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sábado, 24 de março de 2018

Peru, 18 a 24 de março de 2018

Foto obrigatória do Pacífico, à partir do Larcomar
Passei esta semana no Peru. Cheguei no domingo dia 18, dormi em Lima e na segunda, 19, fui para Piura, um Estado que fica ao norte, em direção ao Equador. Sua capital, de mesmo nome, é a quinta cidade em população do país, chegando a quinhentos mil habitantes. É a terceira vez que fui a Piura. Lá passei toda semana, regressando hoje a Lima, de onde saio amanhã cedo de regresso a casa. 
Aspecto do IV Foro
O que me trouxe ao país foi o IV Foro Latino-americano de Sistemas Participativos de Garantia. Aqui no blog contei sobre meus dias em La Paz, Bolivia, em novembro de 2011 e em Quito, em dezembro de 2015, respectivamente no II e III Foro. Também já tive a oportunidade de explicar que os SPGs são um método de conferir reconhecimento da qualidade da produção agropecuária sem uso de agrotóxicos ou organismos modificados geneticamente, usualmente denominadas de Ecológica ou Orgânica. 
Passei toda a semana trabalhando, com a responsabilidade de facilitação da reunião, o que me impediu de escrever diariamente como costumo fazer. Ou talvez esta seja só uma desculpa para a preguiça de escrever o blog. O fato é que pela primeira vez em sete anos não relatei o que andei fazendo em uma viagem internacional. Estará o blog em risco? Veremos nas próximas viagens. 
Praça / Igreja de Catacaos
Também é verdade que a semana em Piura transcorreu de maneira muito uniforme. Trabalho intenso, saindo do hotel apenas para dois passeios rápidos. No fim da tarde de terça feira alguns saímos para Catacaos, cidade vizinha a Piura e conhecido ponto de vendas de artesanato. Destaque para os trabalhos em ouro e prata e para as cerâmicas de Chulucanas. Estas cerâmicas são muito reconhecidas no país e no exterior. A maioria é produzida em uma pequena cidade chamada La Encantada, que tive a oportunidade de visitar há uns dez anos. São feitas com uma técnica especial, um desenho característico e uso de tintas naturais, segundo entendi principalmente a partir de folhas de manga, torradas para conferir a cor negra característica destas cerâmicas. Quem já passou pelo aeroporto de Lima seguramente teve a atenção despertada por estas peças, vendidas ali a peso de ouro. 
Artesões em Catacaos
A outra saída foi ainda mais rápida, ontem, sexta-feira, após o término do evento, apenas para passear no início da noite pela praça principal da cidade, ver sua Catedral e caminhar à toa para descansar. Piura não é uma cidade particularmente bonita. 
Voltando a Catacaos, eu a havia visitado em 2007. Desta vez a vi menos pujante na venda de artesanatos. Me explicaram que a cidade ainda está se recuperando de uma trágica inundação que a abateu em março do ano passado, atribuída ao fenômeno La Niña. Já disse várias vezes aqui no blog que não há lugar que eu viaje e não me depare com problemas que são, obviamente, fruto das mudanças climáticas que derivam do aquecimento global, ainda que alguns insistam em espalhar suas convenientes dúvidas. Convenientes para quem deseja seguir com o mesmo desenho de sociedade que nos trouxe a esta situação, baseado na produção e consumo sem limites.
Atum selado com majado de mandioca
Votando a falar de flores, Piura se notabiliza por sua culinária, especialmente peixes. Infelizmente a comida do hotel que fiquei, El Angolo, não correspondeu à fama da cidade, mas minhas três incursões por restaurantes foram compensadoras, com deliciosos tiraditos tricolor (ceviche servido com três diferentes molhos), côngrio rosa grelhado e atum selado com um majado de mandioca. Majado é uma refogado com temperos e mandioca ou banana verde, que são cozidos juntos e formam uma massa quase homogênea, muito típicos de Piura. Delicia!
Falo de comida porque o Peru tem no turismo gastronômico uma fonte de renda importante. E não à toa, sua culinária realmente é especialíssima. 
Galera bailando na Praça Kennedy
E hoje tive tempo apenas de passear um pouco por Lima. Caminhei por Miraflores, seu bairro mais charmoso e vi a terceira idade dançando na Praça Kennedy. /no Onpez comi um delicioso raviole recheado de ricota e espinafre com molho de camarão apimentado, ao ponto! Depois tomei chicha morada (refresco à base de milho roxo), café e Pisco Sour, um drink a base de pisco, limão, açúcar, clara de ovo e angustura. Pisco é um destilado obtido a partir da uva. Tomei este pisco sour no bar “Popular”, em um centro comercial chamado Larcomar, que fica junto ao Pacífico. Isto ao entardecer, com uma paisagem de fisionomia agradável e relaxante.
Larcomar, ao anoitecer
E esta foi minha semana. Irei fazer outro post com a Carta de Piura, elaborada pelos participantes do Foro e que resume os principais pontos de discussão destes dias. Na verdade foi uma excelente semana de trabalho, e as emoções ficaram todas concentradas por aí. De todos modos não é pouco. Nem sempre é possível conciliar trabalho e passeio. Desta vez não foi, na próxima será.

