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quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Paraguay, 29 de fevereiro de 2012

Visual do IALA - Guarani
Sempre gostei do verso do poetinha: a vida é a arte do encontro, embora hajam tantos desencontros pela vida... Bom, muito bom. Quando ouço que vivemos na sociedade da informação, lembro-me deste verso e digo a mim mesmo: embora haja tanta desinformação nessa sociedade...
Aqui estou, no município de Curuguaty, estado de Canindeyú, Paraguai. O estado faz fronteira com o Brasil, mais exatamente com Paraná e Mato Grosso do Sul. Quente e chuvoso, ao menos nesta época. Estou aqui desde segunda, fui convidado para dar um curso de uma semana no Instituto de Agroecologia Latino Americano - IALA – Guarani. O IALA Guarani é uma iniciativa da Via Campesina do Paraguai. Para quem não sabe, a Via Campesina é o mais representativo movimento campesino do mundo.
A cidade não é tão pequena, uns 80 mil habitantes. Nem tão pequena, nem tão bonita... mas alguns resquícios de Mata Atlântica que a rodeiam e a topografia de montes macios, que nos permitem ver um largo horizonte entremeado de curvas é bastante agradável aos olhos.
Aula prática
Visitar as áreas rurais dos países é como tirar um tipo de ultracenografia. Podemos ver algo de suas entranhas. Querem um exemplo? Estou tendo certa dificuldade no curso, pois os participantes na sua maioria são jovens filhos de agricultores, e se sentem mais confortáveis falando Guarani. Entendem meu espanhol, há um certo diálogo, mas eu sinto que entrecortado, limitado pela língua. Um deles me explicou que eles podem entender tudo, mas como pensam em Guarani, lhes dá trabalho traduzir para emitir uma opinião, e isto gera certos silêncios na comunicação.
No interior normalmente não existem restaurantes internacionais... e aí comemos o local, assim como ele é, sem um toque gourmet. No caso aqui, frango assado, carne de gado e mandioca cozida. Mandioca sempre, para todo lado, em todas as refeições.
Jovens no curso, momento da viola
O IALA – Guarani fica a uns 10 km da cidade, e como as instalações lá ainda são bastante precárias, optei por dormir no hotel aqui na cidade, e vou e volto todos os dias. Eu gosto, chego ao hotel por volta das seis, tenho tempo de net, escrever um pouco, comer e ler algo. Poderia passar algum tempo assim. A galera fica lá, dezenas de jovens, dormindo em seus beliches, divididos em três quartos, cada um deles com 20, 30 camas. Estudando e trabalhando, ainda terminando as construções, se dividindo nas tarefas de organização e limpeza, mandando mensagens via celular, buscando uma lenta e rara conexão com a net, tocando violão e jogando conversa fora nas horas de intervalo. 
Bonito ver a energia e alegria com que se dedicam às suas atividades. Legal ver a vontade com que buscam construir um mundo novo, o mundo dos seus sonhos, o mundo dos sonhos de cada um, o sonho de mundo que lhes venderam. Temo pelo resultado. Estas conquistas não se alcançam sem uma boa dose de preparação. Jovens rurais normalmente tem pouca oportunidade para uma formação de qualidade e a capacidade individual de superar estes limites muitas vezes é vencida por uma má orientação ou pelos apelos do dolce far niente. E parece que não é uma prioridade reverter este quadro. Nem por parte dos jovens, nem por parte da sociedade. Sigo temendo pelo resultado.
Enfim... vivemos na sociedade da informação, embora haja tanta desinformação na sociedade!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bogotá, 14 de dezembro de 2011

Visual na La Candelaria, Bogotá
Este verbo conhecer é forte, né? Conhecer alguma coisa é difícil. Pessoas, quase impossível. Você conhece fulana? O que vou dizer? Sim, conheço, me apresentaram em uma festa. Ou mais ou menos, estou casado com ela só há 25 anos. Qual resposta seria mais precisa?

