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quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Santiago, 07 de dezembro de 2016.

La Chacona
Meu dia foi quase todo passeando por Santiago. É uma capital bonita, entrecortada por morros e ladeada pelos Andes. Por onde andei, ruas bem cuidadas e arborizadas. Vários parques colocam ainda mais verde na paisagem urbana. 
Rua no Bella Vista
Saí do meu hotel, no bairro Providencia, e fui direto à casa de Neruda, que fica em Bella Vista. Antigamente Bella Vista seria chamado de bairro boêmio, mas hoje deve ser cool, hipster, descolado, milênio - sei lá. Minha filha sempre tenta me explicar as diferenças mas eu não entendo. Vou ficar com legal. Bella Vista é um bairro muito legal. E é lá que está La Chacona, uma das três casas onde morou o poeta Pablo Neruda, um dos maiores escritores do século XX, e que hoje funcionam como museus. As outras são La Sebastiana em Val Paraíso e Isla Negra, que fica nesta ilha decantada por ele em seus versos. Chacona é um nome quéchua que significa descabelada, apelido pelo qual Neruda chamava a Matilde Urrutia, sua amante que se converteu na última das três esposas que ele teve e com quem ficou até sua morte, em 1973. 
Rivera retrato a Matilde de perfil e frente
no mesmo quadro. De quebra,colocou
um perfil de Neruda em seu cabelo
Sempre acho inebriante estes espaços, onde podemos entrar em algo da atmosfera e na vida destes personagens tão marcantes. Seu espírito irrequieto, seu senso estético e sua cultura se fazem notar em cada espaço da casa. Além de suas notáveis amizades, como com Diego Rivera, grande artista mexicano. Na parede de um dos cômodos da casa vemos um quadro pintado por ele com um retrato bastante original de Matilde.
Passei o dia com uma dose de emoção tilintando em mim, por esta visita a Neruda. Não é dos poetas que mais li, mas sua vida e obra emocionam. Ele no "O carteiro e o poeta", ensinando o carteiro a fazer verso. Ou nos deixando algo como: "Amo o amor dos marinheiros, que beijam e se vão / em cada porto uma mulher os espera / os marinheiros beijam e se vão / um dia, deitam-se com a morte no leito do mar". Ou "porque em noite como estas eu a tive entre meus braços / ... / é tão curto o amor e tão longo o esquecimento". Ou militando com Diego Rivera e García Lorca por um mundo mais justo. Sim, não é à toa que me emocionei.
Visual do Mercado La Vega
Acompanhado de uma gostosa nostalgia, saí de La Chacona e fui andando pela rua Antônia Lopez de Bella, passando por uma zona de intenso comércio popular e cheguei ao Mercado La Vega. Um dos maiores que já vi, acho que porque mistura atacado e varejo de frutas, hortaliças, nozes, castanhas, frutas secas. Mas vende tudo, carne, peixe, cereais, comidas para cachorro, roupas, e por aí vai. Para quem gosta de ambientes organizados e cheirosos, não recomendo. Mas bem oportuno para ver e sentir algo local, seus produtos e dinâmica de negociação. Eu gostei muito de conhecer.
Segui caminhando, passei pelo Mercado Municipal, agora transformado quase todo em um espaço para restaurantes mais turísticos. Este sim, mais tranquilo e organizado. e com algumas lindas bancas de peixes e frutos do mar, frescos.
Mercado Municipal de Santiago
Do Mercado Municipal segui pelo Paseo Puente, um dos calçadões no centro da cidade, até a Plaza Mayor. Muita gente, limpa e organizada, rodeada por seus palácios políticos e religiosos. Segui caminhando pelo centro, com paradas para almoço e cafés. Ainda com a atmosfera que Neruda me deixou, resolvi ir ao Museu de Belas Artes de Santiago. Por alguma razão acho que melancolia e arte combinam. 
Bonito o Museu, tanto o prédio como suas coleções. Destaque para José Pedro Godoy e sua exposição intitulada "História Violenta e Luminosa".
Godoy, História Violenta e Luminosa.
Fim do dia encontrei aqueles que me acompanharão esta semana aqui no Chile. José, boliviano, Rafael, brasileiro, Matilde, argentina. Na madrugada chega Vanessa, mexicana. 
Estamos aqui para mais uma etapa do intercâmbio entre Sistemas Participativos de Garantia para a produção ecológica, que o Centro Ecológico, organização que trabalho, está apoiando. Quinta e última etapa, depois de Bolívia, Brasil, México e Peru.

