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| Pudong, visto de The Bund |
Já estamos há três dias em
Xangai. Que viagem é essa cidade! Eu vim com a Xangai futurista na cabeça, os
prédios enormes, as muitas luzes, a riqueza, a tecnologia. Afinal, trata-se de
uma das cidades mais ricas da China e de um dos principais centros financeiros
da Ásia. Sim, vi tudo isso, minha expectativa não estava fora do quadro, mas me
surpreendi também com uma Xangai com muita presença europeia, na comida, na
arquitetura, no jeito da cidade. Mas, sabe, a real é que Xangai é isso, e muito
mais, não cabe em um parágrafo e, já aviso, não vai caber nas duas crônicas que
farei sobre nossa estada nesta cidade.

Pudong - visual futurista de Xangai
Parece que, em dado momento,
e posso dizer que há pouco, neste século, Xangai foi puxada direto para o
futuro, sem deixar de lado a presença do passado. Lá atrás era um vilarejo de
pescadores e virou um dos principais portos da China, especialmente a partir do
século XIX, quando, depois da Guerra do Ópio, foi aberta ao comércio
estrangeiro. Sabe o que foi a Guerra do Ópio? Não? Eu também não sabia, mas uma
das coisas que mais gosto de fazer quando viajo é ler sobre o lugar, ampliando
o olhar sobre o local onde estou. Então, na real foram duas Guerras do Ópio,
dois conflitos entre a China e o Reino Unido no século XIX, basicamente por
causa do comércio — e, mais especificamente, do ópio. Acontece que britânicos
detestam ficar para trás, como sabermos, ainda mais nos séculos passados, onde
a poderosa Marinha Britânica andava por aí brincando de controlar e conquistar
o mundo. No início do século XIX, a China exportava muito chá, seda e
porcelana, para os britânicos. Ocorre que esses não tinham muito o que vender
em troca. Para equilibrar essa conta, passaram a vender ópio (uma droga
derivada da papoula) produzida na Índia, que era domínio inglês, para os
chineses. O problema é que isso gerou uma crise enorme de vício na China. Em
dado momento, o governo chinês tentou proibir o ópio e apreendeu carregamentos
da droga, e os britânicos reagiram militarmente. Isso deu início à Primeira
Guerra do Ópio (1839–1842). Resultado? Britânicos ganharam e a China foi
obrigada a assinar o Tratado de Nanquim (1842), sendo obrigada a abrir portos
ao comércio estrangeiro, pagar indenizações e ceder Hong Kong ao Reino Unido.
Depois ainda houve uma Segunda Guerra do Ópio (1856–1860), com participação de
britânicos e franceses, que aprofundou ainda mais essas imposições.
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| Iníco da noite, a Nanjing Road acende suas luzes. |
Essa passagem de ingleses,
franceses, depois americanos e japoneses deixou marcas claras — bairros
inteiros com arquitetura europeia, como o Bund e a antiga Concessão Francesa. A
Revolução Comunista, liderada por Mao Tse Tung, em 1949, acabou definitivamente
com essa farra, que já vinha perdendo força. Li, inclusive, que Xangai perdeu
um pouco de protagonismo no próprio país, recuperado com tudo nas últimas
décadas, se transformando nesse centro financeiro gigantesco, cheio de
arranha-céus, luzes e energia. É uma mistura curiosa e muito sedutora: tradição
chinesa, passado colonial e um presente hipermoderno convivendo no mesmo lugar.
Pois foi nesse cenário que
pudemos mergulhar por cinco dias. Muito legal, saber destes passados para
entender melhor os presentes, e presentes aqui uso nos dois sentidos, que a
vida nos dá. Concorda?
Chegamos, vindo de avião de
Zhangjiajie, na quarta-feira, dia 08. Cumprindo exatamente o planejado desde
que saímos de casa. Aliás, a única mudança no nosso roteiro na China foi tirar
uma noite de Furong e transferi-la para Zhangjiajie. Eram umas 4 da tarde
quando fizemos checkin no excelente Swissôtel Grand Xangai. Super bem
localizado, perto da Nanjing Road, uma das avenidas mais conhecidas e visitadas
por aqui.
