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sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Nuremberg, Alemanha, 13 de fevereiro de 2025.

 

Eu, no tímido stand do Brasil

Hoje foi mais uma rodada de conversas e observações pela Biofach, a maior feira de produtos orgânicos certificados do mundo. Falando mais um pouco das estatísticas, vou contar para vocês quais foram os cinco países que mais cresceram em área agricultável com agricultura orgânica, de 2022 para 2023:

1.     Uruguai: 207 mil hectares

2.     China: 200 mil hectares

3.     Espanha 195 mil

4.     Ucrânia: 164 mil

5.     Etiópia: 143 mil

Festinha no stand da Áustri

E os países com maior percentual de área agricultável certificada como orgânica, quais são?

1.     Liechtenstein: 44,6%

2.     Áustria: 27,3%

3.     Uruguai: 25,4%

4.     Estônia: 22,9%

5.     São Tomé e Príncipe: 22,1%

6.     Portugal: 21,7%

7.     Itália: 18,7%

8.     Suécia: 18,3%

9.     Suíça: 18,2%

10. Grécia: 17,6%

Existe ainda uma dúzia de países, além destes, que ultrapassam a marca dos 10% de sua área agricultável como orgânica

Um último dado, são muitos meu propósito não é esgotá-los aqui. Quais os países com maior número de produtores orgânicos certificados? Aí vai uma lista dos dez primeiros:

1.     Índia

2.     Uganda

3.     Etiópia

4.     Congo D.R.

5.     Peru

6.     Itália

7.     Quenia

8.     Vietnam

9.     Madagascar

10. Tanzânia


Para além dos números, muito se observa por aqui sobre as tendências de mercado.

Encontrei alguns conhecidos, trocamos breves impressões. Vou compartilhar algumas. A primeira: é visível um destaque significativamente menor para o Comércio Justo. Há cerca de 20 anos, quando o chamado Fair Trade estava em curva ascendente, existia a impressão que os produtos orgânicos certificados acabariam também por serem todos, ou quase todos, certificados como pertenceres ao Comércio Justo. Não foi isso que aconteceu. Sim, ainda existe na feira muitos produtos que são também certificados como do Comércio Justo mas, visivelmente, ocupam menos espaço. Outra impressão que quero compartilhar: vi menos destaque em produtos Veganos, sem açúcar ou sem glúten. Existem vários, com algumas ou todas essas características, mas vi menos cartazes, bolsas, materiais de propaganda. Como se o mercado tivesse absorvido essas demandas, elas já se fazem presentes no dia a dia, existe menos alarde sobre essas características.

Isso que vou falar da Biofach.

Casa ao lado do Castelo

Pela tarde, caminhamos pelas lindas ruas de Nuremberg, visitamos a Igreja Sair Lorentz, conhecida pelo seu órgão. Sempre me chama atenção ver, em fotos no seu interior, o quanto ela foi destruída na 2ª Guerra, assim como boa parte da cidade. A capacidade que o povo alemão mostrou na reconstrução do país é absolutamente impressionante. Depois, passamos pelo praça, fomos ao Castelo e seguimos nos perdendo por suas ruas, procurando por algumas coisas para comprar e para comer. Acabamos em um restaurante espanhol! Não me queixo, um queijo manchego, um jamón pata negra e uma paella valenciana caem bem em qualquer lugar do mundo!

Amanhã vamos para Praga, de lá conto algo!





Muito bem acompanhado!


quarta-feira, 12 de fevereiro de 2025

Nuremberg, Alemanha, 12 de fevereiro de 2025.


Infográfico com vários dados. Fonte: Fibl

Uma das razões para vir na Biofach, uma grande Feira mundial de produtos orgânicos certificados é entender um pouco mais sobre a dinâmica deste tipo de produção. Inteirar-se dos números e saber refletir sobre eles, percebendo tendências. 

