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sábado, 1 de março de 2025

Quito, Equador, 26 de fevereiro a 01 de março de 2025.

 

Com amigos!. Detalhe do nome do Paraninfo da Faculdade!

Outra vez no Equador. É minha décima vez aqui. Não me queixo, gosto muito deste país e de sua gente. Tanto gosto que aceitei um convite que já não faço mais questão de aceitar: dar uma palestra de 20 minutos. Acho pouco proveitoso viajar tanto para tão pouco trabalho. Mas, repito, o fato de ser no Equador e o tema, Encontro Nacional de Agroecologia e Sistemas Participativos de Garantia, quase me obrigaram a vir.  Saí de casa na madrugada de terça-feira, dia 25. Acabei chegando aqui apenas no dia 26. O voo de Brasília para Lima atrasou, tive que passar a noite em um hotel, o bonito Sheraton no centro da cidade, definido pela própria companhia aérea.

Jantar no Campina Lojana

Como disse, cheguei em Quito na quarta, 26, e, após um descanso e uma caminhada, saí para jantar com organizadores do evento. Um restaurante de comida de Loja, cidade ao sul do país, o Campina Lojana, muito agradável e com boa culinária. Jantei com a equipe de COSPE, uma ONG Italiana, que tem atuação em alguns países da África e América Latina, Brasil inclusive. Eles que me convidaram para estar aqui.

Quinta e sexta rolou o evento, que reputo como muito interessante. Fiz minha palestra, a primeira, e depois pude ouvir um desfilar de pessoas contando sobre o trabalho que desenvolvem com agroecologia e SPGs.

Já comentei aqui no blog, mas vou repetir: SPGs são os Sistemas Participativos de Garantia, o tema que mais me projetou no mundo da agricultura orgânica e agroecologia. Um método de certificação que se baseia na capacidade das próprias famílias agricultoras gerarem a credibilidade de sua produção. Se visitam mutuamente, avaliam uns aos outros, geram documentos e evidências, dão conhecimento ao público e/ou ao governo (depende do caso) e pronto, produtos certificados. 

Durante o denbate no evento!

Eu estava na gênese da elaboração deste método, lá pelos idos de 1992, então sob a denominação de “certificação participativa”.  Era uma perspectiva diferente do métodos de auditoria, definido pela norma ISO 65. Queríamos, e acho que conseguimos, criar um método que dialogasse mais com a agricultura financeiramente empobrecida do nosso continente, sem a necessidade de contratar dispendiosas empresas de certificação. De 1992 para cá, ajudei a formular e difundir o sistema, acho que posso dizer, de forma incansável. Viajei quase 40 países falando sobre isso, em alguns fui muitas e muitas vezes, dentre eles justamente o Equador. Podem imaginar como me sinto vendo um encontro nacional que discute o método, sua aplicação, limites e potencialidades, com mais de 200 pessoas e muitas experiências sendo apresentadas? Se conseguem imaginar me contem, porque eu mesmo não sei definir os sentimentos que me invadem. Mas acho que sinto algo semelhante com o que a rapaziada expressa quando fala “zerei a vida”. 

Dando minha palestra!

Fora do trabalho, pude passear um pouquinho. O hotel que fiquei, ZenHotel, é próximo à Plaza Foch, uma espécie de centro nervoso da noite em Quito. Caminhei até ela, na quarta-feira à tarde, apenas para relembrar momentos que vivi por aqui. Parei na cafeteria Juan Valdez, uma espécie de Starbucks Colombiano, não porque o café seja tão bom, não é, mas para reativar memórias. Tomei um café gelado, destes que parece um milkshake, lendo “A insustentável leveza do ser”. 

Hoje de manhã ainda tive tempo de ir a “Capilla del Hombre” y a “Casa-museu Guayasamin”. Programaço! É a terceira vez que venho e, se voltar a Quito, venho de novo. Vou colocar algumas fotos abaixo. Eu realmente adoro sua obra, um pintor que retrata a América Latina, seus povos e suas dores com um traço único e que sempre me tocou. Ele se junta a tantos outros artistas de sua época que militavam por um continente mais justo, livre e independente. 

Era também da escola dos muralistas latino-americanos. O evento que participei foi na Faculdade de Jurisprudência da Universidade Central do Equador, e lá está um lindo mural feito por ele! 

