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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Nuremberg, 11 de fevereiro de 2015.

Agricultura Familar brasileira na Biofach
         Passamos todo o dia hoje na Biofach. Fazendo o que eu mais gosto. Andando pelas bancas, vendo e provando produtos e conversando com os produtores – isto quando temos a sorte de sermos atendidos por quem produz! Quando somos atendidos pelos promotores de venda, mecanicamente preparados, a conversa fica pasteurizada e perde boa parte do seu charme e conteúdo.

  
Belos produtos de uma bio - horta
 A feira chama atenção pela diversidade, volume e qualidade dos produtos. Aqui esta conversa do "é possível produzir orgânico em quantidade?" ou "é possível produzir tal produto orgânico?", já não cabe. É uma pergunta como que fora de moda.

     A maioria dos países do mundo está aquii representada, com estandes de diferentes tamanhos. Obviamente, os países mais próximos, como França, Itália e Espanha, se apresentam com mais intensidade, mais volume, ocupam mais espaço. Nesta mesma linha, dois dos sete pavilhões da feira são ocupados quase que exclusivamente pelo país anfitrião.

        O Brasil está presente com dois estandes de médio porte. Um liderado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário, que trouxe uma representação de 10 cooperativas de Agricultores Familiares e outro organizado pelo IPD – Instituto Paranaense do Desenvolvimento e APEX, promovendo a participação de dez diferentes empresas. Durante estes dias escreverei mais sobre a participação brasileira. 

Tulipas, em um stand de uma empresa holandesa.
       Hoje quero contar que foram lançados os dados estatísticos referentes à Agricultura Orgânica em 2013. O responsável por este levantamento é o FiBl, (Instituto de Pesquisa de Agricultura Orgânica, sigla em Alemão), com sede na Suíça. A cada ano ocorre, durante a Biofach, o lançamento do livro com estas informações. Eu já estou com o meu em mãos, que ganhei de uma das autoras, minha amiga Julia Lernoud. Por sinal, filhos do casal 20 da Agricultura Orgânica na Argentina, Pipo Lernoud e Maria Calzada.

        Aí vão algumas notícias interessantes. Cento e setenta países do mundo deram informações sobre sua produção orgânica. Em 2013, 43,2 milhões de hectares foram cultivados organicamente, o equivalente a 1% das áreas cultivadas no mundo. Vale ressaltar que estes dados se referem à Agricultura Orgânica certificada. Um produtor ou uma comunidade tradicional, que produz dentro das normas exigidas, mas nunca sequer pensou em requerer sua certificação não consta nesta estatística.
     
19,5% da área cultivada na Áustria é certificada como
orgânica
Como maneira de compensar este vácuo, tem-se levantado também os números relativos a áreas com manejo agro-extrativistas, incluindo também produção de abelhas, aquacultura e florestas manejadas de forma sustentável. Os dados coletados apontaram uma área de 35,1 milhões de hectares.

     Os países que possuem um maior percentual de áreas cultivadas organicamente são: Ilhas Malvinas com 36,3%, Liechtenstein com 31% e Áustria com 19,5%. Não chega a ser surpresa que sejam países muito pequenos. Mas isto não significa que países grandes também não possuam áreas expressivas com produção orgânica. A liderança mundial em área está com a Austrália, com 17,2 milhões de hectares, seguida da Argentina, com uma área de 3,2 milhões de hectares certificados como orgânicos. Estes números se devem em grande medida à pecuária orgânica extensiva.

França: feito na França, feito com amor.
        No mundo são dois milhões de produtores orgânicos certificados. Quase 1/3 deles são indianos, 650 mil. Uganda com 190 mil e México com 170 mil ocupam a segunda e a terceira posição no ranking de países com maior número de unidades certificadas. 

