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sexta-feira, 10 de abril de 2026

Xangai, 08 a 10 de abril de 2026.

 

Pudong, visto de The Bund

Já estamos há três dias em Xangai. Que viagem é essa cidade! Eu vim com a Xangai futurista na cabeça, os prédios enormes, as muitas luzes, a riqueza, a tecnologia. Afinal, trata-se de uma das cidades mais ricas da China e de um dos principais centros financeiros da Ásia. Sim, vi tudo isso, minha expectativa não estava fora do quadro, mas me surpreendi também com uma Xangai com muita presença europeia, na comida, na arquitetura, no jeito da cidade. Mas, sabe, a real é que Xangai é isso, e muito mais, não cabe em um parágrafo e, já aviso, não vai caber nas duas crônicas que farei sobre nossa estada nesta cidade.

Pudong - visual futurista de Xangai

Parece que, em dado momento, e posso dizer que há pouco, neste século, Xangai foi puxada direto para o futuro, sem deixar de lado a presença do passado. Lá atrás era um vilarejo de pescadores e virou um dos principais portos da China, especialmente a partir do século XIX, quando, depois da Guerra do Ópio, foi aberta ao comércio estrangeiro. Sabe o que foi a Guerra do Ópio? Não? Eu também não sabia, mas uma das coisas que mais gosto de fazer quando viajo é ler sobre o lugar, ampliando o olhar sobre o local onde estou. Então, na real foram duas Guerras do Ópio, dois conflitos entre a China e o Reino Unido no século XIX, basicamente por causa do comércio — e, mais especificamente, do ópio. Acontece que britânicos detestam ficar para trás, como sabermos, ainda mais nos séculos passados, onde a poderosa Marinha Britânica andava por aí brincando de controlar e conquistar o mundo. No início do século XIX, a China exportava muito chá, seda e porcelana, para os britânicos. Ocorre que esses não tinham muito o que vender em troca. Para equilibrar essa conta, passaram a vender ópio (uma droga derivada da papoula) produzida na Índia, que era domínio inglês, para os chineses. O problema é que isso gerou uma crise enorme de vício na China. Em dado momento, o governo chinês tentou proibir o ópio e apreendeu carregamentos da droga, e os britânicos reagiram militarmente. Isso deu início à Primeira Guerra do Ópio (1839–1842). Resultado? Britânicos ganharam e a China foi obrigada a assinar o Tratado de Nanquim (1842), sendo obrigada a abrir portos ao comércio estrangeiro, pagar indenizações e ceder Hong Kong ao Reino Unido. Depois ainda houve uma Segunda Guerra do Ópio (1856–1860), com participação de britânicos e franceses, que aprofundou ainda mais essas imposições.

Iníco da noite, a Nanjing Road acende
suas luzes.

Essa passagem de ingleses, franceses, depois americanos e japoneses deixou marcas claras — bairros inteiros com arquitetura europeia, como o Bund e a antiga Concessão Francesa. A Revolução Comunista, liderada por Mao Tse Tung, em 1949, acabou definitivamente com essa farra, que já vinha perdendo força. Li, inclusive, que Xangai perdeu um pouco de protagonismo no próprio país, recuperado com tudo nas últimas décadas, se transformando nesse centro financeiro gigantesco, cheio de arranha-céus, luzes e energia. É uma mistura curiosa e muito sedutora: tradição chinesa, passado colonial e um presente hipermoderno convivendo no mesmo lugar.

Pois foi nesse cenário que pudemos mergulhar por cinco dias. Muito legal, saber destes passados para entender melhor os presentes, e presentes aqui uso nos dois sentidos, que a vida nos dá. Concorda?

Chegamos, vindo de avião de Zhangjiajie, na quarta-feira, dia 08. Cumprindo exatamente o planejado desde que saímos de casa. Aliás, a única mudança no nosso roteiro na China foi tirar uma noite de Furong e transferi-la para Zhangjiajie. Eram umas 4 da tarde quando fizemos checkin no excelente Swissôtel Grand Xangai. Super bem localizado, perto da Nanjing Road, uma das avenidas mais conhecidas e visitadas por aqui.

Saímos rápido, a fim de aproveitar o que ainda tínhamos de dia pela frente. A caminhada nos levou a uns lugares bacanas. Em poucos minutos, já estávamos naquele contraste clássico da cidade: o movimento ao redor do Jing'an Temple ficando para trás e uma Xangai mais calma e contemporânea aparecendo. Caminhamos uns dez minutos, longe da muvuca da Nanjing Road, e entramos quase sem perceber num desses espaços escondidos da cidade, chamado Zhang Yuan. Quando vemos desde a rua, algumas boas lojas, mas quando circundamos, nos encontramos com uma pequena praça com instalação de arte e bares descolados, todos reunidos numa construção baixa, meio “escondida” do trânsito. Curtimos, poderíamos ter sentado por ali e aproveitado a tranquilidade, mas acho que queríamos logo ver a Shanghai intensa e movimentada. Pegamos a rota de volta e caminhamos pela Nanjing West Road. Era início da noite, a cidade começando a se acender, ficamos admirando a organização, a limpeza, as lojas de luxo que se sucedem de forma incansável. 

