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terça-feira, 9 de dezembro de 2025

São Tomé, dia 06, e Lisboa, dia 07 de dezembro de 2025

 

Av, da Liberdade, fim de tarde

Sábado em São Tomé e Príncipe, domingo em Lisboa. Boa combinação. Ontem, acordei e comi meu mata-bicho. Hoje, foi um pequeno almoço. Amanhã, no avião, de volta para o Brasil, tomo um café da manhã.

Praia dos Tamarindos

Ontem, sábado, mais relaxado, trabalho quase terminado, acordei tranquilo, sem despertador. Depois do mata-bicho, peguei o carro emprestado com o Rogério e fui solito para o norte da ilha, desfrutar outra vez da Praia dos Tamarindos. Linda. Sol quente, água morna e transparente, deliciosa. Daqueles banhos que fica difícil sair do mar. Um espetáculo! Fiquei umas duas horas por lá e antes do meio-dia já estava na piscina do hotel. Pequena, simples, mas suficiente e agradável.

Depois, fui almoçar no mesmo lugar que comi semana passada, o Onda Azul. Escolhi pelo visual, a baia aos nossos pés, apesar da comida também justificar a escolha, estava bem saborosa. Cherne com arroz, batata, banana e salada.

Bacalhau delicioso!

Depois fui para o hotel, seguir no relatório, escrever algo e arrumar malas. Voo atrasou, acabei esperando mais de quatro horas no simplíssimo aeroporto de São Tomé. Agradável não foi… Cheguei em Lisboa nove da manhã e gastei três horas na fila da imigração. Tampouco foi agradável. Acabou? Não, tem mais, as malas não embarcaram em São Tomé, parece que tinha pouco combustível na aeronave e estavam preocupados com o peso do avião. Caraca…  Bom, cheguei no hotel, de novo o Sofitel, só as duas e meia da tarde, meu dia em Lisboa virou meio dia, mas ainda pude aproveitar algo do domingo na cidade de Fernando Pessoa.

O que eu fiz? Almocei um Bacalhau à Lagareiro, bem correto, no “O Castiço”, na Rua dos Sapateiros, que fica bem no coração do Chiado e é cheia de bons restaurantes. Escolhi no olho, apenas gostei da cara e entrei. Fui atendido por um chinês que mal falava português e por um indiano carrancudo. O português, com cara de dono, ficava mais na supervisão. Essas típicas cenas, curiosas, da Europa atual, mas não apenas da Europa, do mundo contemporâneo. Elas sempre me chamam atenção, talvez por lembrar bem do tempo que o palco tinha outra configuração.

Depois, fui comprar roupas, na esperança de que a Tap me pague, já que perderam minha mala. Comprei umas coisinhas para levar para casa no supermercado Pingo Doce e outras no Celeiro, um supermercado orgânico bem bacana. Fim de noite foi no hotel, primeiro no quarto vendo jogo do Botafogo, depois desci para jantar, mas troquei por três cervejas, no lindo hall do Sofitel, com aquela leveza agradável de fim de viagem. Contradições da vida, contradições minhas, trabalho como consultor em um pequeno país africano, financeiramente pobre, como recompensa um bom hotel e uma cerveja cara.

Último momento da viagem...

Minha última viagem internacional do ano não poderia ter sido melhor. Alguns percalços, mas ter ido pela quarta vez a São Tomé coroou um ano que foi bem legal. Não é incomum que eu tenha a sensação de que a vida é exageradamente generosa comigo. Não é papo furado, sinto-me mesmo como um devedor. Que eu tenha coragem, sensibilidade e inteligência para encontrar um jeito de pagar a dívida!

E fico por aqui em 2025. Próximo post não sei de onde será. E essa é uma das razões que me faz sentir devedor à vida: eu nunca sei o que virá, mas sempre vem um monte de coisas legais.









Vista do segundo andar do café que escolhi,
na Av. Liberdade, para a sobremesa de fim de tarde.