sábado, 14 de outubro de 2017

Huancayo e Lima, 13 e 14 de outubro de 2017

Foto tirada de dentro do ônibus. Viagem entre montanhas. 
Ontem foi o segundo e último dia do Encontro Nacional de Produtores Ecológicos. Sobre isto vou apenas mencionar que a Associação Nacional de Produtores Ecológicos do Peru achou por bem dar uma medalha a algumas pessoas que eles julgam vem contribuindo com o desenvolvimento da Agricultura Ecológica no país. Ganhei uma e curti. Segundo minhas anotações é a 18 vez que venho ao Peru, e todas elas a trabalho. Bom saber que as pessoas com quem trabalhei valorizam o feito!
Encontro terminado resolvi antecipar minha vinda para Lima e viajei a noite toda. São trezentos quilômetros, sete a oito horas de viagem. Subidas, descidas e curvas diminuem muito a velocidade média. Deveria chegar às seis da manhã e cheguei às doze. Não pude visitar as Feiras Ecológicas do sábado de manhã. Porque? Não sei se acidente ou um deslizamento de barreira. Coisa dos Deuses. As mais altas montanhas aqui são tratadas como Divindades. "Apu" é a denominação utilizada, tenho a impressão que vem do Quéchua, uma das duas principais etnias dos Andes, junto com os Aymaras. Elas cuidam do território que está sob sua guarda, sob seu olhar. Então, um destes Apu definiu por causar este inconveniente para quem estava na estrada esta noite. Deve ter tido suas razões. Estou falando assim porque eu era o único irritado dentro do ônibus, os outros só davam de ombros... deve ser porque não sou de montanha...
Estes dias quase não falei de comida. Vou postar fotos aqui do que comi durante esta semana. Para quem não se lembra, o tema alimentação no Peru é um caso à parte. Se fala muito de comida, se come muito, o peruano tem profundo orgulho da sua culinária. Dos países que eu conheço considero que México e Itália são algo parecido, mas considero que aqui o tema abarca outras dimensões. Vou dar um exemplo. A pessoa mais conhecida e popular do país é um cozinheiro. Gaston Acúrio. Seu restaurante Gaston y Astrid está sempre na lista dos melhores do mundo. Até onde eu sei, tem um aqui em Lima e outro em Madrid. 
que cena... sábado à tarde, rapaziada da terceira idade
dançando
salsa na praça central de Miraflores!
Os partidos políticos vivem tentando seduzi-lo para que ele concorra à presidência do país. Seria como uma eleição certa. Gaston se recusa e faz sua militância social através da APEGA, Associação Peruana de Gastronomia.  A gastronomia Peruana é reconhecida como uma das melhores do mundo, atrai ao país turistas e é a principal fonte de autoestima do povo peruano. Enfim, não vou me alongar mais sobre este importante aspecto da cultura deste país, aqui mesmo no blog já escrevi sobre isto. Como disse, vou colocar algumas fotos, até porque não é possível passar aqui e não mencionar este assunto!
De resto, passei a tarde caminhando pela agradável Lima.
Visual do Larcomar, Miraflôres.
Eu gosto muito daqui e lamentei ter tido só meio dia desta vez. Aproveitei para almoçar no Punto Azul, um dos meus preferidos e tomar um café no Larcomar, o centro comercial que fica quase incrustado na falésia que beira o Pacífico. Dois programas que sempre que posso, repito. 
Passeei sozinho toda a tarde até o início da noite. Caminhava com certo ar de certa nostalgia até tomar dois cafés, um americano e um expresso duplo. Pronto, fiquei com a poesia e despachei a nostalgia. Não posso me dar ao luxo de baixar o astral, amanhã começa nova jornada.

