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sábado, 8 de setembro de 2018

San Jose da Costa Rica, 03 a 07 de setembro de 2018


Teatro Nacional, centro de San Jose, Costa Rica
Passei esta semana na Costa Rica. Falando assim o que surge na cabeça de quem ouve é sol, praia, ondas. Pois não vi nada disto. Toda a semana entre reuniões e um Seminário intitulado Mercados para Produtos Ecológicos, na Universidade Nacional, campus de Heredia, uma cidade ao lado de San José, a capital do país.
Adorei esta estátua: La Chola, feita em bronze por Manuel
Vargas, pesa 500kg e tem mais de dois metros
Já estive por qui várias vezes e definitivamente não justifica visitá-lo pela sua capital ou pelas outras cidades que a rodeiam. Como normalmente mencionam as propagandas turísticas do país, vir aqui vale a pena, e muito, se for para conhecer suas praias e vulcões. Pois desta vez não rolou.
  De segunda até hoje, sexta-feira, o que fiz foi trabalhar e tomar café. Aliás, o café aqui é invariavelmente bom. Para quem gosta, um deleite à parte. E isto não apenas por condições ambientais favoráveis. Estas ajudam, mas existe um árduo trabalho para se alcançar a excelência, e aí que entra o esforço. Há anos o país tomou a decisão de se fazer conhecer pelos cafés especiais, o que pressupõe uma série de decisões de caráter político. Por exemplo, aqui é proibido plantar café robusta. Vou explicar. O Brasil é o maior produtor de café arábica do mundo. Arábica é o café de melhor qualidade, com mais sabor e aroma. Por suas características,exige certa altitude para produzir plenamente, sendo de 1200 a 1500 metros a ideal. Por isto no Brasil produzimos bom café em regiões serranas, em Minas Gerais, São Paulo ou no Espírito Santo. Para alguns pode ser uma surpresa, mas em serras de alguns estados do Nordeste, como o Ceará, também se produz café de qualidade. O Robusta é outra planta, uma outra espécie, que também é considerada um café. Normal, existem outro exemplos onde diferentes espécies, com seus respectivosnomes científicos recebem o mesma nome comum. Aroz ou feijão, para citar dois exemplos muito comuns, também são denominações para diferentes espécies, como o arroz agulha ou arroz cateto. 
Arábica, maduro.
Bem, o café Robusta é uma planta muito maior, muito mais produtiva e adaptada a regiões mais quentes. Não necessitam desta altitude que mencionei para produzir bem. No Brasil, além do arábica, produzimos grande quantidade de café robusta. Somos os segundo maior produtor do mundo, perdemos apenas para o Vietnã. Assim, a maioria dos cafés que achamos em um mercado no Brasil são uma mistura de arábica, por vezes de baixa qualidade, com robusta. Por isto podemos comprar um café por vinte reais o quilo, às vezes menos. É a alta produtividade do Robusta que permite praticar este preço. Um café 100% arábica, mesmo não tão selecionado, sempre custará mais. Pois bem, voltando ao início deste parágrafo, a Costa Rica proíbe o plantio de Robusta. Para não correr o risco de baixar a qualidade e manter um bom posicionamento no mercado para o seu café. Esta prática não é incomum em dadas situações. O Chile, por exemplo, proíbe o plantio de variedades de uvas que não sejam bem qualificadas para a produção de vinho. 
Visual desde o Café do Teatro Nacional. 
Já que comecei, vou falar mais um pouco do café. Sabe quanto este grãozinho que, conta a história, teve seu uso descoberto na Etiópia, por uma pastor que notou que suas cabras ficavam saltitantes após se alimentar dos frutinhos vermelhos de um arbusto, movimenta por ano em termos econômicos? Duzentos bilhões de dólares. Sim, não exagerei, é isto mesmo. Sacou porque a Nestlé é doida em café? Porque ela elegeu água e café suas prioridades? Cerca de 15% deste mercado mundial de café está nas mãos da Nestlé. E ela quer mais. Recentemente fechou um acordo com a Starbucks, a gigate das cafeterias. Irá distribuir os cafés Starbucks em supermercados. Valor da transação: 7,2 bilhões de dólares. As grandes empresas, Nestlé não é a única, apostam que bebidas à base de café substituirão os refrigerantes, que por motivos óbvios tem seus dias contados. A Coca-Cola ainda não te contou isso? Pois ela sabe, já comprou algumas marcas importantes de café nos EUA.
Café sombreado na Costa Rica. Esta foto tirei em 2010.
Já que meu mundo é da Agricultura Orgânica, vou acrescentar que cerca de dez por cento do café produzido no mundo é certificado como orgânico. Mas existem vários selos que se enquadram nos chamados VSS, sigla em inglês para Normas Voluntárias de Sustentabilidade. No total, mais da metade do café do mundo está certificado por alguma destas normas. O setor do café pretende ser a primeira cadeia de produção a ser toda ela considerada sustentável. Enfim, o café é um mundo à parte, entendê-lo é para profissionais. Tenho amigos que passam a madrugada vendendo ou comprando café, beneficiando-se de determinados horários em função das aberturas das bolsas de mercadorias ao redor do mundo.
Mercado de frutas e verduras no centro de San José
Bom, deixando de falar do café, cou obrigado a registrar aqui neste post que Helena, minha filha que vive no México, veio me visitar. Não sei se ela opina igual, mas estarmos juntos é muito melhor do que ver praia ou vulcão. Ela chegou hoje e fui obrigado a matar o trabalho, na parte da tarde, para passearmos pelo centro de São José. Não é particularmente bonito, mas, como sabemos, o que importa é a companhia. Nos divertimos. Comemos comida catalã e tomamos um bom café, ops, apareceu de novo, na Cafeteria do Teatro Nacional. Belo lugar.
Amanhã saio ao campo antes das seis da manhã. Não sei porque, mas tenho a intuição que minha filha não vai comigo...