Doce e café!



sábado, 6 de dezembro de 2025

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 01 a 05 de dezembro de 2025

 

No campo, foto da Lucimara

Dias intensos de trabalho durante toda a semana. Fui a campo várias vezes, em diferentes comunidades deste interessante país.

Vigor da folha de mata-bala, 
planta parente do inhame

O campo foi com os técnicos da Oikos, sempre o Luís, Lucimara nos acompanhou um dia. Chama a atenção, sempre, a pujança da natureza. Acho que a maioria dos posts que escrevi nas minhas estadas em São Tomé faço esse comentário, sobre o vigor das plantas, cultivadas ou espontâneas, arbustivas ou florestais.

Na quarta-feira, tivemos reunião com a Associação Saudade, que reúne um grupo de agricultores/as que estão operando um SPG - Sistema Participativo de Garantia. Poucos, a operação é simples, mas eles sabem bem o que estão a fazer. A presidente, Ana Bela, e outros, podem, facilmente, representar São Tomé em alguma reunião internacional de SPGs.

Na quinta-feira, um momento bacana: uma capacitação em SPGs e biofertilizantes na comunidade Nova Moca. Almoçamos ali mesmo, comi “arroz com folhas”. As folhas são de mandioca, uma preparação semelhante à que chamamos maniçoba no Brasil, mas com um tempero local, levemente apimentado.

Volto um pouco no tempo para dizer que estive em Nova Moca na terça-feira também, visitando o Gabriel, um amigo produtor que já esteve no Brasil. Ele nos mostrou sua linda lavoura, um cultivo agroflorestal bem manejado. Aliás, esse país para mim é todo ele um SAF. Gabriel me apresentou sua esposa. Nome dela? Arminda.

Arroz com folhas!

Mas… ninguém sabe que ela se chama Arminda, porque  aqui em São Tomé as pessoas tem um outro nome, que eles chamam de “vulgo”. Então, o vulgo da Arminda é Segunda. E o apelido do vulgo é Gunda. Como devo chamá-la? Posso escolher, mas o usual é Gunda ou, um pouco mais formal, Segunda. Isso rola com todos aqui. Curioso, não é? Segunda foi quem fez o arroz com folhas que comi em Nova Moca.

Aliás, comida é uma nota interessante aqui. Essa semana estive duas vezes no honesto DjaDja. Um dia comi caril (curry) de peixe. No outro, peixe frito com purê de banana verde e molho de berinjela. Muito bons. Voltei ao Papa-figo e ao Pirata, que já conhecia, das outras vezes que estive aqui. Bons, mais caros, não excelentes, típicos restaurantes de brancos, como dizem por aqui. Comi peixe-azeite com arroz em um e caril de peixe e camarão,  em outro. Fui com Rogério na Tia Zada. Fica na Gamboa, um pouco afastado do centro. Este sim, super local. Éramos os únicos brancos. Peixes e outros frutos do mar ali, ao lado da churrasqueira, sendo escolhidos por quem iria comer, antes de serem assados. Escolhemos choco, um parente da Lula. Estava muito bem temperado, macio, mas não tanto. Uma arte fazê-lo inteiro, na brasa e deixá-lo macio. Confesso que acho meio feio o visual do prato, não estou acostumado, mas comi quase todo, estava realmente saboroso. Veio com salada, fruta pão e banana frita. Tomamos uma super bock para acompanhar, a cerveja portuguesa que rivaliza com a Rosema, a única cerveja produzida aqui em São Tomé.

Choco no Tia Zada


    O visual do restaurante não é como estamos acostumados… como diz um amigo, quem tiver muito nojinho melhor não ir! E hoje, sexta-feira , de noite, fui jantar no Petiscos da Vilma. Um polvo e um arroz da terra (arroz servido bem molhado, com peixes e folhas, um tempero muito bom) excelentes!

