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quarta-feira, 1 de junho de 2016

Maputo, 31 de maio e 01 de junho de 2016.

Com técnicas e agricultoras, nas machambas.
Vou me embora de Maputo. Não é uma Passárgada, mas deixa saudades. Estou aqui no aeroporto da África do Sul, já rumo à casa. Tudo correndo bem, serão exatas 24 horas entre ar e terra.
Selo que vai começar
a ser usado por aqui.
Ontem passei o dia em uma reunião de avaliação da minha consultoria e apresentando à equipe da ESSOR meu relatório, já finalizado e entregue, duas semanas antes do prazo. Levar relatório para fazer em casa só em casos extremos, não é recomendável. De minha parte foram dias muito agradáveis de trabalho. Pelo que ouvi na avaliação, para eles também foi agradável, e, mais importante, útil.
Depois do trabalho, caminhei um pouco, próximo ao hotel. Voltei à Feira Janet,  aquela que vende de um tudo apenas para passar o tempo e gastar meus últimos meticales, a moeda local. Comi de novo camarões, sempre deliciosos, no Assador Típico, restaurante português que fica no início da Av Karl Marx. Às sete da noite já estava no quarto, arrumando malas.
As mulheres, nas machambas.
Nestes 15 dias que passei em Maputo meu aplicativo me avisa que caminhei 84 km. A maior parte pela cidade. Ela não é exatamente bonita, com exceção da praia e de poucos parques municipais. Os traços que ainda guarda da arquitetura portuguesa estão em sua maioria descuidados. A arquitetura contemporânea navega entre a pobreza, edifícios pouco cuidados e casas enormes, protegidas por muros, grades e cercas eletrificadas, que não nos permitem apreciar sua beleza, se é que existe. A maior parte de suas ruas são escuras de noite e sujas de dia. Com esta descrição pouco lisonjeira, pode parecer curioso que ainda assim eu goste de caminhar por Maputo. Acho que me sinto recompensado pela gentileza e alegria de sua gente, sua comida rica em origens, aromas, cores e sabores, e pelo visual das mulheres e suas capulanas. Elas são, sem dúvida, o melhor de Maputo. Muitas vezes carregando crianças enroladas ao corpo por seus tecidos coloridos ou água, trouxas ou tabuleiros na cabeça. Sempre eretas, esguias, suas condições de vida não são suficientes para curvar sua elegância.
trabalhando...
Viajar para lugares e culturas distantes é sempre interessante. Considero vir à África um caso à parte. Não sei precisar porquê. Talvez a identidade cultural com o Brasil, tão influenciada pelo povo Africano. Pode ser também por ver de perto uma situação de pobreza com a qual me sinto, e deveríamos nos sentir todos, com uma parcela de responsabilidade. De certa forma quem tem ascendência europeia é signatário da trágica Conferência de Berlim. Ou pode ser apenas porque viemos todos daqui. Nós que em um excesso de estima própria nos auto proclamamos homus sapiens sapiens, tivemos nossa origem aqui, na Mãe África.
Como veem, não sei porque, mas estar na África é sim um caso à parte. E tem uma natural densidade, nos deixa reflexivos.
Bom, o voo me chama. Voltar faz parte da viagem.

no campo

pilando cana de açúcar, para usar
como biofertilizante

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Maputo, 29 e 30 de maio de 2016.

