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sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Maputo, 06 e 07 de novembro de 2014.

Seminário que participei
Ontem e hoje transcorreram sem maiores emoções, ainda que ontem de certa forma tenha sido o ponto alto do meu trabalho aqui. Participei de um Seminário intitulado “Certificação da Cadeia de Hortícolas Saudáveis”. Fiz minha apresentação, que incluía uma proposta de como poderia funcionar aquém Maputo um esquema de certificação participativa e ela foi debatida com os participantes e depois entre eles com trabalhos em grupo.
Trabalho em grupo no Seminário
Gostei muito de ter me envolvido nesta consultoria. A escala é muito artesanal, mas nunca me importei com isto, se me importasse não teria nem começado há quase trinta anos atrás. Gosto destes processos que têm como finalidade colocarem as idéias para flotar. Quando necessárias, lá estarão elas, à disposição para serem multiplicadas.
O evento terminou e percebi que estava cansado, que meus planos para a noite iriam ser reduzidos a comer e dormir. E assim foi.
Hoje passei quase todo o dia no escritório da ESSOR, entre relatório e reunião de fechamento desta missão, nome dúbio como se costuma chamar este tipo de trabalho. A avaliação foi positiva de ambas as partes e ficou um gosto de quero mais. Vamos ver se rola
Restaurante no Jardim Dona Berta
Uma das coisas agradáveis desta cidade são os Jardins, os quais já mencionei em outro post. Hoje fui a dois. Almocei um delicioso caril de camarão no Jardim Dona Berta
Camarões em um delicioso molho, com curry, leite de coco, ervas e temperos. Depois fui caminhar no Jardim dos Namorados. Queria ler um pouco mais do Mia Couto em frente às águas do Índico. De novo vi um casamento no Jardim. Roupas coloridas, cantoria, sorrisos fartos e vozes se cruzando, altas. Definitivamente discrição e tons pastéis não são o que mais se vê nestas paragens.
E termino meus dias aqui. Realmente Maputo foi um prazer. Profissional e pessoal. Dos maiores que tenho tido. E não são poucos os que tenho tido. Sou parcimonioso com a palavra conhecer, acho ela forte. Não posso dizer que conheci Moçambique, faltou chegar para além da Capital. Faltou mais comida local. Faltaram as praias. Faltou musica local, ao vivo. Faltaram os Parques Nacionais. Faltou a Savana, as girafas e rinocerontes. Faltaram muitas coisas por ver, do que vi e vivi quero mais. É, vou ter que voltar.

A Baía de Maputo hoje não estava sorridente, mas ainda
assim estava bonita

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Maputo, 04 e 05 novembro de 2014.


Um visual da reunião, com uma panorâmica - detalhe das mangueiras!!!
Ontem fomos novamente ao campo, onde vistamos algumas machambas e participamos de uma reunião feita por um extensionista local sobre a elaboração e uso de bio-inseticidas. Neste caso feito a base de piripiri (pimenta).
Paixão 1 - mulheres rurais e Maputo e suas capulanas
Foi a maior reunião da qual eu participei até o momento. Teve musica e dança de boas vindas, oração no início e no fim da reunião, rápidas intervenções por parte de alguns extensionistas. Ainda foi feito e aplicado o bio-inseticida e dois agricultores com experiência na produção saudável de hortaliças (como eles tem chamado aqui) deram seus depoimentos, na melhor expressão da metodologia campesino-campesino. Eu mesmo só fiz observar e falar 5 minutos sobre nossa experiência, mais para os interessados nesta tal produção saudável. Ou seja, ganhei muito mais do que eventualmente dei...
Um dos detalhes legais desta reunião era o local. Uma área que formava tipo um pátio, embaixo de umas vinte mangueiras, entre umas muito grandes e outras nem tanto. Que sombra, que ambiente legal. 
Paixão 2 - mulheres rurais e Maputo e suas capulanas
De tarde, depois de um tempo de escritório fui com a coordenadora do projeto com o qual estou trabalhando aqui, Emmanuelle, à casa de um casal, ele alemão, ela brasileira, que queriam conversar um pouco sobre agroecologia. Como a casa era ao lado do Jardim dos Cronistas, fomos jantar no Campo de Fiori, segundo alguns o melhor restaurante Italiano de Maputo. Bem agradável.
E hoje foi o dia todo no escritório, já finalizando minha missão por aqui, elaborando relatórios e preparando as duas apresentações que devo fazer amanhã, no Seminário que eles prepararam como o ponto alto da minha estada aqui. É o momento onde eu deverei fazer sugestões para o avanço do trabalho de produção, comercialização e certificação dos produtos orgânicos, ou algo similar a isto, que vem sendo desenvolvido aqui na área rural de Maputo.
Reunião sobre produção saudável
Ainda tive tempo para de novo ir andar no centro da cidade (na baixa), e ver o comércio popular. Muitos, muitos ambulantes. Aliás, nunca vi um lugar com tanto comércio informal, e olha que já estive na Bolívia e no Marrocos... Boa parte destes ambulantes vendendo roupas e sapatos, tanto novos como usados. Pelo que entendi doações humanitárias se transformam em mercadorias de comércio, às vezes dentro, às vezes fora do previsto. Mas não tenho certeza, mesmo os locais não me explicaram isto bem. 
          
