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terça-feira, 22 de setembro de 2015

Milão, 22 de setembro de 2015.

Tabela periódica gigante no estande da Rússia, na ExpoMilão.
Hoje o dia foi mais ou menos. Normalmente as viagens são vistas com muito glamour. Itália, Milão, restaurantes, museus, lugares lindos para conhecer, etc. Mas onde quer que estejamos, nós nos acompanhamos... e isto faz com que os momentos de baixa ocorram também nas viagens. Normalmente quando voltamos nos referimos pouco a eles, afinal, quem vai contar que passou a viagem brigando com a esposa ou que passou uma tarde quieto no quarto do hotel por absoluta falta de vontade de fazer qualquer outra coisa? O glamour não está só na cabeça de quem fica, está também no relato de quem volta. Por conhecer estas emoções, já aprendi a lidar com elas. Não se entregar, nem forçar a barra. Deixar rolar, encontrando distração em um livro, trabalho de computador ou postando para um blog.
Foro Mundial sobre Pesquisa e Inovação na
Produção de Alimentos
Com tudo isto na cabeça e no coração, resolvi voltar à ExpoMilão para participar de um evento no qual eu havia me inscrito sem muita convicção.  UmForo Mundial sobre Pesquisa e Inovação na Produção de Alimentos. Promovido pela Emília Romana, uma das regiões mais ricas aqui da Itália. O Foro era destes que se fala muito e se aproveita pouco. Bom, na real nem posso criticar, só consegui ficar uma hora. O suficiente para ouvir o representante brasileiro, um dos diretores da EMBRAPA, enaltecer a Revolução Verde no Brasil, inclusive citando o sucesso da produção de soja no cerrado. E se colocando à disposição para transferir tecnologia para os países que ainda não conseguem produzir o alimento que necessitam. Não o ouvi falar que o Brasil também precisa aprender, nem mencionar os efeitos colaterais gerados pelas tecnologias que ele enalteceu. 
Estande que reune empresas de produtos biológicos
Mas, como cada um vê o mundo do seu ponto de vista, que é sempre a vista a partir de um ponto, pode ser que ele esteja certo, e eu é que esteja pondo demasiado foco na destruição do Cerrado e da Amazônia, na desertificação de áreas antes produtivas, na contaminação das águas e dos alimentos, nos efeitos nocivos dos agrotóxicos na saúde humana. Quem sabe, pode até ser, certezas, estas é que não tenho mais.
Depois desta breve passada neste fórum, caminhei mais pela Expo, visitei os estandes de alguns países e achei o estande que reúne o povo do Biológico. Lá no fim da feira... junto com o Slow Food, o movimento nascido aqui na Itália, que se contrapõe ao fast food e que prega uma maior valorização do alimento e busca proteger suas qualidades biológicas e origens culturais. 
Horta no estande do Slow Food
O contraste entre as filas para entrar no estande da coca-cola e a pouca freqüência em estandes que vendem propostas tão procedentes daria uns parágrafos, mas vou poupar vocês desta ladainha. E viva a sociedade alternativa! 
Hoje dei uma laerçada daquelas... Do meu hotel até o evento que participei são uns quatro km caminhando, mais uns vinte minutos de metrô. Saí do evento, dei uma caminhada pelos estandes, almocei meu sorvete, e peguei meu caminho de volta para o hotel. Quando estava duas estações antes da que eu devia descer, me lembrei que não havia devolvido o aparelho de tradução do evento e, portanto, meu passaporte havia ficado na recepção do tal Foro... é mole? Tive que descer, pegar a linha contrária do metrô, andar tudo de novo, pegar meu passaporte e voltar. Pensa... 
Voltei ao hotel, fiquei fazendo minhas coisas e esperando pelo melhor do dia. A chegada do meu filho Tiago, que está morando por um ano em Grenoble, uns 400 km de Milão. Ele estava com muita vontade de ver o papai, e foi só eu falar que pagava tudo que ele veio correndo... nem ligo, bom demais, tá cada vez mais difícil ter os filhos por perto, vivem pelo mundo. Chegou e ficamos comendo e conversando no quarto. Deu por hoje, amanhã tem mais.

Achei interessante - produto per capita de café em alguns
países - os cinco maiores.

Maiores produtores de café do mundo

Milão, 21 de setembro de 2015.

