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terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Costa Rica, 04 de fevereiro de 2013.

Paisagem do restaurante Brisas del Nara, em Londres,
Costa  Rica. Nara é o morro mais alto das redondezas.
Cheguei ontem à Costa Rica. Estou aqui para uma reunião que busca analisar a possibilidade de usar os Sistemas Participativos de Garantia para avalizar produtos oriundos dos sistemas florestais análogos. Parece complicado, mas não é. SPGs é uma metodologia que busca garantir, de forma participativa, que um produto ou serviço é o que ele diz que é. Sistemas florestais análogos é o cultivo de plantas, principalmente perenes, tendo a natureza do local como sua referencia, como seu padrão. O adjetivo análogo se refere à natureza. Organizam-se os cultivos florestais buscando imitar a natureza. Coisa de índio. Os povos locais quase sempre operavam, ou ainda operam, assim.
Esta noite passada eu dormi em um hotel em Alajuela, que é a cidade onde fica o aeroporto, a capital da província de mesmo nome, contígua a San Jose, capital do país. Alajuela é uma cidade importante, com mais de 250 mil habitantes, e é perto do vulcão Poás, um dos pontos turísticos do país. Quem sabe no meu último dia aqui consigo ir vê-lo.
Hoje deixamos o hotel de manhã cedo em um pequeno grupo rumo a Londres, na província de Punta Arenas, no pacifico sul do país. Saímos de mais de 2000 mil metros para quase o nível do mar, exatamente descendo a cordilheira vulcânica que perpassa todo o centro do país. Paisagem linda. Viemos de Van, nove pessoas. Diversificadas. Uma mexicana, uma canadense, uma peruana, um indiano, um brasileiro (este que vos fala) e quatro costarriquenhos.
E chegamos à finca Fila La Marucha, em uma região de floresta tropical, onde chove mais de 6400 mm por ano. Apenas como referência para quem não está acostumado com números de precipitação anual, em São Paulo chove uns 1300 mm por ano.
Eu na sala de trabalho, pela noite.
E aqui estou, oito da noite, depois de uma tarde de conversas e debates sobre o tema que falei acima. O lugar é muito agradável, as construções, alojamento, cozinha e sala de reuniões são literalmente no meio da floresta, floresta esta que Milo, o norte-americano que é nosso anfitrião, e sua família, construíram a partir da área de pastagens na qual eles se estabeleceram há acerca de trinta anos. E as construções novas foram todas feitas com madeira que eles próprios plantaram. Meio do mato, um rio correndo aqui do lado, chuva intermitente, noite escura, barulhos de cigarras, rãs e outros que não identifico, um monte de vagalumes embelezando a noite e eu aqui na net. Show!
Como curiosidade, vou contar algo. Esta é a primeira propriedade certificada orgânica do país. Foi certificada em 1991, porque uma importante empresa local, a Café Britt, queria a baunilha que eles produzem aqui. A baunilha é o segundo cultivo mais caro do mundo. Qual o primeiro? Açafrão. Interessante, né? Gostei de aprender isto. Amanhã cedo vamos fazer uma visita guiada pela propriedade, aí conto mais sobre ela. Agora são quase nove, vou dormir, está ficando tarde. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 18 de janeiro de 2013.

