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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 17 de Janeiro de 2013.


Almoço no campo
Encontrei uma cidade para escrever meu livro. Samaipata. E um lugar para fazer minha viagem do autodescobrimento. O Forte de Samaipata.
Para uma descoberta tão importante, até que não viajei muito. Foram 130 km, para oeste de Santa Cruz. Em direção aos Andes, mas sem chegar nele. Subimos mais de 1000 metros, chegando a 2000msnm, em uma bela paisagem subtropical, com uma densa vegetação quase sobre pedra, indicando como a região é chuvosa. Durante parte da viagem costeamos um Parque Nacional bastante comentando por aqui, o Amboró.
Estrada de Santa Cruz à Samaipata
No meio da subida às vezes deparávamos com vales e cadeias de montanhas que se perdiam na distância. E é nesta paisagem, em uma das montanhas mais altas, que está o Forte Samaipata. Forte é como eles chamam este sítio arqueológico, patrimônio cultural da humanidade. Situado a uns dois mil metros de altura, o visual é lindo e o parque muito bem cuidado. O mais impressionante é uma pedra talhada, de uns 220 x 60m. Deixa eu tentar me explicar. São ruínas de uma cidade anterior aos espanhóis, provavelmente Inca, ou conquistada pelos Incas em algum momento. No meio desta cidade esta pedra enorme, uma espécie de centro cerimonial, onde eles foram desenhando seus símbolos, altares, lugares de rituais. Sempre talhando a pedra, e não construindo, trazendo pedras ou outros materiais, colocando coisa sobre coisa, como normalmente se fazia e ainda se faz. Diferente, tipo mais harmônico com o existente.
Local de cerimonia do Forte, esta é
 uma pedra monolítica, toda talhada
A mesma pedra, com estas espécies
 de altares. Talhados.
Hoje cedo recebi a notícia do falecimento de um amigo, e aproveitei o lugar para fazer minhas orações a ele. Difícil encontrar sítio mais adequado. Normalmente estes lugares tem uma energia boa, e este não é diferente, muito pelo contrário. Agradável, peaceful. Não é por nada que Samaipata significa “descanso nas alturas”. Lugar propício para descansar a alma, uma boa pedida para o momento. Meu e da humanidade. 
Nesta mesma região estão os últimos lugares onde Che Guevara passou, tendo sido assassinado na quebrada del Churo. Existem passeios que refazem seus últimos momentos. E não muito longe tem umas Missões Jesuíticas, dizem que bastante conservadas. Mas não visitei nem um nem outro, vai ficar para a próxima.
A cidade é o que a Hebe chamaria de gracinha. Como almoçamos na casa de uma agricultora que visitamos no caminho, aproveitamos para tomar um café e comer uma sobremesa em um restaurante em frente à praça da cidade. Às duas da tarde o silencio era notável. Deu vontade de ficar uns dias por ali, usando o tempo entre passeios pela região e leituras na praça.
Vou dormir, amanhã é meu último dia nestas paragens. Quanto ao livro e ao autodescobrimento, fica para outra hora. Falta sabedoria para um e coragem para o outro.
Visual do Forte de Samaipata
Ruazinhas de Samaipata
Cozinha em uma casa de agricultores da região

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 16 de janeiro de 2013.

