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terça-feira, 22 de julho de 2014

Cuenca, 20 e 21 de Julho de 2014.



Fim de tarde, Praça Central, em frente ao Mercado 9 de outubro, Cuenca
Ontem, domingo, trabalhei até às 13h30min, quando então terminei minhas aulas com o Mestrado. Aí, com a agradável sensação de dever cumprido, fomos almoçar juntos, alguns alunos e eu, em um lugar popularmente chamado de cuchilandia. Cuchi vem de porco, este lugar está portanto cheio de restaurantes muito simples, que vendem carne de porco, preparada de diferentes maneiras. A casca do porco é retirada com ele ainda inteiro, recém-assado. Também se vende carne de porco assada, frita e chouriço. Tem para todos os gostos:
Com alunos do mestrado, na Cuchilandia!
Os pratos vêm acompanhados de milho cozido, tortilla de batatas, milho torrado e salgado. A pimenta vem à parte, para ser colocada à gosto. Bem popular, são vários lugares que vendem isto durante todo o dia, todos os dias. Se pode optar tanto por comer ali quanto por levar para casa. Gostei muito de ter ido, ê difícil eu me cansar de comida local.
O domingo terminou entre uma breve caminhada pelo centro, descanso e preparar minha palestra de hoje. Estava cansado. Na real ainda estou, o evento esta manhã foi longo, falei por duas horas entre palestra e debates, sobre os desafios da Agroecologia na América Latina. Os títulos vão mudando, mas a prosa é sempre parecida. Falar mal do modo de produção no campo que é baseado em agrotóxicos e transgênicos e vender as vantagens da produção com base na Agroecologia.
Depois do trabalho e de algumas conversas, às quatro da tarde eu estava livre e comemorei com um crepe com sorvete, chantilly, banana e morango. Não se assustem, tá tudo bem, depois tomei um expresso sem açúcar, ficou tudo zerado. Este postrezito foi num café muito charmoso que fica numa das esquinas da Praça das Catedrais, chamado Frutillado. Ainda tive tempo para fazer o que mais gosto: caminhar a esmo!  Acabei indo a um centro de artesanato perto do Mercado 9 de outubro onde estive no primeiro dia. Claro que não resisti e voltei ao mercado para tomar um suco de coco. Espetacular!
Palo Santo sendo queimado
Deixa-me contar algo. Nos lugares de comércio mais popular, como por exemplo ao redor deste mercado, é comum vermos no chão uma lata com um pedaço de uma madeira chamada palo santo queimando e exalando um odor característico, parecido com um incenso. É para proteger o local, trazer boa sorte e atrair clientes. Assim me explicou o vendedor de uma barraca que usa esta estratégia de marketing. Achei curioso e encontrei na net que palo santo significa madeira sagrada, assim denominada pelos Incas. Era muito usada para limpeza dos ambientes e pelos seus Xamãs em rituais, como forma de facilitar o contato com seus Deuses. A presença dos Incas ainda é muito palpável em boa parte dos Andes. 
Claro que comprei palo santo para levar para casa... Eu que não sou louco de duvidar do que diziam os Xamãs Incas...
No início da noite voltei à Calle Larga, o point da cidade, para relaxar e passear um pouco. Agora ainda tenho que corrigir prova e dormir. Amanhã rola um evento de manhã com jovens campesinos, de tarde uma saída a campo e no final do dia está programado viajar umas quatro horas até Riobamba. Vai ser pauleira, ainda bem que sou garoto...

Uma IPA bem tirada na "La compañia" cervejaria
artesanal em frente a Igrela La Merced 

domingo, 20 de julho de 2014

Cuenca, 19 de Julho de 2014.