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 07 de fevereiro de 2013.

Vulcão Poás, ao fundo, à direita, nuvens e no
 horizonte o mar caribe.
        Ir ao Parque Nacional Vulcão Poás, foi minha principal atividade do dia de hoje, minha despedida desta breve semana aqui na Costa Rica. O vulcão Poás é, dentre os quatro que existem neste país (os outros são Irazu, Arenal e Turrialba), o que tem a maior cratera. Tem 1700 metros de diâmetro. Nela se formou um lago, cor turquesa, que tem uma das águas mais ácidas do mundo, podendo seu ph chegar a quase zero em algumas ocasiões.
Para ver este vulcão é importante que o céu esteja limpo, porque pela sua altitude, 2500 metros, é comum que as nuvens impeçam que vejamos o lago. Mas como a vida costuma me tratar bem, o dia hoje amanheceu lindo e durante o tempo que passei lá não tinha nenhuma nuvem impedindo a vista. O vulcão está ainda ativo, e do lago sai uma fumaça com forte cheiro de enxofre. Do local que observamos o vulcão se poder ver o mar do Caribe no horizonte. Visual de primeira.
Lago Boto
Ao lado do Poás tem outro lago, chamado Boto, que é o nome da etnia indígena original desta área. Os Botos. Lindo também, rodeado de verde. Deste lago podemos fazer uma caminhada de 1800 metros em direção à entrada do Parque. No meio da floresta, neste caso um bosque tropical nublado (significa que está sempre cheio de nuvens), onde pude ver esquilos, alguns pássaros, muitas árvores e algumas folhagens enormes. Olhem a foto que postei abaixo da folha de uma samambaia.
Raízes aéreas
A sensação que tive andando por esta trilha é que a vida aqui fica enlouquecida com a quantidade de nutrientes originários do vulcão, o sol intenso e a chuva constante. E brota por todos os lados. Raízes aéreas aos montes, que são mais comuns em manguezais, onde são usadas pelas plantas para se fixarem melhor no solo encharcado. Aqui não saquei porque tantas destas raízes, acho que deve ser principalmente pela umidade do ambiente.
O passeio me lembrou do Planeta Simbiótico, um livro genial. Escrito por Lynn Margullis, ela basicamente defende a tese de que a vida se instalou no planeta pela cooperação e não pela competição. Pela simbiose, um cooperando com o outro. Não é o mais forte que sobrevive, mas sim aquele que mais se afina com a lógica da interdependência. No meu passeio de hoje quase pude ver este sentido de colaboração e interdependência presente quase sempre na natureza. Seria legal viver em uma sociedade simbiótica.
Luz no fim da floresta...
E de tarde ainda tive tempo para umas comprinhas pelo centro de Alanjuela, principalmente cafés, já que estou na Costa Rica. Legal o centro da cidade, bem simpático, passeei pela praça e vi a Igreja. Agora já estou no aeroporto, daqui a pouco meu voo decola. Faço um pit stop no Rio de Janeiro, em pleno carnaval e em quatro dias já embarco para a Nuremberg, Alemanha. Não disse que a vida me trata bem?
Da Alemanha conto mais.