Seminário sobre SPGs, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

Passei todo o dia hoje no seminário que organizamos aqui, nas instalações de uma ONG chamada CEPAC (Centro de Promoción de Agropecuária Campesina). Correu tudo bem e foi uma boa chance para me atualizar sobre o desenvolvimento da Agricultura Orgânica por esta parte do continente. Estiverem presentes mais de 40 pessoas, uma boa parte dela agricultores da região, algumas ONGs e associações.
Em países tão indígenas/campesinos como Bolívia, este esquema de agricultura orgânica, exageradamente normatizado, regulado e certificado não é muito sedutor. Mas por outro lado as condições socioculturais, quero dizer pobreza econômica e riqueza cultural, estimula a busca da agricultura orgânica em seu sentido mais genuíno e menos formal. E assim ela vai achando seu espaço e crescendo a seu modo.
Calçada simpática do centro da cidade
de Santa Cruz de la Sierra
Passado meu longo e pouco cansativo trabalho, arrumei tempo no fim do dia para dar uma volta pelo centro da cidade, ainda bastante quente. Só andei pelas ruas movimentadas, vi um comércio vigoroso, fazendo jus à maior cidade e maior PIB do país. E o povo comprando. Produtos, bens, coisas para todo lado! Novidades, vocês sabem, já não se acha mais, quase tudo made in China!
Com um dia com mais trabalho do que passeio, resolvi ir jantar em um restaurante típico, estilo turístico, mas cheio de gente local.  Como que para colorir o meu dia, já que o trabalho foi agradável, mas em preto e branco. Se chama La Casa del Camba  e é uma boa opção para sacar a gastronomia cruzeña. Cardápio variado, espaçoso, cheio. Comemos um menu local, no estilo vários pratos em pequenas quantidades. Estava bom, e de novo pedi Mocochinchi, o tal refresco típico daqui. Tinha musica ao vivo, tipo boleros e canções românticas brasileiras. Fiquei com pena dos cantores, parece que estavam meio deprimidos. Fui embora antes que tivesse que presenciar uma cena mais forte, tipo alguém cortando o pulso Ou que eu resolvesse cortar os meus... 
La Casa del Camba
Enfim, um dia sem grandes emoções. Mas quem precisa delas todos os dias? Às vezes é bom assim, mais tranquilito, né? 
O bom é que amanhã vamos ao campo, conhecer experiências de café, apicultura, controle biológico e ainda, de passagem, conhecer a cidade de Samaipata, que fica a 120 km de Santa Cruz e seu famoso forte, que consiste na maior pedra talhada do mundo, declarada pela UNESCO patrimônio cultural da humanidade. Depois de quase três dias de hotel, reuniões e seminários nada como um dia de visitas, pegar uma estrada, de leve, conhecer experiências locais e fazer um pouco de turismo. Boa combinação, amanhã conto como foi.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 15 de janeiro de 2013

Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra

         Hoje o trabalho foi leve, uma reunião pela manhã e outra pela tarde, preparando o seminário sobre sistemas participativos de garantia que realizaremos amanhã, por sinal a principal atividade desta semana.
Com um pouco de tempo, resolvi aproveitar a hora do almoço, e demos nosso único passeio do dia. E aproveitamos para almoçar em um mui simpático restaurante, chamado el aljibe. Assim mesmo, com letra minúscula. Creio que para manter o ar de simplicidade quase sofisticada que tem o restaurante. Comida típica, local, muito bem preparada. A casa tem 130 anos, mantém seu ar rupestre e uma decoração a caráter, lembrando bem uma casa de pueblo. Mas, como deve ser um restaurante, ainda que um ambiente agradável componha bem o cenário, o mais importante é a qualidade da comida. E gostei muito do que comemos.
Keperi al horno
Eu pedi um Keperí al horno, pedaço de leitão assado, acompanhado de arroz com queijo e um pouco de mandioca. Janneth, uma amiga Peruana que me contratou para esta consultoria aqui, pediu Majado de charque. Arroz com charque, ovo e banana frita. Ótimo os dois. Mas o leitão estava sensacional, à moda antiga, gostinho de casa da vovó. Quem quiser dar uma olhada no site do restaurante, é o http://www.elaljibecomidatipica.com. E o que tomei, para acompanhar? Vinho? Cerveja? Coca-cola? Nada disto, tomei Mocochinchi um refresco feito à base de pêssego seco, com canela, cravo da índia e açúcar, típico do ocidente boliviano. Delicioso, super-refrescante.
Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra, vista interna
E ainda passamos pelo Museu de Arte Sacra, que fica dentro da Catedral. Não gosto muito de arte sacra, que considero carregada e normalmente triste. Mas gostei de conhecer o Barroco mestiço, uma escola de arte que vi neste museu, expressada na forma de pinturas e peças em madeira ou prata trabalhadas com uma mescla do barroco trazido pelos Jesuítas e apreendido pelos nativos, que deram o seu toque. Bonito. Algumas peças em prata simplesmente impressionantes.
Acho que na verdade, todo nosso continente é meio assim, né? Mesclado, misturado, cruzado, amalgamado, fundido, mestiçado. Que bom, gosto muito disto. Se não fosse assim, um refresco a base de pêssego, cravo da índia, canela e açúcar não seria típico da Bolívia, né? Sim, acho que este refresco é um tipo de barroco mestiço também.
E no fim de tarde, aproveitando calor sem tréguas, ainda pude curtir a piscina do meu hotel caribenho encrustado no cerrado boliviano. Piscina, sauna seca e a vapor, sorvetinho para repor as energias. Como dá trabalho isto da agricultura orgânica. Por falar em trabalho, hora de dormir, amanhã tenho que moderar o seminário e justificar meus honorários!
Piscina do hotel Cortez, Santa Cruz de la Sierra