Cheguei um dia antes exatamente para rever um pouco da cidade, já que a última vez que estive aqui foi em 2007. Quase tinha me esquecido como Santiago é um ótimo lugar para se estar. Amanhã vamos visitar propriedades orgânicas. Pouco bom!

Azeitonas, no La Vega

Peixes, no Mercado Municipal de Santiago

sábado, 19 de novembro de 2016

Ayacucho, 19 de novembro de 2016.

Patricia, Evelyn, Maximiliano, Eusebio, Maurizio,
eu e Andrea.
Já comentei que vim ao Peru várias vezes, desde 1997. Uma das coisas que aprendi é que para entender a idiossincrasia do povo Peruano é importante saber um pouco do que representou para eles os aqui denominados anos de violência, nas décadas de 80 e 90. Para ouvir um pouco mais sobre isto fomos ao Museu da MemóriaAyacucho foi a cidade que mais sofreu pelas ações do Sendero Luminoso, que se imaginava uma guerrilha de esquerda. 
Museu da Memória
Quando o Governo Peruano percebeu que as ações do grupo liderado por Abimael Guzmán não era apenas de "ladrōes de gado", as forças policial e militar entraram em ação, o que resultou em mais violência às famílias campesinas. Em seus depoimentos elas comentam que viviam permanente entre estes dois lados bastante violentos. Esta história está fartamente documentada e é muito fácil buscar informações sobre ela, portanto não vou discorrer mais aqui. Apenas deixo o registro do quanto  me impressionou o Museu da Memória e os inúmeros casos ali contados sobre filhos que saíram para estudar e nunca mais voltaram, pais ou mesmo famílias inteiras assassinadas cruelmente por um lado suspeitar que esta família apoiava o outro. Uma última informação que me surpreendeu muito: o Sendero Luminoso ainda atua em algumas regiões do norte de Ayacucho.
Batata, onde ela gosta de estar: nos Andes!
Mas o dia não começou com a visita ao Museu da Memória. Antes das sete da manhã estávamos de pé, aceitamos o convite da minha amiga Patrícia Flores e fomos visitar uma família  campesina perto de Ayacucho. O Sr. Maximiliano preside uma associação de 13 criadores de cuys (preás) tão apreciados nos países andinos. Além de criar cuys, ele cultiva batata, milho, feijão, abóboras e 2 hectares de quinua, branca e negra. Uma observação: tem que saber muito para fazer tanto, em um ecossistema tão extremo, pouco abundante em vida. Ao fim da visita nos ofereceram um café da manhã. Carne de porco frita, batata assada e milho cozido. Para beber, chá e chicha de jora, um fermentado de malte de milho, ainda do tempo dos Incas, que pode ou não ter diferentes teores alcoólicos. O de hoje era novo, sem álcool.
Litoescultura dos Wari
No dia ainda coube uma breve passada no VIII Encontro Nacional de Sistemas Participativos de Garantia, evento que me trouxe a Ayacucho e uma visita ao Museu Histórico Regional Hipólito Unanue, cheio de informações sobre a colonização dos Andes, desde o século XXIII AC, e o desenvolvimento de inúmeras culturas, que se sucederam ao longo dos séculos, em uma história de invasões e conquistas. 
E tive pouco tempo para comprar os famosos artesanatos de Ayacucho. Vou ter que voltar...
Agora já no aeroporto de Lima, oito da noite, esperando o voo para Porto Alegre, com mais uma viagem na bagagem. Hoje, enquanto arrumava a mala, fiquei ouvindo Mercedes Sosa. Uma das suas famosas canções que eu ouvi dizia: “Gracias a la Vida, que me ha dado tanto...”.

essas mulheres...

...e suas roupas maravilhosas!


Lima e Ayacucho, 17 e 18 de novembro de 2016.

