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domingo, 23 de outubro de 2016

Guadalajara, 22 de outubro de 2016.

Agave Azul
A tequila é sem dúvida um dos símbolos do México. Comentando que vinha para cá, muitos me mandaram uma mensagem ou comentaram: “toma uma tequila lá por mim”. Eu acho que mais do que os mariaches, os tacos ou sombreiros, a imagem internacional do México está ligada à tequila.
Tequila Herradura, algumas de suas
expressões.
Dos 31 Estados do México apenas 5 têm denominação de origem para produzir Tequila. Significa que, nos outros Estados, se alguém produzir uma bebida igual, tem que colocar outro nome. Semelhante ao que acontece com a champanhe, que apenas pode ser produzida na região de Champagne, no noroeste da França. Quem gosta desta bebida e compra marcas produzidas em outros lugares já se acostumou a chamá-la de espumante.
Outra coisa que aprendi hoje é que 95% da tequila é produzida no estado de Jalisco. Ou seja, a tequila é de Jalisco. E eu estou em Guadalajara, capital de Jalisco. Então, o que fomos fazer hoje? Visitar a cidade de Tequila, que o nome já nos indica, concentra boa parte das fábricas desta bebida.
Nos 60 km que separam Guadalajara de Tequila já se nota onde estamos. Muitas plantações de agave, a planta da qual se extrai a matéria prima para elaboração da tequila. Demora de sete a nove anos para crescer e estar no ponto de ser colhida.
Chegamos e fomos dar uma rápida volta pela cidade. 
Coreto da praça de Tequila
É bonitinha, pequena, toda ao redor de uma praça com coreto e Igreja, muitas lojas vendendo tequilas em garrafas as mais variadas e apetrechos como copos, porta copos, cantil para tequila, artesanatos. Naturalmente, vários bares, cafés e restaurantes. Entramos rapidamente na tequilaria mais visitada, a internacionalmente conhecida Jose Cuervo. Mas nossa opção de visita foi algo mais original, fomos a uma fazenda tequilera, chamada Herradura.
Foi interessante o tour. Aprendi algumas coisas, vou tentar resumir.
Uma vez colhida, o pé de agave é jimado, ou seja, como que descascado, para separar suas folhas do coração. Este coração é cozido no vapor, e neste momento seu amido será transformado em açúcar. Depois de cozido, é esmagado e colocado para fermentar. Depois da fermentação, destilado, e pronto, temos a Tequila. Raramente se acha no mercado a tequila tal qual ela sai do alambique, com 55% de álcool. Normalmente ela neste momento recebe diferentes quantidades de agua desmineralizada, que a deixarão com o grau alcoólico desejado. Após, podem ou não descansar por diferentes períodos de tempo em barris de madeira, de onde sairão tequilas com diferentes expressões, consubstanciadas em cores, aromas e sabores.
Eu e D. Jesus, jimando a agave.
A fazenda tequilera na qual fomos hoje, a Herradura, é antiga e mantem tradições desta produção que já se perderam em outras fábricas. Quem nos levou foram dois amigos da Helena, o Arturo e a Mariana. Ele trabalha para a empresa dona desta marca. Fomos muito bem ciceroniados e aprendemos sobre algumas características que fazem da Herradura uma tequila de qualidade superior. Vou citar três. As garrafas, apesar de serem compradas novas, naturalmente precisam ser lavadas. Eles lavam com tequila, para evitar contaminações de aromas ou sabores.
O processo de fermentação é feito em tanques de fermentação abertos, com a intenção de aproveitar os aromas que podem ser incorporados a partir das inúmeras arvore frutíferas e flores que estão plantadas na fazenda.
A primeira e a última parte da fermentação, chamados de cabeça e rabo, são desprezadas. E ela é duplamente destilada. Semelhante à cachaça, estes cuidados são imprescindíveis quando se quer obter um produto de qualidade.
Como vários outros mundos (cacau, café, vinho, cachaça, azeite, ...) o mundo da Tequila é muito especial, cheio de detalhes e nuances. Não é uma breve visita que permite entendê-lo. Mas gostei da visita, foi quase um curso que poderia se chamar: “Introdução ao mundo da Tequila: da elaboração ao consumo”! 
Café da manhã deliciosos - também,
com uma companhia desta!!!
E o dia ainda teve mais. Um belo café da manhã com Helena, Mariane e Arturo, onde comi ricos chilaquilles de jamaica. Ao entardecer provei o famoso sorvete artesanal nieve de garrafa e ainda jantamos em um bom restaurante, o Elena, Mar y Leña. Comemos deliciosos camarões, preparados de diferentes maneiras, na entrada e nos dois pratos que pedimos.
Amanhã cedo, muito cedo, saio para a Cidade do México, onde tenho trabalho. Já com o coração apertado, mas tranquilo por ver que Helena está bem, tranquila com suas decisões. Vida que segue, tenho que trabalhar, mesmo sendo domingo!