     Sobre o mercado, no ano de 2013 foram comercializados 72 bilhões de dólares, sendo o principal deles os EUA com 24,3, seguido de Alemanha e França, com 7,6 e 4,4 bilhões, respectivamente.
Estande do Paraguay, a cada ano mais organizado.
    Se não me engano o primeiro levantamento feito sobre o mercado mundial foi em 1994, com um total de 4 bilhões de dólares. Em 1999 eram 15 bilhões. O crescimento é significativo, e ainda não dá sinais de arrefecimento. De diferentes fontes ouvi que o mercado de produtos orgânicos seguirá sendo o que mais cresce no setor de alimentos.
     
    Estes números lançam um desafio para aqueles que, como eu, tem se envolvido neste mundo da Agricultura Orgânica com interesses que não se limitam ao mercantil. Como seguir crescendo sem perder os princípios originais? Como voar mantendo as raízes?  

     Agora ficou difícil, sei responder isto não. Acho melhor ir dormir. Amanhã conto mais.
India
Romênia
    
Turquia

China, a cada ano com mais presença
Bélgica

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Portugal e Alemanha, 09 e 10 de fevereiro de 2015.

         
Feira em Valência de Alcântara, Espanha
       Já estamos em Nuremberg. Saímos ontem no final da manhã de Marvão. Na hora de pegar a estrada para Lisboa, vimos uma placa que apontava para a Espanha, e não resistimos. Em 15 minutos estávamos em Valencia de
  Alcântara, uma cidadezinha da Província de Extremadura. 

     
Queso y Jamón serrano... pensa...
E demos sorte porque a feira dos produtores locais acontece justamente às segundas pela manhã. Passeamos, tomamos café, compramos queijo e jamon serrano e seguimos viagem.  

       Um detalhe interessante, já quase velho, mas que não me cansa de surpreender: na hora de passar entre os dois países, o pórtico da alfândega virou peça de museu. Me lembro quando, no ginásio (sim, sou deste tempo), meu professor de geografia, o Albino, nos falava da Benelux, a comunidade formada no pós guerra por Bélgica, Holanda e Luxemburgo, na qual as fronteiras haviam sido eliminadas. Com muito planejamento esta experiência fluiu para a a CEE – Comunidade Econômica Européia e daí para a UE - União Européia, que hoje é composta por 28 países. 
Ex-fronteira entre Espanha e Portugal
        Sou fã da UE. Sei que quem está no cotidiano desta nova geografia política sente suas conseqüências negativas, que sempre existem em uma mudança deste porte. Muitos dos meus amigos europeus reclamam que o centro das tomadas de decisões vêm sendo continuamente drenada dos governos nacionais para Bruxelas, centro de poder da UE. E claro que os países mais fortes, como Alemanha, Inglaterra e França, ficam com uma fatia maior do poder, desagradando outros países com menos força econômica. 

     Mas vou ser sempre simpático a decisão de eliminar fronteiras. Deve ser inocência minha, ou influencia de John Lennon e seu “imagine there no countries...”, mas acho que a Europa com esta ousadia mais uma vez mostra um caminho possível para outros continentes. E tenta se mantém em paz, longe das guerras que sempre se fizeram presente na sua história. Espero que os problemas que a Europa vem enfrentando encontrem saída dentro da manutenção desta lúcida iniciativa. 

         Chegamos a Lisboa ao entardecer. Foi tempo de deixar as coisas no hotel e ir comer um bacalhau, já estávamos preocupados de sair de Portugal sem cumprir esta obrigação. Estava ótimo.

ana, animada com o Finnegans Wake...
        Hoje foi acordar, tomar café em uma padaria portuguesa e vir para a Alemanha, de avião até Frankfurt e de trem para Nuremberg. Viajar de trem é sempre uma experiência agradável, ainda mais com uma boa cerveja alemã no vagão-restaurante.

     Aqui ao lado do hotel que estamos, o Ibis altstadt, no centro histórico da cidade, tem um PUB Irlandês que se chama Finnegans Wake, nome quase mítico para um lugar assim, fazendo alusão ao famoso romance de James Joyce. Fomos obrigados a ir lá... Realmente a Europa é demais!