4.756 msnm, a caminho de Ayacucho
Ontem, quinta-feira, trabalhamos pela manhã e passeamos pelo interessante Centro Histórico de Lima na parte da tarde. Mas, digno de nota mesmo foi a viagem à noite para Ayacucho.
Plaza de Armas, centro histórico de Lima

Eu sempre me encanto com a possibilidade de viajar pelos Andes. Claro que de noite, menos interessante. Mas quando amanheceu estávamos pela parte mais alta, que hoje chegou a 4764 metros. É bastante. Senti um pouco o que aqui eles chamam de "sorocho" ou "mal de altura". Dor de cabeça e mal estar no estômago. Mas o mal estar foi facilmente compensado pelo visual. Geadas e morros nevados, a partir do ônibus aquecido, estava sensacional. A estrada é erma, alta, cheia de curvas e perigosa, margeando precipícios. 
Cena urbana, Ayacucho
Um mostrador digital nos mostrava a velocidade do ônibus. Nesta altitude quarenta, cinquenta quilômetros por hora, nunca que mais que sessenta.
Chegamos em Ayacucho às oito da manhã e foi tempo de passar no modesto hotel, para dizer o mínimo, e ir trabalhar.
Ayacucho é uma cidade relativamente grande dos Andes Peruano. Segundo o Wikipedia tem 250 mil habitantes e está localizada a 2800msnm. Viemos aqui, eu os amigos de diferentes países que estamos passando a semana no Peru, para o VIII Encontro Nacional de Sistemas Participativos de Garantia. Cerca de 250 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras. 
As super mulheres de Ayacucho e suas
batatas maravilhosas
Paralelo a este encontro uma feira com uma linda oferta de produtos ecológicos. Comprei quinoas - branca, vermelha e negra e cafés em grão e moído. Vi muita kiwicha, chia, batatas e milhos coloridos, cacau em grãos ou em tabletes, pães, mel e derivados, hortaliças e etc. Tomei um sorvete de leite, açúcar e amendoim, típico região, feito na hora, o muyuchi. Gostosinho.
oferendas à pachamama
Para a inauguração da Feira fizeram uma cerimônia da Pachamama, um ritual com oferendas à Mãe Terra e que é parte importante da mitologia dos povos andinos.
Antes do jantar fomos a um centro de artesanato. Não é sem razão que Ayacucho é considerado a Capital da Arte Popular e do Artesanato do Peru. Hoje descobri que muitos dos artesanatos que sempre vi em diferentes regiões do país são daqui. Amanhã tenho que comprar algo, não posso passar em branco!
Jantamos em um pequeno grupo, agricultores orgânicos peruanos e alguns estrangeiros. Fidel, mexicano, apareceu com sua garrafa de Tequila. Maurizio, de Cochabamba, trouxe um licor de folhas de coca, feito por ele. Rosita, a presidente da Associação Regional de Produtores Ecológicos de Ayacucho, ofereceu duas jarras de pisco sour, uma espécie de caipirinha comum no Peru e no Chile. Como dito no Rio Grande do Sul, feito o carreto. Passamos algumas horas entre conversas sérias e boas risadas.

Tres leches. 
Agora, onze da noite, resolvi dar uma volta pela praça e vi um café, o Via Via, que me convidou para uma sobremesa, na sua agradável varanda de frente para a Plaza de Armas, a praça principal da cidade. É meu terceiro três leches da semana. Não me queixo.

Está esfriando, vou para cama. Amanhã saímos às sete da manhã para visitar uma propriedade rural. Veremos o que nos espera. Se conseguir conto aqui que Ayacucho é o local de uma importante batalha que deu início aos processos de independência da América espanhola. Também nos anos de atuação do Sendero Luminoso esta cidade foi palco do medo e do terror vivido pela população civil.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lima, 16 de novembro de 2016.


