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sábado, 24 de março de 2018

Peru, 18 a 24 de março de 2018

Foto obrigatória do Pacífico, à partir do Larcomar
Passei esta semana no Peru. Cheguei no domingo dia 18, dormi em Lima e na segunda, 19, fui para Piura, um Estado que fica ao norte, em direção ao Equador. Sua capital, de mesmo nome, é a quinta cidade em população do país, chegando a quinhentos mil habitantes. É a terceira vez que fui a Piura. Lá passei toda semana, regressando hoje a Lima, de onde saio amanhã cedo de regresso a casa. 
Aspecto do IV Foro
O que me trouxe ao país foi o IV Foro Latino-americano de Sistemas Participativos de Garantia. Aqui no blog contei sobre meus dias em La Paz, Bolivia, em novembro de 2011 e em Quito, em dezembro de 2015, respectivamente no II e III Foro. Também já tive a oportunidade de explicar que os SPGs são um método de conferir reconhecimento da qualidade da produção agropecuária sem uso de agrotóxicos ou organismos modificados geneticamente, usualmente denominadas de Ecológica ou Orgânica. 
Passei toda a semana trabalhando, com a responsabilidade de facilitação da reunião, o que me impediu de escrever diariamente como costumo fazer. Ou talvez esta seja só uma desculpa para a preguiça de escrever o blog. O fato é que pela primeira vez em sete anos não relatei o que andei fazendo em uma viagem internacional. Estará o blog em risco? Veremos nas próximas viagens. 
Praça / Igreja de Catacaos
Também é verdade que a semana em Piura transcorreu de maneira muito uniforme. Trabalho intenso, saindo do hotel apenas para dois passeios rápidos. No fim da tarde de terça feira alguns saímos para Catacaos, cidade vizinha a Piura e conhecido ponto de vendas de artesanato. Destaque para os trabalhos em ouro e prata e para as cerâmicas de Chulucanas. Estas cerâmicas são muito reconhecidas no país e no exterior. A maioria é produzida em uma pequena cidade chamada La Encantada, que tive a oportunidade de visitar há uns dez anos. São feitas com uma técnica especial, um desenho característico e uso de tintas naturais, segundo entendi principalmente a partir de folhas de manga, torradas para conferir a cor negra característica destas cerâmicas. Quem já passou pelo aeroporto de Lima seguramente teve a atenção despertada por estas peças, vendidas ali a peso de ouro. 
Artesões em Catacaos
A outra saída foi ainda mais rápida, ontem, sexta-feira, após o término do evento, apenas para passear no início da noite pela praça principal da cidade, ver sua Catedral e caminhar à toa para descansar. Piura não é uma cidade particularmente bonita. 
Voltando a Catacaos, eu a havia visitado em 2007. Desta vez a vi menos pujante na venda de artesanatos. Me explicaram que a cidade ainda está se recuperando de uma trágica inundação que a abateu em março do ano passado, atribuída ao fenômeno La Niña. Já disse várias vezes aqui no blog que não há lugar que eu viaje e não me depare com problemas que são, obviamente, fruto das mudanças climáticas que derivam do aquecimento global, ainda que alguns insistam em espalhar suas convenientes dúvidas. Convenientes para quem deseja seguir com o mesmo desenho de sociedade que nos trouxe a esta situação, baseado na produção e consumo sem limites.
Atum selado com majado de mandioca
Votando a falar de flores, Piura se notabiliza por sua culinária, especialmente peixes. Infelizmente a comida do hotel que fiquei, El Angolo, não correspondeu à fama da cidade, mas minhas três incursões por restaurantes foram compensadoras, com deliciosos tiraditos tricolor (ceviche servido com três diferentes molhos), côngrio rosa grelhado e atum selado com um majado de mandioca. Majado é uma refogado com temperos e mandioca ou banana verde, que são cozidos juntos e formam uma massa quase homogênea, muito típicos de Piura. Delicia!
Falo de comida porque o Peru tem no turismo gastronômico uma fonte de renda importante. E não à toa, sua culinária realmente é especialíssima. 
Galera bailando na Praça Kennedy
E hoje tive tempo apenas de passear um pouco por Lima. Caminhei por Miraflores, seu bairro mais charmoso e vi a terceira idade dançando na Praça Kennedy. /no Onpez comi um delicioso raviole recheado de ricota e espinafre com molho de camarão apimentado, ao ponto! Depois tomei chicha morada (refresco à base de milho roxo), café e Pisco Sour, um drink a base de pisco, limão, açúcar, clara de ovo e angustura. Pisco é um destilado obtido a partir da uva. Tomei este pisco sour no bar “Popular”, em um centro comercial chamado Larcomar, que fica junto ao Pacífico. Isto ao entardecer, com uma paisagem de fisionomia agradável e relaxante.
Larcomar, ao anoitecer
E esta foi minha semana. Irei fazer outro post com a Carta de Piura, elaborada pelos participantes do Foro e que resume os principais pontos de discussão destes dias. Na verdade foi uma excelente semana de trabalho, e as emoções ficaram todas concentradas por aí. De todos modos não é pouco. Nem sempre é possível conciliar trabalho e passeio. Desta vez não foi, na próxima será.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