Se você vier a Quito, visitar Guayasamin é obrigatório!

Estou terminado de escrever esse post hoje, sábado, final da tarde, enquanto espero meu voo, na sala VIP (voar muito tem suas vantagens) da Latam, no aeroporto Mariscal Sucre. É isso aí. Agora voo para Lima, depois Guarulhos, logo Porto Alegre e, ainda, um carro para Torres!

Cabeza de Napalm - referencia às
vitimas do vitnam

El Mestizaje - neste quadro, faz menção a
sermos um continente de muitas raças.
Diz ele que retrata nesta obra uma menina
que está acordando depois de
quinhentos anos - a América Latina.

Rostos! 

Voisual de fora da Capilla del Hombre



Lágrimas de Sangre - lindíssimo!


quarta-feira, 20 de setembro de 2023

Gualaquiza e Zumbi, Equador, 17, 18 e 19 de setembro de 2023

Visita a um centro cultural da nação Shuar

Domingo, saímos às cinco da manhã de Cuenca em direção à Gualaquiza. Viajamos de 2500 de altitude para 800, mas antes pasamos dos 3500. A estrada costeia as altas montanhas dos andes e, em alguns pontos, o que temos é a enorme parede de um lado e o precipício de outro. 

3500msnm, entre Cuenca e Gualaquiza
Como recheio, curvas fechadas e estradas nem sempre asfaltadas. Se com emoção fosse mais caro, esse bilhete não seria barato… 

Chegamos em Gualaquiza e fomos direto a uma feira agroecológica, inaugurada neste dia exatamente pela presença dos estrangeiros. Vamos lembrar que somos uma delegação de 12 pessoas do Brasil e outras 19 do Peru, visitando experiências equatorianas com agricultura ecológica. Passamos o dia na feira. A noite, depois da janta, a sobremesa foi uma boa conversa entre os participantes, sobre o sentido que veem nesses intercâmbios e os impactos em seus territórios e no continente.

Feira Agroecológica de Gualaquiza

Ontem, a programação foi intensa. Pela manhã, três momentos. Uma visita à uma área da APROCAG (Associação dos produtores agroecológicos de Gualaquiza), para que os visitantes estrangeiros pudessem dar sugestões sobre possíveis caminhos do que fazer em um espaço recentemente conquistado. Depois, fomos na prefeitura de Gualaquiza, para um momento mais formal com o prefeito, secretários e vereadores. Ainda de manhã, tivemos tempo de visitar “La Vieja Molienda”, um bonito trabalho com produção de cana e derivados, como açúcar mascavo, cachaça, melado e outros.

De tarde, uma visita super interessante: fomos a um Centro da Cultura Shuar. Os Shuares são uma das tantas etnias do Equador. Aqui, eles utilizam mais o termo “nação”. Neste caso, Nação Shuar. Por isso, a constituição equatoriana afirma que o país é um Estado Plurinacional. Acho que são 14 nações (etnias), que formam o estado equatoriano. Na Bolívia ocorre algo parecido, e essa foi uma conquista recente dos povos indígenas, as constituições destes países foram reformuladas nos anos 2000. 

Habitação Shuar
Como sempre ocorre em uma visita como essa, um pequeno mergulho em comunidades autóctones nos traz um mundo de vivências, percepções e reflexões. Bonito ouvi-los explicando sobre suas moradas, tendas redondas feitas em madeira e folhas locais. Ao centro, uma viga de madeira que significa a união da mãe terra ao céu. Por sinal, simbologia presente em inúmeras culturas. A forma circular da tenda nos faz lembrar o planeta, como estamos integrados a ele e como devemos cuida-lo. Outra coisa interessante que ouvi do Ismael, o guia local, quando nos mostrou alguns instrumentos da sua cultura foi sobre um tambor, feito do caule de determinada árvore. Deste tambor se emite diferentes sons que, por sua vez, tem diferentes significados. Chama as pessoas para uma cerimônia, comunica um nascimento ou falecimento ou dá qualquer outro tipo de notícia. Mas… hoje… menos se usa essas formas de comunicação porque os instrumentos contemporâneos, WhatsApp incluído, faz a tarefa de se comunicar cada vez mais fácil. Eu sei que não há novidades aí, na real sempre foi assim, esse tipo de evolução é parte da nossa história. O que acho bacana é ver realidades onde os tempos históricos de certa forma se comprimiram e se mesclaram, reduzindo a décadas processos que em outros contextos foram centenários. 
fomos recebidos com pintura

