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sábado, 16 de junho de 2012

Rio + 20, 16 de junho de 2012


Cúpula dos Povos
A ideia deste blog é escrever quando eu estou andando pelo mundo, mas já que o mundo todo veio para cá, faço desta semana uma primeira exceção. Estou aqui para participar da Rio+20. A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável. No mesmo cenário da Eco 92, o Rio de Janeiro e sua persistente beleza, o mundo se reúne outra vez para buscar soluções sobre a alardeada crise ambiental. 
O tom da conferência é o mesmo de 20 anos atrás, como aliar crescimento econômico, inclusão social e preservação ambiental. O mundo não é mais o mesmo. Hoje não vivemos sob a euforia econômica e as certezas políticas dos inícios dos anos 90, quando se chegou a supor que a história havia terminado, com o neoliberalismo e a democracia ocidental sendo o fim da evolução social. E as diferenças não param aí. Somos quase dois bilhões de pessoas a mais, nossos mares se acidificaram, tem mais lixo e menos peixe, o ar mais carbono, as florestas tropicais diminuíram quase uma Argentina neste período, perdendo espaço para a soja, a cana ou o gado. Enfim, não faltam razões para o tema em debate por aqui, emoldurado pela difícil conjuntura de uma crise econômica mundial.
Não vou me alongar nestes dados. Existem dezenas de site sobre esta Conferência. Por exemplo, posso recomendar www.vitaecivilis.org. Ali tem informações para um mês de leitura.
Sobre o dia de hoje, passamos, eu e Ana, todo o tempo na Cúpula dos Povos, nome do conjunto de atividades paralelas organizadas pela Sociedade Civil, no Aterro do Flamengo. Logo de cara encontrei um grupo de Hare Krishnas, entoando seu mantra e envolvendo algumas pessoas na sua dança ritmada, enquanto na tenda ao lado uma liderança Kaiapó discursava pela manutenção de sua cultura e seu povo. Circulei e vi um sem número de oficinas, palestras, debates e eventos culturais, (des)organizados de forma autônoma por centenas de entidades e ativistas ambientais. O tom é de denuncia ao modelo de desenvolvimento que gera tantos problemas sócio ambientais e para o qual se discute na Rio+20 soluções, reais ou supostas.
Oficina na Cupula dos Povos
Foi legal o dia, sempre bom ver amigos e desconhecidos, tanta gente, de tantos lugares, que se co-movem com o mesmo tema que me move. Afinal, a esperança que temos de diminuir os riscos ambientais gerados pela nossa forma de viver precisa ser alimentada.
Mas esperava mais. Espero mais. Mais gente, mais informações, mais soluções, mais novidades.
       O ponto alto do dia foi ver, quando passava pela Cinelância em direção ao Aterro, uma das exposições fotográficas mais famosas do mundo, chamada a terra vista de cima. Simplesmente incrível. Um verdadeiro presente tê-la encontrada por acaso, enquanto caminhava. Considerei um prenúncio da boa semana que espero terei por aqui. As fotos estão todas no site www.terravistadoceu.com, e vale muito a pena ver.
Amanhã vou à conferência oficial, a Rio+20 propriamente dita. É no Rio Centro, um centro de convenções que fica na afastada Barra da Tijuca, e com o trânsito ruim pode levar uma eternidade se deslocar para lá. Mas vou assim mesmo, quero sentir o clima das negociações e discussões oficiais. Veremos. 
foto da exposição "a terra vista de cima"