Nuremberg, 16, 17 e 18 de fevereiro de 2018

Eu entre Esteban e Peggy Miars, presidente de IFOAM
Os últimos dois dias da Biofach em Nuremberg seguiram na mesma batida. Visitas a estandes e conversas entre provas de bebidas e comidas orgânicas, sempre de muita qualidade. Para não ser repetitivo vou contar algo que vi e achei muito interessante.
O projeto do café está baixo o conceito de
CSA - sigla em inglês para Agricultura Apoiada
pela Comunidade - Tekey no Japão
Passando em um dos pavilhões encontrei a Esteban. Ouço este nome e lembro-me do meu poema preferido “Tabacaria”, de Fernando Pessoa. Nele, o poeta nomina o “Estevão sem metafísica”. Mas este que encontrei é outro, e talvez possua boa dose de metafísica em suas ações na vida. É um jovem que trabalha no México, no Estado de Vera Cruz, produzindo e assessorando produtores de café Orgânico e Biodinâmico. Parei para saber sobre seu novo projeto (o conheci na Costa Rica há alguns anos) e o que ouvi chamou a minha atenção.
Ele está envolvido em, além de produzir, exportar café premium. Significa café de alta qualidade. Até aí bem, ele e seus companheiros de trabalho não são nem os primeiros nem os segundos a fazerem isto. O bonito, inovador e contemporâneo é o fato de exportarem este produto para a Alemanha em um veleiro. Sim, veleiro. Significa ao sabor do vento, sem gasto de combustível fóssil e sua consequente emissão de carbono. Este assunto da emissão do que é denominado como “gases estufa” é o assunto da hora. As cúpulas mundiais discutem sobre esta realidade a cada ano, e quase duas centenas de países não conseguem chegar a um bom termo sobre como o planeta irá lidar para que a catástrofe da mudança climática impacte menos a vidas das pessoas. Diminuir a emissão destes gases é um caminho para que esta crônica anunciada do aumento da temperatura do planeta tenha um fim menos dramático. Este trabalho dá a sua parcela de contribuição para amenizar o quadro sombrio das previsões.
vinhos, muitos vinhos.
Alguns podem dizer o que mais ouço: mas como vamos transportar todo o café do planeta em veleiros? A resposta é: não sei. Mas sei que com o Titanic que o petróleo significa não deu certo. Então é bom tentar com alguns botes salva vidas. Porque não ao menos alguns deles serem à vela? Além disto, nenhuma solução inovadora começa massiva, por definição.
Ah, quase esqueci de dizer que do porto de chegada, aqui na Europa, até as casas comerciais onde será vendido, o café vai de bicicleta.
Legal né? Sim. Lá nos setenta nós diríamos: um barato!
Este projeto de "transporte pelo vento" denomina-se Timbercoast. Não deixem de ver o site, www.timbercoast.com
Os princípios na placa,
apontando caminhos.
Ver este trabalho me leva a refletir que Biofach é uma feira de produtos orgânicos. A produção orgânica tem suas boas décadas de história e começou com a persistência de alguns que tiveram a coragem de nadar contra a corrente. E que corrente! Só o fato da Bayer ter comprado, em 2017, a Monsanto por 66 bilhões de dólares dá uma ideia do seu tamanho. Mas mesmo contra esta poderosa corrente, nos últimos anos a produção orgânica tem crescido de maneira significativa. Este crescimento tem seu preço. Precisou, ou julgou que precisaria, adaptar-se a algumas “regras” de mercado que corrompem alguns dos princípios que são também fonte do seu sucesso. 
Este tipo de “desvio de princípios” ao mesmo tempo que impulsiona seus números pode também limitá-los. Afinal, um consumidor quando compra produtos orgânicos aceita pagar algo mais por entender que está pagando também por uma série de valores implícitos a esta forma de produção. Se ele vem a descobrir que nem sempre estes valores lhes são entregues, pode alterar sua decisão de compra. Transporte baseado em carbono pode sim, no momento pelo qual passa o planeta, neutralizar alguns destes valores. O mesmo pode ocorrer com a overdose de embalagens plásticas que vemos aqui na Biofach. Elas também guardam sua dose de contradição com princípios originais da agricultura orgânica. Recuperar a ousadia e a criatividade que sempre caracterizaram esta onda da produção limpa, justa, local e de qualidade é uma necessidade premente sob risco de criarmos as armadilhas que impedirão o que trabalhamos por: aumento significativo da produção e consumo de produtos orgânicos. Quando vejo trabalhos como este do transporte à vela aqui na Biofach meus olhos dançam e a esperança brilha.
Festa do país anfitrião - neste ano, Marrocos
Minha sexta e sábado foram marcadas pela Biofach. Na sexta, a tradicional festa bombou, com cerca de 400 participantes, tendo Marrocos como país anfitrião. Eu saí oito e meia porque já sou um velho cansado e não tenho autorização para participar deste tipo de evento, mas no dia seguinte soube que os últimos incautos foram expulsos do local às três da manhã.
Sábado tive o prazer de rever e jantar com meu amigo Manuel Amador. Deixo aqui o registro.
Praça principal. linda!
E hoje, domingo, passei o dia todo aqui. Estava frio agradável. Caminhei pela cidade velha, fui até o Castelo de Nuremberg, passei pela rua Weissgerbergasse, minha favorita daqui, fui na igreja de São Sebaldo que é do século XIII, e na casa museu do Albrecht Durer,  o famosíssimo pintor alemão, que, durante anos, residiu nesta cidade.
O comércio aqui não funciona no domingo. Como é bom um domingo sem compras...
 Como o café da manhã no hotel Victoria, para onde vim ontem, é um espetáculo, pulei o almoço tomando só um café na praça principal onde havia um cantor que me inebriou com sua música. Frio, gente para lá e para cá, sol tímido pensando em sair, neve nos cantos sombreados, lindamente contrastados com o reggae que pairava no ar, quase trazendo a maresia.
Depois disto foi só jantar no restaurante Trofelstuben. Chucrute, maionese de batata, salsicha, paleta de porco e dumbling (acho que de trigo, mas também poderia ser fécula de batata). De sobremesa um apfelstrudel com sorvete. Bela comemoração de aniversário, amanha chego aos 53 anos. Amanhã saio para Frankfurt, de lá para casa. Bom regresso para mim!




