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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Xangai, 08 a 10 de abril de 2026.

 

Pudong, visto de The Bund

Já estamos há três dias em Xangai. Que viagem é essa cidade! Eu vim com a Xangai futurista na cabeça, os prédios enormes, as muitas luzes, a riqueza, a tecnologia. Afinal, trata-se de uma das cidades mais ricas da China e de um dos principais centros financeiros da Ásia. Sim, vi tudo isso, minha expectativa não estava fora do quadro, mas me surpreendi também com uma Xangai com muita presença europeia, na comida, na arquitetura, no jeito da cidade. Mas, sabe, a real é que Xangai é isso, e muito mais, não cabe em um parágrafo e, já aviso, não vai caber nas duas crônicas que farei sobre nossa estada nesta cidade.

Pudong - visual futurista de Xangai

Parece que, em dado momento, e posso dizer que há pouco, neste século, Xangai foi puxada direto para o futuro, sem deixar de lado a presença do passado. Lá atrás era um vilarejo de pescadores e virou um dos principais portos da China, especialmente a partir do século XIX, quando, depois da Guerra do Ópio, foi aberta ao comércio estrangeiro. Sabe o que foi a Guerra do Ópio? Não? Eu também não sabia, mas uma das coisas que mais gosto de fazer quando viajo é ler sobre o lugar, ampliando o olhar sobre o local onde estou. Então, na real foram duas Guerras do Ópio, dois conflitos entre a China e o Reino Unido no século XIX, basicamente por causa do comércio — e, mais especificamente, do ópio. Acontece que britânicos detestam ficar para trás, como sabermos, ainda mais nos séculos passados, onde a poderosa Marinha Britânica andava por aí brincando de controlar e conquistar o mundo. No início do século XIX, a China exportava muito chá, seda e porcelana, para os britânicos. Ocorre que esses não tinham muito o que vender em troca. Para equilibrar essa conta, passaram a vender ópio (uma droga derivada da papoula) produzida na Índia, que era domínio inglês, para os chineses. O problema é que isso gerou uma crise enorme de vício na China. Em dado momento, o governo chinês tentou proibir o ópio e apreendeu carregamentos da droga, e os britânicos reagiram militarmente. Isso deu início à Primeira Guerra do Ópio (1839–1842). Resultado? Britânicos ganharam e a China foi obrigada a assinar o Tratado de Nanquim (1842), sendo obrigada a abrir portos ao comércio estrangeiro, pagar indenizações e ceder Hong Kong ao Reino Unido. Depois ainda houve uma Segunda Guerra do Ópio (1856–1860), com participação de britânicos e franceses, que aprofundou ainda mais essas imposições.

Iníco da noite, a Nanjing Road acende
suas luzes.

Essa passagem de ingleses, franceses, depois americanos e japoneses deixou marcas claras — bairros inteiros com arquitetura europeia, como o Bund e a antiga Concessão Francesa. A Revolução Comunista, liderada por Mao Tse Tung, em 1949, acabou definitivamente com essa farra, que já vinha perdendo força. Li, inclusive, que Xangai perdeu um pouco de protagonismo no próprio país, recuperado com tudo nas últimas décadas, se transformando nesse centro financeiro gigantesco, cheio de arranha-céus, luzes e energia. É uma mistura curiosa e muito sedutora: tradição chinesa, passado colonial e um presente hipermoderno convivendo no mesmo lugar.

Pois foi nesse cenário que pudemos mergulhar por cinco dias. Muito legal, saber destes passados para entender melhor os presentes, e presentes aqui uso nos dois sentidos, que a vida nos dá. Concorda?

Chegamos, vindo de avião de Zhangjiajie, na quarta-feira, dia 08. Cumprindo exatamente o planejado desde que saímos de casa. Aliás, a única mudança no nosso roteiro na China foi tirar uma noite de Furong e transferi-la para Zhangjiajie. Eram umas 4 da tarde quando fizemos checkin no excelente Swissôtel Grand Xangai. Super bem localizado, perto da Nanjing Road, uma das avenidas mais conhecidas e visitadas por aqui.

