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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Buenos Aires, 27 e 28 de janeiro de 2014.

Loja no Abasto, saída do shopping pela Carlos Gardel
Estou aqui no café da manhã do Gran Hotel Buenos Aires, onde ficamos estes dias, bem no centro da cidade, na Marcelo Alvear 767, pertinho da Florida. Daqui a pouco nos dirigimos ao aeroporto, de volta para casa e trabalho.
Café Tortoni
Ontem fomos a três lugares que vale a pena contar. Primeiro no Tortoni, na Av. de Mayo 825, aquele que é considerado o melhor café da cidade. Muito legal. Tem mais de 150 anos, e lembra a Confeitaria Colombo, do Rio de Janeiro, no seu estilo clássico e refinado. Os cafés junto com as áreas verdes, talvez sejam o que mais vinculam a Buenos Aires de hoje com sua época áurea, de cidade mais rica e glamourosa do continente. E o Tortoni é a melhor expressão desta Buenos Aires. E sua media luna é simplesmente sensacional. Comemos churros com chocolate, sucos, brownie, café, tudo bom, mas a media luna... é imperdível. Podem crer!
Depois fomos ao shopping Abasto. Bom, boas lojas, mas vale a pena principalmente pela quantidade de jogos eletrônicos que tem. Para quem viaja com criança se torna um programa quase obrigatório, diversão garantida.
E do shopping se pode sair pela Av. Carlos Gardel e em três quadras se chega ao Museu Carlos Gardel, que fica na Jean Jaures 735. Pequeno mas muito charmoso, as fotos e os escritos são uma aula de Tango, suas origens e detalhes da vida deste que é o artista mais adorado pelo povo Argentino. E esta pequena caminhada é muito agradável, Abasto é um bairro mais popular, com um casario bonito, parece que com um senso cultural pulsante, ao redor do Tango. De novo, por estes mecanismos nem sempre claros, Abasto em suas ruas internas me lembrou Havana. 
Ana, Gardel e eu. Fotógrafo: Daniel Meirelles.

Bom, o restante do dia de ontem foi reservado a algumas comprinhas que ninguém é de ferro e o cambio está favorável. Para se despedir de noite fomos a outro Pub Irlandês que recomendo para quem gosta destes ambientes de bares escuros, madeirados, com música relativamente alta e boa cerveja. The Temple Bar, na Av. Marcelo Alvear 945. Fica como minha ultima dica.
Valeu a viagem. Precisava conhecer um pouco melhor Buenos Aires, e não me arrependo da escolha de passeio. Apesar do ar decadente, quem já foi rainha nunca perde a majestade.
Fui. Em dez dias escrevo outra vez da Biofach, Nuremberg, Alemanha.
Daniel e Ana, no Café Tortoni

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Buenos Aires, 26 de janeiro de 2014.