       Agora é dormir, amanhã tem feira, dia de trabalho. Trabalho? É dever ser...

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Portugal, 08 de fevereiro de 2015.

Vista a partir de Marvão - por isto Saramago disse:
"É verdade, de Marvão vê-se a Terra toda...".
      A Mui Nobre e Sempre Leal Vila de Marvão, ou apenas Marvão tem só 500 habitantes na sua sede. Está localizada no alto de uma serra, a uma altitude de 900 msnm, a apenas cinco km da Espanha. É toda ela fortificada, ou seja, estes 500 habitantes vivem todos intramuros. Para mim, soa como viver em um museu.
Eu escrevendo, tomando café, com um visual deste,,,
     Passamos um final de tarde muito agradável, muito frio, caminhando pela Vila, vislumbrando todo o Vale, que inclui a Espanha. Vendo seus pontos de interesse e pensando que as paredes das casas, as calçadas e ruas por onde passávamos, ainda que modificadas ao longo dos séculos, contam milhares de anos de história. Tentando ler sobre esta história, deparo com algo que é comum. Aqui se conta a história a partir da unificação de Portugal, que se deu no século XII. No Brasil acontece o mesmo. Se nos perguntam sobre a história começamos com Pedro Álvares Cabral.  Podemos até dizer que antes haviam os “índios”, mas contar suas histórias, não saberíamos.

      Voltando à Marvão, esta vila foi tomada por  D. Afonso Henriques dos Mouros no século XII, o que significa que estes edificaram boa parte da cidade. Mas relato de um cronista mouro do século X fala da presença dos Romanos aqui, o que significa que a Vila possui ao menos 2.000 anos de história. Mas deve ser mais. Por sua localização estratégica, é óbvio que ela foi utilizada desde sempre, mesmo antes dos romanos, como refúgio ou ponto militar, e através dos tempos se conformou como a vemos hoje. Uma viagem.    

Ruas de Marvão
       Agora estou escrevendo da Pousada de Santa Maria de Marvão. Um charme. Um silêncio, uma paisagem. Transmite uma sensação de paz. Vejo lugares assim e penso: bom lugar para escrever um livro. Mas este tal deste livro nunca vem...

    Quem quiser saber um pouco mais sobre este lugar, pode dar uma olhada nesta página: www.cm-marvao.pt 

      Mas nosso dia não começou aqui na Vila. Saímos de Évora cedo e depois de duas horas de viagem tivemos o prazer de sermos recebidos pela Cláudia, mãe da Sahara, jovem amiga portuguesa que vive no Brasil, e pelo seu esposo Miguel. Eles têm uma bela quinta aqui em Marvão, onde produzem azeite biológico a partir de azeitonas colhidas de árvores centenárias. No verão fazem uma horta embaixo das oliveiras, manejo apropriado tecnicamente, mas sobretudo muito charmoso.

Ana, André a Cláudia, conversando entre os Olivares
     Toda a quinta é muito bonita. Formações rochosas compõem a paisagem. Cláudia nos mostrou tudo demonstrando sua paixão pelo que faz ali. Vimos alguns túmulos, provavelmente romanos, feitos de pedra, como que perdidos pela quinta. Olhando para cima, vemos a Vila de Marvão, toda caiada de branco, velando por todas as quintas da Região. Se estivéssemos em culturas de montanha, seguramente que esta na qual a Vila foi erguida teria o nome de um Deus e seria responsável por cuidar da sua zona de influência.

        Eles nos ofereceram um belo almoço, que começou com vinhos e queijos locais e pães feitos em casa. Aí já tínhamos mais do que suficiente, mas o prato principal estava irresistível. Se chama rancho e é feito a base de grão de bico (um dos tantos legados dos árabes para portugueses e espanhóis), com legumes e carne de porco, muito típica aqui na região. 

