fileiras de ícones, geralmente de Cristo, da Virgem Maria, dos santos e de cenas bíblicas. Possui portas no centro, pelas quais o sacerdote passa durante a liturgia.

Aprendi aqui que uma das características que mais diferenciam visualmente uma igreja ortodoxa de uma igreja católica romana é que, em vez de um altar aberto e visível, como no catolicismo, a tradição ortodoxa cria essa separação entre o espaço dos fiéis e o altar por meio da iconóstase. As iconóstases são normalmente um ponto alto da decoração das Igrejas Ortodoxas.

Nosso tempo nessa simpática capital se esgotou. Fomos de Uber ao hotel, para pegar o carro que alugamos e seguir viagem.

E esse foi nosso passeio por Bucareste. Gostamos da cidade, acho que não acharíamos ruim explorar mais das suas ruas e, principalmente, dos bares e restaurantes que nos chamaram a atenção. Fica para outra. Agora vamos rumo à Transilvânia. De lá, conto mais!

A simpática freira repartindo comida.
Livraria Carturesti, old town

Modinha: vale tudo para atrair um cliente

Zlatari - igreja ortodoxa

Rua Victoria


Um dos tantos prédios bonitos na Av. Victoria



quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Istambul, 24, 25 e 26 de agosto de 2026.

Mesquita de Taksim, na praça de mesmo nome.

Hoje é quarta, dia 26, e estamos por entrar no avião, indo para Bucareste. Deixa eu contar um pouco destes três dias em Istambul.

Interior da Mesquita Azul
Segunda-feira acordamos um pouco mais cedo e saímos do hotel às oito e meia. A ideia era ir direto para a Mesquita Azul, de Uber, uns 10 euros, para visitá-la antes da muvuca provocada pelos ônibus de turismo. Bingo! Às nove estávamos entrando e, de fato, não pegamos fila. Lá dentro estava muito tranquilo, ainda que não vazio.

A Mesquita é imponente por fora e linda por dentro, com vitrais e azulejos que impõem beleza sem transitar pela opulência. Essa é minha definição de luxo! Ou uma delas…

Ficamos de boa por ali, Ana com seu lenço cobrindo o rosto, eu de calça, nós dois descalços, como reza a liturgia das visitas a uma mesquita. Ficamos apreciando o lugar, até sentamos no chão, e ouvindo um ou outro guia que nos dava alguma informação sobre o que estávamos vendo. Gostamos muito de conhecer a Mesquita Azul.

Sobre a Ana colocar lenço: de boa, não vi ela reclamar nem um momento. Mas… ver as mulheres de hijab já mexe com ela um pouco, não pela estética em si, mas pela obrigação. Agora, a burca… burca minha mulher não tem emocional para ficar vendo, não…

Conheci Ana na faculdade, nos anos 80. O TCC dela foi sobre a invisibilidade do trabalho doméstico e a dupla jornada de trabalho à qual as mulheres são submetidas. A vida dela vem sendo, em boa parte, buscar igualdade entre os gêneros, com diferentes formas de luta. Então… ver mulheres, de todas as idades, de roupas pretas e compridas, com apenas o olho de fora… ao lado de maridos com bermudinhas e camisas de malha… definitivamente ela não aguenta, não!

Depois fomos em direção ao Grande Bazar. Caminhando por ruas cheias de gente, muitos turistas, muitas lojas e comércio. Passo tranquilo e olhos atentos, em 15 minutos já estávamos dentro da lindíssima construção que abriga centenas e centenas de lojas. 
É...

O que tem lá dentro? Putz… tudo! Lembrancinhas e lembraçonas em geral. Tapetes, lenços, roupas, joias, doces, temperos, cafés, relógios. Lenços caros, de seda ou cashmere, por 300 ou 400 reais; lenços por 15 reais, 100% poliéster, mas igualmente bonitos. Fico só nesse exemplo, mas quase todos os outros produtos seguem essa lógica. Um lindo prato colorido, pintado à mão? Caro! O “mesmo” prato, possivelmente da Shopee, muito barato!
Saímos do Grande Bazar caminhando, em direção ao Bazar de Especiarias, descendo por uma rua com um intenso comércio popular, onde camisas Armani ou Lacoste são vendidas a 30 reais. O Bazar de Especiarias é outro lugar muito legal. Outra vez nos deparamos com uma linda arquitetura, abóbadas belíssimas e muitos, mas muitos cheiros, temperos e cores, brotando de espécies e produtos que tanto movimentaram o mundo.