Daniel Meirelles, com Jorge L Borges e Adolfo Caseres
Começamos o dia de hoje indo até uma pista de skate, já que sou pai de um futuro skatista famoso. Como o poder público pode fazer coisas boas, quando quer. Que pista, que lugar legal. Claro que reúne dezenas de crianças, jovens e adultos. É perto do Aeropark, o aeroporto que fica dentro da cidade, na Av. Costanera. O Rio La Plata, o parque com a pista e os aviões pousando compõe uma boa cena. Para quem gosta de skate, ou tem filho que gosta, é imperdível. Se chama Converse Skateboarding Argentina, e tem fanpage no Facebook, para quem quiser dar uma olhada.
Converse skateplaza
De lá fomos à Palermo, ao Jardim Japonês. Enquanto passeávamos de táxi, passamos por diferentes Parques, todos cheios de gente, caminhando, correndo, pegando sol, tomando um mate. Atividades de um dia de domingo de sol.
O Jardim Japonês é um pequeno parque, feito pela e para a comunidade japonesa, muito bonitinho. Nada do outro mundo, mas para quem se afiniza com este tipo de ambiente, bom programa. De lá fomos caminhando, Daniel andando de skate, pela Av. Figueroa Alcorta até chegar de novo na Recoleta, na Plaza Francia, na mesma feira que havíamos ido no dia anterior. É que ficamos no desejo de parar no La Biela, um café-restaurante muito charmoso, com uma varanda enorme embaixo de uma árvore gigantesca. Ficamos umas três horas por ali, tomando uma Imperial, uma boa cerveja pilsen da cidade de Santa Fé, comendo algo, conversando. Daniel almoçou una milanesa con papas fritas. Típico. Tivemos direito até a um show de tango, na praça, praticamente ao lado da mesa que estávamos. Típico também. Beleza, não estava a fim de pagar 80 dólares por cabeça para ir ao Señor Tango. Matei minha obrigação de ver um show de tango em Buenos Aires. E, generoso que sou, contribuí com dez pesos à arte local!
Show de tango, ao ar livre, ao lado do La Biela
Do La Biela regressamos também caminhando ao hotel. Segundo o google, fizemos quatro quilômetros. Bem agradáveis, Buenos Aires é uma ótima cidade para caminhar.
De noite fomos, outra vez caminhando, comer uma pizza na La Piola, que fica na Av. Libertad, entre Santa Fé e Marcelo Alvear, umas cinco quadras do nosso hotel. Maria Calzada, uma amiga porteña, me disse que era a melhor de Buenos Aires. Tenho dúvidas, mas fica a dica.
Jardim Japonês, Palermo

Ana no La Biela
Converse skateplaza

domingo, 26 de janeiro de 2014

Buenos Aires, 24 e 25 de janeiro de 2014.

O porto, em El tigre
Pois então, ontem e hoje caminhamos e fomos conhecer alguns dos lugares que os blogs e sites de oquefazerembuenosaires recomendam. Eu nao estou muito acostumado a viajar a passeio. E, loucura, acho que nem gosto tanto. Pensando no motivo, acho que é porque gosto muito do que faço, quase sempre mais me diverte do que me enfada, e também porque viajando a trabalho consigo andar nas bordas dos passeios obrigatórios, até faço alguns, mas sempre com algum apoio local, uma visão de quem vive o cotidiano do país ou da cidade.
Exemplo do cool quase kitch, tronco de árvore,
 com rendas de crochê e um leão no alto
 Enfim, ontem passeamos por Palermo. Eu tinha uma recordação muito boa, de vinte anos atrás. Pois não estava enganado, Palermo é recool. Agora com alguns nomes específicos, que definem características assumidas por determinadas zonas do bairro, como Palermo Soho, Palermo Holywwod, Palermo Viejo. Pode-se passar horas caminhando ali, parando para um café, sorvete ou almoço. Uma estética muito particular, um cult que beira mas não entra na esfera do kitch, um velho que se renova, um forever young no melhor sentido do termo. Acho que por isto e pelos grafites na parede, me lembrou Berlin. Minha mente às vezes associa lugares e eu mesmo não sei a razão.
E vale falar também do Zoológico, do Jardim Japonês e dos Bosques de Palermo, no meio da cidade, um luxo. Bom, toda Buenos Aires se caracteriza por esta presença do verde, o que lhe da uma atmosfera única.
Daniel com medo do urso...
De noite, fomos a um Pub Irlandês, aqui na rua do nosso hotel, muito legal. Em uma área movimentada aqui do Centro, esquina da Marcelo Alvear com Reconqusita. Tomei uma Pale Irlandesa deliciosa.
Hoje fomos a El Tigre, uma cidade à beira do Rio que faz parte do Delta do Paraná, o segundo maior delta do mundo. Delta é quando a foz de um rio se espalha por inúmeros canais, rios e riachos, formando um conjunto de ilhas. El Tigre é uma cidade que serve como porto, ponto de partida para idas e vindas ao Delta do Rio Paraná.
A cidade é interessante, com muitos afazeres de lazer, pertinho de Buenos Aires, o que faz com que seja uma opção para os sábados e domingos. Quem quiser pode fazer um passeio de barco, por diferentes rios do Delta. Os barcos vão te deixando pelas casas, hotéis e restaurantes que existem na beira dos rios. E possuem linhas, como ônibus. As ilhas são bem povoadas, os terrenos são relativamente estreitos, 50 ou 100 metros, com casas e piers. Se você quer pegar um barco, fica no píer, faz sinal como se fosse ônibus, ele para. No meio de um dos rios, vimos um barco-mercado, imagino que as pessoas fazem sinal ou ligam para ele, ele aporta. Nós fomos a um restaurante, o Gato Blanco. Comida razoável, ambiente do tipo melhor impossível, mesa em um deck, barcos passando, sol escondido por lindas arvores.
Pier do restaurante El Gato Blanco
Vou resumir a ida a El Tigre. Um trem de 50 min desde o Centro, lento. Uma passeio de Barco, uma hora, interessante mas não lindo. Um restaurante super agradável com comida só razoável. Mais uma hora de barco de volta, mais 50 min de trem de volta... Mas recomendo, o passeio como um todo vale a pena. Quero dizer que, por uma estranha matemática, um somatório de mais ou menos pode dar algo com muito mais do que menos. Por esta conta, o passeio foi demais.
Chegamos na estação retiro, onde se pega o trem para El Tigre e ainda tivemos disposição para caminhar pela Av Libertador até a Plaza Francia, na Recoleta, onde rola uma feirinha de artesanato nos fins-de-semana. A Feira é legal, para quem gosta, mas o visual de fim-de-tarde, os músicos locais na Praça e o clima agradável compuseram um cenário dez. Voltamos também caminhando, umas quinze quadras até o hotel, pela Av Quintana, ótimo programa.
Chegamos cansados hoje, vamos dormir sem nem sair para jantar.
Livraria Ateneo, Av. Santa Fé 1860,  linda!

