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quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Texcoco, 26 de outubro de 2016.

Estufa de flores da família da D. Laura.
Esta flor de branco sou eu. 
Ontem, quarta-feira, saímos outra vez ao campo, depois do costumeiro e farto café da manhã. Primeiro fomos visitar uns horticultores, a Dra.Victoria, médica, e seu marido Gustavo, no pequeno povoado de  Tequexquinahuac. Começaram a trabalhar com agricultura em 1992, com uma horta para consumo próprio e não deixaram mais este trabalho. Em 2003, começaram a participar do Tiangui (mercado) em Chapingo. 
Eu e D. Bráulia.
Depois fomos visitar D. Bráulia. Ela rege suas filhas, filhos, noras e genros com inúmeras atividades em diferentes pontos de Tequexquinahuac. Uma verdadeira matriarca. Com 84 anos e dificuldade para caminhar, ela decide o que e quando plantar, como cuidar, hora de colher e onde vender.  É fácil imaginar que decisões de outra natureza também passam pelo seu crivo.
Vimos o trabalho do clá de D. Bráulia no campo, com algumas estufas, de tomate, morango e flores. Também vimos horta e ela nos mostrou seu esquema de produção de tamales e tortillas
Depois de aprender sobre a produção, uma análise sensorial. Em um mesmo ambiente as mulheres estavam preparando a tortilha. Da massa ao cozimento, que é feito em uma grande chapa de ferro. E passamos todos comendo durante boa parte da tarde. 
Preparando tortilhas e tacloios.
À tortilha acrescentamos um dos vários molhos com diferentes teor de pimenta e, se queremos, algo mais, como carne, linguiça, creme de feijão e por aí vai, em uma viagem ao infinito. Ou elas preparam na chapa tlacoios, que são tortilhas dobradas, recheadas com creme de feijão, fava ou batata. Imagino que podem ser outro recheios também. 
Para beber, uma água de sabor, o que chamaríamos no Brasil de refresco. Para terminar, Lourenzo e Orestes, dois amigos Mexicanos que nos acompanharam toda a semana, apareceram com uma garrafa de Mezcal, orgânico. Mezcal é um destilado típico daqui, feito a partir de algumas variedades de agave, a mesma planta da qual é feito o Tequila, com a diferença que este último é elaborado exclusivamente do agave azul. 
Pequeno artesanato que reproduz a
cena familiar do dia 02/11
Ao entardecer, ainda passeamos um pouco por Texcoco, vendo seu comércio, seu mercado central e uma feira exclusiva para vender produtos para o dia dos mortos. Dia dos mortos aqui é um caso à parte. Sinteticamente vou dizer que no dia 02/11 as casas se preparam para receber seus mortos com um pequeno altar, com uma foto do ente que partiu e comidas que eram suas preferidas. É um dia de rever seus mortos, conversar com eles, expressar sua saudade e carinho. É mais alegre do que triste.
Hoje de manhã fomos visitar a Universidade de Chapingo, criada em 1854. Um lindo campus, onde estudam 15 mil alunos. Visitamos o prédio da reitoria, originalmente sede da fazenda que lhe deu o nome. Nesta linda casa, do início do século XVIII, funciona o Museu Nacional de Agricultura.  
Reitoria da Universidade de Chapingo.
De certa forma foi nesta Universidade que surgiu a mal denominada Revolução Verde, já que o norte americano Norman Borlaug, membro da Fundação Rockefeller, foi pesquisador em Chapingo e daqui foi porta voz da ideia da intensificação na agricultura baseada em adubos químicos, sementes melhoradas, maquinaria pesada e pesticidas. 
Ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 1970, principalmente por seu trabalho com sementes híbridas de milho e trigo. A senhora que nos atendeu no Museu o conheceu em vida e nos contou que ele era uma pessoa muito simples e amável. 
No próprio prédio da Reitoria está a Capela Riveriana. Toda pintada com murais de Diego Rivera. Um luxo. Impactante. Tive pouco tempo para admirá-la, mas talvez tenha sido a Capela mais bonita que vi em toda minha vida.
E agora, já no aeroporto. Amanhã chego em casa. Fim desta breve e intensa aventura no México. 
Capela Riveriana
Capela Riveriana - Teto

Capela Riveriana

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cidade do México e Texcoco, 24 e 25 de outubro de 2016.

