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sábado, 24 de setembro de 2016

Santiago de Compostela e Villena, 23 e 24 de setembro de 2016.


Castelo de Villena
Estou escrevendo de um trem AVE, que significa Alta Velocidade Espanhola. É o trem-bala da Espanha. Este que estou fará os 370 km de Villena à Madrid em duas horas.
Entre ontem e hoje correu tudo como previsto. Saí de carro de Lugo em direção ao aeroporto de Santiago de Compostela na companhia de dois amigos, agroecólogos espanhóis, Eva Torremocha e Manuel Gonzales de Molina. Este último foi meu professor aqui na Espanha há exatos vinte anos.
Catedral de Santiago
Ainda tive tempo para um passeio de duas horas em Santiago de Compostela, a cidade dos peregrinos. Andei pelo centro histórico, lotado de gente. Realmente não imaginava que era tão turístico. Soube que é o terceiro centro de peregrinação cristã, depois de Roma e Jerusalém.
A Catedral é realmente impressionante. Nela está o que se julga serem os restos mortais de Santiago. Diz a tradição que pelo início do século IX um ermitão viu uma luz na floresta e foi chamar o Bispo da cidade, que aliás foi fundada no mínimo pelos romanos, lá pelo século II. Os dois, o Bispo e Pelágio, o eremita, se dirigiram ao local e viram ali três corpos, identificados pelo Bispo com sendo o de Tiago Maior e de dois de seus discípulos. Como estes corpos puderam ser identificados cerca de 800 anos depois de sua morte eu não sei dizer. Não deve ter sido exame de DNA.
Igreja de Santiago
Uma possibilidade seria os corpos estarem incorruptos, fato aliás relativamente comum na historiografia cristã. Tiago Maior é pouco citado no Novo Testamento, e possivelmente foi o primeiro a ser imolado por sua dedicação ao Cristianismo. Bom, resumidamente esta é a história que faz de Santiago de Compostela um local tão importante para a fé Católica.
De Santiago fomos para Alicante, 90 minutos de avião. Alicante está na Comunidade Autônoma de Valência. As comunidades autônomas são parte da divisão política da Espanha e equivalem aos Estados no Brasil.
Conheci Alicante indo de ônibus do aeroporto para a estação de trem. Foi agradável para ver o Mediterrâneo e sentir o clima de uma cidade balneária. Mas foi só, não havia tempo nem para uma breve caminhada. O trem saia logo e após 30 minutos chegamos à estação de Villena. Villena é mais uma das tantas cidades pequenas e muito simpáticas da Espanha. Tem cerca de 35 mil habitantes e 20 séculos de história. Um bonito castelo adorna com pompa e circunstância seu centro histórico, construído primeiramente pelos romanos, reconstruído por mouros e depois da reconquista reformado pelos Cristãos. Nestas cidades os tempos e fatos históricos se cruzam. Aqui, Império Romano, ocupação árabe e guerra santa andam de mãos dadas em pleno século XXI.
Hoje pela manhã vi o sol nascer dos arredores do Castelo. Lindo.
Sol querendo sair, oito da manhã, Castelo de Villena
E o dia foi de trabalho. Uma reunião com um pequeno grupo, umas quinze pessoas, ligadas à produção e consumo de produtos ecológicos. A ideia era debater sobre alternativas ao modelo de certificação para produtos ecológicos que existe na Europa. Eu contei o que fazemos no Brasil com os SPGs e ouvi o que eles fazem aqui. Foi interessante.
Uma das reclamações recorrentes dos produtores espanhóis é a excessiva regulação feita pelo estado europeu, não apenas na certificação orgânica. Vou contar um exemplo que ouvi. Um produtor não pode mais matar um porco em casa para comer sua carne ou fazer um embutido. Tem que matar em uma estrutura apropriada. Uma das grandes vantagens de ser agricultor é gozar de relativa liberdade. Trabalha-se muito, mas sem horários ou chefe. E ter um estado tão presente, regulando tanto suas ações cotidianas, causa muita indignação e os fazem repensar esta vantagem. Me lembrei da antiga consigna anarquista, nem pátria nem patrão. De que adianta não ter um e ter uma overdose da outra?
Reunião de trabalho
Mas o fato é que este excesso de regulação obviamente também está na agricultura orgânica e dificulta bastante a vida de quem opta por produzir desta forma. Ouvi aqui o que ouço sempre: qual a lógica de regular tanto e exigir certificação de quem produz sem agrotóxicos e deixar tão livre o uso destas e outras substâncias nocivas à saúde a ao meio ambiente? Não soube responder. Quem se arrisca?

