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| Ponte Trajano |
Chaves é uma importante cidade de Trás-os-Montes. Essa região, que já foi uma província, ao nordeste de Portugal, é uma das mais características do país. Tem até língua própria, o mirandês (falado em Miranda do Douro), tem raça autóctone de gado, clima rigoroso, alternando calor e frio, e uma culinária bastante característica, que alguns afirmam ser a melhor de Portugal. Meu desejo de conhecê-la veio de um texto de Miguel Torga, natural destas terras, que escreveu assim:
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| Foto tirada entre Braga e Chaves |
“…E são outra vez serras, até perder de vista. Não se vê por que maneira este solo é capaz de dar pão e vinho. Mas dá. Nas margens de um rio de oiro, crucificado entre o calor do céu que de cima o bebe e a sede do leito que de baixo o seca, erguem-se os muros do milagre. Em íngremes socalcos, varandins que nenhum palácio avexa, crescem as cepas como os manjericos às janelas. Em setembro, os homens deixam as eiras da Terra Fria e descem, em rogas, a escadaria do lagar de xisto. Cantam, dançam e trabalham. Depois sobem. E daí a pouco há sol engarrafado a embebedar os quatro cantos do mundo…”
Esse belíssimo texto sempre me emocionou e, como eu disse — e não exagero —, é ele que me trouxe para cá!
Nosso programa original era ficar mais dias entre Bragança (nas chamadas “terras frias”, mais altas) e Chaves (considerada o “coração de Trás-os-Montes”). O clima não deixou: a chuva anda provocando estragos e assustando moradores, e achamos melhor respeitar os avisos meteorológicos e sermos cuidadosos.  |
| Ruas de Chaves |
Mas o pouco que vimos já valeu! Pelas estradas que percorremos, vimos mesmo muitos afloramentos rochosos, no linguajar agronômico. Como disse Torga, é muita pedra; “não se vê de que maneira esse solo produz pão e vinho”… Na verdade, não vimos trigo — não é época —, mas vimos muitas vinhas e olivais.
Chaves é uma cidade muito bonitinha, agradável e acolhedora. Sentimo-nos muito bem tratados por onde andamos. O que fizemos? Vimos os principais pontos de interesse, como igrejas, a Praça Camões e o castelo. A Rua Direita é muito agradável. Acho que o mais legal que vi foi a Ponte de Trajano, construída sobre o rio Tâmega entre o final do século I e o início do II d.C., no reinado do imperador romano Trajano. Tem 150 metros de comprimento e, atualmente, possui 16 arcos visíveis. O legal é que, com toda essa história, ela é totalmente integrada ao cotidiano da cidade, com pessoas passando sobre ela como simples meio de circulação. É como comer todo dia no prato que está na tua família há muitas gerações. É a história cruzando o cotidiano, fazendo-nos refletir sobre quem estava aqui quando nós não estávamos, o que faziam e como viviam. É o passado permeando o presente e não apenas decorando a parede. Sempre gosto de ver cenas como essa!
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| Ibis Styles Chaves |
A presença romana na região não se nota apenas na ponte. No muito correto hotel em que nos hospedamos, o Ibis Styles Chaves, no restaurante onde é servido o café da manhã, pode-se ver, sob o chão, através de pisos de vidro, restos das termas de Aquae Flaviae, uma importante cidade termal do Império Romano. Sim, Chaves tem águas termais que também atravessam os tempos e, hoje de manhã, quarta-feira, fomos conhecê-las. Muito legal. Fazia frio e chovia, mas ainda assim adoramos as piscinas exteriores com suas águas aquecidas, os banhos sensoriais, a sauna e o banho turco. A entrada é paga; existem dezenas de pacotes e preços, mas o valor se justifica. Espetáculo!
Outro programaço que fizemos foi ir até a aldeia de Romeu, perto de Mirandela, ontem à tarde. Essa região pertence às chamadas terras quentes, mais baixas. Viajamos por pouco mais de uma hora, de Chaves até Romeu, como uma maneira de ver algo mais da região. Mas… o objetivo mesmo era ir almoçar no restaurante Maria Rita, considerado uma das sete maravilhas gastronômicas de Portugal. Valeu a viagem? Valeu, sim! Comemos bacalhau à Romeu; de entrada, umas alheiras (os famosos embutidos de Mirandela) e bebemos um vinho produzido ali mesmo na vila. E ainda provamos azeitonas e um azeite de oliva biológico, também produzido em Romeu, que mais de uma vez ganhou o prêmio de melhor do mundo. Comida muito boa, mas, na verdade, curtimos ainda mais o cenário do restaurante e da vila. Casas de pedra, ambiente bucólico/rural, uma certa atmosfera medieval, cercada por vinhas e olivais.  |
| Interior do Maria Rita |
De Chaves viemos para Guimarães, onde acabamos de chegar. Chuva intensa na estrada toda, que nos impediu de conhecer o que programamos. Passamos em frente ao Palácio Vidago, na cidade de mesmo nome, construção do século XIX, que hoje abriga um hotel de luxo, com spa e campo de golfe. Lindo de ver, mas não pudemos nem descer do carro.
Depois, paramos para almoçar na simpática Vila Pouca de Aguiar, no restaurante MA.LE, recomendado pelo Google. Pedimos os pratos do dia e vinho da casa. Completamos com doce da casa (famosa sobremesa portuguesa) e café. Muito bom. O preço total de 21 euros também agradou muito. Sabe o que achamos também? Restaurante cheio, mas com povo da cidade, sem turistas. Sim, isso mesmo: somos turistas, mas não gostamos de turistas!
Amanhã conto sobre Guimarães, conhecida por ser o berço de Portugal!
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| Aldeia de Romeu |
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| Castelo de Chaves |
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| Termas de Chaves |
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| Termas de Chaves |
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| Bacalhau à Romeu |
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| Aldeia de Romeu |
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| Rua Direita, Chaves |
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