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 14 de janeiro de 2013

Catedral de Santa Cruz de la Sierra
Aqui estou na minha primeira viagem de 2013, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. A minha geração ouviu muito, lá pelos anos 70, Diana Pequeno decantar esta cidade: "Enquanto este velho trem, atravessa o pantanal, rumo à Santa Cruz de la Sierra...". Na real é a quarta vez que venho por aqui, mas sempre me sinto enganado. Não sei se por esta música, ou por estar na Bolívia, ou talvez pelo nome, "de la Sierra", mas sei que ela engana. Não se trata de uma simpática e charmosa cidadezinha dos Andes Bolivianos, mas sim de uma cidade grande, a maior do país com seus quase dois milhões de habitantes e economia vigorosa, baseada principalmente no gás natural, madeira e pecuária. E nem é tão serra assim, esta a apenas 400 msnm.
Cheguei hoje de tarde e vim aqui para fazer um trabalho parecido com o que fiz em Honduras, na minha última viagem. Identificar o potencial e as estratégias para desenvolver um mercado local de produtos orgânicos. Passo esta semana entre seminários, entrevistas, visitas de campo. Sempre relacionado com a Agricultura Orgânica, ou seja, estou em casa. Este não chega nem a ser meu tema favorito, é na real o meu único tema. Ao menos em termos profissionais. 
Ao redor da praça, suas calçadas em arco
Como disse, não é a primeira vez que venho a Santa Cruz, mas mesmo assim fui dar uma caminhada pelo centro da cidade, ver sua Plaza de Armas e sua Catedral. Acompanhado do Sol, ao meu lado todo o tempo. Santa Cruz é muito quente. Hoje chegou a 36°. Acho que por isto que eu pingava de suor e sentia saudades do meu quarto de hotel e seus 18°. Mas valeu, ao menos vi a praça, o que sempre gosto. É que chego nestas praças e absolutamente não sei onde estou, por tantas e tantas outras a que este desenho de lugar me transporta. A praça arborizada, seus caminhos diagonais unindo suas esquinas, a estátua de um conquistador no centro, do outro lado calçadas quase sempre protegidas do sol com suas coberturas em arcos. Em frente à Igreja vendedoras de velas, na praça vendedores de comidinhas e fotógrafos, lambe-lambes modernos, com câmara digital e impressora, mas com o mesmo modus operandi e senso estético. Tudo isto envolvido pela presença do comércio, da Igreja e prédios do Estado. E de gente. Bastante gente.
Jantei no próprio hotel, o Cortez, nada especial, mas um lugar agradável, já que o hotel tem uma piscina, cercada de vegetação e mesas, um agradável calor pela noite, dando a ele um visual e um ar tropical, quase caribenho! Acho melhor dormir, porque parece que já comecei a delirar, estou em Santa Cruz de la Sierra, não em Santo Domingos ou Aruba.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lima, 13 de dezembro de 2012.