Um entre centenas de stands

São muitos dados divulgados por aqui. Vou, por exemplo, comentar que o país com a maior área em produção orgânica certificada no mundo é a Austrália, com 53 milhares de hectares. Aliás, desde sempre. Isso é explicável porque são grandes áreas extensivas, dedicadas à pecuária. Pela mesma razão, em terceiro e quarto lugar estão, respectivamente, Argentina (4 milhões de ha) e Uruguay (3,5 milhões). A Índia assumiu o segundo lugar nesta escala, com 4,5 milhões de hectares, e ainda ocupa o posto de país com maior número de produtores orgânicos certificados (2,3 milhões de produtores). Estas posições, de segundo em área e primeiro em número de produtores coloca a Índia na posição de principal país no cenário da agricultura orgânica mundial, junto com os EUA, que detém 45% do mercado. Pelos números anteriores, vemos que, na Índia, cada produtor, em média, tem pouco menos que 2 hectares de terra cultivada organicamente.  Na Austrália, temos cerca de 2.200 produtores orgânicos. Significa que cada um tem, em média, 28 mil hectares de área certificada como orgânica. Curioso, né?

Ontem, comentei que essa edição da Biofach me parece a menos entusiasmada de todas que vi, o que não significa que não esteja pujante, cheia de pessoas, produtos, novidades e negócios. Quem sabe, as feiras com esse formato não tenham mais a importância de outros momentos. Falei que talvez isso fosse reflexo de uma certa estagnação, talvez decadência, do mercado de produtos orgânicos. Claro que não tenho elementos para afirmar isso. De todos os modos, quero esclarecer que questiono o mercado de produtos orgânicos tal qual ele foi desenhado, baseado na normatização excessiva, na certificação, no sobre preço exagerado, na elitização do consumo. Refiro-me a esse desenho, que emerge de zonas ricas de países ricos e que se reproduziu em zonas ricas de países pobres. Esse é o formato que me parece estar estagnado, ou crescendo a taxas muito menores do que há alguns anos.  Aliás, e falo sem receito de parecer pretensioso, afirmava que isso iria acontecer há mais de 20 anos. Na época, dizíamos que com esse enfoque o movimento estava criando uma armadilha para ele mesmo!

Claro que, repito, afirmar que o mercado está estagnado exigiria maiores investigações. Tudo bem, nesse post corro esse risco, de afirmar algo baseado na minha intuição e percepção.

Uma visão mais positiva é pensar que o produto orgânico já não é mais uma novidade e a demanda por produtos orgânicos cresceu a ponto que ele se encontra nas feiras específicas por produtos, disponível na grande rede e nas gôndolas dos supermercados. Quem precisa comprar esses produtos, falo no atacado, não precisa se deslocar muito e ir a feiras distantes, está tudo mais próximo e, quem sabe, a um clique. Nestas reflexões, meu olhar se volta para outro mercado, que não considero estagnado: aquele nos quais os produtos se mantêm limpos, com pegada eco social, mas já não dependem de elaboradas normas, sofisticadas certificações ou de sobrepreços que elitizam e inibem o consumo. Nestes mercados, a proximidade conta, tanto geográfica quanto humana, mais do que um detalhe ou outro de normativas de difícil compreensão.

Poderia qualificar mais este mercado, mas não aqui.

Esse futuro já está acontecendo, ainda que em volumes muito aquém do necessário para redesenhar a sociedade nos rumos que nossa utopia de mundo justo e harmônico sugere.

Com André, do Centro Ecolçogico e 
Luiz Carraza, da Centrral do Cerrado.

Enfim, reflexões não faltam, estimuladas pelo contexto atual e por estar aqui, na Biofach.

No final do dia de hoje, rolaram as tradicionais festas dos stands. Fomos no stand da Áustria, depois no da IFOAM - Organics International e terminamos ouvindo um som muito legal, ao vivo, no stand de Madagascar e comendo uns pratos com sabor africano da melhor qualidade! Tudo acompanhado de uma cerveja alemã - orgânica, claro, e recheado de boas conversas. Saímos da feira às oito da noite e viemos direto, com o tempo frio e chuvoso, para o hotel.