Bom, estou chegando em Madrid. Que viagem mais agradável neste trem. Acho que também pela sensação de leveza por ter terminado o trabalho da semana e a perspectiva de um domingo de passeio em Madrid.
Amanhã será descanso e passeio, segunda cedo regresso. Acho que não conto mais nada daqui... a próxima está marcada, México!

Cantinho nas ruas do centro antigo de Villena

Eu em Santiago de Compostela!!!

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Lugo, 21 e 22 de setembro de 2016.


Ponte Romana, no caminho entre o hotel e o Congresso
Passei ontem e hoje entre apresentações no Congresso da SEAE - Sociedade Espanhola de Agricultura Ecológica e passeios a pé pela cidade de Lugo. Como já comentei, Lugo é uma cidade fundada pelos Romanos algumas décadas antes de Cristo. Na região já havia assentamentos Celtas, e esta presença ainda se faz visível em alguns pontos de interesse, em souvenires locais ou em casas da cidade ou da região. Li que a cidade/região tem uma tradição de mulheres que conhecem muito de ervas medicinais, e que na inquisição, não sei se apenas por esta característica, foram tratadas como bruxas. 
Na entrada de uma loja de artesanatos
A famosa frase "yo no creo en brujas, pero que las hay las hay" é uma variante en castelhano de uma frase Galega. Para quem não sabe ou não se lembra, a Espanha são várias, em vários sentidos, e um deles são as línguas faladas. No país Basco se fala basco, na Catalunha, catalão, em Valência, valenciano, aqui na Galícia, galego, uma língua muito próxima do português. Não por acaso a Galícia faz fronteira com Portugal.
Para ir ao Congresso desde o hotel, optei por caminhar. No percurso, de uns três km, encontrei um grupo de dez pessoas fazendo o Caminho de Santiago. Lugo é rota tanto do que eles chamam de caminho antigo quanto do caminho novo. Me explicaram que cada um ou cada grupo escolhe de onde vai sair em direção à Santiago de Compostela. Assim, o "caminho" tem a distância que o peregrino definir. Mas, para ganhar um diploma ou certificado de peregrino, devem ser percorridos no mínimo cem quilômetros. O grupo com o qual eu conversei decidiu caminhar 160 km em sete dias. Estavam encantados com a experiência. Tai um programa que eu gostaria de fazer! Claro, como tenho poucos pecados, e dos leves, e ainda acho este trem de se conhecer quase perigoso, quero ser um peregrino como os que encontrei: dormindo em hotel quatro estrelas e usando nike air!
O descanso do guerreiro...
No Congresso falei sobre "Agreocologia e Soberania Alimentar" e sobre "Circuitos curtos de comercialização para produtos ecológicos". Ouvi muita coisa interessante sobre o momento da Agricultura Ecológica na Espanha e na Europa, que segue crescendo. Mas não se trata de algo monolítico e sim um crescimento que ocorre em diferentes perspectivas. Por um lado empresas rurais, certificadas por um regulamento cada vez mais detalhado e que buscam espaço em mercados mais convencionais, como lojas especializadas ou supermercados. Por outro lado grupos locais de produção e consumo, buscando satisfazer suas necessidades de compra e venda em um ambiente mais saudável e colaborativo, tipo feiras ou entregas domiciliares. Entre um e outro, inúmeras experiências que buscam colocar em prática, em seus contextos específicos, o que interpretam como princípios da Agricultura Ecológica. Bonito de ver, ouvir, ruminar e digerir.
Amanhã saio daqui de carro, até Santiago de Compostela, onde vou de avião para Alicante e de lá ônibus para Villena, região de Valência, onde sábado tenho meu último compromisso. É relativamente longe, uns mil km, saio do noroeste para o sudeste do país.
Estou escrevendo aqui da praça principal, tomando um vinho com um tira gosto que veio junto, tipo oferta da casa. Sabem o que? Pão com ovo... Engraçado né? Mas tá muito bom! Fim de tarde agradável às 20:00hs, uma praça charmosa cheia de gente, vinho espanhol e pão com ovo... Acho que vou pedir outra dose!