Bom, tem muito o que contar dessa visita, vou mencionar mais três coisas: lindo ouvir sobre seus cantos de permissão à natureza, cada um para um momento específico, como caça, pesca, plantio, celebrações. Eles também fazem, a seu modo, a cerimônia da Ayhuasca (Natem, para eles e em várias línguas amazônicas), e expressaram sua preocupação com a forte tendência a comercialização destas cerimônias. Pelo lado menos bonito, sofrem a ameaça recente da intensa mineração muito próxima aos seus territórios, que polui seus rios e provoca impactos em seus modos de vida. Muito legal a oportunidade de ter contato com algo da Nação Shuar.

Hoje, terça-feira, saímos de Gualaquiza e viemos para Zumbi. Aqui visitamos uma Associação de Produtores de Cacau e Derivados, a ASOPROMAS. Sempre bonito ver cacau à campo, ouvir sobre seu manejo, depois pós colheita e processamento, provar seus derivados e ainda comprar algumas delícias com cacau agroecológico produzido por associações locais.

Entregando meu livro à família Paz
Visitamos também uma bela finca super diversificada, com cacau e vários outros cultivos da região, onde almoçamos, da Nancy Paz e seus pais, José e Livia. Depois, mais duas horas de viagem por estradas sinuosas que margeiam um andes tropical, muito bonito de ver, até Loja (se pronuncia lôrra), famosa por seu café, e onde passaremos os próximos dois dias. Depois conto sobre esta bonita cidade do sul do Equador.






Visual de uma banca do mercado de Gualaquiza

Com Sandra e outro amigo Peruano, na feira!

Visita À nacçao Shuar

Jardineira que nos levou ao Centro Cultural Shuar

Prosa com o povo do cacau

Cacau!


sábado, 16 de setembro de 2023

Cuenca, 15 e 16 de setembro de 2023

Cuenca, vista desde o Mirador Turi
Chegamos em Cuenca, que tem o muy simpático nome oficial “Santana de los Cuatro Rios de Cuenca”. Ainda na quinta-feira à noite, depois de 28 horas e 5 trechos de viagem. Estamos aqui para um intercâmbio que reúne pessoas do Brasil, Peru e Equador. Os três países serão visitados, trocando ideias e experiências relativas a comercialização de produtos agroecológicos, sistemas participativos de garantia e sistemas agroflorestais. Parece legal, não parece? E é mesmo, muito legal! 

Chica morada, refresco de 
milhi roxo. Um luxo - La Chicheria
Aqui no Equador estamos 12 pessoas que vieram do Brasil e 19 do Peru. Cuenca é parte das visitas que serão feitas durante uma semana. A sexta-feira foi mais de aclimatação, com um pouco de descanso e caminhadas pelo centro histórico. Para mim, foi legal rever uma cidade na qual já estive algumas vezes, sempre à trabalho. E pude ver que Cuenca continua linda, com sua arquitetura colonial, flores colorindo a cidade desde os charmosos balcões das casas e uma atmosfera cultural que se respira pelas ruas. Mas o ponto alto do dia foi o almoço e o jantar no restaurante “La Chicheria”, gastronomia de alta qualidade com uma pegada política super contemporânea. Pensa se eu gosto… de noite, ainda sobrou tempo para um drink na famosa “calle larga”, ponto boêmio da cidade. Vou mencionar ainda nossa visita na ponte “vivas nos queremos”. Forte. Símbolo da luta feminista na cidade, a ponte foi “tomada” pelas mulheres e hoje nela estão pintadas os nomes daquelas que foram vítimas de feminicídio no município.

