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sábado, 6 de dezembro de 2025

São Tomé, São Tomé e Príncipe, 01 a 05 de dezembro de 2025

 

No campo, foto da Lucimara

Dias intensos de trabalho durante toda a semana. Fui a campo várias vezes, em diferentes comunidades deste interessante país.

Vigor da folha de mata-bala, 
planta parente do inhame

O campo foi com os técnicos da Oikos, sempre o Luís, Lucimara nos acompanhou um dia. Chama a atenção, sempre, a pujança da natureza. Acho que a maioria dos posts que escrevi nas minhas estadas em São Tomé faço esse comentário, sobre o vigor das plantas, cultivadas ou espontâneas, arbustivas ou florestais.

Na quarta-feira, tivemos reunião com a Associação Saudade, que reúne um grupo de agricultores/as que estão operando um SPG - Sistema Participativo de Garantia. Poucos, a operação é simples, mas eles sabem bem o que estão a fazer. A presidente, Ana Bela, e outros, podem, facilmente, representar São Tomé em alguma reunião internacional de SPGs.

Na quinta-feira, um momento bacana: uma capacitação em SPGs e biofertilizantes na comunidade Nova Moca. Almoçamos ali mesmo, comi “arroz com folhas”. As folhas são de mandioca, uma preparação semelhante à que chamamos maniçoba no Brasil, mas com um tempero local, levemente apimentado.

Volto um pouco no tempo para dizer que estive em Nova Moca na terça-feira também, visitando o Gabriel, um amigo produtor que já esteve no Brasil. Ele nos mostrou sua linda lavoura, um cultivo agroflorestal bem manejado. Aliás, esse país para mim é todo ele um SAF. Gabriel me apresentou sua esposa. Nome dela? Arminda.

Arroz com folhas!

Mas… ninguém sabe que ela se chama Arminda, porque  aqui em São Tomé as pessoas tem um outro nome, que eles chamam de “vulgo”. Então, o vulgo da Arminda é Segunda. E o apelido do vulgo é Gunda. Como devo chamá-la? Posso escolher, mas o usual é Gunda ou, um pouco mais formal, Segunda. Isso rola com todos aqui. Curioso, não é? Segunda foi quem fez o arroz com folhas que comi em Nova Moca.

Aliás, comida é uma nota interessante aqui. Essa semana estive duas vezes no honesto DjaDja. Um dia comi caril (curry) de peixe. No outro, peixe frito com purê de banana verde e molho de berinjela. Muito bons. Voltei ao Papa-figo e ao Pirata, que já conhecia, das outras vezes que estive aqui. Bons, mais caros, não excelentes, típicos restaurantes de brancos, como dizem por aqui. Comi peixe-azeite com arroz em um e caril de peixe e camarão,  em outro. Fui com Rogério na Tia Zada. Fica na Gamboa, um pouco afastado do centro. Este sim, super local. Éramos os únicos brancos. Peixes e outros frutos do mar ali, ao lado da churrasqueira, sendo escolhidos por quem iria comer, antes de serem assados. Escolhemos choco, um parente da Lula. Estava muito bem temperado, macio, mas não tanto. Uma arte fazê-lo inteiro, na brasa e deixá-lo macio. Confesso que acho meio feio o visual do prato, não estou acostumado, mas comi quase todo, estava realmente saboroso. Veio com salada, fruta pão e banana frita. Tomamos uma super bock para acompanhar, a cerveja portuguesa que rivaliza com a Rosema, a única cerveja produzida aqui em São Tomé.

Choco no Tia Zada


    O visual do restaurante não é como estamos acostumados… como diz um amigo, quem tiver muito nojinho melhor não ir! E hoje, sexta-feira , de noite, fui jantar no Petiscos da Vilma. Um polvo e um arroz da terra (arroz servido bem molhado, com peixes e folhas, um tempero muito bom) excelentes!

Saio deste país com um astral muito melhor do que quando cheguei. Fim de ano, estava cansado. Trabalhei bem aqui, mas dormindo bem, bom hotel, com alguns momentos de folga, recuperei as energias. Além disso, algo que bebi ou comi me afetou, sempre ruim estar passando um pouco mal. Mas acho mesmo que o que aconteceu é que nos primeiros dias o hotel ruim e o próprio visual do lugar, da cidade, me afetaram. Em uma linguagem clara: a idade e a vida que levo tem me deixado menos “roots”. Uma vez falei com Tiago, meu filho, que um pouco de grana te dá um pouco de liberdade. Ele respondeu de forma que acho brilhante, nunca esqueci: o dinheiro pode te dar alguma liberdade, mas o conforto te aprisiona. Bingo! Hoje, aos sessenta, sou um pouco prisioneiro do conforto. Ao mudar de hotel, mais confortável, e, também, me acostumar com a simplicidade local e passar a encará-la como acho que ela deve ser encarada, com vantagens e desvantagens, como qualquer situação, meu astral melhorou. 

Vista da comunidade de Nova Moca

Ou a mudança de humor é apenas porque estou a voltar a casa, passando um dia por Lisboa, e essas são boas notícias. Humores e emoções, quem haverá de explicá-las? Vem e vão, difícil comandá-las!

Isso desta semana! Amanhã de noite embarco, tenho todo o dia para trabalhar no meu relatório e passear. Viajo de noite e chego cedo em Lisboa! Passo o dia lá e embarco segunda cedo para o Brasil!




No campo


Horta - cenoura


Aspecto urbano



Cena urbana



Cascata São Nicolau


Centro de São Tomé


Com meu amigo Gabriel

No campo, oficina de biofertilizante

Atum, pure d ebanana e molho de beringela

Comunidade Nova Moca


Um comentário:


  1. Meu amigo Laércio Meirelles,

    Dizer que você está em busca de ser um agroecólogo é bonito , mas a verdade é que essa sua humildade só te torna ainda maior. Porque quem vê de perto sua caminhada, suas escolhas e sua coerência, sabe que você já é, há muito tempo, uma das potências vivas da agroecologia no Brasil e no mundo.

    Sua passagem por São Tomé e Príncipe, suas narrativas cheias de cor, seus contos e causos tão vívidos, fazem a gente sentir como se estivesse ali, caminhando ao seu lado, vendo as cenas se desenrolarem diante dos nossos olhos. É um dom raro: narrar o mundo com a alma, e não só com as palavras.

    Você é meu amigo andarilho, desses que carregam conhecimento circulante na bagagem e devolvem esperança por onde passam. É mestre da simplicidade, da escuta e da poesia da vida. E, sobretudo, é alguém que nos ajuda a compreender que o caminho do bem viver só se sustenta quando regado pela agroecologia que você tece, planta, colhe, semeia e espalha.

    Seguimos conectados nesse campo, nesse mundo e nessa missão tão bonita de multiplicar a agroecologia e fortalecer quem a faz pulsar.

    Receba meu abraço grande, apertado e cheio de admiração.
    E que venham mais histórias, de São Tomé e Príncipe, das estradas do mundo e do território afetuoso
    onde sua caminhada segue inspirando tanta gente. Um abraço do Menino de Vó contemporâneo e pós-moderno mordendo, vulgo Ronildo Mastroianni. Direto da terra do sol.

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