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domingo, 12 de abril de 2026

Xangai, 11 e 12 de abril de 2026.

Buda de Jade recostado

Partiu casa! Estou aqui no aeroporto de Xangai, escrevendo esse último post da nossa trip de 20 dias pela China. Nem sei como adjetivar essa viagem; preciso ainda de um pouco de perspectiva para encontrar as palavras precisas. Mas foi interessante demais. E o objetivo foi atingido. Eu queria muito ver de perto esse país que minha geração viu, de forma meteórica, sair da fome e do escárnio internacional e se transformar no mais importante do mundo.

Mercados de bairro - a vida pulsa!

Ontem e hoje foram os dias de despedida. Deu para ver mais um pouco de Xangai, mas nossa energia talvez estivesse um pouco mais baixa.

Sábado de manhã, nos dividimos. Helena quis ir a uma loja de bolsas de marcas de luxo, de segunda mão — “second hand” fica melhor… O que ela me contou, sobre o tamanho do lugar e da forma como se faz a compra, toda por aplicativo e com possibilidades de ofertas e negociações, pareceu muito interessante. Bolsas são todo um tipo de ecossistema próprio, do qual eu não sei absolutamente nada. Até gostaria de ter ido com ela, mas Ana e eu optamos por ir conhecer o “Templo do Buda de Jade”.

A apenas duas estações de metrô do nosso hotel, chegar lá foi barbada. A caminhada até o templo, uns 500 metros, já justificou a ida. Pudemos ver a Xangai mais cotidiana, com vários mercadinhos de bairro e o povo fazendo as comprinhas de sábado de manhã. Eu poderia dizer “como em qualquer lugar do mundo”? Não sei se poderia. No mercado de peixe, a quantidade de peixes vivos em aquários, à espera do comprador — enguias e tartarugas também vivas — não vejo em qualquer lugar do mundo. Tampouco a quantidade de tofu em múltiplas preparações ou as barracas de carne expondo galinhas, patos e pombos inteiros.

Templo do Buda de Jade

Levamos quase uma hora para percorrer a curta distância que nos levou ao templo. E, de cara, já adoramos! É um templo “vivo”. Apesar de muito visitado por turistas, a entrada é gratuita e ali os locais vão fazer suas orações, sendo possível ver monges orando em seus espaços específicos.

O templo é lindo. Na verdade, nunca visitei um templo budista — algo que adoro fazer — que não fosse lindo. Este tem muitas e impactantes imagens. Mas as duas salas com os enormes Budas esculpidos em jade branco são incríveis. Incríveis.

As imagens foram trazidas da Birmânia no século XIX e esculpidas em pedra translúcida de jade, o que simboliza pureza e sabedoria. A “estátua do Buda sentado” mostra-o em profunda serenidade e representa Siddhartha Gautama no instante da iluminação, com uma mão tocando a terra enquanto a outra repousa em meditação, e deve ser associada à prática espiritual contínua. Gostei muito de ver essa sala, com uma obra de arte que é, ao mesmo tempo, um centro vivo de devoção, com o silêncio, o incenso e os rituais de saudação permitindo que os adeptos vejam na estátua, e no que ela representa, um caminho para sua própria iluminação. Ouvi de um guia que falava em espanhol que a obra foi esculpida em uma pedra única, pesa 2 toneladas e mede 1,90 metro de altura. Ele completou: “obra celestial, sem defeito. Para trabalhar com o jade branco, não podes falhar. Tem que ter técnica e paciência. Por isso, em espanhol, se tem o ditado: trabalho de chinês.”

Guanyin - a bodhisattva da compaixão
Essa sala, um pouco mais escondida do que as outras, não permite fotos. Sabe que até gosto disso? Deve ser uma blasfêmia o que vou dizer, mas ver os celulares guardados, poupando-nos do frenesi das fotos, me dá mais sensação de paz do que a própria imagem do Buda.