hummmm
huuummmm
Durer - os quatro apóstolos

Auto-retrato - Durer




quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Nuremberg, 15 de fevereiro de 2018

Agricultura Biodinâmica com força na Biofach

Hoje todo o dia foi na Biofach. Quase por obrigação provando chocolates, pães, queijos, sucos, embutidos e dezenas de outros produtos, todos orgânicos, com uma linda apresentação e de sabor diferenciado. Destaque para um queijo com café arábica, que provei a contragosto e pelo qual me apaixonei. 
Neste árduo trabalho passei por centenas de bancas e talvez o que mais chamou a minha atenção foi o fato de nada ter me chamado a atenção. Não vi algo que tenha me soado como novo. Pode ser que meu olhar não tenha sido suficientemente atento, e sem a companhia da Ana perdi a sagacidade das suas observações. Mas o que vi foi um reforço e consolidação do que já estava presente nos anos passados. 
Chocolates com identificação de origem do cacau
Produtos sem glúten, busca de alternativas mais saudáveis para adoçar a vida, como açúcar de coco ou agave, produtos com denominação de origem ou veganos. Aliás, produtos veganos já há dois ou três anos marcam forte presença na feira e este ano não foi diferente. Também as chamadas superfoods, nome usado de maneira pouco precisa para alguns alimentos que cumprem, ou supostamente cumprem, diferentes funções nutracêuticas seguem marcando presença. Mas algo que mereça, a meu juízo, a denominação de nova tendência, não identifiquei.
Área específica para produtos veganos, com
              a realização de debates e palestras
Quero falar mais um pouco sobre as estatísticas do mundo da agricultura orgânica. Já adiantei no post anterior que os números de 2016, anunciados por Fibl ontem aqui na Biofach, apontam para um mercado de 90 bilhões de dólares. Sem querer ser profeta, mas usando apenas a lógica, posso afirmar que vivemos um momento o qual, anualizado, o mercado de produtos orgânicos ultrapassa, com folga, a barreira dos 100 bilhões de dólares. No início do século eram 16 bilhões, o crescimento merece o título figurativo de exponencial.
Os EUA seguem ostentando o título de maior mercado de produtos orgânicos do mundo. Em 2016, 46% do mercado concentrou-se em suas fronteiras. De longe o primeiro lugar, movimentando 43,1 bilhões de dólares, seguido da Alemanha com 10,5, França, 7,5 e China com 5,9 bilhões de euros. Completa a lista dos dez maiores mercados do mundo, pela ordem, Canada, Itália, Reino Unido, Suíça, Suécia e Espanha. Alguns números impressionam. Na Dinamarca dez por cento do mercado de alimentos é orgânico e na Franca o crescimento deste mesmo mercado, em 2016, comparativamente ao ano anterior, foi de 22%. Chego a me perguntar se é um crescimento real ou um ajuste na coleta dos dados. Conversando com Franceses eles dizem que este crescimento é visível em seus cotidianos. De qualquer modo, o crescimento na casa dos dois dígitos foi a tônica nos principais mercados ao redor do mundo. 
Área com vários estandes chineses
Na Europa o crescimento do comércio de produtos orgânicos foi de significativos 11,4%.
Voltando aos EUA, é também digno de observação o fato de que 0,8% da sua área de agricultura ser orgânica ao mesmo tempo em que 5,3% do mercado de alimentos é com produtos orgânicos. Permito-me perguntar se o produtor norte americano não vai se ver obrigado a seguir a tendência apontada pelos seus consumidores.
Outro dado que refere-se ao mercado é o consumo per capita. Suíça lidera este ranking com 274 euros/habitante/ano. Dinamarca (227), Suécia (197), Luxemburgo (188) e Áustria (177) completam a lista dos cinco primeiros.
Existem muito mais números, fico com estes por hoje. Um estudo interessante diz respeito à outros selos privados que consolidaram-se nos últimos anos, principalmente ligados à commodities como cacau ou café.
Olha que luxo: estande austríaco preparado
                 para receber convidados
Fim de tarde, como de praxe no segundo dia da Biofach, alguns estandes promovem uma hora feliz. Bebidinhas e comidinhas orgânicas liberadas, boa música e a possibilidade de rever alguns amigos. Pergunta se eu gosto...
Amanhã tem mais. Não parece, mas quatro dias de feira voa e nem conseguimos ver tudo o que há para ver.