Evento da ANPE, eu na mesa de abertura.
              God Bless America. Neste caso, a Latina. Andar por este continente é, definitivamente, um privilégio que tenho na minha vida. Saí ontem da terra dos Maias e cheguei na terra dos Incas. Passei a tarde/noite de ontem e todo o dia hoje em Lima. Considero que Lima é hoje a capital mais interessante desta parte do mundo. Cada vez mais organizada, emoldurada pelo pacífico, uma comida insuperável em sua criatividade e cuidado, lugares agradáveis para passear, como a beira-mar, os bairros de Miraflores, tão decantado por Mario Vargas Llosa, Barranco, com seu charme nostálgico, seu centro histórico cheio de história.
Além de ir dos Maias aos Incas, saí também da campesina ou texana comida hondurenha à sofisticada cozinha Peruana, com seus restaurantes mais ou menos caros, mas sempre surpreendentes. Ontem de noite resolvi gastar um pouco e ir a um dos mais badalados. E caros. Não consegui mesa, é necessário fazer reserva com meses de antecedência, mas pude comer no bar, para lá de agradável. O restaurante se chama Central, e tem em seu Chef Virgílio Martinez, um jovem de 34 anos, o motivo de sua fama. O sitio web é centralrestaurante.com.pe. Vale a pena dar uma olhada.
Parque de Miraflores, suas carrocinhas de comida.
Aí almocei hoje
Comi bem, uma entrada de atum negro, com especiarias locais, queijo de cabra e molho doce de pimenta. Depois fui por um mero assado, com purê de batatas andinas, folhas da época, um molho indescritível. Tudo acompanhado da caipirinha daqui, o pisco souer. O restaurante fica em uma linda casa de Miraflores, pude ir caminhando, e tem uma horta orgânica no segundo andar da casa. Adivinha se não fui ver e ainda conversar sobre o tema com uns funcionários? Claro que fui!
Ainda tive tempo de passear por lugares que conheço, fazer umas comprinhas de Natal, comer nos carrinhos de rua, cheios de comidas locais bastante diferentes do que normalmente achamos no Brasil, tipo hambúrguer e cachorro-quente. O Peruano é apaixonado pela sua cozinha, é seu principal motivo para o sentimento de orgulho nacional. O fato que ela, a cozinha peruana, está na moda aumentou a autoestima do país, é o que me explicam e o que eu sinto por aqui.
Parque de miraflores
Bom, mas não vim aqui em Lima para comer. Estou aqui convidado pela ANPE – Peru, a Associação Nacional de Produtores Ecológicos, com quem já tenho uma relação de mais de dez anos. Eles estão organizando hoje e amanhã um evento sobre suas “Ecoferias Frutos de la Tierra”. Feiras locais de produtos ecológicos, realizadas em diferentes províncias, expressando a agro-biodiversidade do país. Fiz uma palestra neste evento hoje de manhã. 
Agora escrevo daqui da sala VIP do aeroporto de Lima. Considerada uma das melhores do mundo, de fato é bem agradável. É hora de ir, os passageiros do meu voo estão sendo chamados. Volto para casa feliz com a trip. Valeu muito. O ano termina bem e o outro começa animado, já tenho passagens para Bolívia em janeiro e Costa Rica e Alemanha em fevereiro. Isto se o mundo não acabar.... By the way, bom fim de mundo para todos!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

San Pedro de Sula, 11 de dezembro de 2012

Restaurante Delfin, Puerto Cortez. Honduras 
            Estou aqui em um confortável quarto de hotel, o Boutique La Cordillera, em San Pedro de Sula, cidade que responde por mais de 50% do PIB do país. Honduras é um dos países mais pobres da América Latina. Setenta e cinco por cento da sua população vive abaixo da linha de pobreza. É também um dos pontos mais críticos do planeta no que tange às mudanças climáticas, estando sujeito a fortes chuvas e ventos. Para completar o quadro, o narcotráfico usa o país como corredor entre o norte e o sul do continente. Difícil situação.
Agradável bar do Hotel Cordillera. Aí fiz meu relatório. 
Trabalhar pode ser agradável...
Hoje o dia foi reservado para viajar para cá, onde pego o avião amanhã cedo para Lima, e preparar o relatório desta consultoria. Sempre melhor deixar pronto, depois que voltamos para casa normalmente entramos em outra energia, fazer os relatórios fica muito mais complicado. Demorei uns 20 anos para aprender isto... mas a vida é assim né? Sabemos mas não fazemos. Adoro uma cena do excelente filme argentino Lugares comuns, quando o personagem principal, se referindo à sua esposa, fala: “Lili diz que a gente sabe, mas se esquece que sabe”.
Ainda arrumei tempo hoje para ir comer uns camarões deliciosos em Puerto Cortéz, cidade no extremo norte do país, ou seja, no oceano atlântico. Segundo li, Puerto Cortez é o maior porto da América Central. Como outras cidades portuárias, é muito movimentada, transito intenso de carros e caminhões e uma praia nem tão bonita assim. Valeu ter ido, não apenas pelo Restaurante Delfin, onde comemos, mas também pela estrada, 60 km envoltos em uma típica paisagem caribenha, vegetação exuberante, sol forte, calor úmido.
Típica comida campesina:
arroz, feijão, carne de porco. 
Para fechar minha estadia aqui, fomos jantar em mais um restaurante típico, o Casas Viejas. Comi leitão assado. É que de noite não acho legal comida muito pesada. Falo muito em comida, coloco fotos, mas ando comendo pouco. Devo ter emagrecido mais um pouco nesta viagem, além dos dez que já havia perdido nos últimos meses.
Fico por aqui, me despedindo de Honduras. Gostei. Do lugar e das pessoas. E do café. E vi pouco, parece que tem muito mais, quando a vida me der uma chance, volto.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Santa Rosa de Copán, 10 de dezembro de 2012