eu e o vulcão Poás
eu e o esquilo nos conhecendo
Praça e Igreja, Alanjuela
folha de uma samambaia. enorme.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 06 de fevereiro de 2013.


Refeitório da finca fila la marucha. Quer mais?
Começamos bem o dia, com uma visita a uma montanha perto do sítio que estamos e um agradável banho de rio, em um lugar bastante isolado, apenas nosso pequeno grupo estava por lá. Voltamos às dez da manhã, nos reunimos para as conclusões da reunião, fotos de despedida, ultimas observações. E logo depois do almoço já estávamos prontos para voltar para Alajuela.
Não tinha comentado ainda, mas a comida aqui é muito boa, nossa anfitriã comanda a cozinha com requinte. Nestes três dias comemos gallo pinto, prato local que para um brasileiro é um mexido de arroz e feijão, massa italiana, atum fresco e hoje, como grand finale, comida indiana. Um frango ao curry sensacional.
euzinho, visual da praia em Quepos, foto 
da minha amiga Faviana.
Bem alimentados, enfrentamos quase seis horas de viagem, justificadas por uma parada de duas horas em Quepos, um balneário conhecido, no pacífico sul do país. Apenas passeamos um pouco e ficamos conversando em um pequeno parque com uma linda vista para o mar. As praias por aqui são realmente lindas. Depois fomos a uma sorveteria e cafeteria. Fui obrigado a explorar todo o potencial do lugar e tomar um sorvete de gianduia seguido de um expresso curto.
Ainda sobre Quepos, me explicaram que a principal atração daqui é o Parque Nacional Manuel Antônio, que guarda algumas das praias mais bonitas do país. Mas este eu vou ver numa próxima oportunidade, hoje não deu. Costa Rica é um país pequeno, são cerca de 50 mil km², e 25% do país é constituído por parques e reservas nacionais. É uma viagem e tanto conhecê-lo, alugando um carro e recorrendo ele de ponta a ponta. Mar dos dois lados, belezas naturais, povo amigável e relativamente seguro. Super recomendo.
E a viagem ainda foi acompanhada por um lindo pôr-do-sol no pacífico. Boa parte da estrada é costeando o maior oceano do planeta. Para um brasileiro ver pôr-do-sol no mar não é tão comum, e ver a bola de fogo que vi hoje se apagando ao contato da água é um visual impagável. Pena que não tenho foto, não quis pedir ao motorista para parar apenas para eu tirar fotos. Mas já me arrependi, deveria ter pedido.
Chegamos a Alajuela por volta das sete da noite, no mesmo hotel que fiquei no dia em que cheguei, Los Volcanes, e ainda tivemos tempo para jantar em um restaurante Peruano. Pedi um camarão com um molho picante, acompanhado de uma cerveja Cusquenha, também Peruana, para dar por encerrado o trabalho por aqui. Amanhã, dia de voltar para casa.
Praia em Quepos

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 05 de fevereiro de 2013.