Saio deste país com um astral muito melhor do que quando cheguei. Fim de ano, estava cansado. Trabalhei bem aqui, mas dormindo bem, bom hotel, com alguns momentos de folga, recuperei as energias. Além disso, algo que bebi ou comi me afetou, sempre ruim estar passando um pouco mal. Mas acho mesmo que o que aconteceu é que nos primeiros dias o hotel ruim e o próprio visual do lugar, da cidade, me afetaram. Em uma linguagem clara: a idade e a vida que levo tem me deixado menos “roots”. Uma vez falei com Tiago, meu filho, que um pouco de grana te dá um pouco de liberdade. Ele respondeu de forma que acho brilhante, nunca esqueci: o dinheiro pode te dar alguma liberdade, mas o conforto te aprisiona. Bingo! Hoje, aos sessenta, sou um pouco prisioneiro do conforto. Ao mudar de hotel, mais confortável, e, também, me acostumar com a simplicidade local e passar a encará-la como acho que ela deve ser encarada, com vantagens e desvantagens, como qualquer situação, meu astral melhorou. 

Vista da comunidade de Nova Moca

Ou a mudança de humor é apenas porque estou a voltar a casa, passando um dia por Lisboa, e essas são boas notícias. Humores e emoções, quem haverá de explicá-las? Vem e vão, difícil comandá-las!

Isso desta semana! Amanhã de noite embarco, tenho todo o dia para trabalhar no meu relatório e passear. Viajo de noite e chego cedo em Lisboa! Passo o dia lá e embarco segunda cedo para o Brasil!




No campo


Horta - cenoura


Aspecto urbano



Cena urbana



Cascata São Nicolau


Centro de São Tomé


Com meu amigo Gabriel

No campo, oficina de biofertilizante

Atum, pure d ebanana e molho de beringela

Comunidade Nova Moca


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 29 e 30 de novembro de 2025

 

Praia dos namorados

Fim de semana de passeio, descanso e algum trabalho. Comecei muito bem, ontem de manhã fui a uma praia lindíssima com a Lucimara, brasileira que trabalha na Oikos, de carona com a Vanessa, seu filho Luka e sua cadela Marieta. Companhias para lá de agradáveis.

Nesta mesa comemos, no Onda Azul

Fomos à Praia dos Namorados. Uma pequena praia, de areia branca, na parte norte da ilha, que deve ter pouco mais do que cem metros de extensão. Águas quentes e calmas, como se fosse uma pequena Baía, circundada por uma vegetação quase de restinga e delimitada, por um lado, por um morro com uma vegetação também baixa, de um verde tímido, não com a exuberância que normalmente vemos na ilha. Do outro lado, um pequeno acidente geográfico que separa essa praia da Praia dos Tamarindos. O mar, lindíssimo, com certa variação de cores, entre o azul profundo e um verde marinho quase brilhante. Ficamos na pequena faixa de areia branca, protegidos do sol pela sombra de uma árvore que ali fez morada. Um espetáculo.

Saímos ao meio-dia da praia e fomos comer no restaurante Onda Azul. Uma bela paisagem da Baía de Chaves. Visual. Comi um peixe-azeite, o que mais gosto dos que já provei neste país. Veio acompanhado de banana frita, tanto verde quanto madura, arroz, salada e matabala, uma raiz, prima do inhame, muito consumida aqui. Depois do almoço, fomos à chocolateria Diego Vaz, local agradável, com bom café, sobremesas, gelatos e chocolates.

Para terminar meu sábado gastronômico, de noite decidi ir comer em um lugar um pouco mais caro, no restaurante do Hotel Omali. Pedi um peixe com crosta de gergelim, legumes salteados e um excelente purê de matabala. Delicioso! 

Meu prato no Omalí

Hoje, domingo, dia agitado. De manhã fui com a Lucimara para o norte. Passamos na linda praia da Lagoa Azul, que eu já conhecia e tinha vontade de rever. Outra vez, águas calmas, quentes e transparentes, de um lado mar, de outros morros. Vale o nome, lembra mesmo a lagoa do famoso filme. Depois, segui na estrada até a última cidade deste lado da ilha. Chama-se Santa Catarina. É povoada por angolares. O que são os angolares? Pois então, estou também tentando entender.