Saímos rápido, a fim de aproveitar o que ainda tínhamos de dia pela frente. A caminhada nos levou a uns lugares bacanas. Em poucos minutos, já estávamos naquele contraste clássico da cidade: o movimento ao redor do Jing'an Temple ficando para trás e uma Xangai mais calma e contemporânea aparecendo. Caminhamos uns dez minutos, longe da muvuca da Nanjing Road, e entramos quase sem perceber num desses espaços escondidos da cidade, chamado Zhang Yuan. Quando vemos desde a rua, algumas boas lojas, mas quando circundamos, nos encontramos com uma pequena praça com instalação de arte e bares descolados, todos reunidos numa construção baixa, meio “escondida” do trânsito. Curtimos, poderíamos ter sentado por ali e aproveitado a tranquilidade, mas acho que queríamos logo ver a Shanghai intensa e movimentada. Pegamos a rota de volta e caminhamos pela Nanjing West Road. Era início da noite, a cidade começando a se acender, ficamos admirando a organização, a limpeza, as lojas de luxo que se sucedem de forma incansável. 

A bakeria francesa que mencionei.

Momento muito agradável. Ana e Helena encontraram uma Uniqlo perto de um daqueles cruzamentos que resumem bem Xangai: gente por todos os lados, um fluxo constante que não para nunca. Quase colada a Uniqlo duas bakeries uma de frente para a outra — a AMAM Lonbakery Town, com pegada mais londrina, e a Butterful & Creamorous, mais “francesa”, cheia de vitrines bonitas e doces chamativos. É um pedaço pequeno, mas muito vivo, meio caótico, meio organizado, onde se pode perceber executivos, turistas e jovens se misturando.

Essas padarias/docerias com ar de Londres e Paris logo me fez lembrar das guerras do ópio e suas consequências, da ocupação europeia em Xangai.

Era início da noite quando Ana e eu voltamos ao hotel, Helena seguiu dando banda! O happy hour do Swissôtel é no 27 andar, agradabilíssimo, e foi ali que terminamos nossa noite.

Quinta-feira, dia 9, a disposição era de caminhar pela cidade, que nos causou uma excelente primeira impressão. Começamos visitando o Templo Jing’an, ao lado do hotel. Ana e eu adoramos visitar templos. Sempre gostamos. Agora, tenho a chance de colocar fotos das imagens em alguma inteligência artificial e entender melhor o que estou vendo. Dá uma maior qualidade à visita, ela fica mais interessante. Em meio à intensidade da cidade, é só atravessar o portão e entrar num espaço de calma. 

Uma das tantas imagens do Bhuda
no Templo de Jing'an

Apesar de muita gente, o incenso no ar, os telhados dourados e aquele silêncio respeitoso típico dos templos budistas gera um clima diferente. Li que a origem dele é antiga, com mais de mil anos, mas o que se vê hoje é uma reconstrução recente. Tudo muito bem cuidado. Lá dentro, como disse, pessoas rezando, acendendo incensos, fazendo oferendas — tudo acontecendo naturalmente, mesmo com a cidade pulsando ao redor.

Depois, pegamos o mesmo caminho de ontem. Chegamos à mesma Uniqlo, no metro da Nanjing West, mas eu queria mesmo era ir a uma loja da Onitsuka Tiger, próxima. Queria comprar um tênis Tiger, modelo México 66, o mais icônico da marca, e que era objeto de desejo na minha adolescência. Helena e eu acabamos comprando um amarelo, que foi imortalizado por ter sido usado pela Kill Bill, nas cenas que ela fazia com sua roupa toda amarela.

Próximo destino: ver o navio da Louis Vuitton. Eu sei que o dono desta marca é uma das pessoas mais ricas do planeta. Mas, ainda assim, ver que eles colocaram um navio enorme, em uma das regiões mais valorizadas de uma das cidades mais importantes do mundo, é de cair os butiás do bolso. Não conhece essa expressão? Tem que morar uns vintes anos no RS para aprender a usá-la.

The Louis

O navio, chamado de "The Louis", é uma impressionante loja-conceito da Louis Vuitton, projetada no formato de um navio gigante. Abriga três andares que combinam uma boutique exclusiva, uma exposição artística e o café temático Le Café Louis Vuitton, que existe também em Nova York e Paris. O navio tem cerca de 30 metros de altura e mais de 100 metros de comprimento. A fachada mescla o shape da embarcação com motivos de malas, em boa parte revestida pelo monograma metálico da grife. Achei a maior doidice! Mas Xangai é assim, porque ao lado, tem uma Starbucks reserva. Têm algumas Starbucks desta pelo mundo, eu havia visto em Milão, mas a de Xangai é ainda mais suntuosa. Enorme, cafés sendo torrado à vista de todos, maquinas sofisticadas, super bem decorado, com várias formas de extração de café e comidinhas lindas. Digo lindas porque não provamos, estava muito cheio e era quase hora do almoço.

E onde fomos almoçar? Capitaneados pela Helena, fomos a um restaurante com estrela Michelin. Aliás, nem contei que ontem almoçamos em um também Michelin, ainda que no de ontem a estrela está com outra filial do mesmo dono.

