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domingo, 5 de abril de 2026

Furong, China, 04 a 05 de abril de 2026.

Cidade cênica de Furong - vista da cachoeira

Neste momento estou em um restaurante em Furong, sudoeste da China. Essa foto acima foi tirada do lugar onde jantei. Incrível. Realmente incrível!

Chegamos a Furong hoje de tardinha, sábado, quatro de abril, vindo de trem de Chongqing. Essa cidade apareceu quando eu estava fazendo o roteiro para essa viagem e quis procurar uma cidade pequena. Surgiram algumas; esta acabou sendo escolhida pelas fotos que vi e porque cabia bem na nossa rota.

Mesma vista da foto anterior, um pouco mais cedo

Chegamos às cinco da tarde à estação de Furong, e a chinesa dona do hotel em que ficamos foi nos recepcionar. Gostamos, sempre dá mais segurança ser levado diretamente para o hotel e facilita com as malas, a essa altura já mais pesadas do que quando saíram de casa.

Tivemos que descer do carro e entrar a pé na cidade antiga. Paga-se para entrar, e não é tão baratinho. O equivalente a 75 reais por pessoa. Se vale? Vale sim, fácil!

Como posso descrever Furong? Difícil…

Vou tentar em pouquíssimas palavras o que li e vi sobre essa cidade com mais de 2.000 anos: O povo local aqui é da etnia Tujia. Ao lado da cachoeira ainda hoje pode ser vista uma caverna, pequena, com algumas esculturas de indígenas que a habitavam. Uma inscrição ao lado diz que ela já foi muito maior e abrigou milhares de pessoas, antes de mudanças nos ciclos d’água e na geologia do local a deixarem nas pequenas dimensões de hoje. Não sei a veracidade desta informação, pode ser apenas folclore local. Não é muito conveniente acreditar nessas plaquinhas de locais turísticos com informações arqueológicas.

Imagem que encontrei em um templo local - 
acho que Guanyn

Depois desse momento, não sei precisar quando, ela se tornou uma confluência de rotas comerciais nessa região montanhosa de Hunan. Seu nome original era Wangcun, e esse nome me ajudou a procurar hotéis e passagens sem cair na Furong errada. É que existem outras cidades com o mesmo nome. Para não errar eu procurava “Furong (Wangcun)”.

Bom, nesses tempos antigos foi se construindo a cidade ao redor da cachoeira. E isso é o mais impressionante dela: a cidade está toda ao redor da cachoeira e ela cumpre um papel central. Se eu usasse um pouco da mitologia Quéchua ou Aymara, diria, com facilidade, que a cachoeira é o Apu que protege a todos que por ali habitam.

Ao longo do tempo, a cidade constituiu-se como uma vila rural, estagnada no tempo, ao menos para os padrões de hoje, que exigem um “desenvolvimento” crescente e linear. Acho que, ao invés de estagnada, posso dizer que ela estava lá, de boa, vivendo sua vida… com suas construções características e com o povo local sobrevivendo como costumam fazer as vilas rurais, com uma agricultura voltada à subsistência e algum comércio daí derivado.

As ruas de furong, à noite.

E quando foi o ponto de virada para Furong se tornar o destino turístico bombástico de hoje? Foi em 1986, com o lançamento do filme Hibiscus Town. Esse filme fez grande sucesso na China, e o governo aproveitou a oportunidade: reformou casas, incentivou empreendedores locais, montou passarelas e criou a iluminação que caracteriza a cidade nos dias de hoje. As casas não apenas foram reformadas, muitas foram mesmo melhoradas para criar o cenário. Aliás, muitos sites tratam Furong como uma “cidade cênica”.

Posso imaginar que, a partir daí, com o crescimento do turismo, veio o processo de sempre: muita gente visitando, população local vendo a chance de ganhar dinheiro, gentrificação. O que li aqui é que esse processo ocorreu nos últimos 30 anos, mas, diferente do que vemos normalmente, foi conduzido pelo Estado. Resultado: um lugar visualmente preservado e economicamente ativo. Foi, ao menos parcialmente, transformado em “cenário habitado”, e os benefícios foram para a população local que decidiu empreender. Para outros, o que ocorre nesses casos de gentrificação: custo de vida mais caro e perda de qualidade de vida.

ela não posou para mim, mas eu
siaproveitei...

Mas… visitar Furong é maneiro? Vale a pena? Pois eu diria que sim, vale muito. Olha essa foto ao lado, não é uma cena incrível de se ver? 

