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segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Santiago do Chile, 10 e 11 de dezembro de 2016


Visual desde a propriedade orgênica de
Andrea Tuckek e filhas, Catemu.
 
Sábado é dia de feira e o nosso começou pela Ecoferia La Reina, uma feira de produtos orgânicos que ocorre em um parque municipal chamado Aldea del Encuentro.
Ecoferia La Reina
Visitamos a feira calmamente, conversando com os produtores e participando de um bate papo com consumidores. Comprei amêndoas, nozes, maçã seca e tomei café. E assim foi até a uma da tarde, quando deixamos a feira para almoçar na cooperativa La Canasta, uma iniciativa de consumidores que se organizam para terem acesso a produtos de qualidade com preços mais acessíveis. Passamos algumas horas entre empanadas, suco de maçã e conversando sobre possíveis caminhos para o desenvolvimento da agricultura ecológica e da certificação participativa no Chile. Chegamos ao hotel já no fim da tarde.
Uma das frases nas paredes do
The Clinic
O hotel está perto do bairro Bella Vista, lugar que reúne inúmeros bares e restaurantes. Começamos a night passeando pelo interessante Pátio Bella Vista, um centro comercial com uma variedade de lojas com artesanatos e locais para comer ou beber. Mas acabamos optando pela comida chilena do tradicional Galindo. Tradicional nem sempre significa qualidade. Este foi um exemplo. Como a opção de comida não foi boa, fomos tomar algo no The Clinic. Este sim, muito legal. The Clinic é o nome de uma revista semanal chilena, que mistura sátira e humor em suas notícias, comentários e análises políticas. O nome é inspirado na clínica na qual o ditador Augusto Pinochet ficou quando foi preso em Londres, no fim do século passado. Possivelmente em função de seu sucesso e boa imagem, se aventuraram em uma cadeia de bares, que tem como tema o mesmo tom satírico da revista, acompanhado de bom gosto na decoração e no mobiliário. Com um bom e divertido cardápio. Ótimas frases espalhadas pelas paredes. Tão legal que o papo aí se esticou até as três da manhã.
Foto ofical do dia!!!
E hoje, domingo, fomos para a propriedade de Andrea Tuczek, uma das pioneiras da agricultura orgânica aqui no Chile e a quem conheço há 20 anos. Fica em Catemu, na região de Val Paraíso, no famoso Vale do Aconcagua. Visitamos toda sua produção, acompanhando uma visita de verificação feita por um outro agricultor da associação Tierra Viva. Além dos cinco estrangeiros que estamos juntos toda a semana (Vanessa do México, Jose, Bolíviano, Matilde, Argentina e Rafael e eu, brasileiros), alguns sócios de Tierra Viva também estavam presentes. A propriedade é muito bonita, envolta em uma linda cadeia de montanhas. Plantam uma incrível diversidade de coisas, como folhosas, batata, tomate, feijões, batata doce, morango, marmelo, ameixa e muito mais. Processam algumas frutas em geleias e sucos. Pela primeira vez na vida comi damasco fresco. Delicioso.
Almoço luxuoso...
Almoçamos um cordeiro magallanico, acompanhado de saladas frescas e verduras assadas em forno de barro. Toda a preparação capitaneada pelas duas filhas e genros da Andrea, um deles chef, que sabia perfeitamente o que estava fazendo. O almoço foi acompanhado de suco de morango, que são produzidos por eles, e um bom vinho biodinâmico, chamado Emiliana. De sobremesa leche asado, que os próprios anfitriões definiram como um pudim que deu errado. Muito bom. Para fechar, cola de mono, uma bebida muito típica aqui, consumida principalmente nas festas de fim de ano, à base de leite, açúcar, aguardente, baunilha, cravo, canela e café. Tudo isto à sombra de uma árvore.  Maxim's ou Fasano que me deem licença, mas isto sim é luxuoso!
Com toda esta verdadeira festa de babette, começamos a comer às três da tarde e terminamos às sete... claro, tudo entremeado por boas conversas, com seus momentos mais e menos sérios. Chave de damasco fresco orgânico para uma proveitosa e agradável semana de trabalho no Chile. Ficamos todos com a sensação de nos ter faltado uns dias mais. Outra vez será.
cordero magallanico

Verduras ao fogão de lenha

Leche Asado
deixando o registro...