Nuremberg, 14 de fevereiro de 2018

Um dos inúmeros corredores da Biofach

Hoje foi dia de transitar na feira. Na minha conta é a décima segunda vez que venho na Biofach. O trabalho duro nos obriga a cada sacrifício... Este ano parece mais movimentada do que nos últimos e os números que tive acesso apontaram para uma área 12% maior do que ano passado de pavilhões ocupados, totalizando 30 mil metros quadrados de feira. Com o perdão da redundância, sempre repito o que vou repetir agora: esta feira enterra a costumeira pergunta: “mas dá para produzir tal ou qual cultura sem veneno?”. Acho que vou começar a responder esta pergunta sugerindo a quem a faz que visite a Biofach.
Maçãs - será que dá para produzir sem veneno?
Como de praxe, hoje, primeiro dia de Feira, deu-se a divulgação dos dados "O mundo da agricultura orgânica". Com certo clima de euforia pelo significativo crescimento de 2015 para 2016. Neste ano, cujos números tivemos acesso hoje, o mercado de produtos orgânicos movimentou noventa bilhões de dólares. Para quem não é da área devo dizer que este mercado, como todos, é movimentado por pessoas. A novidade é que são pessoas que, em sua maioria, são motivadas não apenas por sobreviver ou enriquecer. Quem trabalha com Agricultura Orgânica normalmente também possui um desejo de ver um mundo melhor. Com solos, águas, comidas e pessoas menos intoxicadas. Esta idiossincrasia justifica a euforia, para além das eventuais vantagens pessoais, em ver no mundo a ascensão desta forma de produzir e consumir alimentos. 
Julia Lernoud apresentando parte dos dados.
O crescimento do mercado é a resultante do crescimento da área e do número de produtores. Em 2015 eram 50,3 milhões de hectares cultivados organicamente. Em 2016, 57,8 milhões, um crescimento considerável de 15%. Impulsionado, como é comum, pelo crescimento da pecuária orgânica na Austrália, mas que também pode ser visto em países de menores dimensões mas não menos importantes como Itália e França, com suas áreas saltando respectivamente de 1,49 para 1,80 e de 1,32 para 1,54 milhões de hectares, apontando crescimentos significativos de 16 e 20%. No Brasil a área foi reportada como estagnada, em 750 mil hectares, mas sei que coletar estatísticas e números não é o que fazemos de melhor. Os cinco países com maiores áreas são Austrália (27,15 milhões de hectares), Argentina (3,01), China (2,28), EUA (2,03) e Espanha (2,02).
Presença forte dos Italianos na feira
Outro dado interessante sobre a área é que 1,2% da agropecuária do mundo é cultivada baixo as regras da Agricultura Orgânica. Se olhamos a Oceania este número sobre para 6,5% e na União Europeia chegamos a 6,7%.
Quanto ao número de produtores também ouve um importante crescimento. Em 2016 as estatísticas mostram que são 2,7 milhões de unidades orgânicas no mundo, 300 mil a mais do que no ano anterior. O país líder neste quesito outra vez é a Índia, com 835 mil produtores, seguido de Uganda (210.352), México (210.000), Etiópia (203.602 e Filipinas com 165.994). Na América Latina o Peru aparece em segundo lugar nesta estatística, com 92 mil produtores. Todos estes países caracterizam-se por uma agricultura orgânica praticada por agricultores familiares, diferente da Austrália, por exemplo, onde seus 27 milhões de hectares estão na mão de 2 mil produtores, uma impressionante média de 13,5 mil hectares por unidade produtiva. Querem comparar? Na Índia são 1,49 milhões de hectares, com uma média de 1,25 hectares por produtor.
Estandes do Brasil na Biofach
O Brasil foi reportado com apenas dez mil produtores. Este número é maior, mas outras vez espelha menos nossa realidade e mais nossa característica de dar pouca importância a coleta séria de dados. 
Enfim, é um mar de números, muito interessantes de serem analisados. Amanhã falo do tamanho dos diferentes mercados. Por enquanto vou registrar que sigo com a sensação que está chegando o momento dos números estatísticos da agricultura orgânica deixarem a marginalidade. 
Será mesmo que os millennials irão mudar a maneira como nos alimentamos? Mais uma esperança depositada nesta geração.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Nuremberg, 12 e 13 de fevereiro de 2018.