Saímos rápido, a fim de aproveitar o que ainda tínhamos de dia pela frente. A caminhada nos levou a uns lugares bacanas. Em poucos minutos, já estávamos naquele contraste clássico da cidade: o movimento ao redor do Jing'an Temple ficando para trás e uma Xangai mais calma e contemporânea aparecendo. Caminhamos uns dez minutos, longe da muvuca da Nanjing Road, e entramos quase sem perceber num desses espaços escondidos da cidade, chamado Zhang Yuan. Quando vemos desde a rua, algumas boas lojas, mas quando circundamos, nos encontramos com uma pequena praça com instalação de arte e bares descolados, todos reunidos numa construção baixa, meio “escondida” do trânsito. Curtimos, poderíamos ter sentado por ali e aproveitado a tranquilidade, mas acho que queríamos logo ver a Shanghai intensa e movimentada. Pegamos a rota de volta e caminhamos pela Nanjing West Road. Era início da noite, a cidade começando a se acender, ficamos admirando a organização, a limpeza, as lojas de luxo que se sucedem de forma incansável.
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| A bakeria francesa que mencionei. |
Momento muito agradável. Ana e Helena encontraram uma Uniqlo perto de um
daqueles cruzamentos que resumem bem Xangai: gente por todos os lados, um fluxo
constante que não para nunca. Quase colada a Uniqlo duas bakeries uma de frente
para a outra — a AMAM Lonbakery Town, com pegada mais londrina, e a Butterful
& Creamorous, mais “francesa”, cheia de vitrines bonitas e doces
chamativos. É um pedaço pequeno, mas muito vivo, meio caótico, meio organizado,
onde se pode perceber executivos, turistas e jovens se misturando.
Essas padarias/docerias com
ar de Londres e Paris logo me fez lembrar das guerras do ópio e suas
consequências, da ocupação europeia em Xangai.
Era início da noite quando
Ana e eu voltamos ao hotel, Helena seguiu dando banda! O happy hour do
Swissôtel é no 27 andar, agradabilíssimo, e foi ali que terminamos nossa noite.
Quinta-feira, dia 9, a disposição era de caminhar pela cidade, que nos causou uma excelente primeira impressão. Começamos visitando o Templo Jing’an, ao lado do hotel. Ana e eu adoramos visitar templos. Sempre gostamos. Agora, tenho a chance de colocar fotos das imagens em alguma inteligência artificial e entender melhor o que estou vendo. Dá uma maior qualidade à visita, ela fica mais interessante. Em meio à intensidade da cidade, é só atravessar o portão e entrar num espaço de calma.
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| Uma das tantas imagens do Bhuda no Templo de Jing'an |
Apesar de muita gente, o incenso no ar, os telhados dourados e aquele
silêncio respeitoso típico dos templos budistas gera um clima diferente. Li que
a origem dele é antiga, com mais de mil anos, mas o que se vê hoje é uma
reconstrução recente. Tudo muito bem cuidado. Lá dentro, como disse, pessoas
rezando, acendendo incensos, fazendo oferendas — tudo acontecendo naturalmente,
mesmo com a cidade pulsando ao redor.
Depois, pegamos o mesmo
caminho de ontem. Chegamos à mesma Uniqlo, no metro da Nanjing West, mas eu
queria mesmo era ir a uma loja da Onitsuka Tiger, próxima. Queria comprar um
tênis Tiger, modelo México 66, o mais icônico da marca, e que era objeto de desejo
na minha adolescência. Helena e eu acabamos comprando um amarelo, que foi
imortalizado por ter sido usado pela Kill Bill, nas cenas que ela fazia com sua
roupa toda amarela.