Atravessando a pinguela...
         Dia morno hoje, sem passeios místicos e com um trabalho que poderia ter sido feito na minha casa, já que foi todo em meu computador. Até pensei em adiantar meu retorno, mas as companhias hoje colocam tantos empecilhos para trocas de passagens que fiquei só na vontade. Mas tudo bem, dias mornos também teu seu charme.
Não tendo compromisso pela manhã, não coloquei o relógio pra despertar. Acordei às seis e quinze... Os mais jovens não se assustem, velho dorme pouco. Trabalhei no computador até uma hora razoável para meu desayuno. Café da manhã de hotel, estilo buffet, com tempo, é uma maravilha né? Fiquei comendo por mais de uma hora, acompanhado do meu computador, entre notícias da politica local, do Botafogo e respostas a emails.
Com tempo livre, me dei ao luxo de caminhar uns 15 min, de mão dada com o sol, até a praça, atrás de um expresso. Ainda que a Bolívia produza bom café, aqui não se tem muito o hábito de prepará-lo bem. E, como no Brasil, o mercado interno não fica com a melhor parte. Mas na Cafeteria 24, em uma das esquinas opostas à Praça 24 de Setembro, tomei um bom expresso curto.
Sopa tapada e mocochinchi
Depois de um pit stop no hotel fomos almoçar de novo no el aljibe, já eleito o meu preferido daqui. Comemos um pastel de gallina. É um prato de forno, com um recheio a base de galinha caipira desfiada, batata e banana em pedaços, ovo cozido, uvas passa, cebola, temperos e algo de açúcar, que lhe aguça o doce já presente pela banana e pela passa. Este é o recheio de uma fina massa de trigo, tudo levado ao forno em um recipiente adequado. No visual quase parece uma lasanha. Como é bem molhado, acompanha bem com arroz. Muito gostoso, diferente, bem crioullo. Ou bem camba, na linguagem local. Comemos também a sopa tapada, prato parecido, mas com charque no lugar da galinha, menos doce, mais seco e envolto em massa de arroz e não de trigo. Gostoso, mas o pastel de galinha ganhou. E tomamos o que se tornou minha bebida da semana, o Mocochinchi.
Pastel de gallina
Saímos do almoço, tomamos um café e fomos direto a um supermercado comprar o pêssego seco que é a base deste refresco. Vou prepará-lo em casa. Nem sempre funciona isto, de se em ligar com uma comida local e tentar reproduzi-la em casa. Comida também tem contexto, entorno. Mas vou tentar, às vezes funciona. Daniel, meu filho de nove anos, agora virou um viciado em guacamole, um prato típico mexicano. Vamos ver o que meu povo acha do Mocochinchi. Comprei quinoa também, já que estou na Bolívia.
Como o sol seguiu de mão comigo, cheguei ao hotel, trabalhei um pouco no relatório da semana e fui para a piscina, tomar um banho, ler e relaxar, depois uma sauna para terminar a semana estafante. Estafante? É, acho que sim.
De noite fomos jantar em um restaurante Peruano, na Av. Monseñor Rivero, um boulevard com vários cafés e restaurantes, bem perto do hotel. E para nossa surpresa tinha carnaval! Blocos, jovens e crianças com suas fantasias e coreografias, as calçadas cheias de familiares assistindo. Um som animado, com uma forte influência da musica andina. Para quem nunca passou carnaval em outro país, é bom saber que ele não é vinculado necessariamente ao samba. É uma festa popular, meio pagã, meio cristã, o adeus à carne, visando a quaresma, e tem diferentes matizes nos diversos países. Não sei até que horas rolou a festa, porque minha carruagem está com defeito e deu para virar abóbora às dez da noite, achei melhor vir para o quarto.
Agora arrumar a mala e amanhã cedo pegar o rumo de volta. Valeu a semana, com mais reflexões que trabalho. Ganhei bastante, espero ter deixado algo também. Início de fevereiro tem Costa Rica, tudo dando certo, conto algo de lá.
Esta árvore, no Forte de Samaipata, me lembrou Saramago:
a solidão não é uma arvore no meio da planície 

onde só ela esteja, é a distância entre a 
seiva profunda e a casca,
entre a folha e a raiz..

                                                                                                                       

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 17 de Janeiro de 2013.