A Praça e a Catedral
Hoje meu dia começou com a esperança, logo frustrada, de ver a Santa Ceia, de Da Vinci. Fui até a Igreja de Santa Maria das Graças, onde ela está pintada e confirmei o que imaginava. Ingresso só para novembro. Far cosa?, iriam os italianos. Fazer o que?, digo eu. 
Aí dentro esta a Santa Ceia.
Cada vez mais há menos espaço para este turismo easy rider. Claro, estou exagerando, sempre haverá espaço para viajar sem reservas e compras antecipadas, mas aí você vai a Milão e não vê Da Vinci, vai a Cuzco e não vê Machu Picchu, vai a Nova York sem show na Broadway. Possível é, mas pode ser meio frustrante. Hoje foi. 
Segui caminhando, como uma lista internética das dez coisas que não se deve deixar de ver em Milão. Vi algumas delas. 
Comecei pela Catedral de Milão (em italiano, Duomo di Milano). Impressionante. Enorme. Pedras, muitas pedras. Esculturas, vitrais, pinturas, mármore. Muito mármore. 
Por todos os lados uma profusão de imagens de santos, mártires, bispos, papas. Fico imaginando que uma vida não é suficiente para estudar e entender tudo que os artistas que a construíram tentaram representar em todos seus espaços. Bom, sua construção começou em 1386 e terminou em 1813... foram mais de 400 anos!
Aprendi aqui que ela tem 157 m de comprimento e 109 m de largura. A altura chega a 45 m, O estilo da catedral é único, o gótico flamejante. Adorei gótico flamejante. Não sei o que significa, mas sei que conheço pessoas que mereceriam esta alcunha, são góticos flamejantes!
Em frente à Catedral, uma enorme praça. Nela e nas calçadas adjacentes muito movimento, turistas, guias, vendedores, artistas de rua. Um destes artistas tocava Teremin. Conhecem? Se não, deem uma busca na net. É um instrumento musical russo, que se toca sem contato físico. 
Mãos se movimentam e a musica saí... incrível o Teremin!
Duas antenas emitem sinais e as mãos entre elas controlam a freqüência e o volume. O visual são mãos flanando e a musica saindo. Demais!
Seguindo minha lista passeei pela Galeria Vittorio Emanuele II, e pela rua do mesmo nome. Entre a galeria e a rua, fechada para carros, podem ser vistas todas as marcas conhecidas e cultuadas do mundo. Principalmente roupas, mas  também relógios, jóias, bolsas, sapatos e outros acessórios. Também muitos cafés, restaurantes e gelaterias. Ai, as gelaterias... Muita gente comprando. De todos os lugares do mundo. Muitos brasileiros também, português é um idioma que se ouve fácil caminhando na rua. Vi muitas caras diferentes vendendo bobagens pelas calçadas e praças. Economia informal deixou de ser privilégio dos africanos, mesmo que ainda sejam a maioria.
Dentro da Galeria Vittorio Emanuele II
Como tomei um belo café da manhã, resolvi não almoçar. Sentei em uma gelateria e pedi uma água e um sorvete. Água sem gás. Sorvete de três sabores, todos deliciosos. Pedi a conta. Seis euros. 3,20 a água, 2,80 o sorvete. Decidi que não tomo mais água na Itália, só sorvete.
Desisti de minha lista de lugares para ver e passei o fim da tarde na praça, sentado em frente à Duomo. Vendo gentes, ouvindo sons, pensando pensamentos. Fim de verão, temperatura agradável, entardecer longo, deu para ver, ouvir e pensar bastante. Conclusão dos pensares? Nenhuma, só que amanhã tem mais.

Entardecer na Praça. Neste momento um artista de rua
cantava Caruso. 
Chão da Galeria Vittorio Emanuele II
São Bartolomeu, o apóstolo que dizem
ter ido para Índia pregar o Evangelho.
Nesta escultura, dentro da Catedral, ele é
retratado  vestindo-se à maneira
de um indiano.


domingo, 20 de setembro de 2015

Milão, 19 e 20 de setembro de 2015.