sábado, 2 de junho de 2012

Paraguay, 01 a 03 de junho de 2012


Com amigos, no hotel Oriente, em Curuguaty
E aqui estou de novo, em mais uma viagem relâmpago, de puro trabalho. E curioso que por razões diferentes voltei à cidade de Curuguaty, interior do Paraguai, onde já estive no início de março. Naquela ocasião foi para trabalhar na IALA – Guarany, e agora vim para um curso, convidado por CEDECO, uma ONG da Costa Rica, para trabalhar com Cooperativas do interior do Paraguai e financiado por uma organização Sueca, chamada Centro Cooperativo. Coisas da globalização!
O curso pretende lançar as bases para um projeto que será proposto à Itaipu Paraguai, onde Cooperativas de Agricultores familiares, muitos deles assentados de reforma agrária, buscarão terem reconhecidos os serviços que prestam ao meio ambiente. Este é um tema da moda, buscar mecanismos onde o cuidado que os agricultores em geral e os familiares em particular têm com o meio ambiente seja valorizado. E a Agricultura Ecológica vem junto com este tema, pois óbvio que sua prática eleva o patamar deste cuidado com o meio-ambiente, já presente em vários aspectos de uma unidade familiar de produção agrícola. Por isto estou aqui, falando de Agricultura Ecológica, claro. Os que me conhecem sabem, sou monotemático.
Sobre a cidade, nada a acrescentar, mesmo porque cheguei ontem às sete da noite, vindo por Foz do Iguaçu. São mais de três horas de viagem, e como havia saído de casa às oito da manhã, fui direto para o quarto, preparar minha prosa e dormir. Hoje fiquei o dia todo dando o curso e jantei no próprio hotel. Assim, nem vi a cidade. Menos mal que tive aqui pouco tempo atrás e, como havia comentado, ela não tem tantos atrativos.
Apesar de meteórico, valeu. Fiz meu trabalho, comi mandioca frita, tomei tererê e ouvi o povo falando guarani. Gosto do Paraguai e de sua gente, me sinto totalmente em casa por aqui. De passagem ainda encontrei um velho amigo que agora é Vice-Ministro da Agricultura do Paraguai. Vamos ver onde vai dar, existe muita gente comprometida com a Agroecologia chegando a instancias de poder em vários países latino-americanos. Sinal de mudança no ar? Não sei, veremos, torço por isto. 
Amanhã já regresso. Saio às cinco da manhã, vou por Foz do Iguaçu, depois Porto Alegre, estrada de novo e finalmente, casa, descansar um pouco. Esta semana foi forte, passei cinco dias em Florianópolis ajudando a organizar o Encontro Ampliado da Rede Ecovida de Agroecologia, onde reunimos mais de 1000 pessoas, cheguei em casa sete da noite de quarta e quinta cedinho vim para cá. Pauleira. Mas não me queixo, tenho o privilégio de só fazer o que gosto.
Vou dormir, amanhã acordo cedinho. Post sem graça, né? Como diria Ortega y Gasset, “yo soy yo y mis circunstancias”. As circunstâncias aqui não favoreciam a escrita, mas resolvi fazer para manter o acordo que fiz comigo, escrever em todas as viagens internacionais. Espero que a próxima seja mais inspiradora!

domingo, 15 de abril de 2012

Uruguai, 16 de abril de 2012


Assembleia da Rede de Agroecologia do Uruguai
Passei estes dois últimos dias no interior do Uruguai. Cheguei no fim da tarde de sexta-feira no aeroporto de Montevideo. Viemos direto, mas não sem antes passar pela La Rambla, a longa avenida que circunda a praia formada pelo rio, ou, mais precisamente, estuário La Plata. Montevideo é uma cidade agradável, e esta avenida é um dos seus pontos mais bonitos. Ouvi que os colonizadores espanhóis, quando aqui chegaram, chamaram o estuário de mar doce, pois julgavam mesmo que ainda estavam no oceano. Gostei da expressão, mar doce. Poética. Enfim, realmente uma pena que desta vez só passei por Montevideo, não desfrutei seu charme, não comi uma boa parrillada, não tomei um bom vinho e mal provei um doce de leite. Acho que não vim ao Uruguai.

Pablo Galeano, nosso anfitrião, Paulo Petersen e outros dois
amigos brasileiros, na Playa Fomento, Colonia, Uruguay
Depois de quase duas horas de viagem, chegamos à Praia Fomento, que fica no departamento de Colonia, e é um balneário que nesta época fica semi-deserto. O encontro da Rede de Agroecologia do Uruguai, minha atividade destes dois dias, foi no Parque 17, uma espécie de camping, mas com algumas casas-alojamento. A praia fica ao lado do camping. Assim como na capital, ela é bonita, larga e com areia branca, e ainda mais surpreendente em sua beleza por estar margeada por uma vegetação. O lugar é agradável, os quartos são simples e honestos, mas pecam pelo excesso de camas em cada um deles. Por sorte nos deram um tratamento especial e três dos brasileiros que estamos aqui ficamos em uma casa com dois quartos.