Almoço no campo
Encontrei uma cidade para escrever meu livro. Samaipata. E um lugar para fazer minha viagem do autodescobrimento. O Forte de Samaipata.
Para uma descoberta tão importante, até que não viajei muito. Foram 130 km, para oeste de Santa Cruz. Em direção aos Andes, mas sem chegar nele. Subimos mais de 1000 metros, chegando a 2000msnm, em uma bela paisagem subtropical, com uma densa vegetação quase sobre pedra, indicando como a região é chuvosa. Durante parte da viagem costeamos um Parque Nacional bastante comentando por aqui, o Amboró.
Estrada de Santa Cruz à Samaipata
No meio da subida às vezes deparávamos com vales e cadeias de montanhas que se perdiam na distância. E é nesta paisagem, em uma das montanhas mais altas, que está o Forte Samaipata. Forte é como eles chamam este sítio arqueológico, patrimônio cultural da humanidade. Situado a uns dois mil metros de altura, o visual é lindo e o parque muito bem cuidado. O mais impressionante é uma pedra talhada, de uns 220 x 60m. Deixa eu tentar me explicar. São ruínas de uma cidade anterior aos espanhóis, provavelmente Inca, ou conquistada pelos Incas em algum momento. No meio desta cidade esta pedra enorme, uma espécie de centro cerimonial, onde eles foram desenhando seus símbolos, altares, lugares de rituais. Sempre talhando a pedra, e não construindo, trazendo pedras ou outros materiais, colocando coisa sobre coisa, como normalmente se fazia e ainda se faz. Diferente, tipo mais harmônico com o existente.
Local de cerimonia do Forte, esta é
 uma pedra monolítica, toda talhada
A mesma pedra, com estas espécies
 de altares. Talhados.
Hoje cedo recebi a notícia do falecimento de um amigo, e aproveitei o lugar para fazer minhas orações a ele. Difícil encontrar sítio mais adequado. Normalmente estes lugares tem uma energia boa, e este não é diferente, muito pelo contrário. Agradável, peaceful. Não é por nada que Samaipata significa “descanso nas alturas”. Lugar propício para descansar a alma, uma boa pedida para o momento. Meu e da humanidade. 
Nesta mesma região estão os últimos lugares onde Che Guevara passou, tendo sido assassinado na quebrada del Churo. Existem passeios que refazem seus últimos momentos. E não muito longe tem umas Missões Jesuíticas, dizem que bastante conservadas. Mas não visitei nem um nem outro, vai ficar para a próxima.
A cidade é o que a Hebe chamaria de gracinha. Como almoçamos na casa de uma agricultora que visitamos no caminho, aproveitamos para tomar um café e comer uma sobremesa em um restaurante em frente à praça da cidade. Às duas da tarde o silencio era notável. Deu vontade de ficar uns dias por ali, usando o tempo entre passeios pela região e leituras na praça.
Vou dormir, amanhã é meu último dia nestas paragens. Quanto ao livro e ao autodescobrimento, fica para outra hora. Falta sabedoria para um e coragem para o outro.
Visual do Forte de Samaipata
Ruazinhas de Samaipata
Cozinha em uma casa de agricultores da região

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 16 de janeiro de 2013.