México, terra do milho e suas mil caras.
Estou passando estes dias no México para participar de um processo de intercâmbio entre diferentes Sistemas Participativos de Garantia que funcionam na América Latina. Este processo envolve cerca de 20 pessoas, de 12 países, visitando em grupos de 4 pessoas a 5 países/SPGs. Já tivemos a etapa Bolívia e Brasil. Depois do México ainda faltam Peru e Chile. É uma forma de nos conhecermos mutuamente e aprender uns com a experiência dos outros. Um programa básico e um modelo de relatório final confere certa unicidade às visitas e permite compartilhar com quem não pôde participar. 
Proseando sobre os SPGs.
Este intercâmbio é organizado pela ONG que coordeno, o Centro Ecológico, e apoiado financeiramente pela Sociedade Sueca de Proteção à Natureza, uma das organizações ambientalistas mais antigas do mundo, fundada em 1908.
Na etapa México estamos eu, Faviana, da Feira Verde da Costa Rica, Maria Fernanda, da Rede de Produtores  Agroecológicos do Vale do Calca, Colômbia e Koldo, da Rede Agroecológica do Austro, Equador. Nossos anfitriões são a Vanessa e Fidel, da Associação Nacional de Tianguis Orgânicos. Parece interessante né? E é, muito interessante. 
Caveiras - tipico do México
Ontem passamos quase todo o dia trocando informações, ações e percepções sobre o trabalho que cada um de nós realizamos. Esta troca continuou durante o almoço, no bom restaurante de uma das lojas de uma pequena rede que vende produtos orgânicos, a Green Corner (http://thegreencorner.org/tiendas/). A loja tem uma impressionante variedade de produtos, boa parte importada dos EUA. 
Depois do almoço, às cinco da tarde, fomos passear em Coyoacan, um distrito da Cidade do México. Relaxamos, conversamos, tomamos nieve, comemos torta, quesadillas, tacos e guacamole.
Hoje, às seis da manhã, saímos do hotel em direção à Texcoco, uns 50 km distante. Está na região metropolitana da Cidade do México, em uma área de transição para zona rural do Estado do México, um dos 31 estados do país. Tomamos um belo café da manhã e fomos para o campo.
Perus - Granja Cocotla.
A primeira visita foi quase na cidade, na Granja Cocotla. Produzem principalmente peru orgânico. É uma pequena empresa rural, que começou seu trabalho na segunda metade dos noventa, buscando resposta ao problema da vaca louca e suas consequências na produção e comercialização de bovinos.
O que eu não sabia é que o peru é nativo do México, de onde saiu para a Espanha, Portugal e chegou à Inglaterra, daí enviado para os EUA, onde voltou a ficar selvagem, foi domesticado novamente e é o que hoje se cria em escala. O branco é mais comercializado porque sua carne esteticamente tem melhor apresentação, mas existem peru das mais variadas cores.
Dona Ermiria, um luxo - 90 anos!
Da Granja Cocotla viajamos quase duas horas e fomos visitar a Tomás Villanueva, em Tepetlixpla. Tomás é uma referência da agricultura orgânica na sua região e já trabalha com este tema há quase trinta anos. Sua propriedade espelha que ele  vive a agricultura orgânica em sua dimensão física e metafísica. Começamos por uma cerimônia de agradecimento a Madre Tierra, que terminou com uma meditação ao som de Ave Maria. Qual a relação? Terra mãe, Maria, mãe de Jesus e de certa forma de todos nós na mitologia Cristã... Destaque para a participação de uma outra mãe, a matriarca da família, Dona Ermíria, que nos deu um breve depoimento de amor à terra e ao milho, do alto dos seus noventa anos. 
Almoçamos já depois das três da tarde e fomos visitar sua área de milho. Tomás se diz gente do milho (gente del maíz). E se refere aos Mexicanos também como gente do milho. Lembremos que o México é centro de origem do milho, ou seja o milho surgiu aqui. 
Tomás Villanueva e seu maís.
Surgiu muito diferente do atual. Ao longo de milhares de anos, mulheres e homens, indígenas e campesinos, foram fazendo dele o que ele é hoje, com uma imensidade de variedades, cada uma guardando suas características de forma, cor, sabor, usos. Este trabalho de melhoramento genético do milho, que levou, repito, milhares de anos, naturalmente faz do milho um elemento crucial da cultura mexicana, mormente do meio rural.
A visita terminou já oito da noite, e ainda tínhamos uma hora e meia de viagem de volta. Chegamos, comemos tortilhas, tacos e tortas e fomos dormir. Amanhã tem mais.