Passamos todo o dia de sábado entre a assembleia da Rede de Agroecologia e um Seminário com foco na discussão de políticas publicas de apoio à agroecologia. Eu falei sobre a Rede Ecovida, seu momento atual e sua relação com o Estado. Nem falei nem ouvi grandes novidades. Vou só comentar que em uma das palestras vi dois gráficos interessantes. Um deles demonstrava a relação positiva entre preço de alimentos e de petróleo, ao longo de décadas. Apesar de meio obvio, já que sabemos que vários dos insumos agrícolas são baseados no petróleo e seus derivados, gostei de vê-lo demonstrado graficamente ao longo dos últimos dez anos. O outro fazia uma relação também positiva entre os picos de aumento dos preços dos alimentos e uma maior concentração de protestos populares ao redor do mundo nos últimos seis anos. A tese que este último expressa precisa ainda ser melhor demonstrada, mas achei boa a ideia de elaborar um gráfico fazendo esta associação.
Eu com alguns decanos da Agricultura Ecológica
 no Uruguai.

Alguns participantes me convidaram para tirar uma foto com eles. É que um grupo que está aqui estiveram visitando nosso trabalho em Ipê, interior do RS, em 1992, portanto há vinte anos. A conclusão mais preocupante nem é que estamos 20 anos mais velhos, sendo que em 1992 nem éramos tão novos assim...  

Fare cosa? C’est la vie! Na verdade o mais preocupante é que este é um reflexo do que acontece na área rural de todo o mundo. Pelas razões mais diversas, e seguramente não conheço todas, a população no campo diminui e envelhece por todas as partes. Ouvi algo que na Inglaterra este movimento se inverteu nos últimos anos. Mais gente e mais jovens vão para as áreas rurais, mas parece que para viver, e não para trabalhar.

 Veremos como ficará o desenho da sociedade com as zonas rurais com menos gente e mais envelhecidas. Nós, os agroecológos, somos uma espécie de semi-fisiocratas modernos, ao menos no enunciado que afirma que toda riqueza vem da terra, temos dificuldade de imaginar um mundo assim.

Já era quase nove da noite de sábado quando terminou o encontro. Jantamos e depois ainda assistimos uma apresentação de um grupo local, cantando musicas uruguaias. Chovia fino, as letras eram chorosas e o ritmos lentos, quase doídos. Optamos por pedir uma Patrícia, uma boa cerveja local e entrar no clima festivo. Festivo? É, pode ser. 
Enfim, hoje foi acordar e pegar o rumo de volta. De novo pela Rambla, o que deu ainda mais vontade de voltar em breve atrás do que desta vez não rolou. Agora, pra casinha. Passei a semana toda fora, emendando com sábado e domingo e ainda tendo uma semana cheia de trabalho pela frente. Fare cosa? C’est la vie...