Está bom por hoje, né? Amanhã, conto mais.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2025

Nuremberg, Alemanha, dias 10 e 11 de fevereiro de 2025.

 

Aspectos da Biofach 2025

Outra vez em Nuremberg, Alemanha, visitando a Biofach, a maior feira de produtos orgânicos certificados do mundo. É a 14º vez que venho, desde 2003. Minha intenção, desta vez, é ter uma melhor percepção sobre como anda a agricultura orgânica, da produção ao mercado, no mundo. Não apenas números, mas conversar com diferentes pessoas, de vários países, olhar as centenas de bancas e perceber tendências. Tenho convicção que vir aqui me aguça o olhar e tem impacto no meu trabalho diário. 

Saí domingo de casa, eu e o André, encontramos Guilherme em São Paulo, estamos juntos aqui. Viagem também, junto ao trabalho, de passeio, com três amigos de longuíssima data!

Como já escrevi aqui outras vezes, a feira impressiona pela diversidade, quantidade e qualidade dos produtos. No competitivo mercado mundial de produtos orgânicos, o tempo no qual bastava esse adjetivo para se posicionar já ficou para trás há muito tempo. Tem que ser bom, gostoso e bem apresentado. Vir à Biofach é útil também para encerrar esse papo de “é possível produzir sem agrotóxico?”. Ainda tenho que responder essa pergunta frequentemente, e isso só demonstra o quanto a pessoa que faz essa pergunta é desinformada no assunto. Dá até preguiça responder...

Hoje, além de rodar pela feira, ver e provar muita coisa interessante, eu ouvi a palestra mais esperada da feira. Anualmente, FIBL, uma instituição Suíça, de pesquisa, muito conhecida no mundo da agricultura orgânica, e uma empresa norte americana, a Ecovia, apresentam a situação da produção e do mercado orgânico no mundo. Hoje, apresentaram os números de 2023, coletados ano passado.

Pouco de novo no front.


        Segundo a Ecovia, o mercado de produtos orgânicos em 2023 foi da ordem de 130 bilhões de dólares, produzidos em 2,26 milhões de hectares que foram certificados. EUA seguem em uma forte liderança, gerando 45% do mercado. Soma-se os 4% do Canadá, e se vê que a América do Norte concentra metade de tudo que é comercializado como orgânico no mundo.

Ouvi também que existe uma preocupação que as recentes medidas do Presidente Trump podem afetar a produção e consumo de produtos orgânicos nos EUA. Bom lembrar que para abastecer seu mercado, o país é o principal importador mundial de alimentos orgânicos. Esse reposicionamento de tarifas promovido por Trump pode gerar retaliações que, eventualmente, terão impactos nessas importações.

Nessa apresentação da situação do mercado de produtos orgânicos algo me chamou a atenção, para além dos números: a sala vazia. Nunca vi essa sessão tão pouco concorrida. O que significa? Não posso afirmar nada, mas tenho a impressão de que o arrefecimento do crescimento do mercado de produtos orgânicos é uma das razões. Claro, não podemos esquecer como o mundo vem mudando e, nos últimos anos, feiras presenciais vêm sendo substituídas por outras relações de mercado e formas de contacto.  O fato é que a sociedade pós pandemia mudou, difícil precisar se por responsabilidade da Covid, se pelo avanço das formas de comunicação, se por causa da percepção cada vez mais nítida do impacto das mudanças climáticas em nossas vidas. Possivelmente por tudo isso e muito mais. O crescimento da extrema direita em várias partes do planeta, fenômeno de difícil explicação, obviamente também muda o mundo e não acredito que no rumo do desenvolvimento da agricultura orgânica, para dizer o mínimo.

Para não dizer que não falei
de flores.

Acho que me estendi no parágrafo anterior justamente porque uma das minha motivações para vir aqui é testar uma hipótese: o que nós nos acostumamos a chamar de “movimento de agricultura orgânica” está estagnado ou decadente. Confirmar, ou não, essa hipótese e tentar entender o porquê, caso ela seja verdadeira, tem ocupado minhas reflexões nos últimos meses.