Emendar viagens sempre me conduz a este tipo de emoção. Termino uma lida e tenho a sensação que devo voltar para casa. Mas preciso manter a guarda alta, amanhã vou para Ibarra, serra equatoriana, me aguarda uma semana intensa de trabalho no Equador!


Pescado al Jerez, do restaurante Punto Azul.
Bom demais, molho branco com camarão,
lula, polvo e mexilão. 

Bebida muito comum no país, a Chicha Morada é da 
região andina do Peru, pré-hispânica, 
feita a base de milho roxo. 

Ceviche, peixes ou outros frutos do mar "cozidos" no limão,
com pimentas e outros pimenta. Sevido sempre com
milho, batata doce ou abóbora cozida, 

Chicharones, neste caso de peixe. No Brasil seriam
iscas de peixe à milanesa. 

Lomo Saltado. Muito comum aqui. Carne cozida com
tomate, cebola, servida com batatas fritas e arroz.
Por vezes a batata vem misturada na carne,
junto com a cebola e o tomate.

Sempre antes das refeições, eles colocam "cancha" sobre a
mesa. Milho torrado e salgado. Pimenta também
é muito comum aqui.

sábado, 19 de novembro de 2016

Lima e Ayacucho, 17 e 18 de novembro de 2016.

4.756 msnm, a caminho de Ayacucho
Ontem, quinta-feira, trabalhamos pela manhã e passeamos pelo interessante Centro Histórico de Lima na parte da tarde. Mas, digno de nota mesmo foi a viagem à noite para Ayacucho.
Plaza de Armas, centro histórico de Lima

Eu sempre me encanto com a possibilidade de viajar pelos Andes. Claro que de noite, menos interessante. Mas quando amanheceu estávamos pela parte mais alta, que hoje chegou a 4764 metros. É bastante. Senti um pouco o que aqui eles chamam de "sorocho" ou "mal de altura". Dor de cabeça e mal estar no estômago. Mas o mal estar foi facilmente compensado pelo visual. Geadas e morros nevados, a partir do ônibus aquecido, estava sensacional. A estrada é erma, alta, cheia de curvas e perigosa, margeando precipícios. 
Cena urbana, Ayacucho
Um mostrador digital nos mostrava a velocidade do ônibus. Nesta altitude quarenta, cinquenta quilômetros por hora, nunca que mais que sessenta.
Chegamos em Ayacucho às oito da manhã e foi tempo de passar no modesto hotel, para dizer o mínimo, e ir trabalhar.
Ayacucho é uma cidade relativamente grande dos Andes Peruano. Segundo o Wikipedia tem 250 mil habitantes e está localizada a 2800msnm. Viemos aqui, eu os amigos de diferentes países que estamos passando a semana no Peru, para o VIII Encontro Nacional de Sistemas Participativos de Garantia. Cerca de 250 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras. 
As super mulheres de Ayacucho e suas
batatas maravilhosas
Paralelo a este encontro uma feira com uma linda oferta de produtos ecológicos. Comprei quinoas - branca, vermelha e negra e cafés em grão e moído. Vi muita kiwicha, chia, batatas e milhos coloridos, cacau em grãos ou em tabletes, pães, mel e derivados, hortaliças e etc. Tomei um sorvete de leite, açúcar e amendoim, típico região, feito na hora, o muyuchi. Gostosinho.
oferendas à pachamama
Para a inauguração da Feira fizeram uma cerimônia da Pachamama, um ritual com oferendas à Mãe Terra e que é parte importante da mitologia dos povos andinos.
Antes do jantar fomos a um centro de artesanato. Não é sem razão que Ayacucho é considerado a Capital da Arte Popular e do Artesanato do Peru. Hoje descobri que muitos dos artesanatos que sempre vi em diferentes regiões do país são daqui. Amanhã tenho que comprar algo, não posso passar em branco!
Jantamos em um pequeno grupo, agricultores orgânicos peruanos e alguns estrangeiros. Fidel, mexicano, apareceu com sua garrafa de Tequila. Maurizio, de Cochabamba, trouxe um licor de folhas de coca, feito por ele. Rosita, a presidente da Associação Regional de Produtores Ecológicos de Ayacucho, ofereceu duas jarras de pisco sour, uma espécie de caipirinha comum no Peru e no Chile. Como dito no Rio Grande do Sul, feito o carreto. Passamos algumas horas entre conversas sérias e boas risadas.