Meu visual enquanto eu escrevia...


Praça animada - xadrez gigante!

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Madrid e Lugo, 19 e 20 de setembro de 2016.


Parte da Muralha Romana de Lugo
Ontem passei o dia em Madrid, em um curso sobre Sistemas Participativos de Garantia para profissionais envolvidos de alguma forma com a produção e o consumo de produtos ecológicos. Aqui na Espanha o nome preferencial que se usa é Agricultura Ecológica. Na Itália ou França, Agricultura Biológica. Na Inglaterra e Alemanha, Agricultura Orgânica. Estas denominações todas têm nuances em seus conceitos, assim como histórias e autores que as caracterízam. Mas hoje as diferentes legislações que tratam do tema as colocam como sinônimo, e de certa forma esta percepção tem prevalecido entre os que se envolvem com este assunto. Melhor assim, de fato elas guardam entre si muito mais semelhanças do que diferenças. E no fim, espero o dia que estes adjetivos sejam todos desnecessários, porque a agricultura irá toda ela funcionar baixo uma maior harmonia com a natureza.
Uma das onze portas da Muralha
Romana de Lugo
Sobre o dia de ontem, mais nada a contar. Foi o dia inteiro no curso. Acho que eles gostaram, e para mim é sempre bom me atualizar sobre as notícias da agricultura orgânica aqui na Europa.
Saí do curso e fiquei matando o tempo por quatro horas na estação de Chamartin, até as 22:15, quando saiu o trem para Lugo. Não gosto destes trens noturnos. Cabines com dois beliches, 4 pessoas quase confinadas em menos de 6m. Mas gosto dos vagões restaurantes, acho que me sinto em um filme dos anos 50, e foi nele que fui tomar uma taça de um vinho tinto. E viva o celular para ajudar na tarefa de esperar o tempo passar!
Cheguei quase oito da manhã em Lugo e fomos direto ao hotel. Ao lado da Praza Maior, se chama Mendez Nuñez e é bem correto.
Catedral de Lugo
Que cidade interessante Lugo. Está na Galícia, região Noroeste da Espanha. Relativamente perto de Santiago de Compostela, está na rota do famoso Caminho de Santiago. Muitos lugares interessantes para ver, a maior parte deles relacionados com a época do Império Romano. Lugo foi fundado pelos romanos, como um acampamento militar, sobre um pequeno povoado celta. 
A muralha romana de Lugo é sem dúvida o que mais chama a atenção. Aqui me informaram que é a única no mundo que conserva todo seu perímetro, que aqui é de mais de dois quilômetros. Pelo que percebi passear sobre a muralha não é um programa apenas de turistas, e vi muita gente local caminhando e correndo sobre ela. Fui também ao Museu Provincial de Lugo, onde estão expostas várias peças do período romano, lém de obras de arte de artistas locais. Tanto no museu quanto na própria cidade vi pedaços muito bem conservados de mosaicos romanos. Datados do século, II, III, IV. Nas ruas, às vezes passamos sobre ou ao lado de uma parte de vidro, como se fosse um visor. Este visor está para nós permitir ver partes do aqueduto, cômodos com mosaicos ou piscinas romanas. Uma verdadeira viagem no tempo.
Close no mosaico romano,
           este do séc II.
Além destas preciosidades históricas, é só comentei algumas das que vi, a cidade antiga e seus arredores é muito agradável de passear. Amanhã conto mais sobre a cidade.
E hoje pela tarde também teve trabalho, um "conversatório" sobre Sistemas Participativos de Garantia com representantes de produtores e consumidores locais. Depois fomos visitar uma pequena feira de produtos ecológicos, organizada no Mercado Municipal. Bom conhecer a feira, bem modesta, e conversar com os produtores. E ver um mercado é sempre um bom programa.
De noite fomos jantar um grupo de palestrantes e organizadores do Congresso. O que comi? Jamon ibérico y queso, claro!

Amanhã às nove devo estar na mesa inicial, que vai discutir sobre Agroecologia na Europa. Me convidaram na condição de olhar externo, ouvir os outros expositores e fazer alguns comentários a partir do que fazemos na América Latina. Veremos. 
Venda de produtos ecológicos,
no mercado municipal, terças e sextas..