No campo, preparando adubos naturais.
Ontem foi mais um domingo sem ter o que fazer – na real cheio de trabalho me esperando, mas a vontade era mais de não trabalhar e passear pela cidade.
Comecei caminhando por uns três km até o Shopping Maputo, apenas para beber uma Pedras e fazer hora para o almoço. Fui atrás de um restaurante fortemente indicado por dois amigos moçambicanos, Estevão e Stelio.
Por fora do O Coqueiro
Muito interessante o restaurante. Não fica no Shopping e sim próximo, na Feira Popular, um lugar com um parque de diversões e vários restaurantes concentrados em vielas apertadas. Parece que à noite algumas boites também. O local é de visual bem popular, mas vários dos restaurantes tem cara boa, simples e arrumados. Onde eu almocei é um deles. Chama-se O Coqueiro, em uma óbvia homenagem ao coco, o principal personagem da sua especialidade, a comida zambeziana. Gostei da comida e do ambiente. Decoração muito interessante, uma cuidadosa mistura entre o cool e o kitsch. Acho que o som pop internacional em bom volume, mas não exagerado, dá ao local um certo ar cosmopolita, descolado. De sobremesa me trouxeram cocada, como cortesia.
Por dentro do O Coqueiro
Conhecer a culinária africana é conhecer boa parte da origem da culinária brasileira. Bom, não é tão simples assim, na real é uma história de idas e vindas. O coco chegou ao Brasil pelos portugueses, não se sabe se trazido da África ou do sudeste asiático. Por outro lado, o amendoim, que chegou na África originário do Brasil, faz parte de muitos pratos da culinária africana. E por aí vai, idas e vindas, encontros e interações.
Depois do almoço caminhei por outros três km até o Jardim dos Namorados para comer uma sobremesa com um expresso, à beira do Índico. A sobremesa não é tão especial, mas o visual compensa com sobras. Seguindo na séria série coisas que se faz para passar o tempo em um domingo longo fui à feira de artesanato para umas breves comprinhas e no fim da tarde mais três km até o hotel. Jantei comida indiana e fiquei vendo mais um filme africano, o quinto destes dias. Sempre tento fazer isto, ver filmes e ler livros do país ou região onde estou. Ajuda a ver o que se vê.
Com as mulheres, nas suas machambas!
Hoje, segunda, dia de trabalho. Mais um mini curso, no campo, desta vez com produtoras que já trabalham com agricultura orgânica. Conversamos sob um sol forte sobre como produzir bem usando apenas o que aqui estou chamando de "as forças da natureza". Depois fomos a uma sombra de algumas mangueiras, fazer composto e biofertilizantes, sempre na onda de aproveitar o que existe disponível no local. Foi bom, sempre bom trabalhar com esta galera.
Hoje eu soube quanto ganha um trabalhador rural nas machambas do cinturão verde de Maputo. Dois mil e quinhentos meticales, equivalentes à 50 dólares. Por mês. Me lembro bem que o primeiro "salário" que eu e Ana recebemos quando chegamos ao RS, em 1988, no então Centro de Agricultura Ecológica Ipê, eram de três salários mínimos. Para os dois! Convertidos para dólar, era exatamente 150. Por anos o salário mínimo no Brasil equivalia também a cinquenta dólares. Hoje está, se o dolarizamos, cerca de 250 dólares. Já que falei do Brasil, vou completar dizendo que quem tem mais de cinquenta anos, como eu, se lembra bem de um tempo economicamente bem mais difícil do que hoje. Para muitos, a maioria, está melhor agora, muito melhor.

mulherada cansada... trabalham muuiito!

Lindas!!!

Meu frango à zambeziana

sábado, 28 de maio de 2016

Maputo, 27 e 28 de maio de 2016.