Tres leches. 
Agora, onze da noite, resolvi dar uma volta pela praça e vi um café, o Via Via, que me convidou para uma sobremesa, na sua agradável varanda de frente para a Plaza de Armas, a praça principal da cidade. É meu terceiro três leches da semana. Não me queixo.

Está esfriando, vou para cama. Amanhã saímos às sete da manhã para visitar uma propriedade rural. Veremos o que nos espera. Se conseguir conto aqui que Ayacucho é o local de uma importante batalha que deu início aos processos de independência da América espanhola. Também nos anos de atuação do Sendero Luminoso esta cidade foi palco do medo e do terror vivido pela população civil.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lima, 16 de novembro de 2016.


Agricultoras peri urbanas de Vila Maria del Triunfo
O dia começou cedo, com uma visita a uma experiência de Agricultura Ecológica Urbana em Vila Maria do Triunfo, município vizinho à Lima. Um hectare manejado por 48 famílias, divididos em 4 grupos. Fomos muito bem recebidos pela Dona Gregória, que nos contou que elas começaram sugerindo ao poder público a agricultura urbana como forma de manejo dos parques que a prefeitura não tinha recursos para manter. A Sra. Gregória conta que foi de casa em casa convidando quem tinha algo plantado em sua casa, o que dava a ela uma pista que eles gostavam de agricultura. Adorei essa estratégia. E que garra para fazer o que julgou conveniente. 
Dona Gregória, sua linda!
Chamadas de loucas no início, agora muitos querem participar e ter acesso a um espaço para produção nesta área coletiva, pois além de melhorar a alimentação da família ainda sobra um excedente para vender em pequenos mercados. Durante anos, foi proibida a participação de homens, segundo ela pelo machismo existente. Agora, a situação mudou, e homens também participam.
São dez hortas na região, envolvendo diferentes municípios. Buscaram a ANPE, conseguiram ser sócias e integrantes do esquema de certificação participativa da associação, acessando por esta via alguns mercados.
Como já mencionei, a maioria é de mulheres, que vivem na periferia de Lima, em condições de pobreza econômica e escassez de serviços básicos. Vieram de diferentes regiões do Peru, e posso imaginar não encontraram na capital o que vieram buscar: o sonho de uma vida melhor, longe das condições extremas que muitas vezes imperam no contexto da agricultura campesina no interior do país, quase sempre não se concretiza. A maneira como as Senhoras nos receberam e pela emoção que expressaram ao nos descreverem seus trabalhos, deixou a impressão que estas hortas urbanas cumprem para elas o papel de ponte, entre um passado vivido e o futuro sonhado.
Horta na periferia.
Depois fomos em outro distrito, visitar a duas das doze sócias do grupo Ecosumac. Curioso nome, cosmopolita, junta o grego e o quechua e significa casa bonita. São também membros da ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos. Dona Justina, desde 2014, produz cuy e porcos e Alicia produz deliciosos sorvetes artesanais com frutas orgânicas, produzidas em parte no hectare que ela cultiva.
Bom voltar a ver a periferia de Lima. Como em quase todas nossas cidades latinas, passeios por seus bem cuidados bairros centrais não espelham a vida da maioria da população. 
Periferia de Lima, vista desta a horta ubana de
Vila Maria do Triun
Depois do trabalho, um breve passeio pelo Parque Kenedy, ponto central de Miraflores. Caminhamos, compramos algo de artesanato e paramos um pouco em um dos restaurantes da Calle de las pizzas, uma rua muito conhecida por aqui, no coração de Miraflores, cheia de restaurantes barulhentos e de qualidade duvidosa.
À noite fui jantar no restobar Posada del Angel, em Barranco. Uma linda casa, com todos seus ambientes tomados por mesas, cadeiras, poltronas ou sofás, não necessariamente bem cuidados. A decoração do ambiente que fiquei, tipo a sala da casa, obedece ao nome do lugar e é recheada de anjos, a maioria católicos, sob a supervisão dos arcanjos Uriel e Gabriel. Mas não faltam expressões de divindades hindus ou budistas. Estátua da Virgem Maria, telefones antigos, luminárias coloridas, quadros de Charles Chaplin ou pétalas de rosas sobre o carpete antigo também fazem parte da eclética e ecumênica decoração. Boa comida e música ao vivo completam o cenário. Gostei, voltaria lá.
Amanhã, reuniões e às oito da noite viagem de ônibus para Ayacucho.