Flores, no campo.

Olha que onda -  uma sala de aula na finca
de Tomás

Almoço no campo
Loja da Green Corner



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Cidade do México, 23 de outubro de 2016.

Faviana (Costa Rica), Maria Fernanda (Colômbia),
Koldo (Equador) Fidel, Vanessa e mais alguns
amigos e amigas mexicanos. 
Saí da casa da Helena hoje antes das seis da manhã. Mesmo assim, aeroporto e voo lotados. 
Pouco depois das nove já estava com meus amigos na cidade do México, pronto para começar o trabalho. O de hoje foi visitar feiras de produtos orgânicos. Aqui no México este nome feiras se refere a eventos ocasionais, de maior porte. Feiras de rua aqui se chamam Tianguis. Portanto passamos o dia hoje visitando Tianguis orgânicos. Que charme né? Vou repetir porque o nome é lindo e sonoro. Tianguis orgânicos.
Reunião para conversar sobre o próximo Foro Latinoamericano
de Sistemas participativos de Garantia, México nov/2017.
Outra vez: hoje fomos a dois Tianguis orgânicos. Tá, não repito mais. Os dois interessantes e diferentes. O mundo da Agricultura Orgânica se situa em um campo que podemos chamar alternativo. Para quem vê de fora, monolítico. Nós que estamos dentro vemos suas diferentes, quase inúmeras, feições.  Os dois que fomos hoje tinham lindos produtos orgânicos. Os dois em espaços privados, espécie de salões. 
O primeiro era mais, digamos, comportado. Até poderia dizer mais organizado. Produtoras vendendo, consumidores comprando. Conversas comportadas. Uma lanchonete com mesas, cadeiras, cardápio. O segundo, relativamente mais caótico. O que pode, ou deve, ser entendido como um elogio. Afinal, é a organização ou o caos que rege o universo? Teve mística, discursos, música, dança. Conversas em alta voz. Mas tudo organizado... quem disse que não existe planejamento em ambientes supostamente caóticos? 
Tiangui orgânico, o segundo que visitamos hoje.
Caos organizado!!!
A estética dos dois parecida, mas o segundo enche mais os sentidos, invade mais nossa privacidade. A favor da diferença está o fato do segundo Tiangui que fomos estar hoje comemorando cinco anos. Mas acho que existem diferenças genéticas que não se explicam apenas por em um deles ser um dia de festa. Aposto que uma festa de aniversário no primeiro que visitamos seria diferente.
Qual gosto mais? Dos dois, há estado de espírito para um e outro.
torta de papas con nopales
Costumo gostar dos diferentes diapasões que vibram neste mundo que insiste em sobreviver um pouco à margem do que comumente se faz.
Assim foi quase todo o dia. Visitamos bancas, tivemos pequenas reuniões, conversamos sobre agroecologia e certificação participativa. Mas o que fizemos mesmo o dia todo foi comer. Passamos o dia comendo. Tortillas, tamales, sopes, talcosos de requeson y frijoles, Torta de papa con nopales, quesadillas, tacos con queso y pastor....tudo delicioso!!
Este foi o trabalho de hoje. Trabalho? Sim, trabalho... em algum momento já mencionei aqui no blog uma frase atribuída a Confúcio: "trabalhes no que você gosta e não trabalharás nunca". Pois então, a verdade é que nunca sei quando estou trabalhando!
Centro da Cidade do México, início da noite.
Ainda tivemos tempo para passear em um bonito e cinzento fim de tarde por algumas ruas do centro da Cidade do México. Muito agradável. Me surpreendeu a quantidade de gente pelas ruas e muitas lojas abertas até o fim do entardecer, já quase 20:00hs.
Terminamos o dia, no início da noite, tomando uma corona no Salón Corona. Existem outros, mas fomos no original, fundado em 1928. Corona de barril (chopp) e tacos, muitos tacos.
Viva México!