Calle Larga, local de bares e restaurantes em Cuenca 
Acho Cuenca uma cidade muito agradável. Para começar adoro este casario colonial espanhol. Suas portas e janelas, seus balcões externos, seus pátios interiores, os detalhes em madeira. Cuenca tem tudo isto, e, o que deve ser sempre valorizado, muito bem cuidado. E o tal Centro Histórico é grande, não se resume a poucas ruas. E habitado, vivo.
Casa colonial típica
Existe outra característica em Cuenca que me seduz. Possivelmente atraídos por esta arquitetura colonial, que os faz se sentir em casa, um número significativo de estrangeiros, principalmente europeus, visita a cidade, o que é evidenciado por uma breve caminhada que nos traz aos ouvidos diferentes idiomas, e acaba se estabelecendo por aqui, montando seus negócios. Principalmente cafés, pousadas, hotéis, bares e restaurantes. E trazem seu senso estético, valorizando os detalhes da arquitetura original e acrescentando música de qualidade, boa e diversificada comida, decoração agradável, atendimento casual. Muitos destes bares e restaurantes na Calle Larga, o point boêmio da cidade. Ontem saí por ela e comi em um restaurante alemão, hoje estou escrevendo de uma cervejaria artesanal com influência belga e por aí vai. Mas esta influência estrangeira não vem descaracterizar ou suplantar o local, pelo contrário, o valoriza, e ele segue super presente. Nas comidas de rua, nos mercados públicos, nas manifestações religiosas, no rosto e vestimenta da população. É o que sabemos, o melhor vem da mescla, da mistura, das sinergias. Bom, tudo isto para dizer que Cuenca vale a pena ser visitada. 
Prefeitura de Cuenca, lindo prédio.
De resto meu dia hoje foi de trabalho, mais do que eu gosto, dez horas de aula! Duas delas visitando cedinho uma linda feira de produtos ecológicos. Afinal hoje é sábado e sábado ê dia de feira... Organizada pela Red Agroecológica del Austro, RAA, é uma das maiores que tenho visto, suas 40 bancas são ocupadas por mais de 100 diferentes famílias. Os feirantes são membros de um Sistema de Certificação Participativa bastante organizado. Junto á feira, comidas locais prontas, para o café da manhã.
Apesar do trabalho intenso, que segue amanhã, domingo, às 07:30 da manhã, nem posso reclamar, os dias tem corrido agradáveis. No fim é o que eu gosto de fazer, falar da Agricultura Ecológica. E ainda me pagam pra isto... Visitar Cuenca, conhecer fincas e mercados ecológicos e falar sobre o que gosto... Vai entender o mundo!
Fui. Amanhã, domingo, tenho que trabalhar. Tudo bem, tá bom assim, nem quero que melhore!
Feira Agroecológica em Cuenca

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Cuenca, 17 e 18 de Julho de 2014

Visual das montanhas em Gualaceo, Sul do Equador,
O galã aí sou eu.
Ontem passei o dia todo na Universidade de Cuenca, dando aula para o Mestrado que eles têm em Agroecología e Ambiente. Sem grandes emoções, só a responsabilidade de atuar bem durante nove horas de aula... mas no fim deu tudo certo. Acabou que nem escrevi para o blog, achei que não teria muito que contar.
Hoje foi diferente, fomos ao campo, visitas a fincas e a uma feira. É definitivamente meu maior prazer no trabalho. Saímos de Cuenca antes das oito e fomos em direção a Gualaceo. A estrada bonita, quase encravada nas montanhas rochosas, tipicamente andinas, mas recobertas de uma breve vegetação que denuncia tanto que estamos na época de chuvas quanto o início da transição para a floresta tropical, a Amazônia Equatoriana. Em alguns trechos margeamos o Rio Cuenca e o vemos desembocar no Rio Paute, que segue seu caminho rumo ao oriente equatoriano, e no fim, desembocando de rio em rio, vai chegar ao Rio Amazonas, e aí sim cumprir seu destino de chegar ao mar.
Um hornado de chancho
  