A história de São Tomé e Príncipe, contada pelos portugueses, diz que não havia gente nestas duas ilhas quando eles chegaram. Mas não existe consenso sobre isso. É possível que pessoas vindo de Angola já estivesse chegado aqui e vivessem nessa terra-mar. Não construíram porto, forte ou cidades e se fizeram invisíveis (quase?) para a história.

Essa é uma hipótese, até onde sei. Mas é fato que tem um povo aqui na ilha que são diferentes dos outros. São facilmente identificáveis. Me contaram até do formato dos pés ser diferente. Fala-se também que “é melhor não se meter com eles”. Ouvi ainda que “se você chegar lá e eles estiverem descalços, fica descalço também, não fica parecendo querer ser melhor”. Vou contar uma última coisa, entre muitas, que ouvi: “o pessoal daqui (da cidade, não angolares) iam muito lá comprar uma esposa. Depois, viram que elas vem para cá, interagem com outros e a pessoa acaba perdendo sua mulher. Se é muito pobre, ainda consegue esconder ela, mas se é rico, aí não tem jeito, tem que apresentar ela, ela logo descobre que tem outras possibilidades e deixa o homem - claro, ela foi comprada, ali não existiu amor. Já não é comum irem lá comprar uma mulher, não vale a pena”.

Isso é parte do que eu ouvi. O que eu vi em Santa Catarina? Uma comunidade pobre, como todas aqui, caras simpáticas, casas a beira -mar em um lindo ambiente, muitos barquinhos a vela, já que é uma comunidade de pescadores.

É tanto para contar, esse espaço aqui não cabe…

Em Santa Catarina acaba o asfalto. Para frente, um caminho de terra, apenas para pedestres. Essa parte circunda o Parque Nacional de Obó. Ou seja, não se pode dar a volta em toda a ilha de carro, existe esse trecho apenas para pedestres, de 32km, segundo me precisou um amigo agricultor daqui, o Gabriel, que é também guia nas trilhas do Parque.

Que mais? Bom, voltei de Santa Catarina, tomei banho no hotel e fui com Rogério para o outro lado, o Sul, para comer em um restaurante famoso aqui, na roça São João de Angolares. Demos azar, chegamos tarde, o menu degustação não estava mais disponível, comemos apenas o prato principal, arroz com calulu de peixe, um molho grosso feito com folhas locais e pedaços de peixe. Estava bom, mas não muito bom. Regressamos, outra vez uma sobremesa no Diogo Vaz, fofocas em dia e deu! Direto para o quarto de hotel, nem saí para jantar. Aliás, mudei de hotel, vim para o Emoyeni Gardens, que eu já conhecia e é bem melhor que o Sweet Guest House.

Essa semana que começa amanhã tem muito trabalho, depois conto!


Praia Lagoa Azul


Estrada em direção à Santa Catarina



Estrada em direção à Santa Catarina



Tímida foto de Santa Catarina






sábado, 29 de novembro de 2025

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 26 a 28 de novembro de 2025.

Tomate, banana, árvores, vamos que vamos!

    É a quarta vez que venho a São Tomé e Príncipe, esse pequeno país insular do continente africano, localizado a 300 km da costa, bem na linha do equador. Estou aqui a convite da Oikos, ONG portuguesa que atua também neste país. Vim colaborar com o trabalho que eles desenvolvem com Agricultura Biológica (orgânica) e SPG (Sistemas Participativos de Garantia). 
Rua Augusta e o Natal!

Saí do Brasil na segunda-feira, dia 24/11, e cheguei aqui na quarta-feira, dia 26. Fui obrigado a dormir uma noite em Lisboa, no excelente hotel Sofitel. Pensa se achei ruim… deu para dar uma volta pela Augusta, comer um bacalhau à minhota na pequena tasca “A Merendinha do Arco”, ver a decoração de Natal da cidade e, de brinde, encontrei minha sobrinha, Ana Clara, que estava passeando por Lisboa. Dia muito agradável.