Bonita casa, em frente à praça central de Santa Rosa de Copán
Simpática cidade esta Santa Rosa de Copán. É a capital da província de Copán, no oeste do país.
Hoje de manhã tivemos uma boa reunião com algumas ONGs locais. Contribuiu muito para que eu siga tendo uma ideia da situação da agricultura orgânica aqui em Honduras. Realmente um privilégio andar pelo país, conhecer fincas orgânicas, conversar com as pessoas, fazer algo de turismo e ainda ser pago por isto! Sinceramente, sem falsa modéstia que não é o meu estilo, não mereço tanto da vida.
E ainda tive a tarde livre. Muito bom! Fiz o que mais gosto de fazer. Sair flanando pela pequena cidade, caminhando nos arredores do centro, buscando lugares interessantes, conversando com as pessoas, tomando café, fotografando portas e janelas, pensando na vida.
Pátio interno do Hotel Elvir
A cidade tem seus cinquenta mil habitantes, não é tão pequena. Tem um bonito ainda que pouco preservado casario colonial. Algumas casas, como meu hotel, o Elvir, com um lindo pátio interno. Segundo Jannet, a peruana que anda comigo, parece a cidade do Zorro. É verdade, parece a cidade do Zorro. E o Hotel Elvir seria a casa dele! Procurei, mas não encontrei, a Catarina Z Jones. Quem sabe na próxima.
Kaldi's Café, Santa Rosa de Copán
Mas sim encontrei uma bela cafeteria. Com um delicioso café. Muito bem localizada, ao lado da Igreja principal da cidade, em um pequeno calçadão, o que lhe permite colocar mesas na rua. Dentro é ainda mais agradável, com boa música, móveis de madeira e decoração inspirada na Etiópia, de onde vem seu nome, Kaldi's café. E, claro, o mais importante, bons cafés, não apenas locais, mas, também de outras partes, como a própria Etiópia ou Jamaica. Só para não deixar passar, para quem não lembra, Kaldi seria o nome do pastor que descobriu o café, quando viu suas cabras pularem alucinadas, depois de comerem certos frutinhos vermelhos.
Passei um bom tempo neste café. Trabalhando, escrevendo, pensando. Se não canso de pensar? Sim, canso. Aliás ando cansado de mim e do meu muito pensar... Sobre isto, boa é a do Homer Simpson: "cala boca pensamento, ou te enfio uma faca". Já tentei isto também, mas meu pensar parece que não tem medo.
Fui jantar em um simpático restaurante de comidas típicas, que fica na Casa Arias, mais uma das casas coloniais que comentei possuem seus pátios internos. Bem típicas do sul da Espanha. Baixinho, só para mim, recitei Machado: “mí infáncia son recuerdos de un pátio de Sevilla”. Comi de novo o que eles comem aqui no café da manhã, almoço e janta: carne de porco, ovo, feijão na forma de tutu, banana frita, tortillas.
Puertas y ventanas...
Amanha saímos cedo, em direção a San Pedro de Sula, uma espécie de capital econômica do país. E com fama de muito perigosa, é só o que e ouço por aqui. Acho que não sabem que sou do Pé Pequeno. Durmo lá e quarta-feira eu saio cedo em direção a Lima, onde trabalho na quinta e sigo pra casa neste mesmo dia. Minha pequena viagem por Honduras está terminando.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Copán Ruínas, 09 de dezembro de 2012