Fim do dia, com uma bela lua, fui de novo ao Assador Típico, restaurante, já comentei aqui, onde comi um belo camarão com alho e óleo. Repeti a dose hoje. O bom foi que sentei numa mesa para seis pessoas, e como o restaurante é pequeno, logo pediram licença e sentaram comigo três homens, dois pretos e um branco. Um médico sanitarista, um advogado assessor do ministro da educação e o outro, o branco, estava bêbado demais para falar algo que não fosse a expansão do universo e a falsa idéia que ele é redondo, quando na verdade é plano. Mas este encontro foi uma sorte, tivemos um bom papo, pude me inteirar mais um pouco sobre coisas desta terra que cada dia me encanta mais. Reforço a idéia que estou fazendo de Maputo como, surpreendentemente, ao menos para mim, cosmopolita.
E o camarão alhinho estava outra vez delicioso.

Um produtor dando seu depoimento sobre produção saudável

outra panorâmica da reunião

Paixão 3 - mulheres rurais e Maputo e suas capulanas

O extensionista demostrando o uso de bio inseticida

Paixão 4 - mulheres rurais e Maputo e suas capulanas

Paixão 5 - mulheres rurais e Maputo e suas capulanas



segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Maputo, 03 de novembro de 2014.

Reunião local, que estava se realizandona Casa Agrária de Benfica 
Hoje pela manhã fui de novo visitar agricultores em suas machambas. Nesses dias de visitas tenho visto muita coisa interessante. Como já descrevi aqui, o visual na área rural de Maputo e Macala é de uma várzea, com certa declividade, cortada pelo rio que separa as duas cidades.
Três mamás, maneira carinhosa como são chamadas as 
senhoras 
As machambas são cultivadas em sua maioria pelas mulheres, e posso dizer que vi mais gente acima dos 50 anos do que abaixo. A maioria delas, ao menos as que tive contato, falam changana, uma das tantas línguas do país, parece que a mais comum na província de Maputo. Segundo apurei, no país se fala mais de 40 línguas, a maioria consagrada como nacionais pela constituição. Enquanto isto, no Brasil...
As hortaliças cultivadas são semelhantes às nossas, mas com alguns detalhes interessantes: aproveitam algumas plantas ou partes delas, o que não é tão comum no Brasil, como, por exemplo, folhas de abóbora, feijão e mandioca. Nas hortas, os carurus que surgem espontaneamente são tratados com carinho e seus galhos são colhidos para saladas/refogados, como fazemos com o espinafre, por exemplo. 
canteiro de alface, mas os carurus 