Agricultoras peri urbanas de Vila Maria del Triunfo
O dia começou cedo, com uma visita a uma experiência de Agricultura Ecológica Urbana em Vila Maria do Triunfo, município vizinho à Lima. Um hectare manejado por 48 famílias, divididos em 4 grupos. Fomos muito bem recebidos pela Dona Gregória, que nos contou que elas começaram sugerindo ao poder público a agricultura urbana como forma de manejo dos parques que a prefeitura não tinha recurso para manter. A Sra. Gregória conta que foi de casa em casa convidando quem tinha algo plantado em sua casa, o que dava a ela uma pista que eles gostavam de agricultura. Achei demais isto. 
Dona Gregória, sua linda!
Chamadas de loucas no início, agora muitos querem participar e ter acesso a um espaço, pois além de melhorar a alimentação da família ainda sobra um excedente para vender em pequenos mercados. Durante anos foi proibida a participação de homens, segundo ela pelo machismo existente. Agora a situação mudou, e homens também participam.
São dez hortas na região, envolvendo diferentes municípios. Buscaram a ANPE, conseguiram ser sócias e integrantes do esquema de certificação participativa de ANPE, acessando por esta via alguns mercados.
Como já mencionei a maioria é de mulheres, que vivem na periferia de Lima, em condições de pobreza econômica e escassez de serviços básicos. Vieram de diferentes regiões do Peru e posso imaginar não encontraram na capital o que vieram buscar. O sonho de uma vida melhor, longe das condições extremas que muitas vezes imperam no contexto da agricultura campesina no interior do país, quase sempre não se concretiza. A maneira como as Senhoras nos receberam e pela emoção que expressaram ao nos descreverem seus trabalhos, deixou a impressão que estas hortas urbanas cumprem para elas o papel de ponte, entre um passado vivido e o futuro sonhado.
Horta na periferia.
Depois fomos em outro distrito, visitar a duas das doze sócias do grupo Ecosumac. Curioso nome, cosmopolita, junta o grego e o quechua e significa casa bonita. São também membros da ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos. Dona Justina desde 2014 produz cuy e porcos e Alicia produz deliciosos sorvetes artesanais com frutas orgânicas produzidas em parte no hectare que ela cultiva.
Bom voltar a ver a periferia de Lima. Como em quase todas nossas cidades latinas, passeios por seus bem cuidados bairros centrais não espelham a vida da maioria da população. 
Periferia de Lima, vista desta a horta ubana de
Vila Maria do Triun
Depois do trabalho um breve passeio pelo Parque Kenedy, ponto central de Miraflores. Caminhamos, compramos algo de artesanato e paramos um pouco em um dos restaurantes da Calle de las pizzas, uma rua muito conhecida por aqui, no coração de Miraflores, cheia de restaurantes barulhentos e de qualidade duvidosa.
À noite fui jantar no restobar Posada del Angel, em Barranco. Uma linda casa, com todos seus ambientes tomados por mesas, cadeiras, poltronas ou sofás, não necessariamente bem cuidados. A decoração do ambiente que fiquei, tipo a sala da casa, obedece ao nome do lugar e é recheada de anjos, a maioria católicos, sob a supervisão dos arcanjos Uriel e Gabriel. Mas não faltam expressões de divindades hindus ou budistas. Estátua da Virgem Maria, telefones antigos, luminárias coloridas, quadros de Charles Chaplin ou pétalas de rosas sobre o carpete antigo também fazem parte da eclética e ecumênica decoração. Boa comida e música ao vivo completam o cenário. Gostei, voltaria lá.

Amanhã reuniões e às oito da noite viagem de ônibus para Ayacucho.

Rede dos grupos de agricultura urbana

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Lima, 15 de novembro de 2016