Mas Lisboa era só uma parada, na manhã seguinte sai cedo do hotel, de Uber. Viajei de Lisboa a São Tomé na quarta durante o dia, o voo atrasou e ainda fez uma escala em Acra, chegando em São Tomé às sete da noite.
Meu amigo Rogério, coordenador da Oikos, foi me buscar e levar para jantar. Fomos ao restaurante Jasmim, e obvio que pedi peixe. Estamos em uma ilha no meio do Atlântico, o que mais vou comer? Veio com arroz e banana frita, o que é muito comum por aqui. Detalhe sobre o peixe: todos aqui comentam que já não tem mais peixe como antigamente… que tal e qual espécie já não existe mais, que os peixes
estão menores, que pescar se tornou tarefa mais difícil.

É…
Ontem, quinta, foi dia de trabalho no escritório. De manhã, reunião com equipe da Oikos, de tarde nos acompanharam cinco agricultores nesta conversa. Ouvi deles como está o funcionamento do SPG e fiquei satisfeito com o que ouvi. O Sistema está rodando, e isso não é pouco considerando a realidade local. Estive aqui, trabalhando esse tema, entre outros, em 2018, 2019 e 2021. Ver que algo ficou, que o feito não foi desfeito, é sempre um motivo de alegria. 

Ainda falando sobre ontem, quero contar algo: depois do trabalho, fui cedo para o hotel. O Sweet Guest House. Eram cinco da tarde, na rua estava quente, afinal estamos nos trópicos. Quando abri o quarto, um bafo, quase uma sauna. Fui ligar o ar condicionado, não estava funcionando. O país está com um super problema de abastecimento de energia elétrica, há meses. Falei com a moça do hotel, ela disse que só ligariam o gerador mais tarde… impedido, pelo calor, de ficar no quarto, tomei um banho e fui para uma área de convivência/jantar que tem no hotel. Ali estava fresco, ao menos melhor que no quarto. Vi o dia se fazer noite nesta varanda, no terceiro andar. Uma intensa chuva começou a cair, a vigorosa vegetação no terreno ao lado me recordando onde eu estava. Uma casa de madeira, velha, decadente, que parece já ter sido de algum comerciante abastado, no fundo do terreno. De frente para mim, uma fruta pão, árvore generosa, que produz um fruto rico em amido e que é muito importante na cultura alimentar desta ilha. Aliás, essa situação de abundância de peixes e frutas é que sempre fez esse país, financeiramente pobre, ter uma população que não enfrenta problemas de desnutrição. Agora, menos peixes, menos frutas… sim, menos frutas também, o clima mudou e algumas fruteiras nativas produzem menos ou simplesmente passam um ano sem produzir.
É…
Hoje, sexta-feira, fui com o Luís, técnico da Oikos, visitar duas áreas produtivas. Uma do Egder, outra do Antônio. Já estive com eles outras vezes, inclusive estiveram visitando o nosso trabalho no Brasil em um intercâmbio técnico. Visitei suas áreas de produção biológica, pude ver, mais uma vez, o desafio de produzir olerícolas europeias, ou de partes mais frias do globo,em um ambiente tropical como esse.
Hoje em dia, quando falamos em massificar a agroecologia ou a produção orgânica, devemos levar em consideração a necessidade de repensar algo dos hábitos de consumo. Eu posso sintetizar uma prosa longa em uma frase: muito veneno é jogado na natureza, como um preço pago pelo desejo de consumidores terem tomate todos os dias no seu prato. Multiplica esse fato por dezenas de cultivos. Essa é a equação que devemos alinhar para caminhar para uma agricultura mais limpa e saudável. Tenho a impressão que o futuro vai ter muito de local, e o alimento vai ser também local.
Quando vejo Egder e Antônio produzindo tomate em São Tomé, o esforço necessário para adaptar um cultivo originalmente andino ao vigor do trópico úmido, penso nisso, no custo para atender paladares pasteurizados.
Contando mais do dia, antes de ir para a reunião que teríamos de tarde, na sede de outra ONG, a Marquês de Vale Flor, paramos para comer no Bar da Fafa, em Cruzeiro. Simples, muito simples, mas comi um filé de atum com salada (sim, tinha tomates) simplesmente delicioso. 

