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quarta-feira, 28 de março de 2012

Nicarágua, 28 de março de 2012

Eu e meu amigo Luis Alvarez
Não escrevi ontem porque o dia passou sem maiores emoções, ainda que bastante cansativo com curso em sala de aula o dia todo. Na verdade o mais emocionante foi comer camarões no almoço e no jantar. Hoje já foi bem mais interessante fomos ao campo, em três lugares diferentes.
Na primeira parte da manhã foi no mesmo Centro de Capacitação que visitei domingo, no município de Totogalpa, em uma região de trópico seco. Neste Centro tem uma concentração grande do que chamamos de tecnologias adaptadas e achei conveniente incluir uma visita lá durante nosso dia de campo. Armazenamento da água da chuva, fogão solar, minhocultura ou biogás são exemplos do que vimos. O Centro é coordenado por um grande amigo, Luiz Alvares, a quem eu não encontrava há mais de seis anos, e foi realmente um prazer vê-lo. Em 1999 estive nesta mesma região, no município de Somoto, dando um curso convidado por ele.
Don Vicente Colindres em seu café Agroflorestal
Depois seguimos direto para visitar duas fincas de café, uma convencional e outra orgânica, no município de Dipilto, mais ao norte, praticamente na fronteira com Honduras. Visitar lavouras de café é um prazer, ainda mais quando é manejado em um sistema agro-florestal, também chamado de café baixo sombra, o mais comum na América Central. Segundo meus conhecimentos, é muito próximo do máximo que se pode pensar em termos de aliar a produção de alimentos com a preservação ambiental.
Café Orgânico em sistema agroflorestal, da
 Sra. Alexa Marin
Mas, mais do que um prazer, foi muito interessante visitar estes dois cafezais. A diferença entre um e outro, entre o convencional e o orgânico, se limita à fertilização, já que nenhum dos dois usam agrotóxicos. E o convencional, que usa fertilizante químico, o faz em doses reduzidas, apenas para garantir a produtividade que o produtor julga mais adequada. Na verdade considero inapropriado chamar de convencional uma lavoura conduzida com tanta diversidade, cobertura vegetal, presença de árvores e sem pesticidas. É o problema das chamadas normas de produção orgânica, que nos obrigam a pasteurizar definições e procedimentos, e as vezes nos conduzem à algumas injustiças. Mas esta prosa é longa, não cabe aqui e agora. Voltando aos cafezais, como o orgânico tem uma produtividade inferior ao convencional, o meu desafio hoje foi propor alternativas para que ele ao menos se aproxime da produtividade do convencional. Começamos esta conversa lá na lavoura, amanhã continuo em sala.
Regressamos no fim do dia, em um lindo entardecer. Nos 100 km da volta a paisagem, montanhas entrecortadas por vales, mudava de cores a cada instante. Mais uma vez pensei que tenho que agradecer sempre à vida pelas oportunidades que me oferece. Hoje andei visitando cafezais, em sistemas agroflorestais, de agricultores familiares na América Central... Quer mais? Eu não, deixa assim que tá bom, se melhorar pode estragar...
De noite, jantei camarões, assim como ontem. Sigo firme no desiderato de comer camarão todos os dias!
Enfim, lo pasé genial hoje. Amanha, já é meu penúltimo dia por aqui. O tempo passa, o tempo voa.