Fim da tarde em Nuremberg
Cheguei ontem a Nuremberg, sul da Alemanha. Mais uma vez para a Biofach, a maior Feira de Produtos Orgânicos do mundo. Isto é o que dizem os organizadores. Sempre tenho dúvida, afinal, os números coletados para definir o tamanho desse mercado apontam que metade dos noventa bilhões de dólares movimentados neste seguimento vêm dos EUA. De todos modos eu já busquei informações e parece que sim, a Biofach merece o título de maior do mundo.
Evento de hoje sobre Bioeconomia
Ontem, vim de Porto Alegre por Frankfurt e de lá peguei um trem aqui para Nuremberg. Sou da old school, daqueles que veem charme e elegância em trens...
Mas o trem não pôde chegar a Nuremberg. Desviou e nos deixou em Fürth, cidade vizinha, já que há poucas horas havia sido encontrada uma bomba na estação central de trem, de origem Norte-Americana e lançada na segunda guerra mundial. Nuremberg tem toda uma história em relação a essa guerra. Aqui é um dos berços do nazismo, e também foi aqui que o julgamento mais importante do pós guerra ocorreu, quando muitos nazistas foram condenados, alguns ao enforcamento, pelo que fizeram. O Julgamento de Nuremberg foi presidido por um Inglês e sua preparação teve um papel preponderante dos EUA (acho que não mandam só no mercado de produtos orgânicos...). 
É impressionante também como a cidade foi duramente bombardeada. Passeando pelo centro histórico é comum encontrarmos fotos que mostram seu estado quando a guerra chegou ao fim. Ela também é um símbolo da capacidade que o povo alemão teve de reconstruir seu país. Principalmente as mulheres, pois muitos homens estavam mortos ou mutilados. O centro histórico de Nuremberg, totalmente devastado há setenta anos, é um primor de beleza e cuidado. Outro sinal da organização alemã é vista neste próprio incidente com essa bomba. Em função do seu tamanho, 45 quilos, eles determinaram uma área de evacuação de um raio de 300 metros. Significa que ontem 4000 pessoas deixaram suas casas. Este tipo de episódio é razoavelmente comum no país. Li que ainda existem dezenas de milhares de bombas que não explodiram e ainda não foram encontradas. 
Outra do seminário de hoje
Pois é, mas justamente quando eu estava chegando acham uma bomba que foi lançada há mais de sete décadas? Tomei como sinal de boa sorte, esta viagem vai bombar... tá, prometo caprichar mais no próximo trocadilho!
Da estação de Furth, peguei o metrô e, ao descer, fui caminhando sobre a neve. Tão lindo, né? Um frio do cão, me molhando e tendo que andar devagar, porque o gelo, misturado com a sujeira é escorregadiço. Tudo lindo... Enfim, achei o apartamento onde me hospedarei junto com outros seis companheiros de trabalho, brasileiros e alemães. Este tal do Airbnb tem me feito relembrar a vida em república. É verdade que em outras épocas parecia mais divertido, isto antes de eu virar um ermitão. Mas tudo bem, me adapto.
Hoje foi dia de trabalho. Eu sempre tenho dificuldade em chamar de trabalho um dia onde fico sentado ouvindo palestras, tomando café e falo apenas por dez minutos. Passo muito mais trabalho para escrever uma poesia ou cuidar da minha pequena horta... Enfim, passamos a manhã em um seminário debatendo a Bioeconomia, termo novo, consagrado na Rio+20 e hoje muito usado para vincular negócios rentáveis e sustentabilidade ambiental. De certa forma um novo rótulo para práticas antigas, como aproveitamento de resíduos para serem fontes energéticas ou uso de microrganismos na agricultura para minimizar fertilizantes ou venenos. E fica o temor que nesta nova expressão a economia do termo leve o bio apenas como dama de companhia, para abrir as portas dos salões dos lucros dissociados de um verdadeiro compromisso com o meio-ambiente. Difícil separar o joio do trigo entre todos que usam este termo.
Entardecer no centro histórico de Nuremberg
Na parte da tarde, ainda sob o guarda-chuva do termo bioeconomia, foram debatidas possibilidades de mercado para produtos oriundos da Amazônia brasileira, no âmbito de um projeto que vem sendo desenvolvido em nosso país pela GIZ, agência alemã de cooperação internacional.
E assim foi meu dia. Com direito a rever alguns amigos e no fim da tarde passear um pouco, no frio, no centro da cidade.
A transição entre a tarde e a noite estava uma lindeza. Frio, céu limpo, a natureza fazendo escuro e as luzes da cidade buscando mantê-la acordada um pouco mais. Bonito de emocionar. 
Goulash de porco com pasta