Keep Walking
O dia começou cedo, um belo café da manhã na mesa que fica na varanda em frente ao bosque. É que aqui nesta propriedade, tudo é bosque. Depois do café, fomos dar uma volta, com Milo nos explicando como funciona seu sistema de floresta análoga. Como havia dito, se trata de imitar, mimetizar a natureza, mas na medida do possível com espécies de interesse. Como em uma região tropical chuvosa o ecossistema natural é uma floresta, ao buscar imitá-lo esta propriedade se tornou uma floresta. E desta floresta a família vai tirando comida, lenha, remédios, sombra, paisagem, renda.
grupo visitando a finca
Fomos passeando e ele nos mostrando sua finca. Canela, cúrcuma, gengibre, pimenta do reino, noz moscada, baunilha, cardamomo e várias outras espécies muitas das quais ele seca e/ou extrai óleos essenciais. Me chamou atenção conhecer o pachuli, a planta indiana, que originou o famoso perfume dos anos setenta, depois saiu da moda, mas ainda tem seu uso, em perfume mesmo ou incenso, velas aromáticas, coisas do gênero. Como ainda tem bom mercado, aqui também se extrai seu óleo essencial.
Caminhando e admirando a exuberância da floresta por aqui não pude deixar de lembrar de Woody Allen em Sonho de Cassandra: “é engraçado como a vida tem sua própria vida”. Sim, é engraçado isto. E aqui, no trópico úmido, com solos de alta fertilidade, no meio da floresta, sentimos por todos os lados a força da vida. Não existe uma pedra sem musgo, uma árvore sem bromélia, um pedaço de maneira sem colônia de fungo.
a sala de reunião, rodeada de bosque
E depois desta caminhada, passamos a tarde discutindo a aplicação dos SPGs neste esquema que eles chamam de floresta análoga. Argumentamos – Mathew John, o indiano, Jannet Villanueva, a peruana, e eu –, que as normas a serem seguidas para que produtos deste esquema sejam certificados devem ser simplificadas, mais preocupadas com a forma do que com o conteúdo. E que deve ser sentido um desejo real dos agricultores em implementar um SPG. Nestas e em outras discussões de trabalho, e algumas outras palestras sempre ao redor dos objetivos do seminário, passamos nossa tarde.
No inicio da noite, uma agradável janta, e depois uma fogueira na casa de Milo, nosso anfitrião, que descobri ser um ex-surfista californiano. De madeira, no meio do mato, toda astral, com um pequeno templo budista em seu interior. Ficamos por ali, entre boa conversa, tranquila, sobre os diferentes mundos onde cada um de nos vivemos, do Canadá à Índia, passando por Peru, Brasil México, Costa Rica.
Confesso que lugares como esta propriedade mexem comigo. Saí da universidade e fomos morar em uma propriedade rural, Ana e eu, onde ficamos 11 anos e tivemos três filhos. Saímos para uma pequena cidade, tivemos mais um filho, vivemos bem ali, mas a vontade de morar num sítio voltou a se fazer presente. Enfim, veremos.
A noite passada eu dormi muito bem. Sons da natureza, temperatura agradável, espíritos da floresta velando por nosso sono e sonhos. Espero que se repita, boas noites de sono tem sido artigo raro para mim, e durmo só mais esta noite aqui. 
área manejada com o conceito de floresta análoga

Costa Rica, 04 de fevereiro de 2013.