No mesmo salão, há outra imagem linda, daquele “Buda” sorridente e gordo (robusto é mais educado?). Na verdade, chama-se Budai e é inspirado em um monge chinês que viveu por volta do século X e que, com sua barriga exposta e expressão de alegria, tornou-se símbolo de felicidade, abundância e generosidade. Segundo li, sua presença no Templo do Buda de Jade lembra que a espiritualidade também pode ser leve e cotidiana — não apenas disciplina e transcendência, mas também contentamento, partilha e um certo desapego bem-humorado diante da vida. Gosto bem disso!

E ainda tem a outra estátua, tão linda quanto: a “estátua do Buda recostado”. Essa pode ser fotografada; deixo uma foto com vocês.

Bom, realmente a visita ao templo já teria justificado o dia. Mas ainda tinha mais. Saímos dali e seguimos passeando pelo bairro, tendo como destino a “East Nanjing”, o mesmo calçadão que vimos ontem à noite e ao qual queríamos voltar. Não deu certo encontrar a Helena por lá, que voltou da sua excursão pelas bolsas e foi comer dumplings em outro restaurante estrelado Michelin. Ana e eu nos perdemos um pouco na caminhada, mas por caminhos sempre agradáveis chegamos na East Nanjing. 

Xangai também tem disso...

Com muita gente no tal calçadão, lojas e lojas lotadas, chovendo fino — não nos pareceu uma boa seguir ali. Mudamos o trajeto e fomos à “West Nanjing”. Nos encontramos nas duas confeitarias, que já mencionei na crônica anterior: uma com inspiração londrina, outra francesa, uma ao lado da outra. Comprei uma torta de três chocolates em Londres; Ana, dois quitutes em Paris; e nos sentamos ali mesmo, em uma mesa nesse pedacinho da França em Xangai, com um café quente. Parece chique, né? Sim, pode até ser chique, mas os doces estavam mais bonitos que gostosos, o café frio e ralo, e ainda chovia nas nossas costas. Viu? Tudo depende da narrativa pela qual você opta. Tudo depende da história que você escolhe contar para si mesmo. Querem que eu descreva algo mais nobre ou algo mais mundano? Posso fazer os dois, sem mentir. Acabo de me lembrar de um verso de Pessoa: “fiquei perplexo com essa dupla existência da verdade”.

Com o tempo chuvoso, voltamos ao hotel. Pit stop para sair de novo. Claro que Ana e eu fomos desfrutar do agradável happy hour que meu status na rede Accor nos proporciona. 27º andar, visual bacana, música suave, bebidinhas e comidinhas ao nosso dispor. Helena nos acompanhou, mas ela queria mesmo era ir a um bar inaugurado há pouco na cidade, mas que já existe em Hong Kong há um tempo e hoje é considerado o melhor do mundo, segundo a lista do The World’s 50 Best Bars. Helena entende do rolê e nos avisou que, chegando lá às sete e meia, a fila poderia ser grande. Fomos assim mesmo. Entramos na fila, por aplicativo, e vimos que estávamos em 31º. Uma hora depois, estávamos em 14º. Desistimos! Fomos dar um rolê em um shopping perto do hotel e depois fomos a um bar/restaurante bem interessante por ali mesmo. Era o último momento com Helena; hoje, às cinco, ela saiu para o aeroporto.

Cerejeiras em flor e minha modelo favorita

Domingão, nublado, Ana e eu, agora em modo sem a filha, resolvemos ir a um parque que nos foi apresentado por um reels que caiu na nossa mão: o Gucun Park.