A viagem foi breve e após 45 minutos desta instigante paisagem chegamos ao Mercado da cidade. Não tão grande, com seu pátio de comida e bancas de produtos in natura e outras com produtos industrializados. O Mercado é circundado por uma feira, que na real é parte do próprio Mercado, onde as mulheres estão com suas bancas, no solo, muito de acordo ao que se costuma ver por estes lados do continente. Aproveitei e comi junto com alguns do mestrado um hornado de chancho, que é um porco assado inteiro ao forno a lenha (horno em espanhol). Ele é cozido por no mínimo três horas, e uma senhora (uma hornadera) serve desfiando-o com as mãos. A carne de porco é servida com mote (milho branco, cozinhado por horas) y llapingacho (uma tortilla de batatas). No fim colocam um vinagrete para dar mais sabor ao hornado. Delicioso.
Feira / mercado de Gualaceo
Em parte deste Mercado um povo comercializa produtos ecológicos. São os sócios da Organizacion de Productores Agroecologicos Mushuk Pakarina, palavra Quechua que significa Novo Amanhecer. Esta associação surgiu em 2001, tem 86 sócios e trabalha com Agroecologia desde seu principio. Quem nos recebeu, muito bem, foi Don Manuel, um dos dirigentes desta associação. Depois tivemos a oportunidade de ir visitar a finca dele e da Dona Rosa, uma outra sócia do mesmo grupo há mais de dez anos.
Dona Rosa e Don Manuel são dois exemplos de agricultores familiares da Serra Equatoriana. Possuem uma área pequena, mais ou menos um hectare. Cedo perceberam que o Canto de Sereia dos agroquímicos não era para eles. Contaram-nos suas frustrações ao começarem a usar adubos químicos e agrotóxicos e não perceberem resultados.  
O de chapéu é o D. Manuel


    Hoje fertilizam com adubos verdes, estercos de cuy, coelho, gado, cabras. Usam biofertilizantes para proteger seus cultivos, estão envolvidos em um esquema regional de certificação participativa e vendem diretamente seus produtos.  Perguntamos a Dona Rosa se ela trabalhava muito, ela respondeu: “Não, o trabalho não é muito duro”. Me lembrei de Fukuoka, agrônomo japonês, que dizia que “o agricultor deve ter tempo de ler poesia”. 
Don Manuel nos deu uma aula de fertilidade dos solos. Também nos falou que “Nós trabalhamos pela saúde da população, não apenas de nossas famílias”. Que elegância... me lembrei que Don significa de origem nobre. Muito bem empregado neste caso. Grande Don Manuel!
Agora estou aqui, fim de tarde, no Café Áustria, no centro histórico de Cuenca. Um expresso, um entardecer, escrevendo sobre um dia especial. Preciso de mais alguma coisa? Preciso de mais nada...


Dona Rosa ao centro e alguns alunos do Mestrado

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Cuenca, 16 de Julho de 2014.


Cuenca e seu Centro Histórico, Patrimômio da Humanidade
Acabou a Copa do Mundo, com suas glórias e frustrações, a vida volta ao normal. Estou no Equador para oito dias de intensas atividades, a maior parte delas na charmosa Cuenca. É a quarta vez que venho a Cuenca, mas a primeira desde que comecei a escrever este Blog.
Ontem saí de Porto Alegre, passei pelo Panamá, dormi em Quito e hoje às 05:30 eu já estava no aeroporto. Antes das oito eu já estava em reunião com o Pedro, a pessoa de apoio para os quatro dias de aula que vou ministrar para o Mestrado em Agroecologia e Ambiente da Universidade local. Legal que ele foi meu aluno há quatro anos atrás neste mesmo curso. Depois passei o dia entre preparar minhas aulas e passear pelo centro da cidade.
Cuenca, capital da província de Azuay, é uma cidade relativamente grande, a terceira do país, mais de 300 mil habitantes, dessas que na América Latina se costuma chamar de Colonial. Antiga e guarda fortes traços da arquitetura da época que o pais ainda era de domínio dos espanhóis. Seu centro histórico é considerado patrimônio cultural da humanidade.
Catedral Nova
Para não perder o hábito, o primeiro lugar visitado foi o mercado público. Gosto muito. Este tinha um primeiro piso com peixes e carnes, vendidas do jeito tradicional, expostas, sem refrigeração. Ô beleza! No segundo piso frutas, flores, hortaliças e umas bancas de sucos e comidinhas. No terceiro piso, pequenos boxes, com comidas prontas, para levar ou comer na hora. Vou postar várias fotos aí embaixo para ser mais claro - imagens falam mais que palavras.
Depois fui fazer hora na Praça das Catedrais. Tem uma de cada lado, chamadas de velha e nova. A nova impressiona pelo seu tamanho e João Paulo II já rezou missa nela. Por dentro também é linda. A praça chama a atenção por fugir um pouco do padrão praças secas e ser bastante arborizada. Muito agradável.
Enquanto estava ali vi passar uma procissão pela Virgem do Carmo. Sempre fico pensativo, quase melancólico, quando vejo uma população de traços predominantemente indígenas em rituais católicos. Nada a ver, século XXI, já estamos todos misturados, mas momentos assim sempre me fazem pensar neste encontro lá do longínquo século XVI.
Uma última coisa. Estou no correto Hotel Conquistador. A nota boa é que neste hotel tem um bom restaurante que serve comida orgânica comprada de agricultores familiares da região. Legal né? Estou em casa! Vou dormir, amanhã começo 7:30, vou até seis da tarde.
Grãos cozidos, para levar ou comer na hora.
Milhos, ervilha, lentilha, fava, grãos de bico, etc!
Rapadura e chocolate, 100% cacau local
"Hornados", porco asado inteiro.
Para comer na hora ou levar pra casa 
Sucos de todo tipo
Carnes, "ao tempo"!!!