terça-feira, 27 de março de 2012

Nicarágua, 26 de março de 2012

Visual do curso de Agroecologia para PRODECOOP
Hoje o dia foi quase todo em sala, com o primeiro dia do curso. É um curso apenas para a equipe técnica de PRODECOOP, um total de 12 pessoas, dez homens e duas mulheres. É assim, na nossa profissão ainda costumam predominar os homens. Mas..., a Agroecologia definitivamente tem uma alma feminina, e não tenho duvidas que a predominância masculina é um dos entraves que impede uma maior incorporação de valores sócio-ambientais na agronomia.
Trabalhei hoje o porquê de se trabalhar com a Agroecologia, falando de suas vantagens para a saúde das pessoas e do planeta, seus benefícios sociais e econômicos e ainda sua racionalidade agronômica. Depois naveguei por sua origem e conceito. Amanhã caminho mais em direção ao como fazer, em sua dimensão mais técnica.
À tardinha tive tempo de passear um pouco pela cidade. Plana, situada em um vale, não tão pequena, descobri que tem uns 120 mil habitantes, com alguns restaurantes e cafés interessantes. Passei por um cubano que pretendo conhecer. Digo um restaurante cubano, só pra deixar claro. Vi alguns grupos de europeus pela rua, em sua maioria jovens, e parece que o que os atrai são dois parques nacionais situados próximos à cidade. Estelí também tem fábricas de charutos e pretendo ter tempo para visitar uma delas até sexta-feira. E claro, comprar um bom charuto. Eu sei, não fumo, mas não poderei evitar de comprar um bom charuto...
 Aqui na Nicarágua ainda vemos e ouvimos várias referencias à revolução sandinista do fim dos setenta e sua derrocada posterior na década de noventa. Ainda vou perguntar mais para entender melhor e escrever algo aqui, mas por hora já sei que aqui Estelí foi palco de várias batalhas contra o então ditador Anastásio Somoza.
Delícia, delícia, assim você me mata...
De noite não resisti e repeti o prato de ontem, desta vez acrescido de batatas fritas, no restaurante do próprio hotel, que se chama Los Arcos. Bom, bem bom, sigo com meu objetivo de comer camarões todos os dias. Meu pai sempre me disse que eu não devia perder de vistas meus objetivos na vida, e estou decidido a alcançá-lo. Agora, um chocolatinho que comprei no aeroporto e cama. Amanhã tem mais trabalho, e o segundo dia de um curso de cinco dias é um momento crucial para ganhar os participantes. Tenho que estar descansado.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Nicarágua, 25 de março de 2012

Bonita casa colonial, em Ocotal
Estou na Nicarágua, em Estelí, que fica a 150 km ao norte de Manágua, capital do país. Cheguei ainda ontem à noite, depois de 23 longas horas de viagem, entre carro, aviões e aeroportos. Fico aqui toda a semana para dar um curso de Agroecologia para uma importante cooperativa de cooperativas locais de cafeicultores - PRODECOOP. Esta região aqui é nobre para o café, a altitude em vários locais fica entre os desejados 1200 e 1300 m sobre o nível do mar. Hoje, visitando PRODECOOP, já tomei um bom café, ainda que preparado à maneira americana, mais fraca, o que não é minha preferencia.
Café secando ao sol, em PRODECOOP
Hoje passei o dia visitando a região. Fomos ao local onde PRODECOOP beneficia o café, visitamos algumas cidades próximas, como Ocotal e Condega, e ainda revi um casal amigo, em Somoto, cidades que ficam ainda mais ao norte, próximo da fronteira com Honduras. Com eles fui visitar um centro de capacitação organizado por INPHRU, a ONG que eles coordenam. Muito interessante, é baseado no resgate do saber e da cultura Chorotega, uma etnia indígena que ocupou o pacífico sul da América Central.
Andar pelas estradas da América Central normalmente é passear na cordilheira vulcânica que caracteriza a região, costeando os morros e divisando vales e montanhas. Volta e meia subimos e de cima se descortina um amplo vale, onde normalmente ficam as cidades, maiores ou menores. Claro, quando saímos em direção aos oceanos a paisagem muda.
De tardinha ainda tive tempo para comer umas tortilhas e um queijo fresco local, acompanhados de uma Toña, cerveja daqui. Boa cerveja e produzida sem conservantes ou estabilizantes. Uma pena que no Brasil a imensa maioria das cervejas não segue a famosa lei de pureza alemã, que não permite aditivos na cerveja. As duas principais cervejas daqui, Toña e Victoria, que são da mesma cervejaria, seguem...
E agora acabei de jantar um camarão ao alho acompanhado de arroz, delicioso. Camarão de verdade, grandes, frescos. Apesar de não estarmos no litoral, o mar é perto, e o camarão pode vir até andando que chega fresquinho... Foi um bom dia para começar minha estadia aqui, mais tranquilo, já que amanhã começa o trampo, com 9 horas de curso por dia, até na sexta-feira. Sábado já regresso. 