Almoço no La Canasta

sábado, 10 de dezembro de 2016

Santiago do Chile, 08 e 09 de dezembro de 2016

Visual desde La Almendra
Ontem saímos de Santiago em direção ao Sul. Menos de uma hora e estávamos na parcela (o nome que os chilenos usam para sítio, propriedade, granja, finca) de Mônica, uma amiga chilena produtora de morango, arándano, aspargos, abacate, hortaliças, amêndoas e outras coisinhas mais. Sua parcela fica na comunidade de Paina, na região metropolitana de Santiago
Depois de uma pequena reunião com alguns sócios de Tierra Viva, a associação de produtores orgânicos que estaremos visitando esta semana no Chile, fomos olhar seus cultivos.
Estufa com hortliças, na parcela da Monica
Mónica entrou para Tierra Viva em 2010, pouco tempo depois de definir produzir de forma orgânica e viver nas terras de sua família. Tierra Viva surgiu em 1992, com um grupo de 30 pessoas, entre produtores e apoiadores. É a mais antiga agremiação de Produtores Orgânicos do país. Nestes quase 25 anos, muitos saíram, outros entraram, e hoje contam com o mesmo número, 30, de produtores certificados.
Casa de Hugo e Marcela
Nesta reunião, Ramón, um dos técnicos que se envolve com Tierra Viva, mencionou que seu trabalho de manejo do solo se baseia nos 3M - Matéria orgânica, Microrganismos e Minerais. Gostei disto.
Conversando, um outro sócio de Tierra Viva, Francisco, nos contou que a produtividade de morango aqui no Chile nos últimos 40 anos passou de 10 para 100 toneladas por hectare. Como? Tecnologia. Estou seguro que uma mescla de tecnologias mais e menos limpas. Não sei dizer quanto os adubos químicos e os consequentes agrotóxicos representam neste aumento. Eu diria que uma menor parte. Em outras palavras, acredito que com a agricultura orgânica se pode/poderia obter um incremento de produtividade, se não igual, ao menos semelhante. 
Detalhes estéticos: casca das amêndoas
servindo de caminho.
Depois de visitar Mônica e acompanhar o processo de certificação participativa feito realizado pelo Francisco, fomos visitar o casal Hugo e Marcela, donos da empresa El Almendro, que como nos indica o nome se dedica à produção de amêndoas orgânicas. Deliciosas. Aí almoçamos, conversamos e outra vez participamos de uma visita de avaliação da qualidade orgânica de sua proodução, desta vez feita por Mônica, responsabilizada por Tierra Viva para esta tarefa.
O lugar é lindíssimo, e o bom gosto de Hugo e Marcela se nota no cuidado com cada canto da propriedade e da casa, toda feita com grossas paredes de barro e uma arquitetura que privilegia a paisagem que a circunda.
Reunião com os representantes sdo SAG - Serviço
Agrícola e Gandeiro
Hoje amanheceu lindo, cinzento e com uma chuva fina. Quase frio. Este tempo permaneceu por todo o dia. Pela manhã usamos o organizado metro de Santiago para irmos a uma reunião no Ministério da Agricultura. Lá ouvimos uma apresentação e ficamos sabendo da situação da agricultura orgânica por aqui. Segundo Cláudio, o responsável na estrutura de governo por este assunto, tanto a oferta quanto a demanda vêm crescendo nos últimos anos. Hoje são 130 mil hectares certificados como orgânicos, sendo quase 90'% oriundo da coleta silvestre, de frutos como maqui (aristotelia chilensis). Maqui é uma frutinha original do sul do país, consumida ancestralmente pela etnia Mapuche, que também reconhecia as múltiplas propriedades medicinais de suas folhas.
Uma boa parte desta produção orgânica no Chile é exportada, principalmente frutas frescas e vinhos.
Conversa com Reinaldo, em sua casa  comércio.
Ainda antes do almoço fomos ao pequeno comércio de um conhecido de muitos anos, Reinaldo, que nos contou de sua trajetória de promotor da agroecologia no Chile e das razões pelas quais optou por se tornar um comerciante de produtos ecológicos.
O almoço foi em um restaurante na calle Holanda, chamado La Fraternal e aí ficamos, até as seis da tarde, conversando com representantes de organizações de produção ecológica sobre a realidade chilena na produção e a comparando com outros países latino-americanos.
E ainda tivemos força para jantar no Liguria, um bar – restaurante que fica perto do nosso hotel, o Íbis Providência. Gostei muito do lugar, além da boa comida e do bom atendimento, uma decoração carregada, buscando reproduzir o kitchie marcante de uma casa de pueblo chilena. E aí ficamos, entre comidas e bebidas até as duas da manhã. Minha carruagem virou abóbora e eu nem percebi...