Praça do Povo e a prefeitura


O de hoje era o Seventh Son. Comemos deliciosos dumplings acompanhados de um chá de jasmim. Curtimos bem, estavam gostosos, mas estamos sempre com a sensação de que não conseguimos fazer o melhor pedido possível.

Terminamos de almoçar e seguimos nossa jornada. Fomos de caminho, para chegar na Praça e no Parque do Povo. O Parque é amplo, arborizado, locais passeando, com bancos e mesas espalhadas onde habituês se reúnem para uma jogatina. Cena muito bacana de ver.

A Praça do Povo está ao redor da sede da prefeitura. Em muitas cidades chinesas tem um “Praça do Povo”. Essa denominação guarda estreita relação com a revolução comunista, afinal estamos na República Popular da China. Essa denominação, “do povo”, guarda o simbolismo de expressar quem efetivamente está no poder: o povo. Em Xangai, a carga simbólica é ainda mais forte, pois esse lugar era anteriormente conhecido como Hipódromo de Xangai, dedicado à elite europeia.

Depois desta boa caminhada, meio da tarde, voltamos de Didi ao hotel para recarregar um pouco as energias. No início da noite, nos dirigimos ao local conhecido como “concessão francesa”. Outra vez se faz visível a presença europeia em Xangai. Um bairro charmoso, com casario em arquitetura colonial, muitas lojas e cafés descolados. O passeio foi interrompido pela chuva, acabamos em um bar bem simpático, chamado The Union Trading Company. Tomamos um drink e gostamos tanto que fomos procurar outro bar. Fui em uma direção que havia mapeado, deu errado, mas acabamos em outro bar muito legal. O Rincon Bar. Para quem curte um ambiente legal e um drink autoral, recomendo os dois. 

The Union Trading Company

Hoje, sexta-feira, seguimos no ritmo intenso que a cidade propõe. Pegamos o metro, ao lado do hotel, e fomos conhecer Pudong. É o distrito financeiro de Xangai. O lugar onde vemos os prédios enormes, arquiteturas diversas, avenidas largas, passarelas e viadutos. Ali está a Torre Pérola, mal comparando a Torre Eiffel de Xangai. Nós não subimos nela, mas pegamos a dica de um tiktoker e subimos até o Cloud 9, um renomado bar panorâmico localizado no 87º andar do hotel Grand Hyatt, dentro da Torre Jin Mao. Era cedo, tínhamos esperança de tomar um café, mas é um bar, estava fechado. Valeu ter subido até lá.

Depois fomos até a estação de metrô “Shanghai Science and Technology Museum”. Fomos nos enriquecer de cultura vendo o Museu? Não... fomos ao maior mercado popular de Xangai, que vende de tudo, mas muito de tudo. E, claro, muitas réplicas. Antigamente eram chamados de falsificados, agora são réplicas. Segundo meu filho Daniel, “originalzinho”.

Ficamos mais de duas horas por lá, entre negociações e compras. O esquema é aquele, eles dão um preço inicial de 1000, se você pagar mais que trezentos pagou caro. Eles falam mil, você fala cem, chega a duzentos, você sai com a impressão de que fez bom negócio, eles mantêm um sorriso no rosto que nos faz crer que também fizeram um bom negócio. Um verdadeiro win-win!

East Nanjing Road

Era hora de ir ao hotel descarregar compras e recarregar energia. Na saída do metrô, achamos um restaurante tailandês. Comemos muito bem, tão bem que nos fez ter certeza de que não nos adaptamos à comida nas cidades da China por onde passamos. Para Ana e Helena, que não comem frango nem carne vermelha, mais difícil ainda. Também os enormes cardápios, em chinês, tradução nem tão simples, nos fazia perder a paciência em sermos precisos na escolha, nem sempre acertávamos. Mas a comida tailandesa estava deliciosa!

Fim de tarde, partiu para a estação de metrô East Nanjing Road. Ali nos deparamos com um grande calçadão, muitas de ruas de compras, absolutamente lotadas. Outra vez com as grandes marcas mundiais marcando presença.

Caminhamos em meio à multidão em direção ao The Bund. O The Bund (Waitan) é o cartão-postal mais famoso de Xangai. Um calçadão histórico com mais de 1500 metros, à beira do rio Huangpu, conhecido pelo visual hiper iluminado dos dois lados do rio. Estávamos, o The Bund propriamente dito, com dezenas de edifícios coloniais europeus de estilo neoclássico e art déco. Do outro lado do rio, Pudong, onde estivemos hoje de manhã, só que agora podendo ser visto mais em perspectiva e todo iluminado. Com aquele show de luzes, o aspecto futurista se acentua. E barcos cruzando o rio, também fartamente iluminados.