Cerimônia Cañari - Feira Agroecológica do Cristo Rey

Hoje, sábado, já demos início à intensa programação de visitas durante toda a semana. Começamos pela feira agroecológica de Cristo Rey, onde conhecemos algo do que fazem as famílias campesinas (agricultoras) e participamos de uma cerimônia conduzida por um maestro da cultura Cañari. Uma das tantas culturas da região andina, com uma interessante história de luta entre dois povos fortes que os tentavam conquistar: Os Incas, desde o sul, e os Quíchuas, desde o norte. Pela época do ano, a cerimônia de hoje se chama “Festa da Lua”. Mas se fosse mais ao Sul, em Cuzco, se chamaria “Festa da Princesa”. Essas diferentes denominações podem guardar relação com o fato dos Cañaris reverenciarem mais a Lua, enquanto os Incas, como sabemos , tem o Sol como seu Deus máximo. Voltando ao sentido do ritual de hoje, é um momento de reverenciar os quatro elementos da natureza e seus espíritos, cerimônias que ocorrem de uma ou outra forma em todos os povos, cada um à sua maneira. 
Ana e campesinas na feira

Ainda pela manhã visitamos outra feira agroecológica (El Vergel). Mais troca de informações, mais comida, algumas apresentações com danças típicas e festa na praça.De tarde fomos ao Mirador Turi, um local alto, com muitas lojinhas, cafés e restaurantes, onde podemos ter uma visão de toda a cidade. Aliás, longe de ser pequena, Cuenca tem cerca de 300.000 habitantes.


E terminamos o dia no Parque de la Madre, visitando uma pequena feira de artesanatos e comidinhas antes de jantar outra vez no “La Chicheria”.

Essa foi a passada por Cuenca. E aí? Conhece Cuenca? Gostou de saber algo da cidade?
Amanhã saímos, todo o grupo, de ônibus, em direção à região amazônica do Equador. Passamos dois dias em Gualaquiza. De lá, conto mais!

Ana, minha amiga Bélgica e eu!

Anelise, Daniela e Ana na 
ponte "Vivas nos Queremos"

Ponte "Vivas nos Queremos"

Prato luxuoso na La Chichería

Visual da praça principal de Cuenca


domingo, 16 de dezembro de 2018

Riobamba, 14, 15 e 16 de dezembro de 2018

Neve no Equador - cinco mil metros de altura, no Chimborazo

Saí hoje de Riobamba, capital da província de Chimborazo, na região da serra central do Equador. Foram quatro dias de trabalho e um belo sábado de passeio. Ontem, fazendo jus ao lugar que estou, fui ao Chimborazo, a montanha mais alta do mundo, se medida a partir do centro da terra. Ontem cheguei a 5.100 dos seus 6247 metros sobre o nível do mar. O que posso dizer, com licença ao trocadilho quase infame, é que é de tirar o fôlego.

Chimborazo visto da entrada do Parque.