Vinicola Encostas de Estremoz
      Pela noite, de novo, vinho e queijo no bar do hotel. Eles, elegantemente, nos deixaram abrir o vinho que havíamos comprado na estrada, à caminho de Marvão, em uma vinícola chamada Encostas de Estremoz, onde fomos recebido pela Dona Bárbara, muito simpática e que se mostrou profunda conhecedora do vinho e da região.

    Mais um belo dia pelo interior de Portugal. Amanha viajamos, lentamente, a caminho de Lisboa. Terça pegamos o rumo de Nuremberg. 

Euzinho, encima de uma ds torre do Castelo de Marvão

Uma casa, em Marvão

Amanhecer em Marvão, foto da dona Ana

Uvas na vinícola Encostas de Estremoz

Morangos entres as Oliveiras, um luxo só!

As janelas de Marvão são um caso à parte...

Ângulo de Marvão, foto da Ana.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Portugal, 07 de fevereiro de 2015.

Aspecto do Palácio, do Castelo de Évora Monte
        O dia de hoje foi tão bom quanto um dia de viagem pode ser. Saímos cedo e fomos rodar pelo Alentejo, a região onde estamos, ao sul do país. Desde Évora até Elvas, visitando também Évora Monte e Estremoz. Passamos sempre por estradas secundárias, com a paisagem ondulada alternando entre olivares e sobreiros, a árvore que produz a cortiça. De repente surgia uma pequena cidade branca, quase todas com séculos de histórias para contar, algumas muradas e com um castelo sobressaindo em sua parte mais alta. Um belo dia de sol dava cor a todo este visual. Visitar lugares que não conhecemos é sempre legal, quando a viagem envolve ser transportado a outros tempos, vira um privilégio.
 
Casinhas, dentro do Castelo
em Évora Monte
     Em Évora Monte subimos até o Castelo. Muito interessante, eu li que nesta área existem indícios de ocupação deste a pré-história. O Castelo parece que foi construído inicialmente pelos romanos, passou a ser ocupado pelos mouros e por volta do século XII tomado pelo que hoje é Portugal. Acho que vale a pena explicar que o Castelo não é apenas o palácio. Castelo é toda a área murada, que envolve o palácio, onde o Rei vive, e várias outras pequenas construções que servem de morada para todos aqueles que são necessários para atender a corte e tocar a vida do palácio. São inúmeras casinhas, de diferentes tamanhos. Pois então, nos Castelos que temos visitado aqui, estas casinhas seguem servindo de moradia. São pequenas, baixas, imagino que a maioria desconfortáveis, mas é muito interessante ver que são ainda habitadas, deixando estes locais históricos como que “vivos”.
Feira de Estremoz, aos sábados pela manhã.
  Em Estremóz começamos por ir à feira que acontece lá aos sábados pela manhã. Mistura alimentos e antiguidades. Uma boa variedade de produtos, mas o que chamou atenção foram os queijos locais. Provamos alguns, mas a vontade é comprar quilos e colocar na bagagem. Sei que vou sentir saudades deles na hora de colocar uma mesa quando chegar em casa.
       Mas ganhei mesmo meu dia foi quando chegamos ao Castelo de Estremóz. O Palácio foi reformado por D. Diniz para sua esposa, Isabel de Aragão, também conhecida como a Rainha Santa. Isabel de Aragão é uma daquelas santas que foi canonizada pelo povo antes que a Igreja o fizesse. Era muito generosa e muitos milagres lhe são atribuídos. No mais famoso, diz-se que ela estava distribuindo pães, envoltos pelo seu vestido, aos pobres, atividade que desagradava ao Rei, seu esposo. Quando ele a encontra lhe pergunta o que ela tinha no vestido, em tom de leve reprimenda. Ela responde que eram rosas, ao que ele fala: Rosas em Janeiro? Ela diz que sim e solta a barra de seu vestido. Rosas caem no chão. 
Eu com Dona Isabel de Aragão, em Estremoz.