Simpática Igreja em Tequila

Carro em Tequila. I love kitchie !!!

Entrada da fazenda tequilera

Coração do Agave

Forno com o coração já cozido,
provei, é macio e doce.

Alambiques, para destilar.

sábado, 22 de outubro de 2016

Guadalajara, 20 e 21 de outubro de 2016.

Helena conversando com  Frida!
Vim a Guadalajara para um programão. Ver minha filha, Helena, que vive aqui desde março de 2014. Achou a oportunidade de trabalhar na fábrica da Hersheys pela internet. Veio para ficar seis meses, já se vão mais de três anos. Mora sozinha, em um simpático apartamento no charmoso bairro Providencia. Não tem TV em casa, porque netflix e redes sociais é suficiente. Não tem empregada e sua casa tem pouquíssimos móveis. Tem como objetivo cozinhar em casa três vezes por semana. Os restos dos dias, come fora. Nascida em 1989, não sei se ela é cool, descolada, tendência ou hipster. Ou uma legítima representante da geração y. Ou uma típica milenium. Sei lá, não sei as diferenças.
Vista interna do Hospício Cabañas
Guadalajara é uma cidade grande, mas guarda um certo ar interiorano, o que a torna agradável. Tem 1,5 milhões de habitantes, mas sua região metropolitana chega a quase 5 milhões, sendo a segunda mais populosa do pais.
Hoje fomos passear no centro histórico. É a parte antiga da cidade, que tem quase 500 anos de fundação. Começamos pelo mais interessante que vi hoje, o Hospício Cabañas. Hospício significa orfanato. Em 1997 este lugar foi declarado Patrimônio da Humanidade pela Unesco.
A casa é enorme, imponente, neoclássica, com um belo pátio interno e mais de 100 quartos que hospedaram órfãos até 1980, relativamente pouco tempo atrás. Mas o que realmente impressiona e faz do Hospício Cabañas uma visita obrigatória são os murais que José Clemente Orozco pintou na grande sala situada à sua entrada, que em seu momento foi uma Capela (Capilla Tolsá). Ao todo foram pintados, no fim da década de 30 do século passado, 57 murais de diferentes tamanhos. 
Este mural retrata a mescla de culturas
Orozco, para quem não se lembra, é um dos grandes Muralistas Mexicanos, que surgiram após a revolução mexicana e tinham como objetivo fazer arte popular, acessível a todos. Outro grande nome desta escola é Diego Rivera, o esposo da por todos amada Frida Khalo.
Lindos os murais, cheio de histórias e significâncias que nos foram contadas pelo guia do Hospício. Bom, o tempo era curto e deixamos Orozco e seguimos passeando. Passamos pelo Mercado San Juan de Dios, com artesanatos locais como toalhas de mesa coloridas, sombreiros, copinhos para tomar tequila e calçados de couro. Do mercado fomos para a Plaza de Armas.
A Plaza de Armas não é muito grande, nem tão cuidada. Tampouco muito turística, o que vi foram pessoas locais, passando, passeando, alguns dando comida aos pombos. Ela guarda semelhanças com tantas outras que existem pelo continente. Os poderes medievais como de costume se encontram ali representados.
Catedral Metropolitana de Guadalajara.
A Catedral Metropolitana, poder eclesial tem história, começou a ser feita em 1558. Achei ela mais bonita por fora do que por dentro. Destaque para suas duas torres, construídas no século XIX, depois de um terremoto que destruiu as originais. São consideradas símbolos da cidade.
Visual da Av. Chapultepec.
Do outro lado da rua, o poder político, representado pelo Palácio Municipal e o Palácio do Governo do Estado. O terceiro poder, o comércio, se faz representar por lojas, bares e restaurantes. Não deu vontade de parar e seguimos caminhando até a Av. Chapultepec. De caminho, passamos por ruas interessantes, com algumas casas coloniais e bares convidativos. A Av. Chapultepec é larga, com um calçadão no meio, arborizada e com uma certa elegância.  
Em um determinado ponto, saímos por uma perpendicular, caminhamos três quadras e fomos ao Mercado MéxicoÉ um destes que está na moda agora, com a proposta de revitalizar espaços para quer sirvam de encontro de pequenos pontos gourmet, com variedade de comidas locais e de diferentes lugares do mundo, com aparência descolada. Não comemos ali, mas é fácil ver que é um bom lugar.
Este foi o passeio do dia. O aplicativo nos disse que caminhamos dez km, em treze mil passos. Sou garoto. O melhor de tudo, curtindo minha filhota. Quer mais? Não precisa de mais nada... 
Felipe II segurando uma cruz manchada de sangue... 