sexta-feira, 2 de março de 2012

Paraguay, 02 de março de 2012

Visita a campo tem disto: furou o pneu...
Já voltando para casa. O que sempre é bom. Fiquei cinco dias aqui e escrevi apenas dois posts. Os dias foram meio repetitivos, e eu não queria de novo tratar aqui o teor dos meus cursos, o que já fiz em outras ocasiões. E acho que estou reaquecendo também, é a primeira viagem do ano.
Ontem fomos visitar duas pequenas propriedades rurais aqui da região. Não tão da perto, porque viajamos uns 200 km entre ir e voltar. Foi legal, sempre gosto destas oportunidades de conhecer experiências locais que se baseiam na Agroecologia. Enriquece minha percepção sobre porque e como ela vem sendo aplicada no continente. De mais a mais, com uma turma jovem e heterogênea como esta, a melhor técnica são aulas práticas e visitas de campo. Mais fácil para que cada um apreenda de acordo com sua base de informações.
Barbaquá, para processar a erva-mate
Uma das fincas que visitamos é um típico Sistema Agroflorestal, SAF no jargão dos agrônomos. Muito legal ver um sistema tão diversificado em árvores de diferentes utilidades como podem ser produzir frutas ou madeira, medicinais e aromáticas, para sombra ou ainda para melhorar a fertilidade do solo. Neste caso, o cultivo principal é a erva–mate, muito utilizada por aqui para fazer o tererê, um tipo de chimarrão frio tomado diariamente aos litros em todo o país. Tanto o chimarrão quanto o tererê vem da tradição guarani, e a erva mate, planta que origina a erva, é desta região do sul do Brasil e Paraguai. A outra propriedade é baseada em hortaliças, frutas, algumas vacas, pequenos animais, piscicultura. Tudo integrado, bem cuidado, manejo atento e elegante. Legal de ver também.
Finca ecológica, Sr. Eugenio Melo
São milhares de experiências assim em todo o continente. E ainda tenho que ouvir quando frequento seminários acadêmicos que precisamos de mais informação para ter certeza da factibilidade da aplicação dos princípios da agroecologia. Que preguiça eu tenho ao ouvir isto! Os interesses por trás da venda de agroquímicos são muito fortes. Contrapô-los é uma tarefa árdua. Exige ouvirmos verdades inquestionáveis absolutamente falsas!
Hoje foi dia de terminar o curso e me despedir dos alunos. Gostei de conhecê-los e de conhecer o Instituto. São guerreiros. Um pouco mais de ordem na escola poderia aproveitar melhor o entusiasmo reinante e contagiante entre seus jovens frequentadores. Quanto à cidade, não acho que escolheria Curuguaty para ser meu próximo destino nas férias, mas, como disse ontem, conhecer o interior dos países é ver um pouco de sua alma. E isto eu gosto. Gosto também do Paraguai e seu povo com sua essência Guarani, expressa na língua, no tererê, na comida.
Bom início para as viagens deste ano. Não ótimo, mas bom. Este ano promete, as expectativas são boas. Fui, acho que a próxima é a Nicarágua, no fim do mês. 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Paraguay, 29 de fevereiro de 2012