Yuyuan Bazzar

Ficamos ali, acompanhados de uma verdadeira multidão, a maioria chineses, admirando tudo o que víamos, em um e outro lado. O lugar é muito aprazível para caminhar. E foi o que fizemos, na direção do Yuyuan Bazaar. Uns dois quilômetros depois chegamos. Não sabíamos exatamente o que iriamos encontrar. Outra viagem... outra vez nos deparamos com um sem-número de lojas de souvenirs, cafés, sorvetes, comidas, roupas, calcados e muito mais. Muitas ruelas dentro desse complexo chamado de Yuyuan Bazaar. Contiguo, meio dentro, o Parque Yuyuan, mas nesse nós não fomos, a visitação é paga e ocorrem só durante o dia. Essa tarde-noite, com East Nanjing Road, The Bund, caminhada e Yuyuan Bazaar foi super agradável. Eram onze da noite quando chegamos ao hotel.

Fico por aqui nesse relato de nossos três primeiros dias em Xangai. Esses post é, disparado, o maior dos mais de 300 que tenho nesse Blog. Ainda tem mais dois dias, vou contar sobre eles na última crônica sobre essa incrível viagem à China.

 

 

Visual do Starbucks Reserve

Jogatina no Parque do Povo

Vai um drink?

Concessão Francesa

Fairmon Xangai... queria ter ficado
nesse hotel!

Yayuan Bazaar

Yayuan Bazaar

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Zhangjiajie, 05 a 08 de abril de 2026.

Zhangjiajie National Forest Park
(Floresta do Avatar)

Chegamos em Zhangjiajie, no excelente Hotel Pullman, por volta das três da tarde. Hotel amplo, belo hall de entrada, quartos para lá de confortáveis e super bem localizado. Meu número de hotel, muito conforto, pouco luxo.

A vinda de carro desde Furong foi agradável, nossa única viagem pelas estradas da China, mas a chuva anunciou o que enfrentaríamos nesses três dias por aqui: tempo instável!

Cervejinha no hotel

Estávamos cansados, e o restante da tarde e o início da noite foram usados para descanso, organização do dia seguinte e reconhecimento do terreno ao redor do hotel, com uma feirinha bem simpática e muitas luzes. Funcionou bem, já que o hotel nos oferece Chá da Tarde e Happy Hour, os dois com comidinhas e bebidinhas livres, o que sempre cai muito bem. Tomei uma cerveja chinesa que curti mais a garrafa que o sabor, e comi churrasquinho chinês, sanduíche de atum e bolinhos de primavera.

No dia seguinte, tomamos um café da manhã intenso e com muita gente, o hotel é enorme. Muita comida, mas eu acabei optando pelo que já conhecemos: ovos, queijo, bacon, iogurte, pães.

Nos ajeitamos e saímos em direção ao parque. Como estava chovendo, fomos de Didi, apesar de estar a apenas 1.500 m distante.

Chegamos ao Zhangjiajie National Forest Park por volta de 9h30. Como sempre, neste país, muita gente, lojas e barracas com souvenirs, comidas e bebidas. Comprei um protetor para o tênis que foi super útil, me permitiu voltar com o pé seco e o tênis branco para o hotel.

Zhangjiajie National Forest Park 
(
Yangjiajie Scenic)

De acordo com o ingresso que compramos, entramos pela região leste, pegamos um ônibus até o elevador Bailong direto para o topo. Este elevador é uma das atrações do Parque. É pago à parte, e custou 11 dólares por pessoa. Ele leva menos de um minuto e meio para subir 326 metros, e é considerado o elevador externo mais rápido do mundo. No primeiro terço, vemos apenas uma parede de pedra, de repente se abre o cenário de montanhas íngremes e escarpadas, muito altas, mais ou menos vegetadas. Um “uau” soa espontâneo no elevador, a cena é realmente incrível. Mas muito rápida, fica a sensação de querer repetir…, mas a visita é toda muito intensa, a ideia é seguir adiante.

Quando se desce do elevador, o programa é explorar a área, um pouco mais tranquila, chamada de Yangjiajie Scenic. Mas… estava muito nublado. A onda, que é ver as enormes cadeias de montanhas pontudas e parcialmente vegetadas, não se mostrava interessante. Caminhamos, nos guiando pelas placas que nos davam essa ou aquela opção de caminhos. Sabíamos que o programa era esse, caminhar muito, subindo e descendo, mas sempre com visuais deslumbrantes ao redor. Não rolou, pouco vimos da paisagem que faz esse lugar famoso. Aqui vai uma carinha de tristeza com uma lágrima rolando...