Seminário sobre SPGs, Santa Cruz de la Sierra, Bolívia

Passei todo o dia hoje no seminário que organizamos aqui, nas instalações de uma ONG chamada CEPAC (Centro de Promoción de Agropecuária Campesina). Correu tudo bem e foi uma boa chance para me atualizar sobre o desenvolvimento da Agricultura Orgânica por esta parte do continente. Estiverem presentes mais de 40 pessoas, uma boa parte dela agricultores da região, algumas ONGs e associações.
Em países tão indígenas/campesinos como Bolívia, este esquema de agricultura orgânica, exageradamente normatizado, regulado e certificado não é muito sedutor. Mas por outro lado as condições socioculturais, quero dizer pobreza econômica e riqueza cultural, estimula a busca da agricultura orgânica em seu sentido mais genuíno e menos formal. E assim ela vai achando seu espaço e crescendo a seu modo.
Calçada simpática do centro da cidade
de Santa Cruz de la Sierra
Passado meu longo e pouco cansativo trabalho, arrumei tempo no fim do dia para dar uma volta pelo centro da cidade, ainda bastante quente. Só andei pelas ruas movimentadas, vi um comércio vigoroso, fazendo jus à maior cidade e maior PIB do país. E o povo comprando. Produtos, bens, coisas para todo lado! Novidades, vocês sabem, já não se acha mais, quase tudo made in China!
Com um dia com mais trabalho do que passeio, resolvi ir jantar em um restaurante típico, estilo turístico, mas cheio de gente local.  Como que para colorir o meu dia, já que o trabalho foi agradável, mas em preto e branco. Se chama La Casa del Camba  e é uma boa opção para sacar a gastronomia cruzeña. Cardápio variado, espaçoso, cheio. Comemos um menu local, no estilo vários pratos em pequenas quantidades. Estava bom, e de novo pedi Mocochinchi, o tal refresco típico daqui. Tinha musica ao vivo, tipo boleros e canções românticas brasileiras. Fiquei com pena dos cantores, parece que estavam meio deprimidos. Fui embora antes que tivesse que presenciar uma cena mais forte, tipo alguém cortando o pulso Ou que eu resolvesse cortar os meus... 
La Casa del Camba
Enfim, um dia sem grandes emoções. Mas quem precisa delas todos os dias? Às vezes é bom assim, mais tranquilito, né? 
O bom é que amanhã vamos ao campo, conhecer experiências de café, apicultura, controle biológico e ainda, de passagem, conhecer a cidade de Samaipata, que fica a 120 km de Santa Cruz e seu famoso forte, que consiste na maior pedra talhada do mundo, declarada pela UNESCO patrimônio cultural da humanidade. Depois de quase três dias de hotel, reuniões e seminários nada como um dia de visitas, pegar uma estrada, de leve, conhecer experiências locais e fazer um pouco de turismo. Boa combinação, amanhã conto como foi.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 15 de janeiro de 2013

Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra

         Hoje o trabalho foi leve, uma reunião pela manhã e outra pela tarde, preparando o seminário sobre sistemas participativos de garantia que realizaremos amanhã, por sinal a principal atividade desta semana.
Com um pouco de tempo, resolvi aproveitar a hora do almoço, e demos nosso único passeio do dia. E aproveitamos para almoçar em um mui simpático restaurante, chamado el aljibe. Assim mesmo, com letra minúscula. Creio que para manter o ar de simplicidade quase sofisticada que tem o restaurante. Comida típica, local, muito bem preparada. A casa tem 130 anos, mantém seu ar rupestre e uma decoração a caráter, lembrando bem uma casa de pueblo. Mas, como deve ser um restaurante, ainda que um ambiente agradável componha bem o cenário, o mais importante é a qualidade da comida. E gostei muito do que comemos.
Keperi al horno
Eu pedi um Keperí al horno, pedaço de leitão assado, acompanhado de arroz com queijo e um pouco de mandioca. Janneth, uma amiga Peruana que me contratou para esta consultoria aqui, pediu Majado de charque. Arroz com charque, ovo e banana frita. Ótimo os dois. Mas o leitão estava sensacional, à moda antiga, gostinho de casa da vovó. Quem quiser dar uma olhada no site do restaurante, é o http://www.elaljibecomidatipica.com. E o que tomei, para acompanhar? Vinho? Cerveja? Coca-cola? Nada disto, tomei Mocochinchi um refresco feito à base de pêssego seco, com canela, cravo da índia e açúcar, típico do ocidente boliviano. Delicioso, super-refrescante.
Restaurante el aljibe, Santa Cruz de la Sierra, vista interna
E ainda passamos pelo Museu de Arte Sacra, que fica dentro da Catedral. Não gosto muito de arte sacra, que considero carregada e normalmente triste. Mas gostei de conhecer o Barroco mestiço, uma escola de arte que vi neste museu, expressada na forma de pinturas e peças em madeira ou prata trabalhadas com uma mescla do barroco trazido pelos Jesuítas e apreendido pelos nativos, que deram o seu toque. Bonito. Algumas peças em prata simplesmente impressionantes.
Acho que na verdade, todo nosso continente é meio assim, né? Mesclado, misturado, cruzado, amalgamado, fundido, mestiçado. Que bom, gosto muito disto. Se não fosse assim, um refresco a base de pêssego, cravo da índia, canela e açúcar não seria típico da Bolívia, né? Sim, acho que este refresco é um tipo de barroco mestiço também.
E no fim de tarde, aproveitando calor sem tréguas, ainda pude curtir a piscina do meu hotel caribenho encrustado no cerrado boliviano. Piscina, sauna seca e a vapor, sorvetinho para repor as energias. Como dá trabalho isto da agricultura orgânica. Por falar em trabalho, hora de dormir, amanhã tenho que moderar o seminário e justificar meus honorários!
Piscina do hotel Cortez, Santa Cruz de la Sierra