Paisagem do restaurante Brisas del Nara, em Londres,
Costa  Rica. Nara é o morro mais alto das redondezas.
Cheguei ontem à Costa Rica. Estou aqui para uma reunião que busca analisar a possibilidade de usar os Sistemas Participativos de Garantia para avalizar produtos oriundos dos sistemas florestais análogos. Parece complicado, mas não é. SPGs é uma metodologia que busca garantir, de forma participativa, que um produto ou serviço é o que ele diz que é. Sistemas florestais análogos é o cultivo de plantas, principalmente perenes, tendo a natureza do local como sua referencia, como seu padrão. O adjetivo análogo se refere à natureza. Organizam-se os cultivos florestais buscando imitar a natureza. Coisa de índio. Os povos locais quase sempre operavam, ou ainda operam, assim.
Esta noite passada eu dormi em um hotel em Alajuela, que é a cidade onde fica o aeroporto, a capital da província de mesmo nome, contígua a San Jose, capital do país. Alajuela é uma cidade importante, com mais de 250 mil habitantes, e é perto do vulcão Poás, um dos pontos turísticos do país. Quem sabe no meu último dia aqui consigo ir vê-lo.
Hoje deixamos o hotel de manhã cedo em um pequeno grupo rumo a Londres, na província de Punta Arenas, no pacifico sul do país. Saímos de mais de 2000 mil metros para quase o nível do mar, exatamente descendo a cordilheira vulcânica que perpassa todo o centro do país. Paisagem linda. Viemos de Van, nove pessoas. Diversificadas. Uma mexicana, uma canadense, uma peruana, um indiano, um brasileiro (este que vos fala) e quatro costarriquenhos.
E chegamos à finca Fila La Marucha, em uma região de floresta tropical, onde chove mais de 6400 mm por ano. Apenas como referência para quem não está acostumado com números de precipitação anual, em São Paulo chove uns 1300 mm por ano.
Eu na sala de trabalho, pela noite.
E aqui estou, oito da noite, depois de uma tarde de conversas e debates sobre o tema que falei acima. O lugar é muito agradável, as construções, alojamento, cozinha e sala de reuniões são literalmente no meio da floresta, floresta esta que Milo, o norte-americano que é nosso anfitrião, e sua família, construíram a partir da área de pastagens na qual eles se estabeleceram há acerca de trinta anos. E as construções novas foram todas feitas com madeira que eles próprios plantaram. Meio do mato, um rio correndo aqui do lado, chuva intermitente, noite escura, barulhos de cigarras, rãs e outros que não identifico, um monte de vagalumes embelezando a noite e eu aqui na net. Show!
Como curiosidade, vou contar algo. Esta é a primeira propriedade certificada orgânica do país. Foi certificada em 1991, porque uma importante empresa local, a Café Britt, queria a baunilha que eles produzem aqui. A baunilha é o segundo cultivo mais caro do mundo. Qual o primeiro? Açafrão. Interessante, né? Gostei de aprender isto. Amanhã cedo vamos fazer uma visita guiada pela propriedade, aí conto mais sobre ela. Agora são quase nove, vou dormir, está ficando tarde. 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Costa Rica, 07 de novembro de 2011

Isla de las Tortugas, Costa Rica
Ontem cheguei cansadíssimo, quase dez da noite, e nem tive vontade de escrever, o que é raro. Passei o dia todo entre viagem e praia. Como depois de uma semana de trabalho estava cansado, decidi não alugar carro e viajar sábado e domingo e sim contratar uma excursão para a Isla de las tortugas. É bom às vezes pegar estas excursões para me lembrar de que não gosto. Passar de hotel em hotel, parar em lugares de compras desnecessários, fazer tudo junto com desconhecidos... não é minha praia. Mas a praia que fui ontem sim, entra para a lista de minhas praias. Paradisíaca.

Canto da Isla
A Isla de las tortugas é um das mais de dez ilhas do Golfo de Nicoya, que fica no pacífico norte da Costa Rica, e se caracteriza por uma vegetação de bosque tropical, que chega praticamente até o mar. Sair da água, passar por 20 metros de areia branca e já estar em uma floresta é sensacional. Fiquei alternando entre mar, sol na areia e sombra na floresta. Como não conhecia ninguém, me fiz acompanhar de uma Imperial, a cerveja mais tradicional da Costa Rica. Ela ajudou bem a compor o cenário da ilha e do meu domingo de relaxamento.

Entre ir e voltar, 3 horas em um catamarã. Musiquinha caribenha, sol, mar, bebidinhas e comidinhas a bordo. Que mais? Mais nada, tá bom assim.

Restaurante na Isla
Valeu muito, o local é lindo, compensou o desgaste das 5 horas de ônibus. Mas dá próxima, fico com a ilha e deixo a excursão!

Este foi meu domingo, agora, já segunda de manhã, para me despedir, vim escrever aqui do jardim do hotel. Já comentei que é lindo, e chega a ser uma atração turística, com pessoas locais ou hóspedes de outros hotéis vindo visitá-lo. E os caras ainda tiveram a sacada de meter sinal de internet em uma parte do jardim, que é onde estou agora. Flores para todos os lados, sol, vento soprando baixo, temperatura agradável. Com o computador na mão achei Marisa Gatamansa cantando “Viagem”. Óh, poesia me ajude, vou colher avencas, lírios, rosas, dálias...