Rede dos grupos de agricultura urbana

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Lima, 15 de novembro de 2016

Filho do Sr. Gilberto. Que mirada...
Passei o dia cantarolando Milton Nascimento. Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será...
Uma das hortas que visitamos.
Hoje fomos ao campo, não em uma boleia de caminhão, mas em uma pequena van, com amortecedores vencidos, banco sem molas e entrada permitida ao calor e ao pó. Com oito lugares, em alguns momentos éramos 13. Foi interessante. E divertido. Nem só de VIP lounges ou Uber Black vive o homem.
A primeira visita foi em Carapongo, cerca de uma hora e meia de Lima. Visitamos algumas das oito famílias da "Associação de Bioprodutores de Carapongo La Esperanza". Esta associação faz parte da APARL - Associação de Produtores Agroecológicos da Região de Lima.  Por sua vez a APARL integra a ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos do Peru.
O grupo La Esperanza e nós, os "estrangeiros".
O primeiro produtor que visitamos foi o Sr. Gilberto. Desde 2008 sua produção é orgânica e ele já foi certificado pelo método que se conhece como auditoria ou terceira parte. Agora integra o SPG liderado pela ANPE. SPG - Sistema Participativo de Garantia, é um método que permite que os próprios produtores, de forma organizada, atestem a qualidade da sua produção. O SPG, além de ser mais barato, propicia uma troca de olhares e experiências que significa um valor agregado em relação ao sistema de certificação por terceira parte.
Na visita nos explicaram como funcionam. Vou tentar contar em breves palavras. Para começar, aquele que deseja ser certificado deve integrar um grupo de no mínimo seis famílias. Este grupo elege um deles como avaliador interno. Todos devem velar pela qualidade ecológica da produção. 
"milho de polenta"
Este avaliador interno participa de algumas etapas de capacitação para apurar mais seus conhecimentos sobre a produção ecológica e sua percepção sobre a confiabilidade do trabalho desenvolvido por cada família e para preencher os inevitáveis papéis exigidos no mundo da certificação. Fazem dois tipos de visita. Uma anunciada e outra de surpresa. Esperanza, uma simpática produtora, é a avaliadora local. A avaliação feita por esta avaliadora irá ser analisada pelos grupos e eventuais problemas serão resolvidos neste âmbito. Esta avaliação, após discutida em grupo, irá para uma instância que se chama Conselho Regional do SPG, que irá definir se o produtor está ou não apto a ser considerado orgânico. Esta decisão o Conselho Regional, integrado por lideranças de produtores e consumidores, além de outros setores, como ONGs e Universidades, irá tomar a partir dos documentos recebidos e uma visita por amostragem em cerca de 20% dos produtores. Quando passa por todas estas etapas, a família recebe um atestado de produtor ecológico. Atestado e não certificado, pelo fato do SPG não estar reconhecido pela legislação peruana que trata da regulação e controle da produção ecológica. Esquema interessante – tem mais elementos, mas tentei ser breve na descrição. A outra possibilidade é contratar uma empresa de certificação. Paga, preenche uma série de formulários exigidos, é avaliado e se tudo está ok recebe seu certificado. 
Visual no campo, em Santa Eulália.
O grupo La Esperanza era certificado por uma empresa, e cada família pagava de mil a dois mil dólares por ano. Com o SPG não pagam nada, apenas precisam participar, ou seja, usar parte de seu tempo. Mal comparando, é como cortar grama do meu quintal, posso fazer ou posso pagar alguém para fazer para mim. 
Uma última coisa sobre isto: Com a perda de mercado por parte das empresas certificadoras, não é de se estranhar que elas fazem um constante trabalho de lobby junto ao governo nacional para manter os SPGs fora do marco legal. No Brasil se passou o mesmo, e, finalmente se conseguiu a incorporação dos SPGs na legislação que trata do tema. Com isto, as empresas perderam mercado e se viram compelidas a baixar seus preços.
Bom, este longo parágrafo acabou virando aulinha sobre certificação – vou deixar assim, já acho que muitos dos apreciadores dos produtos orgânicos não sabem o que está entre eles e aquele “selo” que os identifica nas prateleiras.
Cuy. Nosso almoço de hoje. 
Mas teve mais. A segunda parte da visita foi em Santa Eulália, um pouco mais longe, a um grupo de mulheres que produzem hortaliças e preás. Sim, preás, aqui chamados de cuys e muito comuns na alimentação na zona do altiplano. Hoje comemos cuy no almoço. Prefiro chamar cuy do que preá, me sinto menos ogro.
Fim do dia, cansados, foi tempo de comer outra vez no corretíssimo Punto Azul e vir para o hotel assistir ao Brasil ganhar do Peru pelas eliminatórias. O tema ontem e hoje aqui foi este jogo, e naturalmente todos queriam puxar este assunto comigo. Minha resposta é que eu havia pedido aos meus amigos da seleção para ganhar só de 1 x 0.  Errei, mas 2 x 0 não chega a ser agressivo, acho que sobrevivo. Deu por hoje, amanhã vamos ao campo outra vez.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lima, 13 e 14 de novembro de 2016.