ExpoMilão - gente, muita gente!
Cheguei ontem à Milão, no fim da tarde. Fiquei pelo hotel, apenas saindo para comer algo em um restaurante perto.
Hoje fui para a ExpoMilão (www.expo2015.org), onde participei de uma mesa redonda promovida por um programa de cooperação Brasil - Itália. 
Reunião com parceiros do projeto "Brasil próximo".
Éramos três brasileiros e vários italianos, discutindo por quais caminhos devem seguir este projeto de cooperação. Eu cumpri meu papel de sempre, vendendo a agricultura orgânica (chamada de biológica por aqui) e os sistemas participativos de garantia como componentes imprescindíveis em uma próxima etapa. Veremos.
Depois do trabalho, fui passear na Feira. É enorme. Gente, muita gente. Filas quilométricas para entrar em quase todos os estandes. A maioria deles é de países, mas existem alguns temáticos, como café e cacau, e também alguns de empresas, como Mac Donalds, Coca-Cola, New Holland ou Nuttella.
Aprendi aqui que estas exposições, chamadas de universais, ocorrem deste 1851 e circularam por vários países e continentes. 
A Árvore da Vida, no meio da ExpoMilão.
Um grande mapa onde estão plotadas todas exposições que ocorreram até hoje mostra que elas nunca ocorreram na América Latina ou na África. No início eram focadas em expor as novas invenções de cada país e o potencial de suas indústrias. Parece que já foram mais importantes do que são hoje. A Torre Eiffel, por exemplo, foi construída como o arco de entrada da Exposição de 1889, uma das seis sediadas por Paris.
Confesso que achei bem chata. Muito pouco atrativa. Caminhei muito (meu aplicativo me disse que foram dez km), fiquei em longas filas para visitar alguns países que não valeram a visita. Vi apenas um estande interessante. Foi o da Coop Itália. Coop é uma cooperativa de consumo. Começou há 150 anos com 5 pessoas e hoje é a maior rede de supermercados da Itália. Movimenta 13 bilhões de euros por ano.
Eles montaram aqui na ExpoMilão o supermercado do futuro. Focado em muita tecnologia, mas também em alguns conceitos. Um conceito chave é que o consumidor quer saber cada vez mais sobre o produto. Tanta informação que não cabe no rótulo. Assim, em uma prateleira do futuro, quando o consumidor tocar em um produto, uma linda tela sobre a prateleira irá mostrar estas informações. Origem, mapa com localização geográfica, certificações, tabela nutricional, pegada ambiental, sugestões de uso e muito mais. 
Visual do supermercado do futuro
Outro conceito é que os produtos ficarão agrupados por cadeia. Uva fica perto de vinho. Frutas perto de sucos. Customização é outro ponto chave. Modos tecnológicos de preparar sua bandeja de produtos, com pequenas quantidades de dois ou três tipos de peixes, carnes, frutas ou verduras. Você leva exatamente o que você quer, com boa parte do manuseio sendo feitos por robôs.
Me diverti muito com uma compra em realidade virtual, onde com o uso de um óculos você pode ver os produtos, ler tudo sobre eles e adicionar na tua cesta. Pode ser usado tanto de casa quanto no próprio mercado. Ao fim, te entregam ou os produtos estão esperando por você, é só pegar, pagar e levar. Sistema de pagamento apenas com cartão e sem um operador, o cliente faz tudo. 
Eu, em realidade virtual, comprando.
Produtos orgânicos, claro!
Fui muito sintético aqui contando sobre este supermercado do futuro. Só vendo mesmo para entender. Se querem ver um vídeo, achei este no youtube: www.youtube.com/watch?t=5&v=Vbkl_CRXRGE.
Sei que saí pensativo desta visita... será que de fato este o futuro? Cada vez mais tecnologia e informação por um lado, mas maior distanciamento entre quem consome e produz por outro? Mais processamento, comidas prontas e menos tempo na cozinha e sem o prazer de preparar o que comemos? Veremos. Sobre o futuro, só o futuro dirá. 
Amanhã estou de férias, vou passear por Milão.
Painel da Agricultura, um dos
lados do stand de Israel.

Impressora 3D de pasta... você
escolhe a forma que ela vai sair!

Comida do futuro? minhoca enlatada...

