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sábado, 14 de outubro de 2017

Huancayo e Lima, 13 e 14 de outubro de 2017

Foto tirada de dentro do ônibus. Viagem entre montanhas. 
Ontem foi o segundo e último dia do Encontro Nacional de Produtores Ecológicos. Sobre isto vou apenas mencionar que a Associação Nacional de Produtores Ecológicos do Peru achou por bem dar uma medalha a algumas pessoas que eles julgam vem contribuindo com o desenvolvimento da Agricultura Ecológica no país. Ganhei uma e curti. Segundo minhas anotações é a 18 vez que venho ao Peru, e todas elas a trabalho. Bom saber que as pessoas com quem trabalhei valorizam o feito!
Encontro terminado resolvi antecipar minha vinda para Lima e viajei a noite toda. São trezentos quilômetros, sete a oito horas de viagem. Subidas, descidas e curvas diminuem muito a velocidade média. Deveria chegar às seis da manhã e cheguei às doze. Não pude visitar as Feiras Ecológicas do sábado de manhã. Porque? Não sei se acidente ou um deslizamento de barreira. Coisa dos Deuses. As mais altas montanhas aqui são tratadas como Divindades. "Apu" é a denominação utilizada, tenho a impressão que vem do Quéchua, uma das duas principais etnias dos Andes, junto com os Aymaras. Elas cuidam do território que está sob sua guarda, sob seu olhar. Então, um destes Apu definiu por causar este inconveniente para quem estava na estrada esta noite. Deve ter tido suas razões. Estou falando assim porque eu era o único irritado dentro do ônibus, os outros só davam de ombros... deve ser porque não sou de montanha...
Estes dias quase não falei de comida. Vou postar fotos aqui do que comi durante esta semana. Para quem não se lembra, o tema alimentação no Peru é um caso à parte. Se fala muito de comida, se come muito, o peruano tem profundo orgulho da sua culinária. Dos países que eu conheço considero que México e Itália são algo parecido, mas considero que aqui o tema abarca outras dimensões. Vou dar um exemplo. A pessoa mais conhecida e popular do país é um cozinheiro. Gaston Acúrio. Seu restaurante Gaston y Astrid está sempre na lista dos melhores do mundo. Até onde eu sei, tem um aqui em Lima e outro em Madrid. 
que cena... sábado à tarde, rapaziada da terceira idade
dançando
salsa na praça central de Miraflores!
Os partidos políticos vivem tentando seduzi-lo para que ele concorra à presidência do país. Seria como uma eleição certa. Gaston se recusa e faz sua militância social através da APEGA, Associação Peruana de Gastronomia.  A gastronomia Peruana é reconhecida como uma das melhores do mundo, atrai ao país turistas e é a principal fonte de autoestima do povo peruano. Enfim, não vou me alongar mais sobre este importante aspecto da cultura deste país, aqui mesmo no blog já escrevi sobre isto. Como disse, vou colocar algumas fotos, até porque não é possível passar aqui e não mencionar este assunto!
De resto, passei a tarde caminhando pela agradável Lima.
Visual do Larcomar, Miraflôres.
Eu gosto muito daqui e lamentei ter tido só meio dia desta vez. Aproveitei para almoçar no Punto Azul, um dos meus preferidos e tomar um café no Larcomar, o centro comercial que fica quase incrustado na falésia que beira o Pacífico. Dois programas que sempre que posso, repito. 
Passeei sozinho toda a tarde até o início da noite. Caminhava com certo ar de certa nostalgia até tomar dois cafés, um americano e um expresso duplo. Pronto, fiquei com a poesia e despachei a nostalgia. Não posso me dar ao luxo de baixar o astral, amanhã começa nova jornada.

Emendar viagens sempre me conduz a este tipo de emoção. Termino uma lida e tenho a sensação que devo voltar para casa. Mas preciso manter a guarda alta, amanhã vou para Ibarra, serra equatoriana, me aguarda uma semana intensa de trabalho no Equador!


Pescado al Jerez, do restaurante Punto Azul.
Bom demais, molho branco com camarão,
lula, polvo e mexilão. 

Bebida muito comum no país, a Chicha Morada é da 
região andina do Peru, pré-hispânica, 
feita a base de milho roxo. 