Vista desde a Tianzi Mountain
Seguimos pelas trilhas e mirantes, sempre entre névoa e chuva leve. Em dado momento, orientado pelas placas e consultando uma inteligência artificial, seguimos em direção à Tianzi Mountain. Um ônibus nos levou até lá, entre curvas fechadas e subidas. Levou uns 30 minutos até chegar. Valeu! Foi lá que, finalmente, vimos algo do que buscávamos: por um bom tempo, a neblina se abriu e a paisagem absolutamente deslumbrante deu o ar da graça. Imensos pilares de pedra, uma formação rochosa muito surpreendente. Realmente nos remete totalmente ao imaginário das montanhas de Avatar. Ficamos um bom tempo por ali, a Tianzi Mountain tem um platô que permitiu aos chineses, e seu absurdo senso prático, construir praças, colocar estátuas de heróis da pátria, abrigar lojas de lembranças e comidas. Nem vou reclamar, tomar um chá quente com leite lá em cima foi bem bom. 

Teleférico descendo do Parque do Avatar

Depois de uma hora nesse ambiente, vista apreciada e fotos devidamente tiradas, iniciamos a descida — e ela veio com uma boa surpresa: um trecho de teleférico, estilo bondinho, ao longo das montanhas, cercado por uma paisagem igualmente linda, nos permitindo passar entre vales e formações rochosas que ajudaram a terminar de dissipar a frustração pelo clima úmido e céu nublado. Céu nublado, nesse caso, significa que andamos em meio às nuvens.

Voltamos caminhando, essa região ao redor do parque é toda muito agradável, optamos por ir a pé em busca de um restaurante. Achamos um e cada um pediu um prato local, com ajuda de algum aplicativo para traduzir. Eu repeti meu prato à base de pedaços grossos de bacon. Muito tempero, um pouco picante, vem nadando em um molho vermelho, espesso, e com bastante broto de bambu. Comi junto com arroz e estava gostoso, mas comi só a metade, deixei boa parte da gordura do bacon para trás.

Chegamos cansados ao hotel, mas ainda tivemos tempo de aproveitar o nosso happy hour. E ainda dar uma breve caminhada pela feira próxima ao hotel. 

Meu prato do almoço.

No dia seguinte, uma terça-feira chuvosa, fomos para outro lado, em direção à Zhangjiajie. Não contei antes, mas o Pullman e o Parque ficam no distrito de Wulingyuan, a uns 50 km da cidade. Acho que também por isso gostei tanto, tem o ar de cidade pequena que eu gosto tanto e tem me feito falta nessas megalópoles chinesas que temos visitado.

O destino era a Tianmen Mountain, literalmente traduzido como Montanha da Porta do Céu. O lugar é incrível, e tem uma superestrutura turística. O ingresso que compramos nos levou ao caminho que vou descrevendo. Primeiro, pegamos o teleférico na cidade. É um dos maiores teleféricos do mundo, com 7,5 km de extensão. No início, passa sobre a cidade, mas quando começa de fato a subir a montanha, é lindo. E dá aquele medinho...

Quando descemos do teleférico, pegamos um ônibus em direção à Porta do Céu. O trajeto é pela estrada das 99 curvas. Estava muito nublado, então foi tranquilo. Pelas fotos que vi, é aquele tipo de trajeto que as curvas caminham na direção e depois deixam para trás umas pirambeiras. Conhece essa palavra, pirambeira? Pois é, enormes abismos! Em meio a nuvens, foi de boa, se estivesse puro sol, teria mais beleza, emoções e medos. 

A estrada das 99 curvas vista de cima.

O ônibus nos deixa em uma espécie de praça, outra vez com lojas com comidas e lembranças, e muita gente. O tempo seguia fechado, e a frustração seguia nos acompanhando. Sequer a porta do céu era visível. A porta do céu é um buraco na montanha. Foi feita uma escada para chegar até essa “porta”, com 999 degraus. Estava úmido, escorregadio, mas não a ponto de ser perigoso. Helena e eu resolvemos subir, Ana optou pela escada rolante. Sim, tem uma escada rolante que foi feita em um túnel, dentro da montanha. A impressão que tenho da engenharia chinesa é algo assim: “É bom fazer? É, Tem como? Tem. Então faz!”. Não sei se já comentei isso em outro post, mas ouvi aqui que são formados cerca de um milhão de engenheiros por ano nesse país.