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Santa Cruz de la Sierra, 14 de janeiro de 2013

Catedral de Santa Cruz de la Sierra
Aqui estou na minha primeira viagem de 2013, em Santa Cruz de la Sierra, Bolívia. A minha geração ouviu muito, lá pelos anos 70, Diana Pequeno decantar esta cidade: "Enquanto este velho trem, atravessa o pantanal, rumo à Santa Cruz de la Sierra...". Na real é a quarta vez que venho por aqui, mas sempre me sinto enganado. Não sei se por esta música, ou por estar na Bolívia, ou talvez pelo nome, "de la Sierra", mas sei que ela engana. Não se trata de uma simpática e charmosa cidadezinha dos Andes Bolivianos, mas sim de uma cidade grande, a maior do país com seus quase dois milhões de habitantes e economia vigorosa, baseada principalmente no gás natural, madeira e pecuária. E nem é tão serra assim, esta a apenas 400 msnm.
Cheguei hoje de tarde e vim aqui para fazer um trabalho parecido com o que fiz em Honduras, na minha última viagem. Identificar o potencial e as estratégias para desenvolver um mercado local de produtos orgânicos. Passo esta semana entre seminários, entrevistas, visitas de campo. Sempre relacionado com a Agricultura Orgânica, ou seja, estou em casa. Este não chega nem a ser meu tema favorito, é na real o meu único tema. Ao menos em termos profissionais. 
Ao redor da praça, suas calçadas em arco
Como disse, não é a primeira vez que venho a Santa Cruz, mas mesmo assim fui dar uma caminhada pelo centro da cidade, ver sua Plaza de Armas e sua Catedral. Acompanhado do Sol, ao meu lado todo o tempo. Santa Cruz é muito quente. Hoje chegou a 36°. Acho que por isto que eu pingava de suor e sentia saudades do meu quarto de hotel e seus 18°. Mas valeu, ao menos vi a praça, o que sempre gosto. É que chego nestas praças e absolutamente não sei onde estou, por tantas e tantas outras a que este desenho de lugar me transporta. A praça arborizada, seus caminhos diagonais unindo suas esquinas, a estátua de um conquistador no centro, do outro lado calçadas quase sempre protegidas do sol com suas coberturas em arcos. Em frente à Igreja vendedoras de velas, na praça vendedores de comidinhas e fotógrafos, lambe-lambes modernos, com câmara digital e impressora, mas com o mesmo modus operandi e senso estético. Tudo isto envolvido pela presença do comércio, da Igreja e prédios do Estado. E de gente. Bastante gente.
Jantei no próprio hotel, o Cortez, nada especial, mas um lugar agradável, já que o hotel tem uma piscina, cercada de vegetação e mesas, um agradável calor pela noite, dando a ele um visual e um ar tropical, quase caribenho! Acho melhor dormir, porque parece que já comecei a delirar, estou em Santa Cruz de la Sierra, não em Santo Domingos ou Aruba.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Lima, 13 de dezembro de 2012.