Quero contar, antes de terminar este post, algo interessante que ouvi hoje. Caminhando pela feira, encontrei a Fernanda Stefani, da 100% Amazônia. Uma empresa focada no comércio de produtos da Amazônia. O principal deles? Adivinha? Isso, açaí. Conversa boa, sobre vários aspectos, mas ouvi dela um número que me chamou a atenção: o mercado de açaí hoje, no mundo, é de 3 bilhões de dólares! Um valor expressivo, ainda mais se pensar que quase toda a produção vem do Brasil. Enfim, isso é outro assunto...

Hoje foi só o primeiro dia. Têm mais números, impressões e reflexões, amanhã conto sobre quais países possuem a maior área de produção orgânica no mundo e quais possuem o maior número de produtores!


sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Nuremberg, 15 de fevereiro de 2019



Mais de mil novos produtos foram apresentados este ano
Terceiro dia de Biofach. A maior feira de produtos orgânicos do mundo. Aqui se reúnem produtores, comercializadores, certificadores e empresas que desejam importar matérias primas ou comprar produtos processados. Também quem trabalha com máquinas, equipamentos ou embalagens de interesse do setor. Consultores, pesquisadores ou membros de ONGs, como eu, são cada vez mais raros. Ao longo dos anos, a feira se fez mais ligada ao negócio, menos ao idealismo que originalmente caracterizou o movimento de Agricultura Orgânica. Para quem ainda acha que este negócio de agricultura orgânica é coisa de poetas e sonhadores, como se o mundo pudesse desses prescindir, vir aqui pode ser uma surpresa. Os poetas e sonhadores perderam espaço, o business as usual se sobrepôs.
Povo local, fazendo sua cerveja e vendendo na
Alemanha - agricultura orgânica roots na Biofach!
Eu, que se tivesse que escolher me colocaria mais ao lado da poesia que do ouro, não creio tanto nesta divisão. Existe um espaço de interseção nestes, mundos que geram iniciativas muito interessantes. Hippies que se fizeram empresários e empresários que começaram a ver seu negócio para além do sucesso financeiro, criaram e seguem criando empreendimentos prósperos e promissores, gerando bem estar para muita gente. Na Biofach existem muitos exemplos. Um prazer conversar com eles e descobrir suas motivações.
O negócio da Agricultura Orgânica cresceu muito. Já falei ontem aqui no blog que no mundo são 70 milhões de hectares reconhecidos como de cultivos orgânicos, números de 2017. Neste mesmo ano o mercado girou em torno de 100 bilhões de dólares.
Presença do Brasil na Biofach
O número de agricultores certificados como orgânicos também cresceu bastante. São quase três milhões em todo o mundo. O país que lidera é a Índia, com 835 mil. Uganda em segundo lugar com pouco mais do que 210 mil, México em terceiro, com 210 mil e em quarto lugar Etiópia, com 204 ml agricultores certificados como orgânicos. Nesta estatística Brasil parece com 15 mil produtores.
Número que considero interessante são os EUA: menos de 15 mil hectares certificados, cerca de 0,5% da sua área agricultável considerada orgânica, mas detém 45% do mercado mundial destes produtos. Ou seja, por um lado os produtores estadunidenses terão que acordar para a expressiva demanda dos seus consumidores, por outro o país seguirá como ativo importador de produtos orgânicos por um bom tempo.
AmazoniaBio, empresa com sede na Europa e que vende
produtos amazônicos
Falando um pouco do Brasil, a presença é a mais tímida que vi desde 2003, primeira vez que estive na feira. O apoio que sempre foi dado para que organizações de agricultores familiares se fizessem presente desapareceu. Algumas empresas vieram por conta própria. Vendendo açúcar, castanha de caju, grãos, mel, baru, matérias primas para cosméticos. Mas, dentro do que vi, os produtos amazônicos se sobressaem. Possuem grande apelo sócio ambiental no mercado europeu, norte-americano ou japonês, além de muitas vezes um reconhecido valor nutricional. Castanha do Pará e, principalmente, açaí. Tanto em polpa quanto em pó. Também cupuaçu, pupunha, guaraná. Empresas como Amazon 100%, com sede em Belém e uma espécie de subsidiária em Liége, na Bélgica, para distribuir com mais facilidade no mercado europeu este produtos originários da Amazônia. 
Amazon 100%, stand do Brasil.
Ou a Petruz, que vende açaí há um tempo e recentemente entrou no mundo dos orgânicos. A Plantus vende óleos essenciais, muitos deles de produtos do Norte do país. Esta ideia de que a economia da Amazônia pode ser pujante com suas árvores de pé é muito interessante e deveria ser melhor avaliada e explorada. Crer na soja como elemento de desenvolvimento para a região Norte do Brasil e seu povo é de um primarismo que eu imaginava já superado. Não. Infelizmente esta visão, que simboliza um modelo que foi mas nunca deveria haver sido, está vigorosa e tem no atual governo e seu mal informado ministro do meio ambiente um defensor. Lástima.
Açaí bombando, esta empresa é de Porto Rico
Bom, me deprimi agora, falando sobre isso. Acho que vou ter que caminhar um pouco mais, comer uns chocolates, uns queijinhos e quem sabe tomar uma taça de vinho. Tudo isto orgânico e de graça... pensa se eu gosto!
Hoje à noite tem uma tradicional janta na própria feira, meio que de despedida. Comilança orgânica para mais de mil pessoas. Amanhã a Biofach funciona à meia pressão, muitos expositores desde cedo se preparando para regressar à casa. Mais uma edição terminou, quem sabe ano que vem retorno. Agora é regressar ao trabalho cotidiano e dar um jeito deste ano ser um bom ano, mesmo com perspectivas pouco alvissareiras.
Castanha do Pará, stand da Bolívia