Barranco, flores e entardecer.
Outra vez em Lima, a cidade que mais visitei fora do meu país. É possível que eu tenha vindo mais à Lima do que à São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba. Que curiosa é a vida né? Nunca imaginei algo assim, nunca foi uma cidade ou país que povoasse meus sonhos, naqueles tempos que eu fazia lista de lugares a visitar. Mas assim foi, assim está sendo. 
Feira Ecológica de Surquillo.
Hoje gosto muito de Lima, em particular de Miraflores, o bairro (municipalidade por aqui) tão decantado pelo peruano Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura e um dos melhores contadores de história da literatura latina. Para quem não leu, não deixe de ler “A cidade e os cachorros”, história ambientada na Miraflores dos anos 60.
Cheguei ontem de manhã e fui direto à Feira Ecológica de Surquillo, que fica ao lado do mercado público com o mesmo nome. O Peru tem uma tradição na produção ecológica, boa parte centrada em produtos para exportação. Café, cacau, grãos andinos, como quinoa, chia, amarantus, são alguns exemplos. 
Boas vindas ao Peru: Chicha morada e
milho salgado de tira gosto.
Ao longo dos anos algumas empresas, locais ou estrangeiras, foram se posicionando no mercado nacional com estes grãos e seus derivados, com bons chocolates feitos no Peru e cafés gourmet. Quero dizer, o país foi aprendendo a processar a matéria prima que exporta. Na feira vi muitos destes produtos, além claro de frutas e hortaliças, ovos, lácteos, mel, etc. Bela feira, movimentada, viva. Poderia ter ficado horas ali, mas estava com fome e optei por ir almoçar no restaurante Punto Azul. Excelente opção, como boas vindas gastronômica,
Sigo com a impressão que Lima está cada vez mais organizada, bonita. Impressão reforçada pelo passeio que fiz ontem e hoje, que recomendo sem medo de errar. Andar, ao cair da tarde, de Miraflores para Barranco, os dois bairros mais charmosos de Lima. Um passeio de uns três quilômetros, à margem do Pacífico, sobre a falésia, em uma calçada adequada e em boa parte ladeada por jardins bem cuidados. Um luxo! 
Pequena amostra da arte de Mário Testino.
E em Barranco admirar seu casario, tomar um café, um sorvete ou um pisco, passar pela Ponte Suspiro e visitar o Museu Mate, se surpreendendo com a arte fotográfica de Mario Testino, o badalado e talentoso fotógrafo peruano. 
Hoje de manhã minha única atividade digna de nota foi caminhar até o Manolo, na Av. Larco, atrás de um churros com chocolate. A tarde foi de trabalho. Uma reunião na sede da ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos, para organizarmos a semana e nos atualizarmos sobre o momento da Agricultura Ecológica no Peru. Estávamos um grupo. Fidel, do México, Evelyn, do Rio de Janeiro, Maurizio, de Cochabamba, Andréa, do Chile, Moisés e Felimon, nossos anfitriões, e eu. Foi interessante e se confirmou que teremos aqui uma semana intensa de atividades ao redor da Agricultura Ecológica e dos Sistemas Participativos de Garantia. 
Reunião à tarde na ANPE. 
Será como eu gosto e planejei, com idas à campo, encontros de agricultores/as e viagem à regiões mais altas, andinas, neste caso Ayacucho, a 2800 metros sobre o nível do mar. Com direito a comer bem, rever amigos e, talvez o melhor de tudo, conversas agradáveis sobre culturas e realidades do continente. O que for possível contar, conto por aqui. Agora, vou dormir que amanhã o dia é de visita à fincas de produção ecológica. 