Copán Ruínas, norte de Honduras
Dirigi 500 km hoje, uma parte de noite, em uma estrada esburacada e sem sinalização de nenhuma espécie. Foi tenso, já que não cansam de me falar como Honduras é perigoso. As barreiras policiais, com dezenas de homens em trajes militares e armados de escopetas e metralhadoras apontam que tranquilo não é a melhor palavra para definir o país. Mas foi tudo bem e já estou aqui em meu hotel em Santa Rosa de Copán
Hoje a atividade principal foi visitar as ruínas Maia de Copán, principal ponto turístico-cultural do país e que fica quase na fronteira com Guatemala. Impressionante.
Este é o único livro conhecido da cultura Maia.
Conta a história desta cidade. Por este livro,
que é toda esta coluna, Copán é
Patrimônio da Humanidade desde 1980.
Fiquei umas três horas caminhando por lá, uma boa parte com um guia, valioso pelas mui interessantes informações que passava, mas que não parava de falar e me impedia de conversar com os Maias... sim, a nítida sensação que ainda estão por lá, cuidando do local e usando ele sabe-se lá para que. A população da cidade da qual agora resta as ruínas era de umas 25 a 30 mil pessoas, e não é de estranhar que sua presença ainda seja sentida.
Tiveram seu auge entre mais ou menos 400 e 800 depois de Cristo. O que se sabe é que os Maias chegaram pela Guatemala, vindo do México e com sua força, oriunda do seu conhecimento e sua organização, conquistaram os povos locais, fazendo-os trabalhar para eles, inclusive pagando tributos na forma de milho, mandioca, feijão, batata-doce e principalmente cacau, considerada a moeda principal deste povo.
Nosso guia afirmou que eles chegaram da Ásia, via estreito de Bhering, que sabemos é uma das teses para explicar a colonização da América. Para corroborar sua tese, nos mostrava as bem desenhadas fisionomias das muitas estatuas existente nas ruínas e sim, são fisionomias bastante asiáticas. 
Deus Maia. Que parece Mongol,
 parece... vai saber!
Perguntei porque ocorreu o declínio desta cidade, ele disse que exploraram muito os recursos naturais, principalmente cortando todas as árvores e fruto disto vieram as dificuldades, até finalmente se retirarem. Se esta tese for verdadeira, o que acredito, não será a primeira civilização a ter em razões ambientais sua queda. E certamente não será a última.
Outra coisa legal do Parque das ruínas de Copan é que é muito arborizado, com uma vegetação exuberante, áreas com um bonito gramado e animais silvestres passeando pelos bosques. Vi um veado pastando e uma paca bebendo água... isto em dez minutos de passeio por um trilha. Com certeza com tempo veríamos araras, jaguares e sei lá mais o que. 
Reencanacionistas, enterravam seus
mortos em posição fetal para facilitar a volta.
Enfim, não posso contar aqui tudo o que vi. Só deixo a recomendação. Vale muito a pena conhecer. Ah, ia esquecendo, dia 21 o parque vai estar todo iluminado e aberto até às duas da manhã. O calendário Maia fala em uma mudança de era, muitos estão interpretando como fim do mundo. Eles esperam gente de todas as partes do planeta, aguardando este fim/começo de algo. Se eu pudesse, viria também, bom lugar de passagem.
Vou dormir. Conversando com os Maias.
Este lugar  era como um estádio. Eles tinham um jogo com bola, 
cinco pra cada lado, o capitão do time ganhador era sacrificado. 
Para ele era uma conquista se juntar aos espíritos.  
Neste estádio cabiam 20 mil pessoas.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Marcala, 08 de dezembro de 2012