O jardim e a musica me trazem uma doce melancolia. Acho que são os 15 dias longe dos meus, das minhas coisas, do meu cotidiano. Viver com asas é bom, mas as raízes fazem uma falta...

Daqui a pouco saio para o aeroporto, meu amigo Manuel Amador me leva. Passo por Lima e de lá pego um voo direto para Porto Alegre. Não ter que passar por São Paulo, o que é raro, torna a viagem muito mais digerível. Bom, vou nessa, acabar de arrumar malas. A próxima é La Paz, no final do mês.

Orquídeas, Jardim do hotel
Heliconea, Jardim do hotel

domingo, 6 de novembro de 2011

Costa Rica, 05 de novembro de 2011

Feria Verde - San José

Ontem foi um dia cheio de trabalho, que ainda se estendeu até hoje ao meio-dia, já que terminamos o curso com uma visita a duas feiras de produtos ecológicos que acontecem em San Jose aos sábados pela manhã. Uma se chama “El Trueque” e a outra “Feria Verde”. Estilos diferentes, mas as duas são interessantes, ainda que modestas para o que estamos acostumados a ver em alguns lugares do Brasil.
Feria El Trueque, San José
Esta primeira feira, El Trueque, eu possivelmente a tenha visitado umas seis vezes desde que foi criada, há uns dez anos. Continua muito parecida com o que era no início. Posso estar equivocado, mas acho que é um quadro que já vi em outros lugares. Os agricultores que inauguram a Feira acabam se apoderando dela, dificultando a entrada de novos membros. Normalmente as justificativas são relativas a preocupação com a qualidade orgânica dos produtos, mas a real é o receio de dividir um espaço privilegiado de comercialização, imaginando que isto poderia diminuir suas vendas. Pena, mas de certa forma óbvio, quase natural. A solução é que alguma força externa, como uma ONG ou o poder público, tensione para quebrar este compreensível sentido de corpo dos agricultores.
Depois das despedidas de praxe, busquei um lugar para ir que pudesse me ajudar a fugir do sentimento de vazio que fica quando ficamos sozinhos depois de uma semana envolvido com um grupo. Já estou acostumado, mas até por isto uso estes antídotos.
Escolhi o centro de San José, que na real não é muito atraente. Mas tinha gente, que era o que eu buscava. Fui ao Mercado Central, sempre gosto destes mercados, mas confesso que às vezes os produtos chineses junto a artesanatos e comida de baixa qualidade descaracterizam um pouco estes espaços.  Este é, ao menos em parte, o caso do de San José.
Bar/Soda Chelles - San José
Depois de caminhar por um centro de cidade lotado e pouco interessante, fui buscar um lugar para comer. A primeira opção era o Pátio do Balmoral, estilo mais internacional, amplo, bonito e agradável apesar de estar no meio do tumulto. A segunda era o Chelles, um bar/restaurante pequeno, tipo popular, antigo, inaugurado em 1909, meio decadente, mas ainda com bonitos móveis de madeira. Adivinha qual escolhi? O Chelles. Queria comer algo costarriquense e tenho a tendência a achar que os restaurantes internacionais pasteurizam um pouco o sabor da comida regional. Os mais locais tem uma tendência a manter as características de sabor dos pratos. Comi um casado, prato típico daqui, com arroz, feijão, bife, banana frita e salada. Bom. Só bom.
Casado, prato típico costaricense
Cheguei ao hotel no meio da tarde, ainda em tempo de ver o Botafogo perder do Figueirense. Eu mereço! Acompanhado de um chocolate com pimenta, sem leite e soja, 70% cacau, biodinâmico. Eu mereço.
Para terminar o dia e de certa forma a semana, já que hoje terminou o trabalho, fui tomar algo na casa do coordenador da instituição que me convidou para estar aqui. Voltei cedo, às onze, mas tarde para quem amanhã sai às cinco e meia do hotel. Tenho passeio de barco e banho de mar no pacífico. Show né?

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Costa Rica, 03 de novembro de 2011.