Lugares, também não são tão fáceis de conhecermos. Quando muito conhecemos nossa cidade, mas é difícil conhecer nosso Estado ou País. E não falo só de países continentais como o Brasil, falo dos países em geral. Por menores que sejam, são sempre  múltiplos.
Hotel La Opera, onde fiquei. Show!
Se me perguntarem se conheço a Colômbia, o que devo responder? Conheço? Um país de mais de um milhão de quilômetros quadrados, quase 50 milhões de pessoas, com diferentes ecossistemas e culturas, no qual estive duas meteóricas vezes? Conheço neste caso é meio forte. Acho melhor relativizar, e optar por um sim estive lá duas vezes, mas muito rápido, não pude ver muito. Desta vez, nestes três dias que passei aqui, na real nem vi Bogotá, vi apenas um de seus bairros, o centro, ou La Candelária. E achei bem legal.

Falando do dia de hoje, foi bem mais ou menos. O estado de ânimo não era dos melhores, e não consegui acertar muito nos programas. Acontece, isto de flanar por aí não é sucesso garantido. Tem sua dose de risco. Seus altos e baixos. Voltando ao meu dia, na real começou bem. Fui ao Museu do Ouro. Imperdível. Se você vier a Bogotá e tiver apenas uma tarde, vai lá. História dos metais no mundo e peças originais de diferentes metais, principalmente ouro, de diferentes culturas anteriores a Colombo. Usadas como fonte de poder, instrumento de trabalho, em cerimônias, como oferendas ou adornos. Muito legal tanto as peças, algumas impressionantes, como as explicações. E a organização e beleza do Museu, nota dez. 
Museo del Oro, Bogotá

Depois do Museu fui almoçar, me preparando para uma caminhada guiada pelo centro da cidade. Ocorre todos os dias e as inscrições são pelo email pitcentrohistorico@idt.gov.co. Com quinze minutos de caminhada começou a chover e a operação foi abortada. Parecia interessante... mas não rolou. Como não desisto fácil, resolvi ir ao Museu Nacional. Peguei um ônibus, já que sou quase local. Adivinha? Ônibus errado. Para corrigir tentei pegar um taxi, não consegui, os poucos que passaram simplesmente não pararam. Voltei caminhando, o que significou andar  mais do que haveria caminhando se não tivesse pego o tal ônibus. Bom, tudo isto, lembrem-se, chovendo. 

Pareja bailando, Botero
Finalmente cheguei ao Museu, que fica em um prédio reformado a partir de um antigo presidio. Conta a história da Colômbia, desde os tempos imemoriais até quase o presente. Interessante. Não achei tão bonito, mas sempre oportuno aprender algo sobre um pais sobre o qual sei tão pouco.

Depois disto, uma passadinha rápida no Museu de Botero, para me despedir, e rumo ao aeroporto, onde estou agora. Viajo a noite toda, por causa do fuso horário e chego em casa só amanhã de tarde. Não dá nada, estou acostumado. O que não estou acostumado é não ter nenhuma viagem marcada. Esperemos, algo sempre rola. Neste meio tempo, recarregar as baterias, curtir o fim de ano, a minha galera e o verão!