Um dos ambientes na El Almendro

Nosso almoço no campo



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Santiago, 07 de dezembro de 2016.

La Chacona
Meu dia foi quase todo passeando por Santiago. É uma capital bonita, entrecortada por morros e ladeada pelos Andes. Por onde andei, ruas bem cuidadas e arborizadas. Vários parques colocam ainda mais verde na paisagem urbana. 
Rua no Bella Vista
Saí do meu hotel, no bairro Providencia, e fui direto à casa de Neruda, que fica em Bella Vista. Antigamente Bella Vista seria chamado de bairro boêmio, mas hoje deve ser cool, hipster, descolado, milênio - sei lá. Minha filha sempre tenta me explicar as diferenças mas eu não entendo. Vou ficar com legal. Bella Vista é um bairro muito legal. E é lá que está La Chacona, uma das três casas onde morou o poeta Pablo Neruda, um dos maiores escritores do século XX, e que hoje funcionam como museus. As outras são La Sebastiana em Val Paraíso e Isla Negra, que fica nesta ilha decantada por ele em seus versos. Chacona é um nome quéchua que significa descabelada, apelido pelo qual Neruda chamava a Matilde Urrutia, sua amante que se converteu na última das três esposas que ele teve e com quem ficou até sua morte, em 1973. 
Rivera retrato a Matilde de perfil e frente
no mesmo quadro. De quebra,colocou
um perfil de Neruda em seu cabelo
Sempre acho inebriante estes espaços, onde podemos entrar em algo da atmosfera e na vida destes personagens tão marcantes. Seu espírito irrequieto, seu senso estético e sua cultura se fazem notar em cada espaço da casa. Além de suas notáveis amizades, como com Diego Rivera, grande artista mexicano. Na parede de um dos cômodos da casa vemos um quadro pintado por ele com um retrato bastante original de Matilde.
Passei o dia com uma dose de emoção tilintando em mim, por esta visita a Neruda. Não é dos poetas que mais li, mas sua vida e obra emocionam. Ele no "O carteiro e o poeta", ensinando o carteiro a fazer verso. Ou nos deixando algo como: "Amo o amor dos marinheiros, que beijam e se vão / em cada porto uma mulher os espera / os marinheiros beijam e se vão / um dia, deitam-se com a morte no leito do mar". Ou "porque em noite como estas eu a tive entre meus braços / ... / é tão curto o amor e tão longo o esquecimento". Ou militando com Diego Rivera e García Lorca por um mundo mais justo. Sim, não é à toa que me emocionei.
Visual do Mercado La Vega
Acompanhado de uma gostosa nostalgia, saí de La Chacona e fui andando pela rua Antônia Lopez de Bella, passando por uma zona de intenso comércio popular e cheguei ao Mercado La Vega. Um dos maiores que já vi, acho que porque mistura atacado e varejo de frutas, hortaliças, nozes, castanhas, frutas secas. Mas vende tudo, carne, peixe, cereais, comidas para cachorro, roupas, e por aí vai. Para quem gosta de ambientes organizados e cheirosos, não recomendo. Mas bem oportuno para ver e sentir algo local, seus produtos e dinâmica de negociação. Eu gostei muito de conhecer.
Segui caminhando, passei pelo Mercado Municipal, agora transformado quase todo em um espaço para restaurantes mais turísticos. Este sim, mais tranquilo e organizado. e com algumas lindas bancas de peixes e frutos do mar, frescos.
Mercado Municipal de Santiago
Do Mercado Municipal segui pelo Paseo Puente, um dos calçadões no centro da cidade, até a Plaza Mayor. Muita gente, limpa e organizada, rodeada por seus palácios políticos e religiosos. Segui caminhando pelo centro, com paradas para almoço e cafés. Ainda com a atmosfera que Neruda me deixou, resolvi ir ao Museu de Belas Artes de Santiago. Por alguma razão acho que melancolia e arte combinam. 
Bonito o Museu, tanto o prédio como suas coleções. Destaque para José Pedro Godoy e sua exposição intitulada "História Violenta e Luminosa".
Godoy, História Violenta e Luminosa.
Fim do dia encontrei aqueles que me acompanharão esta semana aqui no Chile. José, boliviano, Rafael, brasileiro, Matilde, argentina. Na madrugada chega Vanessa, mexicana. 
Estamos aqui para mais uma etapa do intercâmbio entre Sistemas Participativos de Garantia para a produção ecológica, que o Centro Ecológico, organização que trabalho, está apoiando. Quinta e última etapa, depois de Bolívia, Brasil, México e Peru.