Por do sol no pacífico.
Mais uma palhinha de Mário Testino.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lima, 02, 03 y 04 de novembro de 2015.



Pacífico, visto de Miraflôres
Pouco o que contar destes dias. È que me concentrei entre o trabalho que tive aqui e mais trabalhos de computador.

Papas a la Huancaína
Minha relação com Lima é antiga. Esta é a 16° que venho aqui. Desde 1997. Assim que sou testemunha de como ela tem melhorada. A primeira vez que tive aqui me disseram que ela tinha o apelido de Lima a feia. Definitivamente não cabe mais este adjetivo. Bairros como Miraflores e Barranco, os meus preferidos estão entre os lugares mais interessantes do continente. Bonitos, vizinhos do pacífico, bem cuidados, lindo casario, cafés charmosos, belos bares. Clima agradável, ainda que se possa ficar dias aqui sem ver o Sol. Adoro caminhar por estes bairros.

Não falei dos restaurantes porque este é um tema a parte. Não é a toa que a cozinha peruana está tão na moda. Realmente eles são bons nisto. Motivo de orgulho nacional, principal tema das conversas por aqui, com óbvias e expressivas diferenças regionais, a capacidade deles em manter tradição por um lado e experimentar coisas novas por outro é inspiradora.

strogonoff de alpaca
Andei comendo, entre Cusco e Lima, trucha a la plancha com papas locais, papas a la huancaína, carne de Alpaca, pizza vegana, ceviche, tiraditos, , ceviche de manga (delicioso), tres leches, e mais, muito mais.
E ainda a chance de dar as caminhadas que adoro por Miraflores, rever velhos e bons amigos e amigas, tomar uma cerveja artesanal em Barranco, comer churros com chocolate no Manolo. É, acho que nem trabalhei tanto.

Em termos de trabalho dei duas palestras sobre políticas públicas no Brasil de apoio à agroecologia. Uma em Conveagro, instância organizativa que congrega representante de sindicatos e associações ligados à agricultura familiar e outra na Universidade Agrária de La Molina.

Cartaz do evento na universidade
La Molina
Foi tudo bem. Existe um dilema interessante aqui. Não posso vender a idéia de um país / governo agroecológico. Brasil é o maior consumidor mundial de agrotóxicos. O governo subsidia de forma enfática a agricultura convencional. Mas o pouco apoio que a agricultura orgânica tem no Brasil, a existência de um Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, ainda que muito aquém do que consideramos mínimo, já é mais do que existe nos outros países do continente. E se aqui digo que é muito pouco o que temos, para eles soa como chorando de barriga cheia. Perspectivas...

E acho que é isto. Daqui a pouco vou para Huánuco, mais ao centro do país, cidade também andina. Pego o ônibus na garagem da empresa, já que por aqui não existe rodoviária, cada empresa recebe as pessoas em suas garagens. Ônibus bons, da Marcopolo. Vou passar por Tiglio, que está a quase 5 mil metros de altitude, espero não passar mal como aconteceu a primeira vez que fui a Huánuco. Vou nessa, me esperam 420 km, dez horas de ônibus... sacaram? Subir e descer, serra com curvas fechadas, a media de velocidade é assim, meio baixa!


Carta do evento de terça-feira

as vendedoras de frutas