Ceviche, peixes ou outros frutos do mar "cozidos" no limão,
com pimentas e outros pimenta. Sevido sempre com
milho, batata doce ou abóbora cozida, 

Chicharones, neste caso de peixe. No Brasil seriam
iscas de peixe à milanesa. 

Lomo Saltado. Muito comum aqui. Carne cozida com
tomate, cebola, servida com batatas fritas e arroz.
Por vezes a batata vem misturada na carne,
junto com a cebola e o tomate.

Sempre antes das refeições, eles colocam "cancha" sobre a
mesa. Milho torrado e salgado. Pimenta também
é muito comum aqui.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Huancayo, 12 de outubro de 2017.

Aspecto do XVII ENPE
Hoje passei o dia ao redor do XVII ENPE (Encontro Nacional de Produtores Ecológicos) da ANPE (Associação Nacional de Produtores Ecológicos). Acho que participei de uns oito destes Encontros. O primeiro deles em Cuzco, em 2005. Desde então contribuo com eles na implementação do seu Sistema Participativo de Garantia, metodologia de certificação à qual dedico parte do meu tempo. 
Certificados orgânicos sob a
metodologia dos SPGs
Acabo de saber que já foram emitidos cerca de 3000 certificados de produtores orgânicos avaliados por esta metodologia. Gratificante. Aqui no Encontro fiz uma palestra, ouvi outras, moderei grupos e me envolvi em reuniões paralelas. Intenso e tranquilo ao mesmo tempo. Sinto-me em casa aqui.
Na minha palestra, entre outras coisas, comentei sobre a agricultura ecológica ser vista como um ato de amor, e da importância de nos servir de atitudes amorosas como mediadoras de nossas relações sociais. Tenho curtido falar disto. Em tempos passados eu evitava mesclar aspectos que poderiam ser interpretados como religiosos em conversas de cunho mais acadêmico. Superei esta fase, ainda mais agora que há poucos dias uma amiga me disse que nunca houve briga entre ciência e religião, mas sim entre cientistas e religiosos...
Adoro as roupas delas...
O evento é aqui em Huancayo, uma cidade da serra Peruana, região de Jurin. Uma região que concentra parta da coca produzida no pais. Se fosse só coca para consumo humano nenhum problema. Ontem tomei um chá de coca, hoje já masquei algumas folhas, receita para mitigar os efeitos da atitude. Mas a coca produzida nesta região é também processada e o narcotráfico está obviamente muito presente. Infelizmente, realidade de todos nossos países latino-americanos...
 Huancayo não é tão turística como Cuzco, nem tão bonita quanto, mas estando em plena Cordilheira dos Andes guarda muito da cultura andina, nas roupas, comidas, músicas, danças... e isto por si só atrai turistas nacionais e estrangeiros. Infelizmente a Plaza de Armas, nome que tradicionalmente se usa para as praças principais das cidades de colonização espanhola está em obra. O programa típico de sentar na praça pra prensar na vida quanto se vê a Igreja, as gentes, os pombos e comer uma comidinha de rua não vai rolar desta vez
As montanhas que emncionei, ao redor da cidade.
A paisagem é peculiar, interessante. Fico mais à vontade em usar adjetivos assim do que por exemplo linda ou bonita. Não que não possa ser vista assim, mas as altas montanhas secas me despertam o desejo de ver as cores da vegetação. Aqui não tem. Ecossistema jovem, ainda em formação, com pouquíssima chuva e solos instáveis, nas encostas altas não cresce quase nada.
Obviamente este contexto têm consequências diretas na maneira de se obter alimento, fibras e lenha nesta região, e nas dificuldades inerentes no cotidiano em altitudes extremas, seus reflexos na dinâmica da vida, aqui mais escassa, na cultura e na saúde das pessoas. Povos de Montanhas, meu mais sincero respeito por eles.
Eu falando...
Mais um agradável dia de trabalho. Gosto mais quando vou a campo, mas este Encontro, com duzentos representantes de todas as regiões do país, é quase como ir a campo, dado a praticidade e concretude dos temas e formas de aborda-los. Sem sair de uma sala, de certa forma viajei por boa parte de um país tão vasto e diverso como o Peru. Dou Gracias a la Vida por este privilégio!!!

 
Papas a la huancayna, um dos pratos mais típicos do país!