Aula sobre Agricultura Orgânica.

Para cantar nada era longe, tudo tão bom. Até a estrada de terra, na boleia de um caminhão.
Mais um dia muito legal de ida ao campo. Hoje fomos visitar a propriedade Los bobos, da família de Minor e Jeannte, que fica no cantão de Aserri, província de San Jose. Levamos mais de duas horas para chegar. A última parte do trajeto fizemos na boleia de um caminhão, em uma estrada que alternava subidas e descidas fortes, muitas vezes costeando, com não mais que um metro distancia, o rio ou o precipício. Bonito, divertido, emocionante. Mas talvez desnecessariamente perigoso.
Na boleia do caminhão
A propriedade fica entre altas montanhas, e vai de 800 até 1300 metros de altitude. Significa que ela é excelente para o Café, um dos seus cultivos principais. Esta é a região de Tarrazu, uma das mais famosas do mundo para café, pelos seus solos vulcânicos e por seu balanço entre latitude e altitude, o que significa alta insolação e temperaturas amenas. Nesta zona, 1200 metros de altitude são considerados ideais. Mais alto, o café pode ganhar em acidez e corpo, mas perde em leveza e aroma. Mais baixo, ao contrário, se torna mais suave e aromático, menos encorpado e ácido.
Café sombreado de Tarrazu
Depois de visitar o cafezal, ouvimos uma bela aula sobre a história com agricultura orgânica da família, que fez esta opção por preocupações ambientais e problemas de saúde. Almoçamos e fizemos o bonito e perigoso caminho de volta para ir visitar a fábrica de adubos da AFAORCA, associação à qual a família pertence. Significa Associação de Famílias Produtoras Orgânicas de Caraiagres, que é o nome de uma das montanhas da região. 
Por último, ainda tivemos o privilégio de ir à cafeteria da própria associação. Bonita, simples, de madeira, construída no alto de um morro, tendo um profundo vale como testemunha. Excelente café. A torradeira da AFAORCA fica no andar de baixo, o que faz com que o cheiro de café diga presente todo o tempo. Quem trabalha nela são os filhos dos sócios. Show de bola.
Cansativo, doze horas entre ir e voltar, mas muito legal. No nosso meio, da Agricultura Orgânica, sempre temos a preocupação de incorporar estas visitas na programação dos cursos. Ver a realidade concreta de quem está vivenciando a AO e permitir o intercambio de conhecimentos.  Afinal, segundo o poeta cantor, todo artista deve ir aonde o povo está.
De noite uma janta com alguns amigos. Comemos chicharones (normalmente torresmo, mas às vezes, como hoje, vem misturado com carne de porco frita) e aipim frito acompanhado de uma Imperial gelada. Boa a janta, muito bom o dia.

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Costa Rica, 02 de novembro de 2011.

Visual na estrada de Heredia para Zarcero, Costa Rica

Aqui na Costa Rica existe o dia de finados, mas não é feriado. Conclusão: O maior feriado no Brasil e o bonitão aqui trabalhando... bom, trabalhando força de expressão, porque hoje foi dia de visita de campo. Adoro as metodologias participativas, tipo cada um apresentar sua experiência ou trabalho de grupo, ou dia de campo nos cursos que dou. Me sinto ganhando sem trabalhar! Saí do hotel hoje às sete da manhã, depois de acordar as quatro, ficar no computador até as seis e ainda dar uma volta pelo belo jardim do hotel.
Fomos para o interior de Zarcero, cidade da Cordilheira Central do país. Cordilheira vulcânica, que está em todo o centro da Costa Rica. De um lado da cordilheira o Oceano Atlântico, do outro o Pacífico. Como diz um amigo meu daqui, um país de praia e vulcões! Por falar nisto, hoje teve um tremor em Guanacaste, praia do pacífico norte, de 5,7 graus... Chegou até onde estávamos, levemente... aiaiai... A viagem foi bonita, por estradas apertadas, sem acostamento, curvas intensas, subidas e descidas fortes, oscilando ao redor dos dois mil metros de altitude.
APODAR - Zarcero, Costa Rica
A visita foi em uma Associação de Agricultores Orgânicos chamada APODAR. Eles têm mais de 20 anos de trabalho, principalmente com hortaliças orgânicas. Hoje, depois de todo este tempo, são um grupo de 10 famílias, bem estruturas na produção, em sua organização e no mercado. Como principais produtores de hortaliças orgânicas da Costa Rica, vendem para as principais cadeias de supermercados do país. Possuem um centro de recebimento, armazenamento, embalagem e distribuição dos seus produtos.
Ainda tivemos tempo de visitar seus espaços de produção de adubo orgânico. Um mais caseiro, em uma propriedade, mas com alta dose de informação por parte do produtor. Outro maior, mais estilo de uma fábrica de adubos orgânicos, que uma Cooperativa local mantém. Esquema bom, profissional, podemos notar que a Agricultura Orgânica chegou na região, ficou, vem se expandindo e só vai ter mais e mais presença na vida da população local. Excelente exemplo!
Amanhã seguem as visitas à campo, no final do dia devo fazer um fechamento destes dois dias de visita. Arrisco dizer que não vai dar tempo. Estas visitas costumam demorar mais do que o acordado. O bom é que vou visitar café, produção e processamento. Adoro!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Costa Rica, 01 de novembro de 2011.