terça-feira, 25 de março de 2014

Santa Cruz de la Sierra, 23 a 26 de março de 2014.

Visual interno do El Ajibe
Escrevo este post vislumbrando um belo entardecer do meu quarto de hotel em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. Vai ser o único relato que escreverei nesta minha meteórica passagem por aqui. Cheguei anteontem, domingo, e amanhã, quarta-feira, já embarco de volta para casa. Pena, aqui perto está o Forte de Samaipata, um sítio arqueológico muito interessante que já descrevi aqui, e não tão perto umas famosas Missões Jesuíticas que não conheço, mas desta vez deixei passar.
Nosso Seminario nas dependências de Heifer - Bolívia
Vim para continuar uma consultoria que comecei ano passado sobre a implementação de Sistemas Participativos de Garantia (SPGs) para produtos ecológicos aqui no departamiento de Santa Cruz. A Bolívia é um dos países que implementou um Marco Legal para a Agricultura Orgânica, com a Lei 3525 e sua regulamentação, que incluiu os SPGs como um mecanismo válido de dar credibilidade a estes produtos. Assim, este é um assunto muito presente no mundo da Agricultura Orgânica na Bolívia. Para mim é sempre curioso ver um tema que trabalhei desde o início, que fiz parte do grupo inicial que gerou a ideia e o conceito, ser agora tão debatido e inclusive incorporado em legislações.
Ver um texto que escrevi ter parágrafos ou conceitos incorporados em Leis é bastante gratificante, mas acima de tudo, repito, curioso. Dá uma dimensão de como as ideias surgem, se materializam, se socializam e invadem a vida das pessoas. Dá uma sensação estranha ao perceber como as coisas são definidas e decididas e ainda fico com a leve percepção de que não é tão complicado influenciar nos rumos das coisas, do mundo. Se não sabemos como, parece impossível, mas, como sabe o vaqueiro experiente, vendo por onde os burros passam aprendemos o caminho.
Trabalhei a maior parte do pouco tempo que tive, mas ainda consegui fazer algumas coisas. Dentre elas revi alguns amigos, o que é sempre agradável. Encontrei Tania Tapia. A conheci em Espanha, onde passamos juntos quase três meses fazendo os créditos do nosso mestrado. Reencontrá-la agora, 18 anos depois, e ver nossas fotos desta época foi muito legal. Definitivamente, la vida es sueño.
Detalhe da decoração do El Ajibe
Não passeei, mas comi algumas comidas saborosas, simples e interessantes. O restaurante do Hotel Las Palmas era bastante correto, comi ali um belo Surubim ao alho com batata frita (adoro um fish and chips!), acompanhado de uma cerveja artesanal, a Corsa, que gostei muito. Me informei e é feita por um alemão que vive aqui. Não sei porque, mas não me surpreendi com esta informação. Mas aqui em Santa Cruz gosto mesmo é do restaurante El Ajibe (www.elaljibecomidatipica.com), onde já havia estado outras vezes.  
A casa é antiga, cerca de 130 anos, não tão bem conservada, e a decoração tem esta estética que me encanta, mesclando muitas coisas que podem ser chamadas de cult como telefones pretos, relógios de parede e máquinas de escrever antigas e outras que são normalmente chamadas de kitchie, como gaiolas com pássaros de plástico ou símbolos de clube de futebol. Me perco observando cada detalhe e tentando entender a lógica de quem colocou cada coisa em cada lugar.
Mas a decoração é só a moldura, a comida é o melhor do quadro. Comi ali duas vezes. Em uma pedi majadito de charque (arroz com carne , ovo e banana frita), que é o prato principal da casa, e na outra picante de pollo, galinha com um molho de pimenta, acompanhada de arroz e maionese de chuño, uma batata desidratada por um processo bem engenhoso, alimento indígena muito comum no altiplano andino. Para beber sempre mocochinchi, o refresco típico daqui, feito à base de pêssego seco, canela e cravo da índia. Ano passado levei este pêssego seco pra casa e o mocochinchi fez sucesso, este ano levo de novo. Comprei também para levar chocolate orgânico, com cacau silvestre da Amazônia Boliviana. E claro, quinua e amaranthus, dois conhecidos cereais andinos.
Vou nesta jantar, o sol já se foi, o post também, fiquei com Passagem das Horas e Renaisance, agora rolando Can you understand. Termino com o inicio do poema: Trago dentro do meu coração,/ Como num cofre que se não pode fechar de cheio,/ Todos os lugares onde estive,/ Todos os portos a que cheguei/ Todas as paisagens que vi através de janelas ou vigias/ Ou de tombadilhos, sonhando,/ E tudo isso, que é tanto, é pouco para o que eu quero.
E tudo isto, que é tanto, é pouco para o que quero!