Venda de produtos ecológicos, 
no mercado municipal, terças e sextas..

domingo, 18 de setembro de 2016

Madrid, 18 de setembro de 2016.

Plaza Mayor hoje de manhã.
Cheguei a Madrid hoje de manhã. Me aguarda uma semana de trabalho em três diferentes cidades da Espanha. Mas hoje o dia foi de relaxamento e passeio. 
Sempre bom vir à Europa e este país aqui é cheio de detalhes que gosto muito. Como por exemplo jamon Ibérico e queso manchego. Hummm...
Ruas de Madrid hoje ao nascer do dia.
O principal programa do meu domingo foi caminhar. Caminhei muito, o que é bom para a saúde e para chocar os ovos do Pokemon. Um belo dia de início de outono, temperatura agradável, acho que todo mundo teve a mesma ideia e as ruas estavam lotadas. Andei por alguns dos lugares obrigatórios no centro histórico de Madrid.  Paseo del Prado, Calle Carmen, Gran Via, Puerta del Sol, Plaza Mayor. Destaque para o Mercado de São Miguel, perto da Plaza Mayor. Um conjunto de pequenos lugares para se comer e beber, quase sempre em pé. Preciosidades, salgadas e doces, de diferentes lugares da Espanha. Não comi ali, mas só pelo visual sei que dá para recomendar.
Apesar dos lugares serem lindos, meu humor hoje não estava para flanar. Talvez o cansaço e o fuso horário, talvez a ausência de novidades. Mudei de rumo e resolvi colocar como objetivo do dia visitar as duas principais obras pictóricas de Madrid. Fui ao Museo Reina Sofia ver Guernica, de Picasso e ao Museo del Prado ver As Meninas, de Velásquez. Ótima decisão.
Guernica - Foto do site do Museu La Reina
Guernica é muito mais recente, de 1937, um óleo enorme, quase um mural. Ele retrata o bombardeio aéreo de Guernica, cidade Basca, pelos nazistas com apoio e apoiando o Franquismo, neste mesmo ano de 1937, nos primórdios da II Grande Guerra. Suas expressões de lamento, horror e dor impressionam e emocionam, quando você entra na vibe do quadro. O fato de ser em preto e branco também é marcante, como que expressando um mundo sem cores. Mas, como sou clássico, gosto mais do As Meninas. Li aqui que este quadro é considerado um dos mais importantes da arte ocidental. Ele impressiona. Eu, que não entendo nada, fico embevecido com o olhar dos diferentes personagens do quadro. Alguns te acompanham por onde você vá, outros você não consegue encarar mesmo mudando de ângulo. Muito, muito impressionante. Também o cachorro, meio cochilando recebendo um afago com os pés de uma das meninas que dão nome ao quadro merece destaque. E ainda o fato do artista nos colocar no ângulo de um espelho. Todos no quadro, inclusive o próprio Velasquez, que se autorretrato na obra, estão de frente a um espelho. 
As Meninas, de Velasquez - foto do site do Museo do Prado.
Nos dois museus logicamente tem muitas outras obras lindas e valem muito a visita, mais ou menos rápida de acordo com o gosto de freguês. Mas não ir é quase um pecado.
Depois de cumprir meu nobre objetivo do dia ainda tive tempo para um passeio no Jardins do Retiro. Bonito, com 400 anos de história, este estilo de jardim real, hiper organizado. Para o meu gosto, até demais. Me fez lembrar uma avó, presente em um dos livros da saga Em Busca do Tempo Perdido, que passava pelo jardim quebrando algumas plantas. Colocavam na conta da senilidade, enquanto ela afirmava que o jardineiro que deixava tudo tão meticulosamente arrumado não entendia nada de natureza! Mas para não ser injusto, vou deixar registrado que o Jardins do Retiro é lindo, muito vivo, muitas famílias com crianças, casais de namorados e desportistas aproveitando sua pista de jogging. 
Depois foi jantar, jamon y pan e regressar ao quarto, ao entardecer, quase nove da noite, horário de verão daqui. Amanhã tem trabalho. Xô preguiça...

Jardins do Retiro

Jardins do Retiro

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Maputo, 31 de maio e 01 de junho de 2016.