No teto da Capela, uma obra impressionante. Se chama
"El Hombre de Fuego".

Dois murais e Helena admirando. Orozco é bom, mas minha obra
é mais bonita...

sábado, 24 de setembro de 2016

Santiago de Compostela e Villena, 23 e 24 de setembro de 2016.


Castelo de Villena
Estou escrevendo de um trem AVE, que significa Alta Velocidade Espanhola. É o trem-bala da Espanha. Este que estou fará os 370 km de Villena à Madrid em duas horas.
Entre ontem e hoje correu tudo como previsto. Saí de carro de Lugo em direção ao aeroporto de Santiago de Compostela na companhia de dois amigos, agroecólogos espanhóis, Eva Torremocha e Manuel Gonzales de Molina. Este último foi meu professor aqui na Espanha há exatos vinte anos.
Catedral de Santiago
Ainda tive tempo para um passeio de duas horas em Santiago de Compostela, a cidade dos peregrinos. Andei pelo centro histórico, lotado de gente. Realmente não imaginava que era tão turístico. Soube que é o terceiro centro de peregrinação cristã, depois de Roma e Jerusalém.
A Catedral é realmente impressionante. Nela está o que se julga serem os restos mortais de Santiago. Diz a tradição que pelo início do século IX um ermitão viu uma luz na floresta e foi chamar o Bispo da cidade, que aliás foi fundada no mínimo pelos romanos, lá pelo século II. Os dois, o Bispo e Pelágio, o eremita, se dirigiram ao local e viram ali três corpos, identificados pelo Bispo com sendo o de Tiago Maior e de dois de seus discípulos. Como estes corpos puderam ser identificados cerca de 800 anos depois de sua morte eu não sei dizer. Não deve ter sido exame de DNA.
Igreja de Santiago
Uma possibilidade seria os corpos estarem incorruptos, fato aliás relativamente comum na historiografia cristã. Tiago Maior é pouco citado no Novo Testamento, e possivelmente foi o primeiro a ser imolado por sua dedicação ao Cristianismo. Bom, resumidamente esta é a história que faz de Santiago de Compostela um local tão importante para a fé Católica.
De Santiago fomos para Alicante, 90 minutos de avião. Alicante está na Comunidade Autônoma de Valência. As comunidades autônomas são parte da divisão política da Espanha e equivalem aos Estados no Brasil.
Conheci Alicante indo de ônibus do aeroporto para a estação de trem. Foi agradável para ver o Mediterrâneo e sentir o clima de uma cidade balneária. Mas foi só, não havia tempo nem para uma breve caminhada. O trem saia logo e após 30 minutos chegamos à estação de Villena. Villena é mais uma das tantas cidades pequenas e muito simpáticas da Espanha. Tem cerca de 35 mil habitantes e 20 séculos de história. Um bonito castelo adorna com pompa e circunstância seu centro histórico, construído primeiramente pelos romanos, reconstruído por mouros e depois da reconquista reformado pelos Cristãos. Nestas cidades os tempos e fatos históricos se cruzam. Aqui, Império Romano, ocupação árabe e guerra santa andam de mãos dadas em pleno século XXI.
Hoje pela manhã vi o sol nascer dos arredores do Castelo. Lindo.
Sol querendo sair, oito da manhã, Castelo de Villena
E o dia foi de trabalho. Uma reunião com um pequeno grupo, umas quinze pessoas, ligadas à produção e consumo de produtos ecológicos. A ideia era debater sobre alternativas ao modelo de certificação para produtos ecológicos que existe na Europa. Eu contei o que fazemos no Brasil com os SPGs e ouvi o que eles fazem aqui. Foi interessante.
Uma das reclamações recorrentes dos produtores espanhóis é a excessiva regulação feita pelo estado europeu, não apenas na certificação orgânica. Vou contar um exemplo que ouvi. Um produtor não pode mais matar um porco em casa para comer sua carne ou fazer um embutido. Tem que matar em uma estrutura apropriada. Uma das grandes vantagens de ser agricultor é gozar de relativa liberdade. Trabalha-se muito, mas sem horários ou chefe. E ter um estado tão presente, regulando tanto suas ações cotidianas, causa muita indignação e os fazem repensar esta vantagem. Me lembrei da antiga consigna anarquista, nem pátria nem patrão. De que adianta não ter um e ter uma overdose da outra?
Reunião de trabalho
Mas o fato é que este excesso de regulação obviamente também está na agricultura orgânica e dificulta bastante a vida de quem opta por produzir desta forma. Ouvi aqui o que ouço sempre: qual a lógica de regular tanto e exigir certificação de quem produz sem agrotóxicos e deixar tão livre o uso destas e outras substâncias nocivas à saúde a ao meio ambiente? Não soube responder. Quem se arrisca?