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Praga, 16 e 17 de fevereiro de 2014.

Praga, vista do Castelo.
Estou escrevendo na segunda de tarde, no vagão restaurante do trem que liga Nuremberg a Frankfurt. Tomando uma draft. Acho muito chique isto de vagão-restaurante. De Frankfurt pegamos o avião para casa. Bom, na real vou para Ouricuri, interior de Pernambuco. Ficar sete dias na Europa, estando por três cidades diferentes, só aumenta a vontade de passar uma temporada longa aqui. Viver um pouco do cotidiano desta parte do mundo está na minha lista de desejos.
Adriano, Ana e Pida, pelas ruas da cidade velha.
Um domingo flanando por Praga é definitivamente um privilégio. Foi o que fizemos ontem. Esta é uma das cidades que povoava meu imaginário quando eu era criança/jovem. Não lembro exatamente qual a razão, mas depois de um dia passeando por aqui é fácil entender porque ela navegava não apenas pelo meu, mas pelo imaginário de meio mundo. Para muitos, Praga é a cidade mais bonita do leste europeu. Não duvido.
Passamos o dia fazendo alguns dos programas obrigatórios na cidade. Caminhando pela cidade velha, passando pelo bairro Judeu, visitando algumas sinagogas, cruzando o Rio Vltava, que corta a cidade, pela Ponte Carlos, subindo até o Castelo pela Mala Strana. O visual é de conto de fadas. Fomos à City Hall e vimos um belo espetáculo também, com uma pequena orquestra de cordas tocando música barroca. Praga é, ou ao menos já foi, considerada a capital cultural da Europa. Não passamos por uma esquina sem ver uma promoção de algum espetáculo de teatro ou musical.
Visitando meu amigo Kafka
Na Praça Central da Cidade Velha está um monumento em homenagem a Jam Huss, que é considerado um herói nacional e que foi queimado pela fogueira da Inquisição, em 1415. Ele era Padre, um livre-pensador e foi Reitor da Universidade de Praga, umas das mais antigas da Europa. Defendia mudanças na Igreja Católica, sendo identificado como um precursor da Reforma de Lutero. Uma figura que sempre ouvi falar na minha casa e no meio espírita, já que existe um consenso que ele teria sido uma encarnação anterior de Allan Kardec, o organizador do Espiritismo. Gostei de visitar este monumento e conversar um pouco com Jam Huss. Assim como gostei também de ver a estátua de Kafka. Dele li apenas Metamorfose e O Processo, e fiquei com as vigorosas imagens que ele cria nestes dois livros e desde então me considero fã. E, falando de literatura, fiquei também lembrando de Tomaz, Tereza e Sabina, três de meus personagens favoritos, de A Insustentável Leveza do Ser. Este livro se passa quase todo em Praga.
Som de primeira na Ponte Carlos
De noite, depois do espetáculo de cordas, fomos jantar no U Medvídku. Uma cervejaria artesanal, a última de Praga, segundo eles. A casa foi construída no início do século XV, e as primeiras cervejas foram feitas em 1466. Em 1898 fecharam por não poderem competir com as cervejarias industriais. 
Reabriram como Cabaret no inicio do século XX, tiveram sérios problemas com o governo socialista nos anos cinqüenta e só recomeçaram a recuperação do prédio em 1989, primeiro como hotel e depois como cervejaria, retomando a forma original de fabricação. Recomendo. 
Voltar para o hotel às onze da noite, caminhando pelo centro, luzes acesas, inverno ameno, de braços dados com Ana, não tem preço. O resto, Mastercard paga. 
Bom, era isto, não sei bem quando será a próxima caminhada, mas de lá, seja de onde for, conto mais.