Drink no futuro? Vodka com escorpião (aliás, nada
diferente do mezcal, destilado mexicano!)

domingo, 15 de fevereiro de 2015

Nuremberg, 14 de fevereiro de 2015.

         
eu e o foodtruck vegan
    Hoje começamos o dia indo à praça principal, onde aos sábados rola uma feira. Frio, menos de zero grau, mas não tem jeito, feira é meu ecossistema favorito, não posso deixar de ir. E esta praça é linda, com séculos e séculos de história. Olhamos, compramos algo, tiramos fotos e fomos para a Biofach.
A Biofach no seu último dia muda de fisionomia. Os negócios que tinham que ser feitos o foram nos três primeiros dias. No último fica tudo e todos mais descontraídos, os estandes vão fechando e dando seus produtos para não terem o custo levar de volta pra casa. E eu, que adoro um grátis, me divirto...
  Alguns números desta edição: A BioFach, em associação com Vivaness (Feira Internacional Natural de Cuidados Pessoais), reuniu 2.348 expositores. Cerca de 70% são de fora da Alemanha, com representantes de um total de 76 países. Eles estão divididos por 44.231 m², o que representou um aumento de 4% em relação ao ano passado. Alemanha com 630 expositores é o país com mais presença, seguido pela Itália (297), Espanha (117), França (114) e Países Baixos (99).
"Free from"
É visível que as grandes tendências da exposição deste ano foram “Free From” e Vegan. Muitos rótulos ostentando que seus produtos além de orgânicos são livres de glúten, lactose, açúcar. Até livre de nozes eu vi. No caso dos produtos vegan, está subentendido que estão livres de qualquer produto de origem animal. 
O veganismo anda tão forte que ouvimos em uma palestra que o crescimento do mercado de produtos orgânicos este ano na Alemanha se deve em boa parte pelo aumento da procura por produtos vegans. Havia um enorme estande só com produtos vegans, reunindo dezenas de diferentes empresas, foodtruck vegan e distribuição pesada de bolsas comemorando 25 anos Associação Internacional Vegana. Enfim, realmente o que nos outros anos se anunciava como uma tendência, agora vimos que veio para ficar.
Castelo da cidade
Depois da feira, ainda voltamos para passear pelo centro, sábado à tarde, as ruas cheias, apesar do frio intenso. Aproveitamos para passar pela WeiBgerbergasse, aquela que é considerada a rua mais bonita de Nuremberg. Sempre tento passar por ali ao menos uma vez, inclusive já escrevi sobre esta rua aqui, há dois anos atrás.
Seguimos por um caminho que vai margenado o castelo da cidade e ainda fomos ver o final da mesma feira na qual estivemos pela manhã. Conversamos com um produtor de cerveja local e combinamos que quando voltarmos por aqui iremos conhecer seu trabalho, degustar os oito diferentes tipos de cerveja que ele faz e ver o seu processo de produção. Belo programa, quem sabe na próxima? 
Cara de mau, como deve ser tomando cerveja na alemanha

Terminamos nosso passeio tomando uma cerveja no segundo andar de um bar na própria praça. André, Cido, Ana e eu. Entardecer frio, bem frio, mas agradável.

E terminou mais esta edição da Biofach. Portugal e Alemanha, bacalhau e cerveja, passeio e trabalho foram belas combinações. Mas acabou, hora de voltar. Amanhã ainda teremos tempo de tomar um café pela cidade, no fim da manhã tomamos o trem para Frankfurt, de lá voltamos ao Rio, passando por Lisboa. 

Bela paisagem, praça principal ao fundo

Feira na praça, todos os sábados
Veganismos em alta

alimentos free from ___

alimentos free from ___


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Nuremberg, 13 de fevereiro de 2015.

Um dos estandes do Brasil, com algumas empresas
     A Biofach é a maior feira de produtos orgânicos do mundo. Mas vem diminuindo lenta e progressivamente nos últimos anos. Acho, mas sem ter certeza, que muitos operadores de produtos orgânicos vêm preferindo participar das feiras específicas da sua respectiva área. Por exemplo, de alimentos, ou vinhos, ou café, ou chocolate.
     