A bakeria francesa que mencionei.

Momento muito agradável. Ana e Helena encontraram uma Uniqlo perto de um daqueles cruzamentos que resumem bem Xangai: gente por todos os lados, um fluxo constante que não para nunca. Quase colada a Uniqlo duas bakeries uma de frente para a outra — a AMAM Lonbakery Town, com pegada mais londrina, e a Butterful & Creamorous, mais “francesa”, cheia de vitrines bonitas e doces chamativos. É um pedaço pequeno, mas muito vivo, meio caótico, meio organizado, onde se pode perceber executivos, turistas e jovens se misturando.

Essas padarias/docerias com ar de Londres e Paris logo me fez lembrar das guerras do ópio e suas consequências, da ocupação europeia em Xangai.

Era início da noite quando Ana e eu voltamos ao hotel, Helena seguiu dando banda! O happy hour do Swissôtel é no 27 andar, agradabilíssimo, e foi ali que terminamos nossa noite.

Quinta-feira, dia 9, a disposição era de caminhar pela cidade, que nos causou uma excelente primeira impressão. Começamos visitando o Templo Jing’an, ao lado do hotel. Ana e eu adoramos visitar templos. Sempre gostamos. Agora, tenho a chance de colocar fotos das imagens em alguma inteligência artificial e entender melhor o que estou vendo. Dá uma maior qualidade à visita, ela fica mais interessante. Em meio à intensidade da cidade, é só atravessar o portão e entrar num espaço de calma. 

Uma das tantas imagens do Bhuda
no Templo de Jing'an

Apesar de muita gente, o incenso no ar, os telhados dourados e aquele silêncio respeitoso típico dos templos budistas gera um clima diferente. Li que a origem dele é antiga, com mais de mil anos, mas o que se vê hoje é uma reconstrução recente. Tudo muito bem cuidado. Lá dentro, como disse, pessoas rezando, acendendo incensos, fazendo oferendas — tudo acontecendo naturalmente, mesmo com a cidade pulsando ao redor.

Depois, pegamos o mesmo caminho de ontem. Chegamos à mesma Uniqlo, no metro da Nanjing West, mas eu queria mesmo era ir a uma loja da Onitsuka Tiger, próxima. Queria comprar um tênis Tiger, modelo México 66, o mais icônico da marca, e que era objeto de desejo na minha adolescência. Helena e eu acabamos comprando um amarelo, que foi imortalizado por ter sido usado pela Kill Bill, nas cenas que ela fazia com sua roupa toda amarela.

Próximo destino: ver o navio da Louis Vuitton. Eu sei que o dono desta marca é uma das pessoas mais ricas do planeta. Mas, ainda assim, ver que eles colocaram um navio enorme, em uma das regiões mais valorizadas de uma das cidades mais importantes do mundo, é de cair os butiás do bolso. Não conhece essa expressão? Tem que morar uns vintes anos no RS para aprender a usá-la.

The Louis

O navio, chamado de "The Louis", é uma impressionante loja-conceito da Louis Vuitton, projetada no formato de um navio gigante. Abriga três andares que combinam uma boutique exclusiva, uma exposição artística e o café temático Le Café Louis Vuitton, que existe também em Nova York e Paris. O navio tem cerca de 30 metros de altura e mais de 100 metros de comprimento. A fachada mescla o shape da embarcação com motivos de malas, em boa parte revestida pelo monograma metálico da grife. Achei a maior doidice! Mas Xangai é assim, porque ao lado, tem uma Starbucks reserva. Têm algumas Starbucks desta pelo mundo, eu havia visto em Milão, mas a de Xangai é ainda mais suntuosa. Enorme, cafés sendo torrado à vista de todos, maquinas sofisticadas, super bem decorado, com várias formas de extração de café e comidinhas lindas. Digo lindas porque não provamos, estava muito cheio e era quase hora do almoço.

E onde fomos almoçar? Capitaneados pela Helena, fomos a um restaurante com estrela Michelin. Aliás, nem contei que ontem almoçamos em um também Michelin, ainda que no de ontem a estrela está com outra filial do mesmo dono.

Praça do Povo e a prefeitura


O de hoje era o Seventh Son. Comemos deliciosos dumplings acompanhados de um chá de jasmim. Curtimos bem, estavam gostosos, mas estamos sempre com a sensação de que não conseguimos fazer o melhor pedido possível.

Terminamos de almoçar e seguimos nossa jornada. Fomos de caminho, para chegar na Praça e no Parque do Povo. O Parque é amplo, arborizado, locais passeando, com bancos e mesas espalhadas onde habituês se reúnem para uma jogatina. Cena muito bacana de ver.

A Praça do Povo está ao redor da sede da prefeitura. Em muitas cidades chinesas tem um “Praça do Povo”. Essa denominação guarda estreita relação com a revolução comunista, afinal estamos na República Popular da China. Essa denominação, “do povo”, guarda o simbolismo de expressar quem efetivamente está no poder: o povo. Em Xangai, a carga simbólica é ainda mais forte, pois esse lugar era anteriormente conhecido como Hipódromo de Xangai, dedicado à elite europeia.