Paramos duas ou três vezes para dar uma parada, pegar um fôlego e tirar umas fotos, mas não dá para dizer que subir essa escada tenha um alto grau de dificuldade.

No fim da escada, um espelho d’água que deixa o cenário ainda mais fotogênico. Confesso que achamos que havíamos chegado ao objetivo. Ledo engano. Fomos seguindo um fluxo de gente, passamos por um caminho que ombreava com o precipício, eu mesmo não sabia que iria ter coragem para passar por ali. Mas a neblina, a pilha, o inusitado e um pouco de concentração me deixaram passar sem sobressaltos. Ao fim desse caminho, vimos uma escada rolante, todo mundo subindo nela. Enorme, daquelas que quase nos desestabiliza, nos faz perder o equilíbrio quando olhamos para cima. Pois então, dessas. Achamos que era uma, mas eram sete. Sim, sete. Todas muito altas. Durou uns 20 minutos a subida. 

E escada rumo à Porta do Céu

Lá em cima chegamos no alto da Tianmen Mountain. Entendi que as escadas rolantes, todas em túneis dentro da montanha, como já disse, viabilizam que cheguemos ao topo. Tem caminhos por fora, mas aí não são turísticos, exigem outro nível de preparação. Lá em cima deve ser lindo, mas nós seguimos dentro da nuvem. Não conseguimos ver nada. Ficamos um bom tempo, comemos algo, andamos para lá e para cá, inclusive, outra vez, agora já acompanhados da Ana, por caminhos encostados nas montanhas, com aquele super precipício ao lado. Pouca visibilidade e, por consequência, pouco medo. Em um trecho deste caminho se paga para entrar em uma parte que é feita de vidro, onde se olha para baixo e se vê o nada..., mas não fomos.

Depois de uma hora no topo, descemos pelas mesmas escadas rolantes enormes. Voltamos ao topo da escada de 999 degraus. Mais 3 lances de escada rolante, chegamos ao pé da escada. O tempo estava mais limpo, tivemos nosso momento de divisar um pouco mais a paisagem. Valeu, acho que foi uma espécie de presente pelo esforço feito para estar ali.

Telefério descendo da base
da escadaria da Porta do Céu

Aproveitamos para curtir o visual e em dado momento resolvemos descer. Eram umas 4 da tarde. Caminhamos um bom trecho e descemos de teleférico. Outro teleférico, não o mesmo que subimos. Esse da volta é mais rápido, a descida estava linda, e nos deixa em um local onde pegamos o ônibus até o local inicial, o mesmo onde pegamos o primeiro teleférico, na cidade de Zhangjiajie. 

Pegamos um Didi e regressamos, cansados ao hotel.

Só que não... isso era o que deveríamos ter feito, mas resolvemos caminhar pela cidade, para fazer hora e ir ver um local onde tem um show de luzes de noite, o 72 Qilou (ou 72 Wonder Tower). Caminhamos bem, cruzamos o rio, chegamos no centro da cidade. Foi legal ver uma cidade mais normal, não turística, sem ser necessariamente espetacular. Eu curti o passeio. No início da noite fomos para a 72 Qilou. Não gostamos, não quisemos pagar para entrar, fomos procurar comida, achamos uma pizza chinesa bem ruinzinha. O que deveríamos ter feito às 4 da tarde fizemos as oito da noite, pegamos o Didi e voltamos ao Hotel. Não se pode acertar todas.

Mas ainda nos animamos a, pela terceira vez, caminhar perto do hotel, outra vez passar pela ponte que nos mostra partes do rio e das margens iluminadas. E nos despedimos de Zhangjiajie do agradável distrito de Wulingyuan.

Hoje de manhã foi tempo de tomarmos café e saímos em direção ao aeroporto, rumo a Shanghai. Terminei de escrever daqui, já hospedados no ótimo Swissôtel Grand Shanghai. Mas no próximo conto o que fizemos no centro financeiro da China e, de certa forma, de toda a Ásia.

Selfizinha nas alturas

Tiamen Mountain

Em um desses caminhos que eu achei 
que não passaria, pela altura, mas foi mais 
tranquilo do que imaginei.

Em alguns lugares o visual incrível se 
transformou em um literal "estar nas nuvens".

A Porta do Céu e a escadaria
vistas da base

A escadaria, vista de cima

Os elevadores dentro da montanha

A base da escadaria, quando voltamos e o
tempo abriu.

A Porta do Céu, já na altura dela.