Honduras, departamento de La Paz, chegando em Marcala
             Dia animado hoje. Saímos do hotel às sete da manhã, com uma Tucson automática, em direção ao norte do país, mas com uma parada prevista aqui onde estamos agora, na cidade de Marcala. Sem GPS, artigo raro por aqui. A locadora do carro, a maior do país, não tinha nenhum. Aliado ao fato de todos mandarem termos cuidado com os altos índices de violência por aqui, aumentou a dose de emoção da viagem. Mas foi tudo muito, muito bem.
Depois de viajar pela estrada pan-americana, que corta toda a América Central, entre seus numerosos vales e montanhas, chegamos às 11 da manhã. Fomos direto para COMSA (http://cafeorganicomarcala.net), uma empresa que tem 800 pequenos agricultores como sócios e tem na Agricultura Orgânica e no Comércio Justo de Café seu principal foco. Fomos recebidos pela equipe de assessores e realmente fiquei impressionado com bom nível técnico do trabalho que estão fazendo. Um show de biofertilizantes enriquecidos, de manejo de microrganismos, aproveitamento da matéria orgânica e de minerais oriundos de rochas da região.
Don Mario e sua família. 
Ainda tive o privilégio de visitar a propriedade do D. Mário e sua esposa, Joselinda. Ele beirando os sessenta, filhos e netos, muito informado sobre Agricultura Orgânica e com um manejo nota dez. Café sombreado, horta para consumo e mercado local, frutas diversas, pequenos animais, umas vaquinhas para o leite e o queijo. Gnomos, duendes e fadas passeavam felizes por toda sua propriedade. Ela uma liderança local, regressou hoje dos EUA, onde foi receber um premio por seu trabalho como liderança junto às mulheres da região.
Fim da tarde e uma reunião em um simpático café local com COMUCAP, que significa Associação Coordenadora de Mulheres Campesinas La Paz. La Paz é o nome do departamento onde está Marcala. Mulheres que produzem e comercializam há quinze anos café Orgânico e do Comércio Justo. Estou voltando com um bom estoque de café de alta qualidade, orgânico, justo e com denominação de origem Marcala, que significa estrita altura (1300 m) e qualidade reconhecida internacionalmente. Nada mal.
Restaurante D. Gloria
E terminamos o dia comendo no restaurante Doña Gloria. Um prato típico com pedaços de carne de porco, banana frita, tutu salpicado com queijo ralado e arroz. Muito apropriado para este dia tão campesino. Amanhã tem mais, tudo funcionando bem vou visitar uma cidadela Maia. Quem sabe lá descubro se o mundo vai acabar mesmo. Não que faça tanta diferença, só por curiosidade.

Tegucigalpa, 06 e 07 de dezembro de 2012

Feira dos agricultores - Tegucigalpa
Ontem e hoje foram um pouco repetitivos, por isto resolvi escreveu só um post. Reuniões para tentar entender em que pé anda a agricultura orgânica no país e buscar identificar o potencial e caminho para se estabelecer um mercado interno para estes produtos. A pobreza do país, com quase 70% da população vivendo com menos de um dólar por dia não me estimula a pensar a agricultura orgânica por aqui como uma oportunidade de mercado. Acho que o viés é mais da produção do próprio alimento com autonomia. Por aí vai ser o meu relatório desta consultoria.
Às vezes tenho a sensação que os países centro-americanos copiam ou se deixam influenciar pelo pior da sociedade norte-americana. Comidas rápidas, shoppings, business at all, pick-ups e trucks. Mas o alternativo, em todos os sentidos, o orgânico, o culto ao local, o sentido de vizinhança, o sentido de cidadania, que existe nos EUA, ficam de fora. Sei lá, possivelmente estou falando bobagem.
Bom, entre uma reunião e outra, nenhum entretenimento, exceto a comida. Almoçamos os dois dias no restaurante Azulejos, que fica no hotel Intercontinental. Cozinha internacional, correta, ambiente agradável.
Feira de Villa Nueva, Tegucigalpa
O diferente ficou por conta do fim da tarde de hoje, quando fomos a duas feiras. Uma da Villa Nueva, onde passamos rapidamente. E depois na feira dos agricultores, como chamam a maior aqui de Tegucigalpa. Show de bola. Muito popular, cheia de gente, produtos de toda ordem. Profusão de verduras, frutas, carne, peixe, cheiros, cores, formas, sabores, caras. Realmente muito legal. Nunca vi uma feira tão grande, ainda mais noturna. Funciona toda sexta de tardinha/noite e sábado o dia todo, muito perto do Estádio Nacional. Ainda comi um tamal com recheio de frango muito, muito saboroso. Valeu a passada por aqui, mais do que todas as reuniões que tive. Definitivamente feiras populares são o meu nicho ecológico.
Alugamos um carro hoje e neste fim de semana viajaremos uns 500 km, do sul ao norte do país, visitando fincas orgânicas e se tudo der certo, a ruína Maia de Copan, uma espécie de Machu Pichu de Honduras. Imperdível, é o que todos dizem.
Valeu ter conhecido Tegucigalpa, pelo menos agora não esqueço mais o nome da capital de Honduras. Valeu, mas não recomendo para uma temporada de férias. Não é tão atraente.