Filho do Sr. Gilberto. Que mirada...
Passei o dia cantarolando Milton Nascimento. Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será...
Uma das hortas que visitamos.
Hoje fomos ao campo, não em uma boleia de caminhão, mas em uma pequena van, com amortecedores vencidos, banco sem molas e entrada permitida ao calor e ao pó. Com oito lugares, em alguns momentos éramos 13. Foi interessante. E divertido. Nem só de VIP lounges ou Uber Black vive o homem.
A primeira visita foi em Carapongo, cerca de uma hora e meia de Lima. Visitamos algumas das oito famílias da "Associação de Bioprodutores de Carapongo La Esperanza". Esta associação faz parte da APARL - Associação de Produtores Agroecológicos da Região de Lima.  Por sua vez a APARL integra a ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos do Peru.
O grupo La Esperanza e nós, os "estrangeiros".
O primeiro produtor que visitamos foi o Sr. Gilberto. Desde 2008 sua produção é orgânica e ele já foi certificado pelo método que se conhece como auditoria ou terceira parte. Agora integra o SPG liderado pela ANPE. SPG - Sistema Participativo de Garantia, é um método que permite que os próprios produtores, de forma organizada, atestem a qualidade da sua produção. O SPG, além de ser mais barato, propicia uma troca de olhares e experiências que significa um valor agregado em relação ao sistema de certificação por terceira parte.
Na visita nos explicaram como funcionam. Vou tentar contar em breves palavras. Para começar, aquele que deseja ser certificado deve integrar um grupo de no mínimo seis famílias. Este grupo elege um deles como avaliador interno. Todos devem velar pela qualidade ecológica da produção. 
"milho de polenta"
Este avaliador interno participa de algumas etapas de capacitação para apurar mais seus conhecimentos sobre a produção ecológica e sua percepção sobre a confiabilidade do trabalho desenvolvido por cada família e para preencher os inevitáveis papéis exigidos no mundo da certificação. Fazem dois tipos de visita. Uma anunciada e outra de surpresa. Esperanza, uma simpática produtora, é a avaliadora local. A avaliação feita por esta avaliadora irá ser analisada pelos grupos e eventuais problemas serão resolvidos neste âmbito. Esta avaliação, após discutida em grupo, irá para uma instância que se chama Conselho Regional do SPG, que irá definir se o produtor está ou não apto a ser considerado orgânico. Esta decisão o Conselho Regional, integrado por lideranças de produtores e consumidores, além de outros setores, como ONGs e Universidades, irá tomar a partir dos documentos recebidos e uma visita por amostragem em cerca de 20% dos produtores. Quando passa por todas estas etapas, a família recebe um atestado de produtor ecológico. Atestado e não certificado, pelo fato do SPG não estar reconhecido pela legislação peruana que trata da regulação e controle da produção ecológica. Esquema interessante – tem mais elementos, mas tentei ser breve na descrição. A outra possibilidade é contratar uma empresa de certificação. Paga, preenche uma série de formulários exigidos, é avaliado e se tudo está ok recebe seu certificado. 
Visual no campo, em Santa Eulália.
O grupo La Esperanza era certificado por uma empresa, e cada família pagava de mil a dois mil dólares por ano. Com o SPG não pagam nada, apenas precisam participar, ou seja, usar parte de seu tempo. Mal comparando, é como cortar grama do meu quintal, posso fazer ou posso pagar alguém para fazer para mim. 
Uma última coisa sobre isto: Com a perda de mercado por parte das empresas certificadoras, não é de se estranhar que elas fazem um constante trabalho de lobby junto ao governo nacional para manter os SPGs fora do marco legal. No Brasil se passou o mesmo, e, finalmente se conseguiu a incorporação dos SPGs na legislação que trata do tema. Com isto, as empresas perderam mercado e se viram compelidas a baixar seus preços.
Bom, este longo parágrafo acabou virando aulinha sobre certificação – vou deixar assim, já acho que muitos dos apreciadores dos produtos orgânicos não sabem o que está entre eles e aquele “selo” que os identifica nas prateleiras.
Cuy. Nosso almoço de hoje. 
Mas teve mais. A segunda parte da visita foi em Santa Eulália, um pouco mais longe, a um grupo de mulheres que produzem hortaliças e preás. Sim, preás, aqui chamados de cuys e muito comuns na alimentação na zona do altiplano. Hoje comemos cuy no almoço. Prefiro chamar cuy do que preá, me sinto menos ogro.
Fim do dia, cansados, foi tempo de comer outra vez no corretíssimo Punto Azul e vir para o hotel assistir ao Brasil ganhar do Peru pelas eliminatórias. O tema ontem e hoje aqui foi este jogo, e naturalmente todos queriam puxar este assunto comigo. Minha resposta é que eu havia pedido aos meus amigos da seleção para ganhar só de 1 x 0.  Errei, mas 2 x 0 não chega a ser agressivo, acho que sobrevivo. Deu por hoje, amanhã vamos ao campo outra vez.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lima, 13 e 14 de novembro de 2016.