sexta-feira, 30 de março de 2012

Nicarágua, 30 de março de 2012

Sexta é dia de feira. Estelí, Nicarágua
           Como todos os dias desta semana, levantei hoje às seis da manhã. Aqui em Estelí todos os dias, neste horário, toca uma espécie de sirene que vem do corpo de bombeiros, localizado a apenas duas quadras do meu hotel. Ou seja, dentro do meu quarto. Toca alto..., e por quê? Por nada, só porque as seis é hora de levantar. Tá certo, vou instituir esta norma na minha casa.
            Já que estava desperto e de café tomado às sete da manhã, fui visitar uma feira, na rua ao lado da praça central da cidade. Realizada todas as sextas, com produtos frescos, processados e artesanatos da região. Os participantes são indígenas e agricultores familiares, uma boa parte deles orgânicos. Uma musica alta tocando, rua fechada, o ambiente estava bem festivo. Como sempre gosto de feira, senti que era um bom prenuncio para meu ultimo dia nestas paragens.
E de fato o dia foi bom. O curso terminou com um almoço, todos juntos em um restaurante. Para cumprir o combinado comigo, pedi camarões de novo. Bem gostosos. Apesar de eu ter achado que o curso foi apenas regular, no final a avaliação dos participantes foi positiva, o que é sempre bom.
Fábrica de Charutos, Estelí
Com a agradável sensação do dever cumprido a tiracolo, com uma sexta-feira à tarde livre, fui atrás de algo para fazer. Acabei indo visitar uma fábrica de charutos aqui do município chamada Plasencia. Tinha curiosidade de conhecer um pouco mais de como se produz um charuto e ainda tive a sorte de ir a uma que produz tabaco orgânico, o que não deixa de ser uma curiosidade a mais. É um trabalho intenso em mão de obra, totalmente artesanal, e, segundo a pessoa que me atendeu, uma folha de fumo passa pela mão de alguém cerca de 100 vezes, até estar pronta para ser consumida na forma de um bom puro.  Aprendi ainda que, se contabilizamos todo o tempo do plantio ao consumo, são no mínimo três anos para termos um charuto artesanal pronto. O visual das pessoas trabalhando em grandes salões sobre mesas de madeira me remeteu ao Sul dos EUA no fim do século XIX. Não que eu tenha estado lá, era ainda muito jovem, mas fiquei com esta nítida sensação.
Voltei caminhando para o centro da cidade, tirando fotos de algumas casas, suas portas e janelas de madeira, algumas antigas, meio rústicas, quase silvestres.
Café Don Luis, Estelí
Agora, finzinho da tarde, vim para cá, na mesma cafeteria de ontem, Don Luís, agora decidido a um mui merecido crepe de nuttela. Acabo de comê-lo, acompanhado de uma modesta bola de sorvete de creme. Arrematei com um expresso. Não é tão difícil ser feliz, basta fazer as escolhas certas. 
     Estou escrevendo daqui da cafeteria, aproveitando o entardecer na rua, curtindo o fim da minha semana. Quando voltar ao hotel pretendo não sair mais, afinal amanhã tenho que ir pra estrada às três e meia da madrugada, pegar o voo em Manágua às sete e viajar todo o dia, para chegar em casa três da manhã de domingo.  Tá tudo bem, tá tudo certo, a semana foi boa.

Nicarágua, 29 de março de 2012

Hotel Los Arcos, Estelí
Como já comentei, estou aqui para um curso com uma cooperativa de segundo grau, que reúne cooperativas de cafeicultores orgânicos e que se chama PRODECOOP. Criada em 1993, teve como principal motivação para seu surgimento buscar alternativas para comercializar café, saindo das mãos dos intermediários que pagavam preços muito baixos pela  produção. Em 1990, quando fracassou a revolução, segundo o termo que eles usam por aqui, a compra do café deixou de ser realizada pelo Estado e passou para as mãos do mercado, ou seja de intermediários. Lideranças organizaram PRODECOOP para responder a esta necessidade de vender o café de maneira mais vantajosa para os produtores. Hoje, ela conta com 38 cooperativas de base que agregam um total de 2.300 famílias de pequenos agricultores.
Para entender a Nicarágua temos que saber algo sobre a revolução Sandinista, que triunfou em 1979 e tem como símbolo a queda do ditador Anastásio Somoza, que vinha sendo buscada desde a década de setenta, através da luta armada. A FSLN – Frente Sandinista de Libertação Nacional, criada ainda em 1961, chegou ao poder em julho de 1979, com Daniel Ortega, líder máximo da FSLN, e foi derrotada na eleição de 1990. Recentemente, em 2006, Daniel Ortega retornou ao poder, ganhando a eleição e se reelegendo em 2011. É o atual presidente, e o país se divide entre Sandinistas e Antissandinistas. A todo o momento ouvimos por aqui referencia à revolução, os motivos do seu triunfo e sua derrocada. Vale a pena buscar na net mais informações sobre esta história.
Falando do dia de hoje, quando acabou o curso, no fim da tarde, fui tomar um ótimo expresso em uma bonita cafeteria no centro da cidade, chamada Don Luís. Tinha crepe de nuttela, mas eu resisti. Combinei com ele que nos vemos amanhã.
Restaurante do Hotel
Depois voltei ao hotel e fiquei trabalhando no bar-restaurante, bastante agradável. O hotel se chama Los Arcos, e recomendo. Fica em uma casa colonial restaurada, bonita, com ares andaluzes e um bom restaurante. Em Estelí existem várias casas coloniais, ao estilo do sul da Espanha, relativamente conservadas, com suas bonitas portas, janelas e pátios internos. Elas contribuem com a boa atmosfera da cidade.
Adivinhem o que jantei? Camarões. Ao alho, de novo. Estou viciando, tenho medo de ter síndrome de abstinência quando regressar ao Brasil. Jantei acompanhado de dois amigos em um restaurante Cubano, chamado Rincon Pinareño. Fica bem no centro, a duas quadras ao sul da Igreja principal da cidade. 
Amanhã, ultimo dia. Que bom, é hora mesmo de voltar pra casa. 