Bogotá, 13 de dezembro de 2011

Abertura - Absalón Machado, Luzmila María, Eliseo Alvarado, eu.
Hoje foi trabalho quase todo o dia. Participei de um Encontro Internacional sobre Diversidade e Alimentação. Fui convidado pelo Instituto Humboldt, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente da Colômbia. Passamos o dia entre palestras e trabalhos em grupo buscando entender o tema, as ameaças que pairam tanto sobre a Biodiversidade quanto sobre o Direito à Alimentação, visualizar experiências exitosas vinculando estes dois temas e ver como se pode avançar, no sentido de aliar preservação da Biodiversidade com o objetivo de todos, de sempre, acabar com a fome. Na Colômbia e no mundo. Minha prosa foi sobre o aporte da Agroecologia a estes dois temas.
Ajíaco
No almoço comi Ajiaco, uma sopa feita com vários tipos de batata, frango, milho e temperos. Bem típico daqui, achei gostosa, sem ser sensacional. De entrada ainda teve arepas com queijo. Arepa é como uma tortinha feita a base de farinha de milho. Gostosinho.
O evento terminou às cinco e ainda tive tempo ir passear um pouco. Comecei pela Praça Bolívar, que tem este nome em homenagem a Simon Bolívar, o libertador da Colômbia. Bom, na real ele libertou metade da América Espanhola, e é um ícone também na Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Panamá, que era parte da Colombia e depois se se tornou independente. É a praça principal aqui, a Plaza Mayor, como dizem nos países que falam castelhano, e ao redor dela fica a Catedral, a Prefeitura, o Palácio da Justiça e o Congresso Nacional. Sentiram falta do Comércio na praça? Existiam galerias comerciais, mas no início do século passado pegaram fogo e depois disto não retornaram. Mas ele, o Comércio, está bem próximo, em todas as ruas adjacentes.
No fim da tarde os pombos, centenas deles, resolveram ir dormir e as luzes dos enfeites de Natal da praça se acenderam. Não sei se teve relação um evento com outro ou foi apenas a coincidência de horário. O fato é que gostei da troca. Não sou muito fã de luzes de Natal, mas sou menos fã ainda dos pombos nas praças centrais atraídos pelas comidas oferecidas por transeuntes e compradas de ambulantes. Sou chato, né? Eu sei, minha mulher sempre me fala isto... A praça estava cheia, famílias com crianças, vendedores de tudo, fotógrafos, que agora trocaram o método lambe-lambe por máquinas digitais e impressoras portáteis. Assim avança o mundo, mudando, mas tudo permanecendo igual. Show de bola. 
Praça Bolivar e sua decoração natalina
Depois desta festa natalina fui tentar achar o mercado de pulgas, mas não rolou. Caminhei uns 2 km, pela carreira 7, da calle 10 até a 30. Como não achei o tal mercado, dei uma volta e regressei pela carreira 13. Aí achei um bar legal, na verdade um Clube de Bilhar, com mais de 20 mesas, das boas, e ainda algumas mesas para jogar xadrez. Visual totalmente retrô, alguns dos jogadores com cabelo engomado e bigode ralo, a musica vindo de uma máquina alimentada por fichas, balcão de madeira. Muito legal. Fiquei só uns vinte minutos, tomei uma Club Colômbia, uma das cervejas daqui, curti o visual e o som e fui continuar meu passeio.
Amanhã, passo o dia aqui e de noite volto pra casa. Ainda vai dar tempo de ver alguma coisa, mas não tenho nada programado. Veremos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bogotá, 12 de dezembro de 2011