Evento da ANPE, eu na mesa de abertura.
              God Bless America. Neste caso, a Latina. Andar por este continente é, definitivamente, um privilégio que tenho na minha vida. Saí ontem da terra dos Maias e cheguei na terra dos Incas. Passei a tarde/noite de ontem e todo o dia hoje em Lima. Considero que Lima é hoje a capital mais interessante desta parte do mundo. Cada vez mais organizada, emoldurada pelo pacífico, uma comida insuperável em sua criatividade e cuidado, lugares agradáveis para passear, como a beira-mar, os bairros de Miraflores, tão decantado por Mario Vargas Llosa, Barranco, com seu charme nostálgico, seu centro histórico cheio de história.
Além de ir dos Maias aos Incas, saí também da campesina ou texana comida hondurenha à sofisticada cozinha Peruana, com seus restaurantes mais ou menos caros, mas sempre surpreendentes. Ontem de noite resolvi gastar um pouco e ir a um dos mais badalados. E caros. Não consegui mesa, é necessário fazer reserva com meses de antecedência, mas pude comer no bar, para lá de agradável. O restaurante se chama Central, e tem em seu Chef Virgílio Martinez, um jovem de 34 anos, o motivo de sua fama. O sitio web é centralrestaurante.com.pe. Vale a pena dar uma olhada.
Parque de Miraflores, suas carrocinhas de comida.
Aí almocei hoje
Comi bem, uma entrada de atum negro, com especiarias locais, queijo de cabra e molho doce de pimenta. Depois fui por um mero assado, com purê de batatas andinas, folhas da época, um molho indescritível. Tudo acompanhado da caipirinha daqui, o pisco souer. O restaurante fica em uma linda casa de Miraflores, pude ir caminhando, e tem uma horta orgânica no segundo andar da casa. Adivinha se não fui ver e ainda conversar sobre o tema com uns funcionários? Claro que fui!
Ainda tive tempo de passear por lugares que conheço, fazer umas comprinhas de Natal, comer nos carrinhos de rua, cheios de comidas locais bastante diferentes do que normalmente achamos no Brasil, tipo hambúrguer e cachorro-quente. O Peruano é apaixonado pela sua cozinha, é seu principal motivo para o sentimento de orgulho nacional. O fato que ela, a cozinha peruana, está na moda aumentou a autoestima do país, é o que me explicam e o que eu sinto por aqui.
Parque de miraflores
Bom, mas não vim aqui em Lima para comer. Estou aqui convidado pela ANPE – Peru, a Associação Nacional de Produtores Ecológicos, com quem já tenho uma relação de mais de dez anos. Eles estão organizando hoje e amanhã um evento sobre suas “Ecoferias Frutos de la Tierra”. Feiras locais de produtos ecológicos, realizadas em diferentes províncias, expressando a agro-biodiversidade do país. Fiz uma palestra neste evento hoje de manhã. 
Agora escrevo daqui da sala VIP do aeroporto de Lima. Considerada uma das melhores do mundo, de fato é bem agradável. É hora de ir, os passageiros do meu voo estão sendo chamados. Volto para casa feliz com a trip. Valeu muito. O ano termina bem e o outro começa animado, já tenho passagens para Bolívia em janeiro e Costa Rica e Alemanha em fevereiro. Isto se o mundo não acabar.... By the way, bom fim de mundo para todos!

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

San Pedro de Sula, 11 de dezembro de 2012

Restaurante Delfin, Puerto Cortez. Honduras 
            Estou aqui em um confortável quarto de hotel, o Boutique La Cordillera, em San Pedro de Sula, cidade que responde por mais de 50% do PIB do país. Honduras é um dos países mais pobres da América Latina. Setenta e cinco por cento da sua população vive abaixo da linha de pobreza. É também um dos pontos mais críticos do planeta no que tange às mudanças climáticas, estando sujeito a fortes chuvas e ventos. Para completar o quadro, o narcotráfico usa o país como corredor entre o norte e o sul do continente. Difícil situação.
Agradável bar do Hotel Cordillera. Aí fiz meu relatório. 
Trabalhar pode ser agradável...
Hoje o dia foi reservado para viajar para cá, onde pego o avião amanhã cedo para Lima, e preparar o relatório desta consultoria. Sempre melhor deixar pronto, depois que voltamos para casa normalmente entramos em outra energia, fazer os relatórios fica muito mais complicado. Demorei uns 20 anos para aprender isto... mas a vida é assim né? Sabemos mas não fazemos. Adoro uma cena do excelente filme argentino Lugares comuns, quando o personagem principal, se referindo à sua esposa, fala: “Lili diz que a gente sabe, mas se esquece que sabe”.
Ainda arrumei tempo hoje para ir comer uns camarões deliciosos em Puerto Cortéz, cidade no extremo norte do país, ou seja, no oceano atlântico. Segundo li, Puerto Cortez é o maior porto da América Central. Como outras cidades portuárias, é muito movimentada, transito intenso de carros e caminhões e uma praia nem tão bonita assim. Valeu ter ido, não apenas pelo Restaurante Delfin, onde comemos, mas também pela estrada, 60 km envoltos em uma típica paisagem caribenha, vegetação exuberante, sol forte, calor úmido.
Típica comida campesina:
arroz, feijão, carne de porco. 
Para fechar minha estadia aqui, fomos jantar em mais um restaurante típico, o Casas Viejas. Comi leitão assado. É que de noite não acho legal comida muito pesada. Falo muito em comida, coloco fotos, mas ando comendo pouco. Devo ter emagrecido mais um pouco nesta viagem, além dos dez que já havia perdido nos últimos meses.
Fico por aqui, me despedindo de Honduras. Gostei. Do lugar e das pessoas. E do café. E vi pouco, parece que tem muito mais, quando a vida me der uma chance, volto.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Santa Rosa de Copán, 10 de dezembro de 2012