quarta-feira, 28 de março de 2012

Nicarágua, 28 de março de 2012

Eu e meu amigo Luis Alvarez
Não escrevi ontem porque o dia passou sem maiores emoções, ainda que bastante cansativo com curso em sala de aula o dia todo. Na verdade o mais emocionante foi comer camarões no almoço e no jantar. Hoje já foi bem mais interessante fomos ao campo, em três lugares diferentes.
Na primeira parte da manhã foi no mesmo Centro de Capacitação que visitei domingo, no município de Totogalpa, em uma região de trópico seco. Neste Centro tem uma concentração grande do que chamamos de tecnologias adaptadas e achei conveniente incluir uma visita lá durante nosso dia de campo. Armazenamento da água da chuva, fogão solar, minhocultura ou biogás são exemplos do que vimos. O Centro é coordenado por um grande amigo, Luiz Alvares, a quem eu não encontrava há mais de seis anos, e foi realmente um prazer vê-lo. Em 1999 estive nesta mesma região, no município de Somoto, dando um curso convidado por ele.
Don Vicente Colindres em seu café Agroflorestal
Depois seguimos direto para visitar duas fincas de café, uma convencional e outra orgânica, no município de Dipilto, mais ao norte, praticamente na fronteira com Honduras. Visitar lavouras de café é um prazer, ainda mais quando é manejado em um sistema agro-florestal, também chamado de café baixo sombra, o mais comum na América Central. Segundo meus conhecimentos, é muito próximo do máximo que se pode pensar em termos de aliar a produção de alimentos com a preservação ambiental.
Café Orgânico em sistema agroflorestal, da
 Sra. Alexa Marin
Mas, mais do que um prazer, foi muito interessante visitar estes dois cafezais. A diferença entre um e outro, entre o convencional e o orgânico, se limita à fertilização, já que nenhum dos dois usam agrotóxicos. E o convencional, que usa fertilizante químico, o faz em doses reduzidas, apenas para garantir a produtividade que o produtor julga mais adequada. Na verdade considero inapropriado chamar de convencional uma lavoura conduzida com tanta diversidade, cobertura vegetal, presença de árvores e sem pesticidas. É o problema das chamadas normas de produção orgânica, que nos obrigam a pasteurizar definições e procedimentos, e as vezes nos conduzem à algumas injustiças. Mas esta prosa é longa, não cabe aqui e agora. Voltando aos cafezais, como o orgânico tem uma produtividade inferior ao convencional, o meu desafio hoje foi propor alternativas para que ele ao menos se aproxime da produtividade do convencional. Começamos esta conversa lá na lavoura, amanhã continuo em sala.
Regressamos no fim do dia, em um lindo entardecer. Nos 100 km da volta a paisagem, montanhas entrecortadas por vales, mudava de cores a cada instante. Mais uma vez pensei que tenho que agradecer sempre à vida pelas oportunidades que me oferece. Hoje andei visitando cafezais, em sistemas agroflorestais, de agricultores familiares na América Central... Quer mais? Eu não, deixa assim que tá bom, se melhorar pode estragar...
De noite, jantei camarões, assim como ontem. Sigo firme no desiderato de comer camarão todos os dias!
Enfim, lo pasé genial hoje. Amanha, já é meu penúltimo dia por aqui. O tempo passa, o tempo voa.