Igreja da Candelária - Bogotá
Estou aqui em um confortável quarto de um charmosíssimo hotel em Bogotá. Chama-se La Opera e foi montado a partir de duas casas coloniais do Bairro La Candelária, o mais cêntrico e colonial da cidade. Quase não conheço a Colômbia, vim aqui apenas uma vez, em 1998, quando estive em Pereira, capital da Província de Risaralda e passei apenas um dia aqui em Bogotá. Mas tenho uma boa impressão do país e da cidade, o que se confirmou hoje nas três horas que caminhei nas quadras ao redor do Hotel.
Confesso que cansei de viajar este ano, foi um pouco mais da conta. Definitivamente menos viagens, com mais tempo para aproveitá-las, é muito melhor. Principalmente porque se ficamos mais tempo em um lugar, como que se dilui o prejuízo, que para mim consiste na viagem em si, no tempo de aviões e aeroportos, nos inevitáveis imprevistos, atrasos, reservas não encontradas, malas perdidas, coisinhas que ficam para trás em um quarto de hotel ou na mesa de um café. Mas no meu caso nem sempre posso escolher, e não posso evitar algumas viagens relâmpagos, focadas exclusivamente no trabalho.
Viajar tanto como eu viajei este nos últimos meses tem outro efeito, que não sei explicar bem. Me deixa mais aéreo no cotidiano, como se flotasse por ele sem tocá-lo. Difícil traduzir, não sei se sei bem o que quero dizer, mas me dá uma sensação de viver o dia a dia, fazer o que devo fazer, mas ao mesmo tempo sentir como se estivesse sentado na poltrona, olhando minha vida como se fosse um filme, me colocando na condição de expectador. É involuntário, simplesmente sinto assim. Não sei se é bom para quem vive comigo, para mim é, no mínimo, uma sensação rara.
A carta - Botero
     Voltando à Bogotá, cheguei e fui direto ao Museu de Botero, pintor e escultor, o mais famoso artista Colombiano, e seguramente o maior artista vivo da América Latina. Ele é natural de Medellín, cidade ao norte do país e nasceu em 1932, tendo, portanto, apenas 79 anos. Suas figuras gordas, muitas vezes desproporcionais, são simplesmente geniais. Não sei qual a explicação, porque ele pinta assim, nem sei se é possível saber. Uma das coisas que li aqui é que ele quer ironicamente pintar os egos inflados de seus personagens, mas se fosse isto os cavalos, cachorros e crianças não seriam também gordinhos. E esculturas, como mãos ou pés, tampouco. Enfim, deve ser simplesmente como sai quando ele pinta. As explicações, como sempre, vem depois. E nem sempre refletem o fato, mesmo que sejam lógicas. O que mais gostei foi ver o seu Monalisa. É um quadro genial. Ele a reproduz, ao seu modo, gordinha. Impossível não rir ao vê-lo.
Monalisa - Botero
Depois segui passeando pelo Bairro, vi joalherias com as famosas esmeraldas daqui, lindíssimas. Muitas lojas de artesanato, ambulantes com comidas locais, ambulantes com doces, salgadinhos e refrigerantes ou produtos chineses como em qualquer lugar do mundo. Passei também em frente ao Museu do Ouro, o daqui de Bogotá é bem famoso, mas não entrei. Espero conseguir ir até quarta-feira. Passei em frente a vários outros Museus, por algumas praças e Igrejas. Pretendo ver um pouco mais entre amanhã e quarta-feira, quando já retorno para casa.
Vou me recolher, ver um pouco de TV, relaxar. São nove da noite, e amanhã cedo tenho minha palestra, quero estar bem, descansado. Amanhã conto o que vim fazer aqui. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Assunção, 28 e 29 de novembro de 2011

Visual do Seminario que participei em assunção
Esta passagem aqui por Assunção foi puro trabalho. Cheguei ao hotel às duas da manhã de segunda feira e saio as três da manhã desta quarta. Ou seja, apenas 48 horas, com dois dias de trabalho intenso. Ou relativamente intenso. Dei apenas uma palestra de 45 minutos e coordenei um trabalho em grupo de uma hora. Olhando assim é pouco, mas o calor e a dinâmica cansativa e dispersa do trabalho é que geraram cansaço, não o trabalho em si.
Vim aqui para um Seminário sobre Soberania Alimentar e Direito à Alimentação, promovido pela CLOC, sigla de Coordenadora Latino-americana de Organizações do Campo e pela Via Campesina Paraguai. Eu falei sobre Agroecologia e Direito à Alimentação. O assunto é sempre relevante, são mais de um bilhão de pessoas passando fome no mundo, o que strictu sensus é uma ilegalidade, além de uma óbvia imoralidade. Infelizmente permitida e aceita pela sociedade. De alguma forma, por todos nós. Não deveríamos nos acostumar com isto, mas a impotência diante de um problema grave nos faz preferir ignorá-lo, sempre que seja possível. Como a fome atinge os que pouco podem fazer, e os que algo poderiam fazer usam desta estratégia de ignorar o problema, ele se torna crônico. Tudo isto foi discutido nestes dois dias. Por mais repetitiva que sejam estas prosas, não posso achar que sejam desnecessárias.
Já estive em Assunção outras vezes, mas não é uma cidade que entra na lista das minhas favoritas. Acho que o que mais gosto daqui é ver o povo falando Guarani. Mais de 90 por cento dos paraguaios falam Guarani, e uns 40%, a ampla maioria na zona rural, falam apenas guarani. Menos de 10% falam apenas castelhano, quase todos nas cidades maiores. É uma língua oficial aqui desde 1992 e há uns cinco anos é língua oficial também do Mercosul, junto com o português e o castelhano.
Ontem, quando terminou o trabalho, fim da tarde, me levaram para comer e tomar algo em um Bar/Restaurante bastante conhecido aqui chamado Lido. Em frente ao Panteão dos Heróis, no coração da cidade. Estilo tradicional, mesas na calçada, para aproveitar o clima caliente. O prato famoso da casa é um caldo de surubim, mas deixei passar, por causa do calor! Apesar dele, do calor, e de não ter ar condicionado, recomendo. Simpático.
Hoje precisei comprar um transformador para meu computador. Andei pelo centro, caminhei de lá para cá, e adivinha onde achei? Em um shopping de coreanos, que vendem produtos chineses... far cosa? É assim, para todos os lados que viajamos!
Agora arrumando minha mala, nove da noite, em poucas horas saio para o aeroporto. Ate chegar à minha casa, levo quase vinte horas... Que preguiça! A parte boa é ir para casa, depois de doze dias fora. Nem quero pensar que em dez dias tem mais... Saio para Bogotá, em outra viagem meteórica. Vamos ver se de lá tenho algo mais emocionante para contar. 