Visual do restaurante El Gato Blanco

Musico local, Plaza Francia
Igrejinha na Plaza Francia, Recoleta

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Buenos Aires, 23 de janeiro de 2014

Daniel e eu, caminhando pelo Caminito
Viajando como costumo viajar, além de conhecer lugares e culturas, já tive a oportunidade de vivenciar alguns momentos históricos. Por exemplo, estava em Madrid, dia 11 de março de 2004, quando ocorreu o atentado na estação de metro de Atocha. Eu estava a um quilômetro da estação.
Hoje vivi mais um dia histórico. Simplesmente foi o dia com a maior temperatura mínima dos últimos 106 anos aqui em Buenos Aires, aonde chegamos hoje, ao meio dia, Ana, Daniel e eu para cinco dias de férias. Pensa em um dia quente. Muito quente. Pensou? Hoje foi assim. A sensação térmica chegou a 48C. Sempre que se falar do histórico 23 de janeiro de 2014 em Buenos Aires, eu poderei dizer que estava lá. Passando calor. Bem, em tempo de aquecimento global, é possível que este recorde não dure muito.
Ao fundo, a Casa Rosada
Nosso hotel é no centro da cidade e tivemos a feliz ideia de chegar, deixar as malas no hotel e descer para caminhar. Às duas da tarde. Lembrei de Maiakovski em seu poema que afirma que o sol entrou na sua casa para tomar um chá com ele. Sempre na expectativa de uma anunciada chuva, começamos pela Rua Florida, uma rua estilo calçadão, com lojas e lojas, uma espécie de território brasileiro no coração de Buenos Aires. Ouve-se mais português do que espanhol, e, exagerando um pouco, só se veem brasileiros comprando. Deve ser porque é um lugar bom de comprar, muitos produtos locais como Nike, Adidas, Lacoste, Puma, QuickSilver, DC, Havainas.
De duas às oito caminhamos, sempre esperando a anunciada chuva que apagaria o forno. E parando em diferentes locais para água, café, sorvete, cerveja, refrigerante, suco, qualquer coisa que nos permitisse entrar em um ar refrigerado. Na caminhada fomos desde a Praça San Martin ate a Casa Rosada, a famosa sede do Governo Central, que fica em frente à Plaza de Mayo, também muito conhecida por haver sido, e ainda ser, lugar de vigília das mães que tiveram filhos desaparecidos durante a ditadura militar aqui na Argentina. Ainda fomos ao bairro La Boca, de táxi, para ver o Estádio La Bombonera, já que sou torcedor do Boca, e andar pelo Caminito, programas obrigatórios aqui em Buenos Aires. Esta região de Buenos Aires foi colonizada por muitos italianos, e dizem que suas casas coloridas tem a ver com a sobra de tintas que tinham os marinheiros, o que por vezes os obrigou a usar varias cores em uma esma fachada. Em Valparaíso, Chile, aprendi que as casas coloridas dos barritos portuários tem a ver com os pescadores pintarem suas casas com as mesmas cores dos seus barcos. Vai saber! 