E depois da reunião, fim de tarde, eu e Rogério fomos tomar uma Rosema, a cerveja local, e comer uma pizza. Sim, falando em hábitos alimentares, devemos reconhecer que o sol nunca se põe no império da pizza. 

Esses foram meus primeiros dias aqui. Amanhã vou à praia, depois conto!













Dona Antônia, vendendo em frente à sua
propriedade

Vista deste o terceito andar do Sweet Guest House


Cena Urbana - Cruzeiro




segunda-feira, 2 de agosto de 2021

São Tomé e Lisboa, 31 de julho e 01 e 02 de agosto de 2021

 

Atividade durante nosso curso da semana!

E, em uma espécie de presente por bom comportamento, ainda pude desfrutar de um dia em Lisboa.

Feira de produtos locais e biológicos
O fim de semana em São Tomé misturou trabalho e passeio. No sábado, de manhã, fui visitar uma loja de produtos biológicos e/ou locais, a Qua Tela, e a feira, que foi organizada em frente à loja, com produtores certificados pelo Sistema Participativo de Garantia em São Tomé. Um resultado do projeto no qual me envolvi aqui, o OM4D (Organics Market for Develepment), capitaneado pela IFOAM, com apoio da cooperação Holandesa.

E, durante o dia, fizemos muitas coisinhas mais: visitamos a loja de chocolate Diogo Vaz, famosa por aqui, fomos almoçar no excelente São João do Angolares, o mesmo que escrevi aqui sábado passado sobre ele. Tão bom que tive que regressar! Fiquei feliz que o chef, figura conhecida por aqui, fez referência ao livro que eu havia dado a ele e disse que está a ler!

As crianças, "pegando na branca".
Na volta, uma parada na praia “sete ondas”. Sou obrigado a contar uma curiosidade: nesta praia, a Bárbara saiu para caminhar na areia e a Flávia colocou biquíni e foi ao mar. Em pouco tempo, nos juntamos outra vez e ficamos conversando, na areia, com um pai, local, e suas duas pequenas filhas. Em dado momento, eu disse que estava na hora de irmos. O pai respondeu para mim: “sim, nós também”. E, ato contínuo, dirigiu-se às duas meninas: “tá, pega na branca e vamos embora!”.  As crianças queriam muito tocar no cabelo e pele da Flávia, que estava de biquíni! Alisaram ela, sentaram no colo, demos tchau e nos fomos. Adorei a cena! “Tá, pega na branca e vamos embora!”. Sensacional!

Para fechar a semana de curso, o Carlos Tavares, agroecólogo, amigo e anfitrião da semana, nos convidou para jantar em sua casa no sábado à noite. Excelente, falamos da vida, da agricultura biológica… tudo regado a ótima comida local, bebidas, música e danças! Uma festa!

Lagoa Azul
Sobre o domingo, vou apenas comentar que estive, pela terceira vez, na praia denominada lagoa azul. Linda, belo banho de mar para terminar a semana! 

E hoje, Lisboa… almocei um bacalhau espetacular com um vinho da região do Douro, no excelente restaurante Martinho da Arcada. Mas o melhor que me aconteceu foi o seguinte: desci na estação do Metrô no bairro Chiado e quando saí estava em frente ao “Café A Brasileira”. Local frequentado por Fernando Pessoa, no início do século XX. Mas o legal, o legal mesmo, é que lembrei que um dos meus contos que está no livro “Perspectivas” (Editora Hope), intitulado “O dia que não terminou” se passa em Lisboa, e tem um diálogo entre os três personagens do conto, Álvaro, Lídia e o próprio Pessoa que se passa nesse café. Fui obrigado a entrar… a mesa em que visualizei a conversa estava ocupada, sentei em uma próxima. Abri o conto e li… momento emocionante para mim… 

Frenado Pessoa, café "A Brasileira"

E foi isso, assim termino minha primeira viagem em tempos de Covid. Nada está igual, tudo está diferente. Infelizmente, não diferente o bastante para mudar o estilo de vida que nos levou à situação de crise climática e sanitária que estamos. Fazer o quê? Assim caminhamos nós, a humanidade.