     Dizem que a partir daí ele passa a ter mais respeito por sua esposa. Existem outros milagres atribuídos a ela. Mas talvez o maior deles tenha sido selar a paz entre D. Diniz e seu filho, D. Alfonso IV, que estavam na iminência de uma guerra. D. Alfonso IV é pai de D. Pedro I, que quando enviuvou se juntou com Inês de Castro. Após dez anos vivendo juntos, D. Alfonso manda decapitar Inês, sua nora bastarda, por não concordar com a provável oficialização deste matrimonio. D Pedro quase enlouquece sabendo que sua amada foi decapitada pelo seu pai. 
      Como uma forma de honrar o nome dela, D. Pedro I afirma que casou-se com Inês meses antes dela morrer, o que é confirmado por um Padre. Por isto que em Os Lusíadas, dela escreveu Camões: “Aquela que depois de morta se fez Rainha”. O dito popular derivado desta história e destes versos é: “Agora é tarde, Inês é morta
      Para quem se interessar, existe um ótimo livro intitulado Mensagens de Inês de Castro, escrito pelo Caio Ramacciotti e com mensagens de Inês de Castro psicografadas por Chico Xavier. Vale a leitura, eu já li duas vezes. Falando em Chico Xavier, existe uma linda história de quando Isabel de Aragão apareceu numa noite para ele pedindo ajuda na sua tarefa de repartir pão com os necessitados. Mas esta eu não vou contar aqui. Fica a dica!
Ana, pelas ruelas de Elvas
       Viram porque disse que ganhei meu dia ao visitar Estremóz? Até o quarto onde a Rainha Santa faleceu e 300 anos depois foi transformado em Capela nós visitamos.
      E seguimos para Elvas. Tombada pela Unesco, em 2012, como Patrimônio Histórico Mundial, é uma cidade de fato impressionante. De novo visitamos seu castelo, e andamos pelas suas ruazinhas estreitas, entre suas casas brancas. Um luxo. Almoçamos em Elvas, compramos algumas coisinhas locais e visitamos algumas partes dos seus muros e dois dos vários Fortes que lá existem. Faltou tempo para ver mais. Já era fim de tarde e resolvemos voltar para Évora, onde rolou um vinho com queijo no quarto mesmo e fomos dormir. Só para constar: vinho com queijo aqui é uma opção modesta. No quarto, comprados em feira, é mais barato que um cachorro quente com coca-cola...
     E este foi o dia, ou o que deu para contar dele. Amanhã vamos para Marvão, mais ao centro do país. 
Pousada luxuosa, no palácio que D. Diniz mandou construir /
reformar para sua esposa, Isabel de Aragão
Eu e a Dona Eunice, a senhora que abriu a porta da Capela e
nos contou tudo sobre a Rainha Santa
Na Capela erguida no local onde foi seu quarto, alguns
milagres atribuídos e ela estão retratados. Este é o das rosas.
Neste quadro, a Rainha Santa entre seu esposo e seu filho,
selando a paz. Os soldados, quando viram que era ela,
levantaram as lanças.
Visual de Elvas, a partir do forte de Santa Luzia.


Outra das ruas de Elvas, dentro do Castelo.
Estrremoz, vista  do Castelo

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Portugal, 06 de fevereiro de 2015.