Vi o Caminito em 1994, e fiquei emocionado com suas casas coloridas, seus artistas de rua cantando e dançando. Naquele momento conheci o tango. Conheci Carlos Gardel e suas historias. Comprei livros, CDs e filmes. Vinte anos depois, só me emocionei com a lembrança de vinte anos atrás. Os sintomas de decadência são visíveis. Pena. Aliás, tampouco vi na Rua Florida e seus arredores o glamour de décadas atrás. Mas vou ainda buscar nos próximos dias por onde anda o charme que sempre seduziu os Brasileiros. Por mais crises econômicas que tenham passado, sei que a força cultural e a sofisticação intelectual dos hermanos segue viva.
Ah, ia esquecendo, não sou mais Boca, agora sou San Lorenzo, time do Papa Francisco.

E finalmente apagaram o forno, llegó la tormenta. Vou dormir.
Caminito que el tiempo ha borrado...
La Boca

La Bombonera

Ana e uma de suas melhores amigas.


Pausa para um café e um ar refrigerado

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Paraguay, 12 e 13 de dezembro de 2013.

Finca de Don Angel, sala de aula pronta...
Ontem acordei às cinco da manhã e viajamos uns 200 km, de Coronel Oviedo para o Departamiento de San Pedro, assentamento La Germarnina, município de Nueva Germánia, diretamente para a finca de Don Angel Gimenez. Aí passamos a manhã, entre um conversatório e visita aos cultivos.
Estavam umas 25 pessoas da comunidade, e a prosa girou em torno de como eles podem seguir resistindo, com o enfoque da agroecologia, diversificação de culturas e novas estratégias de mercado, ao avanço da soja. Andamos por esta região, centro-oeste brasileiro, leste do Paraguai, nordeste da argentina e sudeste da Bolívia e o que temos é a impressão que o mundo vai virar um mar de soja. Com esporádicas ilhas de cana de açúcar. Esquema que não resiste a uma análise sócio-ambiental ou econômica, mas que persiste à custa de pesados subsídios.
Almocinho fora...
Terminamos com mais um almoço ao ar livre, frango caipira com um bolo salgado de milho verde delicioso, e, claro, mandioca. Não existe refeição por aqui sem mandioca. Terminado o alomoço, viajamos mais uns 180 km para Horquerta, departamiento de Concepción. Cheguei, participei de uma breve reunião com lideranças locais para planejar as atividades de hoje e fui ao hotel, louco por um ar condicionado. Me deixaram no hotel às cinco da tarde e só saí do quarto por 20 minutos para comer algo. Umas empanadas, muito típicas por aqui.
Hoje a jornada começou cedo. Um evento organizado por organizações como Via Campesina e COCICP (Coordinadora de las organizaciones indígenas y campesinas del Paraguay). Era a segunda edição da Festa da Produção Campesina, e reunia famílias de várias regiões do país. 
Feira de produtos e sementes.
Umas 250 pessoas. Foram palestras, feira de sementes e produtos das próprias famílias, visitas à fincas, troca de experiências. E muita música, principalmente polca. Ouvi índia, uma das mais famosas canções paraguaias em Guarani. E Lago de Ipacaray! Dentre os cantores que passaram pelo telão, Miguel Quintana Bareiro e seu grupo Vy’arã e Ramonita Vera e seu grupo Tropical (www.youtube.com/watch?v=AwlE2fZQ6is). Uma estética própria, no visual e na melodia, que podemos ver em vários lugares pelo interior do nosso continente. Engraçado, curioso, nem sei definir. Na hora do almoço, um churrascão com 180 kg de carne, um grupo local, ao vivo, garantiu a animação.
Às quatro da tarde o evento ainda seguia mas nós retornamos para Assunção. Foram 350 km, cinco horas de viagem, uma linda paisagem e um por do sol de cinema. Bem agradável.
Agora estou no hotel, amanhã sigo para Campo Grande, ainda tenho a semana que vem cheia por lá. Se eu estivesse de carro, de Concepción teria ido para Pedro Juan Caballero, 150 km, de lá atravessado para Ponta Porã, MS, e viajado apenas 300 km para Campo Grande. Agora faço Assunção – São Paulo – Campo Grande. Tá valendo.