Grand Baazar
Já era uma da tarde, sol a pino, e regressamos, de Uber, ao hotel. Esse era o plano, porque resolvemos mudar de hotel. Checkout, check-in, e em uma hora o trâmite estava todo feito. Fomos para o Sofitel Taksim e não nos arrependemos da mudança. Nos deram um upgrade para uma suíte linda, grande, cheia de mordomias. Perto do outro hotel, mas em frente à Praça Taksim e à Avenida İstiklal, uma e outra das mais importantes da cidade.

Descansamos um pouco no hotel, falo ainda da segunda-feira, e nos dirigimos à Igreja de São Salvador de Fora. Esse “fora” fica por conta da localização mesmo: ela foi construída fora dos muros da cidade. Pagamos 20 euros cada um para entrar, e eu não gosto de pagar para entrar em igreja, mas essa hoje é mais um museu; abri uma exceção. Não vou contar a história dela aqui, que é superinteressante, mas posso dizer que vale a visita, ainda que não seja algo assim, mais que demais!

Agora, o lugar é maneiro, bem alto, perto de uns resquícios de muralhas. Pensar no poder dessas muralhas que protegeram Constantinopla por séculos, e que levou décadas para que os Otomanos conseguissem vencê-la, e que ainda estamos tocando nelas no século XXI é bem legal. Quando voltar ao Brasil, vou ver a série sobre a conquista de Constantinopla de novo.

Balat
Depois da visita às muralhas e à igreja, descemos o morro. Em uns dez minutos já chegamos no bairro de Balat. Muito legal, muito mesmo. Recomendo não deixar de ver, se vier por Istambul. Pode passar horas ali, entre comprinhas; foi o melhor lugar que achamos para comprar coisinhas e comidinhas, tomar café, comer sobremesa ou mesmo uma refeição mais completa. Fizemos parte disso durante as mais de três horas que ficamos entre Balat e Fener.

Aliás, legal perceber que não são apenas bairros bonitos de casas coloridas; são bairros onde caminhamos sobre algumas etapas da história. Em Fener, na herança grega e ortodoxa (o colégio grego é um edifício impressionante). Afinal, foram os gregos que fundaram a cidade. Em Balat, se nota a memória da comunidade de judeus oriundos, fugidos, de Espanha e Portugal. Sinagogas, igrejas, prédios, casas e ruas preservam, no cotidiano de hoje, as marcas dessas culturas nesses dois bairros.

Enfim, adoramos passear por Balat e Fener.

Dentro da Mesquita de Taksim
Ontem, quarta-feira, nosso rolê foi de manhã pela Av. İstiklal. De tarde, depois de um banho de piscina no rooftop do hotel, enquanto Ana fazia uma reunião de trabalho, regressamos à mesma avenida, mas agora indo até o fim dela e chegando outra vez na Torre Gálata. Fim de tarde legal, movimento intenso de turistas. De noite fomos ver a Mesquita e visitar os arredores da Praça Taksim. Ficamos impressionados com a quantidade de gente, de todas as idades, andando, comendo, conversando e se divertindo. Nos lembrou uma vibe das cidades que conhecemos da China, sempre muita gente, muitas cores, muita intensidade.

Hoje de manhã não saí do hotel, preferi aproveitar a suíte. Ana ainda foi para umas últimas comprinhas.

E terminou nossa estada em Istambul. Gostamos muito. Da próxima, queremos ver algo do país e não apenas da capital. Amanhã, partimos para a Romênia, conhecer um pouco mais do Império Otomano, ver o Castelo de Drácula e dar um rolê pela Transilvânia. De lá, conto mais!
Pátio da Mesquita Azul

Ayran - um tipo de yogurte salgado. Delícia!

As lojas de doces...

Gatos em /istambul... um caso à parte!

Gatos

Bósforo

Ana no seu ecossistema: mercado
de especiarias!

Eu vi um gatinho aqui... são totalmente
parte da sociedade!