Predicando...
Ontem minha atividade foi uma conversa no campo com produtoras do cinturão verde de Maputo, na machamba (área de cultivo) de uma delas. Falei em português e fui traduzido para o xiChangana, a língua mais falada aqui em Maputo. O português apesar de ser a única língua oficial de Moçambique, não é falado pela maioria, que se utilizam em seu cotidiano de mais de 30 línguas. É sempre interessante ser traduzido em uma língua nativa, local. Soa bem. Meu tradutor, o presidente da associação do local, se empolgou. Eu falava um minuto e ele levava três para traduzir. Que onda!
Com a galera, na machamba...
Esse tipo de trabalho é sempre um desafio. Cada situação é uma situação. Esta de ontem foi diferente, uma das mais peculiares que já vivi. Cheguei no campo e encontrei um grupo de trintas pessoas, algumas que não falam português e costumam trabalhar de sol a sol, aprendendo com a vida e não com os livros e suas abstrações. E eu tendo a obrigação de falar algo que lhes possa ser útil em seus trabalhos de horticultoras.
Como faço? Vejo a cena e tento ativar a parte dos meus neurônios que ainda funciona. Me concentro, peço ajuda às forças da natureza, e misturo experiência, conhecimento e criatividade, em doses iguais, temperando com sensibilidade para sentir o "público". Ontem parece que deu certo.
Ajuda também o fato de já há muitos anos eu ter optado por ser, dentro da agronomia, mais arquiteto do que engenheiro. Inspirado por bons mestres, me ocupo mais com a forma do que com o conteúdo, mais com a paisagem do que com a molécula, procuro mais a síntese do que a análise. Sinto que esta abordagem facilita muito a adaptação dos meus parcos saberes às diferentes realidades.
Mesquita da Baixa, aspecto interno.
À noite fui ao Loirinha. Ontem foi minha quarta sexta-feira em Maputo.  Nas três anteriores havia ido a este bar no início da noite. Virou tradição, e tradições existem para serem cumpridas. Desta vez acompanhado por alguns amigos moçambicanos, conversamos de trabalho e da vida.
Hoje, sábado, continuei fiel à tradição e usei a manhã para passear pela Baixa (o downtown) e comprar algumas capulanas e lenços na Casa Pandia. Fui conhecer a Estação Central de Trem, uma herança portuguesa do fim do século XIX e que ainda funciona transportando cargas e pessoas pelo país. Muito bonita, parece mesmo um portal para o século XIX. Depois fui conhecer a Mesquita da Baixa, bem maior do que a que eu havia visto durante a semana. Entrei, fiquei um pouco na ante sala e saí.
Estação Central de trem de Maputo
Almocei um peixe à Zambeziana, com molho de coco. Zambézia é um Estado, ao norte de Maputo, no centro do país, com uma culinária considerada patrimônio nacional e tem exatamente no leite de coco feito na hora sua característica marcante.
Passei a meia tarde no quarto e de noite fui com amigo moçambicanos ver o final da Champions League em um bar, o Beergarden. Muito bom, a galera estava animada, parecia que a partida envolvia times locais. Deu Real Madrid, nos pênaltis.

Casa Pandia, por fora.

Casa Pandia, por dentro.

Em Frente à Casa Pandia,vários costureiros prestando serviços.





quinta-feira, 26 de maio de 2016

Maputo, 25 e 26 de maio de 2016.