domingo, 27 de novembro de 2011

Lima, 27 de novembro de 2011.

Lima, vista do hotel
Domingo, e eu estou aqui no avião em direção à Sampa, de onde pego o voo para Assunção. Numa boa, voando sobre a cordilheira dos andes, com direito a ver o Titicaca. Lindo. Enorme, com muitas ilhas, um azul intenso em sua maior parte, que se transborda para verde em algumas de suas margens. Rodeado por algumas cidades, que do alto não parecem muito pequenas. Pretendo vir a uma delas em algum momento. E passear pelo Titicaca, ver de perto a cultura deste povo do lago, sua curiosa e avançada cultura náutica.
Valeu a pena ter feito esta parada entre La Paz e Assunção. Basicamente troquei doze horas de aeroporto no Peru mais quinze no de Guarulhos, que era o previsto no itinerário inicial, por passar um dia em Lima. Claro, isto teve um custo a mais, mas sem duvida muito melhor.
Estava cansado depois de uma semana de intenso trabalho e assim fiquei a maior parte do tempo no quarto do hotel. Mas isto não me impediu de fazer o que mais gosto aqui em Lima, que é passear por Miraflores. Para quem já leu Mario Vargas Llosa, este é um bairro citado em vários dos seus livros. Ele talvez seja o mais ilustre dos miraflorinos.
Praça Kennedy, Miraflores, Lima
Para começar meu passeio fui para a Praça Kennedy, a central de Miraflores. Particularmente movimentada no sábado. Famílias passeando, leitura de livros infantis feitas por animadores, show de palhaços, baile da terceira idade, barraquinhas de comida, feira de artesanato. Me chamou a atenção dezenas de gatos pelo parque, brincando em suas árvores, se sentindo absolutamente senhores do espaço. Intuo que eles ainda vão dar trabalho...
Depois caminhei em direção ao Parque do Amor, que fica no meio no calçadão que bordeia o Pacifico pelo alto. Digo pelo alto porque ele está sobre uma falésia, a poucos metros da praia, e é no alto desta falésia que esta a calcada, a rua o bairro. Do Parque do Amor fui pelo mesmo calçadão para o Larcomar, um centro comercial construído incrustrado na parte superior desta falésia, tendo o pacifico a seus pés. Se me faço entender, de todas as lojas, cafés, restaurantes e corredores deste centro comercial estamos vendo o oceano. E me organizei para estar aí no por do sol. Espetacular o sol se pondo no mar, o que apenas podemos ver em lugares muito específicos no Brasil. Não resisti e tomei uma Cusquenha, uma das cervejas nacionais, vendo este visual. Pena que não tenho fotos, saí sem câmara, queria mesmo caminhar o mais tranquilo possível.
Depois deste passeio e deste visual não precisava mais nada e no inicio da noite fui caminhando para o quarto do hotel e não saí mais. Recuperando energias, hoje passo entre aviões e aeroportos. Amanhã já estou no trampo o dia todo, em Assunção, um evento sobre Soberania Alimentar, organizado pela CONAMURI, organização de mulheres indígenas do Paraguai. No fim do dia, conto como foi. Por agora vou aproveitar que o Titicaca nos deixou e relaxar, ouvindo música e vendo um pouco mais da Cordilheira dos Andes.