Grupo local... saca o contra-baixo!
Bom, é isto, aqui no blog, agora, só ano que vem. Possivelmente Biofach, Nuremberg, em fevereiro. Então, para terminar, me pergunta se está tudo bem. Vou responder com uma expressão daqui, que descobri agora e achei sensacional: “Espetacular y mejorando!”. Fui.


quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Paraguay, 09, 10 e 11 de dezembro de 2013.

Ritual Guarani de benção das sementes
Este ano este Blog andou devagar... foi um ano de muitas viagens dentro do país, mas poucas fora. E como o que me dispus foi escrever minha memória das viagens internacionais ficou assim. Mas fico com saudades de escrever, tenho que buscar outro motivo.
Cheguei aqui em Coronel Oviedo, 150 km de Assunção, anteontem às nove da noite. Não é a primeira vez que venho aqui nesta cidade e neste local. Exatamente um ano atrás estive aqui, e esta foi a única vez que viajei para o exterior e não relatei desde que comecei este Blog. Como se dizia nos anos 70, eu “estava mal de cabeça”, nem que quisesse conseguiria escrever. Que bom que a vida me trouxe aqui de volta, para me mostrar mais uma vez que tudo passa! Sim, tudo passa.
Conversando no campo
Estou aqui no Paraguai para diferentes atividades de trabalho, contratado por uma Central de Cooperativas apoiada por uma ONG Sueca, We Effect! Estão sendo palestras, visitas a propriedades rurais, mini-cursos. Sempre ligado à agroecologia, certificação participativa, mercados locais.
Ontem a atividade foi um mini-curso de 5 horas, pela manhã até o início da tarde. Os participantes eram em torno de 30, técnicos ligados a pequenas cooperativas e dirigentes campesinos, para usar uma expressão local. A conversa girou em torno de como construir a transição agroecológica. Conversamos sobre basear esta transição em um tripé. Construção concreta de referências de produção e comercialização, formulação teórica e/ou de propostas baseadas nestas experiências e incidir junto ao estado por políticas públicas baseadas nestas práticas e reflexões.
Visitando as lavouras, propriedade do Vidal Toledo
Terminou cedo, ainda tive tempo dar uma volta pela cidade. Estas cidades do interior do Paraguai não costumam ser muito bonitas. E Coronel Oviedo não foge à regra. Mas sempre é possível comer uma chipa, andar nas ruas ouvindo guarani, o que eu acho demais, e vislumbrar bonitas paisagens naturais ao redor das cidades ou pelas estradas.
De noite, um vinho chileno, com amigos paraguaios, um espanhol e uma sueca. Quase uma reunião da FAO.
Hoje pela manhã fiz o que mais gosto, visitamos uma propriedade, da família do Vidal Toledo, na comunidade Pozo 5 de Carayao. Visita tranquila, junto com alguns membros da comunidade, tivemos bons papos sobre a realidade deles, fomos vendo e conversando sobre os cultivos. Encerramos com um almoço local, ali mesmo na finca
Nome deste almoço: "mais chique impossível!"