A 72 Qilou, que não chegamos a entrar

A vista desde a ponte próxima ao hotel Pullman

domingo, 5 de abril de 2026

Furong, China, 04 a 05 de abril de 2026.

Cidade cênica de Furong - vista da cachoeira

Neste momento estou em um restaurante em Furong, sudoeste da China. Essa foto acima foi tirada do lugar onde jantei. Incrível. Realmente incrível!

Chegamos a Furong hoje de tardinha, sábado, quatro de abril, vindo de trem de Chongqing. Essa cidade apareceu quando eu estava fazendo o roteiro para essa viagem e quis procurar uma cidade pequena. Surgiram algumas; esta acabou sendo escolhida pelas fotos que vi e porque cabia bem na nossa rota.

Mesma vista da foto anterior, um pouco mais cedo

Chegamos às cinco da tarde à estação de Furong, e a chinesa dona do hotel em que ficamos foi nos recepcionar. Gostamos, sempre dá mais segurança ser levado diretamente para o hotel e facilita com as malas, a essa altura já mais pesadas do que quando saíram de casa.

Tivemos que descer do carro e entrar a pé na cidade antiga. Paga-se para entrar, e não é tão baratinho. O equivalente a 75 reais por pessoa. Se vale? Vale sim, fácil!

Como posso descrever Furong? Difícil…

Vou tentar em pouquíssimas palavras o que li e vi sobre essa cidade com mais de 2.000 anos: O povo local aqui é da etnia Tujia. Ao lado da cachoeira ainda hoje pode ser vista uma caverna, pequena, com algumas esculturas de indígenas que a habitavam. Uma inscrição ao lado diz que ela já foi muito maior e abrigou milhares de pessoas, antes de mudanças nos ciclos d’água e na geologia do local a deixarem nas pequenas dimensões de hoje. Não sei a veracidade desta informação, pode ser apenas folclore local. Não é muito conveniente acreditar nessas plaquinhas de locais turísticos com informações arqueológicas.

Imagem que encontrei em um templo local - 
acho que Guanyn

Depois desse momento, não sei precisar quando, ela se tornou uma confluência de rotas comerciais nessa região montanhosa de Hunan. Seu nome original era Wangcun, e esse nome me ajudou a procurar hotéis e passagens sem cair na Furong errada. É que existem outras cidades com o mesmo nome. Para não errar eu procurava “Furong (Wangcun)”.

Bom, nesses tempos antigos foi se construindo a cidade ao redor da cachoeira. E isso é o mais impressionante dela: a cidade está toda ao redor da cachoeira e ela cumpre um papel central. Se eu usasse um pouco da mitologia Quéchua ou Aymara, diria, com facilidade, que a cachoeira é o Apu que protege a todos que por ali habitam.

Ao longo do tempo, a cidade constituiu-se como uma vila rural, estagnada no tempo, ao menos para os padrões de hoje, que exigem um “desenvolvimento” crescente e linear. Acho que, ao invés de estagnada, posso dizer que ela estava lá, de boa, vivendo sua vida… com suas construções características e com o povo local sobrevivendo como costumam fazer as vilas rurais, com uma agricultura voltada à subsistência e algum comércio daí derivado.

As ruas de furong, à noite.

E quando foi o ponto de virada para Furong se tornar o destino turístico bombástico de hoje? Foi em 1986, com o lançamento do filme Hibiscus Town. Esse filme fez grande sucesso na China, e o governo aproveitou a oportunidade: reformou casas, incentivou empreendedores locais, montou passarelas e criou a iluminação que caracteriza a cidade nos dias de hoje. As casas não apenas foram reformadas, muitas foram mesmo melhoradas para criar o cenário. Aliás, muitos sites tratam Furong como uma “cidade cênica”.

Posso imaginar que, a partir daí, com o crescimento do turismo, veio o processo de sempre: muita gente visitando, população local vendo a chance de ganhar dinheiro, gentrificação. O que li aqui é que esse processo ocorreu nos últimos 30 anos, mas, diferente do que vemos normalmente, foi conduzido pelo Estado. Resultado: um lugar visualmente preservado e economicamente ativo. Foi, ao menos parcialmente, transformado em “cenário habitado”, e os benefícios foram para a população local que decidiu empreender. Para outros, o que ocorre nesses casos de gentrificação: custo de vida mais caro e perda de qualidade de vida.

ela não posou para mim, mas eu
siaproveitei...

Mas… visitar Furong é maneiro? Vale a pena? Pois eu diria que sim, vale muito. Olha essa foto ao lado, não é uma cena incrível de se ver? 