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Satipo e Huancayo, 10 e 11 de outubro de 2017

Lindo... altiplano Peruano, região de Jurin
Hoje acordei cedo e fui visitar o mercado de frutas, verduras e carnes de Satipo. Além de roupas, tênis, brinquedos e tudo mais que se pode imaginar. Viva a China! Bom para ver o movimento da cidade na primeira hora do dia. Depois um café da manhã com suco de mamão e sanduíche de ovo com queijo e por volta das oito da manhã saímos de Satipo para Huancayo, capital da Região de Jurin, aventura que durou o dia todo.
Rio Satipo, hoje cedo, ponte que liga uma
comunidade à cidade
Viajamos em um tipo de táxi, carros que fazem estas viagens intermunicipais e Van. Serviço interessante, mais prático que horários fixos de ônibus. Lota-se um carro e pronto, começa a viagem
Estrada entre Satipo e La Merced, 
região amazônica
Vou descrever a minha interessante odisseia do dia por partes: de Satipo para La Merced fomos em um sedan, mais para velho que para novo. Esta primeira parte da viagem foi toda em selva alta, como eles denominam está região amazônica de relativa altura. Neste caso entre 600 e 800msnm. Éramos cinco no carro, além do motorista, e estou feliz que me deram o banco da frente.
Estrada estreita, sem acostamento, com o rio Perené de um lado e montanhas de outro. Bonita, mas não especialmente bonita. Sol forte, que depois da metade da manhã entrou no carro sem pedir licença. Janelas abertas não impediram o forte calor. 

Em La Merced foi só tempo de trocarmos de cara para irmos a Tarma. Aliás um carro bem melhor, para seis pessoas. Em poucos quilômetros começamos a subir drasticamente. A temperatura diminuiu e a paisagem se despiu de bosque e se vestiu de montanhas altas, pedras e vegetação baixa. O rio saiu do nosso lado e foi para o fundo do vale. Esta é uma característica dos países andinos. Mudanças bruscas de paisagem em função das alterações na altitude. O que acontece e aconteceu em todos os lugares ao longo da história, troca de mercadorias em função do que é produzido em diferentes ecossistemas, nos Andes ocorre em distâncias muito mais curtas. Da mandioca à batata andina, mal denominado inglesa, se passa em poucos quilômetros.
Almoçamos em Tarna, já há 3000
Igreja de Tarma
metros de altitude, tomamos um café e agora de Van seguimos pela Cordilheira por mais duas horas, entre subidas e descidas, até chegar a Huancayo, 3300msnm. Uma parte da viagem foi no altiplano, cerca de 4000msnm, visual mais calmo, subidas breves e paisagem com ondulação mais leve, solos cobertos por pedras e vegetação baixa e amarelada, sinal de uma paisagem geologicamente jovem e com pouca precipitação.
Visual de uma vila do altiplano, entre Tarma e Huancayo
Nas partes relativamente mais baixas vi muita agricultura, principalmente aveia e alfafa para o gado e fava, muito consumida, tanto verde quanto seca, na culinária andina.
Chegamos em Huancayo pouco antes das seis da tarde, aqui já noite. Tempo de rever amigos, e fazer uma breve reunião preparatória ao dia de amanhã enquanto jantávamos.
Para não passar em branco o relato de ontem, vou contar que tivemos duas reuniões onde minha tarefa foi falar da nossa experiência em desenvolvimento dos mercados locais para produtos ecológicos e os sistemas participativos de garantia. Em Pangoa pela manhã e em Satipo do almoço até às 17:00 porque a partida de futebol decisiva entre Peru e Colômbia parou o país, com o Governo decretando feriado a partir das quatro da tarde. 
Almoço / reunião. Restaurante turístico de uma 
comunidade indígena da amazônia peruana
Durante o dia todos os apresentadores de jornais televisivos com a camisa da seleção Peruana. Funcionários de lojas e até bancos, da mesma forma. Na hora do jogo todos os restaurantes e lanchonetes cheios com suas TVs ligadas. E na praça central telão e até arquibancada improvisada. No fim do jogo todos felizes porque Peru vai disputar a repescagem.
Voltando ao hoje, poucas vezes fiz uma viagem de carro tão bonita / interessante quanto está de Tarna para Huancayo. Justificou o dia. Amanhã tem trabalho, palestra no Encontro Nacional de Produtores Ecológicos. Vou dormir para estar bem e melhor adaptado à altitude.