Cheguei um dia antes exatamente para rever um pouco da cidade, já que a última vez que estive aqui foi em 2007. Quase tinha me esquecido como Santiago é um ótimo lugar para se estar. Amanhã vamos visitar propriedades orgânicas. Pouco bom!

Azeitonas, no La Vega

Peixes, no Mercado Municipal de Santiago

sábado, 19 de novembro de 2016

Ayacucho, 19 de novembro de 2016.

Patricia, Evelyn, Maximiliano, Eusebio, Maurizio,
eu e Andrea.
Já comentei que vim ao Peru várias vezes, desde 1997. Uma das coisas que aprendi é que para entender a idiossincrasia do povo Peruano é importante saber um pouco do que representou para eles os aqui denominados anos de violência, nas décadas de 80 e 90. Para ouvir um pouco mais sobre isto fomos ao Museu da MemóriaAyacucho foi a cidade que mais sofreu pelas ações do Sendero Luminoso, que se imaginava uma guerrilha de esquerda. 
Museu da Memória
Quando o Governo Peruano percebeu que as ações do grupo liderado por Abimael Guzmán não era apenas de "ladrōes de gado", as forças policial e militar entraram em ação, o que resultou em mais violência às famílias campesinas. Em seus depoimentos elas comentam que viviam permanente entre estes dois lados bastante violentos. Esta história está fartamente documentada e é muito fácil buscar informações sobre ela, portanto não vou discorrer mais aqui. Apenas deixo o registro do quanto  me impressionou o Museu da Memória e os inúmeros casos ali contados sobre filhos que saíram para estudar e nunca mais voltaram, pais ou mesmo famílias inteiras assassinadas cruelmente por um lado suspeitar que esta família apoiava o outro. Uma última informação que me surpreendeu muito: o Sendero Luminoso ainda atua em algumas regiões do norte de Ayacucho.
Batata, onde ela gosta de estar: nos Andes!
Mas o dia não começou com a visita ao Museu da Memória. Antes das sete da manhã estávamos de pé, aceitamos o convite da minha amiga Patrícia Flores e fomos visitar uma família  campesina perto de Ayacucho. O Sr. Maximiliano preside uma associação de 13 criadores de cuys (preás) tão apreciados nos países andinos. Além de criar cuys, ele cultiva batata, milho, feijão, abóboras e 2 hectares de quinua, branca e negra. Uma observação: tem que saber muito para fazer tanto, em um ecossistema tão extremo, pouco abundante em vida. Ao fim da visita nos ofereceram um café da manhã. Carne de porco frita, batata assada e milho cozido. Para beber, chá e chicha de jora, um fermentado de malte de milho, ainda do tempo dos Incas, que pode ou não ter diferentes teores alcoólicos. O de hoje era novo, sem álcool.
Litoescultura dos Wari
No dia ainda coube uma breve passada no VIII Encontro Nacional de Sistemas Participativos de Garantia, evento que me trouxe a Ayacucho e uma visita ao Museu Histórico Regional Hipólito Unanue, cheio de informações sobre a colonização dos Andes, desde o século XXIII AC, e o desenvolvimento de inúmeras culturas, que se sucederam ao longo dos séculos, em uma história de invasões e conquistas. 
E tive pouco tempo para comprar os famosos artesanatos de Ayacucho. Vou ter que voltar...
Agora já no aeroporto de Lima, oito da noite, esperando o voo para Porto Alegre, com mais uma viagem na bagagem. Hoje, enquanto arrumava a mala, fiquei ouvindo Mercedes Sosa. Uma das suas famosas canções que eu ouvi dizia: “Gracias a la Vida, que me ha dado tanto...”.

essas mulheres...