Levamos mais de meia hora de metrô até a entrada dois do parque. Pagamos 20 yuans cada um para entrar. Estava vazio. É que o visual que nos foi prometido pelo reels já não estava tão presente: um sem-número de cerejeiras em flor. Além disso, o tempo estava úmido; às vezes caía uma chuva fina. Mas foi legal: com pouca gente, o clima era de puro relax, entre algumas árvores ainda floridas e muitos canteiros coloridos. Li que o parque, um dos maiores de Xangai, com cerca de 400 hectares, é um importante espaço de lazer para os moradores da cidade, especialmente durante a primavera, quando as flores atraem famílias, grupos de amigos e fotógrafos. Bem cuidado, amplo — mesmo com poucas árvores floridas, estava agradável o passeio. Ficou ruim quando resolvemos voltar de Didi. Coloquei como referência o tal Starbucks Reserve, local que gostamos muito e queríamos rever, além de estar a uns 15 minutos caminhando do hotel. Depois de meia hora no Didi, percebemos que ele nos levou a outro Starbucks, longe demais. P da vida, chamamos outro Didi; levamos mais uma hora para chegar aonde queríamos. Reforço aqui, agora por experiência própria, o que já haviam me alertado: colocar nomes em inglês nos aplicativos de transporte da China pode mesmo dar esses erros; tem que ficar atento.

Flores e flores

Chegamos ao Starbucks, mas o fato dele estar lotadíssimo, e de estarmos com o tempo um pouco apertado, nos fez pegar o rumo do hotel — mas de boa, passeando. Assim foi: uma lojinha aqui, uma rua que ainda não tínhamos visto ali, uma passada no Plaza 66, mais um dos tantos shoppings que reúnem marcas de luxo no país como um todo e em Xangai em particular. Impressionante.

É verdade que a China achou seu caminho para tirar sua enorme população da fome e da pobreza. Os números mostram. A sensação que tivemos nessa viagem por sete cidades confirma. Mas o culto ao consumo assusta. Lembro de um dia, lá pelos anos 1990, em uma oportunidade que tive de tomar uma cerveja com José Lutzenberger, apenas nós dois, com ele falando que o capitalismo e o socialismo real eram semelhantes na relação de exploração da natureza. Isso ele comentava pensando principalmente nos regimes da URSS ou da China. O modelo chinês atual, que sabemos não se encaixa em algo já tentado ou previsto nos livros, provoca também um visível, quase assustador, impacto no meio ambiente. Ele é hoje o maior emissor de gases de efeito estufa do planeta. Parece que sua preocupação ambiental é real — isso eles afirmam de forma categórica —, mas passa longe da diminuição do consumo e sim por severas medidas na reciclagem/tratamento do lixo e na energia não baseada no petróleo.

Ruas próximas a west nanjing road

Emitir menos carbono e cuidar do lixo gerado é super oportuno e necessário, mas não posso achar que será suficiente. Intuo, sem me preocupar com o tamanho da bobagem que posso estar falando, que não é um modelo multiplicável por muitos anos ou algumas décadas mais.

Um dos meus objetivos em fazer essa viagem era entender algo mais deste país. Saio sabendo pouco mais do que quando vim. Complexo demais... E tem um aspecto que gera uma prosa boa, mas não aqui: E as liberdades individuais, a quantas andam? Um turista não consegue perceber. E eleições que não tem? Mas tê-las a cada 4 ou 5 anos significa mesmo democracia? Vixi, conversa para lá de complicada.

Passamos o fim de tarde entre nos arrumarmos para ir embora e fazermos o tempo passar em uma caminhada de despedida. Às oito, viemos para o aeroporto.

Um breve sufoco com a passagem: a Air China não reconhecia que havia um bilhete vinculado à minha reserva, mas conseguimos resolver, com Ana incansável na conversa com os chineses e eu no WhatsApp, com o atendimento especial Black Signature da LATAM.

Agora começa nossa saga de volta: 13 horas até Milão, cinco horas de aeroporto, mais 12 horas até Guarulhos, 2 horas de aeroporto, mais 2 horas de voo até Porto Alegre e mais 2 de carro até Torres. Quer viajar? Tem disso também!

Deu de China. Na próxima viagem, conto mais!

Parque Gucun

Happy hour do hotel, do jeitinho
que gosto...

Enguias no mercado. Três tamanhos.


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