não são retirados, são colhidos.
As áreas são muito pequenas e intensamente cultivadas. Usam agrotóxicos principalmente na couve-folha e na alface. Pouco adubo químico e mais esterco de frango. A fertilidade natural dos solos parece alta. Poucas mudanças no manejo lhes permitiriam belos cultivos orgânicos. Muitos deles já são orgânicos, inclusive. Gostam de consorciar plantas, mas não querem nos mostrar os canteiros que estão na "confusão". Mostram apenas os de cultivo solteiro. Parecem que estão com vergonha de não estarem fazendo certo... Tentei sempre valorizar a tal da "confusão", ou seja, mais de uma espécie convivendo na mesma unidade de área.
Com áreas reduzidas e muita disponibilidade de mão de obra, a irrigação das hortas é feita com regador mesmo. Raríssimos casos de irrigação por aspersão.
reunião no campo, com as mamás.
O país é rural, mas em fase de industrialização. O visual que vi no campo é de pobreza, mas nem tanto. Não tive chance de visitar nenhuma casa, o que me impede de ter um quadro mais claro. E devo reconhecer que visitei o cinturão verde da capital. Aqui, os agricultores têm possibilidade de vender sua produção para a maior parte da população do país, concentrada em Maputo e arredores, e ainda negociar a posse da terra. Esse é um negócio proibido e realizado sob o disfarce de negociar as benfeitorias feitas, quaisquer que sejam elas. Moçambique ainda é considerado um dos países com menor IDH do mundo, apesar do PIB crescer a taxas próximas aos 8%, nunca menores que 6% da última década.
Enfim, este é um breve resumo de algo do que tenho podido aprender e ver por aqui.
Assador típico, simples e bom restaurante português
De tarde tive reunião com um representante da Prefeitura de Maputo. Falamos sobre Políticas Públicas para o desenvolvimento da Agricultura Ecológica.
Terminei meu dia, ainda final de tarde, comendo camarão alhinho, um belo camarão ao alho e óleo no Assador Típico, um simpático restaurante português que fica no início da Av. Karl Marx. O camarão alhinho se fez acompanhar de uma Laurentina Premium, uma puro malte que se revelou uma grata surpresa.
É atribuída a Confúcio a seguinte frase: Escolha um trabalho que você goste e não terás que trabalhar um único dia em sua vida. É, eu tenho trabalhado pouco, bem pouco!

domingo, 2 de novembro de 2014

Maputo, 02 de novembro de 2014.


Visual do Oceano Índico, a partir da Av. Friedrich Engels
Hoje antes das seis da manhã a Mana Igreja Cristã, minha vizinha, começou sua cantoria para expulsar os demônios dos fiéis, não sei se de todos ou só de alguns. Acho que conseguiram, porque não há anjo, caído ou não, que suporte tantos gritos. Devem ter ido embora blasfemando. Eu fui. Quando saí do quarto, às dez da manhã, a lida continuava. A pregação era em português, ao menos parte dela, mas os cantos em alguma língua local, e eu só entendia quando eles falavam demônio ou satanás.
Tomei meu pequeno almoço (café-da-manhã) e fui caminhar. Pequeno no nome, porque hoje a moça preparou batata frita, salsicha frita e dois ovos fritos. Tudo bem banhando em gordura. Comi tudo, como minha Vó Othelina me ensinou, e estou até agora sem almoçar. E parece que não vou jantar também.
Av Fredrich Engels
Caminhei uns 3 km até o Jardim dos Namorados, entre ruas mais ou menos agradáveis, umas mais, outras menos limpas. Coloquei fotos aí embaixo para me fazer entender. O Jardim é bem simpático, de onde se tem uma bela vista do Oceano Índico. Fica na Av. Friedrich Engels e caminhar pela calçada desta avenida também é um belo programa. Estava um sol forte, e eu de calça jeans, o que atrapalhou um pouco o desfrute. Mas a paisagem compensou o desconforto. Levei meu livro do Mia Couto que ando a ler por aqui, O Outro Pé da Sereia, e fiquei viajando nele em um banco em frente ao mar, embaixo de uma linda amendoeira. Nem MasterCard paga. E o capítulo ainda se passava no Índico, o que aumentou o enlevo do momento. Mia Couto é espetacular, e só para dar uma palhinha da mistura de realismo mágico com reuso das palavras, tem um momento do livro que um morto começa a chorar lágrimas de viva tristeza
Fiquei lendo Mia couto neste
                    banquinho...
Pois não é que estou ali curtindo esta e outras passagens do livro quando vejo um casamento chegando. Isto mesmo, noivos, convidados, fotógrafos e um grupo de pessoas, vestidos com camisas iguais, parecendo um coro, que eles chamam de protocolo, cantando também em uma língua local, desta vez não para expulsar demônios mas sim para desejar bons augúrios aos nubentes. No meio do Jardim. Passaram por mim e seguiram viagem, para onde é que eu não sei.
Casamento no Jardim dos Namorados
Depois fui outra vez ao Jardim que fica na Av. Mao Tse Tung e onde aos domingos tem uma Feira de Gastronomia. O nome me enganou, esperava mais. Ainda não encontrei uma comida local especialmente interessante. Ainda sob os efeitos do café da manhã não comi na feira, me contentei com um chá frio e torradas com queijo em uma pastelaria.
Às quatro da tarde eu já estava no quarto, onde estou até agora apenas tendo dado uma breve saída para comprar algo para comer. Fiquei entre música, leituras, internet e relatório. Com um banzo... num dá nada, amanhã retomo o trabalho, se a segunda semana for boa como a primeira, ta bom demais! O banzo também explica este post meio chinfrin, chega de hoje, vou dormir para o amanhã chegar.
Jardim onde vende artesanatos e aos domingos tem a feira de
gastronomia