Escolhi para jantar um pequeno restaurante alemão. Apenas três mesas e um balcão em L para oito pessoas. Todo em madeira, boa cerveja e cara de bem local. Nunca havia ido nele e gostei muito. Comi um goulash de porco com macarrão parafuso. No restaurante com jeito local, comi um mix de comida húngara e italiana acompanhado de cerveja alemã. Esta é a globalização que eu gosto!
Amanhã tem Biofach, conto algo de lá!

Onde jantei. Bem legal!

sábado, 18 de novembro de 2017

Nova Délhi, 16 e 17 de novembro de 2017.

História de séculos ainda viva.
Estes dois últimos dias foram para fechar com chave de ouro minha estada na Índia. Não tenho como contar tudo que fiz entre ontem e hoje, mas vou falar de três lugares. 
Gurudwara Bangla Sahib
O primeiro faz jus ao posto que ocupa no TripAdvisor de número um dos lugares para conhecer em Délhi. É o Gurudwara Bangla Sahib, templo Sikh. Bonito, muito bonito, agradável, bom astral, excelente recepção. Fiquei encantado. Sempre tive simpatia por este povo que ao menos uma vez foi vítima de tentativa de genocídio. Minha simpatia aumentou com esta visita. 
Comida para a galera. Tudo limpo e bem feito.
Só o fato de neste templo servirem comida gratuita para trinta mil pessoas durante a semana e até cinquenta mil nos sábados e domingos já fala muito sobre eles. 
Aprendi no templo que eles são monoteístas mas não têm nenhuma figura que seja associada a Deus e portanto eles reverenciam um livro que, contendo o ensinamento de seus dez sábios, foi sintetizado por um deles no início do século XVII com sua teologia, sendo assim uma religião relativamente nova. No templo não tem imagens e as pessoas fazem reverências e sinais perante uma espécie de altar onde está o livro. Uma música agradável, acompanhada com uma cantoria com frases do livro sagrado sai do Templo e emana por todo o ambiente. Enfim, imperdível conhecer este lugar.
povo trabalhando
Outro lugar que merece menção é a Old Délhi, a cidade velha. Ontem de manhã, após minhas quinze horas de viagem, sem possibilidade de entrar no meu quarto por ser muito cedo, resolvi sair para caminhar por lá. Basicamente é um mercado a céu aberto, onde se vende de tudo, produtos e serviços. Nas calçadas vi barbeiros, sapateiros, costureiros, e mais uma infinidade de serviços sendo prestados. Os profissionais chegam em pequenos veículos com um baú onde estão suas ferramentas de trabalho. Ou então possuem pequenas lojas que não tem suficiente espaço para suas atividades, e servem apenas para guardar o material de trabalho. Muita gente, pouco espaço, tem que se virar. 