Eu e minhas "alunas"!!!
Ontem segui com o curso em sala de aula. Difícil a interação, difícil fazê-los participar. Minha contratante me explicou que eles aqui estão mais acostumados com esquema professor – aluno. Um fala, outro ouve. Como gosto de conversar, ouvir e falar, tive um pouco de dificuldade. Mas fui pegando o jeito
Eu com uma das "mamás"!
Ontem à tardinha tive uma boa conversa com um brasileiro, o Ranieri, com quem uma amiga em comum me colocou em contato pelo facebook. Eu queria ouvir um pouco mais sobre um projeto no qual ele participa, o Fraternidade sem Fronteiras (fraternidadesemfronteiras.org.br) 
Eles atuam em Gaza, província ao norte de Maputo, mas ainda no sul do país, buscando alimentar órfãos com fome. Trabalho voluntário e arrecadação via doações. Quem quiser, pode adotar uma criança no site, por R$ 50,00/mês e este valor é suficiente para que ela tenha três refeições por dia. Não vou me alongar, o site tem mais informações. Só quero dizer que conversas assim me fazem ter a certeza que no mundo a maior parte das pessoas são do bem. A Era de Aquário ou o Mundo de Regeneração já chegou. Se o mal salta tanto aos olhos, é exatamente porque além dele ser pouco tímido, choca a maior parte das pessoas.
Fazendo bio fertilizante.
Hoje o curso foi à campo. Fomos visitar uma machamba e depois preparamos juntos adubos orgânicos e algumas caldas usadas para nutrir as plantas. A maior parte das caldas simples, tentando aproveitar o que se tem disponível no local.
Ir ao campo é sempre a melhor parte. Nestes cursos que costumo dar, o mais comum é que a turma seja muito heterogênea. Agrônomos/as, técnicos e agricultores, com diferentes conhecimentos e experiências. A parte mais prática facilita para mim, porque trabalhando sobre coisas concretas posso despertar o interesse de todos os participantes. Além disto, naturalmente há mais participação, o diálogo se faz mais fácil. Hoje estava divertido.
De tarde, entrega de materiais e certificados, palmas e agradecimentos. Lida feita. Foi tudo bem, espero que eles tenham gostado.
Mulheres trabalhando nas machambas.
O mais bonito de Maputo são as mulheres e suas capulanas. No campo, mais ainda. As mamás, como as senhoras são carinhosamente chamadas, são um visual à parte. Trabalham concentradas, duro, mas sempre brota um sorriso farto no rosto sulcado quando minimamente provocadas com uma conversa mais amena. Chegar numa machamba e ver, do alto do terreno, uma grande várzea com dezenas de mulheres trabalhando é a cena mais bonita que tenho visto por aqui. Hoje aproveitei para conversar um pouco e tirar algumas fotos com elas. Uma delas, de blusa branca e um lenço branco na cabeça, me contou que estava a usar esta cor porque perdeu sua filha à pouco tempo, em março passado. Depois eu soube que como sinal de luto algumas culturas do país usam o preto, outras o branco.
Uma das extensionistas que fez o
 curso comigo
Jantar? Outra vez no Galaxy, o restaurante indiano. Estou virando adicto, vou ter crise de abstinência quando regressar.
Amanhã tem mais, uma espécie de mini-curso no campo, apenas com agricultoras. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Maputo, 23 e 24 de maio de 2016.


Visual do curso.
Ontem estava programado para começar um curso comigo sobre Agroecologia com extensionistas locais, a maior parte de órgãos de governo. Estava mas não começou. Algum problema de comunicação e apareceram apenas 5 ou 6 pessoas. ESSOR, que está organizando esta atividade, resolveu adiar o curso para começar hoje.
O restaurante do dia. Não ganhei a aposta...
De posse de uma surpreendente folga em plena segunda feira, resolvi ir a um restaurante Paquistanês no centro da cidade que havia chamado minha atenção. Muito simples, dei uma chance a ele, mas não fui nem correspondido nem surpreendido. A comida estava como o visual, mais para mais ou menos.
Antes de chegar ao restaurante caminhei de novo pela baixa (o centro da cidade) e pelo seu forte comércio, sobretudo de rua. Países chamados de pobres pelos indicadores internacionais normalmente têm uma forte economia informal. É impressionante a quantidade de ambulantes em Maputo. Vendem qualquer coisa. Em países pouco industrializados e com mão de obra disponível também é comum que ainda persista uma grande quantidade de trabalhos manuais. 
Aspecto do comércio de rua.
Juntando as duas coisas, ambulantes e trabalhos manuais, aqui encontramos vários serviços sendo oferecidos nas ruas, como por exemplo sapateiros, costureiros, meninas que descascam laranjas ou meninos que fazem unhas. Me chamou atenção também algumas bancas com peças velhas, de celulares e relógios velhos. Metade de um, o vidro de outro, uma pulseira quebrada... Incrível, tem comércio para tudo!  Roupas e mais roupas usadas, algumas em mal estado, sendo expostas em lonas no chão ou varais nas calçadas. Imagino que a maioria delas fruto de doações humanitárias, provavelmente oriundas de países europeus. Se eu tivesse fotos do que estou tentando descrever seria mais compreensível para quem me lê entender porque este comércio de produtos e serviços chamou tanta a minha atenção.
Lenços e Capulanas!
Durante minha caminhada pelo centro ouvi uma voz alta, ritmada, que soava ligada ao Islã. Bingo, segui a voz e achei uma Mesquita. Entrei, mas fiquei em uma espécie de ante sala, vendo os homens entrarem, tirarem seus sapatos, lavarem bem mãos e pés em torneiras especialmente dispostas para isto e entraram no local de oração. Tive vontade de fazer o mesmo, mas o respeito me impediu, já que esta não é a minha crença. Sempre são interessantes estes rituais religiosos aos quais não estamos acostumados. 
Seguindo meu breve passeio, entrei ainda em duas lojas de tecidos, uma delas muito tradicional, a Casa Pandia. São muito interessantes as capulanas e outros panos com seus motivos africanos e indianos. Por falar em indiano, ontem à noite, comi pizza no restaurante indiano. Não recomendo.
Minha janta: naam com manteiga na brasa e queijo,
ervilhas e tomates em um molho delicioso.
Hoje o curso correu bem, mas não ótimo. Tive minhas dificuldades de adaptação ao local, tanto às pessoas quanto à realidade. Este trabalho no cinturão verde de Maputo é feito com muito pouca terra, parcos recursos econômicos e mesmo naturais. Tenho que me virar nos trinta para adaptar meus conhecimentos agroecológicos a algo que faça sentido aqui. Acabo de passar três horas readequando conteúdo, para ver se amanhã acerto mais na veia. Veremos.
Janta? De novo no indiano. No Brasil não temos restaurantes indianos baratos, os que conheço são sempre sofisticados e caros. Aqui são bem acessíveis, acabo não resistindo.