...e suas roupas maravilhosas!


Lima e Ayacucho, 17 e 18 de novembro de 2016.

4.756 msnm, a caminho de Ayacucho
Ontem, quinta-feira, trabalhamos pela manhã e passeamos pelo interessante Centro Histórico de Lima na parte da tarde. Mas, digno de nota mesmo foi a viagem à noite para Ayacucho.
Plaza de Armas, centro histórico de Lima

Eu sempre me encanto com a possibilidade de viajar pelos Andes. Claro que de noite, menos interessante. Mas quando amanheceu estávamos pela parte mais alta, que hoje chegou a 4764 metros. É bastante. Senti um pouco o que aqui eles chamam de "sorocho" ou "mal de altura". Dor de cabeça e mal estar no estômago. Mas o mal estar foi facilmente compensado pelo visual. Geadas e morros nevados, a partir do ônibus aquecido, estava sensacional. A estrada é erma, alta, cheia de curvas e perigosa, margeando precipícios. 
Cena urbana, Ayacucho
Um mostrador digital nos mostrava a velocidade do ônibus. Nesta altitude quarenta, cinquenta quilômetros por hora, nunca que mais que sessenta.
Chegamos em Ayacucho às oito da manhã e foi tempo de passar no modesto hotel, para dizer o mínimo, e ir trabalhar.
Ayacucho é uma cidade relativamente grande dos Andes Peruano. Segundo o Wikipedia tem 250 mil habitantes e está localizada a 2800msnm. Viemos aqui, eu os amigos de diferentes países que estamos passando a semana no Peru, para o VIII Encontro Nacional de Sistemas Participativos de Garantia. Cerca de 250 pessoas, a maioria agricultores e agricultoras. 
As super mulheres de Ayacucho e suas
batatas maravilhosas
Paralelo a este encontro uma feira com uma linda oferta de produtos ecológicos. Comprei quinoas - branca, vermelha e negra e cafés em grão e moído. Vi muita kiwicha, chia, batatas e milhos coloridos, cacau em grãos ou em tabletes, pães, mel e derivados, hortaliças e etc. Tomei um sorvete de leite, açúcar e amendoim, típico região, feito na hora, o muyuchi. Gostosinho.
oferendas à pachamama
Para a inauguração da Feira fizeram uma cerimônia da Pachamama, um ritual com oferendas à Mãe Terra e que é parte importante da mitologia dos povos andinos.
Antes do jantar fomos a um centro de artesanato. Não é sem razão que Ayacucho é considerado a Capital da Arte Popular e do Artesanato do Peru. Hoje descobri que muitos dos artesanatos que sempre vi em diferentes regiões do país são daqui. Amanhã tenho que comprar algo, não posso passar em branco!
Jantamos em um pequeno grupo, agricultores orgânicos peruanos e alguns estrangeiros. Fidel, mexicano, apareceu com sua garrafa de Tequila. Maurizio, de Cochabamba, trouxe um licor de folhas de coca, feito por ele. Rosita, a presidente da Associação Regional de Produtores Ecológicos de Ayacucho, ofereceu duas jarras de pisco sour, uma espécie de caipirinha comum no Peru e no Chile. Como dito no Rio Grande do Sul, feito o carreto. Passamos algumas horas entre conversas sérias e boas risadas.

Tres leches. 
Agora, onze da noite, resolvi dar uma volta pela praça e vi um café, o Via Via, que me convidou para uma sobremesa, na sua agradável varanda de frente para a Plaza de Armas, a praça principal da cidade. É meu terceiro três leches da semana. Não me queixo.

Está esfriando, vou para cama. Amanhã saímos às sete da manhã para visitar uma propriedade rural. Veremos o que nos espera. Se conseguir conto aqui que Ayacucho é o local de uma importante batalha que deu início aos processos de independência da América espanhola. Também nos anos de atuação do Sendero Luminoso esta cidade foi palco do medo e do terror vivido pela população civil.

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Lima, 16 de novembro de 2016.