Com técnicas e agricultoras, nas machambas.
Vou me embora de Maputo. Não é uma Passárgada, mas deixa saudades. Estou aqui no aeroporto da África do Sul, já rumo à casa. Tudo correndo bem, serão exatas 24 horas entre ar e terra.
Selo que vai começar
a ser usado por aqui.
Ontem passei o dia em uma reunião de avaliação da minha consultoria e apresentando à equipe da ESSOR meu relatório, já finalizado e entregue, duas semanas antes do prazo. Levar relatório para fazer em casa só em casos extremos, não é recomendável. De minha parte foram dias muito agradáveis de trabalho. Pelo que ouvi na avaliação, para eles também foi agradável, e, mais importante, útil.
Depois do trabalho, caminhei um pouco, próximo ao hotel. Voltei à Feira Janet,  aquela que vende de um tudo apenas para passar o tempo e gastar meus últimos meticales, a moeda local. Comi de novo camarões, sempre deliciosos, no Assador Típico, restaurante português que fica no início da Av Karl Marx. Às sete da noite já estava no quarto, arrumando malas.
As mulheres, nas machambas.
Nestes 15 dias que passei em Maputo meu aplicativo me avisa que caminhei 84 km. A maior parte pela cidade. Ela não é exatamente bonita, com exceção da praia e de poucos parques municipais. Os traços que ainda guarda da arquitetura portuguesa estão em sua maioria descuidados. A arquitetura contemporânea navega entre a pobreza, edifícios pouco cuidados e casas enormes, protegidas por muros, grades e cercas eletrificadas, que não nos permitem apreciar sua beleza, se é que existe. A maior parte de suas ruas são escuras de noite e sujas de dia. Com esta descrição pouco lisonjeira, pode parecer curioso que ainda assim eu goste de caminhar por Maputo. Acho que me sinto recompensado pela gentileza e alegria de sua gente, sua comida rica em origens, aromas, cores e sabores, e pelo visual das mulheres e suas capulanas. Elas são, sem dúvida, o melhor de Maputo. Muitas vezes carregando crianças enroladas ao corpo por seus tecidos coloridos ou água, trouxas ou tabuleiros na cabeça. Sempre eretas, esguias, suas condições de vida não são suficientes para curvar sua elegância.
trabalhando...
Viajar para lugares e culturas distantes é sempre interessante. Considero vir à África um caso à parte. Não sei precisar porquê. Talvez a identidade cultural com o Brasil, tão influenciada pelo povo Africano. Pode ser também por ver de perto uma situação de pobreza com a qual me sinto, e deveríamos nos sentir todos, com uma parcela de responsabilidade. De certa forma quem tem ascendência europeia é signatário da trágica Conferência de Berlim. Ou pode ser apenas porque viemos todos daqui. Nós que em um excesso de estima própria nos auto proclamamos homus sapiens sapiens, tivemos nossa origem aqui, na Mãe África.
Como veem, não sei porque, mas estar na África é sim um caso à parte. E tem uma natural densidade, nos deixa reflexivos.
Bom, o voo me chama. Voltar faz parte da viagem.

no campo

pilando cana de açúcar, para usar
como biofertilizante

segunda-feira, 30 de maio de 2016

Maputo, 29 e 30 de maio de 2016.