domingo, 23 de outubro de 2016

Guadalajara, 22 de outubro de 2016.

Agave Azul
A tequila é sem dúvida um dos símbolos do México. Comentando que vinha para cá, muitos me mandaram uma mensagem ou comentaram: “toma uma tequila lá por mim”. Eu acho que mais do que os mariaches, os tacos ou sombreiros, a imagem internacional do México está ligada à tequila.
Tequila Herradura, algumas de suas
expressões.
Dos 31 Estados do México apenas 5 têm denominação de origem para produzir Tequila. Significa que, nos outros Estados, se alguém produzir uma bebida igual, tem que colocar outro nome. Semelhante ao que acontece com a champanhe, que apenas pode ser produzida na região de Champagne, no noroeste da França. Quem gosta desta bebida e compra marcas produzidas em outros lugares já se acostumou a chamá-la de espumante.
Outra coisa que aprendi hoje é que 95% da tequila é produzida no estado de Jalisco. Ou seja, a tequila é de Jalisco. E eu estou em Guadalajara, capital de Jalisco. Então, o que fomos fazer hoje? Visitar a cidade de Tequila, que o nome já nos indica, concentra boa parte das fábricas desta bebida.
Nos 60 km que separam Guadalajara de Tequila já se nota onde estamos. Muitas plantações de agave, a planta da qual se extrai a matéria prima para elaboração da tequila. Demora de sete a nove anos para crescer e estar no ponto de ser colhida.
Chegamos e fomos dar uma rápida volta pela cidade. 
Coreto da praça de Tequila
É bonitinha, pequena, toda ao redor de uma praça com coreto e Igreja, muitas lojas vendendo tequilas em garrafas as mais variadas e apetrechos como copos, porta copos, cantil para tequila, artesanatos. Naturalmente, vários bares, cafés e restaurantes. Entramos rapidamente na tequilaria mais visitada, a internacionalmente conhecida Jose Cuervo. Mas nossa opção de visita foi algo mais original, fomos a uma fazenda tequilera, chamada Herradura.
Foi interessante o tour. Aprendi algumas coisas, vou tentar resumir.
Uma vez colhida, o pé de agave é jimado, ou seja, como que descascado, para separar suas folhas do coração. Este coração é cozido no vapor, e neste momento seu amido será transformado em açúcar. Depois de cozido, é esmagado e colocado para fermentar. Depois da fermentação, destilado, e pronto, temos a Tequila. Raramente se acha no mercado a tequila tal qual ela sai do alambique, com 55% de álcool. Normalmente ela neste momento recebe diferentes quantidades de agua desmineralizada, que a deixarão com o grau alcoólico desejado. Após, podem ou não descansar por diferentes períodos de tempo em barris de madeira, de onde sairão tequilas com diferentes expressões, consubstanciadas em cores, aromas e sabores.
Eu e D. Jesus, jimando a agave.
A fazenda tequilera na qual fomos hoje, a Herradura, é antiga e mantem tradições desta produção que já se perderam em outras fábricas. Quem nos levou foram dois amigos da Helena, o Arturo e a Mariana. Ele trabalha para a empresa dona desta marca. Fomos muito bem ciceroniados e aprendemos sobre algumas características que fazem da Herradura uma tequila de qualidade superior. Vou citar três. As garrafas, apesar de serem compradas novas, naturalmente precisam ser lavadas. Eles lavam com tequila, para evitar contaminações de aromas ou sabores.
O processo de fermentação é feito em tanques de fermentação abertos, com a intenção de aproveitar os aromas que podem ser incorporados a partir das inúmeras arvore frutíferas e flores que estão plantadas na fazenda.
A primeira e a última parte da fermentação, chamados de cabeça e rabo, são desprezadas. E ela é duplamente destilada. Semelhante à cachaça, estes cuidados são imprescindíveis quando se quer obter um produto de qualidade.
Como vários outros mundos (cacau, café, vinho, cachaça, azeite, ...) o mundo da Tequila é muito especial, cheio de detalhes e nuances. Não é uma breve visita que permite entendê-lo. Mas gostei da visita, foi quase um curso que poderia se chamar: “Introdução ao mundo da Tequila: da elaboração ao consumo”! 
Café da manhã deliciosos - também,
com uma companhia desta!!!
E o dia ainda teve mais. Um belo café da manhã com Helena, Mariane e Arturo, onde comi ricos chilaquilles de jamaica. Ao entardecer provei o famoso sorvete artesanal nieve de garrafa e ainda jantamos em um bom restaurante, o Elena, Mar y Leña. Comemos deliciosos camarões, preparados de diferentes maneiras, na entrada e nos dois pratos que pedimos.
Amanhã cedo, muito cedo, saio para a Cidade do México, onde tenho trabalho. Já com o coração apertado, mas tranquilo por ver que Helena está bem, tranquila com suas decisões. Vida que segue, tenho que trabalhar, mesmo sendo domingo!