Agricultoras peri urbanas de Vila Maria del Triunfo
O dia começou cedo, com uma visita a uma experiência de Agricultura Ecológica Urbana em Vila Maria do Triunfo, município vizinho à Lima. Um hectare manejado por 48 famílias, divididos em 4 grupos. Fomos muito bem recebidos pela Dona Gregória, que nos contou que elas começaram sugerindo ao poder público a agricultura urbana como forma de manejo dos parques que a prefeitura não tinha recurso para manter. A Sra. Gregória conta que foi de casa em casa convidando quem tinha algo plantado em sua casa, o que dava a ela uma pista que eles gostavam de agricultura. Achei demais isto. 
Dona Gregória, sua linda!
Chamadas de loucas no início, agora muitos querem participar e ter acesso a um espaço, pois além de melhorar a alimentação da família ainda sobra um excedente para vender em pequenos mercados. Durante anos foi proibida a participação de homens, segundo ela pelo machismo existente. Agora a situação mudou, e homens também participam.
São dez hortas na região, envolvendo diferentes municípios. Buscaram a ANPE, conseguiram ser sócias e integrantes do esquema de certificação participativa de ANPE, acessando por esta via alguns mercados.
Como já mencionei a maioria é de mulheres, que vivem na periferia de Lima, em condições de pobreza econômica e escassez de serviços básicos. Vieram de diferentes regiões do Peru e posso imaginar não encontraram na capital o que vieram buscar. O sonho de uma vida melhor, longe das condições extremas que muitas vezes imperam no contexto da agricultura campesina no interior do país, quase sempre não se concretiza. A maneira como as Senhoras nos receberam e pela emoção que expressaram ao nos descreverem seus trabalhos, deixou a impressão que estas hortas urbanas cumprem para elas o papel de ponte, entre um passado vivido e o futuro sonhado.
Horta na periferia.
Depois fomos em outro distrito, visitar a duas das doze sócias do grupo Ecosumac. Curioso nome, cosmopolita, junta o grego e o quechua e significa casa bonita. São também membros da ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos. Dona Justina desde 2014 produz cuy e porcos e Alicia produz deliciosos sorvetes artesanais com frutas orgânicas produzidas em parte no hectare que ela cultiva.
Bom voltar a ver a periferia de Lima. Como em quase todas nossas cidades latinas, passeios por seus bem cuidados bairros centrais não espelham a vida da maioria da população. 
Periferia de Lima, vista desta a horta ubana de
Vila Maria do Triun
Depois do trabalho um breve passeio pelo Parque Kenedy, ponto central de Miraflores. Caminhamos, compramos algo de artesanato e paramos um pouco em um dos restaurantes da Calle de las pizzas, uma rua muito conhecida por aqui, no coração de Miraflores, cheia de restaurantes barulhentos e de qualidade duvidosa.
À noite fui jantar no restobar Posada del Angel, em Barranco. Uma linda casa, com todos seus ambientes tomados por mesas, cadeiras, poltronas ou sofás, não necessariamente bem cuidados. A decoração do ambiente que fiquei, tipo a sala da casa, obedece ao nome do lugar e é recheada de anjos, a maioria católicos, sob a supervisão dos arcanjos Uriel e Gabriel. Mas não faltam expressões de divindades hindus ou budistas. Estátua da Virgem Maria, telefones antigos, luminárias coloridas, quadros de Charles Chaplin ou pétalas de rosas sobre o carpete antigo também fazem parte da eclética e ecumênica decoração. Boa comida e música ao vivo completam o cenário. Gostei, voltaria lá.

Amanhã reuniões e às oito da noite viagem de ônibus para Ayacucho.