Fui levado por um casal amigo que vive aqui, Vicente e Priscila. Excelentes guias. Já no caminho a paisagem é deslumbrante, pois saímos de Riobamba, a 2800 de altitude e chegamos, de carro, ao parque que abriga o Vulcão, a 4800 metros. No caminho, montanhas altas que são alcançadas, ultrapassadas e se fazem encostas de vales profundos, muitas delas cultivadas por favas, batatas, ervilhas, alfafas para os cuys, as preás tão apreciadas da culinária andina. Pastos e vacas também compõe a paisagem, o que é uma certa lástima, o ecossistema é muito frágil para abrigar animais deste porte. Falando em animais, destaques para as Vicunhas pastando nos montes, estas primas da lhamas, guanacos e alpacas, camelídeos que habitam o mais alto dos andes.
Visual da estrada 
Quando saímos do carro, a esta altura que me referi de 4.800 msnm, já sentimos a diferença da temperatura e, principalmente, o ar rarefeito. A subida até o segundo refúgio leva cerca de 45 minutos, para caminhar 800 metros. Isto mesmo. É íngreme, mas não tanto, um trecho que, se não fosse o ar carente de oxigênio, seria cumprido em cinco, seis minutos, que passariam desapercebidos. Mas, nesta altura... meus guias pacientemente faziam passo com meus passos, breves e lentos. E entremeados de sucessivas paradas para procurar o ar. No segundo refúgio paramos no pequeno bar que dá guarida aos que se atrevem e tomamos chocolate quente, uma receita com cacau, açúcar mascavo e água, trazida de casa pelo Vicente e pela Priscila. Bebida perfeita para dar energia mas não pesar o estômago. Balinhas de cana de açúcar também ajudam a manter a glicose e evitar dores de cabeça ou enjoos de estômago.
Lago a 5100 msnm. O gato aí sou eu.
Pois do segundo refúgio ainda havia mais cem metros a percorrer, em um caminho cercado de neve, até chegar a uma lagoa que muitas vezes se congela nesta época do ano, mas não tive esta sorte de vê-la congelada. Foram mais 15 minutos. Sim, quinze minutos para cem metros. Dali para frente se trata mesmo de esporte para profissionais, que se aventuram a chegar ao cume. No caminho, passamos por um cemitério, onde placas de mármore homenageiam a memória de muitos que deixaram a vida na tentativa de chegar ao topo. Como disse meu guia e amigo, os alpinistas experientes gostam de dizer que o topo mesmo é chegar são e salvo, de volta, em casa.
Eu havia visitado o Chimborazo, mas só até o primeiro refúgio. A experiência de ontem foi inesquecível. 
Reunião em Guamote
Na sexta, ainda dia de trabalho, fomos, na parte da manhã, participar de duas reuniões em Guamote, cidadezinha de dois mil habitantes, há uns 50 quilômetros de Riobamba, famosa por ser habitada quase que exclusivamente por indígenas e por sua feira que ocorre sempre nas quintas e que todos dizem valer muito a pena visitar. Esta perdi, mas pude ver a charmosa localidade, cortada por uma linha férrea, e ir a uma comunidade indígena, há 3600 metros de altura, onde nos esperavam com uma grande mobilização para fazerem suas reivindicações ao representante do Ministério da Agricultura do Estado de Chimborazo, meu amigo Roberto Goirtare, quem me convidou para estar aqui durante estes dias. Sexta de tarde tivemos mais um momento de capacitação em agroecologia para a equipe de oitenta técnicos do Ministério.
Casa tradicional, ao lado da casa nova. Guamote