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Nuremberg, 14 de fevereiro de 2019

Biofach bombando. Bioland é uma importante associação alemã
de produtores orgânicos
Segundo dia de Biofach, uma feira mundial de produtos orgânicos. Sua edição principal ocorre sempre nos meses de fevereiro em Nuremberg, mas existem edições menores e regionalizadas no Brasil, EUA, India e China. Visitá-la é um pouco ver a Disneylândia da agricultura orgânica: tudo bonito, bem organizado, qualidade acima da média e apostas seguras no futuro do setor.
Área específica para veganos na feira. 
Uma das notícias que temos sempre na Biofach são os números atualizados do desenvolvimento da Agricultura Orgânica ao redor do mundo. Ontem comentei que o mercado em 2017, última referência que temos, foi de 97 bilhões de dólares. Um aumento da ordem de dez por cento comparado a 2016. Já o crescimento da área cultivada com produtos orgânicos foi mais significativo: 20%. Saltou de 58 para 70 milhões de hectares.
Muitos cogumelos nas feira.
Austrália segue sendo disparado o país com a maior área certificado como orgânica, impressionantes 36 milhões. Seguida da Argentina, com 3,4 milhões, China com 3,02 e Espanha com 2,08. EUA está em quinto lugar, com 2.06 hectares reportados como orgânicos. 
Quem acompanha o setor sabe que no caso da Austrália são grandes fazendas pecuárias, enormes extensões e baixíssima produtividade. No caso da Argentina não é tão diferente. Se quisermos ser duros podemos falar que certificam desertos de avião e chegam a estes números. Na Austrália, 9% de sua área considerada agrícola é certificada como orgânica. Para termos uma referência, nos EUA, que tem metade do mercado mundial de produtos orgânicos, apenas 0,6% da sua área é certificada como orgânica. Relativo ao Brasil, este estudo afirma que 0,4%, da área agricultável é orgânica. Pode ser, mas não me arrisco a garantir isto, baseado na pouca informação que temos. Creio que este número está um pouco subestimado. 