Barranco, flores e entardecer.
Outra vez em Lima, a cidade que mais visitei fora do meu país. É possível que eu tenha vindo mais à Lima do que à São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba. Que curiosa é a vida né? Nunca imaginei algo assim, nunca foi uma cidade ou país que povoasse meus sonhos, naqueles tempos que eu fazia lista de lugares a visitar. Mas assim foi, assim está sendo. 
Feira Ecológica de Surquillo.
Hoje gosto muito de Lima, em particular de Miraflores, o bairro (municipalidade por aqui) tão decantado pelo peruano Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura e um dos melhores contadores de história da literatura latina. Para quem não leu, não deixe de ler “A cidade e os cachorros”, história ambientada na Miraflores dos anos 60.
Cheguei ontem de manhã e fui direto à Feira Ecológica de Surquillo, que fica ao lado do mercado público com o mesmo nome. O Peru tem uma tradição na produção ecológica, boa parte centrada em produtos para exportação. Café, cacau, grãos andinos, como quinoa, chia, amarantus, são alguns exemplos. 
Boas vindas ao Peru: Chicha morada e
milho salgado de tira gosto.
Ao longo dos anos algumas empresas, locais ou estrangeiras, foram se posicionando no mercado nacional com estes grãos e seus derivados, com bons chocolates feitos no Peru e cafés gourmet. Quero dizer, o país foi aprendendo a processar a matéria prima que exporta. Na feira vi muitos destes produtos, além claro de frutas e hortaliças, ovos, lácteos, mel, etc. Bela feira, movimentada, viva. Poderia ter ficado horas ali, mas estava com fome e optei por ir almoçar no restaurante Punto Azul. Excelente opção, como boas vindas gastronômica,
Sigo com a impressão que Lima está cada vez mais organizada, bonita. Impressão reforçada pelo passeio que fiz ontem e hoje, que recomendo sem medo de errar. Andar, ao cair da tarde, de Miraflores para Barranco, os dois bairros mais charmosos de Lima. Um passeio de uns três quilômetros, à margem do Pacífico, sobre a falésia, em uma calçada adequada e em boa parte ladeada por jardins bem cuidados. Um luxo! 
Pequena amostra da arte de Mário Testino.
E em Barranco admirar seu casario, tomar um café, um sorvete ou um pisco, passar pela Ponte Suspiro e visitar o Museu Mate, se surpreendendo com a arte fotográfica de Mario Testino, o badalado e talentoso fotógrafo peruano. 
Hoje de manhã minha única atividade digna de nota foi caminhar até o Manolo, na Av. Larco, atrás de um churros com chocolate. A tarde foi de trabalho. Uma reunião na sede da ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos, para organizarmos a semana e nos atualizarmos sobre o momento da Agricultura Ecológica no Peru. Estávamos um grupo. Fidel, do México, Evelyn, do Rio de Janeiro, Maurizio, de Cochabamba, Andréa, do Chile, Moisés e Felimon, nossos anfitriões, e eu. Foi interessante e se confirmou que teremos aqui uma semana intensa de atividades ao redor da Agricultura Ecológica e dos Sistemas Participativos de Garantia. 
Reunião à tarde na ANPE. 
Será como eu gosto e planejei, com idas à campo, encontros de agricultores/as e viagem à regiões mais altas, andinas, neste caso Ayacucho, a 2800 metros sobre o nível do mar. Com direito a comer bem, rever amigos e, talvez o melhor de tudo, conversas agradáveis sobre culturas e realidades do continente. O que for possível contar, conto por aqui. Agora, vou dormir que amanhã o dia é de visita à fincas de produção ecológica. 


Por do sol no pacífico.
Mais uma palhinha de Mário Testino.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Texcoco, 26 de outubro de 2016.