sábado, 26 de novembro de 2011

La Paz, 25 de novembro de 2011

Grupo do Encontro do Foro latinoamericano de SPGs
          Ontem e hoje foram dias intensos de trabalho. Entre discussões em grupos e suas conclusões e algumas visitas. Uma destas visitas foi a uma cooperativa de produtores de cacau ecológico, chamada El Ceibo (http://www.elceibo.org/ceibo/es/index.php). Vale a pena olhar o site deles. Produzem de forma ecológica, são organizados em cooperativa, fazem um chocolate de excelente qualidade e vendem no mercado interno cerca de 60% do que produzem. Sem dúvida um dos melhores exemplos que temos no continente, tiro meu chapéu para eles.
                No fim da tarde de hoje terminamos o evento. Com um ato político, no qual apareceu o Vice -Ministro da Coca e do Desenvolvimento Integral. Sei que o nome soa meio estranho, mas é isto mesmo, aqui existe um Ministério da Coca. O atual presidente, Evo Morales, é um cocaleiro, o que significa um agricultor que tradicionalmente colhe coca e vive disto. Uma das suas atitudes no governo é liderar uma campanha internacional pela descriminalização da coca. Da coca, não da cocaína, só para deixar claro. O Ministério da Coca, criado por ele, se insere neste contexto.
Término do evento, Ministro da
Coca falando.
E depois das ultima palavras, proferidas pelo Ministro, fotos, abraços e as despedidas de praxe. Eu feliz, o Encontro foi muito bom, e como eu trabalhei nele desde sua gestação, me senti aliviado e com a sensação de serviço feito. Done.
Acabou e ainda era dia, um grupo foi para Sagárnaga, uma das ruas que forma o que aqui eles chamam de Mercado de las Brujas, que eu contei aqui que visitei domingo passado. Não compro nada, é tudo meio repetitivo para quem como eu sempre anda pelo continente, mas gosto de passear, ver, e hoje ainda serviu como um belo relaxante. De novo voltei caminhado para o hotel, e já no final da minha semana aqui persiste a impressão de uma cidade tumultuada, transito impossível, muita gente. Não achei muito agradável não. Como já disse aqui, a melhor parte é o Illimani, que vela por La Paz e ainda a embeleza. Fica a vontade de conhecer mais o país, visitar o Lago Titicaca o lago navegável comercialmente mais alto do mundo e o Salar de Uyuni, a maior planície salgada do mundo. Desta vez não deu.
De noite, me arrastaram para ver um show. Eu estava cansado, afim de arrumar mala e dormir. Mas fui com a intenção de ficar meia hora para cumprir tabela, fiquei quase três. É que o show do cara é muito bom. Pela música, mas principalmente pela sua interação com o publico de diversos países, já que é um lugar bem conhecido por aqui. O lugar chama Marka Tambo, e fica na Calle Jaén, por sinal a mais bonita que vi na cidade, estreita, colonial, bem conservada. O cantor, um figuraça, se chama Pepe Murillo (www.pepemurillo.com).
Agora estou aqui, uma da manhã, arrumando mala para sair às seis do hotel. Como domingo à noite tenho que ir para Assunção, e minha passagem é por Lima, resolvi que vou dormir lá amanhã. Melhor que dormir no avião e passar todo o dia em Sampa, que era o plano inicial. Dois amigos de trabalho, suecos, estão indo para Lima, e ainda vamos arrumar tempo para nos reunirmos por lá. E claro, comer um ceviche. Vou deitar, tenho menos de cinco horas para já estar no táxi a caminho do aeroporto.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