Visual do IALA - Guarani
Sempre gostei do verso do poetinha: a vida é a arte do encontro, embora hajam tantos desencontros pela vida... Bom, muito bom. Quando ouço que vivemos na sociedade da informação, lembro-me deste verso e digo a mim mesmo: embora haja tanta desinformação nessa sociedade...
Aqui estou, no município de Curuguaty, estado de Canindeyú, Paraguai. O estado faz fronteira com o Brasil, mais exatamente com Paraná e Mato Grosso do Sul. Quente e chuvoso, ao menos nesta época. Estou aqui desde segunda, fui convidado para dar um curso de uma semana no Instituto de Agroecologia Latino Americano - IALA – Guarani. O IALA Guarani é uma iniciativa da Via Campesina do Paraguai. Para quem não sabe, a Via Campesina é o mais representativo movimento campesino do mundo.
A cidade não é tão pequena, uns 80 mil habitantes. Nem tão pequena, nem tão bonita... mas alguns resquícios de Mata Atlântica que a rodeiam e a topografia de montes macios, que nos permitem ver um largo horizonte entremeado de curvas é bastante agradável aos olhos.
Aula prática
Visitar as áreas rurais dos países é como tirar um tipo de ultracenografia. Podemos ver algo de suas entranhas. Querem um exemplo? Estou tendo certa dificuldade no curso, pois os participantes na sua maioria são jovens filhos de agricultores, e se sentem mais confortáveis falando Guarani. Entendem meu espanhol, há um certo diálogo, mas eu sinto que entrecortado, limitado pela língua. Um deles me explicou que eles podem entender tudo, mas como pensam em Guarani, lhes dá trabalho traduzir para emitir uma opinião, e isto gera certos silêncios na comunicação.
No interior normalmente não existem restaurantes internacionais... e aí comemos o local, assim como ele é, sem um toque gourmet. No caso aqui, frango assado, carne de gado e mandioca cozida. Mandioca sempre, para todo lado, em todas as refeições.
Jovens no curso, momento da viola
O IALA – Guarani fica a uns 10 km da cidade, e como as instalações lá ainda são bastante precárias, optei por dormir no hotel aqui na cidade, e vou e volto todos os dias. Eu gosto, chego ao hotel por volta das seis, tenho tempo de net, escrever um pouco, comer e ler algo. Poderia passar algum tempo assim. A galera fica lá, dezenas de jovens, dormindo em seus beliches, divididos em três quartos, cada um deles com 20, 30 camas. Estudando e trabalhando, ainda terminando as construções, se dividindo nas tarefas de organização e limpeza, mandando mensagens via celular, buscando uma lenta e rara conexão com a net, tocando violão e jogando conversa fora nas horas de intervalo. 
Bonito ver a energia e alegria com que se dedicam às suas atividades. Legal ver a vontade com que buscam construir um mundo novo, o mundo dos seus sonhos, o mundo dos sonhos de cada um, o sonho de mundo que lhes venderam. Temo pelo resultado. Estas conquistas não se alcançam sem uma boa dose de preparação. Jovens rurais normalmente tem pouca oportunidade para uma formação de qualidade e a capacidade individual de superar estes limites muitas vezes é vencida por uma má orientação ou pelos apelos do dolce far niente. E parece que não é uma prioridade reverter este quadro. Nem por parte dos jovens, nem por parte da sociedade. Sigo temendo pelo resultado.
Enfim... vivemos na sociedade da informação, embora haja tanta desinformação na sociedade!

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Bogotá, 14 de dezembro de 2011

Visual na La Candelaria, Bogotá
Este verbo conhecer é forte, né? Conhecer alguma coisa é difícil. Pessoas, quase impossível. Você conhece fulana? O que vou dizer? Sim, conheço, me apresentaram em uma festa. Ou mais ou menos, estou casado com ela só há 25 anos. Qual resposta seria mais precisa?

Lugares, também não são tão fáceis de conhecermos. Quando muito conhecemos nossa cidade, mas é difícil conhecer nosso Estado ou País. E não falo só de países continentais como o Brasil, falo dos países em geral. Por menores que sejam, são sempre  múltiplos.
Hotel La Opera, onde fiquei. Show!
Se me perguntarem se conheço a Colômbia, o que devo responder? Conheço? Um país de mais de um milhão de quilômetros quadrados, quase 50 milhões de pessoas, com diferentes ecossistemas e culturas, no qual estive duas meteóricas vezes? Conheço neste caso é meio forte. Acho melhor relativizar, e optar por um sim estive lá duas vezes, mas muito rápido, não pude ver muito. Desta vez, nestes três dias que passei aqui, na real nem vi Bogotá, vi apenas um de seus bairros, o centro, ou La Candelária. E achei bem legal.