Estufa de flores da família da D. Laura.
Esta flor de branco sou eu. 
Ontem, quarta-feira, saímos outra vez ao campo, depois do costumeiro e farto café da manhã. Primeiro fomos visitar uns horticultores, a Dra.Victoria, médica, e seu marido Gustavo, no pequeno povoado de  Tequexquinahuac. Começaram a trabalhar com agricultura em 1992, com uma horta para consumo próprio e não deixaram mais este trabalho. Em 2003, começaram a participar do Tiangui (mercado) em Chapingo. 
Eu e D. Bráulia.
Depois fomos visitar D. Bráulia. Ela rege suas filhas, filhos, noras e genros com inúmeras atividades em diferentes pontos de Tequexquinahuac. Uma verdadeira matriarca. Com 84 anos e dificuldade para caminhar, ela decide o que e quando plantar, como cuidar, hora de colher e onde vender.  É fácil imaginar que decisões de outra natureza também passam pelo seu crivo.
Vimos o trabalho do clá de D. Bráulia no campo, com algumas estufas, de tomate, morango e flores. Também vimos horta e ela nos mostrou seu esquema de produção de tamales e tortillas
Depois de aprender sobre a produção, uma análise sensorial. Em um mesmo ambiente as mulheres estavam preparando a tortilha. Da massa ao cozimento, que é feito em uma grande chapa de ferro. E passamos todos comendo durante boa parte da tarde. 
Preparando tortilhas e tacloios.
À tortilha acrescentamos um dos vários molhos com diferentes teor de pimenta e, se queremos, algo mais, como carne, linguiça, creme de feijão e por aí vai, em uma viagem ao infinito. Ou elas preparam na chapa tlacoios, que são tortilhas dobradas, recheadas com creme de feijão, fava ou batata. Imagino que podem ser outro recheios também. 
Para beber, uma água de sabor, o que chamaríamos no Brasil de refresco. Para terminar, Lourenzo e Orestes, dois amigos Mexicanos que nos acompanharam toda a semana, apareceram com uma garrafa de Mezcal, orgânico. Mezcal é um destilado típico daqui, feito a partir de algumas variedades de agave, a mesma planta da qual é feito o Tequila, com a diferença que este último é elaborado exclusivamente do agave azul. 
Pequeno artesanato que reproduz a
cena familiar do dia 02/11
Ao entardecer, ainda passeamos um pouco por Texcoco, vendo seu comércio, seu mercado central e uma feira exclusiva para vender produtos para o dia dos mortos. Dia dos mortos aqui é um caso à parte. Sinteticamente vou dizer que no dia 02/11 as casas se preparam para receber seus mortos com um pequeno altar, com uma foto do ente que partiu e comidas que eram suas preferidas. É um dia de rever seus mortos, conversar com eles, expressar sua saudade e carinho. É mais alegre do que triste.
Hoje de manhã fomos visitar a Universidade de Chapingo, criada em 1854. Um lindo campus, onde estudam 15 mil alunos. Visitamos o prédio da reitoria, originalmente sede da fazenda que lhe deu o nome. Nesta linda casa, do início do século XVIII, funciona o Museu Nacional de Agricultura.  
Reitoria da Universidade de Chapingo.
De certa forma foi nesta Universidade que surgiu a mal denominada Revolução Verde, já que o norte americano Norman Borlaug, membro da Fundação Rockefeller, foi pesquisador em Chapingo e daqui foi porta voz da ideia da intensificação na agricultura baseada em adubos químicos, sementes melhoradas, maquinaria pesada e pesticidas. 
Ganhou o Prêmio Nobel da Paz de 1970, principalmente por seu trabalho com sementes híbridas de milho e trigo. A senhora que nos atendeu no Museu o conheceu em vida e nos contou que ele era uma pessoa muito simples e amável. 
No próprio prédio da Reitoria está a Capela Riveriana. Toda pintada com murais de Diego Rivera. Um luxo. Impactante. Tive pouco tempo para admirá-la, mas talvez tenha sido a Capela mais bonita que vi em toda minha vida.
E agora, já no aeroporto. Amanhã chego em casa. Fim desta breve e intensa aventura no México. 
Capela Riveriana
Capela Riveriana - Teto

Capela Riveriana

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cidade do México e Texcoco, 24 e 25 de outubro de 2016.