Rede dos grupos de agricultura urbana

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Lima, 15 de novembro de 2016

Filho do Sr. Gilberto. Que mirada...
Passei o dia cantarolando Milton Nascimento. Com a roupa encharcada e a alma repleta de chão, todo artista tem de ir aonde o povo está. Se foi assim, assim será...
Uma das hortas que visitamos.
Hoje fomos ao campo, não em uma boleia de caminhão, mas em uma pequena van, com amortecedores vencidos, banco sem molas e entrada permitida ao calor e ao pó. Com oito lugares, em alguns momentos éramos 13. Foi interessante. E divertido. Nem só de VIP lounges ou Uber Black vive o homem.
A primeira visita foi em Carapongo, cerca de uma hora e meia de Lima. Visitamos algumas das oito famílias da "Associação de Bioprodutores de Carapongo La Esperanza". Esta associação faz parte da APARL - Associação de Produtores Agroecológicos da Região de Lima.  Por sua vez a APARL integra a ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos do Peru.
O grupo La Esperanza e nós, os "estrangeiros".
O primeiro produtor que visitamos foi o Sr. Gilberto. Desde 2008 sua produção é orgânica e ele já foi certificado pelo método que se conhece como auditoria ou terceira parte. Agora integra o SPG liderado pela ANPE. SPG - Sistema Participativo de Garantia, é um método que permite que os próprios produtores, de forma organizada, atestem a qualidade da sua produção. O SPG, além de ser mais barato, propicia uma troca de olhares e experiências que significa um valor agregado em relação ao sistema de certificação por terceira parte.
Na visita nos explicaram como funcionam. Vou tentar contar em breves palavras. Para começar, aquele que deseja ser certificado deve integrar um grupo de no mínimo seis famílias. Este grupo elege um deles como avaliador interno. Todos devem velar pela qualidade ecológica da produção. 
"milho de polenta"
Este avaliador interno participa de algumas etapas de capacitação para apurar mais seus conhecimentos sobre a produção ecológica e sua percepção sobre a confiabilidade do trabalho desenvolvido por cada família e para preencher os inevitáveis papéis exigidos no mundo da certificação. Fazem dois tipos de visita. Uma anunciada e outra de surpresa. Esperanza, uma simpática produtora, é a avaliadora local. A avaliação feita por esta avaliadora irá ser analisada pelos grupos e eventuais problemas serão resolvidos neste âmbito. Esta avaliação, após discutida em grupo, irá para uma instância que se chama Conselho Regional do SPG, que irá definir se o produtor está ou não apto a ser considerado orgânico. Esta decisão o Conselho Regional, integrado por lideranças de produtores e consumidores, além de outros setores, como ONGs e Universidades, irá tomar a partir dos documentos recebidos e uma visita por amostragem em cerca de 20% dos produtores. Quando passa por todas estas etapas, a família recebe um atestado de produtor ecológico. Atestado e não certificado, pelo fato do SPG não estar reconhecido pela legislação peruana que trata da regulação e controle da produção ecológica. Esquema interessante – tem mais elementos, mas tentei ser breve na descrição. A outra possibilidade é contratar uma empresa de certificação. Paga, preenche uma série de formulários exigidos, é avaliado e se tudo está ok recebe seu certificado. 
Visual no campo, em Santa Eulália.
O grupo La Esperanza era certificado por uma empresa, e cada família pagava de mil a dois mil dólares por ano. Com o SPG não pagam nada, apenas precisam participar, ou seja, usar parte de seu tempo. Mal comparando, é como cortar grama do meu quintal, posso fazer ou posso pagar alguém para fazer para mim. 
Uma última coisa sobre isto: Com a perda de mercado por parte das empresas certificadoras, não é de se estranhar que elas fazem um constante trabalho de lobby junto ao governo nacional para manter os SPGs fora do marco legal. No Brasil se passou o mesmo, e, finalmente se conseguiu a incorporação dos SPGs na legislação que trata do tema. Com isto, as empresas perderam mercado e se viram compelidas a baixar seus preços.
Bom, este longo parágrafo acabou virando aulinha sobre certificação – vou deixar assim, já acho que muitos dos apreciadores dos produtos orgânicos não sabem o que está entre eles e aquele “selo” que os identifica nas prateleiras.
Cuy. Nosso almoço de hoje. 
Mas teve mais. A segunda parte da visita foi em Santa Eulália, um pouco mais longe, a um grupo de mulheres que produzem hortaliças e preás. Sim, preás, aqui chamados de cuys e muito comuns na alimentação na zona do altiplano. Hoje comemos cuy no almoço. Prefiro chamar cuy do que preá, me sinto menos ogro.
Fim do dia, cansados, foi tempo de comer outra vez no corretíssimo Punto Azul e vir para o hotel assistir ao Brasil ganhar do Peru pelas eliminatórias. O tema ontem e hoje aqui foi este jogo, e naturalmente todos queriam puxar este assunto comigo. Minha resposta é que eu havia pedido aos meus amigos da seleção para ganhar só de 1 x 0.  Errei, mas 2 x 0 não chega a ser agressivo, acho que sobrevivo. Deu por hoje, amanhã vamos ao campo outra vez.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Lima, 13 e 14 de novembro de 2016.