Igreja no Castelo de Praga
Ruela de Ouro, no Castelo de Praga, a lojinha por fora
Ruela de Ouro, no Castelo de Praga, a lojinha por dentro
Parece que não fomos apenas nós que tivemos a
 ideia de ir à Praga... no fundo, a Ponte Carlos


sábado, 15 de fevereiro de 2014

Nuremberg e Praga, 15 de fevereiro de 2014.



Praga e sua arquitetura... este
 é apenas um prédio dentre tantos
Viajar pelas estradas da Europa é sempre um enlevo. Bom, viajar é sempre um momento de enlevo. Claro que um caminho nunca feito tem um encanto diferente. Hoje fomos de Nuremberg para Praga de ônibus, uns 280 km de distância. Na primeira parte da viagem, ainda pelo sul da Alemanha, paisagem calma, levemente ondulada, alguns poucos cultivos de inverno, muitos bosques homogêneos de coníferas, fardos de fenos espalhados pelos campos, grandes cata-ventos, pequenas cidades. 
De longe vemos a arquitetura característica destas cidades, casas altas, quase monolíticas, com pequenas janelas e cores sóbrias. Algumas vezes só divisamos os telhados inclinados das casas e a torre da Igreja. No trajeto também vimos algo de neve, pouco, mas ainda não a havia visto nesta breve temporada no inverno Europeu. Os bosques e as cidades guardam uma relação em suas arquiteturas. Altos, inclinados, uniformes, sóbrios.
Visual de dentro do ônibus Nuremberg - Praga.
Quando entramos na República Tcheka notei que os horizontes se alargaram e as casas empobreceram, ou pelo menos a pintura não estava tão em dia. A língua das placas de sinalização também mudou, nos fazendo lembrar que entrávamos em um país da ex-cortina de ferro.
Na viagem, dentro do ônibus, o rapaz sentado na minha frente pediu, muito educadamente, para eu abaixar o volume da música que eu estava ouvindo com o fone de ouvido. Estava um pouco alto, e ele ouvia. O Europeu é muito consciencioso de seus direitos individuais. O convívio coletivo é sempre mediado pela noção de respeito total aos mundos individuais. Não sou obrigado a conviver com fezes do teu cachorro na rua, com a fumaça do teu cigarro, com tua conversa no celular ou com o alto volume da tua música. Os latinos convivem melhor com interseções entre os mundos individuais, ainda que elas, as interseções, nos tirem do ponto de máximo conforto individual. Vejo vantagem em ambos os comportamentos e tenho dificuldade em pensar que pode haver uma mescla perfeita entre eles.
Sabia que ia ver o Kafka
Chegamos a Praga e até achar o hotel e estar pronto para sair já estava quase escurecendo. Mas caminhamos bastante, começando pela cidade nova. Bem, nova é um modo de dizer, ela foi fundada em 1348. Fomos até a Praça Venceslau, movimentada, cheia de artistas de rua e lojas cheias. 
Depois fomos só caminhar pela cidade antiga, vimos sua praça central, lindíssima, vimos a torre da cidade e seu relógio astronômico. Praça lotada, colorida, luzes acesas, performances de toda ordem. Aqui se respira cultura. E passeamos, sob lua cheia, pela Ponte Carlos, um dos postais da cidade. Não vou ficar descrevendo Praga, existem vários sites que fazem isto muito bem, é um dos principais destinos turísticos do mundo. Justificável. Como bem definiu um grande amigo, é realmente deslumbrante, “quase uma Paris”. 