Reunião da CSF - Cooperativa sem fro
  Na real gosto disto. Mal comparando, quando um super - mercado começa a comercializar produtos orgânicos, os posiciona em uma ilha, onde ficam concentrados. Em um momento seguinte, os espalha pelos setores específicos - o café orgânico fica na prateleira de cafés, o açúcar orgânico na prateleira de açúcares, e por aí vai. Melhor assim, mais disponível para o consumidor e ao alcance de seu interesse específico. Não sei se minha leitura é correta, mas se queremos que o orgânico deixe de ser nicho, este é o caminho.
Café do Sul de Minas
  A participação do Brasil também diminuiu na última década. Chegamos a estar quase ausentes, como em 2013. Desta vez o Brasil veio com dois estandes, cada um deles com cerca de 120 m2. São quase contínuos, ao público dá a impressão de ser um só, mas na verdade um deles foi organizado pelo MDA e trouxe dez empreendimentos de agricultores familiares:  Nova Aliança, que vem do RS com suco de uva; Casa Apis - PI, mel; COAPROCOR - PR, polpa de frutas; COOCARAM, RO, guaraná, café, castanha; COOPERACRE, AC, castanha; COOPERCUC, BA, geleias de frutas; COOPFAM, MG, café; COOTAP, RS, arroz; Ecocitrus, RS, sucos e COOPERFAP, SC, geléias.
Visual dos produtos da Native
    O outro estande está sendo organizado pelo  Instituto de Promoção do Desenvolvimento - IPD, com sede no Paraná e pela APEX. Nele, 8 empresas estão expondo: Native - SP, com açúcar, sucos, chocolates, cookies, café e outros; Triunfo - SC, palmito; Amma - BA, chocolate; Itajá - GO, açúcar; Jasmine - cookies e calda de agave; Miolo - SC, palmito; Brasilbev - energético a base de guaraná, açaí e erva-mate e MN Própolis, SP, com mel e derivados.

Estande com empreendimentos da agricultura familiar
   Acompanho a presença do Brasil na Biofach desde 2013. Posso afirmar que falta definir mais claramente o que buscamos ao vir para cá. Uma estratégia que pode ter objetivos mais ou menos ambiciosos, mas que exista. E que seja de médio/longo prazo, com etapas sendo cumpridas a cada ano. Devo estar sonhando, mas seria bonito ver isto.
     Fiquei conversando um pouco hoje com o Nelson Krupinski, gerente de vendas do Arroz Terra Livre, da COOTAP. Nelson é jovem, filho de agricultores, nasceu em Alpestre e em 1995 se mudou para Tapes, ambas cidades no RS. Em 1999 acampou para lutar pelo direito de ter acesso à terra e acabou sendo assentado em 2005 no município de São Jerônimo, a 80 km de Porto Alegre. 
Prosa com o Nélson, sobre o arroz Terra Livre

       Desde 2010 Nélson produz arroz orgânico. Estudou no Iterra, uma escola do MST, onde fez o segundo grau. É da direção da COOTAP e é responsável pela gestão das vendas. Ano passado exportaram 5000 sacos, através de um intermediário. A partir da participação na feira do ano passado estão conversando com um comprador alemão para exportarem diretamente. Eles têm 35 mil sacos de arroz certificados para Europa, outro tanto para os EUA. No total produziram 400 mil sacos de arroz orgânico, nos municípios de São Jerônimo, Nova Santa Rita, Tapes e Viamão.
      Belo exemplo. Ano passado já escrevi sobre eles, mas acho sempre bom divulgar estes exemplos exitosos da reforma agrária. E sabe, o melhor de tudo, o que realmente nos estimula comprar este arroz? Sua qualidade.
Pensa numa coisa gostosa...
      Aliás, como sempre reitero, qualidade é uma marca desta feira. Hoje provamos o que considero o produto mais interessante que vi nesta edição. Anchova em lata de uma tradicional indústria de conservas da Cantabria, no norte da Espanha.  Eles tem uma linha na qual usa azeite de oliva orgânico. Deliciosa. Com um grande diferencial, que lhe confere um sabor especial, que é seu processo de fabricação, todo artesanal. A anchova é lavada, aberta, limpa, colocada em tonéis com sal, depois embalada uma a uma nas latas. Tudo a mão. Vimos um vídeo, muito interessante e chama a atenção o trabalho ser feito exclusivamente por mulheres. Depois deve ser transportada e armazenada a frio, segundo a moça que nos atendeu, para que a anchova não absorva mais ainda do sal e perca seu sabor original. O processo de elaboração pode ser visto na pagina web da empresa: www.codesa.es.