Banana diferente, deliciosa, vi muito por aqui

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Lima, Satipo e Pangoa, 08 e 09 de outubro de 2017


Visual do evento de hoje, em Pangoa
Outra vez no Peru. Outra vez a trabalho. Cheguei ontem, domingo, passei algumas horas em Lima, em uma reunião preparatória para a semana e um almoço bem peruano, tiraditos de peixe. Depois viajamos toda a noite de ônibus e hoje o dia foi de intensas atividades entre Satipo e Pangoa, dois municípios da região de Jurin, que abarca partes da Serra e da Amazônia Peruana.
Tiraditos (peixe cru, cozido no limão) com diversos molhos
Estou aqui visitando a Cooperativa Agrária e Cafetalera de Pangoa, que reúne campesinos e indígenas amazônicos que produzem principalmente café e cacau, destinados à exportação. Quem me convida é Terra Nueva, ONG Italiana e a ANPE (Associação Nacional de Produtores Ecológicos). Quarta viajo para Huanuco, seis horas de carro, centro do país, para o ENPE - Encontro Nacional de Produtores Ecológicos. Sei que ao ler isto alguns pensarão: "Que trabalho legal". E é. Não me canso de repetir, quem faz o que gosta não trabalha, se diverte. 
Vou descrever algo da viagem desta noite. Mais de dez horas de ônibus. Os países andinos, entrecortados pela cordilheira, tem uma geografia peculiar. Em poucas horas se pode sair do nível do mar e subir a três, quatro ou cinco mil metros. Hoje eu fiz isto. Sai de Lima, bordeada pelo Pacífico, e dez horas depois cheguei a Satipo, 600 metros sobre o nível médio do mar. 
Visual da viagem, já na amazonia, foto tirada do ônibus
No caminho passei por Ticlio, o segundo ponto mais alto do mundo em uma estrada asfaltada: exatos 4.818 msnm. Não é a primeira vez que passo aí e também não é a primeira vez que passo mal. Dor de cabeça e enjoo, o que eles aqui chamam de "mal de altura" ou "sorocho". Já aprendi a prevenir e comprei uma "sorocho pills", um remédio a base de AAS, Salofeno e Cafeína. Ajuda bem, mas mesmo tomando três comprimidos senti os sintomas.
Menininha nomatsiguenga
Em Satipo ficamos, Carlo (de Terra Nueva), Felimon (presidente de ANPE) e eu, apenas uma hora entre hotel e café. Precisamos sair rápido para o município de Pangoa. O dia todo em um evento com sócios da cooperativa, onde minha tarefa foi contar o que fazemos no Sul do Brasil para desenvolver a Agricultura Ecológica. Tarefa difícil. Uma sala que mais lembra uma varanda, toda em meias paredes, clara, em parte fechada por lonas plásticas pretas, folhas brancas coladas servindo de tela branca, galera cansada, muito quente e me colocaram para falar depois do almoço... eu mereço! Fiz o que pude, mas cada vez mais sabemos que esta metodologia de palestras, ainda mais em condições que dificultam a concentração, deve ser usada só em raras situações.

Pequena feira expondo produtos locais.
Não vou contar o que falei, mas sim duas curiosidades sobre a realidade local. Os sócios da cooperativa são principalmente de duas etnias. Os Nomatsiguenga, com suas Kushmas (espécies de túnicas) com variações de cor laranja. E os Ashaninkas , que costumam utilizar Kushmas em tons de azul. Para quem não se lembra as roupas costumam identificar as etnias locais. Por vezes nem se diferenciam pela roupa, mas por detalhes de chapéus, colares ou outros adereços. Também é comum que os adereços demonstrem as tarefas ou posições de cada um nesta sociedade. Quem vê de fora acha que é tudo igual, mas quem conhece a cultura local identifica as diferenças.
Este companheiro indigena me
deu a coroa dele... em sinal
de agradecimento...
Vou contar outra característica da região amazônica, tanto faz se aqui no Peru, no Brasil, Equador ou Colômbia. As distância e as dificuldades de locomoção são um caso à parte. Já tínhamos começado o evento quando chegou um grupo de participantes. Carlo me contou que para chegar eles caminham cerca de seis horas até chegar à estrada, quando pegam uma Kombi, transporte privado local, e viajam mais nove horas até chegar aqui. Isto porque é época de seca e as estradas estão boas... êh mundão este que vivemos, com seus múltiplos mundos que o compõe. 
Vou ficar por aqui. Dia intenso, depois de uma noite viajando, um calor amazônico é um dia inteiro entre ouvir e fazer palestras. Mas sigo achando que mais me diverti do que trabalhei.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

Biofach, Nuremberg, 18 de fevereiro de 2017.