domingo, 22 de maio de 2016

Maputo, 22 de maio de 2016.

Capulanas, variações de panos e roupas na FEEMA.
Moçambique está no sudeste da África, na reta da Austrália, bem em frete a Madagascar pelo mapa plano que normalmente visualizamos. É um país economicamente pobre. Em renda por habitante está entre os quinze mais pobres do mundo, segundo a ONU. Todos estes quinze países são Africanos. É muito difícil entender este planeta e os seus habitantes.
Maputo e cidades vizinhas concentram cerca de 15% da população do país, hoje estimada em 25 milhões. Naturalmente, como capital, oferta produtos e serviços incomuns em outras partes do país. O que quero dizer é que Maputo, mesmo com visíveis problemas de infraestrutura e organização, não espelha a miséria do país. Infelizmente, acho que ainda não será desta vez que terei a oportunidade de conhecer além da capital. Lamento. Ver uma capital nunca é ver um país.
Índico a partir do Jardim ds Namorados!
Maputo é uma cidade interessante, ainda que eu não possa indicar como um bom roteiro de férias e nem entre no rol das mais bonitas que conheci. Mas tem mar, boas praias, alguns pequenos e bem cuidados parques municipais, relativamente segura, boa comida, bom clima (está a 26° de latitude Sul), população muito amigável.
Hoje, domingo, não tinha absolutamente nada para fazer. Passei o dia esperando o dia passar, o que não é necessariamente ruim. Caminhei por lugares por mim dantes caminhados e pude confirmar a sentença: o medo alarga distâncias. Desta vez, muito mais tranquilo e me sentindo em casa, tudo está mais perto. Fui ao Jardim dos Namorados, passeei pela orla e fui até a Feima, uma feira de artesanato. Minhas companhias foram meu iPhone (tenho que confessar, acho o consumismo um dos grandes problemas da humanidade, a Apple tem perversas práticas de obsolência precoce planejada, mas eu amo meu iPhone...) um croissant de chocolate, um doble expresso, uma Laurentina premium, meu almoço, uma água pedras. E um livro do Mia Couto, "Antes de nascer o mundo". Excelente leitura, como tudo que já li do Mia Couto.
Nhagama preparado com coco, amendoim e camarão. 
Almocei na Feima, em um quiosque/restaurante de cozinha moçambicana. A comida aqui é um caso à parte. A influência indiana na culinária local, aumenta a oferta de aromas e sabores. Amendoim e coco é muito usado, assim como folhas – couve, folha de bata-doce, folha de feijão, caruru e outras. E ainda tem vários restaurantes indianos e portugueses, aumentando as possibilidades por excelentes rumos. Hoje experimentei um prato local feito de nhagana (folha de feijão fradinho), que se prepara com amendoim. A receita que comi ainda levava leite de coco e camarão. Muito bom.
Cheguei no hotel e fiquei entre um pouco de trabalho, leituras, escrever, facebook, instagram e netflix. Tudo isto acompanhado de yogurte e chocolate... Depois de cinco horas nessa lama, resolvi dormir. Amanhã tem mais.