A despeito do artificialismo que essa onda turística traz, em quase todos os lugares em que se instala, ela é lindíssima. Visualmente impactante, tanto de noite quanto de dia. Ficamos menos de 24 horas, mas eu ficaria dois dias facilmente. Ou mais, se fosse para explorar outras coisas na região. Fazer o que fizemos, jantar em um dos restaurantes que te dão uma vista panorâmica da cachoeira iluminada, emoldurada pelas casas com aquele estilo imperial chinês, salpicadas de luzes, é um visual imperdível. Sem dúvida, uma das cenas mais bonitas que já vi na vida. E a palavra “cênica” que eles costumam usar se encaixa perfeitamente. O visual é isso mesmo, cênico. Depois do jantar, caminhamos para lá e para cá, entre restaurantes e lojinhas. Ana e Helena foram fazer uma massagem nos pés, insistentemente oferecida por aqui. Eu fui caminhar na parte mais baixa da cidade.

A China aposta muito no turismo. Mas o que bomba mesmo é o turismo interno. Temos encontrado ocidentais, sim, mas a maior parte dos turistas são chineses. E os chineses gostam de ver o que nós também gostamos, ou ao menos esperamos ver na China. Muitas luzes, arquitetura imperial, com seus simbolismos e simetrias.

A arquitetura de Furong Ancient Town não é exatamente imperial. Mas, para um leigo como eu, se aproxima. Casas todas de madeira, meio “penduradas” na encosta e apoiadas em palafitas, acompanhando o desnível do terreno e a proximidade da água. É simples, tradicional e integrada à natureza. Claro que, a essa altura, está claramente preparada para o turismo: tudo muito bem cuidado, como eu já comentei, com lojinhas, passarelas e uma iluminação caprichada que, à noite, transforma o lugar quase num cenário de filme, com luz quente nas fachadas e a cachoeira iluminada ao fundo. E dá para ver como os chineses gostam desse tipo de cenário — o lugar fica cheio, muita gente passeando, tirando fotos, fazendo vídeos, curtindo cada cantinho, como se fosse um grande cartão-postal ao vivo. Chineses e nós também... curtimos muito o visual e tiramos fotos, muitas fotos!

Hoje de manhã, depois de uma agradabilíssima noite no correto Ximu Hotel, fomos caminhar brevemente para fora da parte da cidade em que se paga para entrar. Segue sendo bonitinha mesmo no “além-muros”. Helena comprou um café em uma rede de cafés locais chamada Luckin Coffee (leiam depois sobre a sacada chinesa para concorrer com Starbucks), e eu fui atrás de comidinhas locais. 

Onde tomamos nosso café da manhã

Provamos quatro coisas diferentes, apontando com o dedo, e gostamos. Não adoramos, mas gostamos. Ficamos quase uma hora por ali, vendo a destreza da mulher manejando suas panelas e servindo as pessoas de forma customizada e com uns hashis grandões. Uma onda. Fui a um mercado ao lado e comprei uma bebida tipo Yakult para acompanhar. Não gostei, mas estava boa! Ou não estava boa, mas eu gostei!

Depois, Helena e eu fomos fazer o mesmo caminho que fiz sozinho ontem à noite: descendo e indo até a cachoeira, passando por uma passarela por trás dela. Foi legal fazer duas vezes, uma de noite, outra de dia. De noite, o impacto visual é maior, com o show de cores e luzes. De dia, segue linda, e com um ar mais autêntico, mais natural.

Não falei do jantar, vou mencionar: quatro pratos locais — um com peixinhos e camarões salgados e fritos, salsinha (folhas e talos) e algumas outras coisinhas não identificáveis… um salteado de carne de gado, um tofu defumado e outro de berinjela salteada. Comi bem minha carne, a berinjela estava muito boa, os outros dois pratos sobraram, não fizeram muito sucesso.

Acho que é isso que vou contar de Furong, mas a crônica ficou aquém da cidade. Na verdade, sempre fica. Meu compromisso é caminhar e contar, mas nunca foi contar tudo.

Saímos às 12h30 de carro, em direção a Zhangjiajie. Vi preços e possibilidades, optamos por um carro que nos levasse porta a porta. Estou terminando de escrever este post já aqui, do excelente Pullman Hotel, em Zhangjiajie. Depois conto por que viemos para cá!

Outro templo, outras imagens


Domingo de manhã, show na praça.
Um chá de manhã cedo, antes de sair do quarto.


De noite, por trás da cachoeira
Aspecto da cidade, à noite.

Linda por qualquer ângulo.

Descendo para passar por trás da cachoeira.

Cjhegando no hotel, quase meia-noite, visual da janela do corredor.



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