Bom, estou chegando em Madrid. Que viagem mais agradável neste trem. Acho que também pela sensação de leveza por ter terminado o trabalho da semana e a perspectiva de um domingo de passeio em Madrid.
Amanhã será descanso e passeio, segunda cedo regresso. Acho que não conto mais nada daqui... a próxima está marcada, México!

Cantinho nas ruas do centro antigo de Villena

Eu em Santiago de Compostela!!!

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Lugo, 21 e 22 de setembro de 2016.


Ponte Romana, no caminho entre o hotel e o Congresso
Passei ontem e hoje entre apresentações no Congresso da SEAE - Sociedade Espanhola de Agricultura Ecológica e passeios a pé pela cidade de Lugo. Como já comentei, Lugo é uma cidade fundada pelos Romanos algumas décadas antes de Cristo. Na região já havia assentamentos Celtas, e esta presença ainda se faz visível em alguns pontos de interesse, em souvenires locais ou em casas da cidade ou da região. Li que a cidade/região tem uma tradição de mulheres que conhecem muito de ervas medicinais, e que na inquisição, não sei se apenas por esta característica, foram tratadas como bruxas. 
Na entrada de uma loja de artesanatos
A famosa frase "yo no creo en brujas, pero que las hay las hay" é uma variante en castelhano de uma frase Galega. Para quem não sabe ou não se lembra, a Espanha são várias, em vários sentidos, e um deles são as línguas faladas. No país Basco se fala basco, na Catalunha, catalão, em Valência, valenciano, aqui na Galícia, galego, uma língua muito próxima do português. Não por acaso a Galícia faz fronteira com Portugal.
Para ir ao Congresso desde o hotel, optei por caminhar. No percurso, de uns três km, encontrei um grupo de dez pessoas fazendo o Caminho de Santiago. Lugo é rota tanto do que eles chamam de caminho antigo quanto do caminho novo. Me explicaram que cada um ou cada grupo escolhe de onde vai sair em direção à Santiago de Compostela. Assim, o "caminho" tem a distância que o peregrino definir. Mas, para ganhar um diploma ou certificado de peregrino, devem ser percorridos no mínimo cem quilômetros. O grupo com o qual eu conversei decidiu caminhar 160 km em sete dias. Estavam encantados com a experiência. Tai um programa que eu gostaria de fazer! Claro, como tenho poucos pecados, e dos leves, e ainda acho este trem de se conhecer quase perigoso, quero ser um peregrino como os que encontrei: dormindo em hotel quatro estrelas e usando nike air!
O descanso do guerreiro...
No Congresso falei sobre "Agreocologia e Soberania Alimentar" e sobre "Circuitos curtos de comercialização para produtos ecológicos". Ouvi muita coisa interessante sobre o momento da Agricultura Ecológica na Espanha e na Europa, que segue crescendo. Mas não se trata de algo monolítico e sim um crescimento que ocorre em diferentes perspectivas. Por um lado empresas rurais, certificadas por um regulamento cada vez mais detalhado e que buscam espaço em mercados mais convencionais, como lojas especializadas ou supermercados. Por outro lado grupos locais de produção e consumo, buscando satisfazer suas necessidades de compra e venda em um ambiente mais saudável e colaborativo, tipo feiras ou entregas domiciliares. Entre um e outro, inúmeras experiências que buscam colocar em prática, em seus contextos específicos, o que interpretam como princípios da Agricultura Ecológica. Bonito de ver, ouvir, ruminar e digerir.
Amanhã saio daqui de carro, até Santiago de Compostela, onde vou de avião para Alicante e de lá ônibus para Villena, região de Valência, onde sábado tenho meu último compromisso. É relativamente longe, uns mil km, saio do noroeste para o sudeste do país.
Estou escrevendo aqui da praça principal, tomando um vinho com um tira gosto que veio junto, tipo oferta da casa. Sabem o que? Pão com ovo... Engraçado né? Mas tá muito bom! Fim de tarde agradável às 20:00hs, uma praça charmosa cheia de gente, vinho espanhol e pão com ovo... Acho que vou pedir outra dose!