No campo, preparando adubos naturais.
Ontem foi mais um domingo sem ter o que fazer – na real cheio de trabalho me esperando, mas a vontade era mais de não trabalhar e passear pela cidade.
Comecei caminhando por uns três km até o Shopping Maputo, apenas para beber uma Pedras e fazer hora para o almoço. Fui atrás de um restaurante fortemente indicado por dois amigos moçambicanos, Estevão e Stelio.
Por fora do O Coqueiro
Muito interessante o restaurante. Não fica no Shopping e sim próximo, na Feira Popular, um lugar com um parque de diversões e vários restaurantes concentrados em vielas apertadas. Parece que à noite algumas boites também. O local é de visual bem popular, mas vários dos restaurantes tem cara boa, simples e arrumados. Onde eu almocei é um deles. Chama-se O Coqueiro, em uma óbvia homenagem ao coco, o principal personagem da sua especialidade, a comida zambeziana. Gostei da comida e do ambiente. Decoração muito interessante, uma cuidadosa mistura entre o cool e o kitsch. Acho que o som pop internacional em bom volume, mas não exagerado, dá ao local um certo ar cosmopolita, descolado. De sobremesa me trouxeram cocada, como cortesia.
Por dentro do O Coqueiro
Conhecer a culinária africana é conhecer boa parte da origem da culinária brasileira. Bom, não é tão simples assim, na real é uma história de idas e vindas. O coco chegou ao Brasil pelos portugueses, não se sabe se trazido da África ou do sudeste asiático. Por outro lado, o amendoim, que chegou na África originário do Brasil, faz parte de muitos pratos da culinária africana. E por aí vai, idas e vindas, encontros e interações.
Depois do almoço caminhei por outros três km até o Jardim dos Namorados para comer uma sobremesa com um expresso, à beira do Índico. A sobremesa não é tão especial, mas o visual compensa com sobras. Seguindo na séria série coisas que se faz para passar o tempo em um domingo longo fui à feira de artesanato para umas breves comprinhas e no fim da tarde mais três km até o hotel. Jantei comida indiana e fiquei vendo mais um filme africano, o quinto destes dias. Sempre tento fazer isto, ver filmes e ler livros do país ou região onde estou. Ajuda a ver o que se vê.
Com as mulheres, nas suas machambas!
Hoje, segunda, dia de trabalho. Mais um mini curso, no campo, desta vez com produtoras que já trabalham com agricultura orgânica. Conversamos sob um sol forte sobre como produzir bem usando apenas o que aqui estou chamando de "as forças da natureza". Depois fomos a uma sombra de algumas mangueiras, fazer composto e biofertilizantes, sempre na onda de aproveitar o que existe disponível no local. Foi bom, sempre bom trabalhar com esta galera.
Hoje eu soube quanto ganha um trabalhador rural nas machambas do cinturão verde de Maputo. Dois mil e quinhentos meticales, equivalentes à 50 dólares. Por mês. Me lembro bem que o primeiro "salário" que eu e Ana recebemos quando chegamos ao RS, em 1988, no então Centro de Agricultura Ecológica Ipê, eram de três salários mínimos. Para os dois! Convertidos para dólar, era exatamente 150. Por anos o salário mínimo no Brasil equivalia também a cinquenta dólares. Hoje está, se o dolarizamos, cerca de 250 dólares. Já que falei do Brasil, vou completar dizendo que quem tem mais de cinquenta anos, como eu, se lembra bem de um tempo economicamente bem mais difícil do que hoje. Para muitos, a maioria, está melhor agora, muito melhor.

mulherada cansada... trabalham muuiito!

Lindas!!!

Meu frango à zambeziana

sábado, 28 de maio de 2016

Maputo, 27 e 28 de maio de 2016.


Predicando...
Ontem minha atividade foi uma conversa no campo com produtoras do cinturão verde de Maputo, na machamba (área de cultivo) de uma delas. Falei em português e fui traduzido para o xiChangana, a língua mais falada aqui em Maputo. O português apesar de ser a única língua oficial de Moçambique, não é falado pela maioria, que se utilizam em seu cotidiano de mais de 30 línguas. É sempre interessante ser traduzido em uma língua nativa, local. Soa bem. Meu tradutor, o presidente da associação do local, se empolgou. Eu falava um minuto e ele levava três para traduzir. Que onda!
Com a galera, na machamba...
Esse tipo de trabalho é sempre um desafio. Cada situação é uma situação. Esta de ontem foi diferente, uma das mais peculiares que já vivi. Cheguei no campo e encontrei um grupo de trintas pessoas, algumas que não falam português e costumam trabalhar de sol a sol, aprendendo com a vida e não com os livros e suas abstrações. E eu tendo a obrigação de falar algo que lhes possa ser útil em seus trabalhos de horticultoras.
Como faço? Vejo a cena e tento ativar a parte dos meus neurônios que ainda funciona. Me concentro, peço ajuda às forças da natureza, e misturo experiência, conhecimento e criatividade, em doses iguais, temperando com sensibilidade para sentir o "público". Ontem parece que deu certo.
Ajuda também o fato de já há muitos anos eu ter optado por ser, dentro da agronomia, mais arquiteto do que engenheiro. Inspirado por bons mestres, me ocupo mais com a forma do que com o conteúdo, mais com a paisagem do que com a molécula, procuro mais a síntese do que a análise. Sinto que esta abordagem facilita muito a adaptação dos meus parcos saberes às diferentes realidades.
Mesquita da Baixa, aspecto interno.
À noite fui ao Loirinha. Ontem foi minha quarta sexta-feira em Maputo.  Nas três anteriores havia ido a este bar no início da noite. Virou tradição, e tradições existem para serem cumpridas. Desta vez acompanhado por alguns amigos moçambicanos, conversamos de trabalho e da vida.
Hoje, sábado, continuei fiel à tradição e usei a manhã para passear pela Baixa (o downtown) e comprar algumas capulanas e lenços na Casa Pandia. Fui conhecer a Estação Central de Trem, uma herança portuguesa do fim do século XIX e que ainda funciona transportando cargas e pessoas pelo país. Muito bonita, parece mesmo um portal para o século XIX. Depois fui conhecer a Mesquita da Baixa, bem maior do que a que eu havia visto durante a semana. Entrei, fiquei um pouco na ante sala e saí.
Estação Central de trem de Maputo
Almocei um peixe à Zambeziana, com molho de coco. Zambézia é um Estado, ao norte de Maputo, no centro do país, com uma culinária considerada patrimônio nacional e tem exatamente no leite de coco feito na hora sua característica marcante.
Passei a meia tarde no quarto e de noite fui com amigo moçambicanos ver o final da Champions League em um bar, o Beergarden. Muito bom, a galera estava animada, parecia que a partida envolvia times locais. Deu Real Madrid, nos pênaltis.