Ana e eu jantando na noite de Praga

Levitação pelas ruas de Praga

Músicla clássica fazendo sua ronda noturna.

Nuremberg, 14 de fevereiro de 2014.

WeiBgerbergasse
Hoje foi meu ultimo dia de Biofach, já que decidimos passar o fim de semana em Praga, que fica a umas três horas de ônibus daqui. Levo a impressão, outra vez, que este modelo de uma Agricultura Orgânica centrada na sofisticação, das regras e da apresentação, está chegando ao seu limite. Mas a demanda por alimentos de qualidade segue crescendo. Encaixar estes dois polos é a arte do momento.
Ana tomando uma cerveja de spelt.
Aproveitei para seguir com umas reuniões e ainda tive tempo de dar uma boa caminhada, vendo e provando produtos muito interessantes, como chocolates com azeite de oliva, de uma empresa de Barcelona ou cerveja de farro (Triticum spelta), que é um tipo de trigo antigo, feita na região de Munique, a capital mundial da cerveja. Deliciosa e cheia de história!
Casa típica da WeiBgerbergasse
Depois de caminhar e degustar, eu e Ana fomos caminhar no fim da tarde pelas ruas do centro histórico de Nuremberg. É encantador. Nunca deixo de me surpreender de como é bonita esta cidade. Fomos à WeiBgerbergasse, a minha rua preferida daqui. A minha e de todo mundo. É que ela retrata a Nuremberg que foi construída entre o século XIII e XVI, usando madeira como estrutura das casas e um tipo de adobe como enchimento. Por algum motivo que ninguém sabe esta rua permaneceu quase intacta durante a guerra, enquanto mais de 90 % da cidade histórica era destruída. Que lugar a WeiBgerbergasse. Bonita e cheia de história!
Voltando à Biofach, quero contar uma prosa que tive por lá. Fiquei um pouco no stand do Brasil e conversei um tempinho com o Mauro Oteiro. Ele é filho de assentados da reforma agrária. Seus pais estavam acampados na Fazenda Anoni, em Passo Fundo, RS, quando ele nasceu, em 1985. Para quem não sabe, este acampamento marca a origem do MST – Movimento dos trabalhadores rurais Sem Terra. Pois bem, ele cresceu em Eldorado, também no RS, onde seus pais foram assentados em 1987. Neste assentamento existe um trabalho já consolidado com Agricultura Orgânica há mais de 15 anos, que começou com hortaliças e se expandiu para o arroz. Seus pais produzem hortaliças orgânicas. 
Arroz Terra Livre sendo comercializado. O Mauro
está de costas nesta foto.
O Mauro foi estudar agronomia na Venezuela, no IALA, Instituto Latinoamericano de Agroecologia, se formou e voltou para trabalhar na Cootap (Cooperativa dos Trabalhadores Assentados da região de Porto Alegre), a cooperativa que existe neste assentamento e a qual ele está representando aqui na Biofach. E parece que está fazendo bem seu trabalho, pois no segundo dia de feira já havia vendido toda a produção do arroz da Cootap, o Terra Livre. Me contou da realização pessoal de poder estar pela primeira vez na Europa e ainda mais aqui, já que desde sempre seu sonho foi visitar a Alemanha, pela historia deste país e pela ascendência de seu pai, que se chama Lutz Ott e Silva. Lutz Ott e Silva. Destas mesclas nós entendemos. Viva o Povo Brasileiro. 
Amanhã vou para Praga. Tive lá há dez anos e espero rever Kafka e Jam Huss.

Uma das tantas praças bonitas do centro
histórico de Nuremnberg.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Nuremberg, 13 de fevereiro de 2014.