Nenhuma viagem marcada, bem possível que o Caminhando e Contando dê uma parada de mais uns meses!



Água Pedras, pastel de nata e café...

vinho

bacalhau!


sexta-feira, 30 de julho de 2021

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 28, 29 e 30 de julho de 2021

 

Ministro da Agricultura de STP, recebendo o Vozes 2!

Três dias intensos na atividades do curso: quarta-feira, quinta e hoje, sexta. Ontem fomos à campo, em dois lugares. Um deles foi uma propriedade chamada “Terra Batata”, de propriedade de uma Igreja Nova Apostólica -  holandesa. Uma área onde esta Igreja aporta recursos, buscando que sua prática e resultados inspirem outras unidades produtivas a seguirem seu exemplo de agricultura biológica. Uma comunidade rural que fica a uma altitude considerável para a realidade da ilha, cerca de mil metros. 

Café. na Terra Batata.

Em tempos antigos, pertencentes a Roça Monte Café, uma das mais importantes fazendas de São Tomé na época colonial, especializada, como diz o nome, em café. E fomos visitar também a área da família do Sr Antônio. Olha que pujante a natureza e que bonitinho o espaço de comercialização da família. Ele é também produtor de hortaliças. Sobre a foto com cenouras e cebolas: fazer o quê? Se existe demanda tem quem plante, mesmo sendo cultivos pouco conectados com o ecossistema local. Mas… para isso também existe o conhecimento Agroecológico, fazer que esse cultivo exógeno seja o mais elegante possível. E, no que vi do manejo do Sr. Antônio, ele captou muito bem esse encaixe entre a agricultura inserida na exuberância do trópico úmido com espécies de hortaliças de origens distantes dessa realidade. 

Cebola, cenoura...

Durante o curso, as conversas, palestras e trabalhos em grupo giraram ao redor do objetivo, já comentando no post anterior, de São Tomé e Príncipe vir a ser um país com 100% de sua área agrícola reconhecida como orgânica (biológica, no termo mais usado por aqui). Eu vibro muito com a ideia de um país do continente africano, financeiramente pobre, vir a ser o primeiro a banir o uso de agrotóxicos, adubos químicos de alta solubilidade e organismos modificados geneticamente. Será um luxo, não é?

Pela tarde de hoje, sexta-feira, como atividade final do curso, foi organizada uma mesa redonda entre os alunos e alunas, representantes do poder público e do campo da produção e transformação. Eu, em mais de três décadas de trabalho na área, nunca havia participado de uma reunião nacional, com a presença do Ministro da Agricultura, com o objetivo de converter a agricultura do país, integralmente, à agricultura orgânica. Só para deixar registrado, nos dados de 2019, os últimos que temos, São Tomé e Príncipe aparece com 25% da sua área com cultivos orgânicos, o que o põe como terceiro lugar na lista dos países com maior percentual de área certificada como orgânica.

Mesa redonda - STP 100% Bio

No fim da mesa redonda, uma sessão de autógrafos dos meus Vozes da Agricultura Ecológica... se eu gosto? Gosto, muito, de ver essas vozes ecoando por aí...

E, confesso aqui o que confessei de público, na minha fala durante a mesa redonda, cheguei a ficar emocionado. Esse pequeno país é de fato cativante, pela sua instigante história, por seu povo bacana, sua natureza intensa, sua culinária tão saborosa quanto peculiar. Amanhã tem trabalho ainda de manhã, depois pegar meu teste de Covid, que fiz hoje e começar o trecho de volta, no domingo. Mas deve ter tempo ainda de bons papos e boas comidas!

Barbara, amiga de Ifoam, comprando na banca - em frente
à propriedade