Próximo destino: ver o navio
da Louis Vuitton. Eu sei que o dono desta marca é uma das pessoas mais ricas do
planeta. Mas, ainda assim, ver que eles colocaram um navio enorme, em uma das
regiões mais valorizadas de uma das cidades mais importantes do mundo, é de
cair os butiás do bolso. Não conhece essa expressão? Tem que morar uns vintes
anos no RS para aprender a usá-la.
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| The Louis |
O navio, chamado de
"The Louis", é uma impressionante loja-conceito da Louis Vuitton,
projetada no formato de um navio gigante. Abriga três andares que combinam uma
boutique exclusiva, uma exposição artística e o café temático Le Café Louis Vuitton,
que existe também em Nova York e Paris. O navio tem cerca de 30 metros de
altura e mais de 100 metros de comprimento. A fachada mescla o shape da
embarcação com motivos de malas, em boa parte revestida pelo monograma metálico
da grife. Achei a maior doidice! Mas Xangai é assim, porque ao lado, tem uma
Starbucks reserva. Têm algumas Starbucks desta pelo mundo, eu havia visto em
Milão, mas a de Xangai é ainda mais suntuosa. Enorme, cafés sendo torrado à
vista de todos, maquinas sofisticadas, super bem decorado, com várias formas de
extração de café e comidinhas lindas. Digo lindas porque não provamos, estava
muito cheio e era quase hora do almoço.
E onde fomos almoçar?
Capitaneados pela Helena, fomos a um restaurante com estrela Michelin. Aliás,
nem contei que ontem almoçamos em um também Michelin, ainda que no de ontem a
estrela está com outra filial do mesmo dono.
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| Praça do Povo e a prefeitura |
O de hoje era o Seventh Son.
Comemos deliciosos dumplings acompanhados de um chá de jasmim. Curtimos bem,
estavam gostosos, mas estamos sempre com a sensação de que não conseguimos
fazer o melhor pedido possível.
Terminamos de almoçar e
seguimos nossa jornada. Fomos de caminho, para chegar na Praça e no Parque do
Povo. O Parque é amplo, arborizado, locais passeando, com bancos e mesas
espalhadas onde habituês se reúnem para uma jogatina. Cena muito bacana de ver.
A Praça do Povo está ao
redor da sede da prefeitura. Em muitas cidades chinesas tem um “Praça do Povo”.
Essa denominação guarda estreita relação com a revolução comunista, afinal
estamos na República Popular da China. Essa denominação, “do povo”, guarda o
simbolismo de expressar quem efetivamente está no poder: o povo. Em Xangai, a
carga simbólica é ainda mais forte, pois esse lugar era anteriormente conhecido
como Hipódromo de Xangai, dedicado à elite europeia.
Depois desta boa caminhada,
meio da tarde, voltamos de Didi ao hotel para recarregar um pouco as energias.
No início da noite, nos dirigimos ao local conhecido como “concessão francesa”.
Outra vez se faz visível a presença europeia em Xangai. Um bairro charmoso, com
casario em arquitetura colonial, muitas lojas e cafés descolados. O passeio foi
interrompido pela chuva, acabamos em um bar bem simpático, chamado The Union
Trading Company. Tomamos um drink e gostamos tanto que fomos procurar outro
bar. Fui em uma direção que havia mapeado, deu errado, mas acabamos em outro
bar muito legal. O Rincon Bar. Para quem curte um ambiente legal e um drink
autoral, recomendo os dois.
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| The Union Trading Company |
Hoje, sexta-feira, seguimos
no ritmo intenso que a cidade propõe. Pegamos o metro, ao lado do hotel, e
fomos conhecer Pudong. É o distrito financeiro de Xangai. O lugar onde vemos os
prédios enormes, arquiteturas diversas, avenidas largas, passarelas e viadutos.
Ali está a Torre Pérola, mal comparando a Torre Eiffel de Xangai. Nós não
subimos nela, mas pegamos a dica de um tiktoker e subimos até o Cloud 9, um
renomado bar panorâmico localizado no 87º andar do hotel Grand Hyatt, dentro da
Torre Jin Mao. Era cedo, tínhamos esperança de tomar um café, mas é um bar,
estava fechado. Valeu ter subido até lá.