Curso de Agroecologia, Hotel Cibeles, Heredia, Costa Rica
Hoje já é terça-feira e nem parece que cheguei à Costa Rica ainda no domingo pela noite, depois de uma viagem tranquila desde Quito. O tempo voou. Nem cheguei tão cansado pela semana que passei no Equador, mas um pouco preocupado pela semana que tinha e ainda terei pela frente. O bom é que o mais pesado do curso pelo qual estou aqui passou. Ontem e hoje era comigo todo o tempo, nove horas por dia, mas agora teremos quarta e quinta de visita a campo, onde mesmo que eu siga trabalhando é sempre menos tenso e mais agradável que dar aula durante todo o dia.
O grupo é grande e diverso, o que complica a vida do professor, mas torna o desafio mais estimulante. Muitas vezes sou obrigado a falar a mesma coisa de diferentes maneiras. São 54 pessoas, a maioria agrônomos e lideranças de movimentos sociais ou dirigentes de cooperativas e associações. Nicarágua, Guatemala, Honduras, El Salvador e Costa Rica. Chama a atenção serem mais mulheres do que homens, isto não é normal nos espaços onde circulo.
Momento de intercâmbio de experiências no curso
Estou aqui à convite de duas ONGs. CEDECO, aqui da Costa Rica, velha conhecida, e o Centro Cooperativo Sueco (CCS), ONG de Cooperação Internacional, com sede na Suécia. O CCS tem presença, ou seja, projetos executados com seus recursos, nestes cinco países da América Central e está fazendo da Agroecologia um dos seus eixos de atuação. Este curso é como uma etapa para “colocar o tema sobre a mesa”, como eles me disseram. Ontem e hoje trabalhei o que pode ser chamado do aspecto mais técnico da agroecologia, manejo de solo, proteção das plantas e tal, amanhã e depois vamos ver experiências práticas, sexta mudança climática pela manhã e comercialização de produtos ecológicos pela tarde. Terminamos sábado em uma Feira de Produtos Ecológicos. Tá tudo bem, não me queixo, eu gosto de fazer este tipo de trabalho.
Estou em Heredia, cidade vizinha à capital, San José. Em um hotel chamado Boungainvillea, que tem a minha medida. Boa cama, bom quarto, bom café da manhã, e principalmente, um jardim sensacional, com dezenas de espécies de orquídeas, bromélias, helicôneas, rãs, pássaros, borboletas. Possivelmente duendes e fadas, mas parecem que não querem aparecer para mim, devo estar me comportando mal com eles.
Já estou meio cansado de estar longe de casa, saudades dos meus. Esta viagem para cá emendou com Equador, que já tinha sido pouco tempo depois de Coréia e China. Ossos do ofício. Por outro lado, trabalho que gosto de fazer, bom hotel, revendo bons amigos, sendo bem tratado. Filés do ofício.
Amanhã saio às sete da manhã, melhor dormir.