Simpática Igreja em Tequila

Carro em Tequila. I love kitchie !!!

Entrada da fazenda tequilera

Coração do Agave

Forno com o coração já cozido,
provei, é macio e doce.

Alambiques, para destilar.

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

México, 26 e 27 de novembro de 2014.

Com duas senhoras que preparam comidas, Mercado Alternativo de
Apizaco
Ontem acordei cedo e caminhei algumas quadras ao redor da praça de Tlaxcala, depois segui caminhando até a Basílica de Ocotlan, uns 1500 metros subindo forte, na altitude de 2500 metros, dá para cansar. Depois de um café da manhã estilo Mexicano fomos ao campo, visitar algo do que fazem por aqui nesta área da Agricultura Orgânica. 
Começamos por uma feira, chamada por eles de Mercado Alternativo de Apizaco. Pequeno, ainda em formação. Mas com alguns produtos muito interessantes e, claro, bancas de comidas prontas. E segui comendo... provei diferentes comidinhas locais, mas vou contar brevemente sobre uma, um tipo de chocolate gelado que tomei. 
Preparando a água de barranco
É uma bebida diferente, ainda que à base de cacau. Leva também fava, milho, canela e anis. Tudo torrado e moído em pilão, acrescido de rapadura e batido intensamente em panela de barro com gelo. Fica tipo um chocolate gelado, leve, com muita espuma e super saboroso. É chamada de cacau ou Água de Barranco. Porque tem uma cor parecida com cor de terra. Segundo eles é uma receita pré-colombina, mas me suscitou duvida o fato de alguns destes ingredientes terem chegado depois da invasão espanhola. Devem existir nuances nesta história.
Nopal e sua fruta, tuna.
Fomos ainda visitar um produtor de Nopal. É um cactus, do qual se consome sua folha descascada. Não acho que tem muito sabor, é meio aguado, mal comparando como se fosse um chuchu. É comum vermos na rua uns saquinhos plásticos com nopal cortado em palitos, servido com pimenta. Claro, tudo tem pimenta. O nopal também se come em tacos. Tudo eles juntam com tortillas e transformam em tacos de diferentes sabores, como eu escrevi ontem. Além de consumir a folha do nopal, ainda tem a tuna, que é a sua fruta. Saborosa, refrescante, com uma casca grossa e espinhenta. Muito bacana o nopal, típica planta do deserto, que com sua aparência inóspita guarda água e alimento. Ele é originário aqui do México, e na verdade existem muitas espécies e variedades que são conhecidas por este nome comum. No semiárido brasileiro algumas espécies tem sido plantadas como alternativa para alimentação do gado.
Ao anoitecer ainda pude passear um pouco mais e cheguei ao Mercado Municipal. E de lá fomos em um bar tomar uma Corona. Decoração super intensa e colorida. Muitas tela passando jogos de futebol. Som altíssimo, intercalando o jogo e a música. Pessoas falando alto, tentando se fazer ouvir. Este kitch tão comum no continente, que eu curto muito e que talvez tenha no México o seu orgasmo.