Cerveja aromatizada com maconha.
Galera quer aproveitar a onda...
Números de um determinado setor para revelarem algo devem ser cruzados, sempre. Não é meu objetivo neste blog exaurir o assunto. Mas vou contar que Liechtenstein é o país com maior percentual de área orgânica no mundo: 38%. Mas é uma país muito pequeno, com apenas três mil hectares de áreas cultiváveis. Assim, me diz mais que Itália tenha pouco mais de 15% certificado como orgânicos, estando em sétimo lugar no mundo neste quesito. Os italianos já tem quase dois milhões de hectares cultivados organicamente, o que coloca-os em sexto lugar na lista dos países com áreas certificada como orgânicas. E isto é algo que se vê aqui na feira, produtos italianos são quase maioria, perdendo apenas, obviamente, para os alemães.
Voltando à lista dos países com maior percentual de área orgânicas, em segundo lugar está Samoa, com 37,6%, seguido de Áustria com 24%, Estônia com 20,5%, Suécia com 18,8%. Em sexto lugar o pequeno e charmoso país São Tomé e Príncipe, com seu café e cacau de alta qualidade. Dezoito por cento da área agricultável destas ilhas que ficam no continente africano são orgânicas. Aliás, hoje comi um chocolate 75% cacau, de uma fábrica alemã, Kakao, matéria prima de São Tomé e Príncipe, delicioso. Aqui cada vez mais os chocolates identificam a origem da matéria prima.
Cadeia que aposta nos produtos orgânicos sem
embalagens plásticas: www.ekoplaza.nl/
Amanhã falo um pouco sobre número de agricultores considerados orgânicos ao redor do mundo. Mas vou adiantar algo, mais uma vez para demonstrar como números devem ser cuidadosamente analisados para dizerem algo que seja mais conforme à realidade. Na Austrália são dois mil produtores. Ou seja, 18 mil hectares em média, por produtor. Na Índia são 835 mil produtores. Sua área de produção orgânica é de 1.780.00 hectares. Pouco mais de dois hectares por produtor. Vou repetir: cada produtor orgânico Australiano tem em média 18 mil hectares. O indiano, 2. Também este número tem que ser analisado, não é por isto que um está nove mil vezes mais rico o que o outro, mas nos fala algo sobre o mundo!
Faltam só 1680 produtos, de 5000,
para ser um mercado livre de plásticos
Algo interessante que vi hoje na feira foi o stand de um mercado holandês, que pretende ser plastic free, ou seja, livre de plásticos. Sempre bom ouvir isto... a cada dia eles avançam nesta proposta, e colocam um grande painel na frente da loja e na página web falando dos seus avanços. Comercializam cinco mil itens e agora só faltam 1680 para atingirem seu objetivo. Eles apoiam também os fornecedores para que estes possam trocar suas embalagens no sentido de se libertarem do plástico.  Legal né? O mundo agradece.
No fim do dia, como sempre ocorre nas quintas-feiras, alguns estandes oferecem comidinhas e bebidinhas a amigos e clientes. Orgânicas, claro. Hoje inclusive a festa do FIbl foi turbinada, exatamente para comemorar vinte anos de trabalho nestas estatísticas da agricultura orgânica. Eles merecem festejar, sorte minha estar na hora e local certo.
Amanhã conto mais!
Linda banca espanhola de verduras

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Nuremberg, 13 de fevereiro de 2019