Cidade velha de Nuremberg, entardecer.
Hoje foi o último dia da Biofach. Um dia mais de passeio, com menos reuniões de negócio, mas mesmo assim com boas conversas, observações e análises sobre a situação atual da Agricultura Orgânica no mundo.
Maças e tulipas em um estande da Holanda
Vou contar uma destas conversas. Uma das características deste mundo da Agricultura Orgânica é a certificação. Simplificando, posso dizer que a soma do desejo de evitar fraudes com o desejo de receber mais por seu produto leva à esta necessidade. Eu particularmente sempre discordei desta equação, por achar a certificação um trabalho com mais custo do que benefício para o crescimento do setor, como alguns chamam, ou do movimento, como outros, eu inclusive, preferimos chamar. Esta é a razão porque há 25 anos trabalho com certificação participativa, um método que considero mais adequado e que nós mesmos criamos no Sul do Brasil. Bem, tudo isto para lhes contar um dado que me surpreendeu. O número de empresas certificadoras na América do Norte diminuiu no último ano, de 223 para 193. Curioso, porque cresce o número de produtores, o mercado, mas diminui o número de certificadoras. Se esta tendência é mundial, isto pode acabar gerando mais distorções do que já temos hoje, em termos de maior afunilamento no fluxo entre produtores e compradores representado pelas empresas certificadoras. É verdade que nesta diminuição estão incluídas algumas compras e fusões, mas é claro que este modelo de normas restritas, certificações caras e obrigatórias terá que ser repensado.
Estande da Dwersteg
Outra conversa interessante é que a demanda segue maior que a oferta. Ouvi isto de um pesquisador do mercado norte americano e de outros aqui, mas também é o que percebemos no Brasil, mesmo nas pequenas feiras que organizamos. A oferta cresceu muitíssimo nos últimos dez ou vinte anos, mas nunca conseguiu alcançar a demanda.
Uma última coisa sobre a Feira. Na festa, meus amigos Pipo e Maria, argentinos, me apresentaram um casal de alemães, Monika e Ludger Terriete. Hoje de manhã fomos ao estande deles. Fazem gin e licores, os mais diversos e finíssimos, deliciosos (www.dwersteg.de). Um casal super gente boa, hippies dos anos setenta, que mantém seu espírito jovem e todos os anos alugam um moto home para viajar por diferentes países. Conversamos muito, ficamos de nos visitar e conhecer melhor o que cada um faz. Aqui tem disto, surge umas conexões muito interessantes, principalmente entres aqueles que veem na agricultura orgânica não apenas um negócio.
E aqui termino o que foi possível contar desta edição da feira.
Centro histórico (cidade velha) de Nuremberg
No fim da tarde passeamos pela bonita e fria Nuremberg. É uma cidade cheia de história, e é fácil perceber isto caminhando pelo seu centro. Visitamos lojas, andamos pela cidade velha, compramos mostarda local e terminamos entre um Pub Irlandês, onde vou todos os anos, o Finnegan’s, e o Barfuber, um bar restaurante enorme, muito tradicional, que fabrica sua própria cerveja e serve comida local. Estávamos Ângela, Leandro, Ana e eu. Excelente noite de despedida.

Amanhã, domingo, 19 de fevereiro, já é dia de preparar malas e pegar avião de volta. Chega de contar desta viagem, e a próxima nem sei quando ou para onde será.

Mostardas artesanais. hummm...
Barfuber, no centro de Nuremberg.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Biofach, Nuremberg, 17 de fevereiro de 2017.

Parte dos estandes da Itália
Hoje foi outro dia inteiro na Biofach. A maior feira de produtos orgânicos do mundo realizada sempre no mês de fevereiro, em Nuremberg, Sul da Alemanha. Venho todos os anos, creio que esta é a 11ª vez que participo. Tenho a impressão que já foi maior, mas não posso afirmar sem dar uma olhada nos números dos anos passados.
Nos dois últimos posts falei dos números relativos ao mercado e à área cultivada com produtos orgânicos. Agora vamos dar uma olhada na quantidade de produtores certificados como orgânicos no mundo.
Peru também usando o marketing
dos super alimentos!