terça-feira, 27 de março de 2012

Nicarágua, 26 de março de 2012

Visual do curso de Agroecologia para PRODECOOP
Hoje o dia foi quase todo em sala, com o primeiro dia do curso. É um curso apenas para a equipe técnica de PRODECOOP, um total de 12 pessoas, dez homens e duas mulheres. É assim, na nossa profissão ainda costumam predominar os homens. Mas..., a Agroecologia definitivamente tem uma alma feminina, e não tenho duvidas que a predominância masculina é um dos entraves que impede uma maior incorporação de valores sócio-ambientais na agronomia.
Trabalhei hoje o porquê de se trabalhar com a Agroecologia, falando de suas vantagens para a saúde das pessoas e do planeta, seus benefícios sociais e econômicos e ainda sua racionalidade agronômica. Depois naveguei por sua origem e conceito. Amanhã caminho mais em direção ao como fazer, em sua dimensão mais técnica.
À tardinha tive tempo de passear um pouco pela cidade. Plana, situada em um vale, não tão pequena, descobri que tem uns 120 mil habitantes, com alguns restaurantes e cafés interessantes. Passei por um cubano que pretendo conhecer. Digo um restaurante cubano, só pra deixar claro. Vi alguns grupos de europeus pela rua, em sua maioria jovens, e parece que o que os atrai são dois parques nacionais situados próximos à cidade. Estelí também tem fábricas de charutos e pretendo ter tempo para visitar uma delas até sexta-feira. E claro, comprar um bom charuto. Eu sei, não fumo, mas não poderei evitar de comprar um bom charuto...
 Aqui na Nicarágua ainda vemos e ouvimos várias referencias à revolução sandinista do fim dos setenta e sua derrocada posterior na década de noventa. Ainda vou perguntar mais para entender melhor e escrever algo aqui, mas por hora já sei que aqui Estelí foi palco de várias batalhas contra o então ditador Anastásio Somoza.
Delícia, delícia, assim você me mata...
De noite não resisti e repeti o prato de ontem, desta vez acrescido de batatas fritas, no restaurante do próprio hotel, que se chama Los Arcos. Bom, bem bom, sigo com meu objetivo de comer camarões todos os dias. Meu pai sempre me disse que eu não devia perder de vistas meus objetivos na vida, e estou decidido a alcançá-lo. Agora, um chocolatinho que comprei no aeroporto e cama. Amanhã tem mais trabalho, e o segundo dia de um curso de cinco dias é um momento crucial para ganhar os participantes. Tenho que estar descansado.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Nicarágua, 25 de março de 2012