Visual do stand com produtos da África, ao fundo, 
stand da região de Piemonte
Outra vez estou na Biofach, a feira de produtos orgânicos mais importante do mundo. Ocorre todos os anos, em Nuremberg, Alemanha. Venho sempre para ver as tendências novas, conversar e analisar como anda o movimento de agricultura orgânica ao redor do mundo.
Veganos na Biofach
Para começar, vou repetir que esta feira, de cara, com seus 30 mil metros quadrados de área, serve para demonstrar o quão equivocada é a pergunta se é possível produzir este ou aquele produto, nesta ou naquela quantidade, com boa produtividade e sucesso econômico, usando as técnicas da agricultura orgânica. Vindo aqui pode-se ter a dimensão da pujança deste setor, que em 2019, deverá movimentar cerca de 120 bilhões de dólares. Quase todos os países do mundo estão aqui representados, e a diversidade, quantidade e qualidade dos produtos comercializados impressiona qualquer um.
Sei que falar que uma pergunta é equivocada guarda uma dose de arrogância. Mas conheço minha área de atuação profissional e sei que muitos que fazem este questionamento escondem seus reais interesses, isto é, duvidar da viabilidade técnica da agricultura orgânica e manter seu lucrativo mercado de produção e comercialização de venenos agrícolas.
A onda desta banca é beterraba - promovem seu consumo,
de diferentes formas
Neste primeiro dia de feira, que tem quatro de duração, caminhei muito buscando o que meus olhos sempre buscam neste momento: novas tendências. Confesso que não achei. Em outros anos vi esta feira adiantar a onda do sem glúten, do vegano ou dos “superfoods”. Hoje vejo tudo isto aqui consolidado e, assim, não sinto que pode ser chamado exatamente de novo.
Como sempre, no primeiro dia, Ifoam - Organics Internacional , organização com membros em mais de cem países e Fibl, importante instituto de pesquisa Suíço, lançam os dados sobre agricultura orgânica no mundo. Assim, hoje tivemos acesso aos números de 2017. Acompanhar estas informações é muito oportuno para irmos analisando onde estamos, a evolução do setor e refletir sobre caminhos a serem seguidos.
Julia Lernould apresentando os dados da agricultura
orgânica no mundo
Começando pelo número mais importante, o mercado mundial de produtos orgânicos foi estimado em 97 bilhões de dólares em 2017. Um aumento de dez por cento em relação ao ano anterior. Para uma referência histórica, em 2003 o número global era de 25 bilhões de dólares, em 2008, 50,9 bilhões e, em 2013, 72 bilhões de dólares.
Voltando a falar dos números hoje apresentados, 2017, o que mudou pouco é a presença da América do Norte no mercado mundial de produtos orgânicos, principalmente EUA, que concentra 50% deste valor. Europa tem 42% do total, e todos os outros países do mundo somados detêm 8% do mercado de produtos orgânicos. O primeiro entre os europeus é a Alemanha, que movimentou 11,3 bilhões de dólares em vendas de produtos orgânicos seguido da França, com um mercado de 9 bilhões de dólares. O fato é que este é o setor que mais cresce dentre os alimentícios, com impressionantes oito a dez por cento ao ano.
Amanhã falo mais de números.
Bolsinha sendo distribuída!
Mudando de assunto, nesta feira sempre ouço coisas interessantes. Hoje, em uma reunião com Flávia, da Ifoam, soube que ela foi convidada a participar em uma reunião em Londres, para discutir sobre “Fair Trade options for Cannabis”, ou “ Opções de Comércio Justo para Cannabis” e os organizadores queriam saber mais sobre os Sistemas Participativos de Garantia como instrumento de avaliação da conformidade destes produtos, buscando que o comércio ilegal possa transitar para caminhos legais que permitam a venda de um cultivo que é importante fonte de renda para produtores em muitas regiões do mundo. O detalhe é que, como o uso da legal da cannabis é prioritariamente medicinal, a produção orgânica destes produtos é um requisito. Este mundo é cheio de histórias...
Fora tudo isto, provar chocolates, queijos, biscoitinhos e dezenas de outras guloseimas mais. A curiosidade do dia ficou para uma geleia de azeite de olivas. Boa, doce, com gosto de azeitona ao fundo. Espanhol é assim, vê olivas por onde anda.
Tá bom por hoje, amanhã conto mais. Adianto que a área com produção orgânica cresce 20% de um ano ao outro, atingindo agora 70 milhões de hectares.
Restaurante do meu hotel, onde jantei, super local, um espetáculo!!!
Seis da tarde, fim da feira. Hora de sair dos pavilhões. Lá fora noite estrelada e temperatura de dois graus. Vamos comer no hotel mesmo, que é muito simples, mas tem um belo restaurante, frequentado por pessoas locais, com comidas tipicas da Bavária, da Franconia e Austríaca. Bom demais!