sábado, 21 de maio de 2016

Maputo, 20 e 21 de maio de 2016.

Passeio na Orla, ao lado do Índico.
Ontem amanheceu chovendo. O trabalho começou com visita a potenciais espaços para a comercialização de produtos orgânicos em Maputo. Meu esforço é readequar meu chip para trabalhar com a escala possível aqui, neste momento. A produção e consumo de orgânicos é incipiente, e o contexto não é muito favorável. Depois da visita, uma breve reunião com parte da equipe para conversar sobre minhas impressões e sugestões. Foi um bom dia de trabalho.
Com o Stelio e o Paulo, dois amigos moçambicanos,
no bar da piscininha, conversar e
comemorar o aniversário do Paulo
Caminhei um pouco durante o breve entardecer e, por volta das cinco e meia, o dia se cobrindo e a lua cheia estampando o céu, fui a um bar que eu já conhecia e do qual guardei boa recordação. Chama-se Loirinha. Ao visitar pela segunda vez uma cidade, é quase inevitável voltarmos a pelo menos alguns dos lugares que estivemos na primeira vez. Não apenas por havermos gostado, mas também por uma busca de, vendo o visto, nos sentirmos em casa, confortáveis.
Hoje segui no mesmo diapasão, de ver o visto. Ao menos pela manhã. Passei outra vez pelo mercado Janet, que de novo me surpreendeu por seu tamanho e pela diversidade das bancas/produtos. Conversei um pouco com o dono de uma banca de cabelos. Segundo ele, naturais, e de fato pareciam, provenientes da Índia. Que viagem... em todo o mercado são dezenas destas bancas e seguramente são milhares de cabelos. Não comprei nenhum.
Cena urbana - Maputo
Segui caminhando até a "baixa", o centro da cidade. Ali fui no Mercado Central, que como todos mercados públicos hoje em dia, tem mais produto industrializado do que fresco, mais coisas de fora do que locais. Mas a arte é apurar a vista e ver o diferente. Em uma das bancas, um senhor me fez provar uma semente de moringa, planta medicinal que segundo ele é indicada para mais de trezentos diferentes problemas. Fui na internet, a planta é a moringa oleífera, e de fato usada desde sempre como medicinal, recebendo o apelido de milagrosa. Só com a sementinha que provei já me sinto outro. Ou talvez seja efeito mesmo dos dois expressos que acabo de tomar no Bella Madallena, restaurante no qual da outra vez que passei um sábado aqui tomei um café e fiquei escrevendo. Exatamente como agora. É um truque. Ativar o sentido de pertença neutraliza a solidão.
Expresso no Bella Madallena.
Depois do café, provei mais uma dose do conhecido, comprando capulanas na tradicional loja Elefante e fui ao novo. Comprei um livro da Paulina Chiziane, prestigiada escritora moçambicana, no shopping Maputo e fui passear um pouco pela orla. É bonito estar ao lado do Índico. Tão bonito que resolvi almoçar com sua companhia, no mercado de peixes. Como é comum nestes mercados, é possível comprar o que se quer e pedir aos restaurantes locais para preparar. Fui de camarão, como sempre. Comprei os pequenos, que eram grandes. Razoavelmente preparados, o ambiente em frente ao mar estava melhor do que a comida. No conjunto um belo almoço, que terminou depois das cinco, ou seja, quase noite.
Aí foi caminhar um pouco para ver o fim do dia sobre o Índico e pegar um táxi rumo ao hotel. Cheguei as seis e nem pensei em sair de novo. Entre trabalhar um pouco, ler e escrever, se foi a night e o sono chegou.