Bonita casa, em frente à praça central de Santa Rosa de Copán
Simpática cidade esta Santa Rosa de Copán. É a capital da província de Copán, no oeste do país.
Hoje de manhã tivemos uma boa reunião com algumas ONGs locais. Contribuiu muito para que eu siga tendo uma ideia da situação da agricultura orgânica aqui em Honduras. Realmente um privilégio andar pelo país, conhecer fincas orgânicas, conversar com as pessoas, fazer algo de turismo e ainda ser pago por isto! Sinceramente, sem falsa modéstia que não é o meu estilo, não mereço tanto da vida.
E ainda tive a tarde livre. Muito bom! Fiz o que mais gosto de fazer. Sair flanando pela pequena cidade, caminhando nos arredores do centro, buscando lugares interessantes, conversando com as pessoas, tomando café, fotografando portas e janelas, pensando na vida.
Pátio interno do Hotel Elvir
A cidade tem seus cinquenta mil habitantes, não é tão pequena. Tem um bonito ainda que pouco preservado casario colonial. Algumas casas, como meu hotel, o Elvir, com um lindo pátio interno. Segundo Jannet, a peruana que anda comigo, parece a cidade do Zorro. É verdade, parece a cidade do Zorro. E o Hotel Elvir seria a casa dele! Procurei, mas não encontrei, a Catarina Z Jones. Quem sabe na próxima.
Kaldi's Café, Santa Rosa de Copán
Mas sim encontrei uma bela cafeteria. Com um delicioso café. Muito bem localizada, ao lado da Igreja principal da cidade, em um pequeno calçadão, o que lhe permite colocar mesas na rua. Dentro é ainda mais agradável, com boa música, móveis de madeira e decoração inspirada na Etiópia, de onde vem seu nome, Kaldi's café. E, claro, o mais importante, bons cafés, não apenas locais, mas, também de outras partes, como a própria Etiópia ou Jamaica. Só para não deixar passar, para quem não lembra, Kaldi seria o nome do pastor que descobriu o café, quando viu suas cabras pularem alucinadas, depois de comerem certos frutinhos vermelhos.
Passei um bom tempo neste café. Trabalhando, escrevendo, pensando. Se não canso de pensar? Sim, canso. Aliás ando cansado de mim e do meu muito pensar... Sobre isto, boa é a do Homer Simpson: "cala boca pensamento, ou te enfio uma faca". Já tentei isto também, mas meu pensar parece que não tem medo.
Fui jantar em um simpático restaurante de comidas típicas, que fica na Casa Arias, mais uma das casas coloniais que comentei possuem seus pátios internos. Bem típicas do sul da Espanha. Baixinho, só para mim, recitei Machado: “mí infáncia son recuerdos de un pátio de Sevilla”. Comi de novo o que eles comem aqui no café da manhã, almoço e janta: carne de porco, ovo, feijão na forma de tutu, banana frita, tortillas.
Puertas y ventanas...
Amanha saímos cedo, em direção a San Pedro de Sula, uma espécie de capital econômica do país. E com fama de muito perigosa, é só o que e ouço por aqui. Acho que não sabem que sou do Pé Pequeno. Durmo lá e quarta-feira eu saio cedo em direção a Lima, onde trabalho na quinta e sigo pra casa neste mesmo dia. Minha pequena viagem por Honduras está terminando.