No total são 304.603, México com 200.039, Uganda com 190.670 e Filipinas com 166 mil produtores completam os cinco primeiros lugares. São seguidos por Tanzânia (148.610), Peru (96.587), Turquia (69.967), Paraguai (58.258) e Itália (52.609). 
Aspecto do estande da índia, que é um
dos maiores da Feira
Estes dados que apresentei neste parágrafo anterior e nos dois últimos dias ficam mais interessantes quando analisados em conjunto, cruzando-os. Vou dar só um exemplo. Os dois primeiros países do mundo em área de produção orgânica são a Austrália e a Argentina, com pouco mais de 32 e 3 milhões de hectares, respectivamente. Se vemos o número de produtores vamos encontrar a 3.580 na Austrália e 1.074 na Argentina.
Agora cruzamos com os dois países líderes em número de produtores, Índia e Etiópia, com os mencionados acima 585.200 e 304.603. Suas áreas de produção Orgânica são de 1.180.000 ha na Índia e 186.155 ha na Etiópia. Fizeram a conta? Vou facilitar. Dividindo área cultivada pelo número de produtores, encontramos:
Austrália - 6.332 hectares por produtor
Argentina - 2.867 hectares por produtor
Índia - 2,06 hectares por produtor
Etiópia - 0,91 hectares por produtor
Itália - 28,7 hectares por produtor
Acrescentei Itália, país rico com muitos produtores para nos dar outra referência. A Itália tem 1.492.579 hectares orgânicos certificados divididos por 52.609 produtores.
Estande com as cooperativas de agrcultrores
familiares do Brasil
Sacaram como é interessante cruzar os dados? E dá para retirar muitas outras informações com estes números. Vou ver se me animo e escrevo um artigo sobre isto.
E o Brasil? Bom, no Brasil não temos dados precisos. O que está relatado no documento sobre o que tínhamos em 2015?
ü  750 mil hectares, 0,3% da área agricultável
ü  10.323 produtores
ü  Não temos dados sobre a fatia de mercado ocupada pelos produtos orgânicos certificados.
Bom, saindo dos números. Em termos de presença do Brasil na feira, mais um ano fraco. São dois estandes, um ocupado por empreendimentos da Agricultura Familiar e outro por empresários de maior porte. Já vi o Brasil aqui na Feira melhor representado e com mais apoio do Governo.
Voltando a algo que falei ontem. Reforço a tendência a falar em superfoods, produtos antigos ganharam este novo adjetivo.

chocolates!
Mudando de assunto: Uma das coisas legais aqui na Feira é perceber os diferentes mundos. Chocolate e café por exemplo. São oferecidos de maneira cada vez mais Gourmet. Chocolate Vegano ou com leite, com ou sem nozes ou glúten, com diferentes tipos de açúcar, diferentes teores de Cacau, origem ou origens do cacau identificadas na embalagem e mais e mais detalhes. Café também, com sua origem, aromas e gostos, diferentes blends buscando o melhor sabor.
O conceito de terroir, palavra francesa que significa o sabor originário daquela terra aliada ao conhecimento local de um espaço onde determinado alimento foi produzido, passou dos vinhos para estes outros mundos. Além do cacau e do café, aqui também se nota no azeite de oliva.

Falei em vinho? Pois aqui na feira tem uma "vila" com vinhos e vinhos para livre degustação. Ruim né? Vinho orgânico, de alta qualidade, de diferentes países, 0800. E eu adoro um 0800...
Pois foi aí que passamos a última hora da Feira hoje... Leandro, que trabalha conosco, Ângela, uma amiga de muitos anos que encontramos aqui, Ana e eu.

E para terminar ainda fomos para a festa do país homenageado, que este ano foi a própria Alemanha. O bom é que a night termina cedo, e pouco depois das dez já estávamos no quarto quente com três graus de temperatura lá fora!

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Biofach, Nuremberg, 16 de fevereiro de 2017.

