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segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Sighisoara, Romênia, 29, 30 e 31 de agosto de 2026.

Desde baixo, vista de uma das entradas da cidade murada
e da Torre do Relógio

Chegamos ao Hotel Mercure Sighisoara às cinco da tarde de um ensolarado sábado. O prédio do hotel é curioso, com um visual interno bastante intenso, com uma óbvia inspiração germânica e tirolesa, mais contemporânea, com seus telhados inclinados e muita madeira. Meio que um chalé alpino. Eu gostei muito; Ana achou as madeiras e os carpetes um pouco excessivos. 
Vista do hall do Mercure

O hotel fica às portas da cidade antiga, e foi para lá que rumamos depois de deixar as malas no quarto. Aliás, nos deram um generoso upgrade para a melhor suíte do hotel.

A cidade antiga fica no alto do morro. Entramos nela pela porta da Torre do Relógio, uma das muitas torres que existem na cidade antiga. Vou contar algo do que li aqui sobre Sighisoara: a cidade é do século XII, quando colonos germânicos (os saxões da Transilvânia) foram trazidos pelos reis da Hungria para povoar e defender a região. Claro que já existia gente por aqui antes, mas não haviam fundado a cidade como a conhecemos hoje. Além das comunidades pré-históricas (termo engraçado, né?), das quais há vestígios, existem fortes evidências de que o vale do rio Târnava Mare, rio sobre o qual passei ontem de manhã, era rota de comércio do povo Dácio.

No início do primeiro milênio d.C., os romanos conquistaram a região. Os romanos se retiraram cedo, e a Transilvânia foi ocupada por diferentes grupos, como godos, hunos e eslavos. No século X, foi entrando no Reino da Hungria, que posteriormente trouxe os saxões! Ufa, que história. Interessante, não é? Eu acho!

Meio que quase sempre é assim: tal povo fundou tal cidade, mas sobre outra cidade, sobre séculos ou milênios de histórias construídas por muitos outros povos.

Que momento!
Entre os séculos XIV e XVI, ela tornou-se um importante centro comercial e artesanal. Cercada por muralhas, como costumavam ser as cidades medievais, sempre sujeitas a ataques inimigos, as torres cumpriam um papel importante na defesa. E cada uma delas — chegaram a ser 14 (das quais nove ainda existem) — era cuidada pelos diferentes grupos profissionais da cidade. Assim, existiam a torre dos alfaiates, a dos ferreiros, a dos sapateiros, a dos curtidores, a dos açougueiros… A equação é interessante: esses grupos ganhavam uma grana com o intenso comércio, tinham interesse em proteger a cidade e dividiam essa tarefa de manter o povoado a salvo. 
Mas, e a Torre do Relógio, a principal? Essa era do poder público e funcionava como entrada principal da cidadela. O relógio é lindo, cheio de figuras simbólicas, e tem aquelas figuras que se movimenta a cada hora cheia.

No centro da cidade antiga, uma pequena praça rodeada de bares e restaurantes. Nesse sábado e domingo que passamos em Sighisoara, acertamos bem no meio de um festival regional de música e danças romenas. Eles instalaram um superpalco e a música e a dança estavam rolando solto. Chegamos bem na hora da festa. Legal por um lado, por outro perdi o silêncio que buscava por aqui. Mas sim, foi bom ver a movimentação e algo das apresentações. Isso para mim, Ana, a jovem da excursão, adorou, dançou, bateu palma e cantarolou em romeno.

Caminhamos pelo centro sem nos deter em nada, tomamos um chope em frente a essa balbúrdia, na Casa du Cerb, no estilo “se o inimigo é mais forte, melhor se aliar a ele”, e depois fomos comer em um restaurante que gostamos muito, o Casa Krauss.

Torre do Relógio, vista de dentro
Domingo acordamos tranquilos, tomamos o café da manhã do hotel e saímos para o rolê dominical. Antes de subir para a cidade antiga, passamos por algumas ruas da cidade e achamos bonita e agradável. Sempre gostamos de sair dos muros turísticos. Nesse propósito, cruzamos o rio e fomos ver a Igreja Ortodoxa de Sighisoara. Linda, só vimos por fora; estava rolando uma missa. Algumas pessoas estavam sentadas também do lado de fora.

Deixa eu contar que sempre tive certa simpatia, até atração, pelo povo cigano. Quando decidi vir à Romênia, pensei nisso, em, de alguma forma, “encontrá-los”. Vi poucos, que consigo identificar, sujeito a erro, pelas características físicas. Quando vi, os vi em condições sociais mais complicadas. Agora, ao meu lado, enquanto escrevo esse parágrafo, em frente à igreja, uma mulher está falando sozinha. Parece cigana ou, mais corretamente dito, do povo Roma. Algumas estatísticas apontam que eles são uma minoria importante dos romenos, mas sofrem com o preconceito e a invisibilidade decorrente desse preconceito. Muitas vezes não se declaram como tal, o que deixa os números subestimados. Vieram da Índia, parando e seguindo diversas vezes e em diferentes momentos, há mais de mil anos (a data e a razão não é precisa), e se estabeleceram em regiões do que hoje conhecemos como Hungria e Romênia, espalhando-se depois por outros países europeus. Acho que posso dizer que a maior parte está na parte baixa da pirâmide social, ainda que, obviamente, existam pessoas Roma que são bem-sucedidas economicamente. Essas, muitas vezes, são das que não se declaram ou não se apresentam como tal.

Igreja Ortodoxa Romena de Sibiu
Depois da Igreja, cruzamos o rio de volta e subimos uma escada para entrar na cidade antiga por outro portão. Chegamos outra vez no festival e as apresentações de músicas e danças continuavam. Paramos no mesmo lugar, outra vez uma bebidinha, e ficamos vendo o movimento intenso. Belo forma de cruzar da manhã para a tarde de um domingo. Descemos por outra torre e demos uma boa caminhada até o hotel. Hora de descansar um pouco e fugir um pouco do sol quente.

Seis da tarde, outra vez para a cidade antiga. É o que tem para ser feito por aqui, Sighisoara é uma cidade pequena, cerca de trinta mil habitantes e, apesar de toda simpática, o melhor a ser visto está na cidade murada.

Passamos a tarde em noite de domingo entre ver um pouco das apresentações, breves caminhadas pelas ruas laterais da cidade antiga e um agradável jantar na “Casa Joseph Haydn”. Outra vez comi goulash.

Na manhã de hoje, ainda tivemos tempo para caminhar, ver um pouco do comércio local aberto. E, claro, subimos à cidade murada; queríamos muito vê-la sem o intenso movimento que o festival folclórico gerou. Linda. Linda cheia, linda mais vazia. Nós nos vamos com aquela sensação de que Sighisoara é um excelente lugar para um Slow Tourism. Andar devagar, comer devagar, ler sobre e sentir o local. E escrever uma crônica como esta.

Partiu Sibiu!

Tortre dos Alfaiates

Escada dos estudantes, com 300 degraus, para
proteger os estudantes da chuva e da neve.
No alto, a Escola da Colina e a Igreja da Colina

Ruas de Sighisoara

Torres dos Peleiros

Casa de Vlad III, o empalador. Ele nasceu viveu
em Sighisoara até ser dado aos Otomanos



Vista, desde baixo, da cidade alta

Festival de dança e música,


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