       Amanhã é o último dia da feira. Que pena.

produto forte na feira: sucos, muitos sucos!
Um chocolate dinamarquês... putz...

divulgação dos produtos e do selo bio alemão
descanso do guerreiro...
produtos para crianças

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Nuremberg, 12 de fevereiro de 2015.


Banca de quinua e inúmeros derivados. Holandesa...
      Hoje de novo foi dia de Feira. Afinal, estou aqui para aqui estar! E gosto sempre. Me detive passeando por alguns produtos. Qualidade do produto e da apresentação visual é uma marca desta Feira. Alguns têm uma apresentação realmente de tirar o chapéu. Os países mediterrâneos costumam ser os campeões na estética. Itália, França, Croácia, Grécia e outros dão um show no visual. As embalagens de azeite de oliva e de chocolates são um show á parte. 
      
Quinua no estande do Perú
  
       É interessante os movimentos que se vê nesta área de produção e consumo. Por exemplo, algumas bancas que aqui estão oferecem quinua. O tradicional grão andino, cada vez mais apreciado por suas qualidades nutricionais. Vi quinua em diferentes estandes do Peru, Colômbia e em um Boliviano. Mas vários países Europeus têm exibido quinua em diferentes produtos. Dos que eu vi o maior foi a Naturecrops, uma empresa holandesa que comercializa grãos e parece que resolveu apostar forte na quinua. Eles têm quinua em barra de cereais, macarrão, musli, sopas e sucos, além de quinua em grão, precozida, em flocos e outras variações. 

Açaí da Colômbia
        Até aí legal, um produto de qualidade, orgânico, sendo valorizado e tendo seu consumo ampliado. O outro lado desta moeda é menos interessante. Comerciantes exercendo pressão pelo produto, transformando os sistemas produtivos diversificados na direção da monocultura e deixando a população local, que sempre consumiu quinua, impossibilitada de seguir com seus hábitos alimentares porque o preço subiu para além da sua capacidade de compra. Esta mesma situação tem ocorrido com a dinâmica de circulação de outros produtos, como o açaí no Brasil. Enfim, como eu disse no início são movimentos do fluxo de produção e consumo e, principalmente quando um e outro estão longe, é até certo ponto normal. Quando a distância entre produção e consumo é menor, mais difícil ocorrer este tipo de situação.

      Já que falei de alguns países latinos, vamos ver o que as estatísticas apresentadas aqui nos disseram sobre a Agricultura Orgânica no continente.  A maior área com produção orgânica está na Argentina, com 3,2 milhões de hectares. Seguido do Uruguai, dado de 2006, com 930 mil ha e Brasil, dado de 2012, com 700 mil ha. Em termos percentuais a liderança está com as Malvinas, que, aliás, também ocupa a liderança em termos mundiais, onde 36% de sua agricultura é certificada como orgânica. Em segundo e terceiro lugar vem Guiana Francesa com 11,9 e República Dominicana com 9,3 %. O Brasil aparece com 0,3% de sua agricultura como orgânica.
Estande do México
             O país com maior número de produtores certificados é o México, quase 170 mil. Em segundo lugar o Peru, com 52 mil produtores. O Brasil, com quase 13 mil, ocupa a quarta posição, atrás da República Dominicana que tem 25 mil produtores orgânicos. Se não me engano a República Dominicana ultrapassou o Equador e hoje é o maior exportador de banana orgânica do mundo, o que junto com a produção de cacau orgânico explica estes altos números para um país com uma área semelhante ao estado de Santa Catarina.

         Para terminar sobre os números latino-americanos: a área total estimada com produtos orgânicos é de 6,61 milhões de hectares, com um total de 320 mil produtores. E querem saber de algo interessante? No continente está área vem diminuindo, lentamente, desde 2009, quando era de 7,66 milhões de hectares. Porque? É uma boa e longa prosa, mas não para hoje. O post já ficou grande e o dia de hoje tradicionalmente termina com pequenas festas nos estandes de alguns países. Vinho e cerveja orgânicos, alguns quitutes para acompanhar. Agora é fim da tarde e sou obrigado a não deixar os amigos irem sozinhos.

         Fui! Amanhã conto da participação do Brasil. 

Júlia, Ana, Maria e eu, reunião de família!
Reunião com ONGs africanas para estabelecer parcerias
Chocolates da Croácia

Yougurtes...

Lúpulo orgânico