Meu visual enquanto eu escrevia...


Praça animada - xadrez gigante!

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Madrid e Lugo, 19 e 20 de setembro de 2016.


Parte da Muralha Romana de Lugo
Ontem passei o dia em Madrid, em um curso sobre Sistemas Participativos de Garantia para profissionais envolvidos de alguma forma com a produção e o consumo de produtos ecológicos. Aqui na Espanha o nome preferencial que se usa é Agricultura Ecológica. Na Itália ou França, Agricultura Biológica. Na Inglaterra e Alemanha, Agricultura Orgânica. Estas denominações todas têm nuances em seus conceitos, assim como histórias e autores que as caracterízam. Mas hoje as diferentes legislações que tratam do tema as colocam como sinônimo, e de certa forma esta percepção tem prevalecido entre os que se envolvem com este assunto. Melhor assim, de fato elas guardam entre si muito mais semelhanças do que diferenças. E no fim, espero o dia que estes adjetivos sejam todos desnecessários, porque a agricultura irá toda ela funcionar baixo uma maior harmonia com a natureza.
Uma das onze portas da Muralha
Romana de Lugo
Sobre o dia de ontem, mais nada a contar. Foi o dia inteiro no curso. Acho que eles gostaram, e para mim é sempre bom me atualizar sobre as notícias da agricultura orgânica aqui na Europa.
Saí do curso e fiquei matando o tempo por quatro horas na estação de Chamartin, até as 22:15, quando saiu o trem para Lugo. Não gosto destes trens noturnos. Cabines com dois beliches, 4 pessoas quase confinadas em menos de 6m. Mas gosto dos vagões restaurantes, acho que me sinto em um filme dos anos 50, e foi nele que fui tomar uma taça de um vinho tinto. E viva o celular para ajudar na tarefa de esperar o tempo passar!
Cheguei quase oito da manhã em Lugo e fomos direto ao hotel. Ao lado da Praza Maior, se chama Mendez Nuñez e é bem correto.
Catedral de Lugo
Que cidade interessante Lugo. Está na Galícia, região Noroeste da Espanha. Relativamente perto de Santiago de Compostela, está na rota do famoso Caminho de Santiago. Muitos lugares interessantes para ver, a maior parte deles relacionados com a época do Império Romano. Lugo foi fundado pelos romanos, como um acampamento militar, sobre um pequeno povoado celta. 
A muralha romana de Lugo é sem dúvida o que mais chama a atenção. Aqui me informaram que é a única no mundo que conserva todo seu perímetro, que aqui é de mais de dois quilômetros. Pelo que percebi passear sobre a muralha não é um programa apenas de turistas, e vi muita gente local caminhando e correndo sobre ela. Fui também ao Museu Provincial de Lugo, onde estão expostas várias peças do período romano, lém de obras de arte de artistas locais. Tanto no museu quanto na própria cidade vi pedaços muito bem conservados de mosaicos romanos. Datados do século, II, III, IV. Nas ruas, às vezes passamos sobre ou ao lado de uma parte de vidro, como se fosse um visor. Este visor está para nós permitir ver partes do aqueduto, cômodos com mosaicos ou piscinas romanas. Uma verdadeira viagem no tempo.
Close no mosaico romano,
           este do séc II.
Além destas preciosidades históricas, é só comentei algumas das que vi, a cidade antiga e seus arredores é muito agradável de passear. Amanhã conto mais sobre a cidade.
E hoje pela tarde também teve trabalho, um "conversatório" sobre Sistemas Participativos de Garantia com representantes de produtores e consumidores locais. Depois fomos visitar uma pequena feira de produtos ecológicos, organizada no Mercado Municipal. Bom conhecer a feira, bem modesta, e conversar com os produtores. E ver um mercado é sempre um bom programa.
De noite fomos jantar um grupo de palestrantes e organizadores do Congresso. O que comi? Jamon ibérico y queso, claro!