Barranco, flores e entardecer.
Outra vez em Lima, a cidade que mais visitei fora do meu país. É possível que eu tenha vindo mais à Lima do que à São Paulo, Belo Horizonte ou Curitiba. Que curiosa é a vida né? Nunca imaginei algo assim, nunca foi uma cidade ou país que povoasse meus sonhos, naqueles tempos que eu fazia lista de lugares a visitar. Mas assim foi, assim está sendo. 
Feira Ecológica de Surquillo.
Hoje gosto muito de Lima, em particular de Miraflores, o bairro (municipalidade por aqui) tão decantado pelo peruano Mário Vargas Llosa, Nobel de Literatura e um dos melhores contadores de história da literatura latina. Para quem não leu, não deixe de ler “A cidade e os cachorros”, história ambientada na Miraflores dos anos 60.
Cheguei ontem de manhã e fui direto à Feira Ecológica de Surquillo, que fica ao lado do mercado público com o mesmo nome. O Peru tem uma tradição na produção ecológica, boa parte centrada em produtos para exportação. Café, cacau, grãos andinos, como quinoa, chia, amarantus, são alguns exemplos. 
Boas vindas ao Peru: Chicha morada e
milho salgado de tira gosto.
Ao longo dos anos algumas empresas, locais ou estrangeiras, foram se posicionando no mercado nacional com estes grãos e seus derivados, com bons chocolates feitos no Peru e cafés gourmet. Quero dizer, o país foi aprendendo a processar a matéria prima que exporta. Na feira vi muitos destes produtos, além claro de frutas e hortaliças, ovos, lácteos, mel, etc. Bela feira, movimentada, viva. Poderia ter ficado horas ali, mas estava com fome e optei por ir almoçar no restaurante Punto Azul. Excelente opção, como boas vindas gastronômica,
Sigo com a impressão que Lima está cada vez mais organizada, bonita. Impressão reforçada pelo passeio que fiz ontem e hoje, que recomendo sem medo de errar. Andar, ao cair da tarde, de Miraflores para Barranco, os dois bairros mais charmosos de Lima. Um passeio de uns três quilômetros, à margem do Pacífico, sobre a falésia, em uma calçada adequada e em boa parte ladeada por jardins bem cuidados. Um luxo! 
Pequena amostra da arte de Mário Testino.
E em Barranco admirar seu casario, tomar um café, um sorvete ou um pisco, passar pela Ponte Suspiro e visitar o Museu Mate, se surpreendendo com a arte fotográfica de Mario Testino, o badalado e talentoso fotógrafo peruano. 
Hoje de manhã minha única atividade digna de nota foi caminhar até o Manolo, na Av. Larco, atrás de um churros com chocolate. A tarde foi de trabalho. Uma reunião na sede da ANPE - Associação Nacional de Produtores Ecológicos, para organizarmos a semana e nos atualizarmos sobre o momento da Agricultura Ecológica no Peru. Estávamos um grupo. Fidel, do México, Evelyn, do Rio de Janeiro, Maurizio, de Cochabamba, Andréa, do Chile, Moisés e Felimon, nossos anfitriões, e eu. Foi interessante e se confirmou que teremos aqui uma semana intensa de atividades ao redor da Agricultura Ecológica e dos Sistemas Participativos de Garantia. 
Reunião à tarde na ANPE. 
Será como eu gosto e planejei, com idas à campo, encontros de agricultores/as e viagem à regiões mais altas, andinas, neste caso Ayacucho, a 2800 metros sobre o nível do mar. Com direito a comer bem, rever amigos e, talvez o melhor de tudo, conversas agradáveis sobre culturas e realidades do continente. O que for possível contar, conto por aqui. Agora, vou dormir que amanhã o dia é de visita à fincas de produção ecológica. 


Por do sol no pacífico.
Mais uma palhinha de Mário Testino.