Pimentas, muitas pimentas!
Hoje o dia começou com um passeio no mesmo Mercado Municipal. É que ficou a vontade de tomar o café da manhã por ali. Fomos em um pequeno grupo. Como em todos os mercados vimos muitas frutas, flores, carnes, produtos chineses... E pimentas, muitas pimentas. Na parte de comida pronta, tortillas, muitas tortillas. Tortillerias que a fazem e vendem. Como uma padaria que vende pão. Comemos tortillas com queijo e se pode agregar algo mais, como carne ou fungos. Como levam queijo não se chamam tacos, mas sim quesadillas. Interessante como fungo aqui é comida popular. Vários deles. O mais interessante que vi é o cuitlacoche, que se desenvolve sobre um tipo de milho. Na própria espiga, em cada grão se desenvolve este fungo. Na verdade agronomicamente é uma doença, mas nesta região do México é considerado comestível quando cresce em uma determinada variedade, aí o fungo deixa de ser um problema e passa a agregar valor ao milho. Tudo na vida é uma questão de perspectiva... Achei incrível!
Vista das casas da cidade
Durante todo o dia seguimos trabalhando. O evento terminou com os discursos emocionados e promessas de contato eterno que caracterizam estas atividades. Quase nunca se cumprem. Mas confesso que estava mais interessado em sair para caminhar na linda Tlaxcala, o que conseguimos fazer a partir das quatro da tarde.                           
Tlaxcala é relativamente pequena, tem uma linda praça central, belíssima arquitetura colonial, bem cuidada, com uma bonita vista do Vulcão La Malinche. Algumas das suas casas são ainda do século XVI, o governo do estado funciona em uma delas. 
Terminando o dia e a estada no México com Tequila. Bagé,
Rafael e Daniela, mexicanos, Genaro, paraguaio, eu e Pablino,
também paraguaio.
Compramos alguns artesanatos, passeamos e terminamos em uma Tequilaria. É que estamos no México. 
Boa forma de terminar a estada por aqui. Pena que não tive nem terei tempo de ver um pouco mais da cidade e da região. Nem digo do país. Um gigante de quase dois milhões de km², mais de 120 milhões de habitantes, com uma diversidade em todos os sentidos que exigiria viver aqui para pensar em conhecê-lo. Mas lamento é não ter tido poucos dias mais para ver vulcões, pirâmides e cidades como Puebla tudo isto aqui muito perto. Mas amanhã já volto para o Brasil, a caminho da Paraíba para uma semana intensa de trabalho. Acho que este ano não conto mais.

Don Julio, reposada, coisa fina...
Cuitlacoche

o modelo aqui na lavoura de nopal

água de barranco - deliciosos!!!

tomando a água de barranco

A folha de nopal, no saquinho ela descascada e
a tuna, sua fruta.

Ao lado da praça central

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

México, 25 de novembro de 2014.