O interesse que vi na agroecologia por aqui reforça minha percepção que vivemos um momento de crescimento exponencial desta forma de ver e fazer agricultura. Minha tese é que o principal impulso a este crescimento da agroecologia é a crescente vinculação que os consumidores tem feito entre alimentação e saúde.
E assim terminam meus dias em Riobamba e minhas viagens internacionais este ano. Foram sete, sendo apenas uma a um país que eu não conhecia. Tá de bom tamanho, ainda dou minha volta ao mundo.

Reunião em Guamote

Reunião em Guamote


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Riobamba, Equador, 11, 12 e 13 de dezembro de 2018.

Cerimônia Quechua, de louvor à Pachamama (mãe terra),
no início do evento.

Estou em Riobamba, capital da província de Chimborazo, na região da serra central do Equador. Vim para uma semana de trabalho, no marco da V Jornada de Agroecologia. Uma semana de palestras e cursos sobre este assunto que move minha vida há mais de trinta anos. Sempre um prazer.
Ruas e casas de Riobamba
Riobamba é uma cidade que merece o adjetivo de simpática. Um centro comercial muito agradável, onde podemos passar entre restaurantes, cafés, sorveterias, praças e pequenos comércios. Está a quase três mil metros de altura, o que já nos provoca alterações fisiológicas, como cansaço, algum mal estar e dor de cabeça. Compensados totalmente pela bela paisagem dos páramos andinos que circundam a cidade. E, como guardião da paisagem, e dos seres que a habitam, o Chimborazo, um vulcão inativo, que no alto dos seus mais de seis mil metros de altura domina, com absoluta elegância, o ambiente. Visitei-o uma vez e me prometeram um reencontro para sábado próximo, meu dia livre por aqui. Espero que se confirme. Prometo fotos.
Casa colonial
Cheguei na segunda dia 10, tarde da noite, e passei terça, quarta e quinta fechado em salas e auditórios. O pouco tempo que tive aproveitei para ver um pouco das suas praças, são muitas, e entre uma e outra caminhar por ruas com sua vistosa arquitetura colonial, que consiste em casas construídas pelos colonizadores espanhóis, que por sua vez remontam aos árabes, senhores de boa parte da atual Espanha por quase cinco séculos. Entrei em duas destas casas, uma abriga hoje um museu, outra um restaurante. Portas em arco, pé direito alto, dois andares, um lindo pátio interno normalmente florido e cercado por refrescante varanda. Afinal, faz calor lá pelos lados das arábias... No lado externo, varandas, no segundo andar, ornadas de vasos floridos.
 Mas, como eu dizia, nestes três dias trabalhei muito e conheci pouco. Aqui no Equador, como em todas partes, se nota um interesse crescente pela agroecologia, ou Agricultura Ecológica. Vou contar aqui três coisas que falei nas minhas palestras. Para os agricultores contei que Agricultura Ecológica é um ato de amor. 
Auditório principal da Universidade de
Chimborazo, local do evento terça e quarta.
Expliquei que muitas vezes não usamos esta palavra, mas tratar o solo com carinho e respeito, fornecendo a ele, e consequentemente às plantas, sua alimentação preferida, a matéria orgânica, é um ato de amor. Contei que muitos dos ditos cientistas têm chegado à conclusão que a vida no planeta se impôs através de atos amorosos, como a simbiose, onde dois seres vivos se juntam para se beneficiarem mutuamente, e não pela competição. Adoro falar isto, explico com calma, e curto muito a receptividade desta prosa com eles.
No segundo dia, mais para os técnicos, falei da fotossíntese como o elemento mais importante para uma boa prática na agricultura. Fotossíntese é um fenômeno, capitaneado, de produção de massa verde, flores e frutos a partir da energia do sol e de elementos inorgânicos da água e do ar. A vida no planeta só existe por causa deste milagre da natureza. Em tom de semi-piada, chamei a fotossíntese de milagre original, lhes disse que a fotossíntese pode ser vista como a mãe de todos os milagres!
Evento com estudantes, na faculdade de
agronomia
Para os estudantes, com quem trabalhei hoje, contei, entre outras coisas, sobre a compra, ano passado, da Whole Foods pela Amazon. Expliquei que a Amazon é uma das gigantes de informação do mundo. Que, assim como o Facebook e o Google,  sabe sobre nós o que nós mesmos não sabemos. E que a Whole Foods é a maior cadeia de supermercados de produtos orgânicos do mundo, com presença forte na América do Norte. Perguntei porque uma empresa que é uma gigante da informação, que sabe tudo sobre nossos gostos e interesses, faz sua maior inserção no mundo físico, 13,7 bilhão de dólares, para comprar uma cadeia de comidas orgânicas. Será que ela sabe que os millennials querem se alimentar de uma maneira diferente do que os seus pais?
Enfim, como não tenho muito do que falar de Riobamba, porque ainda a vi pouco, deixo por hoje apenas estas reflexões que compartilhei nestes dias de trabalho. Quem me acompanha sabe que curto muito fazer o que faço, estes dias aqui não tem sido diferente. Agora, em um momento relax, acabo de escrever este post em um bom café, o Café Express, na esquina da praça da estação. Sábado, se me inspiro, escrevo sobre minha ida ao interior da província e ao Chimborazo!