Ruínas Romanas, possivelmente de um Templo de Diana, 
em Évora
      Começamos o dia de hoje tomando nosso pequeno almoço na Pastelaria Belém, que fica no bairro do mesmo nome, em Lisboa. Uma linda casa, antiga, grande, com azulejos meia parede por todos os seus espaços. 
Azulejos da Pastelaria Belém
    E servem os famosos pastéis de Belém ou de nata. São deliciosos, servidos quentes, de fato irresistíveis. Ontem e hoje tomei meu café da manhã só com doces e café. Nada mal, acho que vou incorporar isto no meu cotidiano, já que estou precisando ganhar peso.  
       E partimos para o interior, em direção a Évora. Na real se chama "A Mui Nobre e sempre leal cidade de Évora". No meio do caminho, paramos em Montemor, cujo nome correto é "Montemor-a-nova". Acho um luxo estes nomes. Em Montemor fomos visitar a Herdade do Freixo do Meio, uma propriedade agrícola que trabalha com Agricultura Biológica. Demos azar, a pessoa com que combinamos não estava lá. E por aqui é inverno, frio, não se produz muito nesta época. De todos modos, valeu conhecer. Inclusive pela estrada, que estava lindíssima.
Visual de Montemor-a-jovem
    Tivemos trabalho, mas conseguimos não pegar a auto-estrada, na qual se viaja mais rápido e se conhece menos. Viajamos por estradas secundárias, passando por pequenas cidades da Região do Alentejo, sul de Portugal, famosa principalmente pela produção de vinhos. Fomos obrigados a um breve pit stop em uma vinícola e comprar um vinho, que tomamos de noite no hotel. Durante a viagem paramos para tirar fotos de uma paisagem comum por aqui, na verdade um tradicional sistema de produção que se chama Montado. Existe há séculos e é composto de sobreiro (a árvore que produz a cortiça) e animais. Hoje em dia, os estudiosos gostam de chamar este consórcio de sistemas silvopastoris
Sobreiro, a árvore que de novem em nove anos se
"descasca" ela, retirando a cortiça.
    Se acrescentarmos algumas culturas agrícolas nestas paisagens, como por exemplo oliveiras, passam a ser chamadas de sistemas agrossilvopastoris. Portugal produz mais de 50% da cortiça do mundo graças a estes sistemas que hoje são legalmente protegidos.
     Chegamos a Évora às quatro da tarde e só deu tempo de caminhar por suas ruas, muito agradáveis, e visitar dois locais bem interessantes. Ruínas romanas de um templo, que possivelmente foi dedicado à Deusa Diana e a Igreja que fica ao lado, dedicada a São João Evangelista. Bom símbolo para este histórico convívio entre Cristãos e Pagãos. Esta Igreja chama a atenção pelos azulejos, do século XVII, que cobrem boa parte de suas paredes. Évora é declarada Patrimônio Mundial pela UNESCO. O Guia Michelin lhe confere três estrelas, o máximo possível. E ela é a única cidade portuguesa membro da rede de cidades européias mais antigas. 
Praça de Giraldo, centro de Évora
    E, de fato, ela é linda. Não esta ou aquela atração, mas a cidade em si. Antiga, toda murada, relativamente grande, segue sendo habitada de forma cotidiana, não apenas ocupada por comércio ou locais turísticos. Ela é este tipo de cidade histórica onde a vida segue seu curso, juntando tempos históricos diferentes no mesmo espaço. Sensacional.
     Este foi o dia. Amanhã vejo mais de Évora, além de rodar um pouco pela região. Depois eu conto.

Em Montemor, a vista de um forte romano, na parte alta da cidade

Visual de um Montado
Azulejos na Igreja de São João Evangelista, Évora




quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Portugal, 05 de fevereiro de 2015.

     
O estuário do Tejo
      Chegamos hoje cedo a Lisboa. André, Ana e eu. Estamos aqui em Portugal para ficar cinco dias onde se mesclam visitas a trabalhos com Agricultura Orgânica e passeio. Daqui vamos para a Biofach, a big feira de produtos orgânicos em Nuremberg, Sul da Alemanha.
 