Como eu disse, umas mais sujas...depois desta cerca,
um deposito de garrafas plásticas... bem no meio de um
bairro residencial... contrastes de Maputo!

outras mais limpas.. esta é a Av. Mao Tse Tung

sábado, 1 de novembro de 2014

Maputo, 01 de novembro de 2014.

Comércio da Baixa. Vida animada!
    Hoje o dia amanheceu chuvoso e eu não tinha nada para fazer. Consultei o oráculo dos dias que correm e fiz um mapa, visitando três diferentes zonas, um percurso, caminhando, de uns 8 km. Imaginei passar o dia assim. Não foi o que aconteceu.
Com dez minutos de caminhada encontrei o Stelio, um dos membros da equipe da ESSOR, com quem tenho trabalhado estes dias. Ele me convidou para ir a uma festa de noivado, há uns 50 minutos daqui, na Matola, cidade vizinha à Maputo. Aceitei, mas como sairíamos apenas no início da tarde, resolvi fazer parte do programado e caminhar até o Mercado Municipal. 
Mercado popular na Baixa,
                Zedequias Manganhela com Filipe Magaia
E deu mais certo do que eu esperava, porque acabei, por acaso, chegando à zona de mercado popular no centro da cidade, conhecido como mercado da baixa. Muita gente, ambulantes vendendo produtos, claro que a maioria chineses, e serviços, principalmente costureiros, na calçada, fazendo bainha nos tecidos comprados nas inúmeras lojas que se juntam na Av. Filipe Magaia quase esquina com Av. Zedequias Manganhela. Comprei capulanas, paguei pela bainha na calçada, conversei e me diverti vendo a cena. Enquanto via um mosaico de diferentes cores de pele e de produtos da China, mas também da Índia, do Brasil, de outros países Africanos e locais, fiquei pensando nesta cidade como ponto de grandes rotas comerciais ao longo de séculos. De novo me veio à mente os diferentes instantes da história se costurando em um patch work de espaços e momentos. Que viagem! 
Costureiro fazendo bainha nas capulanas, na calçada. 
Depois desta incursão, fui ao Mercado, passeei, conheci alguns dos produtos daqui perdidos no meio de frutas, grãos e temperos que chegam de outras partes do Mundo e comprei piripiri, a famosa pimenta local. Local mas que veio da Índia. Ainda tive tempo para passear um pouco pela Baixa. Tomei um expresso no restaurante Bella Madallena, em frente ao mercado, caminhei até o Centro Cultural Franco Moçambicano, relaxei um pouco no seu agradável jardim, fui por um outro expresso no café Continental e aí sim fui rebocado para a festa de noivado, pouco depois das duas da tarde. A esta altura do dia, a chuva fina se recolheu e o sol quente se lembrou que era sábado, dia de sair de casa.
Preparativos para o noivado
E como eu imaginava quando aceitei o convite, a festa de noivado foi o melhor do dia. Bela oportunidade de participar de um evento tão autentico da cultura local. Simples, no quintal de areia da casa, na periferia de Macala, apenas familiares, umas 60 pessoas, almoço, refrigerantes, cerveja, tortas e bolos. E espumante para o brinde. Quando chegamos, as famílias do noivo e da noiva estavam conversando, se acertando. Soube que as negociações correram muito bem e que o casamento foi marcado para daqui a pouco menos que um ano, prazo máximo após o noivado. Segundo me explicaram consiste do lobolo, que é o casamento de fato e no dia seguinte a cerimônia oficial, o casamento de direito. Festa nos dois dias! E ainda tem o xiguiane, no dia seguinte, uma cerimônia menor, na casa do noivo, com festa também! Ou seja, para os noivos e alguns familiares e amigos, três dias de festa!
Mulheres cantando, dançando e oferecendo uma capulana
à noiva
Em um dado momento da festa, as mulheres se aproximaram dos noivos e ofereceram seus presentes. Pelo que vi sempre capulanas, que eram abertas, colocadas em volta dos noivos e amarradas, juntando os dois, simbolizando a união indissolúvel. Fiquei feliz de ter uma capulana para oferecer. As mulheres cantaram para mim, já que eu não sei cantar na língua local e uma senhora veio dançar comigo, o que é parte deste momento, o canto e a dança.
Eram oito da noite quando saímos de lá. Ainda tivemos tempo de passar no Bar Lounge 1908, um sofisticado bar e restaurante bastante agradável. Ficamos pouco, já era hora de dormir, o dia foi longo. E muito interessante.