domingo, 22 de outubro de 2017

Peru e Equador, Agricultura Ecológica e Macacos, outubro de 2017

Etnia Nomatsiguenga, com suas Kushmas com variações
de cor laranja. Foto em Pangoa, Peru.
Aqui em uma cafeteria em Quito, na concorrida e boêmia Praça Foch, pensando nas minhas últimas duas semanas de trabalho entre o Peru e o Equador. Foram oito diferentes cidades. Médias, pequenas, capitais. Além das milhas voadas foram dois mil km rodados entre ecossistemas de Serra Andina e Amazônia, tanto em um quanto em outro país. Todas as minhas atividades giraram em torno da produção e consumo de produtos ecológicos. Em muitos momentos em contato com a população Campesina ou Indígena. Indescritível. Repasso o filme na minha cabeça e me emociono. Mais uma oportunidade de ouro que meu trabalho me deu. Sou grato por isto.
Com as meninas que constroem a
Agroecologia no Peru. Foto em Huancayo.
Desde que saí da Universidade, em julho de 1987, só trabalhei com este assunto. Cerca de trinta anos. O crescimento neste período foi significativo. Vejo isto no meu cotidiano, nos comentários da imprensa, nas redes sociais, nas feiras que frequento, nos convites que recebo para falar do tema, que surgem de diferentes lugares, pessoas e setores. Os dados também demonstram este crescimento. O mercado era inexistente. O primeiro número que lembro surgiu em 1994 e falava de um mercado mundial de quatro bilhões de dólares. Hoje está na casa dos noventa bilhões.
Peru agroecológico e biodiverso!
Uma viagem como esta que acabo de fazer reforça o que digo há anos: não existe um rincão do continente latino-americano onde não esteja sendo desenvolvido um trabalho com Agricultura Ecológica. Pessoas valorosas se esforçando por nadar contra a corrente. Qual a corrente? A imposta pela manipulação das grandes empresas. Um exemplo: neste ano a Bayer comprou a Monsanto por 66 bilhões de dólares. Este gigantesco poder financeiro manipula tudo para aumentar suas vendas. Gera o que chamam de informação científica, dita tendências e convida o incauto a ser moderno, consumindo seus produtos.
Mas, como eu dizia, hoje são milhares de pessoas e organizações se esforçando para desenhar outra forma de produzir e consumir, em bases eco-sociais. Nos últimos quinze dias tive mais uma prova disto.
Povo que constrói a Agroecologia em
Cuenca, Equador
Quando comecei a trabalhar com este assunto guardava uma convicção: à medida que um agricultor começasse a trabalhar pelo viés da agricultura ecológica em um determinado local, o vizinho veria, e outro, e mais outro e em pouco tempo, numa espécie de crescimento em progressão  geométrica, todos estariam fazendo como ele. Afinal, porque não? Se produzo bem e mais barato sem o uso de veneno, porque usá-lo? Da mesma forma pensava sobre quem consome. À medida que estas informações fossem sendo repassadas, mais e mais consumidores procurariam os alimentos produzidos sob esta lógica. Afinal, quem quer comer veneno?
Mas não é assim... A produção e consumo de produtos ecológicos cresce em todo lado, mas os mesmos números que atestam este crescimento demonstram nossa marginalidade. Oficialmente a Agricultura Ecológica é praticada em mais ou menos 1% da área cultivada no mundo. Não vou explicar aqui que este número é subdimensionado, mas de todos modos, multiplicá-lo por dois ou três não nos retiraria da marginalidade.
IV Jornadas Agroecológicas em Quito
Não sei responder porque este crescimento não é exponencial. O poder das empresas que mencionei é parte mas não toda a resposta. Os países comunistas, que viveram anos relativamente à margem deste poder, sempre se valeram do uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos em altas doses na sua forma de fazer agricultura.
Minha esperança é a teoria do centésimo macaco. Já ouviram?
Segundo eu sei, mas não tenho certeza, é uma espécie de lenda urbana, que reza o seguinte: Uns cientistas estudando o comportamento de macacos em uma ilha sempre jogavam batatas doces para estes macacos, dos seus barcos, sobre a areia. Desta forma poderiam observá-los mais claramente. Um dia, a uma fêmea (sempre as mulheres...), chamada Imo, lhe ocorreu lavar as batatas antes de comer. Outros a seguiram, possivelmente porque a batata ficava mais apetitosa. Mas nem todos macacos da ilha a copiaram. 

Evento em Pangoa sobre
Agricultura Ecológica e
Certificação Participativa
Quando o centésimo macaco a imitou, os cientistas notaram que, em uma ilha próxima, sem que houvesse qualquer contato entre uma e outra ilha, alguns macacos começaram a lavar as batatas. Ou seja, mesmo sem que o exemplo se fizesse visível, as mudanças se multiplicaram quando um determinado número de macacos começou a agir do jeito novo.
Nas sociedades humanas existiria um comportamento parecido?
Tem um biólogo inglês, Rupert Sheldrake, que propõe a hipótese dos campos mórficos. Eu nunca li seu livro e nem vou tentar explicar sua teoria aqui, mas é possível facilmente achar estas informações. O fato é que Sheldrake se propõe a explicar uma mudança social a partir de atitudes em direção à mudança de um determinado conjunto de indivíduos. 
Reunião em Quito, entre acadêmicos e lideranças
de Movimentos de pescadores artesanais
indígenas e campesinos

Vou ter que ler este livro para entender melhor, mas no meu caso se trata de uma hipótese alentadora. Me anima e conheço muitas Imo, muitos também, que, com seus gestos, já começaram a desencadear a mudança na direção de um circuito mais bacana de produção e consumo de alimentos. Mais generoso e menos envenenado.
Concluo, confessando algo: Sempre que provoco ou estimulo alguém a produzir e comer sem veneno, o que tem mutas vantagens e pouca ou nenhuma contraindicação, fico me perguntando: será esta pessoa o centésimo macaco?