Depois desta boa caminhada, meio da tarde, voltamos de Didi ao hotel para recarregar um pouco as energias. No início da noite, nos dirigimos ao local conhecido como “concessão francesa”. Outra vez se faz visível a presença europeia em Xangai. Um bairro charmoso, com casario em arquitetura colonial, muitas lojas e cafés descolados. O passeio foi interrompido pela chuva, acabamos em um bar bem simpático, chamado The Union Trading Company. Tomamos um drink e gostamos tanto que fomos procurar outro bar. Fui em uma direção que havia mapeado, deu errado, mas acabamos em outro bar muito legal. O Rincon Bar. Para quem curte um ambiente legal e um drink autoral, recomendo os dois. 

The Union Trading Company

Hoje, sexta-feira, seguimos no ritmo intenso que a cidade propõe. Pegamos o metro, ao lado do hotel, e fomos conhecer Pudong. É o distrito financeiro de Xangai. O lugar onde vemos os prédios enormes, arquiteturas diversas, avenidas largas, passarelas e viadutos. Ali está a Torre Pérola, mal comparando a Torre Eiffel de Xangai. Nós não subimos nela, mas pegamos a dica de um tiktoker e subimos até o Cloud 9, um renomado bar panorâmico localizado no 87º andar do hotel Grand Hyatt, dentro da Torre Jin Mao. Era cedo, tínhamos esperança de tomar um café, mas é um bar, estava fechado. Valeu ter subido até lá.

Depois fomos até a estação de metrô “Shanghai Science and Technology Museum”. Fomos nos enriquecer de cultura vendo o Museu? Não... fomos ao maior mercado popular de Xangai, que vende de tudo, mas muito de tudo. E, claro, muitas réplicas. Antigamente eram chamados de falsificados, agora são réplicas. Segundo meu filho Daniel, “originalzinho”.

Ficamos mais de duas horas por lá, entre negociações e compras. O esquema é aquele, eles dão um preço inicial de 1000, se você pagar mais que trezentos pagou caro. Eles falam mil, você fala cem, chega a duzentos, você sai com a impressão de que fez bom negócio, eles mantêm um sorriso no rosto que nos faz crer que também fizeram um bom negócio. Um verdadeiro win-win!

East Nanjing Road

Era hora de ir ao hotel descarregar compras e recarregar energia. Na saída do metrô, achamos um restaurante tailandês. Comemos muito bem, tão bem que nos fez ter certeza de que não nos adaptamos à comida nas cidades da China por onde passamos. Para Ana e Helena, que não comem frango nem carne vermelha, mais difícil ainda. Também os enormes cardápios, em chinês, tradução nem tão simples, nos fazia perder a paciência em sermos precisos na escolha, nem sempre acertávamos. Mas a comida tailandesa estava deliciosa!

Fim de tarde, partiu para a estação de metrô East Nanjing Road. Ali nos deparamos com um grande calçadão, muitas de ruas de compras, absolutamente lotadas. Outra vez com as grandes marcas mundiais marcando presença.

Caminhamos em meio à multidão em direção ao The Bund. O The Bund (Waitan) é o cartão-postal mais famoso de Xangai. Um calçadão histórico com mais de 1500 metros, à beira do rio Huangpu, conhecido pelo visual hiper iluminado dos dois lados do rio. Estávamos, o The Bund propriamente dito, com dezenas de edifícios coloniais europeus de estilo neoclássico e art déco. Do outro lado do rio, Pudong, onde estivemos hoje de manhã, só que agora podendo ser visto mais em perspectiva e todo iluminado. Com aquele show de luzes, o aspecto futurista se acentua. E barcos cruzando o rio, também fartamente iluminados.

Yuyuan Bazzar

Ficamos ali, acompanhados de uma verdadeira multidão, a maioria chineses, admirando tudo o que víamos, em um e outro lado. O lugar é muito aprazível para caminhar. E foi o que fizemos, na direção do Yuyuan Bazaar. Uns dois quilômetros depois chegamos. Não sabíamos exatamente o que iriamos encontrar. Outra viagem... outra vez nos deparamos com um sem-número de lojas de souvenirs, cafés, sorvetes, comidas, roupas, calcados e muito mais. Muitas ruelas dentro desse complexo chamado de Yuyuan Bazaar. Contiguo, meio dentro, o Parque Yuyuan, mas nesse nós não fomos, a visitação é paga e ocorrem só durante o dia. Essa tarde-noite, com East Nanjing Road, The Bund, caminhada e Yuyuan Bazaar foi super agradável. Eram onze da noite quando chegamos ao hotel.

Fico por aqui nesse relato de nossos três primeiros dias em Xangai. Esses post é, disparado, o maior dos mais de 300 que tenho nesse Blog. Ainda tem mais dois dias, vou contar sobre eles na última crônica sobre essa incrível viagem à China.

 

 

Visual do Starbucks Reserve

Jogatina no Parque do Povo

Vai um drink?

Concessão Francesa

Fairmon Xangai... queria ter ficado
nesse hotel!

Yayuan Bazaar

Yayuan Bazaar

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