De tarde uma reunião com a Prefeita e lideranças de uma pequena cidade da região. Sobre como um município pode apoiar iniciativas de cunho agroecológico.
E agora de noite, um bom programa. Uma feira de troca de sementes locais. Normal, sempre ocorrem, mas a de hoje com uma benção das sementes muito interessante de ver. Primeiro um Padre deu sua benção, uma mini-missa, em Guarani. Missa em Guarani. Dá para ficar pensando o que aconteceu por aqui nestes últimos anos. Digo nos últimos 500 anos. Depois do Padre, a benção Guarani, ou talvez seja mais preciso dizer um ritual Guarani. Três pajés ficaram dançando, parados e ritmados, tocando um tipo de chocalho e cantando uma espécie de mantra. E, um por vez, passavam dançando, cantando e sobrepondo as mãos nas bancas de sementes. Atrás deles três mulheres, uma bem mais velha, ficavam secundando os cantos, batendo um tronco de bambu no chão e fazendo o back vocal. Muito interessante, demoradinho, tudo ao seu tempo. Só a parte Guarani durou uns 90 minutos.
Amanhã e depois, se entendi bem, sigo visitando famílias agricultoras. Depois conto.
Exposição de sementes locais.

terça-feira, 10 de setembro de 2013

Lima, 08 e 09 de setembro de 2013.

Visual do Pacífico, desde o malecon de la reserva, Lima.
    Ontem e hoje passei entre reuniões e alguns passeios. Domingo de manhã, reunião sobre SPGs, com um Camaronês que foi contratado por IFOAM para fazer um estudo a nível mundial sobre os SPGs - Sistemas Participativos de Garantia. De tarde fui à assembleia da Região Andina do MAELA – Movimento Agroecológico da América Latina e do Caribe.
Galera dançando no parque
Tive tempo ainda de ir à Miraflores passear pelo Parque Kenedy e ver algo que reputo como muito curioso. No meio do Parque tem um pequeno anfiteatro, ou algo parecido, redondo, com o que seria o palco no centro, em plano mais baixo. E dezenas de pessoas dançando neste palco e centenas sentadas, olhando. E todo mundo se divertindo. Chega a ser engraçado. Totalmente popular, gratuito, música animada e pessoas dançando e sorrindo!
Depois de ver o povo dançando, fui à sanduicheria La Lucha. Uma das mais famosas daqui, ao lado do Parque, que está sempre com fila. Comi um sanduba de leitão à lenha, com molho de ají, e tomei chicha morada.
bom demais...
Hoje foi leve. De manhã fui comer churros com chocolate, no melhor estilo espanhol, molhando o churros no chocolate, na tradicional Churrería Manolo, na Av Larco 608. Depois fui tomar um expresso no Larcomar, e de lá fui ao Parque do amor feitas também em ladrilhos. E uma grande escultura com um casal de beijando. E claro, vários casais tirando fotos...
   Encontrei Ana e almoçamos um menu de U$ 2,80/pessoa. Queríamos comer barato para provar de novo este tipo de restaurante. De entrada pedimos ceviche e ensalada de palta e chicharrones de lechón e ají de gallina como plato de fondo. Um chá de camomila, morno e doce, era a bebida que acompanhava. Correto, e a relação custo benefício, então, sem comentários, excelente.
ensalada de palta y ceviche
Depois ainda tive tempo de ir rever alguns amigos agroecólogos, já que amanhã aqui começa o Congresso de Agroecologia da Sociedade Científica Latinoamericana de Agroecologia, a SOCLA. Como a academia não é muito meu mundo, acabei não priorizando ficar. Regresso porque esta semana que começa me ameaça com muito trabalho, e já estou viajando há oito dias, suficiente. Fica a lástima de não conviver com o povo bom que está vindo para este Congresso.
Fui, acho que este ano ainda volto à Lima. E não me queixo.

domingo, 8 de setembro de 2013

Lima, 07 de setembro de 2013.