A despeito do artificialismo que essa onda turística traz, em quase todos os lugares em que se instala, ela é lindíssima. Visualmente impactante, tanto de noite quanto de dia. Ficamos menos de 24 horas, mas eu ficaria dois dias facilmente. Ou mais, se fosse para explorar outras coisas na região. Fazer o que fizemos, jantar em um dos restaurantes que te dão uma vista panorâmica da cachoeira iluminada, emoldurada pelas casas com aquele estilo imperial chinês, salpicadas de luzes, é um visual imperdível. Sem dúvida, uma das cenas mais bonitas que já vi na vida. E a palavra “cênica” que eles costumam usar se encaixa perfeitamente. O visual é isso mesmo, cênico. Depois do jantar, caminhamos para lá e para cá, entre restaurantes e lojinhas. Ana e Helena foram fazer uma massagem nos pés, insistentemente oferecida por aqui. Eu fui caminhar na parte mais baixa da cidade.

A China aposta muito no turismo. Mas o que bomba mesmo é o turismo interno. Temos encontrado ocidentais, sim, mas a maior parte dos turistas são chineses. E os chineses gostam de ver o que nós também gostamos, ou ao menos esperamos ver na China. Muitas luzes, arquitetura imperial, com seus simbolismos e simetrias.

A arquitetura de Furong Ancient Town não é exatamente imperial. Mas, para um leigo como eu, se aproxima. Casas todas de madeira, meio “penduradas” na encosta e apoiadas em palafitas, acompanhando o desnível do terreno e a proximidade da água. É simples, tradicional e integrada à natureza. Claro que, a essa altura, está claramente preparada para o turismo: tudo muito bem cuidado, como eu já comentei, com lojinhas, passarelas e uma iluminação caprichada que, à noite, transforma o lugar quase num cenário de filme, com luz quente nas fachadas e a cachoeira iluminada ao fundo. E dá para ver como os chineses gostam desse tipo de cenário — o lugar fica cheio, muita gente passeando, tirando fotos, fazendo vídeos, curtindo cada cantinho, como se fosse um grande cartão-postal ao vivo. Chineses e nós também... curtimos muito o visual e tiramos fotos, muitas fotos!

Hoje de manhã, depois de uma agradabilíssima noite no correto Ximu Hotel, fomos caminhar brevemente para fora da parte da cidade em que se paga para entrar. Segue sendo bonitinha mesmo no “além-muros”. Helena comprou um café em uma rede de cafés locais chamada Luckin Coffee (leiam depois sobre a sacada chinesa para concorrer com Starbucks), e eu fui atrás de comidinhas locais. 

Onde tomamos nosso café da manhã

Provamos quatro coisas diferentes, apontando com o dedo, e gostamos. Não adoramos, mas gostamos. Ficamos quase uma hora por ali, vendo a destreza da mulher manejando suas panelas e servindo as pessoas de forma customizada e com uns hashis grandões. Uma onda. Fui a um mercado ao lado e comprei uma bebida tipo Yakult para acompanhar. Não gostei, mas estava boa! Ou não estava boa, mas eu gostei!

Depois, Helena e eu fomos fazer o mesmo caminho que fiz sozinho ontem à noite: descendo e indo até a cachoeira, passando por uma passarela por trás dela. Foi legal fazer duas vezes, uma de noite, outra de dia. De noite, o impacto visual é maior, com o show de cores e luzes. De dia, segue linda, e com um ar mais autêntico, mais natural.

Não falei do jantar, vou mencionar: quatro pratos locais — um com peixinhos e camarões salgados e fritos, salsinha (folhas e talos) e algumas outras coisinhas não identificáveis… um salteado de carne de gado, um tofu defumado e outro de berinjela salteada. Comi bem minha carne, a berinjela estava muito boa, os outros dois pratos sobraram, não fizeram muito sucesso.

Acho que é isso que vou contar de Furong, mas a crônica ficou aquém da cidade. Na verdade, sempre fica. Meu compromisso é caminhar e contar, mas nunca foi contar tudo.

Saímos às 12h30 de carro, em direção a Zhangjiajie. Vi preços e possibilidades, optamos por um carro que nos levasse porta a porta. Estou terminando de escrever este post já aqui, do excelente Pullman Hotel, em Zhangjiajie. Depois conto por que viemos para cá!

Outro templo, outras imagens


Domingo de manhã, show na praça.
Um chá de manhã cedo, antes de sair do quarto.


De noite, por trás da cachoeira
Aspecto da cidade, à noite.

Linda por qualquer ângulo.

Descendo para passar por trás da cachoeira.

Cjhegando no hotel, quase meia-noite, visual da janela do corredor.