Estande com produtos Biodinâmicos
 e seu selo Demeter
Hoje passei o dia todo na Biofach. Como sempre vendo não só a enorme diversidade e qualidade dos produtos orgânicos ofertados, mas também tentando perceber tendências. Nos últimos anos vi o sem glúten, o sem lactose, o vegano. Neste ano está chamando atenção as superfoods. Ou super comidas. Até onde sei este nome não tem respaldo oficial ou acadêmico, mas tem sido usado para alimentos que são tidos completos por serem altamente nutritivos ou prevenirem enfermidades, mesmo as mais graves. Nunca tinha visto aqui na feira tanta referência às superfoods.
Sem lactose, gluten free, vegan e
agora superfood...
Também ouvi que existe a necessidade de inovar nas embalagens para se livrar do plástico. Parece óbvio, mas a Biofach, feira de produtos orgânicos, é um mar de embalagens plásticas. Isto tem que mudar, e acho que é uma tendência.
Mas quero de novo fazer referência a alguns números sobre a Agricultura Orgânica no mundo.
Os dados coletados sobre 2015 apontam para 50,9 milhões de hectares cultivados desta forma, 6,5 milhões a mais do que em 2014.
Os dez países com maiores áreas são: Austrália (22,69 milhões de hectares), Argentina (3,07), EUA (2,03), Espanha (1,97), China (1,61), Itália (1,49), França (1,38), Uruguai (1,32), Índia (1,18), Alemanha (1,09).
A primeira colocação da Austrália e a segunda da Argentina são também explicadas por grandes áreas de pecuária extensiva. Chama a atenção Espanha e Itália, que não são países tão grandes e possuem áreas expressivas dedicadas à produção orgânica.
Chips: betteraba, batata doce, acelga... tudo
salgadinho e picante. 
Outro dado interessante é a lista dos 11 países que possuem no mínimo 10% de sua área agrícola dedicada à produção orgânica. O primeiro é Liechtenstein, com 30,2%. Quase um terço da área do país com produção orgânica. Claro que é um país bem pequeno. Mas aqui interessa o percentual e a tendência, observada por todo lado. Áustria com 21,3 % e Suécia com 16,9% estão em segundo e terceiro lugares. Estônia com 16,5% e São Tomé e Príncipe com 13,8% completam os top five. Seguem Suíça (13,1), Letônia (12,8), Maldivas (12,5%), Itália (11,9), Rep Checa (11,3%) e Finlândia (10,0%).
No mundo, 1,1 % da área agricultável está certificada como orgânica. Seguramente existem áreas cultivadas organicamente mas não certificadas como tal, portanto fora deste 1,1%.
Em 1999, eram 0,2%, com 11 milhões de hectares. Um crescimento significativo em 16 anos. Mas deve ser considerado que em 1999 foram reportados dados de apenas 77 países e em 2015 179 países foram pesquisados. Claro, países que não tinham o que reportar agora criaram mecanismos de apoio e promoção da Agricultura Orgânica, passando a ter o que contar.
Roupas com fibras orgânicas.
Eu que trabalho com isto há 30 anos costumo dizer que agora somos um dado estatístico, o que não éramos quando começamos. Há outra diferença, não estatística em relação aos últimos trinta anos. Avalio que o constrangimento mudou de lado. Lembro quando era meio constrangedor como agrônomo falar que trabalhava com agricultura orgânica. A produção era absolutamente marginal e a maioria dos profissionais nos ridicularizava. Agora, quem trabalha com agrotóxicos começa a conversa se explicando, constrangido. "É, necessário usar." Ou "infelizmente não há como produzir sem" são frases comumente usadas para justificar o uso de agrotóxicos.
De novo recorro aos meus trinta anos de trabalho para dizer que o uso dos agrotóxicos não é filho da necessidade da sociedade mas do interesse das empresas. Estou seguro que o próximo período de tempo demonstrará isto.
Bom, de resto meu dia foi provar vinhos, queijos, cafés, chocolates e outras delícias orgânicas. E no fim da tarde ainda aproveitar a tradicional festinha que acontece em alguns estandes, com bebidinhas e comidinhas orgânicas livre. Conversando com alguns velhos conhecidos deste mundo. Não me queixo.

Da série coisinhas bunitinhas da biofach.
Carrinho com doces orgânicos

Da série coisinhas bunitinhas da biofach.
Food truck vegano.
Estandes dos produtos Veganos
Mutos sucos, em toda a feira
Mais sucos...

Gostei desta: sopas em garrafas de
 vidro para ir tomando na rua.