         
Fernando Alvarado, Antonieta Manrique e eu, 
Mercado Saludable de La Molina 
           Hoje fui visitar uma Feira, chamada Mercado Saudável de La Molina. Produtos Orgânicos em sua maioria, outros mais na linha natural, artesanatos, brinquedos de maneira. Muito bem organizada, fica em um parque, na Alameda del Corregidor cuadra 5, municipalidad de La Molina. Revi alguns amigos, comprei o Café Feminino, (além de muito bom gosto do nome) e pão Essênio, feito a partir de trigo germinado, acrescido de frutas secas. Delicioso.    
Mistura, lotado!
       Depois voltei ao Mistura. Hoje, sábado, estava absolutamente lotado. Algumas filas para comer com espera de uma hora. Talvez mais. De fato, reafirmo o que já disse aqui, o peruano é absolutamente empolgado com sua comida, e Mistura é o exemplo mais emblemático disto.
Vou contar duas coisas interessantes, entre várias que ouvi hoje.
A primeira sobre o chef, Gaston Acurio. Seu principal restaurante, dele e de sua esposa, o Astrid y Gaston, http://astridygaston.com, acaba de ganhar um premio como melhor da Américas Latina, fruto do voto de cerca de 250 chefs e críticos do Continente. Em várias listas mundiais figura entre os 50 melhores do mundo. Ou seja, top. E hoje, o que ouvi de uma Peruana: “Gastón tirou a vergonha que sentíamos pela comida andina. Se pedíamos papas a la huancaína o causa, éramos chamadas de serrana.” (quer dizer da Serra, dos Andes, similar ao caipira no Brasil). E isto falado com emoção, com sensação de gratidão a pessoa que fez isto por ela. É o que tento dizer do significado para os peruanos da sua comida, do reflexo que isto tem em sua auto imagem como cidadãos. Queria contar isto, achei interessante.
Mesas no Mistura. E a galera comendo...
Depois de viajar pela comida Andina, a onda dele nos últimos tempos é a Amazônia. Acho que a onda do Alex Atala no Brasil também anda por aí agora.
A outra coisa que ouvi e que reputo como interessante foi de um agricultor de Puno, região dos Andes, no sul do país. Ele me contou sobre o cultivo de batata. Tive ajuda de outro agricultor conhecido meu, já que este senhor de Puno mal falava o espanhol. Ele me contou que cultiva 150 variedades de batata, um sulco (linha) de cada. Que na época da floração da batata é bonito ver o campo todo florido com diferentes cores. 
batata andina: a que faz chorar a nora
E que existe batata para diferentes finalidades. Para dar de presente à comadre ou ao compadre. Que cozinha rápido, a primeira a ser comida na época da colheita, ainda no campo. Para cozinhar, fritar, fazer sopa, purê, etc. Com funções medicinais (e agora os nutracêuticos estão na moda!). E uma delas, esta da foto ao lado, que tem um nome Quechua, como todas, e que a tradução ao português seria algo como: a que faz chorar a nora. Quando um homem escolhe a mulher com quem gostaria de casar, ela deve descascar esta batata sem romper a casca e dando todas as voltas que ela requer. Já tinha ouvido isto e disse ao agricultor que pensava que era brincadeira, ao que ele me respondeu em tom sério que não, não era broma. Para ele este assunto é sério. Este momento, de descascar a batata, é como um ritual de aceitação da nova pessoa na família. Me chama a atenção que a batata esteja envolvida, Na cultura Andina, batata é coisa séria, permeia boa parte da vida das pessoas, não é apenas um alimento. 
E de noite fomos, eu e Ana, ao Barranco, o bairro boêmio da cidade. Recomendo. Fomos ouvir musica ao vivo, tomar uma cerveja e um pisco souer. Nada mal.

sábado, 7 de setembro de 2013

Lima, 06 de setembro de 2013.