La Paz, 23 de novembro de 2011

Eu, Illimani ao fundo

Me encontro agora no quarto do meu quarto hotel desta semana! É bom, deixa a semana movimentada. É que o hotel que estávamos, em Achocalla, era realmente frio e desconfortável. Como amanhã viríamos todos para La Paz, antecipamos para virmos hoje. Um pouco confuso, um grupo agora de 50 pessoas, mas beleza, estamos todos bem abrigados agora.
O dia foi de trabalho. Pela manhã apresentações de alguns países, mas principalmente da Bolívia. Ou do Estado Plurinacional da Bolívia, como eles gostam de dizer, já que a nova constituição, aprovada há alguns anos, reconhece mais de 30 nacionalidades diferentes no País. Nas apresentações e conversas de corredores podem ser percebidas as mesmas contradições de outras partes, com um estado eleito para representar os interesses das camadas mais populares se vendo em dificuldade em cumprir suas promessas. Acho eu que estas dificuldades podem vir da ignorância, da má fé ou de uma releitura da realidade depois de chegar ao poder. Mais possivelmente uma mescla dos três.
Produtoras de hortaliças
De tarde saímos para fazer umas visitas, mas confesso que não foram nada especiais. Fomos ver algumas das iniciativas que tentam justificar o adjetivo de ecológico para o município de Achocalla. Pequenas estufas de hortaliças, uma fábrica de queijo, uma escola alternativa. Interessantes, mas acho que demora um pouco ainda para a cidade fazer jus ao apelido...
Durante todo o tempo, nestas visitas, éramos observados pelos montes nevados. Hoje fazia sol pela tarde e o Illimani e o Murorata estavam radiantes. O Illimani é o principal monte nevado aqui da região de La Paz. Segundo a cultura local estes montes são ‘apus’, nome Quechua para Deuses. 
Murorata, que em Quechua significa a descabeçada
Eles são os responsáveis por manter a integridade do Território e dos seus habitantes, não apenas os seres humanos, mas de todas as suas formas vivas. Os habitantes de um povoado ou cidade costumavam fazer suas oferendas a estes montes. Esta tradição ainda se mantém em boa medida, segundo me informaram. Achei interessante que eu também fiquei com vontade de fazer minha reverência à eles. De verdade. Como não sei fazer um ritual para um ‘apu’ e tampouco costumo fazer o sinal da cruz, que acho até que seria válido nesta situação, me limitei a admirá-los.
Amanhã continua a lida, uma breve visita pela manhã a uma fábrica de chocolates orgânicos, depois a uma feira de produtos locais e então mais trabalho em sala. Entre um e outro, trocar outra vez de hotel. Dia cheio, e estou cansado. Fui.

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

La Paz, 22 de novembro de 2011

Cerimonia à Pachamama

Como previsto, dormir não foi uma tarefa fácil. Muito frio no quarto. E a grossura do colchão me fazia sentir o estrado. Deve ser bom para a coluna. Fui dormindo, acordando de tempo em tempo. Às seis, já dia, me levantei. Tomei um banho. A água só morninha, mas o ambiente tão frio que aqueles poucos filetes de água que caiam serviam como uma espécie de abrigo. Às seis e meia saí do quarto. Encontrei um agricultor, que está conosco e lhe perguntei como dormiu. Bem, ele disse, silencio, não faz tanto frio. Viu? Tudo é uma questão de perspectiva...
Enfim, sobrevivi, mas para esta noite acabei optando por me refugiar em La Paz. Foram 40 minutos para chegar ao hotel que estou, mas quarto e banho quente não têm preço nem distância!
Ainda mais porque para completar a noite difícil, choveu muito durante o dia e o frio aumentou. Com o templo nublado, o mais legal do lugar do evento que é o visual dos picos nevados se foi. Cada um tem o que merece...
Começamos o evento hoje com um culto à Pachamama. Um agricultor local nos ajudou, armou a fogueira, as oferendas, ateou fogo e cada representante das delegações dos diferentes países ateou um pouco de álcool ao fogo, desejando que tenhamos um bom seminário e voltemos todos bem aos nossos lares. Para quem não é desta cultura, pode parecer meio estranho. Mas se eles fossem católicos fariam uma missa, se fossem luteranos um culto, se fossem espíritas uma prece aos benfeitores espirituais... Cada um na sua onda!
Depois desta cerimonia de abertura, passamos o dia ouvindo a experiência de diferentes países sobre Sistemas Participativos de Garantia. Nesta primeira parte do evento estão cerca de 80 pessoas, oriundas de cerca de quinze países, a maioria latino-americana. Ouvir experiências sobre SPG significa ouvir sobre trabalhos com produção ecológica, circuitos curtos de comercialização, agrobiodiversidade, respeito às culturas locais. Com um desfilar tão vasto de experiências interessantes, em lugares diferentes e volumes consideráveis, é inevitável que nos invada uma onda de esperança... que seja eterna enquanto dure!
Amanhã pela manhã seguimos com o relato de experiências, na parte da tarde tem saída a campo, o que é sempre muito válido, pela oportunidade de ver um pouco da realidade local. Vou dormir, aproveitar meu quarto de hotel.