Falando do dia de hoje, foi bem mais ou menos. O estado de ânimo não era dos melhores, e não consegui acertar muito nos programas. Acontece, isto de flanar por aí não é sucesso garantido. Tem sua dose de risco. Seus altos e baixos. Voltando ao meu dia, na real começou bem. Fui ao Museu do Ouro. Imperdível. Se você vier a Bogotá e tiver apenas uma tarde, vai lá. História dos metais no mundo e peças originais de diferentes metais, principalmente ouro, de diferentes culturas anteriores a Colombo. Usadas como fonte de poder, instrumento de trabalho, em cerimônias, como oferendas ou adornos. Muito legal tanto as peças, algumas impressionantes, como as explicações. E a organização e beleza do Museu, nota dez. 
Museo del Oro, Bogotá

Depois do Museu fui almoçar, me preparando para uma caminhada guiada pelo centro da cidade. Ocorre todos os dias e as inscrições são pelo email pitcentrohistorico@idt.gov.co. Com quinze minutos de caminhada começou a chover e a operação foi abortada. Parecia interessante... mas não rolou. Como não desisto fácil, resolvi ir ao Museu Nacional. Peguei um ônibus, já que sou quase local. Adivinha? Ônibus errado. Para corrigir tentei pegar um taxi, não consegui, os poucos que passaram simplesmente não pararam. Voltei caminhando, o que significou andar  mais do que haveria caminhando se não tivesse pego o tal ônibus. Bom, tudo isto, lembrem-se, chovendo. 

Pareja bailando, Botero
Finalmente cheguei ao Museu, que fica em um prédio reformado a partir de um antigo presidio. Conta a história da Colômbia, desde os tempos imemoriais até quase o presente. Interessante. Não achei tão bonito, mas sempre oportuno aprender algo sobre um pais sobre o qual sei tão pouco.

Depois disto, uma passadinha rápida no Museu de Botero, para me despedir, e rumo ao aeroporto, onde estou agora. Viajo a noite toda, por causa do fuso horário e chego em casa só amanhã de tarde. Não dá nada, estou acostumado. O que não estou acostumado é não ter nenhuma viagem marcada. Esperemos, algo sempre rola. Neste meio tempo, recarregar as baterias, curtir o fim de ano, a minha galera e o verão!