Old Délhi tem ruas sujas, cheiro desagradável, pessoas como formigas em um formigueiro, inclusive dormindo na calçada, doentes atuando como pedintes, uma infinidade de comidas de rua, um emaranhado de fios elétricos que impressiona, alguns baixos a ponto de termos que desviar deles. 
Mesquita em Old Délhi.
Enfim, uma bagunça. Mas muito legal de ver... particularmente no mercado de especiarias, onde me senti no umbigo do mundo, não em termos espacial mas sim temporal. Me explico? As especiarias indianas deram movimento  a humanidade tanto quanto o ouro. E acho eu que antes dele. Fiquei ali vendo aquelas lojas e as enormes cargas de ervas e afins que movimentaram o mundo e fizeram a Europa traçar rotas e rotas para estabelecer comércio com este país. Ou a Inglaterra começar negociando exatamente seus condimentos, pigmentos, temperos e ervas, além de sedas, algodão e outros tecidos, e terminar dominando este continente que é a Índia. Fiquei ali vendo e viajando naqueles aromas. Senti como se estivesse cheirando a história ou vendo-a ensacada, sendo vendida a granel ou no varejo. Sim, ali vi a história da humanidade em atacado. 
Este é o tumulo de Gandhi. Nada a ver com o
templo indiano que descrevi ao lado
Por terceiro vou contar do maior templo Hindu de toda a Índia. Mas construído a poucos anos atrás, já neste século. Um Guru teve a visão de fazê-lo. Absolutamente monumental. Demorou apenas cinco anos para ficar pronto... impressionante.  Claro que lindo. Mas... achei um pouco fake... muita modernidade... entrada grátis, celulares, câmaras, bolsas ou comidas não podem entrar... mas... lá dentro vendem fotografias, “passeios” através de filmes em algumas salas fechadas, show de luzes, comidas, e uma enorme loja de presentes. Me senti meio em uma Disneylândia Hindu... mas que vale a pena ir, vale.
E teve mais, mas, como eu disse, Délhi não cabe em uma pequena crônica. Agora já no aeroporto fico pensando que conhecer este país e o sonho de consumo de muita gente. E todos têm razão. 
Cena urbana...
Esta curta viagem por este longo país só reforça esta percepção que é meio generalizada, visitar a Índia é um programaço. Estou aqui pensando também na saudade que vou sentir da comida... ainda bem que a mala está cheia de lentilhas, ervilhas, temperos, espécies, uns quilinhos de arroz e outras coisinhas... para manter um pouco do sabor da Índia comigo, ao menos por algumas semanas...
Vou terminar com uma frase que meu anfitrião no templo Sikh me disse: “Ser feliz é simples. Difícil é ser simples!”
Chega de caminhar por agora, este ano não conto mais!

Pessoal comendo no Templo
Sick. Não serve só pobres, como
acreditam em igualdade e humanidade,
seus dois pilares, qualquer um pode comer ali

Crianças indo ver o tumulo de Gandhi

Eu. O outro é o Gandhi...
Comidas...

Comidas...


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Cordilheira do Himalaia, 14 e 15 de novembro de 2017.