La Paz, 21 de novembro de 2011

Plaza Murillo
Estou aqui em La Paz para um evento sobre Sistemas Participativos de Garantia (SPG). Um pouco diferente esta viagem, porque neste caso não estou como convidado, mas sim como um dos organizadores do evento. Isto porque coordeno uma articulação que chamamos Foro Latino-americano de SPGs. E aqui, na Bolívia, está uma das organizações membros deste Foro, a Associação de Organizações de Produtores Ecológicos de Bolívia (AOPEB). Passei os últimos meses preparando este evento, junto com o pessoal daqui. Viva a internet!
Acordei muito melhor hoje do mal de altura. Como me disseram, 24 horas são suficientes para se adaptar. Claro, estou andando devagar, não exagerando na comida, já que a digestão se põe mais lenta. Mas no geral, estou bem.
De manhã trabalhei no meu quarto, mas ainda pude encontrar um tempo para passear um pouco pela cidade. Peguei um táxi, que aqui são baratos, e fui a Plaza Murillo, a principal de La Paz. Como principal sempre devemos entender estas praças estilo medieval, secas, cercada pela Igreja, pelo poder político (neste caso a Assembleia Legislativa) e pelo comércio. Os três poderes. Eu poderia acrescentar um quarto poder, que são os pombos. Atraídos pela comida farta, vendida por ambulantes para crianças e adultos, tomaram a praça para eles. Não sei se é falta de sensibilidade minha, mas os tais pombinhos, às centenas, deixam o espaço menos agradável.

Feira em La Paz
Depois de comer em um restaurante local, com quatro amigos que estão aqui para o evento, um Boliviano, um Sueco, uma da Malásia e um da Tanzânia, ainda fomos visitar uma feira de rua, bem legal. Variedade de tubérculos  chás, condimentos  folhosas. No meio da tarde nos buscaram no hotel para irmos ao local do evento, onde estou agora. Uma cidadezinha pequena, 40 minutos de La Paz, chamada Achocalla, com uma altitude semelhante à de La Paz. Um hotel bem modesto. Peninha, eu estava como um rei no outro hotel. Não me queixo da falta de frigobar, TV ou internet, mas sim me faz falta um aquecedor no quarto e um banho quente. 
Monte nevado Potosi
O chuveiro elétrico é absolutamente impotente diante de uma água que desce dos paramos nevados a mais de 5000 metros de altitude. Mas isto do banho eu só confiro amanhã, hoje passo, já tomei o do dia.             Para compensar, o local é muito tranquilo, meio rural, com o mesmo visual interessante de montanhas secas, sendo algumas delas com picos nevados. Muitos chegam hoje, outros chegam ainda nesta madrugada. Mais uma vez o prazer de rever amigos e conhecidos de diferentes lugares do continente. Amanhã, a primeira palestra é minha, além de ter que fazer toda a moderação do evento. Melhor dormir. Ou tentar, sinto que neste frio, com este colchonete sobre o estrado, dormir vai ser uma tarefa difícil.