Casa Pandia, por fora.

Casa Pandia, por dentro.

Em Frente à Casa Pandia,vários costureiros prestando serviços.





quinta-feira, 26 de maio de 2016

Maputo, 25 e 26 de maio de 2016.

Eu e minhas "alunas"!!!
Ontem segui com o curso em sala de aula. Difícil a interação, difícil fazê-los participar. Minha contratante me explicou que eles aqui estão mais acostumados com esquema professor – aluno. Um fala, outro ouve. Como gosto de conversar, ouvir e falar, tive um pouco de dificuldade. Mas fui pegando o jeito
Eu com uma das "mamás"!
Ontem à tardinha tive uma boa conversa com um brasileiro, o Ranieri, com quem uma amiga em comum me colocou em contato pelo facebook. Eu queria ouvir um pouco mais sobre um projeto no qual ele participa, o Fraternidade sem Fronteiras (fraternidadesemfronteiras.org.br) 
Eles atuam em Gaza, província ao norte de Maputo, mas ainda no sul do país, buscando alimentar órfãos com fome. Trabalho voluntário e arrecadação via doações. Quem quiser, pode adotar uma criança no site, por R$ 50,00/mês e este valor é suficiente para que ela tenha três refeições por dia. Não vou me alongar, o site tem mais informações. Só quero dizer que conversas assim me fazem ter a certeza que no mundo a maior parte das pessoas são do bem. A Era de Aquário ou o Mundo de Regeneração já chegou. Se o mal salta tanto aos olhos, é exatamente porque além dele ser pouco tímido, choca a maior parte das pessoas.
Fazendo bio fertilizante.
Hoje o curso foi à campo. Fomos visitar uma machamba e depois preparamos juntos adubos orgânicos e algumas caldas usadas para nutrir as plantas. A maior parte das caldas simples, tentando aproveitar o que se tem disponível no local.
Ir ao campo é sempre a melhor parte. Nestes cursos que costumo dar, o mais comum é que a turma seja muito heterogênea. Agrônomos/as, técnicos e agricultores, com diferentes conhecimentos e experiências. A parte mais prática facilita para mim, porque trabalhando sobre coisas concretas posso despertar o interesse de todos os participantes. Além disto, naturalmente há mais participação, o diálogo se faz mais fácil. Hoje estava divertido.
De tarde, entrega de materiais e certificados, palmas e agradecimentos. Lida feita. Foi tudo bem, espero que eles tenham gostado.
Mulheres trabalhando nas machambas.
O mais bonito de Maputo são as mulheres e suas capulanas. No campo, mais ainda. As mamás, como as senhoras são carinhosamente chamadas, são um visual à parte. Trabalham concentradas, duro, mas sempre brota um sorriso farto no rosto sulcado quando minimamente provocadas com uma conversa mais amena. Chegar numa machamba e ver, do alto do terreno, uma grande várzea com dezenas de mulheres trabalhando é a cena mais bonita que tenho visto por aqui. Hoje aproveitei para conversar um pouco e tirar algumas fotos com elas. Uma delas, de blusa branca e um lenço branco na cabeça, me contou que estava a usar esta cor porque perdeu sua filha à pouco tempo, em março passado. Depois eu soube que como sinal de luto algumas culturas do país usam o preto, outras o branco.
Uma das extensionistas que fez o
 curso comigo
Jantar? Outra vez no Galaxy, o restaurante indiano. Estou virando adicto, vou ter crise de abstinência quando regressar.
Amanhã tem mais, uma espécie de mini-curso no campo, apenas com agricultoras. 