Eu e meus anfitriões.
Vivemos muitos tempos ao mesmo tempo, cruzados em determinado espaço. Acho que do ponto de vista da física esta afirmação está equivocada, mas não sei expressar de outro modo o que tenho visto aqui na Índia e em particular o que vivi nestes dois últimos dias.
O grupo da viagem, 42 pessoas.
Segunda feira, dia 13, saímos de Délhi à meia noite, longas cinco horas depois do previsto, em direção ao Norte do país, uma cidade chamada Nainital, já Cordilheira do Himalaia. De lá seguimos para a vila Supi Ramgarh, uma comunidade rural relativamente isolada. Para cruzar os menos de 35O km foram onze horas de caminho em uma Van para 16 pessoas, apertada e desconfortável. A viagem pelas estradas estreitas, sem acostamento, curvas fechadas, com gente caminhando às suas margens e a forma camicaze como eles dirigem não foi exatamente agradável. Mas os dois dias e uma noite que passamos lá foram muito interessantes. 
Vista de parte da vila Supi Ramgarh
Ficamos, como eu disse, em uma comunidade de agricultores, nos hospedando com eles em pequenos grupos de duas ou três pessoas. Mais precisamente agricultoras, porque foi um consenso entre os visitantes que quase só vimos mulheres trabalhando no campo. 
Nosso quarto - onde melhor dormi em toda minha viagem
Os visitantes fomos agrupados em grupinhos de dois ou três e fomos para diferentes casas, onde nos alojaram quartos de hóspedes que eles construíram com apoio de alguma ONG. Muito legal. Eu e Marcelo fomos afortunados com nossos anfitriões. Seus nomes: Shankar Bisth e Chandra Dave e os filhos Krishna e Vikram. Os jovens falavam um inglês suficiente para a comunicação, o pai só algumas palavras e a mãe, sempre lindamente vestida, nada. Ainda assim nos entendemos, com um namastê, um thanks ou alguns gestos. Nos trataram muito bem, com destaque especial para a comida preparada com muito esmero, a melhor que comi nestes dias, à base de produtos cultivados por eles e servida no chão, sobre uma toalha sempre limpa.
Os banheiros eram fora de casa,  o que em algumas zonas rurais do Brasil é ainda comum, um para banho de caneca e outro com uma patente ao chão, o que nos exige joelhos fortalecidos. Tudo muito bem cuidado. 
Ferrarreria do povoado
Deixa eu voltar um parágrafo e dar um exemplo do que tentei dizer sobre os tempos cruzados. Aqui na comunidade tem um ferreiro. Muito muito artesanal. Forno bem pequeno para temperar o ferro, pedra para batê-lo, fole tocado à mão via uma manivela para maior eficiência. Vi marretas, plainas e foices feitos de forma totalmente artesanal. E na mão do ferreiro um celular. Uma atividade profissional anterior à revolução industrial turbinada por uma tecnologia que só se popularizou no século XXI. Sempre gosto destas cenas e não é a primeira vez que descrevo algo assim no blog. Aqui vi vários exemplos como este, mas não só aqui, com olhos atentos veremos que muitos tempos se entrecruzam nos nossos cotidianos.
Ontem depois do almoço descansamos um pouco da noite não dormida e demos uma volta pela comunidade. Cedo se fez noite e depois do luxuoso jantar nos recolhemos. Não sem antes ter a oportunidade de ver a senhora Chandra preparar o chapati, o pão mais comum por aqui, na sua própria cozinha, simples e bem equipada, com utensílios de primeira, principalmente de aço inoxidável. 
Comemos chapati com dois pratos diferentes, um à base de batata e outro à base de folhas de mostardas. Tanto no almoço quanto na janta nos ofereceram um pote de iogurte natural, muito bem feito por eles. 
Na cozinha, com a Chandra
Ao escurecer a temperatura começou a cair, e muito, afinal estávamos a mais de dois mil metros de altura. Nosso anfitrião trouxe para nosso quarto uma pequena “lareira portátil”, com brasas ardendo sobre um recipiente de latão. Um braseiro. Para tudo neste mundo há uma solução simples e barata...
Acordamos hoje, eu e o Marcelo, quase nove da manhã, depois de onze horas de sono quase direto, quebrado por um xixi encapotado e ao tempo gélido (menos de dez graus). Tomamos um chá de massala, ficamos conversando um pouco sobre a lida deles e fomos passear, visitando casas na mesma Montanha, algumas delas também com pessoas do nosso grupo. Sim, a Montanha com maiúscula é de propósito.
Não sei se pela época, com as lavouras de verão já colhidas, mas talvez o cultivo anual que eu tenha mais visto aqui seja maconha, dentre pomares de maçã que dominam as áreas cultivadas. O senhor me contando que fuma e fica assim ó: neste momento ele pôs suas mãos ao ar, esticou seus braços na lateral, fechou os olhos e meteu um sorriso no rosto. Ri muito...
"Lareira" portátil.
Almoçamos, trocamos fotos e presentinhos, nos despedimos e descemos a montanha, nos encontrando com todo o grupo outra vez. Mais fotos e começamos a longuíssima viagem de volta. Pneu furado, engarrafamento ao cruzar algumas cidades, banheiro, lanches e janta (no restaurante de um Hotel Radisson que estava à beira da estrada. Acho que alguns europeus queriam um ar mais refinado...). E ainda teve uma longa discussão entre os motoristas e nossos anfitriões, renegociando valores relativos às gorjetas da viagem, só resolvida com a chegada da polícia. Como a conversa toda durou mais de uma hora, depois da meia-noite, foi em híndi e eles não me contaram nada, eu mesmo coloquei legenda... Tudo isto fez a viagem de volta ser ainda mais longa. Um total de 16 horas para 350 km. Duvida? Você não imagina as coisas que acontecem neste país... Eram seis da manhã quando chegamos ao ponto de partida. Peguei um táxi para o hotel em que ficarei nas próximas duas noites, onde cheguei às sete da manhã. Este dia que começa conto amanhã. Tenho só dois dias de Deli antes de voltar para casa!

Almoço luxuoso

Pimentas, ervilha, feijão e maconha...

A Van...

A Van por dentro... pensa...