Não tenho nem ideia do que farei amanhã. Amanhã vejo.
Uma parte de uma das muitas bancas de cabelos.

Mercado Central de Maputo.

Onde comi, no Mercado de peixes.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Maputo, 19 de maio de 2016.

Visita ao campo da Comissão de Ética do SPG de Maputo
Hoje foi o dia um pouco diferente, ainda que a maior parte tenha sido no campo. Uma das minha tarefas aqui é colaborar com a implantação de um Sistema Participativo de Garantia para a produção orgânica que a ESSOR tem estimulado junto aos agricultores. Quando estive aqui em 2014 um dos produtos da minha consultoria era deixar um possível desenho de como este sistema poderia funcionar. De lá para cá eles trataram de colocar em operação um piloto deste sistema.
Minha amiga D. Elza
Um dos momentos previstos era uma reunião do que chamamos de Comissão de Ética, que deve gerir todo este processo e definir, a partir de documentos oriundos do campo e de eventuais visitas às machambas, quais agricultores devem/podem ou não serem certificados.  Foi o que fizemos hoje, a primeira reunião da Comissão de Ética do Sistema Participativo de Garantia (SPG) da Cadeia de Hortícolas Saudáveis de Maputo. Nome grande, e para mim cheio de significado. Eu me envolvo com este tema desde antes dele ser um tema e ter um nome ou um conceito. Há 25 anos era só uma intuição de que algo nesta linha deveria existir. Vê-lo hoje ser considerado um método válido por várias legislações, com o envolvimento real de, e beneficiando, milhares de produtores em dezenas de países deixa uma sensação agradável. Muito agradável.
No campo, fomos à mesma machamba que fui ontem, quando estava apenas a Dona Elza. Hoje a filha, Lisete, também estava. UÉramos umas doze pessoas, representando diferentes setores envolvidos no trabalho, governo, ONGs, agricultoras e consumidoras. Muito agradável, visitamos, conversamos muito sobre o belo manejo que elas fazem e de tarde fomos para reunião de escritório, onde foi aprovada a certificação de 35 famílias. Que beleza!
Em uma saída lateral do mercado Janet. 
Hoje tive pouco tempo pra passear, mas acabei encontrando um mercado público, com muitas bancas. "Mercado Janet". Perto do meu modesto hotel, ao lado da Catedral, na Av. Mao Tse Tung. Uma viagem... nas suas dezenas de bancas tem absolutamente tudo. Podem acreditar, tudo. Churrasqueira, pimentas, produtos de limpeza, arroz, cosméticos, artesanatos de palha, salões de beleza, kiwi e costureiros. Camarão, ratoeira, maçã, botas, feijão, cabelos, adaptadores, carne, roupas, aguardentes. Tudo. Vou chamar a limpeza e organização de peculiar. Fica bom né? Peculiar.
De noite voltei pela terceira vez na semana no Galaxi, restaurante indiano aqui próximo de onde estou hospedado. Não é ótimo, mas é honesto. Só para lembrar, Maputo é banhada pelo Oceano Índico, mais na reta da Austrália, mas ao longo dos séculos foi rota das chamadas grandes navegações, e recebeu muita influência da Índia.
delicioso...
Comi um frango ao curry (aqui aportuguesado para caril) muito bom. Com arroz e um naam, pão indiano, com queijo caseiro, alho e piri-piri.
Na TV ligada, o jornal repercute a declaração que o ministro da economia fez ontem no Congresso Nacional. País em crise, é o que se fala por aqui. 

quarta-feira, 18 de maio de 2016

Maputo, 18 de maio de 2016.