Bogotá, 13 de dezembro de 2011

Abertura - Absalón Machado, Luzmila María, Eliseo Alvarado, eu.
Hoje foi trabalho quase todo o dia. Participei de um Encontro Internacional sobre Diversidade e Alimentação. Fui convidado pelo Instituto Humboldt, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente da Colômbia. Passamos o dia entre palestras e trabalhos em grupo buscando entender o tema, as ameaças que pairam tanto sobre a Biodiversidade quanto sobre o Direito à Alimentação, visualizar experiências exitosas vinculando estes dois temas e ver como se pode avançar, no sentido de aliar preservação da Biodiversidade com o objetivo de todos, de sempre, acabar com a fome. Na Colômbia e no mundo. Minha prosa foi sobre o aporte da Agroecologia a estes dois temas.
Ajíaco
No almoço comi Ajiaco, uma sopa feita com vários tipos de batata, frango, milho e temperos. Bem típico daqui, achei gostosa, sem ser sensacional. De entrada ainda teve arepas com queijo. Arepa é como uma tortinha feita a base de farinha de milho. Gostosinho.
O evento terminou às cinco e ainda tive tempo ir passear um pouco. Comecei pela Praça Bolívar, que tem este nome em homenagem a Simon Bolívar, o libertador da Colômbia. Bom, na real ele libertou metade da América Espanhola, e é um ícone também na Bolívia, Peru, Equador, Venezuela e Panamá, que era parte da Colombia e depois se se tornou independente. É a praça principal aqui, a Plaza Mayor, como dizem nos países que falam castelhano, e ao redor dela fica a Catedral, a Prefeitura, o Palácio da Justiça e o Congresso Nacional. Sentiram falta do Comércio na praça? Existiam galerias comerciais, mas no início do século passado pegaram fogo e depois disto não retornaram. Mas ele, o Comércio, está bem próximo, em todas as ruas adjacentes.
No fim da tarde os pombos, centenas deles, resolveram ir dormir e as luzes dos enfeites de Natal da praça se acenderam. Não sei se teve relação um evento com outro ou foi apenas a coincidência de horário. O fato é que gostei da troca. Não sou muito fã de luzes de Natal, mas sou menos fã ainda dos pombos nas praças centrais atraídos pelas comidas oferecidas por transeuntes e compradas de ambulantes. Sou chato, né? Eu sei, minha mulher sempre me fala isto... A praça estava cheia, famílias com crianças, vendedores de tudo, fotógrafos, que agora trocaram o método lambe-lambe por máquinas digitais e impressoras portáteis. Assim avança o mundo, mudando, mas tudo permanecendo igual. Show de bola. 
Praça Bolivar e sua decoração natalina
Depois desta festa natalina fui tentar achar o mercado de pulgas, mas não rolou. Caminhei uns 2 km, pela carreira 7, da calle 10 até a 30. Como não achei o tal mercado, dei uma volta e regressei pela carreira 13. Aí achei um bar legal, na verdade um Clube de Bilhar, com mais de 20 mesas, das boas, e ainda algumas mesas para jogar xadrez. Visual totalmente retrô, alguns dos jogadores com cabelo engomado e bigode ralo, a musica vindo de uma máquina alimentada por fichas, balcão de madeira. Muito legal. Fiquei só uns vinte minutos, tomei uma Club Colômbia, uma das cervejas daqui, curti o visual e o som e fui continuar meu passeio.
Amanhã, passo o dia aqui e de noite volto pra casa. Ainda vai dar tempo de ver alguma coisa, mas não tenho nada programado. Veremos.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Bogotá, 12 de dezembro de 2011

Igreja da Candelária - Bogotá
Estou aqui em um confortável quarto de um charmosíssimo hotel em Bogotá. Chama-se La Opera e foi montado a partir de duas casas coloniais do Bairro La Candelária, o mais cêntrico e colonial da cidade. Quase não conheço a Colômbia, vim aqui apenas uma vez, em 1998, quando estive em Pereira, capital da Província de Risaralda e passei apenas um dia aqui em Bogotá. Mas tenho uma boa impressão do país e da cidade, o que se confirmou hoje nas três horas que caminhei nas quadras ao redor do Hotel.
Confesso que cansei de viajar este ano, foi um pouco mais da conta. Definitivamente menos viagens, com mais tempo para aproveitá-las, é muito melhor. Principalmente porque se ficamos mais tempo em um lugar, como que se dilui o prejuízo, que para mim consiste na viagem em si, no tempo de aviões e aeroportos, nos inevitáveis imprevistos, atrasos, reservas não encontradas, malas perdidas, coisinhas que ficam para trás em um quarto de hotel ou na mesa de um café. Mas no meu caso nem sempre posso escolher, e não posso evitar algumas viagens relâmpagos, focadas exclusivamente no trabalho.
Viajar tanto como eu viajei este nos últimos meses tem outro efeito, que não sei explicar bem. Me deixa mais aéreo no cotidiano, como se flotasse por ele sem tocá-lo. Difícil traduzir, não sei se sei bem o que quero dizer, mas me dá uma sensação de viver o dia a dia, fazer o que devo fazer, mas ao mesmo tempo sentir como se estivesse sentado na poltrona, olhando minha vida como se fosse um filme, me colocando na condição de expectador. É involuntário, simplesmente sinto assim. Não sei se é bom para quem vive comigo, para mim é, no mínimo, uma sensação rara.
A carta - Botero
     Voltando à Bogotá, cheguei e fui direto ao Museu de Botero, pintor e escultor, o mais famoso artista Colombiano, e seguramente o maior artista vivo da América Latina. Ele é natural de Medellín, cidade ao norte do país e nasceu em 1932, tendo, portanto, apenas 79 anos. Suas figuras gordas, muitas vezes desproporcionais, são simplesmente geniais. Não sei qual a explicação, porque ele pinta assim, nem sei se é possível saber. Uma das coisas que li aqui é que ele quer ironicamente pintar os egos inflados de seus personagens, mas se fosse isto os cavalos, cachorros e crianças não seriam também gordinhos. E esculturas, como mãos ou pés, tampouco. Enfim, deve ser simplesmente como sai quando ele pinta. As explicações, como sempre, vem depois. E nem sempre refletem o fato, mesmo que sejam lógicas. O que mais gostei foi ver o seu Monalisa. É um quadro genial. Ele a reproduz, ao seu modo, gordinha. Impossível não rir ao vê-lo.
Monalisa - Botero
Depois segui passeando pelo Bairro, vi joalherias com as famosas esmeraldas daqui, lindíssimas. Muitas lojas de artesanato, ambulantes com comidas locais, ambulantes com doces, salgadinhos e refrigerantes ou produtos chineses como em qualquer lugar do mundo. Passei também em frente ao Museu do Ouro, o daqui de Bogotá é bem famoso, mas não entrei. Espero conseguir ir até quarta-feira. Passei em frente a vários outros Museus, por algumas praças e Igrejas. Pretendo ver um pouco mais entre amanhã e quarta-feira, quando já retorno para casa.
Vou me recolher, ver um pouco de TV, relaxar. São nove da noite, e amanhã cedo tenho minha palestra, quero estar bem, descansado. Amanhã conto o que vim fazer aqui. 