Basílica de Ocotlán
Passei todo o dia de hoje envolvido com o que me trouxe aqui em Tlaxcala. Um Seminário/intercâmbio sobre Certificação Participativa entre México, Paraguai e Brasil. Um evento com pouca gente, umas 40 pessoas, mas todos representando experiências reais baseadas na Agroecologia. As discussões não fugiram das que normalmente acontecem no Continente. O crescimento do trabalho com agricultura ecológica enfrenta dificuldades face o interesse das grandes indústrias, o desinteresse do poder público e a indiferença do consumidor. Mas, como diria Gramsci, um líder operário Italiano, o pessimismo fica só na análise, a ação segue de forma otimista, ampliando o que se vem fazendo como estímulo à produção e consumo de Produtos Ecológicos. Seguimos trabalhando na mesma onda, sem saber bem onde conseguiremos chegar.
Caminho para a Basílica. Há 2500 m de altitude, cansa...
O evento está sendo no município de Ocotlán, cidade vizinha à Tlaxcala. É onde fica a Basílica de Oclotan, muito conhecida aqui no México, um dos países mais católicos do mundo. Foi construída sobre o local de uma das aparições de Maria. Aqui ela apareceu em 1541, para um jovem indígena denominado Juan Diego (ops). Maria lhe recomendou que pegasse água de um poço próximo, porque ela teria propriedades para curar os doentes vitimados por uma peste e que estavam sob o cuidado deste jovem indígena. No local deste poço se construiu a Capilla del Pocito, há uns 400 metros da Basílica. Segundo os fiéis, até hoje está água mantém estas propriedades curativas, o que faz com que milhares de pessoas venham de todos lados buscar e comprovar seus efeitos. Devoto de Maria que sou, tomei e fiquei curado, só não sei exatamente de que.
Capilla del Pocito
Hoje não almocei. Tive que aproveitar este momento para ir ao dentista. Ontem de noite, passando fio dental, caiu um pedaço de um dente. Por isto sou contra usar fio dental. Achei uma dentista, parece que ficou bom. Nunca tinha me acontecido é de ter que ajudar, segurando o sugador na minha boca enquanto ela, meio nervosa, me atendia. O tempo dirá se ela sabia o que estava fazendo.
Como não almocei, no meio da tarde saí para comer uns plátanos rebanados, em uma barraquinha no centro da cidade, ao lado da Basílica. É uma banana grande, frita, aberta em três, e sobre ela se se coloca algo para dar um up-grade. Ela me perguntou com o que eu queria minha banana, como eu não sabia respondi tudo, ela colocou creme de leite, geléia, leite moça e ainda um biscoito por cima... bem light... tava bom...
A comida aqui é todo um tema. Parece ser o assunto principal do mexicano, o seu maior interesse. E de fato a gastronomia daqui chega a todos os cantos do mundo. Chama minha atenção particularmente as comidas de rua. São diversificadas, estão em cada esquina, boa parte delas bem organizadas e cuidadas. São populares, mas seu consumo não se limita apenas aos de menor poder aquisitivo, ainda que naturalmente sejam mais baratas do que nos restaurantes.
Barraca de comida na rua. Olha a onda..
Pelo que vejo todos tem e comem suas comidas preferidas de rua. Entendo que a diversidade vem não apenas da riqueza de matérias primas, mas principalmente de suas inúmeras combinações possíveis. Olha só: dois tipos de tortillas, milho e trigo. Mais de dez tipos de carne que podem ser agregadas. Alguns acompanhamentos como salsa, cebola, pepino e tomate. Diferentes tipos de molho, com doses crescentes de pimenta. Junta-se estes ingredientes à gosto e está visto porque são centenas de diferentes tacos. Taco é uma tortilla com algo sobre ela.
Em uma escala menor se passa o mesmo com o milho verde. Pode ser cozido ou assado. Comido na espiga ou em copo, debulhado. Pode ser agregado sal, limão, manteiga, maionese, molho, pimenta em pó, inteira ou preparada em molho. Se pensamos em todas as combinações possíveis, são dezenas. Bom, por ai vai. Sei que estas combinações exponenciais também estão em um Subway ou em um buffet de cachorro quente, mas ainda acho que aqui é diferente, ao menos os ingredientes me parecem mais originais e os sabores com mais personalidade.
Hoje jantei tacos. Sortidos!
País interessante este México. 
Tacos

A banana já estava frita, ai eu pedi...

Ela fritou de novo, abrindo em três pedaços

Meteu tudo, porque eu pedi tudo. Crerme de leite, geléia,
leite condensado e um biscoito para enfeitar... e me
entregou com esta cara tão simpática...