Mercado Municipal

Centro Cultural Franco Moçambicano

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Maputo, 31 de outubro de 2014.

Reunião com as mulheres, no campo
E não é que hoje eu descubro que enquanto eu caminhava tranqüilo pelas ruas de Maputo, ontem, de noite, havia um clima de distúrbio no ar, o comércio e escolas fecharam mais cedo e a sensação era de temor? Ontem, 15 dias depois das eleições, saiu o resultado, e a oposição não está aceitando a derrota.
Copio um jornal local: “Os resultados finais apontam para a vitória de Jacinto Nyusi à primeira volta, e para a obtenção de uma maioria absoluta pela Frelimo na Assembléia da República de Moçambique. Nyusi, futuro presidente, obteve um total de dois milhões setecentos e setenta e oito mil votos, correspondentes a 57.03 por cento. Já Afonso Dhlakama, o candidato da Renamo, obteve 36.1 por cento, correspondentes a um milhão setecentos e oitenta e três mil votos”.
A coisa aqui é complicada, este país ainda vive resquícios da guerra civil, que começou em 1977 e só terminou 15 anos depois, com um saldo de mais de um milhão de mortos, fome generalizada e minas terrestres que até hoje ainda matam moçambicanos. E ela se deu exatamente entre a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), a Resistência Nacional Moçambicana (RENAMO), que se transformaram em partidos e que ainda disputam o poder, com este último sempre reclamando e contestando os resultados. Eles que ameaçaram fazer protestos ontem, que começam como políticos e deságuam em baderna. E o bonitinho aqui passeando, de boa... Deus ajuda!
Uma área de machambas, muito interessante, com frutíferas
separando elas, dando um ar de "quintal agroflorestal".
Em termos de trabalho, o dia hoje repetiu o de ontem, visita a machambas, conversa com homens e mulheres agricultoras. Uma das cenas que vivi sei que vai ficar guardada: um grupo de agricultoras, mais mulheres que homens, os técnicos da equipe, eu, todos sentados no chão, conversando sobre a produção, eles conversando numa língua local, as mulheres com suas capulanas e lenços na cabeça. Por um momento me senti quase em outra dimensão. É que são muitos mundos no mesmo mundo, às vezes me perco. Um último detalhe. Pude ver duas ou três delas cochilando, ali mesmo, sentadas na terra... imagino que cansadas...
De tarde fomos visitar uma txova que vende produtos sem uso de químicos. Quer saber o que é uma txova? Olha a foto aí ao lado. Aqui muita coisa ainda é feita na mão!
Uma txova com produtos sem uso de pesticidas
Depois,  do trabalho, que terminou antes do fim da tarde, ainda tive tempo de ir tomar um expresso e comer um excelente doce português em uma pastelaria (doceria/café/padaria) chamada Taverna. Fica na Av. Mao Tse Tung. Moçambique viveu sua revolução socialista, em meados dos 70. Ainda existem traços dela e um deles é o nome das ruas, todos os líderes socialistas que já ouvi falar andam por aqui, em placas pregadas nas casas de esquinas das ruas e avenidas.
No início da noite fui a um bar, três quadras de onde estou, na Rua Resistência, chamado A Loirinha. Bem simples. Havia passado em frente duas vezes e fiquei com vontade de tomar uma cerveja em um lugar menos sofisticado. 
Loirinha, um point às sextas-feiras, tradicionalmente
               conhecida como o dia dos homens aqui em Maputo
O Bar estava cheio, não lotado, umas 40 pessoas, 90% homens. Todos bebendo e tentando conversar no meio da música, lamentavelmente eletrônica, nada local. Gostei de ter ido, e me chamou a atenção eu não ter chamado nenhuma atenção. Em uma primeira vista pode não parecer, o aspecto não te leva a imaginar isto, mas Maputo é bastante cosmopolita. A história explica, um porto milenar, há mais de 500 anos rota de comércio entre o oriente e o ocidente, foi disputada e colonizada por diferentes Reinos, viveu uma guerra civil pesada, tem intimidade com a fome e a morte, não seria minha presença em um bar que iria surpreendê-los. 
Fui, amanhã espero ver um pouco mais da cidade.