domingo, 9 de dezembro de 2012

Copán Ruínas, 09 de dezembro de 2012

Copán Ruínas, norte de Honduras
Dirigi 500 km hoje, uma parte de noite, em uma estrada esburacada e sem sinalização de nenhuma espécie. Foi tenso, já que não cansam de me falar como Honduras é perigoso. As barreiras policiais, com dezenas de homens em trajes militares e armados de escopetas e metralhadoras apontam que tranquilo não é a melhor palavra para definir o país. Mas foi tudo bem e já estou aqui em meu hotel em Santa Rosa de Copán
Hoje a atividade principal foi visitar as ruínas Maia de Copán, principal ponto turístico-cultural do país e que fica quase na fronteira com Guatemala. Impressionante.
Este é o único livro conhecido da cultura Maia.
Conta a história desta cidade. Por este livro,
que é toda esta coluna, Copán é
Patrimônio da Humanidade desde 1980.
Fiquei umas três horas caminhando por lá, uma boa parte com um guia, valioso pelas mui interessantes informações que passava, mas que não parava de falar e me impedia de conversar com os Maias... sim, a nítida sensação que ainda estão por lá, cuidando do local e usando ele sabe-se lá para que. A população da cidade da qual agora resta as ruínas era de umas 25 a 30 mil pessoas, e não é de estranhar que sua presença ainda seja sentida.
Tiveram seu auge entre mais ou menos 400 e 800 depois de Cristo. O que se sabe é que os Maias chegaram pela Guatemala, vindo do México e com sua força, oriunda do seu conhecimento e sua organização, conquistaram os povos locais, fazendo-os trabalhar para eles, inclusive pagando tributos na forma de milho, mandioca, feijão, batata-doce e principalmente cacau, considerada a moeda principal deste povo.
Nosso guia afirmou que eles chegaram da Ásia, via estreito de Bhering, que sabemos é uma das teses para explicar a colonização da América. Para corroborar sua tese, nos mostrava as bem desenhadas fisionomias das muitas estatuas existente nas ruínas e sim, são fisionomias bastante asiáticas. 
Deus Maia. Que parece Mongol,
 parece... vai saber!
Perguntei porque ocorreu o declínio desta cidade, ele disse que exploraram muito os recursos naturais, principalmente cortando todas as árvores e fruto disto vieram as dificuldades, até finalmente se retirarem. Se esta tese for verdadeira, o que acredito, não será a primeira civilização a ter em razões ambientais sua queda. E certamente não será a última.
Outra coisa legal do Parque das ruínas de Copan é que é muito arborizado, com uma vegetação exuberante, áreas com um bonito gramado e animais silvestres passeando pelos bosques. Vi um veado pastando e uma paca bebendo água... isto em dez minutos de passeio por um trilha. Com certeza com tempo veríamos araras, jaguares e sei lá mais o que. 
Reencanacionistas, enterravam seus
mortos em posição fetal para facilitar a volta.
Enfim, não posso contar aqui tudo o que vi. Só deixo a recomendação. Vale muito a pena conhecer. Ah, ia esquecendo, dia 21 o parque vai estar todo iluminado e aberto até às duas da manhã. O calendário Maia fala em uma mudança de era, muitos estão interpretando como fim do mundo. Eles esperam gente de todas as partes do planeta, aguardando este fim/começo de algo. Se eu pudesse, viria também, bom lugar de passagem.
Vou dormir. Conversando com os Maias.
Este lugar  era como um estádio. Eles tinham um jogo com bola, 
cinco pra cada lado, o capitão do time ganhador era sacrificado. 
Para ele era uma conquista se juntar aos espíritos.  
Neste estádio cabiam 20 mil pessoas.