Um dos mundos da Mistura 
Hoje participei de uma reunião sobre a regulamentação dos Sistemas Participativos de Garantia para a Agricultura Orgânica nos quatro países da CAN - Comunidad Andina de las Naciones. Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. Às três da tarde terminou e fui à Mistura.
Visual da Mistura
Mistura é uma feira Gastronômica que acontece todos os anos em setembro, aqui em Lima. Não é muito antiga, está na sua sexta edição. Esta é a segunda vez que a visito, e me dá a impressão que eles ainda estão buscando seu formato ideal. Está um pouco mais sofisticada, menos popular, e acho que ela perde um pouco com isto. Mas é muito interessante. Gastronomia no Peru é o assunto da hora, e não é de hoje. A culinária local é possivelmente o maior motivo de orgulho do povo daqui, e me arrisco a dizer que o sucesso da cozinha peruana no mundo aumentou a auto-estima da população. Acho que é válido comparar com a relação que temos com o futebol, e o que representou para o povo Brasileiro ganhar o tricampeonato do México.
O Brasil também é um país de uma culinária riquíssima, mas não sinto que tenhamos orgulho disto. Se recebermos um amigo de fora, até queremos levá-lo em um bom restaurante, mas pode ser que seja de comida italiana, japonesa ou francesa. Aqui, esquece. Sempre de comida peruana. Claro que existem restaurantes internacionais, mas a imensa maioria é de restaurantes especializados em comida peruana, de diferentes regiões do país. E a pessoa mais conhecida deste país não é um jogador de futebol, é um chef, Gastón Acurio.
Feira de Produtores, parte importante da Feira.
Mistura é organizada por Apega, a Associação Peruana de Gastronomia, que tem exatamente no Gastón Acurio seu nome mais significativo. Há três anos tive a chance de estar em um Encontro de Agricultores Ecológicos aqui do Peru onde ele foi falar sobre a necessária aliança entre os cozinheiros e os agricultores. Ele, e Apega, tem incansavelmente batido na tecla que sem a agricultura familiar não haveria a comida peruana. E fala das batatas, dos milhos, da quinua e do amaranthus. E das lhamas e alpacas. E ainda salienta o aspecto ecológico, agrobiodiverso dos produtos campesinos. Elegeu Don Julio, um agricultor que mantém mais de 150 variedades locais de batatas em sua propriedade a quase 4000 metros de altitude e que só fala quechua, o papá de las papas. Tem se mostrado um aliado muito importante para os Agricultores Familiares, ecológicos ou não, do País. Claro que é uma aliança difícil, os interesses das organizações às vezes falam mais alto, e já soube aqui que Apega não permite que as organizações dos agricultores usem seus logos no Mistura, apenas usam suas siglas e descrevem seus nomes, mas logo no evento só o da Apega.
Visual da Feira
São negociações que devem ser feitas, normal que não se consiga chegar exatamente onde se pretende, mas como profissional que trabalha com Agricultura Familiar Ecológica no Brasil sinto inveja de uma relação desta como a que os campesinos Peruanos conseguiram com Apega.
Mas voltando à feira, este ano ela foi organizada às margens do Pacífico, em um local muito amplo. São dezenas de enormes barracas, cada uma delas representando um “mundo”. Temáticos, como o Mundo do Ceviche, Mundo Oriental, Mundo do Anticucho, Mundo das Brasas, ou Regional, como Mundo Amazônico, Andino ou Limenho. Tem outros, estes são só alguns exemplos. Em cada um deles várias barracas com comidas deliciosas, representando estes mundos. Entre estas grandes barracas, áreas com muitas mesas, algumas barracas menores de comidas, vendas de artesanato, bancas com bebidas.
E o negócio é comer. Um pouquinho de cada coisa, para provar o máximo possível. O melhor do dia foi um ceviche com molho de maracujá. Mas a porquinho feito na “caixa chinesa” perdeu por pouco. O ceviche de cogumelo e a truta grelhada ganham menção honrosa. E cada sobremesa...
Devo voltar lá amanhã, acho que não vou resistir. 

Caixa Chinesa
Porco assado na Caixa Chinesa