           
Reunião no stand do Brasi entre com o MDA e IFOAM - Europa
       
Hoje de novo foi dia de ir à Biofach. Bom, claro, estou aqui para isto. Hoje com mais tempo gasto em reuniões e palestras do que visitando a feira. É que aqui além da feira propriamente dita rola alguns eventos/seminários sobre assuntos relacionados à agricultura orgânica ou ao comercio justo, um dos temas que também marcam presença na Biofach.
Aqui, neste ambiente de feira e seminários, sempre navegamos entre duas visões, uma mais positiva do momento que vive a Agricultura Orgânica e outra menos entusiástica. Não estamos crescendo como o projetado, dizem uns. Somos o único segmento do setor alimentos que cresce dizem outros. O excesso de regulações nos impede de agregar mais produtores dizem uns. São as regulações que nos mantém vivos, que permitem nossa diferenciação dizem outros. E assim vai. De certa forma todos estão certos. Como diz Fernando Pessoa em um dos seus poemas, por vezes ficamos perplexos com esta dupla existência da verdade.
Turquia, um dos points do ano,já que em outubro
irá acontecer lá o Congresso mundial de AO.
Deixa-me falar de alguns números interessantes, que estão na revista da própria feira. Esta é a 25° Biofach. Este ano são 2.235 expositores de 76 países. E se espera 40.000 visitantes. Somando a Biofach e a Vivaness serão lançados impressionantes 650 novos produtos. Vivaness é uma Feira que ocorre no mesmo lugar e nos mesmos dias e tem um nome diferente apenas porque se trata de produtos de beleza e nem todos podem ser certificados como orgânicos, o que os impede de estarem na Biofach.
Os números divulgados aqui sobre 2012 dizem que neste ano eram 37,5 milhões de hectares cultivados organicamente em todo o mundo. A Oceania sozinha tem 32% deste total, graças principalmente à pecuária extensiva. Apesar desta área, apenas 1% dos produtores orgânicos do mundo estão na Oceania. A Ìndia é o país do mundo com maior número de produtores orgânicos, 600 mil, quase 30% dos quase dois milhões de agricultores orgânicos do mundo.
Em relação ao tamanho do mercado, foi de de 63,5 bilhões de dólares em 2012. Qual o país com maior mercado? Estados Unidos, claro, de longe. Quase 30 milhões de dólares. Nove milhões o mercado Alemão e cinco milhões colocam a França em terceiro lugar neste ranking.
O maior consumo per capita de produtos orgânicos foi dos Suíços, 240 dólares/ano, seguidos dos Dinamarqueses com 202 dólares/ano. 
Galera se maquinado, na Vivaness
Falando do Brasil, em termos de área, estamos em 11°, com 700 mil has cultivados organicamente, o que equivale a 0,27% de nossa área agricultável. São 12.500 produtores orgânicos no nosso país. Se estima que o mercado nacional para produtos orgânicos foi de U$ 750 milhões. Estas e muitas outras estatísticas estão em um livro anualmente lançado por IFOAM e Fibl. Ele é coordenado Helga Willer e Julia Lernoud, amiga e filha dos meus grandes amigos argentinos  Pipo Lernoud e Maria Calzada. Se eu me sinto orgulhoso, imagino os pais.
Hoje passei um tempo no stand do Brasil. Na verdade são dois, um ao lado do outro. Um com representantes de empreendimentos da Agricultura Familiar, financiado basicamente pelo MDA, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, outro representa mais o setor empresarial, com representantes também de certificadoras e foi bancado em boa parte pela Apex. O fato destes dois stands do Brasil estarem separados deve expressar algum tipo de divergência, mas nem quis saber qual...
No stand com representantes da Agricultura Familiar estão 14 empreendimentos. Café de Minas Gerais, Guaraná de Rondônia, cachaça do RS, Mel do Piauí, Suco de Uva da Serra Gaúcha e Arroz do RS, produzido por assentamentos da Reforma Agrária, são alguns deles. A marca se chama Terra Livre. No geral parece que as vendas estão boas.
Isto é o que vou contar por hoje da Feira. De noite fomos jantar em um restaurante que começou a funcionar no século XV. Se dizem a mais antiga salsicharia do mundo, construída em 1419, especializada em um tipo especial de salsicha, típica daqui de Nuremberg. Comemos Esta salsicha acompanhada de pão, raiz forte e chucrute. E claro, de uma cerveja, pilsen ou weise (de trigo). O restaurante se chama Braatwurst-Küche Zum Gulden Stern. 
É isto amanha tem mais.
Café da Jámaica, Bob Marley. Bem bom!