Lindo dia frio em Lisboa
Passamos o dia hoje fazendo o planejado. Passeando e comendo por Lisboa. E provando um vinho, de leve.
     Começamos caminhando até a casa de Fernando Pessoa, onde ele passou os últimos 15 dos seus 48 anos de vida. De lá fomos visitar um supermercado que vende só produtos orgânicos. Na verdade fomos a uma das lojas desta rede, que se chama Brio (www.brio.pt). Não tão grande, ótimos produtos, mas me chamou atenção que são quase todos importados. Da Alemanha, na maioria, mas também Espanha, Itália, França e outros países Europeus.
     Deixamos o Brio e fomos até o Chiado, um bairro próximo ao Centro, só para passar no Café A Brasileira, que tem mais de cem anos de funcionamento. Na parte de fora, uma mesa com Fernando Pessoa sentado nela, em bronze, mostra que este era seu local preferido para um café. De lá seguimos pela Rua Augusta até o Tejo. Sabe o que Pessoa falou sobre ele? Pois vou transcrever aqui, não resisto... Chama-se Pelo Tejo vai – se pelo Mundo
      O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia / Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia./ O Tejo tem grandes navios / E navega nele ainda, / Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está, / A memória das naus. / O Tejo desce de Espanha / E o Tejo entra no mar em Portugal. / Toda a gente sabe isso. / Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia / E para onde ele vai / E donde ele vem. / E por isso porque pertence a menos gente, / É mais livre e maior o rio da minha aldeia. / Pelo Tejo vai-se para o Mundo. / Para além do Tejo há a América / E a fortuna daqueles que a encontram. / Ninguém nunca pensou no que há para além / Do rio da minha aldeia. / O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. / Quem está ao pé dele está só ao pé dele. 
       O heterônimo que assina este poema é o Alberto Caeiro
Praça de alimentação do Mercado do Cais da Ribeira
     Passeando as margens deste rio tão inspirador, chegamos ao Mercado do Cais da Ribeira. Uma parte deste mercado é ocupada por dezenas de restaurantes conhecidos de Lisboa, que se juntaram ali numa espécie de praça de alimentação gourmet. Queijos, peixes, presuntos, iogurtes e muito mais. Bacalhau e vinho também. E sardinha assada. E leitão. E tortas, sorvetes, doces. E pastel de nata. Ainda bem que não preciso emagrecer...
      Mas acabamos almoçando mesmo em Alfama, este bairro alto, com uma bela vista, muito simpático, com suas ruazinhas estreitas e calçadas onde convivem turistas passeando, aposentados locais jogando cartas e roupas secando em varais improvisados. E o cheiro de Fado no ar.
     Depois ainda tivemos tempo para subir a Avenida Liberdade, linda, ampla, arborizada e onde as marcas de roupas e acessórios mais famosas do planeta fazem ponto.
Sardinhas e outros peixes em conserva.
   Vou contar algo interessante que vimos hoje. Várias lojas que vendem exclusivamente conservas de peixe. Principalmente sardinha e atum em lata. Mas também, salmão, anchova, cavalinha, lula, bacalhau. E outros. Além desta variedade de espécies, a estética da embalagem chama atenção. Algumas empresas são muito antigas, e mantém ou reviveram seu visual vintage. Outras são novas, mas se esmeram também no visual, não necessariamente antigo, mas sempre bonitos. 
Mais conservas de peixes!!!
      
    Latas embrulhadas em papel, caixas que se encaixam, formando desenhos ou palavras que só se completam quando sobrepostas. Isto faz com que estes peixes em conserva não estejam apenas nestas lojas especializadas, mas também sendo vendidas em lojas de souvenir. Imagina, que legal: dar sardinha em lata de presente... e garanto que é um belo presente, bonito, interessante, diferente, saboroso. 
   Tudo isto faz parte de uma estratégia de posicionar este importante produto tipicamente português no mercado. E enfatizo um detalhe, que de detalhe não tem nada: o que provamos estava delicioso. 
       Lisboa me faz lembrar minhas raízes lusitanas. É bom ver parte de nossa origem e perceber o barro que nos moldou ou, ao menos, uma parte dele. Ajuda a se entender.
     Amanhã saímos em direção ao interior, região do Alentejo, devemos dormir em Évora. De lá eu conto o que rolar. 
Tejo, visto da Alfama