Depois fomos até a estação
de metrô “Shanghai Science and Technology Museum”. Fomos nos enriquecer de
cultura vendo o Museu? Não... fomos ao maior mercado popular de Xangai, que
vende de tudo, mas muito de tudo. E, claro, muitas réplicas. Antigamente eram
chamados de falsificados, agora são réplicas. Segundo meu filho Daniel,
“originalzinho”.
Ficamos mais de duas horas
por lá, entre negociações e compras. O esquema é aquele, eles dão um preço
inicial de 1000, se você pagar mais que trezentos pagou caro. Eles falam mil,
você fala cem, chega a duzentos, você sai com a impressão de que fez bom negócio,
eles mantêm um sorriso no rosto que nos faz crer que também fizeram um bom
negócio. Um verdadeiro win-win!
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| East Nanjing Road |
Era hora de ir ao hotel
descarregar compras e recarregar energia. Na saída do metrô, achamos um
restaurante tailandês. Comemos muito bem, tão bem que nos fez ter certeza de
que não nos adaptamos à comida nas cidades da China por onde passamos. Para Ana
e Helena, que não comem frango nem carne vermelha, mais difícil ainda. Também
os enormes cardápios, em chinês, tradução nem tão simples, nos fazia perder a
paciência em sermos precisos na escolha, nem sempre acertávamos. Mas a comida
tailandesa estava deliciosa!
Fim de tarde, partiu para a
estação de metrô East Nanjing Road. Ali nos deparamos com um grande calçadão,
muitas de ruas de compras, absolutamente lotadas. Outra vez com as grandes
marcas mundiais marcando presença.
Caminhamos em meio à
multidão em direção ao The Bund. O The Bund (Waitan) é o cartão-postal mais
famoso de Xangai. Um calçadão histórico com mais de 1500 metros, à beira do rio
Huangpu, conhecido pelo visual hiper iluminado dos dois lados do rio. Estávamos,
o The Bund propriamente dito, com dezenas de edifícios coloniais europeus de
estilo neoclássico e art déco. Do outro lado do rio, Pudong, onde estivemos
hoje de manhã, só que agora podendo ser visto mais em perspectiva e todo
iluminado. Com aquele show de luzes, o aspecto futurista se acentua. E barcos
cruzando o rio, também fartamente iluminados.
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| Yuyuan Bazzar |
Ficamos ali, acompanhados de
uma verdadeira multidão, a maioria chineses, admirando tudo o que víamos, em um
e outro lado. O lugar é muito aprazível para caminhar. E foi o que fizemos, na
direção do Yuyuan Bazaar. Uns dois quilômetros depois chegamos. Não sabíamos
exatamente o que iriamos encontrar. Outra viagem... outra vez nos deparamos com
um sem-número de lojas de souvenirs, cafés, sorvetes, comidas, roupas, calcados
e muito mais. Muitas ruelas dentro desse complexo chamado de Yuyuan Bazaar.
Contiguo, meio dentro, o Parque Yuyuan, mas nesse nós não fomos, a visitação é
paga e ocorrem só durante o dia. Essa tarde-noite, com East Nanjing Road, The
Bund, caminhada e Yuyuan Bazaar foi super agradável. Eram onze da noite quando
chegamos ao hotel.
Fico por aqui nesse relato
de nossos três primeiros dias em Xangai. Esses post é, disparado, o maior dos
mais de 300 que tenho nesse Blog. Ainda tem mais dois dias, vou contar sobre
eles na última crônica sobre essa incrível viagem à China.

Visual do Starbucks Reserve 
Jogatina no Parque do Povo Vai um drink? 
Concessão Francesa 
Fairmon Xangai... queria ter ficado
nesse hotel!
Yayuan Bazaar 
Yayuan Bazaar









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