terça-feira, 24 de maio de 2016

Maputo, 23 e 24 de maio de 2016.


Visual do curso.
Ontem estava programado para começar um curso comigo sobre Agroecologia com extensionistas locais, a maior parte de órgãos de governo. Estava mas não começou. Algum problema de comunicação e apareceram apenas 5 ou 6 pessoas. ESSOR, que está organizando esta atividade, resolveu adiar o curso para começar hoje.
O restaurante do dia. Não ganhei a aposta...
De posse de uma surpreendente folga em plena segunda feira, resolvi ir a um restaurante Paquistanês no centro da cidade que havia chamado minha atenção. Muito simples, dei uma chance a ele, mas não fui nem correspondido nem surpreendido. A comida estava como o visual, mais para mais ou menos.
Antes de chegar ao restaurante caminhei de novo pela baixa (o centro da cidade) e pelo seu forte comércio, sobretudo de rua. Países chamados de pobres pelos indicadores internacionais normalmente têm uma forte economia informal. É impressionante a quantidade de ambulantes em Maputo. Vendem qualquer coisa. Em países pouco industrializados e com mão de obra disponível também é comum que ainda persista uma grande quantidade de trabalhos manuais. 
Aspecto do comércio de rua.
Juntando as duas coisas, ambulantes e trabalhos manuais, aqui encontramos vários serviços sendo oferecidos nas ruas, como por exemplo sapateiros, costureiros, meninas que descascam laranjas ou meninos que fazem unhas. Me chamou atenção também algumas bancas com peças velhas, de celulares e relógios velhos. Metade de um, o vidro de outro, uma pulseira quebrada... Incrível, tem comércio para tudo!  Roupas e mais roupas usadas, algumas em mal estado, sendo expostas em lonas no chão ou varais nas calçadas. Imagino que a maioria delas fruto de doações humanitárias, provavelmente oriundas de países europeus. Se eu tivesse fotos do que estou tentando descrever seria mais compreensível para quem me lê entender porque este comércio de produtos e serviços chamou tanta a minha atenção.
Lenços e Capulanas!
Durante minha caminhada pelo centro ouvi uma voz alta, ritmada, que soava ligada ao Islã. Bingo, segui a voz e achei uma Mesquita. Entrei, mas fiquei em uma espécie de ante sala, vendo os homens entrarem, tirarem seus sapatos, lavarem bem mãos e pés em torneiras especialmente dispostas para isto e entraram no local de oração. Tive vontade de fazer o mesmo, mas o respeito me impediu, já que esta não é a minha crença. Sempre são interessantes estes rituais religiosos aos quais não estamos acostumados. 
Seguindo meu breve passeio, entrei ainda em duas lojas de tecidos, uma delas muito tradicional, a Casa Pandia. São muito interessantes as capulanas e outros panos com seus motivos africanos e indianos. Por falar em indiano, ontem à noite, comi pizza no restaurante indiano. Não recomendo.
Minha janta: naam com manteiga na brasa e queijo,
ervilhas e tomates em um molho delicioso.
Hoje o curso correu bem, mas não ótimo. Tive minhas dificuldades de adaptação ao local, tanto às pessoas quanto à realidade. Este trabalho no cinturão verde de Maputo é feito com muito pouca terra, parcos recursos econômicos e mesmo naturais. Tenho que me virar nos trinta para adaptar meus conhecimentos agroecológicos a algo que faça sentido aqui. Acabo de passar três horas readequando conteúdo, para ver se amanhã acerto mais na veia. Veremos.
Janta? De novo no indiano. No Brasil não temos restaurantes indianos baratos, os que conheço são sempre sofisticados e caros. Aqui são bem acessíveis, acabo não resistindo.