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Assunção, 28 e 29 de novembro de 2011

Visual do Seminario que participei em assunção
Esta passagem aqui por Assunção foi puro trabalho. Cheguei ao hotel às duas da manhã de segunda feira e saio as três da manhã desta quarta. Ou seja, apenas 48 horas, com dois dias de trabalho intenso. Ou relativamente intenso. Dei apenas uma palestra de 45 minutos e coordenei um trabalho em grupo de uma hora. Olhando assim é pouco, mas o calor e a dinâmica cansativa e dispersa do trabalho é que geraram cansaço, não o trabalho em si.
Vim aqui para um Seminário sobre Soberania Alimentar e Direito à Alimentação, promovido pela CLOC, sigla de Coordenadora Latino-americana de Organizações do Campo e pela Via Campesina Paraguai. Eu falei sobre Agroecologia e Direito à Alimentação. O assunto é sempre relevante, são mais de um bilhão de pessoas passando fome no mundo, o que strictu sensus é uma ilegalidade, além de uma óbvia imoralidade. Infelizmente permitida e aceita pela sociedade. De alguma forma, por todos nós. Não deveríamos nos acostumar com isto, mas a impotência diante de um problema grave nos faz preferir ignorá-lo, sempre que seja possível. Como a fome atinge os que pouco podem fazer, e os que algo poderiam fazer usam desta estratégia de ignorar o problema, ele se torna crônico. Tudo isto foi discutido nestes dois dias. Por mais repetitiva que sejam estas prosas, não posso achar que sejam desnecessárias.
Já estive em Assunção outras vezes, mas não é uma cidade que entra na lista das minhas favoritas. Acho que o que mais gosto daqui é ver o povo falando Guarani. Mais de 90 por cento dos paraguaios falam Guarani, e uns 40%, a ampla maioria na zona rural, falam apenas guarani. Menos de 10% falam apenas castelhano, quase todos nas cidades maiores. É uma língua oficial aqui desde 1992 e há uns cinco anos é língua oficial também do Mercosul, junto com o português e o castelhano.
Ontem, quando terminou o trabalho, fim da tarde, me levaram para comer e tomar algo em um Bar/Restaurante bastante conhecido aqui chamado Lido. Em frente ao Panteão dos Heróis, no coração da cidade. Estilo tradicional, mesas na calçada, para aproveitar o clima caliente. O prato famoso da casa é um caldo de surubim, mas deixei passar, por causa do calor! Apesar dele, do calor, e de não ter ar condicionado, recomendo. Simpático.
Hoje precisei comprar um transformador para meu computador. Andei pelo centro, caminhei de lá para cá, e adivinha onde achei? Em um shopping de coreanos, que vendem produtos chineses... far cosa? É assim, para todos os lados que viajamos!
Agora arrumando minha mala, nove da noite, em poucas horas saio para o aeroporto. Ate chegar à minha casa, levo quase vinte horas... Que preguiça! A parte boa é ir para casa, depois de doze dias fora. Nem quero pensar que em dez dias tem mais... Saio para Bogotá, em outra viagem meteórica. Vamos ver se de lá tenho algo mais emocionante para contar. 