Passeando pelo campo, me deparo com esta imponente árvore.
Alguns galhos caíram, ficaram ali de bancos, f
ormando um belo escritório.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Maputo, 30 de outubro de 2014.

       
Nesta foto aparece a área e suas inúmeras machambas,
mas não muita gente trabalhando.
          Hoje foi mais um dia intenso de trabalho. Saí cedo e fomos visitar mais produtores/as nas suas machambas. Mais um dia de aprendizado. Vou tentar descrever a cena. A paisagem é de uma várzea, grande, dezenas de hectares, ao fundo o rio. As áreas de cultivos são muito pequenas, entre 500 e 1000 m². Contiguas, uma do lado da outra. Então, o que vemos são dezenas de trabalhadores, próximos, alguns são os donos da machamba e outros os seus funcionários. Sim, mesmo em áreas tão pequenas, ainda se dão ao luxo de contratar trabalhadores. Em países pobres, com excesso de mão de obra, sempre tem alguém mais pobre que aceita trabalhar por um valor que o contratante acha que vale a pena para que ele próprio possa trabalhar menos. No Brasil acontece o mesmo, ainda que cada vez menos.
Georgina, agricultora, 
na sua machamba
          Voltando ao visual, é uma grande área, com muita gente trabalhando, mosaico de hortaliças (predominando alfaces e couve, mas também vi beterraba, cenoura, vagem, ervilha, nabo, brócolis, etc.) e suas cores, céu azul, calor. Me fez ir a cenas de filmes que se passam na Índia ou aqui mesmo na África.   A parte triste é o forte uso de agrotóxicos. Por exemplo Tamaron, um inseticida nefasto e proibido em vários países do mundo. As indústrias químicas navegam pelo planeta com uma lógica que pode ser resumida assim: quanto menos leis e presença do Estado, mais eu me divirto. Lamentável. Quer outro exemplo? Em vários países da África, Moçambique é um deles, é permitido DDT para controle da Malária. Questão de saúde pública, brada a indústria e seus prepostos. Na real, sabemos todos, interesses escusos de mercado. Outra vez, lamentável.
De tarde, outra vez, foi no escritório. Ontem ouvi sobre o projeto desenvolvido aqui, hoje foi meu dia de falar, sobre produção, comercialização e certificação de produtos ecológicos. 
Pulverizando tamaron
 Fim do dia e resolvi flanar por Maputo. Não me dei bem. Difícil, não conheço a cidade, e ela não é exatamente bonitinha... acabei desistindo, pegando um táxi e indo a um restaurante indiano, para salvar o passeio. É de onde estou escrevendo, tomando uma cerveja, comendo meu Garlic Naan (pão típico indiano com alho) e um cabrito com curry e pimenta. Segundo o cardápio apenas para estômagos fortes! Nem tanto.
 Depois do restaurante tomei um sorvete italiano na mesma rua do restaurante, a A. Julius Nyerere, nome do primeiro presidente de Moçambique, e saí buscando um táxi. Não achei e decidi voltar caminhando. Uns três quilômetros, à noite, sem conhecer a cidade, perguntando na rua. Tranquila Maputo, gostei.
Reuniãozinha no campo