Machamba com práticas agroecológicas.
Estar em Maputo tem me feito refletir sobre como este planeta são vários em um. Sim, acho realmente que muitos de nós vivemos e representamos planetas diferentes. Indo hoje para o trabalho, passei por um caminhão cheio de policiais militares na carroceria. Vestidos a caráter e armados até os dentes, todos portando metralhadores ou fuzis. Lembrei-me de uma vez que fui passear por Seul de noite, e passei pelo fim de uma manifestação. Haviam policiais, para qualquer eventualidade. Armados com cassetetes. apenas com cassetetes, sem armas de fogo. São muitos planetas... e aqui não quero simplificar comparações ou fazer nenhum juízo de valor, estou só divagando.
A irrigação das áreas é toda feita com regadores. Este aí está
com corda porque a vala onde pegam a água é um pouco
mais profunda. Uma boa parte do tempo despendido
com a produção é irrigando. 
Hoje outra vez passei o dia visitando as áreas de cultivo, as machambas, acompanhados pelos técnicos da ESSOR. Com foco naquelas que estão sendo cultivadas sem veneno, com enfoque agroecológico.
Para muitos habitantes deste planeta aqui, satisfazer as necessidades materiais mínimas requer esforço máximo. E não falo apenas pelas conversas profissionais ou leituras sobre indicadores econômicos. Posso ver isto no meu trabalho a campo, ao passar de carro pela periferia ou caminhando pelo centro da cidade.
Neste contexto de escassez de recursos e excesso de carências, o trabalho com agricultura orgânica deve ser feito com alguns cuidados. Diminuir custos de produção deveria tomar mais importância do que agregar valores sócio-ambientais ao preço de venda. Afinal, o custo da alimentação é um percentual grande da renda de uma família, e economizar é necessário, mesmo à custa da saúde da família ou do planeta.
Dona Eliza. Sensacional! Esta senhora
planta mais de um hectare de horta
e tem três funcionários.
Seria até simples, produzir barato e vender barato, se os planetas não se misturassem. Além de Brasileiros e portugueses, são muitos outros europeus, norte americanos ou japoneses por aqui.  A maioria trabalhando para organismos de cooperação internacional ou grandes empresas com negócios no país. Naturalmente ganham altos salários. E alguns trazem de seus países a demanda por produtos orgânicos. Por consequência, são os consumidores com potencial de demandar estes produtos, pagando por eles um sobre preço. Este sobre preço acaba sendo sedutor para que famílias produtoras optem por mudarem seu modo de produção. Quebrar esta cadeia de pobre produzindo para rico produtos nobres, enquanto a imensa maioria segue comendo o possível, não parece uma tarefa para este local neste momento. Vamos ter que esperar a Era de Aquário. Já chegou? Putz...
Tudo bem, me adapto, e tento contribuir para que os agricultores e agricultoras tenham a melhor produção, com menor custo e maior volume de venda.
De tardinha, sai para caminhar. Fui pela Av. Lenine, passei pela Av. Mao Tse Tung e fui até a Av. Eduardo Mondlane, virei a direita e fui dar na Av, Karl Marx (como veem, a galera está toda aqui), e parei em um simpático restaurante português, onde já havia estado da outra vez que estive em Maputo. Chama-se Assador Típico. Deixei o bacalhau para outro dia e fui de camarão ao alho e óleo com batata frita. Digamos que um fish and chips turbinado. Para beber uma Laurentina Premium, a única puro malte que achei por aqui. Tá de bom tamanho.
Vou dormir que amanhã tem mais.

minha jantinha

Casinha de apoio no campo. se prepara o almoço fora, olha os
utensílios ai ao lado.
depois do almoço, lavar a loiça!