domingo, 27 de novembro de 2011

Lima, 27 de novembro de 2011.

Lima, vista do hotel
Domingo, e eu estou aqui no avião em direção à Sampa, de onde pego o voo para Assunção. Numa boa, voando sobre a cordilheira dos andes, com direito a ver o Titicaca. Lindo. Enorme, com muitas ilhas, um azul intenso em sua maior parte, que se transborda para verde em algumas de suas margens. Rodeado por algumas cidades, que do alto não parecem muito pequenas. Pretendo vir a uma delas em algum momento. E passear pelo Titicaca, ver de perto a cultura deste povo do lago, sua curiosa e avançada cultura náutica.
Valeu a pena ter feito esta parada entre La Paz e Assunção. Basicamente troquei doze horas de aeroporto no Peru mais quinze no de Guarulhos, que era o previsto no itinerário inicial, por passar um dia em Lima. Claro, isto teve um custo a mais, mas sem duvida muito melhor.
Estava cansado depois de uma semana de intenso trabalho e assim fiquei a maior parte do tempo no quarto do hotel. Mas isto não me impediu de fazer o que mais gosto aqui em Lima, que é passear por Miraflores. Para quem já leu Mario Vargas Llosa, este é um bairro citado em vários dos seus livros. Ele talvez seja o mais ilustre dos miraflorinos.
Praça Kennedy, Miraflores, Lima
Para começar meu passeio fui para a Praça Kennedy, a central de Miraflores. Particularmente movimentada no sábado. Famílias passeando, leitura de livros infantis feitas por animadores, show de palhaços, baile da terceira idade, barraquinhas de comida, feira de artesanato. Me chamou a atenção dezenas de gatos pelo parque, brincando em suas árvores, se sentindo absolutamente senhores do espaço. Intuo que eles ainda vão dar trabalho...
Depois caminhei em direção ao Parque do Amor, que fica no meio no calçadão que bordeia o Pacifico pelo alto. Digo pelo alto porque ele está sobre uma falésia, a poucos metros da praia, e é no alto desta falésia que esta a calcada, a rua o bairro. Do Parque do Amor fui pelo mesmo calçadão para o Larcomar, um centro comercial construído incrustrado na parte superior desta falésia, tendo o pacifico a seus pés. Se me faço entender, de todas as lojas, cafés, restaurantes e corredores deste centro comercial estamos vendo o oceano. E me organizei para estar aí no por do sol. Espetacular o sol se pondo no mar, o que apenas podemos ver em lugares muito específicos no Brasil. Não resisti e tomei uma Cusquenha, uma das cervejas nacionais, vendo este visual. Pena que não tenho fotos, saí sem câmara, queria mesmo caminhar o mais tranquilo possível.
Depois deste passeio e deste visual não precisava mais nada e no inicio da noite fui caminhando para o quarto do hotel e não saí mais. Recuperando energias, hoje passo entre aviões e aeroportos. Amanhã já estou no trampo o dia todo, em Assunção, um evento sobre Soberania Alimentar, organizado pela CONAMURI, organização de mulheres indígenas do Paraguai. No fim do dia, conto como foi. Por agora vou aproveitar que o Titicaca nos deixou e relaxar, ouvindo música e vendo um pouco mais da Cordilheira dos Andes.