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Maputo, 29 de outubro de 2014.


vistas às machambas
Como era previsto, o dia hoje foi intenso. Às sete da manha me buscaram e fomos direto ao campo, depois de uma breve passagem pela Casa Agrária, uma estrutura do Governo e onde a ESSOR, ONG com a qual estou trabalhando aqui, tem um dos seus escritórios. No campo, visitamos duas associações de mulheres que produzem em suas machambas hortaliças orgânicas, ou sem químicos, como eles tem se referido ao trabalho que realizam.
Machamba é uma excelente palavra para área de cultivo. Parece que também tem um sentido que engloba as áreas que somam cultivos, pátio, morada. No Brasil carecemos de uma boa palavra para estas áreas. Usamos propriedade, sítio, granja, colônia,  e tantas outras, mas nenhuma delas é precisa. Gostei de machamba.
embaixo de uma mangueira, proseando...
Em uma destas machambas cheguei e o grupo de mulheres estava plantando abóboras, rindo e cantando. Lindo. Uma música ritmada que marcava o trabalho. A letra devia ser divertida, mas desta foi que eu não entendi nada, já que elas cantavam em algumas das tantas línguas locais que se fala por aqui. Me senti na África.
Almocei na Casa Agrária mesmo, um arroz com galinha delicioso, com um tempero diferente, que se entendi bem eles chamam de caril, embaixo de uma mangueira, acompanhado da equipe da ESSOR. A tarde foi passada no escritório, conversando sobre o trabalho que eles desenvolvem de estímulo à produção e consumo de produtos orgânicos.
Nesta conversa aprendi algo absolutamente interessante. Deixa eu contar, com uma breve digressão. Quando eu e Ana saímos da faculdade, fomos estudar para um concurso do INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Vou pular tanto a parte que contextualiza este concurso, cujo resultado nunca saiu, quanto a parte das teorias sobre a razão da queda do avião no qual viajava o então presidente do INCRA, o pernambucano Marcos Freire. Vou apenas falar que uma das leituras obrigatórias deste concurso era um livro intitulado “A Crise Agrária”. O autor, Alberto Passos Guimarães, descreve neste livro as razões da profunda crise que passava, e ainda passa, o setor agrário. E argumentava com muita propriedade que a única solução seria  a terra perder seu valor de troca. Simples assim, terra não se compra e, por conseqüência, não se vende, apenas se usa. Lembro que na época achei sensacional a idéia e fiquei pensando em como isto seria impossível. Pois bem, aqui em Moçambique é assim. Não se negocia terra. 
reunido com as mulheres
Os Agricultores tem um DUAT – Direito de Uso e Aproveitamento da Terra. Depois de dez anos na mesma terra, este DUAT assume um caráter um pouco mais definitivo, a terra pode ser passada para os filhos, mas não pode vender... Sensacional, terra para quem está a fim de trabalhar nela, nada de ter ou comprar terra como reserva de valor. Parece louco né? É porque a propriedade privada se tornou, de dois séculos para cá, uma instituição sagrada, imexível diria o Magri, mas na história da humanidade nem sempre foi assim, pelo contrário, o uso comum dos bens naturais sempre foi a tônica.
É legal saber que as regras sociais, as Leis, são feitas por nós, não existem desde sempre e nem precisam durar mais do que o conveniente para a maioria. Parece óbvio, mas existem muitas regras que se petrificam culturalmente e acabam dando a sensação que são “naturais”. Não são.
       Devo dizer também que existem subterfúgios usados pelos detentores de DUATs para negociá-os, como por exemplo vender as benfeitorias, repassando assim os DUATs. Mas estes subterfúgios não mudam a essência, terra, como tal, não se negocia.
Mercado Municipal
À tardinha ainda tive tempo de passear rapidamente por uma parte do centro da cidade, chamado Baixa. Fui à três lugares. Primeiro, claro, no Mercado Municipal, legal, alguns produtos locais, mas só comprei um tempero picante, já era tarde e muitas bancas estavam fechando, terei que voltar para poder vê-lo com mais calma. Depois fui à Casa Elefante, uma loja, o lugar mais característico da cidade para se comprar aqueles tecidos multiusos tão típicos de vários países da África e que aqui em Moçambique chamam de Capulana. Comprei alguns, claro, mas muito difícil escolher, são centenas de motivos e ainda com variações de tamanhos e qualidade do algodão.
Terminei o dia jantando em um restaurante português, o Bella Madallena. Comi bacalhau e pastel de Santa Clara de sobremesa. Vida difícil...