Bonita casa colonial, em Ocotal
Estou na Nicarágua, em Estelí, que fica a 150 km ao norte de Manágua, capital do país. Cheguei ainda ontem à noite, depois de 23 longas horas de viagem, entre carro, aviões e aeroportos. Fico aqui toda a semana para dar um curso de Agroecologia para uma importante cooperativa de cooperativas locais de cafeicultores - PRODECOOP. Esta região aqui é nobre para o café, a altitude em vários locais fica entre os desejados 1200 e 1300 m sobre o nível do mar. Hoje, visitando PRODECOOP, já tomei um bom café, ainda que preparado à maneira americana, mais fraca, o que não é minha preferencia.
Café secando ao sol, em PRODECOOP
Hoje passei o dia visitando a região. Fomos ao local onde PRODECOOP beneficia o café, visitamos algumas cidades próximas, como Ocotal e Condega, e ainda revi um casal amigo, em Somoto, cidades que ficam ainda mais ao norte, próximo da fronteira com Honduras. Com eles fui visitar um centro de capacitação organizado por INPHRU, a ONG que eles coordenam. Muito interessante, é baseado no resgate do saber e da cultura Chorotega, uma etnia indígena que ocupou o pacífico sul da América Central.
Andar pelas estradas da América Central normalmente é passear na cordilheira vulcânica que caracteriza a região, costeando os morros e divisando vales e montanhas. Volta e meia subimos e de cima se descortina um amplo vale, onde normalmente ficam as cidades, maiores ou menores. Claro, quando saímos em direção aos oceanos a paisagem muda.
De tardinha ainda tive tempo para comer umas tortilhas e um queijo fresco local, acompanhados de uma Toña, cerveja daqui. Boa cerveja e produzida sem conservantes ou estabilizantes. Uma pena que no Brasil a imensa maioria das cervejas não segue a famosa lei de pureza alemã, que não permite aditivos na cerveja. As duas principais cervejas daqui, Toña e Victoria, que são da mesma cervejaria, seguem...
E agora acabei de jantar um camarão ao alho acompanhado de arroz, delicioso. Camarão de verdade, grandes, frescos. Apesar de não estarmos no litoral, o mar é perto, e o camarão pode vir até andando que chega fresquinho... Foi um bom dia para começar minha estadia aqui, mais tranquilo, já que amanhã começa o trampo, com 9 horas de curso por dia, até na sexta-feira. Sábado já regresso. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Paraguay, 02 de março de 2012

Visita a campo tem disto: furou o pneu...
Já voltando para casa. O que sempre é bom. Fiquei cinco dias aqui e escrevi apenas dois posts. Os dias foram meio repetitivos, e eu não queria de novo tratar aqui o teor dos meus cursos, o que já fiz em outras ocasiões. E acho que estou reaquecendo também, é a primeira viagem do ano.
Ontem fomos visitar duas pequenas propriedades rurais aqui da região. Não tão da perto, porque viajamos uns 200 km entre ir e voltar. Foi legal, sempre gosto destas oportunidades de conhecer experiências locais que se baseiam na Agroecologia. Enriquece minha percepção sobre porque e como ela vem sendo aplicada no continente. De mais a mais, com uma turma jovem e heterogênea como esta, a melhor técnica são aulas práticas e visitas de campo. Mais fácil para que cada um apreenda de acordo com sua base de informações.
Barbaquá, para processar a erva-mate
Uma das fincas que visitamos é um típico Sistema Agroflorestal, SAF no jargão dos agrônomos. Muito legal ver um sistema tão diversificado em árvores de diferentes utilidades como podem ser produzir frutas ou madeira, medicinais e aromáticas, para sombra ou ainda para melhorar a fertilidade do solo. Neste caso, o cultivo principal é a erva–mate, muito utilizada por aqui para fazer o tererê, um tipo de chimarrão frio tomado diariamente aos litros em todo o país. Tanto o chimarrão quanto o tererê vem da tradição guarani, e a erva mate, planta que origina a erva, é desta região do sul do Brasil e Paraguai. A outra propriedade é baseada em hortaliças, frutas, algumas vacas, pequenos animais, piscicultura. Tudo integrado, bem cuidado, manejo atento e elegante. Legal de ver também.
Finca ecológica, Sr. Eugenio Melo
São milhares de experiências assim em todo o continente. E ainda tenho que ouvir quando frequento seminários acadêmicos que precisamos de mais informação para ter certeza da factibilidade da aplicação dos princípios da agroecologia. Que preguiça eu tenho ao ouvir isto! Os interesses por trás da venda de agroquímicos são muito fortes. Contrapô-los é uma tarefa árdua. Exige ouvirmos verdades inquestionáveis absolutamente falsas!
Hoje foi dia de terminar o curso e me despedir dos alunos. Gostei de conhecê-los e de conhecer o Instituto. São guerreiros. Um pouco mais de ordem na escola poderia aproveitar melhor o entusiasmo reinante e contagiante entre seus jovens frequentadores. Quanto à cidade, não acho que escolheria Curuguaty para ser meu próximo destino nas férias, mas, como disse ontem, conhecer o interior dos países é ver um pouco de sua alma. E isto eu gosto. Gosto também do Paraguai e seu povo com sua essência Guarani, expressa na língua, no tererê, na comida.
Bom início para as viagens deste ano. Não ótimo, mas bom. Este ano promete, as expectativas são boas. Fui, acho que a próxima é a Nicarágua, no fim do mês. 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Paraguay, 29 de fevereiro de 2012