Amanhã às nove devo estar na mesa inicial, que vai discutir sobre Agroecologia na Europa. Me convidaram na condição de olhar externo, ouvir os outros expositores e fazer alguns comentários a partir do que fazemos na América Latina. Veremos. 
Venda de produtos ecológicos,
no mercado municipal, terças e sextas..

Venda de produtos ecológicos, 
no mercado municipal, terças e sextas..

domingo, 18 de setembro de 2016

Madrid, 18 de setembro de 2016.

Plaza Mayor hoje de manhã.
Cheguei a Madrid hoje de manhã. Me aguarda uma semana de trabalho em três diferentes cidades da Espanha. Mas hoje o dia foi de relaxamento e passeio. 
Sempre bom vir à Europa e este país aqui é cheio de detalhes que gosto muito. Como por exemplo jamon Ibérico e queso manchego. Hummm...
Ruas de Madrid hoje ao nascer do dia.
O principal programa do meu domingo foi caminhar. Caminhei muito, o que é bom para a saúde e para chocar os ovos do Pokemon. Um belo dia de início de outono, temperatura agradável, acho que todo mundo teve a mesma ideia e as ruas estavam lotadas. Andei por alguns dos lugares obrigatórios no centro histórico de Madrid.  Paseo del Prado, Calle Carmen, Gran Via, Puerta del Sol, Plaza Mayor. Destaque para o Mercado de São Miguel, perto da Plaza Mayor. Um conjunto de pequenos lugares para se comer e beber, quase sempre em pé. Preciosidades, salgadas e doces, de diferentes lugares da Espanha. Não comi ali, mas só pelo visual sei que dá para recomendar.
Apesar dos lugares serem lindos, meu humor hoje não estava para flanar. Talvez o cansaço e o fuso horário, talvez a ausência de novidades. Mudei de rumo e resolvi colocar como objetivo do dia visitar as duas principais obras pictóricas de Madrid. Fui ao Museo Reina Sofia ver Guernica, de Picasso e ao Museo del Prado ver As Meninas, de Velásquez. Ótima decisão.
Guernica - Foto do site do Museu La Reina
Guernica é muito mais recente, de 1937, um óleo enorme, quase um mural. Ele retrata o bombardeio aéreo de Guernica, cidade Basca, pelos nazistas com apoio e apoiando o Franquismo, neste mesmo ano de 1937, nos primórdios da II Grande Guerra. Suas expressões de lamento, horror e dor impressionam e emocionam, quando você entra na vibe do quadro. O fato de ser em preto e branco também é marcante, como que expressando um mundo sem cores. Mas, como sou clássico, gosto mais do As Meninas. Li aqui que este quadro é considerado um dos mais importantes da arte ocidental. Ele impressiona. Eu, que não entendo nada, fico embevecido com o olhar dos diferentes personagens do quadro. Alguns te acompanham por onde você vá, outros você não consegue encarar mesmo mudando de ângulo. Muito, muito impressionante. Também o cachorro, meio cochilando recebendo um afago com os pés de uma das meninas que dão nome ao quadro merece destaque. E ainda o fato do artista nos colocar no ângulo de um espelho. Todos no quadro, inclusive o próprio Velasquez, que se autorretrata na obra, estão de frente a um espelho. 
As Meninas, de Velasquez - foto do site do Museo do Prado.
Nos dois museus logicamente tem muitas outras obras lindas e valem muito a visita, mais ou menos rápida de acordo com o gosto de freguês. Mas não ir é quase um pecado.
Depois de cumprir meu nobre objetivo do dia ainda tive tempo para um passeio no Jardins do Retiro. Bonito, com 400 anos de história, este estilo de jardim real, hiper organizado. Para o meu gosto, até demais. Me fez lembrar uma avó, presente em um dos livros da saga Em Busca do Tempo Perdido, que passava pelo jardim quebrando algumas plantas. Colocavam na conta da senilidade, enquanto ela afirmava que o jardineiro que deixava tudo tão meticulosamente arrumado não entendia nada de natureza! Mas para não ser injusto, vou deixar registrado que o Jardins do Retiro é lindo, muito vivo, muitas famílias com crianças, casais de namorados e desportistas aproveitando sua pista de jogging. 
Depois foi jantar, jamon y pan e regressar ao quarto, ao entardecer, quase nove da noite, horário de verão daqui. Amanhã tem trabalho. Xô preguiça...