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Maputo, 28 de outubro de 2014.

Visual da Baía de Maputo
Cheguei hoje a Maputo, capital de Moçambique, situada bem ao sul do país. Diretamente das eleições mais acirradas que eu vi, em qualquer nível. Achei bom sair deste clima chato que se instalou, com análises rasas e o aprofundamento em dicotomias artificiais como brancos e negros, ricos e pobres, sul e norte. Enfim, vida que segue.
Voltando a Maputo, sempre tive vontade de conhecer esta África que fala português, agora apareceu a oportunidade. Uma ONG Francesa, chamada ESSOR (http://www.essor-ong.org), desenvolve um pequeno trabalho por aqui com Agroecologia e foram eles que me convidaram para os apoiar pelos próximos dez dias. A partir de manhã irei conhecer o trabalho, visitando associações e áreas de agricultura urbana e periurbana, aqui mesmo na capital e em seus distritos.
Feira de Artesanato, Flores e Gastronomia
Hoje foi para relaxar e preparar o trabalho que começa amanhã, mas como cheguei cedo ainda tive tempo de almoçar tendo a Baía de Maputo como pano de fundo. O restaurante era internacional, não provei a comida local, mas espero ainda ter muitas oportunidades.
De tarde saí para caminhar. Fazia sol, mas não muito calor. Maputo está a uma latitude parecida com a de Torres, e justamente agora está na transição de um relativo frio para um calor que dizem é bem intenso. A cidade não é pequena, um pouco mais de um milhão de habitantes, muitos carros, mão inglesa, muitos ambulantes, muita gente. Mas não chega a ser confusa, tem um relativo ordenamento e se não chama a atenção pela limpeza, também não se caracteriza pela sujeira. Fui caminhando até um mercado de artesanato, que fica em um dos muitos Parques Municipais que eu soube existem por aqui. Alguns deles gestionados por privados, ou seja pelos restaurantes, bares, sorveterias ou qualquer atividade que se instalar no Parque. 
Show, as bolsas penduradas nas árvores
Os artesanatos são muito legais, sempre causam um impacto os motivos africanos e as esculturas feitas em ébano. Mas como eu sou chato, lamento a produção em massa de artesanato. Por definição não combina... do pouco que eu conheço da África, acho que aqui rola o mesmo que na América Latina, mudam os países, mas os artesanatos são muito parecidos. Sinal dos tempos. A arte é achar o diferente, o de boa qualidade. Mas aí são caros, e nós reclamamos... os tecidos Africanos, feitos em boa parte na Índia, lindos, daqueles que nos chama atenção, são originalmente de algodão, tingidos com corantes naturais. Agora existe profusão deles, muitas vezes sintéticos tanto o tecido quanto a tinta. Diferença de preço? De cinco a dez vezes.
Amanhã vou tentar escrever algo mais interessante... hoje foi só para aquecer. Vou dormir, prevendo uma noite de insônia, aqui são quatro horas na frente do Brasil, e este fuso já é suficiente para atrapalhar o sono de um senhor de idade...
Close em alguns dos artesanatos que vi.