Visual do IALA - Guarani
Sempre gostei do verso do poetinha: a vida é a arte do encontro, embora hajam tantos desencontros pela vida... Bom, muito bom. Quando ouço que vivemos na sociedade da informação, lembro-me deste verso e digo a mim mesmo: embora haja tanta desinformação nessa sociedade...
Aqui estou, no município de Curuguaty, estado de Canindeyú, Paraguai. O estado faz fronteira com o Brasil, mais exatamente com Paraná e Mato Grosso do Sul. Quente e chuvoso, ao menos nesta época. Estou aqui desde segunda, fui convidado para dar um curso de uma semana no Instituto de Agroecologia Latino Americano - IALA – Guarani. O IALA Guarani é uma iniciativa da Via Campesina do Paraguai. Para quem não sabe, a Via Campesina é o mais representativo movimento campesino do mundo.
A cidade não é tão pequena, uns 80 mil habitantes. Nem tão pequena, nem tão bonita... mas alguns resquícios de Mata Atlântica que a rodeiam e a topografia de montes macios, que nos permitem ver um largo horizonte entremeado de curvas é bastante agradável aos olhos.
Aula prática
Visitar as áreas rurais dos países é como tirar um tipo de ultracenografia. Podemos ver algo de suas entranhas. Querem um exemplo? Estou tendo certa dificuldade no curso, pois os participantes na sua maioria são jovens filhos de agricultores, e se sentem mais confortáveis falando Guarani. Entendem meu espanhol, há um certo diálogo, mas eu sinto que entrecortado, limitado pela língua. Um deles me explicou que eles podem entender tudo, mas como pensam em Guarani, lhes dá trabalho traduzir para emitir uma opinião, e isto gera certos silêncios na comunicação.
No interior normalmente não existem restaurantes internacionais... e aí comemos o local, assim como ele é, sem um toque gourmet. No caso aqui, frango assado, carne de gado e mandioca cozida. Mandioca sempre, para todo lado, em todas as refeições.
Jovens no curso, momento da viola
O IALA – Guarani fica a uns 10 km da cidade, e como as instalações lá ainda são bastante precárias, optei por dormir no hotel aqui na cidade, e vou e volto todos os dias. Eu gosto, chego ao hotel por volta das seis, tenho tempo de net, escrever um pouco, comer e ler algo. Poderia passar algum tempo assim. A galera fica lá, dezenas de jovens, dormindo em seus beliches, divididos em três quartos, cada um deles com 20, 30 camas. Estudando e trabalhando, ainda terminando as construções, se dividindo nas tarefas de organização e limpeza, mandando mensagens via celular, buscando uma lenta e rara conexão com a net, tocando violão e jogando conversa fora nas horas de intervalo. 
Bonito ver a energia e alegria com que se dedicam às suas atividades. Legal ver a vontade com que buscam construir um mundo novo, o mundo dos seus sonhos, o mundo dos sonhos de cada um, o sonho de mundo que lhes venderam. Temo pelo resultado. Estas conquistas não se alcançam sem uma boa dose de preparação. Jovens rurais normalmente tem pouca oportunidade para uma formação de qualidade e a capacidade individual de superar estes limites muitas vezes é vencida por uma má orientação ou pelos apelos do dolce far niente. E parece que não é uma prioridade reverter este quadro. Nem por parte dos jovens, nem por parte da sociedade. Sigo temendo pelo resultado.
Enfim... vivemos na sociedade da informação, embora haja tanta desinformação na sociedade!