México, terra do milho e suas mil caras.
Estou passando estes dias no México para participar de um processo de intercâmbio entre diferentes Sistemas Participativos de Garantia que funcionam na América Latina. Este processo envolve cerca de 20 pessoas, de 12 países, visitando em grupos de 4 pessoas a 5 países/SPGs. Já tivemos a etapa Bolívia e Brasil. Depois do México ainda faltam Peru e Chile. É uma forma de nos conhecermos mutuamente e aprender uns com a experiência dos outros. Um programa básico e um modelo de relatório final confere certa unicidade às visitas e permite compartilhar com quem não pôde participar. 
Proseando sobre os SPGs.
Este intercâmbio é organizado pela ONG que coordeno, o Centro Ecológico, e apoiado financeiramente pela Sociedade Sueca de Proteção à Natureza, uma das organizações ambientalistas mais antigas do mundo, fundada em 1908.
Na etapa México estamos eu, Faviana, da Feira Verde da Costa Rica, Maria Fernanda, da Rede de Produtores  Agroecológicos do Vale do Calca, Colômbia e Koldo, da Rede Agroecológica do Austro, Equador. Nossos anfitriões são a Vanessa e Fidel, da Associação Nacional de Tianguis Orgânicos. Parece interessante né? E é, muito interessante. 
Caveiras - tipico do México
Ontem passamos quase todo o dia trocando informações, ações e percepções sobre o trabalho que cada um de nós realizamos. Esta troca continuou durante o almoço, no bom restaurante de uma das lojas de uma pequena rede que vende produtos orgânicos, a Green Corner (http://thegreencorner.org/tiendas/). A loja tem uma impressionante variedade de produtos, boa parte importada dos EUA. 
Depois do almoço, às cinco da tarde, fomos passear em Coyoacan, um distrito da Cidade do México. Relaxamos, conversamos, tomamos nieve, comemos torta, quesadillas, tacos e guacamole.
Hoje, às seis da manhã, saímos do hotel em direção à Texcoco, uns 50 km distante. Está na região metropolitana da Cidade do México, em uma área de transição para zona rural do Estado do México, um dos 31 estados do país. Tomamos um belo café da manhã e fomos para o campo.
Perus - Granja Cocotla.
A primeira visita foi quase na cidade, na Granja Cocotla. Produzem principalmente peru orgânico. É uma pequena empresa rural, que começou seu trabalho na segunda metade dos noventa, buscando resposta ao problema da vaca louca e suas consequências na produção e comercialização de bovinos.
O que eu não sabia é que o peru é nativo do México, de onde saiu para a Espanha, Portugal e chegou à Inglaterra, daí enviado para os EUA, onde voltou a ficar selvagem, foi domesticado novamente e é o que hoje se cria em escala. O branco é mais comercializado porque sua carne esteticamente tem melhor apresentação, mas existem peru das mais variadas cores.
Dona Ermiria, um luxo - 90 anos!
Da Granja Cocotla viajamos quase duas horas e fomos visitar a Tomás Villanueva, em Tepetlixpla. Tomás é uma referência da agricultura orgânica na sua região e já trabalha com este tema há quase trinta anos. Sua propriedade espelha que ele  vive a agricultura orgânica em sua dimensão física e metafísica. Começamos por uma cerimônia de agradecimento a Madre Tierra, que terminou com uma meditação ao som de Ave Maria. Qual a relação? Terra mãe, Maria, mãe de Jesus e de certa forma de todos nós na mitologia Cristã... Destaque para a participação de uma outra mãe, a matriarca da família, Dona Ermíria, que nos deu um breve depoimento de amor à terra e ao milho, do alto dos seus noventa anos. 
Almoçamos já depois das três da tarde e fomos visitar sua área de milho. Tomás se diz gente do milho (gente del maíz). E se refere aos Mexicanos também como gente do milho. Lembremos que o México é centro de origem do milho, ou seja o milho surgiu aqui. 
Tomás Villanueva e seu maís.
Surgiu muito diferente do atual. Ao longo de milhares de anos, mulheres e homens, indígenas e campesinos, foram fazendo dele o que ele é hoje, com uma imensidade de variedades, cada uma guardando suas características de forma, cor, sabor, usos. Este trabalho de melhoramento genético do milho, que levou, repito, milhares de anos, naturalmente faz do milho um elemento crucial da cultura mexicana, mormente do meio rural.
A visita terminou já oito da noite, e ainda tínhamos uma hora e meia de viagem de volta. Chegamos, comemos tortilhas, tacos e tortas e fomos dormir. Amanhã tem mais.

Flores, no campo.

Olha que onda -  uma sala de aula na finca
de Tomás

Almoço no campo
Loja da Green Corner