Jardins do Retiro

Jardins do Retiro

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Maputo, 31 de maio e 01 de junho de 2016.

Com técnicas e agricultoras, nas machambas.
Vou me embora de Maputo. Não é uma Passárgada, mas deixa saudades. Estou aqui no aeroporto da África do Sul, já rumo à casa. Tudo correndo bem, serão exatas 24 horas entre ar e terra.
Selo que vai começar
a ser usado por aqui.
Ontem passei o dia em uma reunião de avaliação da minha consultoria e apresentando à equipe da ESSOR meu relatório, já finalizado e entregue, duas semanas antes do prazo. Levar relatório para fazer em casa só em casos extremos, não é recomendável. De minha parte foram dias muito agradáveis de trabalho. Pelo que ouvi na avaliação, para eles também foi agradável, e, mais importante, útil.
Depois do trabalho, caminhei um pouco, próximo ao hotel. Voltei à Feira Janet,  aquela que vende de um tudo apenas para passar o tempo e gastar meus últimos meticales, a moeda local. Comi de novo camarões, sempre deliciosos, no Assador Típico, restaurante português que fica no início da Av Karl Marx. Às sete da noite já estava no quarto, arrumando malas.
As mulheres, nas machambas.
Nestes 15 dias que passei em Maputo meu aplicativo me avisa que caminhei 84 km. A maior parte pela cidade. Ela não é exatamente bonita, com exceção da praia e de poucos parques municipais. Os traços que ainda guarda da arquitetura portuguesa estão em sua maioria descuidados. A arquitetura contemporânea navega entre a pobreza, edifícios pouco cuidados e casas enormes, protegidas por muros, grades e cercas eletrificadas, que não nos permitem apreciar sua beleza, se é que existe. A maior parte de suas ruas são escuras de noite e sujas de dia. Com esta descrição pouco lisonjeira, pode parecer curioso que ainda assim eu goste de caminhar por Maputo. Acho que me sinto recompensado pela gentileza e alegria de sua gente, sua comida rica em origens, aromas, cores e sabores, e pelo visual das mulheres e suas capulanas. Elas são, sem dúvida, o melhor de Maputo. Muitas vezes carregando crianças enroladas ao corpo por seus tecidos coloridos ou água, trouxas ou tabuleiros na cabeça. Sempre eretas, esguias, suas condições de vida não são suficientes para curvar sua elegância.
trabalhando...
Viajar para lugares e culturas distantes é sempre interessante. Considero vir à África um caso à parte. Não sei precisar porquê. Talvez a identidade cultural com o Brasil, tão influenciada pelo povo Africano. Pode ser também por ver de perto uma situação de pobreza com a qual me sinto, e deveríamos nos sentir todos, com uma parcela de responsabilidade. De certa forma quem tem ascendência europeia é signatário da trágica Conferência de Berlim. Ou pode ser apenas porque viemos todos daqui. Nós que em um excesso de estima própria nos auto proclamamos homus sapiens sapiens, tivemos nossa origem aqui, na Mãe África.
Como veem, não sei porque, mas estar na África é sim um caso à parte. E tem uma natural densidade, nos deixa reflexivos.
Bom, o voo me chama. Voltar faz parte da viagem.

no campo

pilando cana de açúcar, para usar
como biofertilizante